19 de agosto de 2009

The Colour of Spirit

Desde sempre, os Talk Talk pareceram uma banda à margem, inadaptada, deslocada. Uma pedra na engrenagem, mas que ao mesmo tempo a faz mover para tomar outro rumo. Provavelmente por não saber onde os encaixar quando surgiram, a crítica britânica inseriu-os no caldeirão bizarro e, na sua maioria, inconsequente, do movimento neo-romântico de inícios de 80. Efectivamente, no seu primeiro álbum, The Party's Over, de 1982, a banda apresenta-se, a espaços, como um pastiche dos Duran Duran. Caso flagrante são os singles Talk Talk e Today. No entanto, momentos como Candy ou o próprio tema-título, aproximam-nos mais dos Ultravox ou da infância dos Japan que de poster bands como os ouriçados Kajagoogoo. Coisa saudável nos Talk Talk foi que nunca se identificaram como banda pretendente a arrebatar corações de adolescentes ou candidata a aparecer na capa da estridente revista Bravo. Provavelmente pela noção que os três rapazes não eram nenhumas estampas (Mark Hollis tem uma voz que ridiculariza Simon Le Bon, mas este último é mais fotogénico...), a música levou sempre a melhor sobre a imagem.
Em 1984, surge a primeira prova que os Talk Talk eram mais que outra banda de sintetizadores, camisas brancas, finas gravatas pretas e penteados exuberantes. As influências continuam, presentes mas difusas, sendo a mais palpável neste período os Roxy Music da era disco glam de Manifesto. De qualquer forma, a banda começa a ganhar identidade própria vincada em canções excepcionais como Such a Shame ou It's My Life, tema que dá igualmente título ao seu segundo álbum. Mark Hollis aperfeiçoa já o seu estilo vocal único, simultaneamente contido e dramático, capaz de arrepiar num momento e apaziguar no seguinte. A música abre espaço a maiores subtilezas, torna-se mais arrojada e complexa, deixando-se arrastar para uma beleza melancólica, especialmente em peças como Tomorrow Started ou a magnífica Does Caroline Know?.
Em 1986, com The Colour of Spring, os Talk Talk alcançam o panteão reservado aos estetas da pop. Àqueles que fazem da música mais que consumo de massas e tinta para pintar as paredes das estações de rádio. Ao seu terceiro disco, o trio londrino torna-se influência para muitas das bandas que surgiram depois, fazendo o seu legado prevalecer até à actualidade. Disco assombrado por uma etérea e hipnótica magia, cada canção parece fazer jus à capa, onde borboletas multicoloridas se alinham num todo que é diferente da soma das partes. The Colour of Spring é atravessado por uma atmosfera de tímido mas sintomático experimentalismo, ritmos intrincados e sumptuosas melodias, em que as guitarras assumem um papel de charneira. Dissertações sobre a vida e a morte, evocações de juventude e inocência, de amor e de perda constituem a espinha dorsal lírica do álbum. Todos os oito temas que o compõem são fora de série, com destaque óbvio para o pulsante Living In Another World e para o ritmo sincopado conjugado à secura da guitarra de Life's What You Make It. Os ambientes de rara beleza, oníricos e envolventes, de April 5th e Time It´s Time são igualmente pontos de paragem obrigatória. Contudo, é o intrigante e despojado Chameleon Day que perdurará como peça fracturante na história deste disco. Após este tema, os Talk Talk nunca mais seriam os mesmos. A editora não os reconheceria neste tipo de sonoridade. O público mais prosaico também não. E eles editam Spirit of Eden.
Spirit of Eden é o disco onde os fantasmas de Mark Hollis se sobrepõem às imposições da realidade. É um disco anti-pop, pontuado por tonalidades jazzísticas esqueléticas e por nuvens esporádicas de um blues descarnado. É um disco de música esparsa, mas onde tocam mais de uma dezena de músicos e onde latejam uma urgência e uma intensidade viscerais, mascarados pela ambiência geral de aparente tranquilidade. Na medida em que utiliza instrumentos ligados ao rock para fazer música que soa a tudo menos a isso, podemos afirmar com legitimidade que Spirit of Eden é o primeiro álbum de pós-rock de sempre. Antecede em cinco anos a estética dos Labradford, dos Bark Psychosis, ou até dos Tortoise. Datado de 1988, influencia de sobremaneira bandas como os Radiohead ou os Sigur Rós.
O álbum funciona como um contínuo, não podendo apontar grandes variações entre os temas, dado que todos partiram de uma base experimental que depois foi depurada até ao resultado final. Ecos do John Coltrane mais místico despontam pontualmente, assim como pináculos da música de câmara ou para cordas de Debussy ou Charles Ives. A tónica é toda ela avant-garde, o que torna o álbum uma experiência única mas exigente, que necessita de sucessivas audições para ser apreendida em pleno. De preferência na obscuridade, dado que grande parte do álbum foi produzido com a banda imersa na escuridão. E, ainda hoje, temas como o lindíssimo e comovente I Believe In You, o inóspito The Rainbow, o intra-uterino Wealth ou a explosão inesperada de Desire provocam arrepios na espinha e entranham-se na pele de muitos melómanos de superior bom gosto e mente aberta ao experimentalismo. Obviamente, e devido ao facto de ser uma obra-prima visionária, Spirit of Eden não vendeu nada e os Talk Talk transformaram-se numa banda alternativa...
Uma das vantagens de ser uma banda pária, ou vanguardista, ou caída em desgraça, é que pode fazer tudo o que lhe dá na bolha. Laughing Stock, álbum de 1991 que sucedeu a Spirit of Eden, tece uma nova tapeçaria de sons a partir das farripas do seu antecessor. Isto não significa que o disco seja um clone do seu par, na medida em que continua a trilhar novas sonoridades, chegando mesmo a suplantá-lo por diversas ocasiões e colocando os Talk Talk num mundo definitivamente à parte. No entanto, mantêm-se as estruturas esqueléticas, as texturas minimais e o improviso do jazz, sendo que o álbum foi lançado pela famosa editora Verve. Myrrhman abre o álbum na costumeira toada sombria, e é guiado pela penumbra por um violino de partir o coração mais empedrenido. Ascension Day podia ser um faixa perdida dos tempos áureos dos Soft Machine, toda ela atravessada por um ritmo jazzístico circular a que juntam estertores de guitarra e remoínhos de harmónica. After the Flood é uma lenta mas cadente marcha, onde a bateria se assemelha à chuva que cai morosamente e a guitarra corta como vento. A voz de Hollis é, desde há muito, um instrumento a juntar aos demais, e não apenas fonte de palavras cantadas. A aparição espectral e sonâmbula de Taphead confirma novamente a certeza que os Talk Talk foram os inventores do pós-rock. New Grass é longa, contemplativa e outonal, convidando ao recolhimento. Segundo consta, o álbum foi gravado num estúdio iluminado somente por velas e onde incenso ardia incessantemente. Nesse sentido, Laughing Stock assemelha-se a uma experiência religiosa, de um misticismo confesso e de uma beleza tão extrema que não precisa de ser física, mas somente espiritual para se manifestar. Runeii fecha as portas ao álbum, com uma guitarra solitária e dormente e faz igualmente cair o pano em definitivo sobre os Talk Talk...

Appendix

Após a separação da banda, os seus principais membros envolveram-se em projectos a solo mais ou menos relevantes. Mark Hollis, vocalista e principal mentor da pandilha editou um único álbum, homónimo, em 1998, e retirou-se da música desde então. Os sete anos passados entre o seu último registo e a sua única obra em nome próprio parecem ter acentuado ainda mais a veia minimal e intimista de Hollis. O disco é música de esqueleto exógeno e a economia de meios é levada ao limite, sendo que as canções se aguentam na corda bamba e no limiar do silêncio. Isto faz com que cada palavra e cada nota ressoem com uma intensidade redobrada. Extremamente melancólico, mas sem ser desesperado, Mark Hollis é poético, arrojado e diferente de tudo o resto que ouvi até hoje. Canções esparsas como a belíssima The Colour of Spring ou a estilhaçada A Life (1895-1915) assombram como paisagens nunca vistas e intrigam como dédalos. Sente-se ainda a influência do jazz em temas como The Daily Planet, mas é um jazz desmembrado, com as entranhas expostas, o que perdura ao longo de todo o álbum. Toda a gente devia ouvir isto pelo menos uma vez, para ficar a amar ou a odiar este génio. Assim, sem meio termo, pois a música também é extremista.
O baixista Lee Harris e o baterista Paul Webb fundaram o projecto .O.Rang, que editou dois álbuns e um EP na mesma linha dos dois últimos álbuns dos Talk Talk e que merecem uma curiosa audição. Mais recentemente, em 2002, Webb adoptou o pseudónimo Rustin' Man e assinou, em conjunto com Beth Gibbons um dos melhores álbuns desse ano, o fabuloso Out of Season, pleno de ressonâncias outonais e reminiscências pastorais.
O teclista e segundo compositor da banda, Tim Friese-Greene, por vezes conhecido como Heligoland, tem produzido discos intermitentes, sendo que o seu mais recente álbum, 10 Sketches For Piano Trio vale muito a pena ouvir.
Da electrónica pomposa e sintetizada ao pós-rock etéreo e descarnado, a música dos Talk Talk foi um contínuo despojamento de tudo o que é supérfluo até à mais monástica das clausuras. Ao ver os vídeos abaixo, e exceptuando a voz característica de Mark Hollis, consegue vislumbrar-se a evolução da banda em 1984, 1986 e 1988...


Talk Talk - It's My Life (UK Version)
Enviado por EMI_Music. - Explore outros vídeos de música.


Talk Talk - Living In Another World
Enviado por EMI_Music. - Clipes, entrevista dos artistas, shows e muito mais.


Talk Talk - I Believe In You
Enviado por EMI_Music. - Explore outros vídeos de música.

17 de agosto de 2009

Silly Season

É Agosto, o calor acossa-nos impiedosamente e o H1N1 penetra-nos sem o mínimo de decoro e romantismo. A recessão não dá tréguas e o Diário Económico de hoje informa que o desemprego só deverá entrar em queda em 2011. O Benfica empata imerecidamente em casa. Que fazer perante esta conjunção de eventos? Que fazer para a esquecer, nem que seja por breves momentos? Escutar os Happy Mondays é uma boa opção.
Não me recordo de outra banda em que o hedonismo reinasse com tanto despotismo e cuja atitude se centrasse tanto em viver todos os dias como se fossem o último. Divertimento puro e duro. Excessivo e irreverente até à medula, fuzilando a moral e espancando os bons costumes. Em poucas mas sábias palavras foram definidos como 24 Hour Party People e o epíteto assenta-lhes que nem uma luva.
Oriundos da Manchester cinzenta mas polvilhada de cor de meados de 80, os Happy Mondays foram uma das bandas mais importantes da Factory, um misto de editora musical, cartel de droga e hospício fundada pelo jornalista Tony Wilson. A sua história é sobejamente conhecida, principalmente pelo estilo de vida pouco ortodoxo dos membros da banda. Pouco ortodoxa é igualmente a sua música, principalmente a contida nos primeiros três álbuns do grupo. Uma mistura venenosa e contagiante de psicadelismo, soul e ritmos funk e house. Tudo isto encimado pela voz desconcertante e intoxicada de Shaun Ryder, um dos mais pitorescos frontman que a música já conheceu, e pelas danças símias e desengonçadas de Mark Berry, universalmente conhecido como Bez. Este último merece uma especial palavra de apreço, dado ser o único membro da banda que não toca nenhum instrumento. Apenas dança, com o seu par de maracas e os seus olhos esbugalhados. E quando não dança, apenas está.
No ano de Sua Majestade de 1987, sai para as ruas o primeiro álbum da banda. Ainda hoje me custa lembrar do seu nome na totalidade, dado que se intitula Squirrel and G-Man Twenty Four Hour Party People Plastic Face Carnt Smile (White Out). Produzido pelo insuspeito mestre vanguardista John Cale, é um disco onde, apesar dos ritmos infecciosos, reinam as guitarras, e onde Shaun Ryder se aprimora já como especialista em letras tão obscuras como nonsense. Temas como 24 Hour Party People e Tart Tart são dançáveis e caóticos em simultâneo, embrionários na forma como aliam a festa a uma sensação de que o amanhã não irá chegar e, caso chegue, será negro. Kuff Dam e Olive Oil aproximam-se mais do som clássico das guitarras das bandas de 80, mas sempre com um groove inerente que obriga o corpo a mexer-se. Esta primeira obra é ainda um pouco contida, sendo que a produção de Cale emagrece alguns dos temas, tornando o ambiente geral numa espécie de celebração cinzenta. De qualquer forma, é um excelente disco na forma como transporta o ambiente festivo para a Manchester opressiva, industrial e thatcheriana, influenciando-a e, em simultâneo, sendo influenciado por ela.
A loucura controlada por John Cale transforma-se na loucura declarada por Martin Hannett no surreal Bummed. O segundo longa-duração dos Happy Mondays, datado de 1988, beneficia e muito da produção do genial Hannett, homem mais dotado para este tipo de aventuras musicais. Li algures há muito tempo que este álbum parece ter sido gravado numa masmorra subaquática. Sinceramente não me ocorre termo mais adequado para descrever este disco. Uma autêntica rave party claustrofóbica, preenchida por reverbs ecoantes, ritmos opulentos e uma atmosfera geral de decadência lasciva e hedonismo feroz. Shaun Ryder é a epítome do poeta ébrio, do liricista tóxico, que dispara ironia, sarcasmo, bílis e joie de vivre em simultâneo. Country Song abre o álbum com estas inolvidáveis estrofes: I'm a simple city boy / With simple country tastes / Smoking wild-grown mari-jo-wana keeps that smile on my face. Mais à frente, em Mad Cyril: Although our music and our drugs stayed the same / Although our interests and our music stayed the same / We went together, druggers from the well / We've smoked together and we slipped down in hell. Ainda em grande estilo, Fat Lady Wrestlers reza o seguinte: I've just got back from a year in the sack /Must have been something i'm eating/ I've just got back from a year away / It's down to something you're drinking. Em suma, um manancial lírico que nunca sabemos ser possuidor de algum significado metafísico ou se é mesmo só para rimar... Por esta altura, Manchester mudava o nome para Madchester e a música de dança psicadélica e subterrânea dos Mondays era a fotografia no seu novo B.I.. Bummed é um excelente cartão de visita para a génese deste movimento, especialmente através de sevícias e malícias, melódicas e repetitivas, como Wrote For Luck ou Lazy Itis. Destaque igual merece a dança lisérgica do single Hallelujah, de 1989, o último sob a batuta de Hannett, e umas das melhores canções da banda.
Se com Bummed os Happy Mondays nos arrastam para o seu submundo e nos aprisionam em gaiolas dançantes, o álbum seguinte consuma a festa interminável no mais colorido e luminoso dos hedonismos. Pills & Thrills and Bellyaches, editado em 1990 é a coroa de glória da banda e o orgásmico apogeu da Madchester. Na cadeira de produção, Paul Oakenfold inflinge à banda uma sonoridade mais límpida e mais dançante que nunca, mas igualmente mais ácida. Isto é música hippie na era do MDMA e flower power nas pistas de dança. Irresistivelmente convidativo e contagiante do princípio ao fim, este álbum é capaz até de pôr um sorriso na cara de Manuela Ferreira Leite. Grooves imensos e obnubilantes transbordam por todo o lado, sem dar tréguas, sem parar a celebração. Como se não houvessem amanhãs nem ressacas. Como se não nos devêssemos ralar, pois vamos morrer na mesma e o melhor é fazê-lo em festa. As letras de Shaun Ryder seguem a senda costumeira, com o brilhante e já clássico Kinky Afro a abrir com a confissão: Son, I'm 30 / I only went with your mother 'cause she's dirty. A faceta mais romântica do artista surge em Bob's Yer Uncle onde são atirados a Rowetta, cantora que, por estes dias, é membro honorário da trupe, versos como: What do you want to hear when we're making love / Can I take you from behind and feel you in my heart ou, segundos adiante, Four fall in a bed, three giving head, one getting wet. O efeito das palavras de Ryder é, como sempre, quase tão narcótico como a música, que tem o poder de nos anular o pensamento e nos deixar nos braços de um saboroso esquecimento. De todos os magníficos temas que compõem o álbum, há que nomear igualmente o intemporal Step On, a viagem alucinada de Dennis and Lois, o hino ao ecstasy de God's Cop (a frase God rains it E's all on me diz tudo...) e a homenagem às roupas largas características da cena baggy em Loose Fit. Na hilariante e solarenga Holiday ficamos igualmente a conhecer o ideal de férias de Shaun Ryder: I'm here to harass you / I want your pills and your grass you / You don't look first class you / Let me look up your ass you / I smell dope, I smell dope, I smell dope, Fine smelling dope...
Com a vida desregrada e de excessos a começar a exigir os seus dividendos, os Happy Mondays foram eleitos por Tony Wilson salvadores da arruinada Factory e enviados para gravar um álbum que a salvasse da bancarrota. Enviado para Barbados para a sua concepção, o grupo preferiu dedicar-se aos prazeres do recém-descoberto crack, negligenciando a música e afogando-se na produção sensaborona do casal ex-Talking Heads Tina Weymouth & Chris Frantz. Yes, Please! foi editado em 1992, mas, se não o tivesse sido, ninguém daria pela sua falta. A carreira da banda entrou então numa toada de parada-resposta, mas que em nada se assemelha ao futebol britânico. Após uma mão-cheia de compilações, reuniões esporádicas, um projecto com alguma piada de Shaun Ryder e Bez denominado Black Grape e um mediano álbum a solo do cantor chamado Amateur Night At The Big Top, os Happy Mondays regressaram com novo álbum de originais em 2007. Unkle Dysfunktional possui bons momentos, como em Jellybean ou Cuntry Disco, mas nada que se compare com o brilhantismo do passado. Nesse sentido, o melhor último álbum dos Mondays continua a ser o primeiro álbum dos Black Grape, o espalhafatoso, caleidoscópico e revigorante It's Great When You're Straight...Yeah! de 1995.
Agora, e à medida que os Verões se sucedem, resta a nostalgia daqueles tempos gloriosos entre 1988 e 1991, em que o hedonismo imperava sem complexos de culpa, em que a Hacienda era onde um homem quisesse e onde duetos improváveis como este entre Shaun Ryder e Karl Denver estavam na ordem do dia...

10 de agosto de 2009

Uma Jukebox na Roménia


No que concerne a países adeptos e impulsionadores de música popular de influência anglo-saxónica e norte-americana, confesso que a Roménia não é o primeiro nome que me surge. Mas os tempos mudaram desde os anos herméticos e penumbrentos de Ceausescu por terras da Transilvânia. Ao navegar pela web em horas mortas, descobri recentemente um site romeno que disponibiliza 1001 álbuns completos e prontos a ouvir. De 1955 a 2005, começando com In The Wee Small Hours de Frank Sinatra e terminando em Get Behind Me Satan dos White Stripes, deparamo-nos com um enorme e eclético festim musical. Apesar de ser uma lista do género "1001 álbuns a ouvir antes de morrer" e de não trazer grandes surpresas para além dos clássicos obrigatórios, trata-se de uma súmula dos discos mais históricos e agraciados da segunda metade do século XX e da aurora do século XXI. Para aumentar a auto-estima da nação do Conde Drácula poderia ter sido incluído o álbum Cantofabule dos Phoenix. Obra de 1975, é um magnífico híbrido de rock progressivo e influências étnicas, tendo sido já considerado o melhor disco de sempre lançado por uma banda romena. Mas não se pode ter tudo, e o rol patente no site já entretém de sobremaneira. Tudo se passa em http://www.radio3net.ro/dbalbums/albume1001.

26 de julho de 2009

Kosmische Kosmetik VII

O segundo álbum dos Agitation Free, editado em 1973, e simplesmente intitulado 2nd, é um prodígio na classe do Krautrock mais ambiental e atmosférico. Obra construída, maioritariamente, em torno das guitarras vagueantes e transcendentes dos grandes Lutz Ulbrich e Stefan Diez, 2nd é um disco luxuriante, esmagadoramente instrumental e onde as melodias cálidas e planantes se congregam a momentos de improvisação que convidam ao abandono e induzem um estado de relaxamento deveras prazenteiro. A bruma que inicia First Communication dissipa-se aos poucos, com a suave invasão das guitarras. Primeiro, o tímido dedilhar de Lutz Ulbrich, depois, o eco divino do mago Diez, num transe crescente, virtuoso mas libertador. Os restantes membros da banda fazem o que lhes compete, sustendo a morna quietude até aos momentos finais, em que um súbito mas suave ataque rítmico engole o tema num estertor quase orgásmico. Dialogue & Random é interlúdio experimental, com ecos de música concreta, que lança chispas de Stockhausen durante a sua breve duração, até que um golpe de piano a silencia. Surge a curta mas sublime primeira parte de Laila, onde, após a excelente introdução do baixista Michael Günter, Stefan Diez se excede novamente pela positiva na forma como consegue com que a sua guitarra envolva num ciclone de prazer quem a ouve. Mas nada como o genial Laila, Part 2 para destacar o talento excepcional deste quinteto berlinense. Sobre uma base rítmica jazzística, vai sendo colorido um quadro melódico improvisado que culmina numa gloriosa pincelada de guitarras que tem de ser ouvida para se acreditar nela. Belíssimo tema do princípio ao fim, a guitarra mais trippy que nunca de Stefan Diez é capaz de dar vida a um morto.
In The Silence Of The Morning Sunrise, que principia com o canto de pássaros, atenua a ambiência, muito graças ao superlativo desempenho de Michael Hoenig nas teclas que acompanham as seis cordas, o que confere ao tema uma brisa pastoral e estival muito remanescente da onda west coast americana. Escutar este tema é como vaguear por um bosque numa manhã de Verão, onde a sombra revigora e o Sol surge, a espaços, por entre a viçosa folhagem das árvores. Esta vertente prolonga-se por A Quiet Walk, 9 minutos deambulantes por veredas electrónicas e planícies intercortadas pela singular sonoridade do bouzouki de Lutz Ulbrich. O instrumento grego inflecte algo de mediterrânico na música, a proximidade do mar, o aroma do restolho...
A terminar, o único tema vocalizado do disco. Numa atmosfera assombrada e onírica, ácida até à medula, Burghard Rausch recita Dreamland, poema de Edgar Allan Poe, como se o fizesse dentro de um escafandro dos inícios do século XX. Alimentada a mellotron, esta peça é nada menos que penetrante, possuíndo o condão de deixar vidrado e perdido nesta terra de sonho o feliz ouvinte que a procura. Densa e acessível em simultâneo, esta música é um panegírico para a alma. Em 2nd dos Agitation Free encontra-se mais um excelente álbum dos anos 70, Krautrock possuído por espíritos jazzísticos, brisas west coast e alguns pozinhos de progressivo que não matam nem moem. Imprescindível e muito aconselhável para quem, como eu, sofre de uma paixão assolapada pela Costa Vicentina. É banda-sonora perfeita para conduzir pelas estradas rodeadas de campo avermelhado pelo Sol e experienciar as praias semi-desertas daquele paraíso. Pelo que tenho oportunidade de experienciar naquelas paragens, muitos alemães sentirão o mesmo.

25 de julho de 2009

10 Durienses


Entristeceu-me bastante o facto de o vale do rio Douro não passar à última fase das Novas 7 Maravilhas da Natureza. Quem conhece bem aquela paisagem, sabe que é única e incomparável. Para além da majestosa beleza e do plácido e luminoso leito do rio, brotam daqueles socalcos castas vinhateiras absolutamente espantosas. O clima é propício, a natureza é rica. Como dizia Aquilino Ribeiro, "da pedra se fez terra, do sol bravo o licor generoso, que tem um ressaibo de brasa e framboesa”. Dos vinhos durienses que tenho provado nos últimos meses, destaco os seguintes e soberbos néctares. Tendo em conta a enorme quantidade e qualidade dos vinhos dos Douro, a descrição é esparsa, mas sincera. Aguardo o fim da crise para incluir na lista um Barca Velha, se ao preço corresponder a qualidade e se não provar um que já esteja passado...


1. Quinta do Grifo Grande Reserva 2006


2. Quinta do Côa Reserva 2006


3. Casaca de Ferro Grande Reserva 2005


4. Castello D'Alba Reserva 2005


5. Sogrape Reserva 2001


6. Vinha Grande 2001


7. Quinta do Crasto 2007


8. Vertente 2006


9. Duas Quintas 2006


10. Calços do Tanha 2005

Kosmische Kosmetik VI

Pouco se sabe dos obscuros Gäa (leia-se Gaia, a deusa da mitologia grega que simboliza a Terra). Mas muito esta banda nos legou no seu primeiro e único álbum, o magnífico Auf Der Bahn Zum Uranus. Na vertente do krautrock mais underground e psicadélico, o disco solitário deste agrupamento oriundo da pequena cidade de Saarland é um marco solidamente cravado no rock alemão dos anos 70. Logo a abrir, o solene e fortíssimo Uranus, é um misto de torpor e estranheza, onde o espírito dos omnipresentes Pink Floyd (uma das maiores influências das bandas desta altura) se junta à melancólica austeridade germânica para nos deixar boquiabertos. Após os minutos iniciais, em que uma voz ecoando de um qualquer cockpit de foguetão ricamente decorado para um filme de ficção científica dos anos 50 nos anuncia que entrámos na estrada para Urano, a trip inicia-se. As coordenadas parecem ser dadas de fora para dentro, à medida que o ritmo pulsante e a voz ecoante de Werner Frey nos afogam numa atmosfera sombria e fumarenta. Uma paragem abrupta faz entrar um interlúdio de órgão magistral, ao qual se junta um coro fantasmagórico e distante, que vagueia compassada e deliciosamente, sem noção do tempo, por entre um rítmo incorpóreo, até à regressão da espiral. A guitarra em profunda distorção Hendrixiana e o eco semi-operático da voz afectada precipitam-se sobre nós novamente, terminando o tema em reticências... Segue-se a entrada de inflexões flamencas de Bossa Rustical, que abre as portas a um tema de ritmo quente, quase latino, envolvente e contagiante, especialmente pela fabulosa e virtuosa guitarra de Helmut Heisel. O ambiente enegrece ligeiramente com a toada dolente da bela Tanz mit dem Mond. Melodia espectral e nocturna, mantém a austeridade teutónica da voz associada a um piano jazzístico mas sóbrio, até que surge a primeira vaga explosiva de guitarra, inundando o castelo de areia em construção. Um regresso ao zero, para a música começar dos alicerces, encetar o lento caminho antes traçado e terminar uma vez mais sob a onda eléctrica da guitarra inquieta. Mutter Erde, a próxima canção, igualmente fabulosa, transpira um rock enérgico e extasiado por todos os poros, intercortado com quebras rítmicas para deixar escorrer o suor. Música quente, ao rubro, sem rodriguinhos, que pode comparar-se aos Led Zeppelin ou aos Deep Purple dos primórdios. Segue-se o suave psicadelismo temperado com blues de Welt Im Dunkel. Uma vocalização com inflexões estranhamente Bowiescas assombra o tema, escuro e ébrio, em lenta combustão como papel de fumar. Perto do fim, há uma luz que se acende, distante, mas suficiente para nos despertar do seu embalo quase opiáceo. O álbum chega ao fim com Gäa, mais uma dissertação em torno do blues-rock de flores no cabelo. Guitarra inebriante, laivos contemplativos de flauta e um pouco de scat singing a cozinhar em lume brando durante 7:30 minutos. Não vale a pena falar muito. Pensar, muito menos. Esta fase do álbum é somente para sentir. E quem já estiver embrenhado nestas curvas e contracurvas a caminho de Urano, sentirá nada menos que um prazer imenso, um prazer nostálgico e naïf, do tempo em que hippies como estes alemães acreditavam mesmo na música que faziam transbordar.

21 de julho de 2009

Dieta Mediterrânica III

O primeiro álbum do colectivo romano Quella Vecchia Locanda é mais um monumento à sofisticação que os italianos conseguiram incorporar no rock mais arty dos inícios da década de 70 do século passado. Um dos melhores, todavia. Incorporando belíssimamente elementos de flauta e de violino eléctrico nas suas composições semi-clássicas, o álbum homónimo desta banda é um fluir constante de soberbas melodias e fantasmáticas evocações. Prologo inicia a viagem em passos hesitantes de violino e piano, que logo se tornam confiantes com a entrada de uma secção rítmica marcial. O que sobra é uma letra fatalista, sobriamente cantada, e uma quebra aos 3 minutos de duração que arrasta e acentua a já intocável melodia. Un Villaggio, Un' Illusione começa em toada clássica, com o violino de Donald Lax (um americano em Roma...) a abrir majestosamente uma peça reminiscente do melhor dos Jethro Tull, mas com uma latinidade mais que expressiva. Alheia a isto não é a flauta pungente do igualmente vocalista Giorgio Giorgi, que prossegue docilmente no belíssimo Realtà. Balada executada de forma sublime por todos os intervenientes, recupera pela enésima vez o efeito nostálgico e inebriante de uma Itália renascentista, riquíssima e monumental, com efeitos devastadores. Quem diria que a maior parte destas bandas eram de esquerda?
Immagini Sfuocate é mesmo uma imagem desfocada, melodia distorcida pela guitarra invasiva de Raimondo Maria Cocco, que empalidece subitamente e transita para Il Cieco. Provavelmente o tema do álbum onde o improviso mais impera, a instrumentação é deixada ad lib do princípio ao fim, em ondulações jazz-rock que terminam com um brevíssimo violino de reminiscências Grapellianas. Dialogo prossegue numa senda mais rítmica, subordinado ao som característico do sintetizador (tastiera) de Massimo Roselli. O clacissismo impera novamente em Verso la Locanda, particularmente no magnífico violino introdutório, ao qual se segue outra cascata melódica, bela e irrepreensível, frenética e com mais uns pozinhos jazzísticos.
Mas estes afastados descendentes de Rómulo e Remo deixam o melhor para o fim. É quase indescritível a melancolia que impregna Sogno, Risveglio e... de uma beleza decadente e secular. Os Quella Vecchia Locanda podem ser romanos, mas é quase impossível não imaginar uma Veneza outonal que se afunda, lenta mas inexoravelmente, ao som do comovente carpir do piano e do violino gemebundo. Como se tudo o que é belo terá forçosamente de ser mortal, assim se extingue de forma sublime esta obra-prima...

Que farei eu com esta espada?

Faz falta à nação cinéfila o Mestre João César Monteiro. Pelo menos àquela nação que não vive oscilando entre a última produção de Leonel Vieira e a próxima de Fernando Fragata. Um dos maiores expoentes nacionais da corrente vanguardista do Novo Cinema, surgida nos anos 60, César Monteiro sempre trilhou nas suas obras um caminho entre o lírico e o satírico, fazendo por vezes a convergência de ambos. Cineasta experimental e explorador, introduziu, tal como Manoel de Oliveira, o conceito de antropologia visual nas suas ficções, algo que era exclusivamente utilizado em documentários. Este conceito assenta na teoria de que a mais fiel observação do real assenta na imagem, e não na palavra. Aqui residirá a génese das características cenas longas e despojadas de discurso que povoam os filmes do realizador.
A provocação subtil e/ou declarada e a irreverência muito particular de João César Monteiro são outras das suas características mais vincadas. Para ele, nada foi intocável, dedicando-se com especial cuidado a arrasar o Estado e o Clero e a interlúdios panfletários de um certo tipo de sexualidade mais periférica. A obra máxima que retrata este pot-pourri será, certamente, A Trilogia de Deus, composta pelos filmes Recordações da Casa Amarela, A Comédia de Deus e As Bodas de Deus. Escusado será dizer que a trilogia é essencial para quem queira conhecer o cinema português de autor, liberto de amarras. César Monteiro foi descrito inúmeras vezes como realizador incompreendido, ou que faz cinema única e exclusivamente para si próprio, ou que pretende somente escandalizar. Tudo isto bate certo, especialmente para quem assina uma obra como Branca de Neve, que até hoje não se sabe bem se é um filme ou não... Assumidamente criada para espantar espectadores, o que podemos chamar a quem se instala para 75 minutos de escuridão intercortada raramente por céus cinzentos e flashes azuis? Cinéfilo? Curioso? Pessoa cheia de sentido de humor? Intelectualmente pretensioso? Ao realizador não se pode chamar nada ofensivo, porque, vindo de quem veio, isto não é surpresa. E uma obra de arte só existe porque outro alguém a vê, ouve, contempla, toca...
Uma coisa é certa: César Monteiro foi, em vida, tudo menos ignorado. E que mais pode querer um artista senão fugir à indiferença? Personagem polémica, é tão legítimo amá-lo como odiá-lo. E não me recordo de mais ninguém que visse a sétima arte sob esta perspectiva:

6 de julho de 2009

Kosmische Kosmetik V

Green Desert é o elo perdido entre Atem e o seminal Phaedra, dois clássicos na imensa discografia dos reis da electrónica cósmica, Tangerine Dream. Gravado em 1973, Green Desert somente viu a luz do dia em 1986. Não sabemos o quanto a edição final difere da gravação original, mas as 4 faixas deste álbum perdido durante mais de uma década oferecem-nos Tangerine Dream da melhor safra, como se de um disco de ficção científica se tratasse.
Green Desert arranca com o tema homónimo, 5 minutos iniciais de projecção sintetizada no espaço glaciar até à entrada dos restantes instrumentos. A guitarra planante de Edgar Froese e a bateria lenta, circular de Chris Franke fazem-nos viajar pela escuridão de galáxias distantes, desoladas mas coloridas, disformes mas pulsantes. A viagem parece durar uma eternidade, com o insistente vórtice rítmico a exigir de nós um quase torpor e abandono, como se fôssemos satélites a girar em torno da música que fustiga como vento sideral. Já totalmente em órbita após estes 20 minutos fora da Terra, a sensação de fuga prossegue com o magistral White Clouds. Tangerine Dream no seu mais clássico e frio, o tema vagueia por entre a invernal e majestosa melodia do sintetizador de Froese e a cadência maquinal da bateria de Franke, para nos transportar a um mundo de gelo, desolado e inóspito, mas deslumbrante na sua beleza estéril. Astral Voyager é dominada por um sequenciador minimal, daqueles que anteciparam a trance music em 20 anos, e embrulhada em sintetizadores que bafejam poeira estelar. Mais uma volta no carrossel cósmico, imenso e infinito, sinalizado por corpos celestes que, aqui e ali, interrompem a constante do breu. O périplo termina com Indian Summer e a sua electrónica espaçada e flutuante. Peça simples, é atravessada por uma sensação de deslumbramento e procura interior perante o Universo que nos transcende, mas de cuja matéria somos igualmente feitos. Um convite à meditação, envolvente mas não soporífero, que encerra o disco de forma morna e apaziguadora. Como se depois da tempestade viesse sempre a bonança. Como se, à escuridão vazia do espaço, se sucedesse a luz de um mundo paradisíaco, deserto e verde. Para começar de novo.
Green Desert não é o melhor álbum dos Tangerine Dream, mas é uma obra fundamental para adicionar aos anos de ouro e mais vanguardistas da banda, entre a flamejante electrónica experimental de 1969 e as texturas mais formais e melódicas de 1983.

Amores perfeitos

Os Pyramids não são perfeitos musicalmente. Tocam uma espécie de pós-rock afogado em guitarras abrasivas com uns intróitos electrónicos que não é particularmente original, mas que não maltrata ninguém. Algo que os torna especiais é o genial vídeo realizado para Hunch Your Body Love Somebody, primeiro single do primeiro álbum deste obscuro agrupamento norte-americano. Já tinha visto muitas formas de abordar o amor num videoclip musical, mas nunca com esta peculiar aura de romantismo. Imagino como seria se Barry White, the walrus of love, tivesse decidido fazer o mesmo...

5 de julho de 2009

Kosmische Kosmetik IV

Obscuro cigano suíço, de aparência Rasputinesca e especialista em Tarologia, Walter Wegmüller foi capturado pelo lendário manager da Ohr Records Ralf-Ulrich Kaiser com o intuito de produzir um álbum ao qual a sua peculiar personagem daria voz. Corria o ano de 1972. Wegmüller produzia, desde finais dos anos 60, um baralho de cartas de Tarot pintado à mão e que deu o mote para o longa-duração submetido a essa temática. Tarot: Obra em que cada peça é inspirada e dedicada a uma das cartas do baralho místico. Acompanhado pela crème de la crème dos anos dourados e gloriosos do krautrock, Walter Wegmüller assina aquele que é, provavelmente, o melhor álbum de sempre deste estilo musical. Antes dele, nada desta envergadura tinha sido criado pelas hostes teutónicas e, depois dele, nada idêntico foi conseguido. Disco irrepetível, é um labirinto de delícias para quem nele se perde. Quem nele entrar, nunca mais será o mesmo. Se existe esoterismo na música rock, Tarot será o seu expoente máximo. Ao mesmo tempo malévolo e benfazejo, beatífico e aterrador, este álbum é génio puro do princípio ao fim. Seis músicos numa demonstração superlativa dos seus talentos e um cigano suíço a declamar / sussurrar / profetizar / amaldiçoar / abençoar por cima deles é algo de absolutamente inesquecível e, acima de tudo, intocável.
A montanha russa começa com Der Narr, o louco, a carta sem nome, a faixa 0 em que todos os intervenientes são apresentados, como se o que nos aguardasse fosse um espectáculo de music hall a ter lugar no Congresso de Vilar de Perdizes. Em breves e sincopadas investidas, cada um dos músicos se apresenta. No final, ao chegar a vez de Wegmüller, o mesmo tosse e fala por cima dos estranhos efeitos que irão distorcer a sua voz ao longo do álbum. Um pouco de humor germânico, à laia de preparação para a massiva experiência que se segue. E ela começa com Der Magier, a primeira carta. O mago, que desvenda o oculto, que brinca com a Natureza e que flutua no vácuo sintetizado de Klaus Schulze. O ritmo e os relâmpagos electrónicos confundem e agitam e o feitiço invade-nos. Entra em cena Die Hohepriesterin, a sacerdotisa, convidando a um transe meditativo, que nos envolve como um círculo de velas acesas na maior das escuridões. Wegmüller é hipnótico e o ambiente entorpece. Fazemos já parte da cerimónia, solene e arcana, maior que nós. Segue-se Die Herrscherrin, a imperatriz, ritmo circular, levemente tribal e melodia dolente. O transe acentua-se e os rasgos de electrónica assemelham-se a vibrantes raios de luz. O esoterismo encarna no rock duro de Der Herrscher, o imperador. As guitarras de Manuel Göttsching e Hartmut Enke traçam solos e ritmos em paralelo com a voz xamânica, fumarenta e carregada de efeitos do cigano suíço. Quem precisa de substâncias ilícitas com músicas como esta?...
A carta seguinte representa o hierofante, Der Hohepriester. Lindíssimo tema, de toada folk, onírico e etéreo na forma como conjuga de forma sublime piano, guitarra acústica e flauta. Wegmüller apenas sussurra, e mais não é necessário, pois a beleza pastoral e inocente deste tema dispensa palavras. Contemplativa e luminosa ao mesmo tempo, a música parece levitar em torno do amor platónico ideal ou da união mística com a divindade. Verdadeiro alimento para o espírito... Die Entscheidung, os enamorados, é um pequeno idílio em que o suave piano eléctrico de Jürgen Dollase é sucessivamente contaminado pelos estertores electrónicos de Klaus Schulze e pelos mantras em surdina de Wegmüller. Der Wagen faz entrar novamente o ritmo, cadente e primário da bateria de Harald Grosskopf, que colide com as electrónicas endiabradas de Schulze e a vocalização grave mas possessa de Wegmüller, num dos momentos mais escuros do álbum. A toada negra prossegue com a chegada de Die Gerechtigkeit, a justiça. Sente-se o martelar funesto e inexorável da condenação, a voz afectada do veredicto e da separação.
Der Weise, o eremita, torna a caminhos de maior beatitude, e a voz de Wegmüller encontra-se agora despojada de efeitos. Como se a harmonia se encontrasse melhor na solidão, na retirada de máscaras e artifícios. A melodia deixa a luz passar novamente, uma luz estranha, que parece tocar a alma, mas não o corpo.
Se, ao longo deste disco, se vislumbram lampejos ácidos, nada como Das Glücksrad para o comprovar. A abordagem da carta dedicada à roda da fortuna é feita de forma assumidamente psicadélica, uma trip fantasiosa por terrenos inóspitos, reminiscências infantis e labirintos de espelhos. A sorte e os seus caprichos, tomando forma numa melodia cristalina, mas ansiogénica. Die Kraft é quase funk, com o baixo em regime groove de Jerry Berkers a ditar o ritmo e a inundar o corpo de energia, da força que diz respeito à carta em epígrafe. Quase se pode dançar, desastrada porque humanamente, ao som deste germanismo africanizado, que encerra o primeiro disco de Tarot.
A segunda parte do álbum abre na mesma toada acentuadamente rítmica com Die Prüfung, o enforcado. Parece estarmos em plena noite africana, deserta e imensa, em plena cerimónia tribal, e Walter Wegmüller é novamente o bruxo de negro, de rosto vermelho perante a fogueira. Sente-se a iminência do sacrifício. Der Tod, a morte, o arcano sem nome, é um sopro fantasmagórico de electrónica, inominável e indescritível, um pedaço de nada. Die Massigkeit, a temperança, centra-se numa guitarra em contínuos estertores improvisados, como que à procura de equilíbrio, à qual se sobrepõe a voz de Wegmüller no seu paganismo mais afectado. No magnífico Der Teufel, o suiço sopra-nos ao ouvido sobre a guitarra quase flamenca de Manuel Göttsching e a flauta de Walter Westrupp como se do próprio Lúcifer se tratasse. Tema absolutamente genial, parece apresentar o Diabo não como fonte do mal, mas como algo que surge do lugar mais recôndito para seduzir e mostrar o que está oculto, o que é carnal e instintivo. Sentimo-nos transportados para bosques de árvores muito antigas, em dias cinzentos, receosos, mas ao mesmo tempo curiosos pelo que se encontrará escondido em sítios onde ninguém deveria ir. Esta peça assemelha-se a entrar numa casa velha, vazia e escura, iluminada apenas por luzes bruxuleantes, mas onde não sentimos medo de estar. Onde há algo a conhecer que mais ninguém sabe...
Outra melodia belíssima surge com Die Zerstörung. A torre é dominada pelo piano doce mas firme, em contínua espiral, e invadida por investidas dissonantes de electrónica e bateria. Wegmüller surge, a espaços, indiferente quer à beleza, quer ao caos. Die Sterne é povoada por uma guitarra luminescente, de um brilho pulsante como as estrelas que pretende emular. É a peça mais minimalista do álbum, mantendo-se suspensa no tempo, circular e incomensurável. No seguimento das estrelas, surge a carta que descreve a lua. Der Mond, segue a mesma linha minimal, mas sem brilho. Apenas uma opacidade cinzenta transborda da electrónica desoladora de Klaus Schulze. Em sequência lógica, segue-se Die Sonne, o sol que lateja, em convulsões internas, para colorir mais uma peça fabulosa da kosmische musik. Sem melodia discernível, o ambiente criado por este tema é uma autêntica aurora boreal, música que transcende este planeta. Abruptamente, surge Das Gericht, o julgamento. À medida que se aproxima do fim, o disco vai tornando-se progressivamente mais etéreo, mais irreal, como se chegasse à sua conclusão lógica e a parcimónia fosse o único caminho a seguir, mas igualmente como se regressasse ao princípio e tudo voltasse a ser um livro em branco pronto a ser escrito outra vez. O final efectivo surge com Die Welt, o mundo, fabulosa jam session que se arrasta num rock dolente polvilhado por electrónica até à convulsão final, autêntica nave espacial kraut desgovernada e imparável.
Tarot é um álbum ímpar, uma das pérolas do krautrock, se não mesmo a sua jóia da coroa. As primeiras edições (numeradas) do álbum vinham acompanhadas do baralho pintado por Walter Wegmüller, algo que já saiu de circulação há muito tempo. Resta a música, essencialmente para ouvir sozinho, em ambiente escuro e de longe a longe, de forma a não corromper a magia de cada encontro.

22 de junho de 2009

25 Sons para o Verão


Na senda de posts anteriores, aqui fica a minha escolha discográfica para receber o solstício estival e aguentá-lo na praia ou em casa, de persianas fechadas...

1. Love - Forever Changes

2. Pink Floyd - Meddle

3. Can - Future Days

4. Talking Heads - Speaking In Tongues

5. Happy Mondays - Pills & Thrills And Bellyaches

6. Pixies - Bossanova

7. The Stone Roses - Turns Into Stone

8. Quicksilver Messenger Service - Just For Love

9. Agitation Free - 2nd

10. Stan Getz & João Gilberto - Getz / Gilberto

11. Sven Van Hees - Gemini

12. Thievery Corporation - The Mirror Conspiracy

13. The Grateful Dead - American Beauty

14. The Byrds - The Notorius Byrd Brothers

15. Sir Douglas Quintet - Mendocino

16. The Beach Boys - Pet Sounds

17. The Doors - Morrison Hotel

18. Étienne Daho - Eden

19. Yo La Tengo - Summer Sun

20. Talk Talk - Spirit Of Eden

21. Yeasayer - All Hour Cymbals

22. Vampire Weekend - Vampire Weekend

23. Brian Wilson - Smile

24. Manu Chao - Próxima Estación...Esperanza

25. Animal Collective - Merriweather Post Pavillion