20 de fevereiro de 2009

Lusofonia II


O álbum 10000 Anos Depois Entre Vénus e Marte de José Cid foi já considerado um dos 100 melhores discos de rock progressivo. O que, justiça seja feita, é legítimo. Após o final do lendário Quarteto 1111 e dos ultrapassados Green Windows, José Cid aventurou-se a solo. O seu primeiro lançamento foi o single Vida (Sons do Quotidiano) de 1977, tema vincadamente assombrado pelos fantasmas do rock sinfónico, mas foi no seu primeiro álbum que Cid assinou uma das obras mais geniais não só do sub-género progressivo, mas de toda a música popular criada em solo lusitano. Interpretado por músicos em absoluto estado de graça, este álbum pode e deve ser colocado ao lado de trabalhos dos Pink Floyd, Eloy, ou da primeira fase dos King Crimson. Apesar da temática vincadamente associada aos clichés deste género musical (o fascínio pelo espaço, a Terra em vertigem apocalíptica e a ficção científica derivada de Arthur C. Clarke ou Ray Bradbury), este disco atravessou incólume as fronteiras do tempo desde o seu lançamento em 1978. A música é verdadeiramente intemporal, complexa sem ser excessiva e alcança, a espaços, uma beleza sublime e sofisticada, que convida a repetidas audições. No Portugal atrasado de fins de 70, quase ninguém ouviu, e quem ouviu não apreciou. José Cid dedicou-se ao que dá dinheiro e os portugueses perderam canções como Fuga para o Espaço ou Mellotron, o Planeta Fantástico, e ganharam aberrações como Portuguesa Bonita ou Amar Como Jesus Amou. Este país tem o que merece, indubitavelmente...

13 de fevereiro de 2009

Lusofonia

Lucretia Divina, 1992. Banda de Viseu, para muitos já esquecida, com apenas um álbum na sua curta história. Mal d' Honor, lançado no ano em epígrafe, continha o single Maria. Tema bizarro e arrojado, lembra-me o que aconteceria se Scott Walker aprendesse esta noite um português rudimentar, bebesse 3 garrafas de tinto do Dão e em seguida improvisasse por cima de uma caixa de ritmos, enquanto um organista ia tecendo uma malha melódica, de absurda e decadente melancolia. Valsa tresloucada, primeiro estranha-se, depois entranha-se...

Música Real

John Cage é uma das figuras incontornáveis da música do século XX. Compositor revolucionário, parece sempre ter associado a excentricidade a uma enorme lucidez na sua particular apreensão do mundo. Do experimentalismo sonoro das suas Sonatas and Interludes for Prepared Piano, passando pelas explorações da voz em Roaratorio ou Empty Words e de obras onde a electrónica é soberana, Cage esteve sempre na vanguarda da música dita contemporânea. Ao introduzir no seu estilo composicional factores como o acaso e a aleatoriedade, abriu caminho para novas formas de experimentar sonoridades e subverter as leis da lógica e estrutura musical. Composições sem princípio nem fim, sem duração definida, variáveis consoante o contexto em que são apresentadas e consoante quem as interpreta, repetições contínuas da mesma nota, a mesma nota mantida até se perder a noção do tempo... Tudo isto é Cage, tudo isto influenciou mestres como Brian Eno e as suas Oblique Strategies, Klaus Schulze e John Cale e o seu círculo The Dream Syndicate (também conhecido por Theatre Of Eternal Music, onde militava o igualmente superlativo La Monte Young...).
Podemos afirmar que, para Cage, tudo era musical, até mesmo o silêncio. Talvez por isso a sua obra mais emblemática sejam 4'33'' minutos de puro silêncio. Tendo em conta que as reacções a tal peça variam entre o desnorte, o riso e a aversão, esta será certamente a única "composição" onde o momento irrepetível da interpretação absorve tudo e em que o "ouvinte" projecta totalmente o que quer ouvir. E o que ouve é a realidade.


10 de fevereiro de 2009

...Halber Maschine

Do delírio libertador kraut à estética formal mas visualmente avassaladora, o legado dos Kraftwerk não deixa de deslumbrar. O agrupamento continuará, certamente. O futuro de Florian Schneider deverá passar por projectos a solo. Esperemos que surpreenda...

Halber Mensch...

Ao abandonar os Kraftwerk, Florian Schneider põe termo a 40 anos de colaboração com a mais grandiosa e influente de todas as bandas electrónicas. A aventura começou em 1969, no colectivo Organisation, cujo único álbum, Tone Float, assemelha-se mais a um conjunto de mantras krautrock improvisados e não indicia o que os Kraftwerk viriam a fazer nos anos 70, em obras seminais como Autobahn ou Trans-Europe Express. A meticulosidade das melodias, fáceis de ouvir, mas ao mesmo tempo tão austeras nas formas e na frieza e o ritmo mecânico e cibernético, pleno de disciplina germânica, mas igualmente dançável, constituem o centro nevrálgico desta banda futurista mas intemporal. Em conjunto com Ralf Hutter, Florian Schneider foi o grande cabecilha destes inventivos teutónicos. Techno, trance e electro são estilos musicais que não existiriam sem eles. Para relembrar um trajecto de génio, nada como penetrar nas brumas do tempo. Rückzuck, tema aqui apresentado pelos Organisation, viria a ser a primeira faixa do primeiro álbum dos Kraftwerk. Schneider está na flauta, mas provavelmente o expansivo percurssionista será o showstopper...


Poema para S. IV


Se ao menos o tempo voltasse
A todo o tempo que perdi
Em que não te conhecendo
Pouco ou nada conheci
Talvez esse tempo esquivo
Me deixasse cobrir-te de rosas
Antes que a Terra girasse
Trazendo as trevas de volta
E eu de ti me afastasse
Sem nunca poder ficar.

Se ao menos o tempo parasse
No raiar do teu sorriso
E todos os dias nascessem
Na aurora do teu olhar
Podia viver exilado
Numa carícia distante
Só para te poder contemplar
Pois vejo o mundo nos teus olhos
Tal como vejo os teus olhos
Em qualquer parte do mundo.

Se ao menos o tempo voasse
Até à hora da minha morte
E já não me encontrasse neste corpo
Dorido pela sorte
De não poder tocar o teu
A minha alma negaria o paraíso
E fugiria do inferno
Para viver eternamente no teu puro coração
Que sem saberes seria meu...

6 de fevereiro de 2009

Do You Remember The First Time?

Sinto saudades dos Pulp. Na guerra acéfala travada nos tablóides ingleses entre Oasis e Blur nos anos 90, foram eles os vencedores. À margem da lad culture atestada via cerveja e futebol, o seu cinismo eloquente converteu-os, sem dúvida, na melhor e mais inteligente banda pop britânica dessa década. Resta actualmente Jarvis Cocker para nos oferecer ainda obras plenas de fleuma e humor tipicamente britânicos como esta, extraída de Jarvis, o seu primeiro disco a solo. Boa canção, magnífico vídeo...

Sir Mick

Gostava de estalar os dedos e ficar com a (boa ?) disposição de Mick Jagger e seus co-conspiradores neste clip, tema de Some Girls, um dos últimos grandes álbuns dos Stones... Sem substâncias... E só porque é sexta-feira...

25 de janeiro de 2009

Molduras Musicais

Persistent Repetition Of Phrases do britânico James Kirby a.k.a. The Caretaker é um devaneio musical fascinante. Escutar este álbum onírico e hipnótico é como olhar uma velha fotografia amarelecida pelo tempo e vê-la arder lentamente; é como assistir a um romântico film noir dos anos 40 e ficar preso infinitamente numa das cenas. O tempo não passa por aqui, quanto muito arrasta-se pelo passado numa espiral circular e contínua. O som de velhos discos de vinil, acompanhados do devido scratch, sobrepõe-se e contrapõe-se, sucessivamente, criando uma atmosfera minimal e emocionalmente surrealista. As melodias, jazzísticas, kitsch, ou somente etéreas, mas sempre contidas, impõem-se suave e repetidamente, transportando-nos numa vaga lenta e involuntária para nostalgias e memórias. Apetece olhar o mar num dia cinzento, abrir um baú cheio de recordações antigas ou beijar Ingrid Bergman com os lábios de Humphrey Bogart. Mais que música, este album cria ambiências e evocações, molda o passado com um barro futurista. Materializações do trecho que há muito tempo escutámos e do qual só retemos uma parte, que fazemos ecoar na nossa mente até empalidecer. Estas molduras sonoras são balsâmicas e penetrantes, mas parecem ao mesmo tempo tão longínquas que é impossível alcançá-las.

Suave Gelo

Romantismo negro. Gótico e exacerbado. A austeridade vitoriana do piano e a poesia sepulcral. Como se Byron e as irmãs Brontë decidissem trocar correspondência além-túmulo. David Tibet, mentor dos Current 93, assina em Soft Black Stars uma obra tão bela quanto niilista, tão doce quanto desencantada.
As musas que assombram estas declamações / ruminações não são belas, muito menos luminescentes. O piano apenas acentua a solidão e o vazio. Esta música não oferece quase nada. Somente a saída de um quarto fantasmagórico e cheio de teias de aranha em direcção à noite. Uma noite fria, escura, de ruas desertas, que apenas acentuam a conclusão de que nascemos sós e assim perecemos. A nostalgia da infância perante a certeza da morte. O abandono de Deus. A procura do amor eterno, apesar de efémero. O pesadelo que nos acorda de madrugada. David Tibet continua a lembrar-nos de tudo o que fazemos os possíveis por esquecer e Soft Black Stars é um contínuo poema bruxuleante, um espelho de medos e fantasias arcaicas que nunca nos abandonaram.

17 de janeiro de 2009

A Pint of Existencialism



Nos últimos dias, esta canção tem-me perseguido por toda a parte. Não sei se o que me assombra é a melodia agridoce a la Burt Bacharach ou o fantasma da primeira fase de Scott Walker que povoa o tema... Certo é que os Last Shadow Puppets, duo formado pelos quase imberbes Alex Turner dos Arctic Monkeys e Miles Kane dos Rascals, intencionalmente ou não, importam uma atmosfera existencialista típica dos anos 60 europeus para o século XXI. Apesar das óbvias influências e do cariz assumidamente retro do primeiro álbum do duo, The Age Of Understatement, as composições reflectem uma urgência e uma certa angústia latente. Como se a swinging London se fundisse ao punk; como se o estilo e o glamour dos sixties pudessem mascarar o negrume dos tempos actuais. Esta música assenta tão bem como banda sonora de alienação urbana e de frustração juvenil, como numa cocktail party. Trata-se de uma bela nota de rodapé, um disco que será visto como mera curiosidade daqui a muito tempo, mas cuja improbabilidade de influências e bizarria grandiosa da música, o transformam numa novidade fora de moda.

13 de janeiro de 2009

Zeitgeist


Napoleão Bonaparte afirmou uma vez que a História é um conjunto de mentiras acordado e escrito pelos vitoriosos. Os filmes Zeitgeist (2007) e Zeitgeist Addendum (2008) do produtor e realizador Peter Joseph podem certamente adoptar esta frase como mote, na denúncia e no desmascarar que fazem do imperialismo norte-americano. Por estes dias, qualquer cibernauta esclarecido ou cidadão atento ao meio cinematográfico mais periférico terá já assistido a estas obras perturbadoras, que assentam numa série de Teorias da Conspiração para agitar consciências e alertar para a ilusão e mentira em que os Estados Unidos da América mantém a sua nação e todo o Mundo. O enredo dos filmes desenrola-se, essencialmente, num fio narrativo sobre uma música minimal, onde uma voz neutra desfia um rosário de factos e acontecimentos que pretendem provar que o Homem ocidental moderno é vítima de uma súmula de mentiras, manipulações e distorções da realidade. Tudo para crer que pertence a uma sociedade equalitária, democrática e justa, quando, na verdade, os detentores do poder dessa mesma sociedade o mantêm contínua e sucessivamente subjugado ao móbil dos seus interesses, tratando os indivíduos como verdadeiros cães de Pavlov, crentes na sua liberdade, mas que agem como massas ordenadas e comandadas ao sabor da política, da banca, da religião...
O primeiro Zeitgeist subdivide-se em três capítulos que abordam e questionam, sequencialmente, o Cristianismo e a sua constituição como religião organizada, os ataques perpetrados a 11 de Setembro de 2001 e a Reserva Federal dos E.U.A..
Zeitgeist Addendum, por seu turno, foca a problemática da globalização e a manipulação do Homem pelas grandes corporações e instituições financeiras. O último capítulo desta sequela centra-se na solução para as denúncias e falhas civilizacionais anteriormente apresentadas. É aqui que o espectador, provavelmente convencido, intrigado, assombrado ou estarrecido perante o bombardeamento de revelações a que assistiu, poderá tomar parte integrante da experiência. O Projecto Vénus: Uma sociedade futurista assente no uso da tecnologia e das suas potencialidades como elemento potenciador de um desenvolvimento humano assente na igualdade, paridade e riqueza para todos.
Se ambas as películas deslumbram e fazem estremecer as bases individuais e sociais de cada um de nós perante as teorias e provas apresentadas, o epílogo do documentário será, talvez, o alvo de maior polémica. Podemos ser tentados a pensar numa nova forma de totalitarismo, podemos profetizar a Humanidade como entidade finalmente organizada sob os mesmos ideais e projectando-se para fins comuns, ou podemos acreditar num retorno do Homem àquilo que ao longo de milénios se tem vindo a clivar e a alienar: a Natureza, da qual é parte integrante, e à relação simbiótica que deixou de possuir com esta.
Independentemente das interpretações, estes dois documentários são essenciais e obrigatórios. Podem não mudar uma vida, mas mudarão certamente muitas ideias e atitudes, despertando, inclusivé, para uma nova forma de activismo. Ambos estão disponíveis gratuitamente em http://www.zeitgeistmovie.com/. Os interessados no visionário Projecto Vénus poderão investigar mais a fundo em http://www.thevenusproject.com/.