"Vou fazer um slideshow para você.
Está preparado?
É comum, você já viu essas imagens antes.
Quem sabe até já se acostumou com elas.
Começa com aquelas crianças famintas da África.
Aquelas com os ossos visíveis por baixo da pele.
Aquelas com moscas nos olhos.
Os slides se sucedem.
Êxodos de populações inteiras.
Gente faminta.
Gente pobre.
Gente sem futuro.
Durante décadas, vimos essas imagens.
No Discovery Channel, na National Geographic, nos concursos de foto.
Algumas viraram até objetos de arte, em livros de fotógrafos renomados.
São imagens de miséria que comovem.
São imagens que criam plataformas de governo.
Criam ONGs.
Criam entidades.
Criam movimentos sociais.
A miséria pelo mundo, seja em Uganda ou no Ceará, na Índia ou em Bogotá sensibiliza.
Ano após ano, discutiu-se o que fazer.
Anos de pressão para sensibilizar uma infinidade de líderes que se sucederam nas nações mais poderosas do planeta.
Dizem que 40 bilhões de dólares seriam necessários para resolver o problema da fome no mundo.
Resolver, capicce?
Extinguir.
Não haveria mais nenhum menininho terrivelmente magro e sem futuro, em nenhum canto do planeta.
Não sei como calcularam este número.
Mas digamos que esteja subestimado.
Digamos que seja o dobro.
Ou o triplo.
Com 120 bilhões o mundo seria um lugar mais justo.
Não houve passeata, discurso político ou filosófico ou foto que sensibilizasse.
Não houve documentário, ONG, lobby ou pressão que resolvesse.
Mas em uma semana, os mesmos líderes, as mesmas potências, tiraram da cartola 2.2 trilhões de dólares (700 bi nos EUA, 1.5 tri na Europa) para salvar da fome quem já estava de barriga cheia: Bancos e investidores."
O texto acima foi atribuído a Muniz Neto, director e sócio da Bullet, uma das maiores agências de propaganda do Brasil. Depois de o ler, não há muito mais a acrescentar. Somente a necessidade de reflexão e consciencialização perante mais um retrato do mundo em que vivemos. Todos, sem excepção...
6 de março de 2009
4 de março de 2009
Zapping
Existiram ou existem poucos artistas tão profícuos como Frank Zappa. No seu tragicamente curto tempo de vida editou 57 álbums entre 1966 e 1993. O ecletismo esteve sempre presente na sua obra, onde o maior facilitismo melódico se associa ao rock e a estilhaços de doo-wop, tudo entrecruzado com a complexidade e o experimentalismo da música concreta, de Varèse a Boulez, e com pontuais reciclagens de Stravinsky. Mas a melhor maneira de classificar a música de Zappa é como inclassificável. Para além de um sentido composicional inovador e original, a sua obra sempre foi arrojada e controversa, roçando muitas vezes um humor peculiar e nos limites do politicamente correcto. Exemplo disso são obras essenciais como Over-Nite Sensation ou Apostrophe, carregadas de imagética subliminar ou declarada de sexo e escatologia. Se as paródias (brilhantes e abrasivas) podem não agradar aos mais puritanos ou conservadores, a música é transversal, conseguindo contagiar os mais diferentes públicos e influenciar artistas tão díspares como Alice Cooper ou os Henry Cow.
Entre outras contribuições mais ou menos inventivas para a música do século XX, uma das genuinamente Zappianas foi a xenocronia. Esta técnica composisional consiste em extrair um solo de guitarra ou outra parte musical do seu contexto original e colocá-la num tema completamente diferente. Melodias intrincadas e complexas mudanças de estrutura e harmonia são igualmente a sua imagem de marca, tal como no sublime instrumental Peaches En Regalia, primeira peça do não menos genial Hot Rats. É uma das composições mais geniais do seu cânone e uma das mais eloquentes cartas de apresentação da sua obra.
Entre outras contribuições mais ou menos inventivas para a música do século XX, uma das genuinamente Zappianas foi a xenocronia. Esta técnica composisional consiste em extrair um solo de guitarra ou outra parte musical do seu contexto original e colocá-la num tema completamente diferente. Melodias intrincadas e complexas mudanças de estrutura e harmonia são igualmente a sua imagem de marca, tal como no sublime instrumental Peaches En Regalia, primeira peça do não menos genial Hot Rats. É uma das composições mais geniais do seu cânone e uma das mais eloquentes cartas de apresentação da sua obra.
3 de março de 2009
Beef Art
A influência de Captain Beefheart, alter ego de Don Van Vliet, espraia-se tentacularmente pela música moderna. De Tom Waits a PJ Harvey, passando pelos Pere Ubu ou pelos belgas dEUS, uma miríade de artistas de considerada relevância na actualidade foi beber a esta fonte. Não faltam obras-primas na sua discografia, toda ela assente na desconstrução e reinvenção dos blues mais primários, oriundos do delta do Mississippi, combinada com melodias cromáticas, ritmos estranhos e descompassados e letras a roçar o surrealismo. Em suma, música em estado selvagem. A sobrepôr-se a tudo isto, a voz única de Beefheart, impressionante e reminiscente do grunhido negro dos bluesmen mais remotos. Álbuns de referência como Safe As Milk ou o genial e inimitável Trout Mask Replica são imprescindíveis em qualquer discografia digna desse nome.
Ice Cream For Crow foi o último álbum de Captain Beefheart, acompanhado, como na esmagadora maioria das vezes, pelos seus acólitos The Magic Band. Datado do já longínquo ano de 1982, não tem comparação possível com nada lançado nesse período e solidifica ainda mais a imagem de Don Van Vliet como ícone irrepetível e insubstituível, sempre um solavanco na modorra do trajecto. Depois deste disco, veio a reclusão no Mojave, a dedicação em exclusivo à pintura e, sem certezas absolutas, a esclerose múltipla. O que é certo é que este homem faz muita falta... Vale a pena visitar a parcela do seu mundo patente em http://www.beefheart.com/; vale a pena recordar a sua imagem sempre peculiar no seguinte vídeo, que consta ter sido banido da certinha e previsível MTV aquando da sua divulgação por ser demasiado bizarro...
Ice Cream For Crow foi o último álbum de Captain Beefheart, acompanhado, como na esmagadora maioria das vezes, pelos seus acólitos The Magic Band. Datado do já longínquo ano de 1982, não tem comparação possível com nada lançado nesse período e solidifica ainda mais a imagem de Don Van Vliet como ícone irrepetível e insubstituível, sempre um solavanco na modorra do trajecto. Depois deste disco, veio a reclusão no Mojave, a dedicação em exclusivo à pintura e, sem certezas absolutas, a esclerose múltipla. O que é certo é que este homem faz muita falta... Vale a pena visitar a parcela do seu mundo patente em http://www.beefheart.com/; vale a pena recordar a sua imagem sempre peculiar no seguinte vídeo, que consta ter sido banido da certinha e previsível MTV aquando da sua divulgação por ser demasiado bizarro...
1 de março de 2009
Weeping Wall of Sound
Um artista que assina a sua obra como Dion pode, à partida, causar calafrios a qualquer melómano mais incauto e conhecedor das terríveis consequências que poderão advir de tal nome. Não é o caso de Dion DiMucci, ítalo-americano que, em 1974, editou uma obra-prima intitulada Born To Be With You. Este assombroso álbum foi produzido por Phil Spector, homem conhecido pelas sua postura excêntrica e megalómana. Para não destoar das tendências artísticas de Spector, nomeadamente do seu sobejamente conhecido método de produção Wall of Sound, foram trazidos para acompanhar Dion nas gravações de estúdio 40 músicos, incluindo doze guitarristas, sete percurssionistas e cinco pianistas. O que indicia uma obra pesadamente barroca, a transbordar de instrumentos e excessivamente orquestrada, resume-se a um dos discos mais belos que o mundo alguma vez conheceu. Talvez porque, quer Dion, quer Spector, estivessem em fase descendente em ambas as carreiras, a música de Born To Be With You é uma repetida catarse e uma meditação profunda sobre o amor, a decadência e o envelhecimento inexorável. A prestação vocal de Dion é majestosa na entrega e expressividade que demonstra e, aliada a uma instrumentação voluptuosa e irrepreensível, desencadeia um efeito arrepiante e devastador a quem se deixar levar por este turbilhão emocional. Temas incandescentes e a roçar o divino, como Born To Be With You ou (He's Got) The Whole World In His Hands, aliados ao desencanto de In And Out Of The Shadows, ao desejo desesperado de Make The Woman Love Me e ao amor cansado de Only You Know são diamantes, logo, eternos. E o eco daquela voz... mas que voz!
Sukiya
Tive o privilégio de estar presente na inauguração do Sukiya há uns dias atrás. O Sukiya é um bar, um restaurante, uma casa de chá, um espaço gourmet, uma enoteca, uma livraria e um local para relaxar. Propriedade da administração da primeira encarnação do saudoso bar Até ao Fim, no Parque das Nações, não possui a exiguidade e o negrume deste espaço, distinguindo-se desde logo pela abertura das áreas e pela claridade pungente. A música que passa continua a ser de qualidade acima da média, tal como a do extinto bar alfacinha. Provar excelentes vinhos do Douro ao som de Leonard Cohen ou Robert Wyatt só nos aproxima mais do sublime...
A decoração eminentemente nipónica, cruzada com uma arquitectura moderna, mas reminiscente do estilo bauhaus, tornam os dois andares do Sukiya um local acolhedoramente abstracto, despojado sem ser frio, austero e zen em simultâneo. Encontramos ecos dispersos de fusuma na sala do restaurante, bem como de shoji no piso inferior, onde um agradável e fresco espaço verde, ladeado de bambus convida a tardes de tertúlia, leitura ou simplesmente a ouvir o vento.
A visitar e explorar, quer pela magnífica ousadia estética do espaço, quer pela simpatia e bom gosto dos anfitriões, na Rua de Vasques de Mesquita - Porto, ou, sem aviso prévio, em http://sukiya.com.pt/.
20 de fevereiro de 2009
Lusofonia II
13 de fevereiro de 2009
Lusofonia
Lucretia Divina, 1992. Banda de Viseu, para muitos já esquecida, com apenas um álbum na sua curta história. Mal d' Honor, lançado no ano em epígrafe, continha o single Maria. Tema bizarro e arrojado, lembra-me o que aconteceria se Scott Walker aprendesse esta noite um português rudimentar, bebesse 3 garrafas de tinto do Dão e em seguida improvisasse por cima de uma caixa de ritmos, enquanto um organista ia tecendo uma malha melódica, de absurda e decadente melancolia. Valsa tresloucada, primeiro estranha-se, depois entranha-se...
Música Real
John Cage é uma das figuras incontornáveis da música do século XX. Compositor revolucionário, parece sempre ter associado a excentricidade a uma enorme lucidez na sua particular apreensão do mundo. Do experimentalismo sonoro das suas Sonatas and Interludes for Prepared Piano, passando pelas explorações da voz em Roaratorio ou Empty Words e de obras onde a electrónica é soberana, Cage esteve sempre na vanguarda da música dita contemporânea. Ao introduzir no seu estilo composicional factores como o acaso e a aleatoriedade, abriu caminho para novas formas de experimentar sonoridades e subverter as leis da lógica e estrutura musical. Composições sem princípio nem fim, sem duração definida, variáveis consoante o contexto em que são apresentadas e consoante quem as interpreta, repetições contínuas da mesma nota, a mesma nota mantida até se perder a noção do tempo... Tudo isto é Cage, tudo isto influenciou mestres como Brian Eno e as suas Oblique Strategies, Klaus Schulze e John Cale e o seu círculo The Dream Syndicate (também conhecido por Theatre Of Eternal Music, onde militava o igualmente superlativo La Monte Young...).
Podemos afirmar que, para Cage, tudo era musical, até mesmo o silêncio. Talvez por isso a sua obra mais emblemática sejam 4'33'' minutos de puro silêncio. Tendo em conta que as reacções a tal peça variam entre o desnorte, o riso e a aversão, esta será certamente a única "composição" onde o momento irrepetível da interpretação absorve tudo e em que o "ouvinte" projecta totalmente o que quer ouvir. E o que ouve é a realidade.
10 de fevereiro de 2009
...Halber Maschine
Do delírio libertador kraut à estética formal mas visualmente avassaladora, o legado dos Kraftwerk não deixa de deslumbrar. O agrupamento continuará, certamente. O futuro de Florian Schneider deverá passar por projectos a solo. Esperemos que surpreenda...
Halber Mensch...
Ao abandonar os Kraftwerk, Florian Schneider põe termo a 40 anos de colaboração com a mais grandiosa e influente de todas as bandas electrónicas. A aventura começou em 1969, no colectivo Organisation, cujo único álbum, Tone Float, assemelha-se mais a um conjunto de mantras krautrock improvisados e não indicia o que os Kraftwerk viriam a fazer nos anos 70, em obras seminais como Autobahn ou Trans-Europe Express. A meticulosidade das melodias, fáceis de ouvir, mas ao mesmo tempo tão austeras nas formas e na frieza e o ritmo mecânico e cibernético, pleno de disciplina germânica, mas igualmente dançável, constituem o centro nevrálgico desta banda futurista mas intemporal. Em conjunto com Ralf Hutter, Florian Schneider foi o grande cabecilha destes inventivos teutónicos. Techno, trance e electro são estilos musicais que não existiriam sem eles. Para relembrar um trajecto de génio, nada como penetrar nas brumas do tempo. Rückzuck, tema aqui apresentado pelos Organisation, viria a ser a primeira faixa do primeiro álbum dos Kraftwerk. Schneider está na flauta, mas provavelmente o expansivo percurssionista será o showstopper...
Poema para S. IV
Se ao menos o tempo voltasse
A todo o tempo que perdi
Em que não te conhecendo
Pouco ou nada conheci
Talvez esse tempo esquivo
Me deixasse cobrir-te de rosas
Antes que a Terra girasse
Trazendo as trevas de volta
E eu de ti me afastasse
Sem nunca poder ficar.
Se ao menos o tempo parasse
No raiar do teu sorriso
E todos os dias nascessem
Na aurora do teu olhar
Podia viver exilado
Numa carícia distante
Só para te poder contemplar
Pois vejo o mundo nos teus olhos
Tal como vejo os teus olhos
Em qualquer parte do mundo.
Se ao menos o tempo voasse
Até à hora da minha morte
E já não me encontrasse neste corpo
Dorido pela sorte
De não poder tocar o teu
A minha alma negaria o paraíso
E fugiria do inferno
Para viver eternamente no teu puro coração
Que sem saberes seria meu...
A todo o tempo que perdi
Em que não te conhecendo
Pouco ou nada conheci
Talvez esse tempo esquivo
Me deixasse cobrir-te de rosas
Antes que a Terra girasse
Trazendo as trevas de volta
E eu de ti me afastasse
Sem nunca poder ficar.
Se ao menos o tempo parasse
No raiar do teu sorriso
E todos os dias nascessem
Na aurora do teu olhar
Podia viver exilado
Numa carícia distante
Só para te poder contemplar
Pois vejo o mundo nos teus olhos
Tal como vejo os teus olhos
Em qualquer parte do mundo.
Se ao menos o tempo voasse
Até à hora da minha morte
E já não me encontrasse neste corpo
Dorido pela sorte
De não poder tocar o teu
A minha alma negaria o paraíso
E fugiria do inferno
Para viver eternamente no teu puro coração
Que sem saberes seria meu...
6 de fevereiro de 2009
Do You Remember The First Time?
Sinto saudades dos Pulp. Na guerra acéfala travada nos tablóides ingleses entre Oasis e Blur nos anos 90, foram eles os vencedores. À margem da lad culture atestada via cerveja e futebol, o seu cinismo eloquente converteu-os, sem dúvida, na melhor e mais inteligente banda pop britânica dessa década. Resta actualmente Jarvis Cocker para nos oferecer ainda obras plenas de fleuma e humor tipicamente britânicos como esta, extraída de Jarvis, o seu primeiro disco a solo. Boa canção, magnífico vídeo...
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