Tive o privilégio de estar presente na inauguração do Sukiya há uns dias atrás. O Sukiya é um bar, um restaurante, uma casa de chá, um espaço gourmet, uma enoteca, uma livraria e um local para relaxar. Propriedade da administração da primeira encarnação do saudoso bar Até ao Fim, no Parque das Nações, não possui a exiguidade e o negrume deste espaço, distinguindo-se desde logo pela abertura das áreas e pela claridade pungente. A música que passa continua a ser de qualidade acima da média, tal como a do extinto bar alfacinha. Provar excelentes vinhos do Douro ao som de Leonard Cohen ou Robert Wyatt só nos aproxima mais do sublime...
A decoração eminentemente nipónica, cruzada com uma arquitectura moderna, mas reminiscente do estilo bauhaus, tornam os dois andares do Sukiya um local acolhedoramente abstracto, despojado sem ser frio, austero e zen em simultâneo. Encontramos ecos dispersos de fusuma na sala do restaurante, bem como de shoji no piso inferior, onde um agradável e fresco espaço verde, ladeado de bambus convida a tardes de tertúlia, leitura ou simplesmente a ouvir o vento.
A visitar e explorar, quer pela magnífica ousadia estética do espaço, quer pela simpatia e bom gosto dos anfitriões, na Rua de Vasques de Mesquita - Porto, ou, sem aviso prévio, em http://sukiya.com.pt/.


Persistent Repetition Of Phrases do britânico James Kirby a.k.a. The Caretaker é um devaneio musical fascinante. Escutar este álbum onírico e hipnótico é como olhar uma velha fotografia amarelecida pelo tempo e vê-la arder lentamente; é como assistir a um romântico film noir dos anos 40 e ficar preso infinitamente numa das cenas. O tempo não passa por aqui, quanto muito arrasta-se pelo passado numa espiral circular e contínua. O som de velhos discos de vinil, acompanhados do devido scratch, sobrepõe-se e contrapõe-se, sucessivamente, criando uma atmosfera minimal e emocionalmente surrealista. As melodias, jazzísticas, kitsch, ou somente etéreas, mas sempre contidas, impõem-se suave e repetidamente, transportando-nos numa vaga lenta e involuntária para nostalgias e memórias. Apetece olhar o mar num dia cinzento, abrir um baú cheio de recordações antigas ou beijar Ingrid Bergman com os lábios de Humphrey Bogart. Mais que música, este album cria ambiências e evocações, molda o passado com um barro futurista. Materializações do trecho que há muito tempo escutámos e do qual só retemos uma parte, que fazemos ecoar na nossa mente até empalidecer. Estas molduras sonoras são balsâmicas e penetrantes, mas parecem ao mesmo tempo tão longínquas que é impossível alcançá-las.
