17 de outubro de 2009

Somos todos Mutantes

Mutantes, obra do biólogo evolucionista francês Armand Marie Leroi é um livro fascinante. Nele, são narradas, num misto de ensaio e rigor científico state of the art, histórias de como o ser humano é alvo de modificações. De como elas são originadas, de como se manifestam, de como os outros membros da espécie humana ditos normais têm vindo a reagir a elas ao longo dos tempos. Desde a história de uma menina, aluna num convento de freiras, que deu consigo a mudar de sexo na puberdade, a uma família cujo corpo era totalmente coberto de pêlo e que foi conservada na corte da Birmânia durante sucessivas gerações, passando pelo caso do homem que tinha uma cabeça parasitária implantada no lado direito da sua própria cabeça, este livro é um manancial de episódios incríveis, todos eles explicados pela genética e biologia molecular. Mais que relatar mutações bizarras e malformações do arco da velha, esta obra realça a importância que as modificações ocorridas na formação do ser humano possuem no desvendar do enigma da nossa própria construção. Na medida em que ninguém é igual ao seu semelhante e que o processo de criação da vida é feito de sucessos e insucessos, de heranças e erros genéticos, a premissa deste livro é afirmar que, mesmo sem manifestações visíveis, somos todos mutantes. Simplesmente magnífico!

As Fugas de Lubowitz


Manfred Sepse Lubowitz fundou os narcisicamente subordinados Manfred Mann na plenitude da Swinging London de 1963. Cedo se tornaram uma máquina de fazer êxitos sob a forma de singles derivados dos blues, em débito directo de outras bandas da City, como os Rolling Stones ou os Yardbirds. Temas directos e cantaroláveis como Do Wah Diddy Diddy, The Mighty Quinn, If You Gotta Go, Go Now ou Pretty Flamingo fizeram as delícias de muito rapaz imberbe guedelhudo e de donzelas tonitruantes no preto-e-branco da época. No entanto, provavelmente porque o estado de graça não dura para sempre, ou por não conseguir debitar mais singles gloriosos, o teclista de origem sul-africana engendrou uma forma bem mais colorida, interessante e sofisticada de mostrar a sua obra e dos seus acólitos ao mundo por volta de 1969. Após várias mudanças de line-up, eis que nascem os Manfred Mann Chapter Three. E em boa hora o fizeram, pois constituem um dos projectos mais consistentes de finais da década de 60. Bem longe da pop mais directa e engraçadinha dos inícios, este projecto põe prego a fundo no acelerador do jazz e impõe-se subrepticiamente como um dos fundadores do então embrionário rock progressivo. O seu primeiro álbum, impecavelmente intitulado Volume One, é um disco magistral. Pleno de estilo, elegância, ritmos suados e da tal sofisticação que faz com que os ingleses toquem com alma e ardor, mesmo de camisola de gola alta vestida. O genial Travelling Lady, tema que abre o álbum, principia por ser um groove nocturno comandado pelo órgão de Manfred Mann e pela voz fumarenta de Mike Hugg, até que uma secção de sopros o incendeia literalmente e o faz embarcar num idílio jazzístico, carnudo e quente, que pede cigarro atrás de cigarro. Este ambiente, de bistrot decadente, pleno de cortinas de veludo e luzes vermelhas, prossegue com Snakeskin Garter, onde o órgão insinuante e o baixo reptiliano são a base de outra canção deliciosa, embebida no jazz, que parece decorrer num tempo onde é sempre meia-noite e todas as mulheres são fatais. Imensamente contagiante, qualquer bar nocturno digno desse nome devia passar este tema, para aconchegar os corações solitários que por lá vegetam. Konekuf persiste em não nos deixar descansar, atolando-nos ainda mais na genialidade dos músicos que por aqui proliferam. Música sensual, cinemática de tão vividamente imagética, preenchida por ambiências que poderiam povoar de fleuma britânica qualquer film noir. A perfeita banda sonora nocturna, repleta de sombras intrigantes e de pecados a implorar para serem cometidos. Sometimes aclara ligeiramente as ideias, surgindo como uma bela e breve canção, em que a madrugada começa a invadir os olhos inchados e saturados de noites excessivas e a mente pede meças ao corpo por tantas horas sem dormir e orientação para onde o levar. Maliciosamente, surge o infeccioso Devil Woman e o vício retorna com força redobrada. Tema soberbamente construído, em lenta cadência felina, parece colocar uma língua feminina, intrusiva e deliciosa, na orelha do ouvinte. Não há como escapar da teia de aranha lenta e habilmente construída em torno do coração. A instrumentação é brilhante, o ambiente abrasador, imerso no jazz em lume brando e na voz distante mas sedenta. Acreditamos ser quase impossível melhorar, mas eis que chega Time para prová-lo. Mais uma brilhante canção, com uma secção de sopros irrepreensível e uma dolência soul que apetece baixar as luzes onde quer que estejamos. Há uma flauta que surge a meio do tema que serpenteia deliciosamente e aconchega de sobremaneira. E há a voz que parece debitar cada palavra de olhos entreabertos, como se nos quisesse embalar ou fazer esquecer que o mundo existe. Nova incursão pela soul surge em One Way Glass, tema de ritmo vincado e coloridos bafejos jazzísticos. Mister, You're A Better Man Than I traz o primeiro esboço assumidamente melancólico ao álbum, apresentando-se como balada fora de horas, guiada pela guitarra, com os sopros a olhar de soslaio. Ain't It Sad é uma peça solta, curta e inconsequente, um pequeno delírio dominado pelo curioso som de um apito de polícia. Tendo em conta a letra, alguém teve um comportamento menos próprio... A Study In Accuracy retoma os ambientes cinemáticos, de ruas escuras e poças de água iluminadas por candeeiros foscos. Mais Brooklyn que Whitechapel, todavia, este tema é mais um interessante exercício jazzístico, que quase parece antever o advento dos Lounge Lizards uma década mais tarde. O álbum termina com Where Am I Going, típico slow de fim de noite, quando o barman começa a limpar o balcão e se começam a varrer as beatas do chão, tema mais que apropriado para fazer cair o pano sobre esta obra mais que obrigatória. A edição em CD, datada de 1999, acrescenta diferentes versões de quatro temas do álbum. Nada que moleste, mas igualmente nada que acrescente mais à magia do que está feito.
Em 1970, surge Volume Two, derradeiro capítulo desta aventura. Nitidamente menos inspirado e entusiasmante que o seu antecessor, possui, no entanto, belíssimos momentos. A abrir, o excelente Lady Ace segue a tendência mais jazzística e solta do seu irmão mais velho. I Ain't Laughing, com a sua guitarra cristalina e a pandeireta discreta a marcar o ritmo, dá ares de psicadelismo contido, com meio sorriso a pairar-lhe no rosto. Poor Sad Sue é um blues-rock vigoroso, pintalgado a espaços por secos mas melódicos golpes de violino e cortado ao meio por golpes de free jazz que um Albert Ayler não desdenharia. Ritmos tribais africanos preenchem o magnífico mas imprevisível Jump Before You Think, cujo baixo desenha interessantes nuances e os sopros nos colocam numa incrível ambiência pré-Fela Kuti. A voz enevoada e roufenha de Mike Hugg assume preponderância no inebriante e súbito It's Good To Be Alive, canção que antecede o tema mais vincadamente progressivo dos dois álbuns, o épico Happy Being Me. Peça que se prolonga por mais de 15 minutos, é um autêntico cocktail de improvisação jazzística e melodias pop. A fechar, Virginia retoma o percurso fronteiriço entre o blues-rock e o jazz, que atinge o seu acme no órgão flamejante de Manfred Mann, para vir a ser quebrado no final pelo piano delicado e esparso do seu comparsa Mike Hugg. O final perfeito para a dupla responsável pela criação das únicas duas obras desta encarnação, que valem sempre a pena retirar do baú. A primeira, por ser um clássico. A segunda, por ser um bom complemento.

15 de outubro de 2009

Kosmische Kosmetik X

Edge Of Time, do colectivo internacional Dom é um enigma constante. Um perpétuo origami mental que forma diferentes e estranhas figuras a cada audição. Tal como as múltiplas origens da banda (um alemão, um polaco e dois húngaros), assim este álbum é uma das obras mais inclassificáveis e indecifráveis do krautrock. Hermético à primeira aproximação, Edge Of Time é um vórtice constante de sons espaciais, primitivos e maioritariamente sombrios. Penetrando a fundo na obra, esta revela-se onírica, mística, poética até.
Introitus abre o disco em dormente toada folk, muito ao estilo dos já aqui referidos Yatha Sidhra, mas com esgares de lamento. Guitarra acústica, flauta e percurssão unem-se num todo envolvente, até que o ritmo se esboroa num órgão litúrgico, entregue em sucessivos mantos de uma beleza tranquila, mas fria. No final, espírito e carne parecem fundir-se e o tema termina num misto de dissonância e improviso. Uma introdução intermitente e espectral dá início a Silence, tema possuído por uma dolência fantasmagórica, à qual não é alheia uma distante voz feminina que se projecta num misto ilusório de prazer e sofrimento. À medida que a faixa avança, as coisas tornam-se progressivamente mais estranhas e alucinogéneas. Há uma brecha a meio do tema que deixa entrar devaneios electrónicos na melhor veia de Stockhausen ou da música concreta de Pierre Schaeffer, enquanto que uma corda de guitarra é pontualmente dedilhada, como que a tentar manter contacto com a realidade. E no fim, ressurge aquele órgão, ora claro ora escuro, a seduzir como canto de sereia...
Segue-se o tema-título, que se ergue lentamente das profundezas, para se cristalizar numa serena melodia, escura como sempre, mas sem assustar. Acústica e electrónica dançam abraçadas ao longo desta peça, cadente e hipnótica, interrompida para dar lugar à récita do enigmático poema que surge integralmente transcrito na capa do álbum. Uma flauta esvai-se docemente e Edge Of Time acaba por voltar às profundezas num requiem de electrónica arcaica.
Perante o que ouvimos, não é de admirar que a faixa que encerre o álbum se intitule Dream. De novo, a música mais vanguardista e experimental funde-se com a placidez despida da guitarra clássica e da percurssão manual. Dream vagueia em transe mortiço por caminhos obscuros até ser cortada abruptamente e substituída pelo improviso visceral de um xilofone desconexo, de sons manipulados e de colagens electroacústicas, como se as imagens oníricas até agora prazenteiras resvalassem para o inominável, para o radical, para um artefacto de Dalí. Ou como se uma boa trip se transformasse numa má trip...
Os Dom, seguindo a (in)coerência de tantas outras bandas desta época, editaram apenas este álbum, que viu a luz em 1970. Aquando da sua reedição em CD em 2001, ao disco original foram agregadas cinco peças. A primeira, dividida em quatro partes e intitulada Flötenmenschen, foi gravada em 1972 e centra-se no cariz mais electrónico / experimental da banda, apresentando-se como uma sequência de drones sombrios e electroacústica atonal, invadidos a espaços por uma percurssão pungente mas longínqua. Let Me Explain 5, tema de 1998, reintroduz o grupo como entidade praticante de algo parecido com electrónica industrial, quase reminiscente dos primórdios dos Cabaret Voltaire ou dos Coil. Bem longe, assim sendo, da alucinose reflexiva dos primeiros tempos, mas não menos aconselhável.
Como epílogo, cai bem dizer que este disco consegue colocar-nos em vários estados de consciência consoante o nosso próprio estado mental no momento em que o procuramos. Pode desorientar. Pode promover deslocações mentais. Pode fazer com que nos percamos (ou encontremos...) dentro dele. Em suma, possui muito boas contra-indicações. Uma obra-prima absoluta.

13 de outubro de 2009

Kosmische Kosmetik IX

O que transparece dos instantes iniciais de Lasst uns auf die Reise Gehn, tema que abre o álbum Trips Und Traume da dupla germânica Witthüser & Westrupp, é uma ambiência pastoral, temperada por uma brisa campestre e uma instrumentação de ecos medievos. Típica balada folk, límpida e despojada, esta canção é um ténue e insuspeito indício do que está para vir. Antes de se juntar a Walter Westrupp, Bernd Witthüser tinha assinado já um disco, à margem dos territórios ocupados pelo krautrock, mui teutonicamente intitulado Lieder Von Vampiren, Nonnen Und Toten. Esta era uma obra centrada na folk acústica e no imaginário alemão mais mítico e popular, dos vampiros à encantada Floresta Negra. Trata-se de uma obra menor, mas curiosa, um bordão para deambulações rurais em climas outonais. Ao que tudo indica, o encontro entre os dois músicos tê-los-à levado, felizmente, a maus caminhos. Se, ao primeiro tema, Trips Und Traume parece seguir as pisadas do seu antecessor, a maratona herbal (ou lisérgica?) que se segue faz do disco uma das experiências mais psicadélicas que a folk terá conhecido, independemente do país de origem. Trippo Nova revela-se a partir do nome: quase se adivinha que estes rapazes, enraizados na música de pendor acústico, se dedicaram a provar algo que os fez transcender em muito os seus horizontes. A trip está indubitavelmente presente ao longo dos nove minutos desta peça, manietada por uns blues dolentes e viciantes, com solos intermitentes de guitarra acústica e uma vocalização arrastada. Lá atrás, uma voz feminina sussurra, a espaços, sem articular qualquer palavra. O sonho propaga-se em Orienta, que germina a partir de uma flauta enevoada e solitária num crescendo de cordas arabescas. Pelo meio, récitas em alemão e nuances dançantes que nos transportam para paragens orientais. Em pleno ano de 1972, esta dupla imiscui-se brilhantemente na folk mais progressiva e psicadélica e parece, nos interstícios desta peça, lançar sementes para projectos como os Dead Can Dance. Illusion I faz cair as sombras sobre nós. Tema belíssimo, envolvido por uma aura épica e nórdica, é arrepiante na melancolia que dele brota. Sentimo-nos a vaguear pelos átrios gélidos de um qualquer castelo abandonado, em que as paredes parecem respirar e em que a vida ainda se adivinha para além da decrepitude. Magnífico e intemporal...
A meditativa Karlchen é uma peça minimal e esparsa, sustida por uma guitarra a conta-gotas e uma flauta sonolenta. A voz declamatória de Renée Zucker recita qualquer coisa que parece ser interessante e abre alas a um interlúdio de sopros reminiscente dos Pink Floyd de Ummagumma ou de Atom Heart Mother. Da boa fase, pois claro... Os olhos pesam novamente e o tema retorna ao entorpecimento nos últimos minutos, pingando languidez. Segue-se a breve Englischer Walzer, tema inebriado por um piano boémio e um violino fugídio, como se tivesse a ser tocado dentro de uma caneca de cerveja. A fechar, retorna a folk de pendor mais tradicional na prazenteira Nimm doch einen Joint, mein Freund. As vozes de Witthüser & Westrupp ecoam sobre os instrumentos cem por cento acústicos, dando o toque psicadélico que percorre transversalmente este esplêndido álbum. Mais que krautrock, será talvez, e como já foi chamado, krautfolk. Trips und Traume é um disco que tem tanto de transcendental e cósmico como de apego à terra, sendo uma fonte magnífica de relaxamento, quer para viagens mentais, quer para sonhos despertos.

20 de setembro de 2009

Kosmische Kosmetik VIII

Em sentido lato, A Meditation Mass, álbum de 1974 dos obscuros Yatha Sidhra, pode ser considerado como um tema que se espraia ao longo de 40 minutos. Aliás, pode ser considerado como a única peça que este colectivo alguma vez gerou. Dividido em quatro fragmentos, A Meditation Mass é um dos melhores exemplos da kosmische musik, todo ele assente num contínuo transe hipnótico, introspectivo e dolente, criado propositadamente para deambulações mentais e para o relaxamento físico. Construído na totalidade em torno de instrumentos orgânicos e acústicos, esta poderosa pérola possui o condão de elevar o espírito para uma beatitude quase sobrenatural, graças à mestria com que os músicos se interceptam e se interligam nesse comum objectivo.
Part 1, a génese, emerge lentamente de um eco aquoso, intra-uterino, para se ordenar num contínuo magnífico de guitarra gentilmente distorcida, percurssão ritualística e flauta mágica. Um estratégico e divinal moog imiscui a levitante tonalidade cósmica no tema, que circula e lateja sem sair do mesmo sítio. A caminho do fim, a voz de Rolf Fichter acrescenta uma aura mística, nitidamente hindu, acentuando ao extremo o que já estava a ser um mergulho na espiritualidade oriental. Com o contínuo eco da guitarra a preencher a peça, e sob improvisos de xilofone e flauta, a primeira fase da meditação funde-se a Part 2. Breve mas intensa, esta segunda parte enreda-nos numa teia de baixo minimal e circular, flauta pastoral, e num, algo surpreendente mas hospitaleiro, volte face jazzístico de piano e bateria. A cadência volta ao início na peça subsequente, obviamente intitulada Part 3. Mais do mesmo, mas que sublime que é este mesmo! Aqui, a guitarra deixa de ser envergonhada e inicia uma deambulação improvisada, num tapede voador de pendor jazzístico, doseado pelo psicadelismo mais experimental. A fechar, retornam as tonalidades mais bucólicas da flauta e o subtil instrumentalismo que se abre como um mantra, mas a olhar para dentro, a fazer esquecer o mundo exterior.
A génese que viu a luz na primeira parte de A Meditation Mass reencontra-se com ela própria para encerrar o álbum, em Part 4. Regressam as ambiências orientais que se fundem com a própria folk alemã, resultando numa atmosfera única, etérea, astral e beatífica. Discos como este são como pomada Hirudoid para a alma. São impregnados de música que não força para agradar, mas que agrada porque as vibrações que emana são puras e plenas de liberdade. Retomam um elo de ligação com a natureza e a espiritualidade humanas que aparenta ser actualmente recalcado, mas que é, na sua essência, inquebrável.

14 de setembro de 2009

Contos & Prosas II


Acendeu o 27º ou o 28º Marlboro da noite. Olhou a massa humana em volta e o copo meio-vazio (ou meio-cheio?) que segurava na mão. Rodando-o lentamente, pensou que o que lhe apetecia mesmo era um moscatel roxo e não aquela mistura de vodka barata e refrigerante de limão que lhe escorregava garganta abaixo, maquinalmente. Mas não, reconsiderou, não iria fazer misturas. À sua frente, a turba saltitante formava uma ondulação trôpega na pista de dança. A música era frenética, robótica, massuda. Obnubilante mas obnóxia, de tão forçada. Ele desejou que fosse novamente 1981. Ou, melhor ainda, 2003. Do primeiro só tinha uma vaga ideia, do segundo detinha a convicção que tinha sido o melhor ano da sua vida. Em ambos, a música era a mesma, revista e actualizada. Em ambos foi livre.
Sentiu-se estranhamente incomodado pela invasão destes pensamentos. Mais ainda por dar consigo a apanhar estilhaços de oportunidades desfeitas e sonhos perdidos numa noite como esta, num lugar como este. Percorreu com o olhar a área em seu redor. Viu corpos suados, corpos despidos, corpos colados, cérebros expandidos. Viu olhares cruzarem-se com o seu e trespassarem-no como se não existisse. Viu rostos deformados por luzes intrusivas. Viu mulheres, jovens e belas, que o ignoravam e outras que o viam também. Não viu rostos conhecidos, nem farrapos de presenças de outrora. Esteve muito tempo longe? Esteve muito tempo ocupado em mudar? Era ele que estava irreconhecível? Ou era este sítio, cujas paredes pareciam agora contrair-se como um útero intumescido para o expelir?
O tempo esvai-se, escoa como o suor que transborda da pista de dança e acaba por se imiscuir nas águas do rio. Ele sobe as escadas que dão acesso ao andar de cima e dirige-se à varanda. Lá está o rio, hibernando no negrume. A música tornou-se perceptível, quase que apostaria que eram os Fischerspooner, ou, num lampejo de irracionalidade, os Suicide. Será que ainda se ouvem por aqui? Bafejada pela fresca brisa da noite, a sua mente navega em águas passadas, que não movem moínhos, mas o transportam para doces memórias. Revive um final de tarde com Maria, em que o ar entrava pelas enormes vidraças abertas e cortinas de organza turquesa prolongavam e derramavam o céu de Verão sobre eles. Lembra-se que ela pediu chá branco e ele, por óbvia insegurança no campo das tisanas, pediu chá preto. Lembra-se do suave bailado dos cabelos dela, de como cobriam e descobriam os seus olhos de amêndoa e as pequenas sardas do seu rosto. Ali ficaram a ver o sol afundar-se, ele a falar com uma eloquência que desconhecia, ela a sorrir perante o mistério das suas palavras. Voltaram para casa de combóio e deram as mãos. Nunca se beijariam.
Noutra noite, naquele exacto local, acendera um cigarro a Marta e dissera-lhe que a amava. Marta murchou como uma flor, murmurando que ele era bom demais para ela. Ele retorquira, "Devolve-me então as minhas asas de anjo para voar para longe de ti...". Com ternura e um sorriso triste, ela acariciou-lhe o rosto e voltou para o dédalo de corpos em fúria. E ele ficou a olhar as águas negras e os seus olhos também se inundaram e também ele ficou nas trevas. Agora sentia-se velho, um espantalho empoleirado numa cruz, sem pernas, logo, sem pegadas que anunciassem o seu rasto. Sentia que não tinha história, que já não sentia na pele a presença física de toda a gente importante que lhe tinha passado pela vida. Não sabia se a escolha tinha sido dele. "As coisas podiam ter sido diferentes..."
De repente, uma palmada nas costas fá-lo voltar-se. "Já pensávamos que tinhas fugido" - disse Miguel. "Onde é que te meteste? Ouve lá, estamos de saída para o Op Art. Ainda vens?"
Em lento ressurgimento do seu torpor, ele balbucia: "As coisas podiam ter sido diferentes..."
Miguel ergue as sobrancelhas e riposta: "O que estás para aí a dizer? Vá, vamos para o Op Art, que ainda devemos apanhar os Booka Shade."
"Estou a dizer que as coisas podiam ter sido diferentes. Podia estar noutro lado. Não necessariamente aqui."
Miguel denota alguma impaciência: "Mas onde querias tu estar? Nós já estamos fartos do Lux e vamos ao Op Art. Vens ou não?"
Ele olha para o relógio, que marca 04:33. Pousa o copo meio-cheio (ou meio-vazio?) no balcão, ajeita a gola da camisa e diz: "Claro. Vamos ao Op Art."

23 de agosto de 2009

Poema para S. V



Linda princesa
No paraíso forjada
Com alma de ninfa
E magia de fada
Tens o sopro da vida
Que me faz despertar
E o brilho de mil estrelas
A incandescer-te o olhar.

Anjo lindo
Que guardas o meu coração
Tão leve como uma pena
Tão pesado de paixão
Desejo que estas palavras
Vindas de quem tudo te diz
Te façam sentir como és amada
Me façam sentir como és feliz.

22 de agosto de 2009

As Fontes Pálidas e a Cabana Partida

The Pale Fountains: As Fontes Pálidas. Enamorei-me do nome mesmo antes de os ter ouvido. Lembrava-me pureza, frescura e riachos primaveris. E a música não me defraudou. Escutei-os pela primeira vez a caminho do Bairro Alto, no carro de um amigo alentejano, mas moscavidense por imposição, que detinha uma velha e passada cassette do primeiro álbum. Foi um caso de paixão à primeira audição. Desde esse altura, nunca mais os esqueci.
Os Pale Fountains nasceram para ser uma banda de culto. Tinham tudo contra eles. Na época em que lançaram o seu primeiro LP, reinavam colectivos como os urbano-depressivos Echo & The Bunnymen, os divinos mas miserabilistas Smiths e os gottico ma non troppo Cure. Os Pale Fountains pareciam ser felizes, logo, carta fora do baralho. No cinzentismo dominante, Pacific Street, o registo de estreia do grupo, injectava flashes de luz e cor, influenciados maioritariamente pelos Love, pelos Byrds e pela bossa nova, com arranjos opulentos e expressivos na melhor tradição de Burt Bacharach. Pacific Street é um álbum ímpar no panorama dos anos 80, rivalizado apenas pelo ingénuo mas loquaz You Can't Hide Your Love Forever dos Orange Juice e pela pop existencial e adolescente, imberbe mas afectada, de High Land, Hard Rain dos Aztec Camera. Enquanto a maioria das bandas britânicas se escondia dentro das suas gabardinas e aspirava os ares herméticos e fumarentos da cidade em busca da sua musa, os Pale Fountains eram seres sacrílegos, vistos a passear de canoa, envergando calções e bonés e munidos de canas de pesca.
Pacific Street é um álbum radioso e optimista, rasgado por momentos mais circunspectos e melancólicos, mas nunca soturnos. É a banda sonora de uma vida sem mácula, que nos remete para uma adolescência eterna, para uma juventude despreocupada, em que os amigos eram verdadeiros e omnipresentes e o amor era um caleidoscópio de emoções difícil de entender, mas delicioso de sentir. Um disco de idealizações e de reminiscências, de fuga e de nostalgia, com as hormonas à flor da pele. Iluminado por excelentes canções, torna-se tarefa difícil apontar pontos altos neste disco, se bem que o pôr-do-sol à beira-mar que emana de Something On My Mind e Unless mereçam destaque. A folk com laivos de soul de Southbound Excursion é igualmente assinalável, tal como a placidez primaveril e campestre de Beyond Friday's Field e a estival e exuberante You'll Start a War. O brilhante uso dos sopros, constantes e carnais, fazem de Pacific Street um disco ainda mais caloroso. Prova disso são dois breves e súbitos trechos instrumentais que arrebatam completamente pela sua genialidade: Faithful Pillow (Pts. I & II). Só o que está intuído nestas pequenas peças lindas de morrer dava para construir uma sinfonia completa.
A complementar a edição em CD desta pérola, surgem os primeiros singles gravados pela banda, e que se desviam ligeira e esteticamente da edição original. São temas mais acessíveis, possuídos pelo espectro do easy listening, via Bacharach, o que afasta ainda mais os Pale Fountains das tendências da época. Palm Of My Hand poderia ter sido cantada por Dionne Warwick e a açucarada Thank You, com a sua orquestração em cascata, poderia ter concorrido ao Festival da Eurovisão de 1982. Autênticos OVNI resplandecentes a sobrevoar a urbe negra e poluída... Os Belle & Sebastian não seriam nada se este disco não tivesse existido.
Em 1985, e em resposta à falha comercial do primeiro àlbum, os Pale Fountains regressam com uma produção menos subtil e um som mais endurecido em ...From Across The Kitchen Table. Disco mais directo, não possui a beleza tranquila do seu antecessor, revelando-se mais atrevido e musculado. A sólida e focada produção de Ian Broudie não dá muito espaço para ler nas entrelinhas, mas arrancam-se momentos memoráveis no cantarolável Jean´s Not Happening, no urgente tema-título e no ambiente frustrado de cabaret vazio de Bicycle Thieves. Mais uma vez, o disco não teve o sucesso esperado e a banda de Liverpool separou-se. O líder Michael Head formou os Shack com o seu irmão John e o fabuloso trompetista Andy Diagram juntou-se aos ainda verdinhos James.

O primeiro álbum dos Shack, editado em 1988, e intitulado Zilch, é uma obra embrionária no que haveria de ser esta banda. As influências de Michael Head continuam imutáveis, nomeadamente os Love e os obrigatórios Beatles, e a tendência para compôr melodias clássicas e intemporais, deliciosas para os ouvidos, dão os primeiros e tímidos passos neste disco praticamente esquecido. O melhor ainda estava para vir, mas tomara muitas bandas conseguirem momentos como Emergency, High Rise Low Life, I Need You ou Someone's Knocking, esta última profetizando a ascenção dos marcantes Stone Roses.
Filhos do azar, para além de serem uma excelente banda ignorada comercialmente, os Shack sofrem um enorme revés quando, após a conclusão do seu segundo LP, Waterpistol, o estúdio arde, consumindo a maior parte das bobines que o continham. Uma única cópia do resultado final do álbum foi encontrada num carro alugado pelo produtor, mas ninguém o quis destribuir. Em 1995, quatro anos depois de ser gravado, o belíssimo Waterpistol foi finalmente editado pela alemã Marina Records, falhando novamente o sucesso. E belíssimo é a palavra exacta para um disco desta qualidade, uma jóia no meio de tanta mediocridade que, amiúde, é anunciada pela histérica imprensa musical britânica como the next big thing.
Preenchido por um ambiente geral de melancolia e desencanto, apesar das melodias graciosas e cristalinas, num planeta normal, este disco deveria ser uma lição para bandas como os Oasis. Aqui está tudo o que de melhor foi feito nas últimas quatro décadas de bandas de guitarras. Love, Beatles, Byrds, Stone Roses, todos eles se encontram neste disco como num labirinto de espelhos. Neighbours consegue enveredar pelos mesmos trilhos dos Pale Fountains e, ao mesmo tempo, fazer com que nos esqueçamos deles. Time Machine é uma brilhante composição, uma canção com C grande, plena de entrega e génio. Tal como o génio que habita a sublime balada Undecided, provavelmente a melhor canção que Michael Head compôs até à data. Hazy é um belíssimo exercício em tons de country rock e Stranger uma valsa intoxicada e sonolenta. Este disco parece ter sido feito para ser ouvido naquele período em que acordámos, mas ainda nos mantemos no limbo, num misto de sonho e realidade. E foi mais um disco que passou como um fantasma pelo universo melómano dos anos 90...
Após uma tournée a acompanhar os seus ídolos Love, Michael Head fez uma pausa nos Shack em 1997, e editou em conjunto com os Strands, banda propositadamente reunida para o efeito, mais um álbum de avassaladora e genial beleza denominado The Magical World of The Strands. O disco parece ter pegado na suave faixa acústica que fecha Waterpistol, a balada London Town, e seguir esse rumo para fabricar um disco outonal e recatado, pop de câmara, como foi já denominado. Esta obra é o corolário definitivo de Head como grande escritor e intérprete de canções. A sombra de Nick Drake, o lado mais sensível de Roger McGuinn e as texturas orquestrais dos Tindersticks marulham ao longo das onze canções do álbum. Queen Matilda, Something Like You e Fontilan são canções de elevadíssimo gabarito e que merecem tudo menos o esquecimento. Mas o génio de Michael Head continuava a não ter o reconhecimento merecido e as intermitentes malhas da heroína tornam-se uma mandíbula que o aprisiona cada vez com mais força. É pertinente questionar o que leva o homem a compôr, perante tanta adversidade e indiferença...
Em 1999, os Shack editam o seu terceiro álbum e conseguem o seu, ainda que modesto, pico de sucesso. A produção é eficiente e os temas são fortes, como se o líder da banda conseguisse ainda encontrar força na adversidade e responder com canções que são positivas e autênticos testemunhos de uma vida de revéses e droga. H.M.S. Fable é mais um grande disco, não tão orgânico como os anteriores, mas que debita diversas pérolas, em hinos como Natalie's Party e Beautiful, ou harmonias magníficas como o esmagador Comedy. A aura sombria de Nick Drake ainda se sente na canção que serve de título ao álbum e Daniella encerra-o de forma arrepiante e funesta, como se Arthur Lee fosse fechado num quarto escuro com a sua guitarra acústica e só lhe permitissem sair depois de compôr uma balada acerca do assunto.
Após os primeiros raios de sol do reconhecimento massivo, os Shack voltaram a ser a banda de culto que sempre foram. Quem gosta, gosta sempre, e este grupo não defrauda as expectativas dos seus conhecedores. Here´s Tom With The Weather, o álbum que se seguiu em 2003, optou por caminhos menos concorridos, por temas mais acústicos e por tonalidades mais sóbrias e maduras, mas com todos os elementos-chave que enfeitiçam a música presentes. A brisa de bossa nova que sopra de Soldier Man e a languidez de The Girl With The Long Brown Hair tornam o disco relaxante e, ao mesmo tempo, elegante. Uma obra de irrepreensível bom gosto, muito bem composta e executada, para disfrutar como se de um bom vinho se tratasse, sem pressas e trago após trago. Realce também para Carousel, interpretada pelo mano John Head, para o rastilho melódico de Meant To Be e para a declarada homenagem aos Byrds no terno Byrds Turn To Stone.
A suculenta receita prossegue com o último álbum da banda, datado de 2006 e intitulado On The Corner Of Miles And Gil. Com um nome que funciona como óbvia piscadela de olho a Miles Davis e Gil Evans, dois monstros do jazz, o disco não é propriamente uma obra derivada do que estes músicos produziram nos anos 50. Agora e sempre, os Shack conseguem ser a banda que mais se aproxima da herança que os Love nos legou. Com a morte de Arthur Lee, isso só pode ser coisa boa. Quem aprecia música feita com paixão, mestria e sob tão nobres influências, já deve ter um cantinho do coração guardado para estes senhores de Liverpool. De qualquer forma, nunca é demais empolar a qualidade de temas tão fabulosos e cativantes como Miles Away, Tie Me Down, Cup Of Tea e Closer, a já tradicional balada que finaliza este capítulo discográfico da banda. Espero sinceramente que o próximo não tarde.
Sempre que ouço os Pale Fountains / Shack, lembro-me de como a maior das misérias ou a maior das adversidades pode ser sublimada pela arte de criar e de como isso pode fazer com que uma chance perdida se transforme numa perseverante esperança renovada. Uma banda a lembrar, outra a estimar, respeitosamente...



20 de agosto de 2009

Danças Cósmicas

Em 2005, os Subway, duo inglês composto por Michael Kirkman e Alan James lançaram um álbum de electrónica com reminiscências dos grandes vultos alemães de 70. Empty Head, assim se chamava o LP, era um laboratório de influências onde a cena Krautrock / Kosmische e os sons mais dançantes do techno de Detroit e do house de Paris se conjugavam num disco extremamente bem conseguido e onde temas como Testing ou Empty Head traziam novamente à ribalta os sons imemoriais da pioneira electrónica germânica.
Agora, em 2009, a dupla regressa com novo upgrade desta tendência e o que resulta é uma obra-prima para os amantes da música analógica, da electrónica etérea, de batidas hipnóticas e de ambientes de perfeita sedução auditiva. Subway II é uma delícia para os indefectíveis do Krautrock. É incrível ouvir alguém recuperar estas sonoridades únicas e devolvê-las onde sempre estiveram: ao futuro. Estes senhores têm os pés assentes no século XXI, mas as mentes parecem conectadas com Berlim ou Düsseldorf no ano de 1975.
O disco abre magistralmente com Persuasion, e desde logo parece que os Harmonia da melhor safra voltaram das brumas do passado para nos envolver na sua onírica teia sonora. A batida motorik e a melodia giratória e espacial, simples mas penetrante, embala-nos e eleva-nos. Segue-se Lowlife, que começa por planar e cintilar ao nosso redor como os Cluster mais atmosféricos, para então se tornar um exercício electro cerebral e lento. Simplex traz à luz reminiscências dos Neu! em velocidade de cruzeiro, apresentando-se minimal e varrida por sintetizadores arcaicos mas viciantes na melodia que debitam. O duo gravou este disco utilizando somente equipamentos analógicos clássicos como o Roland Jupiter 6, Körg MS20, Univox SR55, Roland MKS80 e o Moog Prodigy, o que acentua ainda mais a veia retro-futurista da música. A quarta faixa, que ao denominar-se Harmonia não engana ninguém, rege-se pela ausência quase total de gravidade na qual os cosmonautas sónicos Roedelius e Moebius são mestres. O som mantém-se suspenso, nebuloso, sem princípio, meio nem fim, naquilo que é uma perfeita actualização da electrónica cósmica. Wünderbar...
A tendência galáctica prossegue com Jupiter, que cruza o ambiente frio e espacial com os bleeps e as batidas maquinais, computorizadas e urbanas do techno mais vanguardista de Detroit, como o praticado por Carl Craig ou Jeff Mills. Monochrome desbrava o mesmo território, mas eleva a fasquia experimental, soltando bafuradas de melodia abstracta e orbitando irregularmente ao nosso redor. Nota-se a presença de elementos mais radicais e mentalmente comburentes, deixando marcas dos Mouse on Mars ou cinzas dos To Rococo Rot. Horizon é uma estrela cadente, bela e distante, que intriga ao rasgar o negrume, mas breve demais para contemplar. O regresso a cenários mais dançantes é retomado em Delta II, peça de disco progressivo e interplanetário, que impele estranhamente ao movimento. A terminar, Xam deixa a pairar um perfume a Kraftwerk intercruzado na perfeição com texturas house contagiantes.
Os Subway não são plagiadores, muito menos revivalistas. Tudo o que fazem é música de dança, que soa fresca e inovadora. Misturam todas as influências supracitadas e o que resulta é um composto que apela às pistas, mas que consegue ao mesmo tempo enveredar por atalhos meditativos e, em certos momentos, melancólicos. Como toda a música de qualidade, a que está guardada em Subway II é intemporal. Como todas as bandas e artistas evocados e cuja ressonância ecoa pelas faixas deste álbum, os Subway merecem ser considerados mestres da arte da electrónica cósmica e avant-garde. Uma agradabilíssima surpresa e, definitivamente, um dos melhores discos do ano.

19 de agosto de 2009

América Nazi

Foi lido com alguns anos de atraso em relação ao original. Não obstante, foi o melhor romance que li em alguns anos. A Conspiração Contra a América, de Philip Roth, narra a história do que aconteceria se, em pleno início da Segunda Guerra Mundial, o aviador Charles Lindbergh se tornasse Presidente dos Estados Unidos.
Lindbergh ficou conhecido pelas ideias isolacionistas e as suas simpatias nacional-socialistas. O que advém deste enredo é uma obra avassaladora que impressiona ao relatar uma América aliada de Hitler e manipulada pelos nazis. No centro da história, encontra-se uma família judia, que assiste atonitamente ao desenrolar dos acontecimentos, que a minam por dentro e a mudam radicalmente e para toda a vida.
Brilhante, perturbador e vívido nas imagens realistas que consegue criar, este livro é imprescindível para quem se interesse pela História do Século XX, mais concretamente por este período negro e conturbado da evolução da Humanidade.

The Colour of Spirit

Desde sempre, os Talk Talk pareceram uma banda à margem, inadaptada, deslocada. Uma pedra na engrenagem, mas que ao mesmo tempo a faz mover para tomar outro rumo. Provavelmente por não saber onde os encaixar quando surgiram, a crítica britânica inseriu-os no caldeirão bizarro e, na sua maioria, inconsequente, do movimento neo-romântico de inícios de 80. Efectivamente, no seu primeiro álbum, The Party's Over, de 1982, a banda apresenta-se, a espaços, como um pastiche dos Duran Duran. Caso flagrante são os singles Talk Talk e Today. No entanto, momentos como Candy ou o próprio tema-título, aproximam-nos mais dos Ultravox ou da infância dos Japan que de poster bands como os ouriçados Kajagoogoo. Coisa saudável nos Talk Talk foi que nunca se identificaram como banda pretendente a arrebatar corações de adolescentes ou candidata a aparecer na capa da estridente revista Bravo. Provavelmente pela noção que os três rapazes não eram nenhumas estampas (Mark Hollis tem uma voz que ridiculariza Simon Le Bon, mas este último é mais fotogénico...), a música levou sempre a melhor sobre a imagem.
Em 1984, surge a primeira prova que os Talk Talk eram mais que outra banda de sintetizadores, camisas brancas, finas gravatas pretas e penteados exuberantes. As influências continuam, presentes mas difusas, sendo a mais palpável neste período os Roxy Music da era disco glam de Manifesto. De qualquer forma, a banda começa a ganhar identidade própria vincada em canções excepcionais como Such a Shame ou It's My Life, tema que dá igualmente título ao seu segundo álbum. Mark Hollis aperfeiçoa já o seu estilo vocal único, simultaneamente contido e dramático, capaz de arrepiar num momento e apaziguar no seguinte. A música abre espaço a maiores subtilezas, torna-se mais arrojada e complexa, deixando-se arrastar para uma beleza melancólica, especialmente em peças como Tomorrow Started ou a magnífica Does Caroline Know?.
Em 1986, com The Colour of Spring, os Talk Talk alcançam o panteão reservado aos estetas da pop. Àqueles que fazem da música mais que consumo de massas e tinta para pintar as paredes das estações de rádio. Ao seu terceiro disco, o trio londrino torna-se influência para muitas das bandas que surgiram depois, fazendo o seu legado prevalecer até à actualidade. Disco assombrado por uma etérea e hipnótica magia, cada canção parece fazer jus à capa, onde borboletas multicoloridas se alinham num todo que é diferente da soma das partes. The Colour of Spring é atravessado por uma atmosfera de tímido mas sintomático experimentalismo, ritmos intrincados e sumptuosas melodias, em que as guitarras assumem um papel de charneira. Dissertações sobre a vida e a morte, evocações de juventude e inocência, de amor e de perda constituem a espinha dorsal lírica do álbum. Todos os oito temas que o compõem são fora de série, com destaque óbvio para o pulsante Living In Another World e para o ritmo sincopado conjugado à secura da guitarra de Life's What You Make It. Os ambientes de rara beleza, oníricos e envolventes, de April 5th e Time It´s Time são igualmente pontos de paragem obrigatória. Contudo, é o intrigante e despojado Chameleon Day que perdurará como peça fracturante na história deste disco. Após este tema, os Talk Talk nunca mais seriam os mesmos. A editora não os reconheceria neste tipo de sonoridade. O público mais prosaico também não. E eles editam Spirit of Eden.
Spirit of Eden é o disco onde os fantasmas de Mark Hollis se sobrepõem às imposições da realidade. É um disco anti-pop, pontuado por tonalidades jazzísticas esqueléticas e por nuvens esporádicas de um blues descarnado. É um disco de música esparsa, mas onde tocam mais de uma dezena de músicos e onde latejam uma urgência e uma intensidade viscerais, mascarados pela ambiência geral de aparente tranquilidade. Na medida em que utiliza instrumentos ligados ao rock para fazer música que soa a tudo menos a isso, podemos afirmar com legitimidade que Spirit of Eden é o primeiro álbum de pós-rock de sempre. Antecede em cinco anos a estética dos Labradford, dos Bark Psychosis, ou até dos Tortoise. Datado de 1988, influencia de sobremaneira bandas como os Radiohead ou os Sigur Rós.
O álbum funciona como um contínuo, não podendo apontar grandes variações entre os temas, dado que todos partiram de uma base experimental que depois foi depurada até ao resultado final. Ecos do John Coltrane mais místico despontam pontualmente, assim como pináculos da música de câmara ou para cordas de Debussy ou Charles Ives. A tónica é toda ela avant-garde, o que torna o álbum uma experiência única mas exigente, que necessita de sucessivas audições para ser apreendida em pleno. De preferência na obscuridade, dado que grande parte do álbum foi produzido com a banda imersa na escuridão. E, ainda hoje, temas como o lindíssimo e comovente I Believe In You, o inóspito The Rainbow, o intra-uterino Wealth ou a explosão inesperada de Desire provocam arrepios na espinha e entranham-se na pele de muitos melómanos de superior bom gosto e mente aberta ao experimentalismo. Obviamente, e devido ao facto de ser uma obra-prima visionária, Spirit of Eden não vendeu nada e os Talk Talk transformaram-se numa banda alternativa...
Uma das vantagens de ser uma banda pária, ou vanguardista, ou caída em desgraça, é que pode fazer tudo o que lhe dá na bolha. Laughing Stock, álbum de 1991 que sucedeu a Spirit of Eden, tece uma nova tapeçaria de sons a partir das farripas do seu antecessor. Isto não significa que o disco seja um clone do seu par, na medida em que continua a trilhar novas sonoridades, chegando mesmo a suplantá-lo por diversas ocasiões e colocando os Talk Talk num mundo definitivamente à parte. No entanto, mantêm-se as estruturas esqueléticas, as texturas minimais e o improviso do jazz, sendo que o álbum foi lançado pela famosa editora Verve. Myrrhman abre o álbum na costumeira toada sombria, e é guiado pela penumbra por um violino de partir o coração mais empedrenido. Ascension Day podia ser um faixa perdida dos tempos áureos dos Soft Machine, toda ela atravessada por um ritmo jazzístico circular a que juntam estertores de guitarra e remoínhos de harmónica. After the Flood é uma lenta mas cadente marcha, onde a bateria se assemelha à chuva que cai morosamente e a guitarra corta como vento. A voz de Hollis é, desde há muito, um instrumento a juntar aos demais, e não apenas fonte de palavras cantadas. A aparição espectral e sonâmbula de Taphead confirma novamente a certeza que os Talk Talk foram os inventores do pós-rock. New Grass é longa, contemplativa e outonal, convidando ao recolhimento. Segundo consta, o álbum foi gravado num estúdio iluminado somente por velas e onde incenso ardia incessantemente. Nesse sentido, Laughing Stock assemelha-se a uma experiência religiosa, de um misticismo confesso e de uma beleza tão extrema que não precisa de ser física, mas somente espiritual para se manifestar. Runeii fecha as portas ao álbum, com uma guitarra solitária e dormente e faz igualmente cair o pano em definitivo sobre os Talk Talk...

Appendix

Após a separação da banda, os seus principais membros envolveram-se em projectos a solo mais ou menos relevantes. Mark Hollis, vocalista e principal mentor da pandilha editou um único álbum, homónimo, em 1998, e retirou-se da música desde então. Os sete anos passados entre o seu último registo e a sua única obra em nome próprio parecem ter acentuado ainda mais a veia minimal e intimista de Hollis. O disco é música de esqueleto exógeno e a economia de meios é levada ao limite, sendo que as canções se aguentam na corda bamba e no limiar do silêncio. Isto faz com que cada palavra e cada nota ressoem com uma intensidade redobrada. Extremamente melancólico, mas sem ser desesperado, Mark Hollis é poético, arrojado e diferente de tudo o resto que ouvi até hoje. Canções esparsas como a belíssima The Colour of Spring ou a estilhaçada A Life (1895-1915) assombram como paisagens nunca vistas e intrigam como dédalos. Sente-se ainda a influência do jazz em temas como The Daily Planet, mas é um jazz desmembrado, com as entranhas expostas, o que perdura ao longo de todo o álbum. Toda a gente devia ouvir isto pelo menos uma vez, para ficar a amar ou a odiar este génio. Assim, sem meio termo, pois a música também é extremista.
O baixista Lee Harris e o baterista Paul Webb fundaram o projecto .O.Rang, que editou dois álbuns e um EP na mesma linha dos dois últimos álbuns dos Talk Talk e que merecem uma curiosa audição. Mais recentemente, em 2002, Webb adoptou o pseudónimo Rustin' Man e assinou, em conjunto com Beth Gibbons um dos melhores álbuns desse ano, o fabuloso Out of Season, pleno de ressonâncias outonais e reminiscências pastorais.
O teclista e segundo compositor da banda, Tim Friese-Greene, por vezes conhecido como Heligoland, tem produzido discos intermitentes, sendo que o seu mais recente álbum, 10 Sketches For Piano Trio vale muito a pena ouvir.
Da electrónica pomposa e sintetizada ao pós-rock etéreo e descarnado, a música dos Talk Talk foi um contínuo despojamento de tudo o que é supérfluo até à mais monástica das clausuras. Ao ver os vídeos abaixo, e exceptuando a voz característica de Mark Hollis, consegue vislumbrar-se a evolução da banda em 1984, 1986 e 1988...


Talk Talk - It's My Life (UK Version)
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Talk Talk - Living In Another World
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Talk Talk - I Believe In You
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17 de agosto de 2009

Silly Season

É Agosto, o calor acossa-nos impiedosamente e o H1N1 penetra-nos sem o mínimo de decoro e romantismo. A recessão não dá tréguas e o Diário Económico de hoje informa que o desemprego só deverá entrar em queda em 2011. O Benfica empata imerecidamente em casa. Que fazer perante esta conjunção de eventos? Que fazer para a esquecer, nem que seja por breves momentos? Escutar os Happy Mondays é uma boa opção.
Não me recordo de outra banda em que o hedonismo reinasse com tanto despotismo e cuja atitude se centrasse tanto em viver todos os dias como se fossem o último. Divertimento puro e duro. Excessivo e irreverente até à medula, fuzilando a moral e espancando os bons costumes. Em poucas mas sábias palavras foram definidos como 24 Hour Party People e o epíteto assenta-lhes que nem uma luva.
Oriundos da Manchester cinzenta mas polvilhada de cor de meados de 80, os Happy Mondays foram uma das bandas mais importantes da Factory, um misto de editora musical, cartel de droga e hospício fundada pelo jornalista Tony Wilson. A sua história é sobejamente conhecida, principalmente pelo estilo de vida pouco ortodoxo dos membros da banda. Pouco ortodoxa é igualmente a sua música, principalmente a contida nos primeiros três álbuns do grupo. Uma mistura venenosa e contagiante de psicadelismo, soul e ritmos funk e house. Tudo isto encimado pela voz desconcertante e intoxicada de Shaun Ryder, um dos mais pitorescos frontman que a música já conheceu, e pelas danças símias e desengonçadas de Mark Berry, universalmente conhecido como Bez. Este último merece uma especial palavra de apreço, dado ser o único membro da banda que não toca nenhum instrumento. Apenas dança, com o seu par de maracas e os seus olhos esbugalhados. E quando não dança, apenas está.
No ano de Sua Majestade de 1987, sai para as ruas o primeiro álbum da banda. Ainda hoje me custa lembrar do seu nome na totalidade, dado que se intitula Squirrel and G-Man Twenty Four Hour Party People Plastic Face Carnt Smile (White Out). Produzido pelo insuspeito mestre vanguardista John Cale, é um disco onde, apesar dos ritmos infecciosos, reinam as guitarras, e onde Shaun Ryder se aprimora já como especialista em letras tão obscuras como nonsense. Temas como 24 Hour Party People e Tart Tart são dançáveis e caóticos em simultâneo, embrionários na forma como aliam a festa a uma sensação de que o amanhã não irá chegar e, caso chegue, será negro. Kuff Dam e Olive Oil aproximam-se mais do som clássico das guitarras das bandas de 80, mas sempre com um groove inerente que obriga o corpo a mexer-se. Esta primeira obra é ainda um pouco contida, sendo que a produção de Cale emagrece alguns dos temas, tornando o ambiente geral numa espécie de celebração cinzenta. De qualquer forma, é um excelente disco na forma como transporta o ambiente festivo para a Manchester opressiva, industrial e thatcheriana, influenciando-a e, em simultâneo, sendo influenciado por ela.
A loucura controlada por John Cale transforma-se na loucura declarada por Martin Hannett no surreal Bummed. O segundo longa-duração dos Happy Mondays, datado de 1988, beneficia e muito da produção do genial Hannett, homem mais dotado para este tipo de aventuras musicais. Li algures há muito tempo que este álbum parece ter sido gravado numa masmorra subaquática. Sinceramente não me ocorre termo mais adequado para descrever este disco. Uma autêntica rave party claustrofóbica, preenchida por reverbs ecoantes, ritmos opulentos e uma atmosfera geral de decadência lasciva e hedonismo feroz. Shaun Ryder é a epítome do poeta ébrio, do liricista tóxico, que dispara ironia, sarcasmo, bílis e joie de vivre em simultâneo. Country Song abre o álbum com estas inolvidáveis estrofes: I'm a simple city boy / With simple country tastes / Smoking wild-grown mari-jo-wana keeps that smile on my face. Mais à frente, em Mad Cyril: Although our music and our drugs stayed the same / Although our interests and our music stayed the same / We went together, druggers from the well / We've smoked together and we slipped down in hell. Ainda em grande estilo, Fat Lady Wrestlers reza o seguinte: I've just got back from a year in the sack /Must have been something i'm eating/ I've just got back from a year away / It's down to something you're drinking. Em suma, um manancial lírico que nunca sabemos ser possuidor de algum significado metafísico ou se é mesmo só para rimar... Por esta altura, Manchester mudava o nome para Madchester e a música de dança psicadélica e subterrânea dos Mondays era a fotografia no seu novo B.I.. Bummed é um excelente cartão de visita para a génese deste movimento, especialmente através de sevícias e malícias, melódicas e repetitivas, como Wrote For Luck ou Lazy Itis. Destaque igual merece a dança lisérgica do single Hallelujah, de 1989, o último sob a batuta de Hannett, e umas das melhores canções da banda.
Se com Bummed os Happy Mondays nos arrastam para o seu submundo e nos aprisionam em gaiolas dançantes, o álbum seguinte consuma a festa interminável no mais colorido e luminoso dos hedonismos. Pills & Thrills and Bellyaches, editado em 1990 é a coroa de glória da banda e o orgásmico apogeu da Madchester. Na cadeira de produção, Paul Oakenfold inflinge à banda uma sonoridade mais límpida e mais dançante que nunca, mas igualmente mais ácida. Isto é música hippie na era do MDMA e flower power nas pistas de dança. Irresistivelmente convidativo e contagiante do princípio ao fim, este álbum é capaz até de pôr um sorriso na cara de Manuela Ferreira Leite. Grooves imensos e obnubilantes transbordam por todo o lado, sem dar tréguas, sem parar a celebração. Como se não houvessem amanhãs nem ressacas. Como se não nos devêssemos ralar, pois vamos morrer na mesma e o melhor é fazê-lo em festa. As letras de Shaun Ryder seguem a senda costumeira, com o brilhante e já clássico Kinky Afro a abrir com a confissão: Son, I'm 30 / I only went with your mother 'cause she's dirty. A faceta mais romântica do artista surge em Bob's Yer Uncle onde são atirados a Rowetta, cantora que, por estes dias, é membro honorário da trupe, versos como: What do you want to hear when we're making love / Can I take you from behind and feel you in my heart ou, segundos adiante, Four fall in a bed, three giving head, one getting wet. O efeito das palavras de Ryder é, como sempre, quase tão narcótico como a música, que tem o poder de nos anular o pensamento e nos deixar nos braços de um saboroso esquecimento. De todos os magníficos temas que compõem o álbum, há que nomear igualmente o intemporal Step On, a viagem alucinada de Dennis and Lois, o hino ao ecstasy de God's Cop (a frase God rains it E's all on me diz tudo...) e a homenagem às roupas largas características da cena baggy em Loose Fit. Na hilariante e solarenga Holiday ficamos igualmente a conhecer o ideal de férias de Shaun Ryder: I'm here to harass you / I want your pills and your grass you / You don't look first class you / Let me look up your ass you / I smell dope, I smell dope, I smell dope, Fine smelling dope...
Com a vida desregrada e de excessos a começar a exigir os seus dividendos, os Happy Mondays foram eleitos por Tony Wilson salvadores da arruinada Factory e enviados para gravar um álbum que a salvasse da bancarrota. Enviado para Barbados para a sua concepção, o grupo preferiu dedicar-se aos prazeres do recém-descoberto crack, negligenciando a música e afogando-se na produção sensaborona do casal ex-Talking Heads Tina Weymouth & Chris Frantz. Yes, Please! foi editado em 1992, mas, se não o tivesse sido, ninguém daria pela sua falta. A carreira da banda entrou então numa toada de parada-resposta, mas que em nada se assemelha ao futebol britânico. Após uma mão-cheia de compilações, reuniões esporádicas, um projecto com alguma piada de Shaun Ryder e Bez denominado Black Grape e um mediano álbum a solo do cantor chamado Amateur Night At The Big Top, os Happy Mondays regressaram com novo álbum de originais em 2007. Unkle Dysfunktional possui bons momentos, como em Jellybean ou Cuntry Disco, mas nada que se compare com o brilhantismo do passado. Nesse sentido, o melhor último álbum dos Mondays continua a ser o primeiro álbum dos Black Grape, o espalhafatoso, caleidoscópico e revigorante It's Great When You're Straight...Yeah! de 1995.
Agora, e à medida que os Verões se sucedem, resta a nostalgia daqueles tempos gloriosos entre 1988 e 1991, em que o hedonismo imperava sem complexos de culpa, em que a Hacienda era onde um homem quisesse e onde duetos improváveis como este entre Shaun Ryder e Karl Denver estavam na ordem do dia...