13 de janeiro de 2009

Zeitgeist


Napoleão Bonaparte afirmou uma vez que a História é um conjunto de mentiras acordado e escrito pelos vitoriosos. Os filmes Zeitgeist (2007) e Zeitgeist Addendum (2008) do produtor e realizador Peter Joseph podem certamente adoptar esta frase como mote, na denúncia e no desmascarar que fazem do imperialismo norte-americano. Por estes dias, qualquer cibernauta esclarecido ou cidadão atento ao meio cinematográfico mais periférico terá já assistido a estas obras perturbadoras, que assentam numa série de Teorias da Conspiração para agitar consciências e alertar para a ilusão e mentira em que os Estados Unidos da América mantém a sua nação e todo o Mundo. O enredo dos filmes desenrola-se, essencialmente, num fio narrativo sobre uma música minimal, onde uma voz neutra desfia um rosário de factos e acontecimentos que pretendem provar que o Homem ocidental moderno é vítima de uma súmula de mentiras, manipulações e distorções da realidade. Tudo para crer que pertence a uma sociedade equalitária, democrática e justa, quando, na verdade, os detentores do poder dessa mesma sociedade o mantêm contínua e sucessivamente subjugado ao móbil dos seus interesses, tratando os indivíduos como verdadeiros cães de Pavlov, crentes na sua liberdade, mas que agem como massas ordenadas e comandadas ao sabor da política, da banca, da religião...
O primeiro Zeitgeist subdivide-se em três capítulos que abordam e questionam, sequencialmente, o Cristianismo e a sua constituição como religião organizada, os ataques perpetrados a 11 de Setembro de 2001 e a Reserva Federal dos E.U.A..
Zeitgeist Addendum, por seu turno, foca a problemática da globalização e a manipulação do Homem pelas grandes corporações e instituições financeiras. O último capítulo desta sequela centra-se na solução para as denúncias e falhas civilizacionais anteriormente apresentadas. É aqui que o espectador, provavelmente convencido, intrigado, assombrado ou estarrecido perante o bombardeamento de revelações a que assistiu, poderá tomar parte integrante da experiência. O Projecto Vénus: Uma sociedade futurista assente no uso da tecnologia e das suas potencialidades como elemento potenciador de um desenvolvimento humano assente na igualdade, paridade e riqueza para todos.
Se ambas as películas deslumbram e fazem estremecer as bases individuais e sociais de cada um de nós perante as teorias e provas apresentadas, o epílogo do documentário será, talvez, o alvo de maior polémica. Podemos ser tentados a pensar numa nova forma de totalitarismo, podemos profetizar a Humanidade como entidade finalmente organizada sob os mesmos ideais e projectando-se para fins comuns, ou podemos acreditar num retorno do Homem àquilo que ao longo de milénios se tem vindo a clivar e a alienar: a Natureza, da qual é parte integrante, e à relação simbiótica que deixou de possuir com esta.
Independentemente das interpretações, estes dois documentários são essenciais e obrigatórios. Podem não mudar uma vida, mas mudarão certamente muitas ideias e atitudes, despertando, inclusivé, para uma nova forma de activismo. Ambos estão disponíveis gratuitamente em http://www.zeitgeistmovie.com/. Os interessados no visionário Projecto Vénus poderão investigar mais a fundo em http://www.thevenusproject.com/.

10 de janeiro de 2009

Buried in Concrete

1929 foi o ano da Grande Depressão. 2009 aproxima-se dessa negra página histórica e poderá, inclusivé, superá-la. O número 9 é comum a ambas. Segundo a numerologia, este número simboliza o final de um ciclo e o começo de outro. Este aparte esotérico serve apenas para enquadrar a forma como o agrupamento belga Front 242 codificou o título do primeiro dos seus dois álbuns datados de 1993: 06:21:03:11 UP EVIL. Comparando os números à letra correspondente do alfabeto, verificamos que correspondem a F:U:C:K. FUCK UP EVIL. Engenhoso...
Adquiri este álbum no Verão de 93 e estabeleci desde logo com ele uma relação de atracção-repulsa. Definitivamente, por estas bandas não há sol, apenas um frio metálico. Trata-se de uma hora repleta de bleeps, samples e vozes distorcidas, agressiva e impiedosa, onde a única melodia imperante é a que permite vislumbrar a paisagem do caos por entre um cinzentismo omnipresente e esmagador que atulha tudo e todos. É esse caos escuro e urbano, de atmosfera futurista mas repleto das pulsões mais primárias, que assombra este disco. Cada tema é um estilhaço, um circuito fechado de informação que nos agarra pelo pescoço e nos faz sentir como robots esmagados pelo peso do betão, da competição, da agressividade, perdidos num labirinto virtual que William Gibson decerto apreciaria. Faz lembrar o seu Neuromancer. Evoca a desolação tecnológica de Blade Runner, caso não tivesse sido fabricado em Hollywood.
Houve quem chamasse aos Front 242 Electronic Body Music, ou música de dança para quem não gosta de dançar... Aqui pode dançar-se. Mas como autómatos puxados por cordas ou espantalhos esqueléticos abanados pelo vento. O ritmo existe, forte e penetrante, mas possuído por um nevoeiro de cortar à faca. Regressei a este disco hoje. O mundo exterior alimenta-o mais que nunca. No inlay da sua capa podem ler-se as palavras BURIED IN CONCRETE. Provavelmente, é assim que nos sentimos perante esta música carregada de niilismo urbano e futurismo tenebroso, que assenta que nem uma luva ao Inverno crítico de 2009 e ao mal-estar que (dizem...) vai contaminando a sociedade. Quem tiver coragem, que a ouça bem alta...

5 de janeiro de 2009

Radio Drama

Em 1938, Orson Welles criou um programa de rádio denominado The Mercury Theatre on the Air. O objectivo era aproveitar o potencial do éter na divulgação e dramatização de obras da literatura clássica e contemporânea. A primeira produção foi uma adaptação radiofónica de Bram Stoker's Dracula, ao que se seguiram outros clássicos como Treasure Island ou The Count of Monte Cristo. Mas o que marcou definitivamente estas emissões radiofónicas foi o inovador The War of The Worlds, a sobejamente conhecida dramatização de uma invasão marciana do planeta Terra. Todas estas peças históricas estão disponíveis para escuta em http://www.mercurytheatre.info/.

4 de janeiro de 2009

Rock List

O site de Julian White é uma verdadeira mina de ouro para os garimpeiros de listagens musicais. Desde 1996, este inglês encapsula peças das mais variadas publicações da imprensa musical desde 1952 até agora, oferecendo uma busca exaustiva para quem esteja interessado em saber o que opinam muitos jornais e revistas relevantes nesta área. Para além das óbvias End Of Year Lists, podemos encontrar em http://www.rocklistmusic.co.uk/ uma belíssima súmula de artigos que os mais dedicados melómanos não desdenharão. Do New Musical Express à L' Inrockuptibles, da Uncut à Village Voice, vale a pena perder umas horas a percorrer este site único e verdadeiramente minucioso...

27 de dezembro de 2008

2008: A Soundtrack

 

Agora que caminhamos a passos largos para o final do ano, não poderia deixar de elaborar a minha listagem pessoal dos álbuns que mais ouvi e que mais me agradaram ao longo de 2008. Acumulei 50, numa ordem de preferência dúbia, mas propositada... Ei-los:

1. Portishead – Third

2. Fleet Foxes - Fleet Foxes

3. TV On The Radio – Dear Science

4. Vampire Weekend – Vampire Weekend

5. MGMT - Oracular Spectacular

6. Bon Iver – For Emma, Forever Ago

7. Deerhunter – Microcastle / Weird Era Cont.

8. Hercules & Love Affair - Hercules & Love Affair

9. Nick Cave & The Bad Seeds - Dig! Lazarus! Dig!

10. The Bug - London Zoo

11. DJ / Rupture - Uproot

12. Hot Chip - Made In The Dark

13. The Hold Steady – Stay Positive

14. Elbow - The Seldom Seen Kid

15. Lindström - Where You Go I Go Too

16. Spiritualized – Songs In A & E

17. Destroyer – Trouble In Dreams

18. The Week That Was - The Week That Was

19. Shearwater - Rook

20. Cut Copy - In Ghost Colours

21. Beck - Modern Guilt

22. NOMO - Ghost Rock

23. The Dodos - Visiter

24. Fuck Buttons - Sea Horrrsing

25. James Blackshaw - Litany Of Echoes

26. Bonnie "Prince" Billy - Lie Down In The Light

27. Sigur Rós - Með Suð Í Eyrum Við Spilum Endalaust

28. Santogold - Santogold

29. High Places - High Places

30. The Last Shadow Puppets - The Age Of Understatement

31. David Byrne & Brian Eno – Everything That Happens Will Happen Today

32. Brian Wilson - That Lucky Old Sun

33. Beach House - Devotion

34. Department Of Eagles - In Ear Park

35. Atlas Sound - Let The Blind Lead Those Who Can See But Cannot Feel

36. Kasai Allstars - In The 7th Moon, The Chief Turned Into A Swimming Fish And Ate The Head Of His Enemy By Magic

37. Joan As Police Woman – To Survive

38. The Raconteurs - Consolers Of The Lonely

39. Gang Gang Dance - Saint Dymphna

40. Crystal Castles - Crystal Castles

41. Robert Forster - The Evangelist

42. Fujiya & Miyagi – Lightbulbs

43. Philip Jeck - Sand

44. The Felice Brothers – The Felice Brothers

45. The Fireman – Electric Arguments

46. The Caretaker - Persistent Repetition of Phrases

47. The Ruby Suns - Sea Lion

48. Fennesz - Black Sea

49. The Walkmen - You & Me

50. Kings Of Leon - Because Of The Times

10 Sadinos

Na senda dos vinhos, as Terras do Sado estão a conquistar terreno. Antigamente, os vinhos da Península de Setúbal eram conotados única e exclusivamente com a casta Castelão, vulgarmente conhecida como Periquita. Nos últimos anos, porém, o terroir eminentemente arenoso desta região tem adoptado e adaptado novas castas e dado origem a uma mescla de sabores e aromas de alguma excelência. Aqui fica um singelo exemplo de alguns tintos que provei e recomendo. As monocastas da Casa Ermelinda Freitas são, maioritariamente, divinais...


1. Casa Ermelinda Freitas Syrah 2005


2. Casa Ermelinda Freitas Touriga Nacional 2006


3. Casa Ermelinda Freitas Trincadeira 2005


4. Domingos Damasceno de Carvalho 2005


5. Adega de Pegões Colheita Seleccionada 2004


6. Quinta da Mimosa 2004


7. Quinta do Perú 2006


8. Quinta da Bacalhôa 2004


9. Terras do Pó Reserva 2005


10. Só Syrah 2005

Concordes Neozelandeses

"Formerly New Zealand's fourth most popular guitar-based digi-bongo acapella-rap-funk-comedy folk duo". Assim se auto-intitula a dupla de cómicos Flight Of The Conchords. Autores e protagonistas de programas de rádio e televisão que gravitam maioritariamente em torno da música, Bret McKenzie e Jemaine Clement possuem um talento único para desconstruir e decalcar os tiques de grandes figuras do pop rock. O recente álbum, originalmente intitulado Flight Of The Conchords, faz jus à fama do duo. Encarnações hilariantes dos Pet Shop Boys e de David Bowie, entre outras delícias, tornam este disco uma injecção de música transformada em humor inteligente. Há largos anos, Frank Zappa lançou a questão: Does humor belong in music? Graças a projectos como este, podemos afirmar com toda a certeza: Yes, it does. Quem conhecer bem o Bowie da primeira fase até Ziggy Stardust e apreciar a sátira, irá deliciar-se com esta singela cantiguinha:

26 de dezembro de 2008

25 Sons para o Inverno


Eis que mais um Natal ficou para trás, enquanto o Inverno está para durar... Aqui fica mais uma escolha de discos sazonal, pop e rock, subjectiva e variada, alternativa ou indie, que fazem as delícias deste escriba em dias sombrios e noites glaciares. Uns aquecem, outros arrefecem, haverão até alguns que não aquecem nem arrefecem. A qualidade, essa, é transversal...

1. Sigur Rós - ( )

2. Radiohead - Kid A

3. Joy Division - Closer

4. Leonard Cohen - Songs Of Love And Hate

5. Cluster - Grosses Wasser

6. Klaus Schulze - Irrlicht

7. Bill Fay - Bill Fay

8. Nick Drake - Pink Moon

9. Peter Hammill - The Silent Corner And The Empty Stage

10. Nico - The Marble Index

11. David Bowie - Heroes

12. John Cale - Music For a New Society

13. David Sylvian - Brilliant Trees

14. Scott Walker - Scott IV

15. Pearls Before Swine - The Use Of Ashes

16. Kraftwerk - Radio Activity

17. Brian Eno - Before And After Science

18. Nick Cave & The Bad Seeds - The Boatman's Call

19. Lou Reed - Berlin

20. Portishead - Third

21. Iggy Pop - The Idiot

22. Big Star - Third / Sister Lovers

23. Tangerine Dream - Phaedra

24. This Mortal Coil - Blood

25. The Cure - Disintegration

30 de novembro de 2008

...Vintage Plus

Provavelmente, Kim Fowley já fez tudo o que havia para fazer. Ou talvez não. O homem que cria e produz música desde finais dos anos 50, passou por todas as ondas, géneros e modas desde então. Produtor, compositor, artista, editor, relações públicas, designer de imagem, ou apenas figura de corpo presente, Fowley participou num sem-número de êxitos discográficos, mantendo-se, mesmo assim, praticamente desconhecido fora do circuito de culto do meio musical. Entre outros feitos lendários, consta que terá sido ele a mostrar pela primeira vez a John Lennon e a Paul McCartney Pet Sounds dos Beach Boys (e toda a gente sabe o que aconteceu a seguir...), foi ele que produziu uma das primeiras canções dos Soft Machine, que descobriu o mítico guitarrista Ritchie Blackmore, que apresentou ao mundo as Runaways e que até foi convidado pelo egocêntrico Frank Zappa para integrar os seus Mothers Of Invention. Como nota de rodapé, afirmou que Boyd Rice era o novo Jesus Cristo, o que é intrigante até para os seus parâmetros... De qualquer forma, este pesadíssimo Curriculum Vitae nunca o afastou de onde mais se sente à vontade: a rua, de onde brotam as raízes das mudanças e fenómenos musicais que realmente interessam. Kim Fowley tem a bonita idade de 69 anos. Continua a mover-se onde sempre se moveu. E a surpreender. A sua música não é fácil. O seu imaginário, hermético. No campo do incatalogável, talvez lhe pudéssemos chamar o David Lynch do rock'n'roll. E ele também faz filmes, como exemplifica o recente Pink Cement. Ora apreciem Mr. Fowley em todo o seu inusitado e surreal esplendor:




Há mais, como que a provar que o termo freak não foi inventado por acaso...





Kim Fowley tem um site: http://www.kimfowley.net/. Por estes dias, o mesmo abre com uma pequena película / pérola acerca de um final diferente nas últimas eleições norte-americanas e que é simplesmente hilariante. Só para mentes abertas e sem preconceitos, como tudo o que rodeia a arte deste homem, aliás...


Vintage pode ser algo raro, algo que não se produz mais. Pode ser algo que definiu uma época. Pode ser igualmente a capacidade que um vinho tem de envelhecer em garrafa ganhando com isso qualidades. Kim Fowley é vintage, Luiz Pacheco já o foi em vida, continuará certamente a sê-lo no legado que deixou. Envelhecer assim não é sinónimo de decadência. É fazer da decadência obra de arte e demonstrar que uma vela sozinha numa imensa escuridão pode brilhar mais intensamente que mil néons vazios e repetitivos...

Vintage...

É impossível não associar o envelhecimento à decadência, a uma degradação involuntária quer física, quer cognitiva. Saber envelhecer é uma arte, assim como saber envelhecer na arte. Se tornar-se mais velho é tornar-se mais sábio, mais prudente ou mais sensato, pode ser também um realçar dos traços de carácter mais vincados, para o melhor e para o pior.

Luiz Pacheco faleceu em Janeiro de 2008. Pode afirmar-se com uma grande dose de certeza que viveu a vida mais rocambolesca e tragicómica de todos os escritores portugueses do século XX. Nascido no seio de uma família burguesa, termina os seus dias num lar de idosos no Montijo. Pelo meio, passou pela vida como um indivíduo alto, escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte miopia e, posteriormente, cataratas, cuja cirurgia o amedrontava, vestindo roupas usadas (por vezes andrajosas e abaixo ou acima do seu tamanho), hipersensível ao álcool (o que lhe valeu a fama de bêbado incorrigível), hipocondríaco julgando-se sempre à beira da morte (devido à asma e a um coração fraco) e um acintoso conversador, sempre rebelde e, por vezes demasiado, irreverente. Foi lançado há pouco tempo o livro O Crocodilo que Voa, que reúne, sob a coordenação de João Pedro George, uma série de entrevistas a várias publicações que Luiz Pacheco deu desde 1992. Obra obrigatória para conhecer a biografia desde autor e, particularmente, o seu discurso único, muitas vezes colorido e corrosivo, mas sempre lúcido. Alguns textos de Pacheco, com destaque para o imortal e desafiador O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor encontram-se aqui, zona que possui igualmente links para excertos de um documentário que passou na 2, pouco antes da sua morte e que vale muito a pena ver.

Há em cada um de nós uma pulsão de vida e uma pulsão de morte; um desejo de sobrevivência e de auto-aniquilação. Por vezes, há quem se sinta mais vivo na falha que no sucesso, na carestia que na opulência. Quase como um futebolista que prefere rematar para o lado perante uma baliza vazia...

29 de novembro de 2008

Contos & Prosas


Havia já algum tempo em que acordava e o primeiro pensamento que me invadia era a morte. Naquela manhã em particular, esse pensamento perseguia-me e assolava-me, deixando-me num limbo entre tomar o pequeno-almoço ou ficar na cama até padecer de inanição; entre o barbear-me ou aproveitar o facto para golpear-me no pescoço um pouco mais profundamente e ficar a olhar-me no espelho até os olhos perderem a cor a as pernas perderem as forças. O primeiro pensamento depressa se desvaneceu, pelo tempo desperdiçado e as escaras que o meu corpo podia vir a contrair. O mesmo aconteceu ao segundo, pelo excessivo derramamento de sangue que tal acto implicaria no chão impecavelmente limpo da casa de banho. Eu não gosto de dar trabalho a ninguém, muito menos à minha esposa, e idealizava uma forma muito mais clássica e romântica de morrer. Uma garrafa de absinto combinada com uma caixa de Rohypnol, talvez... ou, quiçá, cortar os pulsos numa banheira enquanto me esvaía bebendo umas taças de Don Perignon ao som dos Requiems de Mozart e depois de Ligeti no meu iPod...
Com o passar do tempo e com o transtorno da bicha na portagem da Vasco da Gama, a ideia recorrente desvaneceu-se graciosamente. No rádio do carro soava Brian Eno e, entre o torpor do trânsito e o cinzento da manhã, deixava-me embalar por sons que não me faziam sentir vivo nem morto, apenas suspenso... E pensei que seria maravilhoso a vida real clivar-se por uns momentos e deixar-me ser livre. Livre para estar só.
O telefonema tinha ocorrido 3 dias antes. Uma voz sóbria, de um indivíduo que aparentava ter uns 50 anos, observava ter recebido o meu currículo (“Curriculum”, como indicou...) e pedia a minha comparência numa entrevista. Era hoje. O meu emprego satisfaz-me e realiza-me tanto como o de 20% dos portugueses (25%, talvez, contando com o empregado de mesa do “Café Real”, que tem a motivação extra de partilhar a sua cama de solteiro com a filha de 22 anos do patrão e o Sr. Alberto da Casa de Alterne “O Cravo Negro”, porteiro que leva as meninas a casa em noites de tempestade e goza de alguns favores das mesmas por essa atenção), logo, e pensando no salário, aceitei sem hesitações.
A manhã no emprego, com as habituais críticas destrutivas do chefe e as vozes monocórdicas dos colegas, fez-me odiá-lo mais um pouco e a morte voltou para me assombrar o pensamento. Cheguei a pensar no foco de discórdia e confusão que provocaria na equipa o facto de me enforcar na casa de banho com o fio do rato do meu computador (por falar nisso, este rato está tão perro que tem que ser limpo...). Se calhar pediriam aumentos... Ou culpariam a última derrota do Benfica... Mas isso não seria belo e é o belo o que mais me preocupa no fim. A maioria das pessoas gosta de um final feliz. Nos filmes, nas peças de teatro, nas novelas da TVI... Eu preocupo-me com o meu final feliz. Uma morte feliz. E bela. Tão bela que só podia ter sido inflingida por quem era dono da sua antítese, da sua vida.
Aproveitei a hora de almoço para me escapulir. A entrevista era ali perto, na Duque d’Ávila. Estava nervoso. Tinha bebido uns copos de Porca de Murça ao almoço para relaxar, mas agora o medo imperava. O hálito a tinto duriense preocupava-me, assim como as pupilas dilatadas. Como hoje era um dia especial e trajava fato e gravata, encaminhei-me para a Versailles. Levava já na ideia uma bica dupla, uma água Castello, uns cigarros para sorver concentração.
Eram 2 e meia da tarde. Três pessoas espraivam-se pelas mesas do solene recinto. Uma senhora idosa, com ar de quem passava as tardes ali, segurando na mão esquerda um cigarro com boquilha e na direita uma revista cor-de-rosa; um homem que aparentava a minha idade, fitando o vazio com um café à sua frente, gravata roxa, que paranoicamente imaginei ser mais um convocado para a Minha entrevista de emprego; um jovem barbudo, cabeça baixa, semi-oculta por uma garrafa de água lisa, lendo avidamente. Adivinhei-o estudante, ou simpatizante do Bloco de Esquerda. Descartei a última hipótese, pois, passados momentos, levantou-se para sair e vislumbrei um livro de Paul Auster na sua mão direita.
Os espelhos seguiram os meus passos até uma das mesas do canto. O empregado serviu-me uma bica dupla que traguei com prazer enquanto lia avidamente uma e outra vez umas páginas representativas da empresa que me aguardava dali a uma hora. Repetidamente soavam-me nos ouvidos as expectativas da minha mulher (“Vai tudo correr bem”), da minha mãe (“Tu és capaz”), do meu amigo Miguel (“É agora ou nunca”). A morte espreitou por entre os meus pensamentos, mas estava ocupado demais para ela...
Ao princípio não reparei no vulto que se sentou na mesa oposta, de frente para mim. Até pensei que fosse um truque dos espelhos, mas ao olhar para a sombra foi o meu rosto que vi. Descortinei um movimento de braços a libertarem-se de um pesado casaco e olhei furtuitamente. Uma mulher de cabelos negros e lábios excessivamente pintados olhava ao redor, em busca de alguém que a servisse. Retomei a leitura e notei, com satisfação, que o indivíduo da gravata roxa se dirigia para a saída. “Menos um” – pensei, apercebendo-me imediatamente do ridículo da minha constatação.
Momentos depois, alguém surge de pé ao meu lado. Era ela. Era impossível não reparar nos lábios redondos e escarlates.
“Posso usar o seu isqueiro?” – Perguntou.
A abordagem causou-me um certo incómodo, pois estava embrenhado na leitura. E mais estranheza me causou, pois ela segurava um cigarro aceso entre os dedos.
“Para quê?” – Respondi, com uma certa rispidez.
“Para queimar o que você está a ler. Não deve ser agradável, pois fá-lo suar.”
Levei a mão à testa e ela voltou encharcada. Esbocei um sorriso esquálido pela tensão que começava a apoderar-se de mim com a proximidade da entrevista.
“O que estou a ler é muito importante. Muito mesmo.” – Disse eu, num misto de desdém e frieza. “Está a estudar. Vai ter um exame...” – Observou ela.
Pensei para comigo o que teria esta mulher a ver com isso. Um pêndulo soou. Ou seria imaginação minha? Sem saber bem porquê, senti que eram 3 da tarde. Faltava meia-hora para o aguardado momento. E as folhas de papel continuavam nas minhas mãos, não pela ordem que as arrumara primordialmente. E aquela estranha mantinha-se de pé ao meu lado, olhando-me como se fosse o último homem em Lisboa numa tarde outonal de quinta-feira. Estragava-me o estratagema, arruinava-me a concentração. Apetecia-me mandá-la desaparecer, que me deixasse sozinho na minha ansiedade insondável.
“Sente-se...” – Murmurei.
“...se quiser, logicamente.”
Como se fosse uma deixa num diálogo há muito ensaiado, ela assim o fez. Cruzou os braços em cima da mesa e o branco do atoalhado rivalizou com o relevo alvo do seu busto, insinuante no decote que parecia apontar para mim. Debruçou-se mais na minha direcção e olhou para os papéis que segurava, esboçando um meio sorriso inquisitivo.
“Não me diga que é mediador de seguros?”
“Não me diga que é puta?” – Apeteceu-me responder de rompante.
“Estou a tentar vir a ser. Isto é, pelo menos até você chegar.” – Acabei por dizer, forçando a ironia.
“Até eu chegar? Quer dizer que pode já não vir a ser por minha causa?”
Todo o espaço ao meu redor pareceu implodir com laivos de surrealismo. Será que ao fim de tanto tempo à espera desta oportunidade, a minha auto-confiança iria esboroar-se por causa de uma desconhecida que decidiu gozar comigo só porque eu bebia bicas duplas? Ou porque suava em bica? Ou porque poderia ser um seu potencial cliente, quiçá o primeiro do dia? Logo eu, que tinha comprado o meu fato preto num outlet e os sapatos na Zara?
“Caso não tenha reparado, a sua presença causou-me um certo incómodo. Estava a tentar estudar, pois tenho uma entrevista daqui a pouco, e você veio interromper-me.”
“E não gostou? Se não, porquê convidar-me a sentar?”
Aos poucos, a tipa tirava-me do sério. E pior ainda, tirava-me o tempo que restava. Eram agora 3 e um quarto. Daqui a 15 minutos, estaria a ser entrevistado, ou a aguardar ansiosamente num sofá de pele enquanto ia treinando sucessivamente a melhor forma de dizer “Boa tarde, o meu nome é Vasco Pinto.”
“Por mera cordialidade” – respondi.
“Agora que fiz a minha parte, pago a minha despesa, pago também a sua, e vou retirar-me”.
“Tem mesmo que ir? Passe a tarde comigo.” – afirmou ela.
Não consegui evitar rir desta vez. E cheguei à conclusão de que ela não era puta, apenas maluquinha. Debrucei-me sobre ela, olhei-a fundo nos olhos castanhos, densos mas límpidos, e respondi:
“Porquê eu?”
“Quem é que lhe ofereceu essa gravata?” – Perguntou ela.
Depois desta resposta/pergunta, tudo era possível. Parecia ter-se instalado uma folie a deux entre nós e eu não sabia como parar o carrossel. Olhei o relógio. Faltavam 10 minutos para a hora combinada.
“Foi a minha esposa, nos meus anos. Se quiser comprar, vendo barato”. – Respondi eu, levantando-me e tirando umas moedas do bolso para pagar a despesa.
“Acredita nas coincidências, no acaso, em momentos irrepetíveis da nossa existência?”
Estava à espera de tudo hoje, menos de esoterismo nas Avenidas Novas.
“Acredito em tudo o que você quiser, desde que me deixe ir embora. A sua despesa está paga.” – Respondi, pegando na pasta de couro que repousava ao meu lado.
“Hoje de manhã quando acordei senti-me tão só, tão morta... Como nunca me tinha sentido... Vesti a minha roupa mais sofisticada, calcei os meus sapatos mais finos, vesti o meu casaco comprado em Manhattan e saí para a rua. Ninguém reparou em mim. E eu queria que reparassem. Que os homens reparassem. Em como ainda posso ser bonita. Em como o meu cabelo ainda pode dançar ao sol. Em como os meus olhos ainda guardam música. Há muito tempo que não amo, que só tenho a companhia de espelhos côncavos, salas vazias e velas fantasmagóricas. Nada me parece real, nem eu... E então no táxi, a caminho daqui, pintei os meus lábios do vermelho mais vivo que consegui encontrar. E disse para comigo mesma que era hoje que ia encontrar um corpo que se colasse ao meu, uma chama que me devastasse como a um bosque impenetrável. E esse corpo, esse homem, seria o primeiro que encontrasse que tivesse vestido uma peça de roupa vermelha. Quero fazer amor consigo até me sentir viva, e depois nunca mais o quero ver. Salve-me... Já não aguento mais estar morta no mundo dos vivos...”
Voltei a sentar-me. Olhei para baixo e a gravata vermelha que trajava aparentou-se com uma língua que pendia, flamejante. O tempo escoava como areia por entre os meus dedos. A razão não estava a ser, de todo, razoável.
“Devia ter trazido a gravata cinzenta... Se calhar tinha passado mais despercebido...” – pensei, abulicamente.
Ela pegou-me na mão.
“Venha comigo... Vamos para a minha casa...”
Já sei o que isto era. Uma vez, quando era criança, a minha professora primária classificou uma cópia minha com um rotundo “Mau”. E disse-me que nunca seria ninguém na vida. Aqui está a consumação da profecia. A praga da velha senhora professora Odete chegava ao seu culminar. Estava à beira de conseguir o emprego mais estável e promissor da minha vida, e uma mulher que eu ainda nem sabia o nome, de lábios encarnados e decote (ou deveria chamar-lhe Dédalo?) acentuado, pedia-me sexo sofregamente.
Mas não, não era isso! Era, com pompa e circunstância, a anunciação da morte! Tanto tempo que esperei por ela, tanto tempo a procurá-la e ela, matreira mas inorexável, como nos contos e lendas antigos, chegava para me reclamar. Não sob a forma de um ente qualquer, inominável e disforme, de hábito negro e foice na mão descarnada, mas sob a forma da tentação, do inescapável. Era o Diabo que me vinha buscar. Ia para o Inferno, ainda por cima. Eu bem sabia que não devia ter bebido água benta daquela vez em que, quando era criança, já não aguentava a sede durante um jogo de bola estival no adro da Igreja.
Esta mulher tinha vindo para me levar. Era a morte que, disforme e nebulosa, me ocupava o espírito nas últimas horas da noite e nas primeiras da manhã. E eu, que tanto tinha ansiado por ela, que tanto a desejava e romantizava, via-a surgir num corpo feminino. Era óbvio. E como iria ela ceifar-me? Antes de abandonar por completo tudo o que era real ao meu redor e deixar-me levar por aquelas mãos macias que me arrastavam da escuridão do café para a tarde chuvosa, só consegui perguntar:
“Minha senhora, tem preservativos?”

Kosmische Kosmetik II

Motorik: Motor skill: 2 por 2. Em sucessivas e livres depurações é possível sintetizar a alma musical de Michael Rother. É possivel sintetizá-la, mas nunca contextualizá-la. O guitarrista e teclista co-fundador de colossos musicais como Neu! ou Harmonia, gigantes da inovação musical alemã dos anos 70 e que ainda hoje são refrescantes como da primeira vez que se fizeram escutar, é um músico eclético e ímpar. O álbum Sterntaler, segunda obra a solo datada de 1978, prova-o inequivocamente. Produzido pelo mestre Conrad Plank, aqui se encontram as paisagens e os patchworks que o definem. Rítmos maquinais, como se avançássemos por uma interminável autobahn, ladeada de arvoredo / ladeada de indústria, melodias hipnóticas e uma permanente atmosfera de fuga. Ao real, aos outros, ao nosso lado vulgar...
O disco começa como um prolongamento do mais emblemático dos Neu!. A batida mecânica que dita o ritmo a forçar-nos a entrar na viagem e a guitarra hesitante a abrir caminho, até que um refrão sem voz, feito de um riff magnânimo dá o mote para o que todo o álbum nos oferece: música que é alegre e triste ao mesmo tempo. Que pode ser ouvida como viagem interior nos confins de um quarto escuro, ou a avançar determinadamente por uma estrada inundada de luz. É assim Sonnenrad. Segue-se Blauer Regen, composição esmagada pelas guitarras, suaves mas melancólicas, austeras no minimalismo, mas sempre emotivas. Stromlinien movimenta-nos novamente. Mais uma jornada dentro da nossa mente, melodicamente irrepreensível, que parece permitir-nos olhar a paisagem que se espraia perante nós apenas uma vez, pois é preciso continuar, é preciso que nos movimentemos. É preciso avançarmos em direcção a algo. Sempre. Até ao fim. Eis que chega Sterntaler, peça feita de um deslumbramento quase infantil, pejada de electrónica que quase se respira como uma brisa outonal e cuja melodia é deveras encantatória. É música feita descoberta, um regresso ao despojamento em que o sentir se sobrepõe ao pensar. É impossível definir Fontana di Luna recorrendo a outro termo que não seja o que o próprio título encerra. Um xilofone lunar, uma atmosfera reconfortante, quase um regresso ao útero... mas com um coração que pulsa inexoravelmente. Orchestrion encerra a edição original do álbum, colocando uma vez mais o ritmo no horizonte, como se corressemos em direcção ao Sol mesmo sabendo que não o podemos tocar. Seguem-se 3 faixas na reedição do disco, datada de 1993: Lichter von Cairo, Patagonia Horizon e Südseewellen. Não sendo totalmente descaracterizadas da edição original de Sterntaler, apresentam-se como um complemento maioritariamente electrónico e de cariz ambiental às composições mais sensoriais e emotivas do original. Ideal para quem queira prolongar a viagem onírica ou meditativamente...