21 de julho de 2009

Que farei eu com esta espada?

Faz falta à nação cinéfila o Mestre João César Monteiro. Pelo menos àquela nação que não vive oscilando entre a última produção de Leonel Vieira e a próxima de Fernando Fragata. Um dos maiores expoentes nacionais da corrente vanguardista do Novo Cinema, surgida nos anos 60, César Monteiro sempre trilhou nas suas obras um caminho entre o lírico e o satírico, fazendo por vezes a convergência de ambos. Cineasta experimental e explorador, introduziu, tal como Manoel de Oliveira, o conceito de antropologia visual nas suas ficções, algo que era exclusivamente utilizado em documentários. Este conceito assenta na teoria de que a mais fiel observação do real assenta na imagem, e não na palavra. Aqui residirá a génese das características cenas longas e despojadas de discurso que povoam os filmes do realizador.
A provocação subtil e/ou declarada e a irreverência muito particular de João César Monteiro são outras das suas características mais vincadas. Para ele, nada foi intocável, dedicando-se com especial cuidado a arrasar o Estado e o Clero e a interlúdios panfletários de um certo tipo de sexualidade mais periférica. A obra máxima que retrata este pot-pourri será, certamente, A Trilogia de Deus, composta pelos filmes Recordações da Casa Amarela, A Comédia de Deus e As Bodas de Deus. Escusado será dizer que a trilogia é essencial para quem queira conhecer o cinema português de autor, liberto de amarras. César Monteiro foi descrito inúmeras vezes como realizador incompreendido, ou que faz cinema única e exclusivamente para si próprio, ou que pretende somente escandalizar. Tudo isto bate certo, especialmente para quem assina uma obra como Branca de Neve, que até hoje não se sabe bem se é um filme ou não... Assumidamente criada para espantar espectadores, o que podemos chamar a quem se instala para 75 minutos de escuridão intercortada raramente por céus cinzentos e flashes azuis? Cinéfilo? Curioso? Pessoa cheia de sentido de humor? Intelectualmente pretensioso? Ao realizador não se pode chamar nada ofensivo, porque, vindo de quem veio, isto não é surpresa. E uma obra de arte só existe porque outro alguém a vê, ouve, contempla, toca...
Uma coisa é certa: César Monteiro foi, em vida, tudo menos ignorado. E que mais pode querer um artista senão fugir à indiferença? Personagem polémica, é tão legítimo amá-lo como odiá-lo. E não me recordo de mais ninguém que visse a sétima arte sob esta perspectiva:

6 de julho de 2009

Kosmische Kosmetik V

Green Desert é o elo perdido entre Atem e o seminal Phaedra, dois clássicos na imensa discografia dos reis da electrónica cósmica, Tangerine Dream. Gravado em 1973, Green Desert somente viu a luz do dia em 1986. Não sabemos o quanto a edição final difere da gravação original, mas as 4 faixas deste álbum perdido durante mais de uma década oferecem-nos Tangerine Dream da melhor safra, como se de um disco de ficção científica se tratasse.
Green Desert arranca com o tema homónimo, 5 minutos iniciais de projecção sintetizada no espaço glaciar até à entrada dos restantes instrumentos. A guitarra planante de Edgar Froese e a bateria lenta, circular de Chris Franke fazem-nos viajar pela escuridão de galáxias distantes, desoladas mas coloridas, disformes mas pulsantes. A viagem parece durar uma eternidade, com o insistente vórtice rítmico a exigir de nós um quase torpor e abandono, como se fôssemos satélites a girar em torno da música que fustiga como vento sideral. Já totalmente em órbita após estes 20 minutos fora da Terra, a sensação de fuga prossegue com o magistral White Clouds. Tangerine Dream no seu mais clássico e frio, o tema vagueia por entre a invernal e majestosa melodia do sintetizador de Froese e a cadência maquinal da bateria de Franke, para nos transportar a um mundo de gelo, desolado e inóspito, mas deslumbrante na sua beleza estéril. Astral Voyager é dominada por um sequenciador minimal, daqueles que anteciparam a trance music em 20 anos, e embrulhada em sintetizadores que bafejam poeira estelar. Mais uma volta no carrossel cósmico, imenso e infinito, sinalizado por corpos celestes que, aqui e ali, interrompem a constante do breu. O périplo termina com Indian Summer e a sua electrónica espaçada e flutuante. Peça simples, é atravessada por uma sensação de deslumbramento e procura interior perante o Universo que nos transcende, mas de cuja matéria somos igualmente feitos. Um convite à meditação, envolvente mas não soporífero, que encerra o disco de forma morna e apaziguadora. Como se depois da tempestade viesse sempre a bonança. Como se, à escuridão vazia do espaço, se sucedesse a luz de um mundo paradisíaco, deserto e verde. Para começar de novo.
Green Desert não é o melhor álbum dos Tangerine Dream, mas é uma obra fundamental para adicionar aos anos de ouro e mais vanguardistas da banda, entre a flamejante electrónica experimental de 1969 e as texturas mais formais e melódicas de 1983.

Amores perfeitos

Os Pyramids não são perfeitos musicalmente. Tocam uma espécie de pós-rock afogado em guitarras abrasivas com uns intróitos electrónicos que não é particularmente original, mas que não maltrata ninguém. Algo que os torna especiais é o genial vídeo realizado para Hunch Your Body Love Somebody, primeiro single do primeiro álbum deste obscuro agrupamento norte-americano. Já tinha visto muitas formas de abordar o amor num videoclip musical, mas nunca com esta peculiar aura de romantismo. Imagino como seria se Barry White, the walrus of love, tivesse decidido fazer o mesmo...

5 de julho de 2009

Kosmische Kosmetik IV

Obscuro cigano suíço, de aparência Rasputinesca e especialista em Tarologia, Walter Wegmüller foi capturado pelo lendário manager da Ohr Records Ralf-Ulrich Kaiser com o intuito de produzir um álbum ao qual a sua peculiar personagem daria voz. Corria o ano de 1972. Wegmüller produzia, desde finais dos anos 60, um baralho de cartas de Tarot pintado à mão e que deu o mote para o longa-duração submetido a essa temática. Tarot: Obra em que cada peça é inspirada e dedicada a uma das cartas do baralho místico. Acompanhado pela crème de la crème dos anos dourados e gloriosos do krautrock, Walter Wegmüller assina aquele que é, provavelmente, o melhor álbum de sempre deste estilo musical. Antes dele, nada desta envergadura tinha sido criado pelas hostes teutónicas e, depois dele, nada idêntico foi conseguido. Disco irrepetível, é um labirinto de delícias para quem nele se perde. Quem nele entrar, nunca mais será o mesmo. Se existe esoterismo na música rock, Tarot será o seu expoente máximo. Ao mesmo tempo malévolo e benfazejo, beatífico e aterrador, este álbum é génio puro do princípio ao fim. Seis músicos numa demonstração superlativa dos seus talentos e um cigano suíço a declamar / sussurrar / profetizar / amaldiçoar / abençoar por cima deles é algo de absolutamente inesquecível e, acima de tudo, intocável.
A montanha russa começa com Der Narr, o louco, a carta sem nome, a faixa 0 em que todos os intervenientes são apresentados, como se o que nos aguardasse fosse um espectáculo de music hall a ter lugar no Congresso de Vilar de Perdizes. Em breves e sincopadas investidas, cada um dos músicos se apresenta. No final, ao chegar a vez de Wegmüller, o mesmo tosse e fala por cima dos estranhos efeitos que irão distorcer a sua voz ao longo do álbum. Um pouco de humor germânico, à laia de preparação para a massiva experiência que se segue. E ela começa com Der Magier, a primeira carta. O mago, que desvenda o oculto, que brinca com a Natureza e que flutua no vácuo sintetizado de Klaus Schulze. O ritmo e os relâmpagos electrónicos confundem e agitam e o feitiço invade-nos. Entra em cena Die Hohepriesterin, a sacerdotisa, convidando a um transe meditativo, que nos envolve como um círculo de velas acesas na maior das escuridões. Wegmüller é hipnótico e o ambiente entorpece. Fazemos já parte da cerimónia, solene e arcana, maior que nós. Segue-se Die Herrscherrin, a imperatriz, ritmo circular, levemente tribal e melodia dolente. O transe acentua-se e os rasgos de electrónica assemelham-se a vibrantes raios de luz. O esoterismo encarna no rock duro de Der Herrscher, o imperador. As guitarras de Manuel Göttsching e Hartmut Enke traçam solos e ritmos em paralelo com a voz xamânica, fumarenta e carregada de efeitos do cigano suíço. Quem precisa de substâncias ilícitas com músicas como esta?...
A carta seguinte representa o hierofante, Der Hohepriester. Lindíssimo tema, de toada folk, onírico e etéreo na forma como conjuga de forma sublime piano, guitarra acústica e flauta. Wegmüller apenas sussurra, e mais não é necessário, pois a beleza pastoral e inocente deste tema dispensa palavras. Contemplativa e luminosa ao mesmo tempo, a música parece levitar em torno do amor platónico ideal ou da união mística com a divindade. Verdadeiro alimento para o espírito... Die Entscheidung, os enamorados, é um pequeno idílio em que o suave piano eléctrico de Jürgen Dollase é sucessivamente contaminado pelos estertores electrónicos de Klaus Schulze e pelos mantras em surdina de Wegmüller. Der Wagen faz entrar novamente o ritmo, cadente e primário da bateria de Harald Grosskopf, que colide com as electrónicas endiabradas de Schulze e a vocalização grave mas possessa de Wegmüller, num dos momentos mais escuros do álbum. A toada negra prossegue com a chegada de Die Gerechtigkeit, a justiça. Sente-se o martelar funesto e inexorável da condenação, a voz afectada do veredicto e da separação.
Der Weise, o eremita, torna a caminhos de maior beatitude, e a voz de Wegmüller encontra-se agora despojada de efeitos. Como se a harmonia se encontrasse melhor na solidão, na retirada de máscaras e artifícios. A melodia deixa a luz passar novamente, uma luz estranha, que parece tocar a alma, mas não o corpo.
Se, ao longo deste disco, se vislumbram lampejos ácidos, nada como Das Glücksrad para o comprovar. A abordagem da carta dedicada à roda da fortuna é feita de forma assumidamente psicadélica, uma trip fantasiosa por terrenos inóspitos, reminiscências infantis e labirintos de espelhos. A sorte e os seus caprichos, tomando forma numa melodia cristalina, mas ansiogénica. Die Kraft é quase funk, com o baixo em regime groove de Jerry Berkers a ditar o ritmo e a inundar o corpo de energia, da força que diz respeito à carta em epígrafe. Quase se pode dançar, desastrada porque humanamente, ao som deste germanismo africanizado, que encerra o primeiro disco de Tarot.
A segunda parte do álbum abre na mesma toada acentuadamente rítmica com Die Prüfung, o enforcado. Parece estarmos em plena noite africana, deserta e imensa, em plena cerimónia tribal, e Walter Wegmüller é novamente o bruxo de negro, de rosto vermelho perante a fogueira. Sente-se a iminência do sacrifício. Der Tod, a morte, o arcano sem nome, é um sopro fantasmagórico de electrónica, inominável e indescritível, um pedaço de nada. Die Massigkeit, a temperança, centra-se numa guitarra em contínuos estertores improvisados, como que à procura de equilíbrio, à qual se sobrepõe a voz de Wegmüller no seu paganismo mais afectado. No magnífico Der Teufel, o suiço sopra-nos ao ouvido sobre a guitarra quase flamenca de Manuel Göttsching e a flauta de Walter Westrupp como se do próprio Lúcifer se tratasse. Tema absolutamente genial, parece apresentar o Diabo não como fonte do mal, mas como algo que surge do lugar mais recôndito para seduzir e mostrar o que está oculto, o que é carnal e instintivo. Sentimo-nos transportados para bosques de árvores muito antigas, em dias cinzentos, receosos, mas ao mesmo tempo curiosos pelo que se encontrará escondido em sítios onde ninguém deveria ir. Esta peça assemelha-se a entrar numa casa velha, vazia e escura, iluminada apenas por luzes bruxuleantes, mas onde não sentimos medo de estar. Onde há algo a conhecer que mais ninguém sabe...
Outra melodia belíssima surge com Die Zerstörung. A torre é dominada pelo piano doce mas firme, em contínua espiral, e invadida por investidas dissonantes de electrónica e bateria. Wegmüller surge, a espaços, indiferente quer à beleza, quer ao caos. Die Sterne é povoada por uma guitarra luminescente, de um brilho pulsante como as estrelas que pretende emular. É a peça mais minimalista do álbum, mantendo-se suspensa no tempo, circular e incomensurável. No seguimento das estrelas, surge a carta que descreve a lua. Der Mond, segue a mesma linha minimal, mas sem brilho. Apenas uma opacidade cinzenta transborda da electrónica desoladora de Klaus Schulze. Em sequência lógica, segue-se Die Sonne, o sol que lateja, em convulsões internas, para colorir mais uma peça fabulosa da kosmische musik. Sem melodia discernível, o ambiente criado por este tema é uma autêntica aurora boreal, música que transcende este planeta. Abruptamente, surge Das Gericht, o julgamento. À medida que se aproxima do fim, o disco vai tornando-se progressivamente mais etéreo, mais irreal, como se chegasse à sua conclusão lógica e a parcimónia fosse o único caminho a seguir, mas igualmente como se regressasse ao princípio e tudo voltasse a ser um livro em branco pronto a ser escrito outra vez. O final efectivo surge com Die Welt, o mundo, fabulosa jam session que se arrasta num rock dolente polvilhado por electrónica até à convulsão final, autêntica nave espacial kraut desgovernada e imparável.
Tarot é um álbum ímpar, uma das pérolas do krautrock, se não mesmo a sua jóia da coroa. As primeiras edições (numeradas) do álbum vinham acompanhadas do baralho pintado por Walter Wegmüller, algo que já saiu de circulação há muito tempo. Resta a música, essencialmente para ouvir sozinho, em ambiente escuro e de longe a longe, de forma a não corromper a magia de cada encontro.

22 de junho de 2009

25 Sons para o Verão


Na senda de posts anteriores, aqui fica a minha escolha discográfica para receber o solstício estival e aguentá-lo na praia ou em casa, de persianas fechadas...

1. Love - Forever Changes

2. Pink Floyd - Meddle

3. Can - Future Days

4. Talking Heads - Speaking In Tongues

5. Happy Mondays - Pills & Thrills And Bellyaches

6. Pixies - Bossanova

7. The Stone Roses - Turns Into Stone

8. Quicksilver Messenger Service - Just For Love

9. Agitation Free - 2nd

10. Stan Getz & João Gilberto - Getz / Gilberto

11. Sven Van Hees - Gemini

12. Thievery Corporation - The Mirror Conspiracy

13. The Grateful Dead - American Beauty

14. The Byrds - The Notorius Byrd Brothers

15. Sir Douglas Quintet - Mendocino

16. The Beach Boys - Pet Sounds

17. The Doors - Morrison Hotel

18. Étienne Daho - Eden

19. Yo La Tengo - Summer Sun

20. Talk Talk - Spirit Of Eden

21. Yeasayer - All Hour Cymbals

22. Vampire Weekend - Vampire Weekend

23. Brian Wilson - Smile

24. Manu Chao - Próxima Estación...Esperanza

25. Animal Collective - Merriweather Post Pavillion

14 de junho de 2009

Dizem que é a melhor canção de sempre...

Dizem que é a melhor canção de sempre vinda de um grupo de música popular, o que é provável. Aliás, isto é bem mais que uma canção. Para além de ser a minha preferida deles, o vídeo é o melhor que vi até hoje. Chamemos-lhe um irresistível fascínio pela estranheza lisérgica que dele escorre...


Beatles - A Day in the life
Enviado por ghovingh. - Clipes, entrevista dos artistas, shows e muito mais.

Dieta Mediterrânica II

Os segundos iniciais de Principe di un Giorno parecem transportar-nos directamente para a noite de um remoto Carnaval Veneziano. A guitarra serena e a flauta morna passam, então, a comandar as operações em mais uma obra notável da música italiana dos anos 70. À faixa supracitada, primeiro tema que dá título ao único álbum dos Celeste, poderíamos chamar música balsâmica de San Remo, homenageando quer o aceto de Modena, quer a terra natal destes transalpinos. Uma autêntica massagem à alma, pricipalmente a partir da entrada dos instrumentos de sopro ao raiar dos 4 minutos da canção. Infelizmente (mas, também, felizmente!) este capítulo da música europeia continua votado à marginalidade e bafeja somente quem mergulha profundamente nos seus alfarrábios. E só mergulhando se podem alcançar caleidoscópios sonoros absurdamente belos e majestosos como Favole Antiche. Repentinamente somos colocados no cenário de A Midsummer's Night Dream de Shakespeare e não queremos acordar. O eco estático daquela voz que sopra ao ouvido e a irrealidade do ambiente criado fazem-nos crer que é possível dançar com ninfas e brincar às escondidas com duentes se aparecermos naquele bosque, naquela noite. Segue-se o belíssimo Eftus, em que vozes dispersas em suave psicadelismo despontam por entre a serenidade de laivos renascentistas invocada pelos instrumentos. Giocchi nella Notte é outro eloquente momento melódico, romântico na forma como principia a insinuar sem revelar nada para além do translúcido. Divido em vários fragmentos, este tema termina numa toada folk pastoral que nada fica a dever aos seminais The Incredible String Band. La Grande Isola é rock progressivo clássico, com instrumentação vária e irrepreensível à desgarrada, mas em que o mellotron é rei e a flauta é raínha. La Danza del Fato sucede-a, agradável e simples balada trovadoresca e polvilhada de sinos. No fim, L'Imbrolglio encerra o álbum em toada medieval e despojada da pirotecnia contida que ficou para trás. Álbum de traços conceptuais, Principe di un Giorno dos Celeste é algo de irrepetível. Algo que já parecia de um tempo que nunca existiu quando foi editado em 1976...

16 de maio de 2009

Dieta Mediterrânica

1972 foi um ano miraculoso para a música italiana. Com a ascensão do rock progressivo, sinfónico e megalómano em terras britânicas no início dessa década, a Itália parece ter encontrado um filão inesgotável de inspiração e de expressão da sua cultura orgulhosamente clássica e monumentalmente bela. Se as bandas inglesas enveredavam maioritariamente por um imaginário oscilante entre atavismos medievais e profecias espaciais, lendas arturianas e ficção científica polvilhada de ácido, os italianos apanharam a boleia deste balão rock insuflado por música clássica e pompa teatral, adaptaram-no ao seu modus vivendi ancestral e criaram um nicho sem paralelo na música popular do século XX. Haveria, porventura, género musical mais apropriado e que enfatizasse melhor o país do bel-canto, da verde Toscana, da moribunda mas imortal Veneza, da tão mediterrânica Sicília? Ao criarem uma música simultaneamente actual e remota, projectada para o futuro, mas embebida na Itália operática, cortesã e renascentista, inchada de um romantismo impossível de tão ideal e de uma beleza barroca de derreter icebergues, muitas destas bandas setentistas aproximaram o rock do Olimpo e das suas delícias; criaram ambientes de néctar e melodias de ambrósia. Da arca do tesouro, retiro hoje um rubi chamado Era di Acquario. Trio oriundo de Palermo, editaram, tal como muitas das bandas desta era dourada, somente um álbum, Antologia, no tal ano de 72. Mas que álbum! A abertura com laivos de flamenco de Campagne Siciliane abre caminho a uma flauta sublime que nos acaricia como um vento morno. O tema desenrola-se e leva-nos ao colo pelas aldeias brancas da costa siciliana, apetecendo mergulhar num Mediterrâneo osbcenamente azul. A este idílio segue-se Padre Mio, uma das poucas canções rock do álbum, urgente e carregada de dramatismo vocal, onde a guitarra revolta se entrelaça com a flauta melancólica. O ambiente amaina com a doce Idda, balada cintilante e balsâmica, entregue em voz serena. As três peças seguintes, curtas e instrumentais, são de uma beleza indescritível, que tem tanto de etéreo como de carnal. Solitudine percorre-nos como um pôr-do-sol estival, flamejante mas nostálgico. Vento d' Africa é mais uma melodia cálida e sensual, um convite ao enamoramento e a um copo de Frascatti para aliviar a canícula. Monica aus Wien, uma vez mais com a flauta a liderar, exala um romantismo inocente, algo de inatingível por ser tão breve, como cruzarmo-nos fugazmente com uma bela italiana que nos olha nos olhos e se afasta, deixando-nos apenas a impossibilidade do seu corpo e o odor do seu perfume. A fantasia termina com L' Indifferenza, canção de protesto em toada folk. Fuori al Sole é mais uma peça rock de belo efeito, ornamentada por uma guitarra que debita solos por entre uma solene mas fresca melodia. A toada eléctrica prossegue com Geraldine e a sua vocalização operática, exemplo vivo do cruzamento entre o groove do rock e as intricadas texturas da música clássica que os italianos fazem como ninguém. Antologia termina com Statale 113, que parece colocar os Byrds ou os Quicksilver Messenger Service a percorrer as estradas verdejantes da Umbria e com a flauta mágica em permanente encanto. No fim, passaram menos de 30 minutos. Tão pouco tempo para tanta beleza e qualidade. É melhor voltar à primeira faixa e apaixonarmo-nos novamente...

14 de maio de 2009

Pop Art

Se houvesse uma tríade das bandas britânicas mais marcantes e influentes de sempre, elas seriam, certamente, os Beatles, os Rolling Stones e os Kinks. Se a este trio intocável pudéssemos acrescentar uma quarta banda, que, para além de resumir as anteriores, fosse igualmente dotada de inteligência, ironia, inovação, longevidade e capacidade de reinvenção, essa trupe seriam os XTC. Desde a sua criação em meados dos anos 70, o quarteto inicial de Swindon Town (que entretanto passou a trio, passando posteriormente a duo e que, pelo meio, mudou de nome...) sempre assumiu uma postura vincadamente inglesa, cuja rigidez, apesar de multicolorida e multifacetada, nunca lhes abriu as portas para audiências pouco ou menos anglófilas. A música, essa, é intemporal, melódica sem ser orelhuda, acessível sem ser comercialona. O percurso musical e artístico dos XTC pode ser caracterizado como um longo processo de regresso às raízes, da urgência urbana e New Wave impregnada de guitarras angulares e ritmos nervosos dos primeiros álbuns ao verdadeiro artesanato em forma de canções que são os seus discos mais recentes. Tal como os Beatles emergiram da caverna de Hamburgo numa sucessiva depuração e experimentalismo sonoros, sem nunca abdicarem da eterna demanda pela melodia perfeita, assim os XTC evoluíram ao sabor do tempo, de putos frenéticos a alquimistas da canção. Tal como os Beatles, que abandonaram os palcos em 1965, utilizaram o estúdio como mais um aliado na arte da criação, assim os XTC, forçados a desistir de tocar ao vivo em 1982 por fobia incontrolável e incurável dos palcos do vocalista Andy Partridge, se apropriaram das maravilhas da técnica para gerarem os melhores álbuns de música popular desde o fim dos Fab Four.
White Music e Go 2, os dois primeiros álbuns da banda, são discos carregados de uma energia juvenil embebida no espírito punk que dispara em todas as direcções, mais frenéticos que melódicos. Do primeiro, realce para os nervos em franja de Science Friction e Radios In Motion e para uma versão de All Along The Watchtower tão estranha como imaginar Bob Dylan de moicana. Do segundo, merecem destaque Meccanik Dancing (Oh We Go!), cujo nome diz tudo e Crowded Room, tema que parece antecipar a faceta mais nerd dos Blur.
Com Drums and Wires, de 1979, chega a primeira obra relevante dos XTC. A tensão quase permanente e as guitarradas robóticas mantém-se, mas o ambiente lentifica-se, surgindo pelo meio rasgos melódicos memoráveis e canções com cabeça, tronco e membros, tais como a eterna Making Plans for Nigel e a circular Ten Feet Tall. Para além dos dois vocalistas e compositores de serviço, Andy Partridge e Colin Moulding, o genial baterista Terry Chambers revela um desempenho superlativo nos ritmos sempre intrincados e complexos do álbum. No ano seguinte, surge outra obra quase perfeita: Black Sea continua na senda do disco anterior, mas toda a sonoridade é agora mais pujante e as guitarras debitam confiança a cada acorde. Generals and Majors, Towers of London e Respectable Street são verdadeiros clássicos e, nesta fase, os XTC começam a distinguir-se pelos videoclips plenos de humor e sátira à sociedade em geral e britânica em particular.
A primeira obra-prima chega em 1982, com English Settlement. Trata-se de um álbum eclético e variado, onde instrumentos eléctricos se imiscuem com acústicos e onde ambiências da Inglaterra rural e campestre convivem lado a lado com o cinzentismo urbano. Se, até esta altura, os temas mais fortes dos XTC eram os singles, neste disco é difícil identificar pontos altos. Da ambiência folk e pastoral cruzada com batidas marciais de Runaways à toada épica de Jason and the Argonauts, da ziguezagueante Fly on the Wall à magistral Senses Working Overtime, English Settlement é um dos melhores álbuns dos anos 80.
Com Andy Partridge em colapso e portador de fobia latente, os XTC tornam-se, então, banda de estúdio e um trio. O primeiro álbum a surgir depois desta nova condição, Mummer, não projecta a sombra grandiosa do seu antecessor, mas está igualmente recheado de bons momentos. A ambiência pastoral acentua-se e a toada é maioritariamente acústica. As fatias mais suculentas deste bolo, serão, provavelmente, Wonderland, Ladybird e Love on a Farmboy's Wages. A contrastar com a atmosfera recatada de Mummer, The Big Express, álbum que lhe sucede, é uma das obras mais contraditórias dos arquivos dos XTC. Apesar da qualidade indiscutível dos temas, o álbum encontra-se submergido numa produção excessiva, típica da década de 80, e é difícil encontrar o encanto no meio de tanto e tão desnecessário gongorismo. Mesmo assim, e como todos os álbuns da banda a partir de Drums and Wires, é uma obra de escuta obrigatória, e temas como I Remember the Sun, Wake Up e All You Pretty Girls deixam antever a perfeição que se seguiria.


Intermezzo

Algo de psicadélico parecia pulsar no ventre dos XTC desde os tempos de English Settlement. Elementos de acid folk borbulhavam em canções como Runaways e Wonderland. Quiçá por esta contaminação ou pelo som excessivamente polido de The Big Express, o grupo decidiu reinventar-se como entidade praticante de uma espécie de rock de garagem psicadélico. Apresentando-se ao mundo como The Dukes of Stratosphear e envergando vestes algures entre os Beatles de 1967 e os Seeds, este alter ego dos XTC lançou em 1985 um excelente EP intitulado 25 O'Clock. Este mergulho inesperado e revigorante nos anos 60 não tem falhas, sendo que o tema-título, uma espécie de pastiche dos Electric Prunes é um clássico instantâneo. O sucesso deste EP, levou a que os Dukes of Stratosphear lançassem ainda um álbum, Psonic Psunspot, em 1987. Assente em mais um duche de guitarras fuzz, flower power e melodias caleidoscópicas e solarengas, complementa condignamente o EP anterior. Como estes ingleses pensam em tudo, juntaram as duas edições numa só e baptizaram-na Chips from the Chocolate Fireball, obra essencial em qualquer lar melómano que se preze.

Fim do Intermezzo

A produção exacerbada de The Big Express e o fetiche psicadélico propagado pelos Dukes of Stratosphear convergiram para dar origem à segunda obra-prima da carreira dos XTC. Skylarking, álbum de 1986, foi produzido por Todd Rundgren, homem que, para além de discos requintados, de fino recorte e alguma loucura lançados ao longo dos anos 70, já tinha sido peça-chave no colectivo norte-americano de laivos garage e psicadélicos The Nazz. Foi para criações como Skylarking que foi inventado o termo pop perfeita. O início de Summer's Cauldron é o equivalente a um nascer do sol lisérgico mas benfazejo, que nos vai levitando até derramar-nos na planície verdejante e refrescante de Grass. A partir daqui, somos guiados numa autêntica viagem pelo jardim das delícias de um Verão perpétuo, do psicadelismo naïf de The Meeting Place à cascata sonora de Mermaid Smiled, com término no enterro estival de Sacrificial Bonfire. Não é em vão que este disco tem sido comparado aos icónicos Sgt. Pepper's e Pet Sounds, pois é uma das obras mais criativas e luxuriantes de sempre da música popular. Depois de tal magnitude criativa, aos XTC só restava manter o nível. E conseguiram-no nos dois álbuns subsequentes, Oranges & Lemons e Nonsuch. O primeiro é um disco de acentuada maturidade, continuando a abraçar o psicadelismo do seu antecessor, mas de forma mais adulta e estilizada. As canções continuam portentosas, como se pode apreender em King For a Day, The Loving e Miniature Sun. Os arranjos mantém o bom gosto e a luminosidade de sempre, se bem que mais sóbrios. Nonsuch mantém a fasquia elevada e é mais uma pequena pérola de qualidade criativa no marasmo musical de 1992. Melodias meticulosas, detalhes irrepreensíveis e um bom gosto recorrente atravessam o álbum de ponta a ponta, com destaque para a sátira à igreja organizada em The Ballad of Peter Pumpkinhead e para as sublimes The Disappointed e Wrapped In Grey. O perfume dos Beatles exala das admiráveis Dear Madam Barnum e Holly Up On Poppy e o álbum apresenta uma progressiva tonalidade outonal que, intencionalmente ou não, iria dar início a um hiato de 7 anos na carreira da banda.
Após anos de luta com a Virgin, que os impossibilitava de editar discos sem ser por esta editora, os XTC libertam-se do jugo e assinam um dos mais estranhamente belos álbuns da sua carreira: Apple Venus Volume 1. Dominado por uma pop acústica e orquestral, parece prolongar a vigília outonal que transparecia na parte final de Nonsuch. Reduzidos a duo após a saída de Dave Gregory, Andy Partridge e Colin Moulding compõem com a qualidade de sempre e experimentam como nunca. O início de River of Orchids é mais parecido com qualquer peça de Varèse ou Steve Reich do que com uma banda pop de Swindon Town; a soberba Your Dictionary possui um magnífico jogo de palavras e Andy Partridge debita bílis como nunca o ouvimos; I Can't Own Her é tremendamente melancólica, assim como a despedida contida de The Last Balloon; I'd Like That e Easter Theatre são os temas onde os XTC mais clássicos transparecem, e onde a claridade é mais límpida; Knights in Shining Karma e Harvest Festival respiram tranquilidade e um bucolismo nostálgico.
No ano seguinte, é editada a sequela, Wasp Star (Apple Venus Volume 2). Sequela somente no nome, dado que se trata de um álbum totalmente díspar do seu antecedente. Se o primeiro volume de Apple Venus era dominado por ambientes pastorais e atravessado por uma melancolia eminentemente acústica, o segundo volume é, grosso modo, o álbum mais roqueiro e directo dos XTC. Assente na base guitarra, baixo e bateria, é povoado invariavelmente pelo mesmo tipo de atmosfera ao longo dos seus 50 minutos de duração, tal como o seu parente o era. A diferença quase abismal de ambiência faz-se sentir logo nos dois temas iniciais, os efusivos Playground e Stupidly Happy. Colin Moulding colabora de forma magistral com In Another Life (possivelmente o melhor tema do álbum) e o minimal mas excelente Boarded Up.
Ainda não se sabe se foi este o canto do cisne dos XTC. Para além de uma ou outra compilação de raridades da praxe, nenhum material original da banda é lançado desde 2005. Correram rumores que Moulding mudou de morada e telefone sem avisar o companheiro musical de longa data, o que torna difícil a comunicação de quem pretende fazer música em conjunto. De qualquer forma, o que já foi construído por estes mestres artesãos está assente em estacas bem firmes e o seu lugar garantido no panteão dos grandes estetas da música popular.
Serão os verdadeiros herdeiros do legado dos Beatles? Mais que isso, os seus dignos sucessores. A mais inglesa das bandas desde os Kinks? Absolutamente. E os Rolling Stones desta vez não são para aqui chamados...


Estado Crítico


Em tempos de crise e acerca da crise, nada melhor que um livro gratuito que expõe e interpreta as suas causas e consequências, apresentando em simultâneo alternativas à sua resolução. La Crísis Financiera: Guía para entenderla y explicarla de de Juan Torres López e Alberto Garzón Espinosa é, acima de tudo, uma obra séria e bem estruturada, clara e concisa, transversal a todos os públicos que consideram a crise económica actual algo mais profundo e complexo que tema de abertura de telejornais e bode expiatório para todos os males que assolam a sociedade. O download pode ser feito no interessante site http://www.altereconomia.org/, mais propriamente neste exacto local .

26 de abril de 2009

Meditations

Tornou-se um lugar-comum afirmar que, por detrás de um grande homem, existe uma grande mulher. Na maioria dos casos, no entanto, essa mulher permanence na sombra, como uma presença latente e obscura, oráculo que ilumina e orienta, mas nunca é banhada pelo spotlight. O trabalho de Alice Coltrane como compositora e intérprete de jazz sempre foi ofuscado pelo génio e brilhantismo do seu esposo, o gigante John Coltrane. Ambas as obras se regem por uma espiritualidade imensa, mas, ao mesmo tempo, por uma dualidade masculina e feminina, pelo yin e yang que faz com que pólos opostos se atraiam. Se John era a força e a energia, a comunicação com o divino pela prostração e pela exaustão, Alice era o misticismo e a clausura, a flor que desabrocha ao sol e se fecha à noite. Ptah, the El Daoud, majestoso álbum de 1970, e o seu terceiro a solo, é um disco de revelações. A melodia austera e solene que abre caminho à improvisação em lume brando do tema-título é, desde logo, convite a uma meditação que, para além da exégese, injecta sucessivamente doses de prazer auditivo a quem se deixar levitar. Tomando a levitação como mote, o jazz cósmico, nocturno e nebuloso de Turiya and Ramakrishna, comandado pelo piano dolente de Coltrane e pelo chocalhar tibetano dos sinos, é balsâmico e envolvente. Blue Nile faz jus ao nome, com a harpa multicolorida da senhora e as flautas serpenteantes e misteriosas de Pharoah Sanders e Joe Henderson a transportar-nos numa viagem onírica ao longo do Nilo, iluminados por um sol incandescente e opulento. Um jogo de luz e sombras, verdadeiro alimento para a alma... No fim, Mantra, peça que nos arrasta na corrente emotiva dos saxofones tenor de Sanders e Henderson, em duelo e em transe, a espalhar caos como um turíbulo até ao final, onde o círculo se fecha e a união das partes é total. Numa altura em que o jazz se voltava para Oriente ou para civilizações arcaicas e para o seu misticismo em busca de inspiração, este disco continua a ser uma experiência única, especialmente pela busca dos intérpretes em alcançar a transcendência através da música e de como algo de realmente espiritual se manifesta a quem mergulha nestas melodias e intrincadas improvisações que escorrem como lava...

9 de abril de 2009

Krautrockbible

Em 1995, o excêntrico Julian Cope publicou um livro seminal e fonte de inesgotável deleite para quem se interessa pela música alemã dos anos 60 e 70. Krautrocksampler: One Head's Guide to the Great Kosmische Musik - 1968 Onwards é uma obra que descreve a génese e a expansão da cena underground alemã, assim como as suas personagens mais emblemáticas e discos de referência.
O ex-vocalista dos Teardrop Explodes escreve sobre esta música e sobre o folclore que a rodeia com um entusiasmo e uma subjectividade ao mesmo tempo sinceros e coloridos, o que torna o livro um acto de reverência de um adepto fervoroso do krautrock, ao invés de mais uma insípida verborreia de qualquer crítico musical.
Para além da narração apaixonada de episódios lendários, orgias massivas, uso e abuso de psicotrópicos e tarologia, Cope elabora a sua lista dos 50 melhores discos de sempre dentro deste género, mostrando alguns deles ao mundo pela primeira vez como as obras-primas inestimáveis e insubstituíveis que são, da genialidade musical que encerram às belíssimas capas que as guardam...
Infelizmente, o livro encontra-se esgotado há bastante tempo, não havendo previsões para a sua reedição. É possível encontrar cópias usadas no e-Bay ou no Amazon, ou, se o culto roçar o fanatismo, tentar a sorte em qualquer alfarrabista da londrina Charing Cross. À guisa de conclusão, apresento um guia descritivo, mas sem alma, desta corrente, denominado The Crack In The Cosmic Egg. Um resumo significativo do mesmo pode ser encontrado aqui. Ninguém lhe tira o mérito de ser um compêndio exaustivo, mas não pode ser comparado à obra fundamental e dedicada do druída de Tamworth.