9 de abril de 2009

Krautrockbible

Em 1995, o excêntrico Julian Cope publicou um livro seminal e fonte de inesgotável deleite para quem se interessa pela música alemã dos anos 60 e 70. Krautrocksampler: One Head's Guide to the Great Kosmische Musik - 1968 Onwards é uma obra que descreve a génese e a expansão da cena underground alemã, assim como as suas personagens mais emblemáticas e discos de referência.
O ex-vocalista dos Teardrop Explodes escreve sobre esta música e sobre o folclore que a rodeia com um entusiasmo e uma subjectividade ao mesmo tempo sinceros e coloridos, o que torna o livro um acto de reverência de um adepto fervoroso do krautrock, ao invés de mais uma insípida verborreia de qualquer crítico musical.
Para além da narração apaixonada de episódios lendários, orgias massivas, uso e abuso de psicotrópicos e tarologia, Cope elabora a sua lista dos 50 melhores discos de sempre dentro deste género, mostrando alguns deles ao mundo pela primeira vez como as obras-primas inestimáveis e insubstituíveis que são, da genialidade musical que encerram às belíssimas capas que as guardam...
Infelizmente, o livro encontra-se esgotado há bastante tempo, não havendo previsões para a sua reedição. É possível encontrar cópias usadas no e-Bay ou no Amazon, ou, se o culto roçar o fanatismo, tentar a sorte em qualquer alfarrabista da londrina Charing Cross. À guisa de conclusão, apresento um guia descritivo, mas sem alma, desta corrente, denominado The Crack In The Cosmic Egg. Um resumo significativo do mesmo pode ser encontrado aqui. Ninguém lhe tira o mérito de ser um compêndio exaustivo, mas não pode ser comparado à obra fundamental e dedicada do druída de Tamworth.

8 de abril de 2009

Par-delà la Moule



Os belgas dEUS constituíram uma das maiores surpresas musicais dos inícios da década de 90. O seu primeiro álbum, Worst Case Scenario, debitava ambiências várias e uma amálgama de influências e estilos numa catadupa vertiginosa. Captain Beefheart, Tom Waits, Velvet Underground e Sonic Youth pareciam ter sido apanhados em Antuérpia por uma rede de borboleta e cristalizados para a posteridade em 14 canções. O tom arty elegante e decadentemente europeu característico de temas como Suds & Soda, Let's Get Lost ou a espiral melancólica de Hotellounge (Be The Death of Me) impregnou (felizmente) muito bar do Bairro Alto e desviou algumas inteligentes atenções de coisas como o datado grunge... Após tão auspiciosa estreia, os dEUS superaram a corriqueira crise do segundo álbum, lançando o excelso In A Bar, Under The Sea, em tudo superior ao anterior registo e um dos melhores álbuns dos anos 90. Pelo meio fica o curioso EP My Sister = My Clock (ideal para brincar às escondidas com o nosso próprio cérebro). Compêndio de excelentes canções e experiências sónicas, é difícil encontrar destaque no meio de tanta coerência... Fell Off The Floor, Man é um delírio surrealista e intoxicante, música virada do avesso em que o inesperado surge a cada esquina; Little Arithmetics é fluída como chuva a escorrer por telhas; Gimme The Heat é uma micro-sinfonia em crescendo, tal como o conflito amoroso que lhe dá mote e que nunca é resolvido; Serpentine é uma elegia cinzenta, em que a solidão parece algo intermitente mas resignável; Nine Threads possui elementos nocturnos e fumarentos característicos de qualquer jazz, mas, neste caso específico, de jazz do Benelux; For The Roses é tensão latente, film noir melódico com anti-clímax mais que provável; Theme From Turnpike é um groove escuro e pleno de inflexões jazzísticas, que serviu de tema à curiosa película que antecede este desabafo. A partir daqui, os dEUS foram enveredando por vias mais convencionais, curiosamente agradando sempre ao público universitário lusitano... The Ideal Crash é um álbum sólido em qualquer parte do mundo, mas sem arriscar tanto como os seus antecessores. O mesmo se pode dizer dos dois que lhe seguiram e que ficam bem em qualquer estante, mas não se tornam obsessivamente imperiosos em termos de escuta. Para obsessão auditiva, mais vale o único e lunar álbum dos Moondog Jr. de Stef Kamil Carlens, ponto de paragem entre o seu abandono dos dEUS (curiosa conjunção...) e a formação dos Zita Swoon. Para além da música magistral, um álbum intitulado Everyday I Wear A Greasy Black Feather On My Hat merece certamente uma audição...

27 de março de 2009

How to Irritate People

Antes dos Monty Python (a melhor e mais genial trupe cómica do século XX), três dos elementos que viriam a formar o seu núcleo duro gravaram um documentário para a BBC intitulado How to Irritate People. Este programa único, gravado em 1968, conta com a presença de John Cleese, Graham Chapman e Michael Palin e nele podem já vislumbrar-se alguns elementos típicos dos Python, nomeadamente o nonsense e o inusitado exagero de situações triviais. Consta que esta peça nunca foi transmitida em Inglaterra, mas foi-o nos Estados Unidos (quem diria!?), que resgataram esta pérola da comédia britânica do esquecimento por parte das gerações vindouras.
How to Irritate People consiste numa série de sketches que exemplificam como enfurecer, advertida ou inadvertidamente, o próximo, assim como colocá-lo numa situação ansiogénica. O mote está dado para um sem-número de situações que conseguem ser simultaneamente irritantes e hilariantes ao extremo. Para além do significado histórico desta produção, que lança desde logo os alicerces para as fundações dos magistrais Monty Python, a qualidade cómica é intemporal e não há cabeça inteligente que não fique em êxtase perante estas perfeitas demonstrações de como fazer rir com ironia britânica, sarcasmo certeiro e surrealismo alucinante. Tentei colocar um sketch exemplificativo do tom geral que reina nesta peça, acabei por colocar cinco em quatro amostras. Todos são infalíveis e é difícil encontrar a pedra mais preciosa no meio de um imenso tesouro...







Guilty Pleasure

Coast To Coast Motel é o álbum ideal para ouvir no carro enquanto se conduz de janela aberta à beira-mar; ideal para levar para a pesca com os amigos, sendo que a pesca consiste essencialmente em esvaziar latas de cerveja gelada em detrimento de colocar anzóis nas canas; ideal para um churrasco bem regado numa tarde amena; ideal para uma noite de bilhar, whisky e cigarros... Em suma, trata-se da música de eleição para quem não queira cogitar muito e prefira apreciar um bom momento cuja banda sonora só pretende dispor bem. Tal como os G.Love & Special Sauce, que têm uma postura tão relaxada que este disco parece ter sido gravado no alpendre de uma velha casa americana em noite estival e na companhia dos grilos. É impossível não ficarmos à vontade logo a partir do groove de Sweet Sugar Mama; Leaving The City pede que se abra o frigorífico e se tire a primeira cerveja; Nancy pode despertar o súbito desejo de nos deitarmos numa rede; Soda Pop é uma das muitas sentidas homenagens ao demónio da garrafa; Bye Bye Baby revela reminiscências do Elvis da melhor safra; Tomorrow Night evoca as maravilhas de possuir um cão; Kiss And Tell, talvez o tema mais directo do disco, alerta para os perigos da poligamia e o vídeo reflecte bem os caminhos que estes jovens de Filadélfia gostam de trilhar. Sem serem uma banda de grande relevância e, exceptuando este álbum, sem uma discografia imprescindível, os G.Love & Special Sauce cativam, em suma, pelo despretenciosismo e a simples vontade de partilhar com o ouvinte o bom karma que a música transmite. Cool and relaxed...

26 de março de 2009

Danse Macabre


Richard D. James possui uma fisionomia sui generis. Através de vários alter egos, dos quais o mais conhecido é Aphex Twin, tem-nos brindado na última década e meia com alguma da música electrónica mais vanguardista e, ao mesmo tempo, mais demencial que há memória. Temas cerebrais como Didgeridoo ou Ventolin são uma mescla de ritmos vertiginosos, oceanos de distorção e samplers abrasivos. Outros, como Blue Calx ou Windowlicker surgem como devaneios mais ambientais e sedutores, mas não menos intrusivos. Como se algo não batesse certo no meio da aparente bonomia... O 2º tema deste último EP, intitula-se simplesmente ΔMi−1 = −aΣn=1NDi[n] [Σj∈ℂ{i}Fij[n − 1] + [Fexti[[n−1]]]] e é conhecido mais prosaicamente como Mathematic Equation. Nesta peça, o rosto de Aphex Twin surge materializado sob a forma de um Espectrograma. O Espectrograma é, essencialmente, um medidor de sinais fonéticos e da sua variação. Engenhosa e subliminarmente, Richard D. James consegue subverter o que geralmente é apenas uma cascata de cores e oscilações, inserindo a sua imagem como se o próprio som a originasse. A imagem formada nessa análise espectral encabeça este texto.
Desbravando a música de James, experienciamos um especial agrado em causar inquietação e injectar pequenas doses de terror em quem a ouve. Há um sentimento latente de algo maléfico que parece espreitar por trás de cada inflexão rítmica ou mesmo da acalmia enganadora dos temas. Se esta ansiedade induzida flutua ao redor do ouvinte, a nível visual o efeito não é menos inquietante. Comecei por dizer que Richard D. James é dotado de uma fisionomia muito especial. Um facies de contornos pouco vulgares, talvez. Ao distorcer esse rosto e ao colocar-lhe um permanente sorriso charmosamente demoníaco, resultam vídeos que têm tanto de arrojado como de curtas-metragens de terror desenroladas numa câmara de torturas electrónica. Come To Daddy e Windowlicker, ambos realizados magistralmente por Chris Cunningham, serão provavelmente dos clips mais perturbadores alguma vez produzidos. Podemos sorrir perante alguns dos exageros, mas uma ligeira sensação de estranheza ficará a pairar no limite desse sorriso...





Imagiologiarte

A maioria dos indivíduos que vai ao médico voluntária ou involuntariamente, saberá certamente o que é uma TAC. A Tomografia Axial Computorizada utiliza raios X, cujo emissor gira à volta do indivíduo, ao mesmo tempo de receptores que vão medir as variações de intensidade dos raios após a sua passagem através do corpo. A partir daí, são efectuados planos de corte sob diferentes ângulos, sendo que, mediante estas informações, um computador fornece uma imagem representando os tecidos atravessados por camadas de alguns milímetros, que “empilha” para reconstruir uma imagem em 3D.
Satre Stuelke é um artista e estudante de medicina que, desde 2007, tem vindo a aplicar esta técnica a outras finalidades que não o estudo imagiológico do corpo humano. Assim sendo, este senhor tem radiografado tudo e mais alguma coisa, desde a Barbie da filha a esse ícone da cultura ocidental que é o Big Mac. Para um vislumbre diferente da realidade física dos objectos que nos cercam, todos esses cortes axiais estão disponíveis no site http://www.radiologyart.com/.

22 de março de 2009

25 Sons para a Primavera


Spring has sprung, finally! Seguindo o apanágio sazonal deste blog, segue desta feita a escolha dos discos indiepoprockandwhatsoever que mais faço girar na estação preferida dos otorrinolaringologistas...

1. Love - Da Capo

2. The Pale Fountains - Pacific Street

3. The Stone Roses - The Stone Roses

4. Harmonia - Deluxe

5. Quicksilver Messenger Service - Happy Trails

6. Pixies - Doolittle

7. Sonic Youth - Murray Street

8. Jim O' Rourke - Insignificance

9. Air - Moon Safari

10. Zero 7 - Simple Things

11. Talk Talk - The Colour Of Spring

12. Talking Heads - Remain In Light

12. Yatha Sidhra - A Meditation Mass

13. Can - Soon Over Babaluma

14. Pulp - Different Class

15. Manu Chao - Clandestino

16. Grizzly Bear - Veckatimest

17. Kevin Ayers - Joy Of A Toy

18. Belle & Sebastian - Dear Catastrophe Waitress

19. Happy Mondays - Bummed

20. Frank Zappa - Hot Rats

21. Cocteau Twins - The Pink Opaque

22. Dead Can Dance - Aion

23. XTC - Skylarking

24. Marvin Gaye - What's Going On

25. Gong - Angels Egg

EBG


Falemos da ECM. Não da Empresa de Cervejas da Madeira, mas da editora alemã fundada em 1969 na cidade de Munique por Manfred Eicher e cuja sigla significa Edition of Contemporary Music. Na minha humilde opinião e se a editora fosse portuguesa, mudar-lhe-ia o nome para EBG: Extremo Bom Gosto. Razões para este novo baptismo não faltarão.
A ECM é, actualmente e desde há largos anos, a casa de muitos dos melhores criadores e intérpretes de jazz de que há memória. Para além disto, e desde finais dos anos 70, alberga igualmente o que de melhor se faz ao nível da música contemporânea, lançando obras de compositores tão influentes e determinantes como Arvo Pärt, Steve Reich ou Heiner Goebbels. Sem desprimor para estas ECM New Series, centremo-nos no jazz, algum dele oriundo das mais improváveis paragens e peça central no xadrez desta editora, que tanta qualidade tem dado ao mundo nesta área.
Ao fim de 40 anos de história, a ECM ganhou uma estética própria. Essa estética advém dos nomes do seu catálogo, da qualidade nórdica das suas gravações e dos magníficos e irrepreensíveis trabalhos artísticos que se exibem invariavelmente pelas capas dos LP's e CD's dos seus numerosos lançamentos. Tal como as lendárias editoras 4AD e Factory criaram uma imagem (e uma linguagem) à parte nos anos 80, sustentada pelas imediatamente reconhecíveis capas de cariz gótico, barroco e romântico da primeira e pelos designs vanguardistas de Peter Saville & Co. da segunda, assim a ECM já o tinha feito e assim influenciou muitos sucedâneos, independentemente do tipo de música que editavam. E a música é o mais importante. No caso da 4AD, quem precisa dos In Camera ou dos Sort Sol? No caso da Factory, quem precisa dos Northside ou do inenarrável Steve Martland?
A música da ECM não é feita só de jazz e o jazz da ECM não é o mais facilmente rotulável. Do mais clássico ao mais vanguardista, encontra-se de tudo. Da enorme miríade de artistas que gravitam em torno desta editora, existem obras dispensáveis, claro está, mas não se pode despeitar um único criador. Aqui residem das peças mais sublimes que ouvi até hoje, provenientes de qualquer paleta musical, mas com o jazz em pano de fundo. Será impossível destacar uma única e definitiva, mas Portrait Of A Romantic, de John Surman, faz a noite irromper no meu quarto e deixa cair a lua e as estrelas no meu chão sempre que a ouço; Conte De L'Incroyable Amour, do tunisíno Anouar Brahem, tem o dom de nos fazer olhar para velas acesas, ou fechar os olhos e levitar-nos pelos céus nocturnos do deserto e pela brancura das medinas; Khmer, de Nils Petter Molvaer, com o seu trompete sonâmbulo e lampejos de electrónica é a banda sonora ideal para conduzir por uma cidade espectral e vazia como Lisboa às 4 da manhã; a primeira parte do Köln Concert de Keith Jarrett é, garantidamente, a mais bela improvisação feita para piano que alguma vez ouvi. Ainda hoje me faz pele de galinha a evolução daquela melodia e sinto arrepios de prazer a partir do minuto 07:14. Isto sem esquecer o saxofone de Jan Garbarek, o piano de Paul Bley, a guitarra de Terje Rypdal ou o contrabaixo de Dave Holland... Enfim, podia ficar aqui o resto da noite a enumerar pequenos milagres, como o álbum de 2005 do baterista Paul Motian, cuja capa encima estas linhas e cujo estilo mantém a essência da editora germânica assente em estacas bem firmes no século XXI.
A música da ECM é quase um estilo de vida. É música feita em tons de cinzento, preto e branco, com estilhaços de vermelho e muitos mantos de diferentes tons de azul a cobri-la. É música urbana, sofisticada e moderna, feita à medida das grandes cidades, mas infectada por um romantismo antiquado e incorrigível. Não será certamente música para adolescentes ou perseguidores de adrenalina, mas, e ao cair nos trinta, é música que me faz sentir muitas vezes que a minha solidão, se brotar especialmente à noite, terá sempre companhia.

Kosmische Kosmetik III

Thomas Dinger foi o irmão mais novo de uma das figuras mais incontornáveis do krautrock, Klaus Dinger, o mentor dos geniais Neu!.
Exceptuando os dois primeiros álbuns da banda supracitada, Thomas foi o baterista de serviço nos projectos do irmão mais velho e assumiu esse papel de forma mais proeminente nos não tão geniais mas não menos superlativos La! Düsseldorf. Este papel mais ou menos secundário e potenciador de um esquecimento instintivo, não o impediu de gravar a solo um álbum de rara beleza e raro de encontrar que dá pelo nome de Für Mich.
Nesta edição de 1982, já longe da era clássica e mais inventiva do rock alemão da primeira metade dos anos 70, encontramos um disco que parece tudo menos criação de um baterista. Obra essencialmente atmosférica e minimal, principia com o sublime Ballgeflüster, elegia electrónica, outonal e hipnótica, uma dança em espiral que se eleva lentamente até ao desmaio final. Leierkasten será provavelmente um intróito do hermético humor teutónico e passa como uma nuvem até aos latidos caninos que abrem Für Dich, tema enraizado na melhor tradição dos Neu! e La! Düsseldorf e o que melhor deixa transparecer o instinto rítmico de Thomas Dinger. Melodia a motor, que se entranha na pele e nos transporta em mais uma viagem de partida incerta e sem destino. E-605, a próxima paragem, será, talvez, a peça-chave do álbum. Um início lento, lentíssimo, quase fúnebre na desolação sonora que se vai revelando aos poucos, abre caminho a um piano delicado e a um xilofone que o segue como uma sombra. A bateria surge, esparsa e marcial, marcando o ritmo de uma longa marcha em câmara lenta que os Joy Division aplaudiriam de pé. O significado disto? Não interessa. Para onde caminha esta triste e dolente procissão musical? Menos ainda. Mas não importa. Música assim não é para interpretar, somente para sentir o privilégio de a podermos ouvir. Alleewalzer prossegue a toada elegíaca mas melódica, desta feita em modo electrónico-celestial, impregnado de nostalgia. Provavelmente por algo aconchegante que já tivémos e perdemos. Für Euch encerra o disco, com brevidade e abstracção, como se o que o que se tivesse passado antes não fosse para ser lembrado e o despertador da realidade iniciasse o seu triste martelar. Como foi dito, esta não parece ser a obra de um baterista. Mas os irmãos Dinger sempre desafiaram o óbvio. E este mundo já está saturadamente cheio de coisas previsíveis...

12 de março de 2009

Men In Black


They are too old to be punks, but too outrageous not to be. Este tipo de frases definia e descrevia os Stranglers quando surgiram com o seu primeiro álbum em 1977, em pleno acme da revolução punk. Rattus Norvegicus era um álbum possuído por uma atitude de cinismo, ameaça e confrontação, mas, e ao contrário da maioria das bandas britânicas da época, interpretado numa toada virtuosista e melodicamente sombria que tanto os aproximava dos Clash como dos Doors. Temas como (Get a) Grip (on Yourself) ou o fabuloso Hanging Around eram ao mesmo tempo actuais e remotos, como se os Stranglers incorporassem elementos de classicismo no punk, em vez de adoptarem única e exclusivamente uma estratégia D.I.Y.. Solos de guitarra e órgão e canções com mais de 3 minutos não eram propriamente queridos das bandas punk da época, mas os Stranglers faziam-no e não deixaram de ser uma das bandas mais controversas e com uma das auras mais negras da história. Uma banda de e para homens de barba rija, poderíamos afirmar, ou não fossem os temas abordados muitas vezes misóginos e versando uma certa submissão sexual feminina, como em Peaches ou Bring On The Nubiles. Entre outras rebeldias e comportamentos confrontacionais, são de realçar igualmente o encarceramento esporádico de membros da banda por drogas e violência, o facto de lançarem fumo tóxico sobre as audiências na tournée do álbum The Raven e a recusa em tocar ao vivo o seu maior sucesso de sempre, Golden Brown, o que, invariavelmente, dava origem a motins nos concertos...
Após os viscerais e enérgicos No More Heroes e Black & White e com o canto do cisne da era dourada do punk inglês, os Stranglers acharam por bem mudar de rumo, suavizando e complexificando a sua sonoridade. Após um álbum de transição, mas com bons argumentos (o supracitado The Raven) e a experiência semi-falhada de The Gospel According to the Meninblack (trabalho empolado no qual a perfeição se esgota na primeira faixa...), surge em 1981 o que muitos consideram ser a obra-prima da banda: La Folie. Mais influenciado pela New Wave americana do que pelo Pós-Punk britânico da altura, o álbum resume eficazmente a essência dos Stranglers, misturando a agressividade dos primórdios a belas e oníricas melodias. A partir daqui, a mediodridade e a decrepitude foram lentamente instalando-se. Os discos subsequentes, Feline e Aural Sculpture têm a sua quota de bons momentos e das típicas melodias doces com palavras azedas, mas nunca alcançam o brilhantismo do passado. Dreamtime é praticamente dispensável, assim como quase tudo o que se segue. A banda verá um fugaz ressurgimento com os dois últimos álbuns, Norfolk Coast e Suite XVI, trabalhos decentes, mas que funcionam mais como combustível para o enorme culto que a banda possui em Inglaterra e em França, sendo que os lusitanos sempre foram igualmente entusiastas do quarteto de Guilford. Há alguns anos sem o vocalista original Hugh Cornwell (que, ao que consta, recebeu ameaças de morte quando deixou a banda - isto sim, são fãs dedicados!), os Stranglers encontram-se actualmente sob o comando do baixista Jean-Jacques Burnel, frontman não menos carismático e que dá voz a um dos temas mais belos e distintos da banda, La Folie, cujo vídeo conclui esta dissertação. Mesmo sem a relevância e a lendária agressividade de outrora, este grupo deve ser recordado como um dos melhores do planeta entre fins de setenta e a primeira metade dos anos oitenta.


Monsieur Pop


Há uns dias, ao folhear a mui interessante e influente revista Jazz Times, deparei-me com a notícia que Iggy Pop iria lançar um novo álbum, impregnado de francofonia. Uma publicação dedicada maioritariamente ao Jazz não seria o sítio onde esperava encontrar tal notícia, mas o próprio James Osterberg define a obra como “not a rock album, more jazzy stuff … it’s a quieter album with some jazz overtones.” Vindo da voz dos seminais Stooges e do autor de obras tão bombasticamente roqueiras como American Ceasar ou Skull Ring, isto não deixa de surpreender. Mas o que é certo é que tons mais densos e circunspectos sempre povoaram a obra de Iggy, desde o injustamente ignorado Avenue B, passando pelo urgente e urbano Lust For Life e pelas odes dolentes, decadentes e nocturnas do magistral The Idiot. Com saída prevista para Maio, e como admirador profundo das diatribes deste senhor, aguardo ansiosamente por Préliminaires. Em http://www.iggypoppreliminaires.com/ assistimos a uma breve explicação para o leitmotiv que rodeou a obra em assunto e que apresentará Iggy Pop ao mundo a cantar em francês...

Cronic Groove

Nunca fui admirador fervoroso de rap ou de hip-hop. Este género musical nunca me preencheu na totalidade. Talvez por não me identificar com os problemas dos bairros nova-iorquinos, ou por não ser consumidor compulsivo de peças de joalharia masculina... Public Enemy, De La Soul, Disposable Heroes of Hiphoprisy, Cannibal Ox ou El-P e algumas doses de Kanye West ou Anti-Pop Consortium são honrosas excepções. No entanto, e talvez pelo facto da sua música sempre ter sido contaminada por influências saudáveis como o jazz ou o funk e assentar num contínuo e irreverente groove, sempre nutri um especial carinho pelos Beastie Boys. Os tempos jocosos e hedonistas de Licensed to Ill foram dando lugar à depuração e a um bom gosto cada vez mais vincado em termos de composição e do uso e abuso da samplagem. Um groove crónico e irresistível escorre dessa magnífica epítome do cool que é o álbum instrumental The In Sound From Way Out! e o ecletismo colorido e alucinado de obras como Paul's Boutique ou Hello Nasty constitui uma autêntica terapia alternativa para stress e depressões. A imaginação delirante destes eternamente jovens quarentões açambarca um ror de estilos, conforme o seguinte clássico comprova...


Beastie Boys - Body Movin'
Enviado por hushhush112. - Veja mais vídeos de musica, em HD!