Se há música que epitomiza o ideal de caldeirão de culturas, ela provém de Manu Chao. Como líder dos Mano Negra, desbravou caminho pela selva urbana com um misto da energia punk dos Clash cruzada com sonoridades da Jamaica e das Américas equatoriais. Os discos da banda são um abrasivo pot pourri multirracial e multicolorido, que disparam as mais variadas influências em todas as direcções possíveis.
A solo, Manu Chao continua a invocar as mesmas musas, se bem que menos urgentes e extasiadas. Com um clássico absoluto, Clandestino, na sua cartilha, o basco-galego-parisiense entrega-se actualmente a um som mais acústico e ensolarado, uma espécie de folk urbana misturada com tudo e mais alguma coisa, estilhaçada por samples insondáveis e apimentada com fortes especiarias caribenhas e sul-americanas. Genuíno cidadão do mundo, parece nunca ter poiso certo, e os seus álbuns reflectem-no magistralmente. Há um sentimento nómada, uma errância querida e uma liberdade sôfrega nas suas canções, que vagabundeiam pelos discos em várias línguas diferentes e aproveitando fragmentos umas das outras. Imiscuem-se a intervenção política, o vazio de ser estranho em terra estranha e a denúncia da opressão, ou não fosse Manu Chao confesso simpatizante do mexicano EZLN, mais conhecido por Ejército Zapatista de Liberación Nacional. Dá vontade de nomeá-lo o Che Guevara do pop-rock...
Infelizmente, nunca o vi actuar. A ele, que aparece em todo o lado. Que dá concertos de graça para grandes audiências. Dizem que é dono de um bar em pleno Barri Gotíc da fervilhante Barcelona e que, por vezes, irrompe pelo bulício nocturno de guitarra em riste. Chama-se Mariatchi e já lá estive duas vezes, esvaziando Voll-Damm's. Do homem, nem rasto...
Falando em aparições, eis Manu Chao materializando-se nas ruas de Buenos Aires, no seu melhor de artista do povo. E comovendo outro artista do povo como ele, El Pibe, nesta cena memorável engendrada por Kusturica...
27 de janeiro de 2010
18 de janeiro de 2010
Out of Time
Chegaram a chamar-se Silmarillion, emanando óbvias reminiscências Tolkienescas. Para evitar artritos, cingiram-se ao nome Marillion e assim prosseguiram ao longo dos anos 80 até hoje. Liderados no início pelo carismático e gigantesco Fish, os seus 4 primeiros álbuns são paragem obrigatória para qualquer fã de rock progressivo que tenha a certeza que o estilo não pereceu em 1976. À medida que foram avançado pelos anos fora, foram sucessiva e infelizmente perdendo os traços mais obscuros, fantasiosos e poéticos do estilo prog. Em 1983, baralharam tudo e todos, fazendo aterrar o seu OVNI dinossáurico em território dominado por neo-românticos e pelo tímido despontar do rock alternativo. Com as suas longas canções e encenações descendentes em linha directa dos Genesis do seus tempos áureos (que é o mesmo que dizer, com Peter Gabriel), podemos traçar uma evidência gritante entre os percursos artísticos das duas bandas. De geniais e influentes a horripilantes, quer uma quer outra começaram arrojadamente, mas espalharam-se ao comprido quando renegaram as suas origens e quiseram conquistar as tabelas de vendas, fingindo-se modernaços. No caso particular dos Marillion, ficamos encantados com o lancinante abandono de Script of a Jester's Tear, começamos a torcer o nariz com Incommunicado e uivamos de dor com qualquer coisa que Steve Hogarth, o substituto de Fish, nos apresente depois de 1992. Há muito que os Marillion já não são o que um dia nos intuiram, os porta-estandartes de uma segunda vaga do progressivo. Não sabemos o que os leva a prolongar uma carreira sem um único lampejo das glórias passadas. Somente essas glórias são dignas de reviver, em temas como o que se segue, em que o melhor dos Genesis e dos Van der Graaf Generator convergem na teatralidade destroçada de Fish.
12 de janeiro de 2010
Pérolas a Porcos
Thomas Dale Rapp é um dos mais visionários, literatos, sublimes e esquecidos cantautores americanos da segunda metade do século passado. A banda que fundou e que acompanhou o grosso da sua carreira, os geniais Pearls Before Swine, são, ainda e sempre, uma entidade misteriosa, obscura, psicadélica e com estranhas fixações místicas e medievais.
One Nation Underground, primeiro longa-duração do grupo, é um dos melhores e mais originais discos de 1967. Nesta época de flower power generalizado, os Pearls Before Swine não fugiam à matiz predominante, mas enveredavam, como escreveu Fernão Lopes, por semideiros escusos na revelação da sua arte. O álbum abre com a primeira canção escrita por Rapp, e logo uma das suas mais estonteantes criações: Another Time, balada trovadoresca, despojada e penumbrenta. Linda de morrer do princípio ao fim, relata um aparatoso acidente de carro realmente sofrido pelo autor, do qual a máquina saiu para a sucata e o baladeiro saiu ileso. Esta toada de folk psicadélico (um dos melhores jamais produzido) ressoa igual e magistralmente em Ballad to an Amber Lady e no torpor de reminiscências indianas, envolvente e intoxicante, da magnífica Morning Song. Drop Out! é uma romântica canção de protesto, belíssima como as emoções à flor da pele. Em Playmate, Tom Rapp faz-se ouvir como um Bob Dylan psicadélico e é curioso saber que, em crianças, ambos participaram num concurso de talentos, no qual Rapp ficou em terceiro lugar e Dylan em quinto. Já homens feitos, os papéis inverteram-se, mas os talentos são mais que equiparáveis... Menção obrigatória para o murmúrio melancólico que se esvai do corpo melódico da bela e onírica The Surrealist Waltz. E menção honrosa para o tema mais bizarro do álbum, a carta fora do baralho mas que é necessária ao todo para ele não desmoronar: (Oh Dear) Miss Morse, na qual Rapp atira uns versos em tom vitoriano sobre banjo e Farfisa, intercalados com a palavra FUCK digitada em código morse. Ah!, os loucos anos 60...
Em 1968, surge o segundo álbum da banda, o não menos que mítico e deliberadamente sem tempo Balaklava. A obra segue (e bem) os trilhos deixados pelo seu antecessor, mas as diferenças, se bem que subtis, fazem-se notar. O bom gosto gráfico das capas mantém-se. Enquanto a face de One Nation Underground era uma réplica do Inferno (parte d' O Jardim das Delícias) de Hyeronimus Bosch, Balaklava ostentava o não menos impressionante O Triunfo da Morte de Pieter Brueghel, o Velho. A música deste segundo tomo apresenta-se ainda mais obscura, misteriosa e imersa em paisagens de sonho. Assumidamente uma obra anti-bélica, principia com uma gravação saída das brumas do século XIX, nada mais nada menos que a voz e respectivo cornetim de um sobrevivente da Carga da Brigada Ligeira na batalha de Balaklava. Segue-se uma balada do outro mundo intitulada Translucent Carriages. A ambiência é arcaica, um misto de realidade e sonho, à medida que a voz de Rapp é seguida por um sussurro distante. Entre outras coisas, esta voz fantasmagórica murmura os célebres versos de Heródoto In peace, sons bury their fathers / In war, fathers bury their sons. Num mundo justo, esta canção seria venerada. Das sombras para a luz, a primaveril Images of April evoca atmosferas idílicas e convida a passeios campestres em tardes mornas. Mas, como na maioria nas músicas dos Pearls Before Swine, a contenção e o gosto dominam, o que permite ao tema deambular de forma encatatória, sem se perder em melopeias exageradamente hippie. There Was a Man é mais uma prova do grande e tocante baladeiro sem tempo que Tom Rapp era e sempre será. Mais uma canção completa, arrepiante a espaços, sem nunca forçar a tristeza, apenas deixando-a fluir. E ela flui magnificamente para I Saw the World, que mantém a fasquia musical no brilhante, introduzindo um acompanhamento orquestral e não nos deixando acordar do sonho. Partimos então para a comovente nostalgia de Guardian Angel, somente composta por voz e uma secção de cordas de partir o coração. Ode a um tempo passado onde era seguro viver neste mundo, é um tema estranhamente actual, apesar de já ter 40 anos. A versão de Suzanne de Leonard Cohen que se segue é irrepreensível e ombreia facilmente com a do mestre poeta. Na recta final do disco, Lepers and Roses é outra belíssima balada, levemente épica, fortemente penetrante. Nos escassos segundos seguintes, surge a voz remotamente gravada de Florence Nightingale e o pano cai com Ring Thing. Evocação breve mas eficazmente sombria d' O Senhor dos Anéis de Tolkien, uma das grandes influências de Tom Rapp, arrasta-se em toada funérea por pouco mais de 2 minutos, altura em que se ouve o álbum a rebobinar completamente para nos levar novamente à presença de Trumpeter Landfrey. Como que a provar que a guerra é um eterno retorno...
No rescaldo de duas obras-primas e com a banda em desintegração, These Things Too, terceiro capítulo desta epopeia é geralmente considerado como menos conseguido. Em parte é verdade, pois, apesar de ser um belo disco, não consegue alcançar a glória dos seus antecessores, assemelhando-se mais a um punhado de baladas gravadas em solidão por Tom Rapp. Muito na veia de Bill Fay ou David Ackles, These Things Too passa por nós como uma brisa de Outono, revelando subtis orquestrações e esparsos arranjos. As melodias de sonho prevalecem, como em When I was a Child e Man in the Tree, sendo a atmosfera geral um misto de luz e sombras. A excelente Sail Away é um bom exemplo deste contraste na mesma canção. De resto, Look Into Her Eyes é uma agradável e massajadora balada e há uma versão óptima da dylanesca I Shall Be Released. Não podendo passar ao lado do grafismo do disco, desta feita a capa ostenta uma pintura do século XV, da autoria de Giovanni Bellini, em que Cristo surge totalmente vestido à excepção de um rasgão que Lhe expõe um dos mamilos...
Os Pearls Before Swine atingem novo pico de forma com o subsequente The Use of Ashes, de 1970. Inspirado e recheado de belíssimos temas, é a última grande obra do grupo. Dois clássicos absolutos sobressaem desde logo do todo: o primeiro é Rocket Man, canção gigantesca apesar de breve e frágil, inesquecível pela melodia perfeita e o refrão arrebatador; o segundo é The Jeweler, balada dorida e poética, certamente uma das criações mais belas e tristes de Tom Rapp. É belíssimo o lirismo que transborda do desespero amoroso de God Save the Child, logo seguido por Song About a Rose, que exala um aroma derivado do mais romântico e existencial da chanson française. Em Riegal, dueto lindíssimo entre Tom e a mulher, Elizabeth, é narrado docemente o horrendo naufrágio de um navio e o afogamento dos que estavam a bordo. Tell Me Why inflecte pela primeira vez por territórios jazzísticos, fazendo-o com estilo e frescura. E um último destaque para a última canção, When The War Began. Mais uma balada anti-guerra, que não é cantada em tom de protesto, mas cujo efeito é igualmente devastador pela sublime melodia, acentuada por um não menos sublime e choroso violino. A capa do álbum? Para não fugir à tradição, uma tapeçaria do século XV intitulada A Caça do Unicórnio.
No ano seguinte, City of Gold não excede a qualidade do seu irmão mais velho. Enveredando por caminhos mais próximos da country que da folk, tem o seu quinhão de boas canções, como a vincadamente western Once Upon a Time e Casablanca, com os seus arabescos sobre o ritmo minimal. No entanto, os temas melhor conseguidos e mais memoráveis são 3 versões: Nancy, Seasons in the Sun e My Father, respectivamente de Leonard Cohen, Jacques Brel e Judy Collins. Mais tarde, nesse mesmo ano, a inspiração surge bastante mais polida e renovada no derradeiro álbum dos Pearls Before Swine, Beautiful Lies You Could Live In. A abertura aconchega logo os corações dos indefectíveis: Snow Queen mostra que quem sabe, não esquece, e Tom Rapp move-se mais uma vez como peixe na água nesta doce e trémula canção, dominada por um piano frio e uma vocalização plena de alma. Todo o disco é uma despedida feita com a discreta majestade de quem parte satisfeito consigo mesmo e é menos aventureiro que os seus antecessores. Mesmo assim, a qualidade estende-se por todos os temas, brilhando mais intensamente nos mais lentos e contidos, como Island Lady e Butterflies, mas brotando igualmente em momentos mais descontraídos, como é o caso de Freedom e She´s Gone. Após o interregno do disco anterior, a capa do álbum volta a ostentar um clássico, desta feita a pintura do século XIX Ophelia de John Everett Millais e, imersos na sua melhor aura, os Pearls Before Swine deixam de o ser.
A estreia a solo de Tom Rapp deu-se com um álbum lançado sem que ele o pretendesse. Familiar Songs, de 1972, não passa de um conjunto de revisitações do cânone da sua anterior banda, a esmagadora maioria interpretadas em parceria com a sua cara-metade. Somente duas canções nunca antes ouvidas emergem do disco, Grace Street e Charlie and the Lady. Ambas são respeitáveis, mas ofuscadas pelo inescapável património do passado. Passado esse que é revisitado mais sabiamente no mesmo ano, com a edição de Stardancer. Rapp está em forma considerável na maior parte do disco, que recupera pontualmente os ambientes druggy e de sonho diurno dos primeiros tempos dos Pearls Before Swine. Há um punhado de boas canções, como a pacífica For The Dead In Space, a solarenga Touch Tripping e o flutuantemente belo tema-título. Fourth Day of July, vívida e intensa canção anti-guerra do Vietnam é nitidamente o ponto alto desta obra. Revisitado igualmente é o grafismo característico da banda primordial, com a capa do disco a ostentar mais uma imagem de Pieter Brueghel, o Velho, desta feita a Descida dos Anjos Rebeldes.
1973 é o ano de Sunforest, que pouco mantém do estatuto alcançado anos antes. Disco estilhaçado, peca pela produção mais convencional, condição contra a qual Rapp parecia zelar obsessivamente. Não aterrorizando ninguém, é talvez a obra menos memorável do músico. Como sempre, os momentos mais conseguidos são as típicas baladas etéreas, que habitam o limbo entre o real e o imaginário. Prayers of Action e a sonolenta Forbidden City cumprem os requisitos. Sunforest, a canção, é o único momento que se aproxima do misticismo e da comunhão com a natureza, tão característicos dos Pearls Before Swine. E é magnífica. Mas a magnificência não alimenta o corpo e, após anos de excelente música sem resultados particularmente visíveis, tantos anos a dar pérolas a porcos, Tom Rapp desiste da música e do cabelo comprido, acinzenta as vestes e torna-se advogado. O silêncio instala-se por 26 anos.
Em 1999, ainda mais esquecido pela grande maioria que quando pegou numa guitarra pela última vez, edita o seu último álbum até hoje. Um regresso divino chamado A Journal of The Plague Year, produzido e instrumentalmente auxiliado pelos fãs de longa data Damon Krukowski e Naomi Yong, mais conhecidos como Damon & Naomi ou como dois terços dos belíssimos e extintos Galaxie 500. Esmagadoramente acústico, tem tudo para ser definido como o seu melhor álbum a solo. Recheado de composições fortes, dotadas de complexidade sob a carapaça ilusória das melodias simples, valeu a pena esperar por este retorno. Para ter o prazer de ouvir a voz agora mais grave de Rapp no seu mais refinado, erudito e poético em Space, Mars, Running In My Dream ou na genial The Swimmer (For Kurt Kobain). No fim, a cereja no topo do bolo: Shoebox Symphony, um épico de 10 minutos, autêntica máquina do tempo que parece percorrer a carreira de Rapp em 3 tempos: da folk pintalgada de rock ao devaneio psicadélico, finalizando numa espécie de cantilena infantil e nebulosa. Só pelo deslumbrante trabalho de órgão, esta canção merece ser louvada em histeria. E este álbum devia ter sido aclamado como um dos melhores de 1999, mas não foi. A sina de Tom Rapp mantém-se. Não consigo evitar colocar aqui o link para um interessante e original artigo publicado nesta altura no Washington Post e que abre um pouco o véu sobre a vida deste homem.
Eternamente posicionado entre o culto e o ostracismo, Tom Rapp tem sido fonte de inspiração para inúmeros actos musicais desde que os Pearl Before Swine emergiram. É impossível não encontrar ecos da sua arte nas bandas da rotulada New Weird America, nas baladas surreais de Devendra Banhart ou nas melodias de bruma florestal dos japoneses Ghost. Os góticos carpideiros This Mortal Coil, cujo gosto para versões é irrepreensível, possuem uma versão de The Jeweler de arrepiar a espinha. E em que medida as sonoridades e a imagética de Rapp e seus pares não franquearam portas para o onirismo gráfico, escuro e barroco da 4AD? No fim de contas, não foram só pérolas a porcos que foram lançadas...
11 de janeiro de 2010
Winterlong
Para amenizar o frio cortante. Para amenizar a dor que tenho no braço graças à vacina do H1N1. Para aconchegar o que as roupas não conseguem. Eis uma das mais belas canções dos últimos meses. O álbum de estreia, The Sleeper, mostra que têm o lirismo romântico dos Magnetic Fields e que dão um travo britânico ao estilo dos seus congéneres, vindos maioritariamente da nova cena alternativa americana. Por enquanto são uma banda sóbria e sem tiques de vedetismo. Se os deixarem singrar, veremos se continuam assim ou se é pura estratégia de marketing...
Kosmische Elektronik
Rifts, obra assinada como Oneohtrix Point Never, foi um dos discos mais extremos do recentemente finado ano de 2009. O mentor do projecto é o norte-americano Daniel Lopatin, que aqui condensa os 3 primeiros álbuns deste seu disfarce e mais alguns temas caseiros revistos e actualizados. Rifts é feito de música incorpórea, que se perde no espaço e ludibria o tempo. As influências óbvias à primeira audição são os primeiros anos de experimentalismo futurista dos Cluster e da electrónica espectral de Klaus Schulze. À medida que se desvela e contorce lentamente, surgem reminiscências de Morton Subotnick e do Brian Eno das ambiências rarefeitas.O que fica de Rifts é o monstro que ele é. Em sentido figurado, obviamente. Mais de 2 horas de electrónica planante, sem grandes variações para além das espirais subliminares que se sucedem a cada tema. A música tanto pode invocar auroras estilhaçantes de luz como o mais abismal dos negrumes. As melodias são mais sugestões que materializações e invade-nos uma ausência de gravidade constante ao longo do disco. É interessante saber que parte destas peças foram produzidas em cooperação com o Material Eye Institute, da Academia Russa de Ciências Computorizadas. Talvez advenha daí a sensação intermitente de que estamos a ser transportados pela Soiuz para o lado oculto da Lua.
Se há temas a realçar na densidade cerebral de Rifts, Betrayed in the Octagon é garantidamente um deles. Sonata electrónica, feita de uma melodia circular, tímida e contida, é a peça onde a influência germânica vintage mais se revela e seduz. Behind the Bank é igualmente um belo e atmosférico exercício, suavemente hipnótico e apaziguador. Learning to Control Myself serpenteia misteriosamente numa ambiência que mimetiza o mestre Robert Fripp para terminar em queda num buraco negro. O cibernético Russian Mind é atravessado por sintetizadores tão frios como a guerra que nunca existiu e debita a solidão da tecnologia há muito obsoleta. A frieza e a solidão de ficção científica transparecem igualmente em Zones Without People, potencial banda-sonora perfeita para as criogenias de Ubik de Philip K. Dick.
Num total de 27 temas, a fonte de júbilo é inesgotável para os amantes da electrónica mais difícil de penetrar mas, ao mesmo tempo, mais recompensadora. Electrónica cósmica, sem dúvida, daquela que ainda possui rasgos e musas da magia de outrora. Um disco que dá que pensar, literalmente.
31 de dezembro de 2009
2009: A Soundtrack

Nas horas derradeiras do conturbado e, muitas vezes, desconjuntado ano de 2009, resta-me ser arauto dos sons que mais me ajudaram a iluminá-lo e atravessá-lo. Como sempre, a lista é mais intuitiva que obsessiva e resume-se ao nicho da pop e do rock, mais ou menos alternativo, menos ou mais experimental. Muito foi ouvido e assimilado, aqui fica o que de mais essencial ficou retido e conseguiu ser inspirador...
1. Animal Collective – Merriweather Post Pavillion
2. The XX – The XX
3. Grizzly Bear – Veckatimest
4. Bill Callahan – Sometimes I Wish We Were Like An Eagle
5. Dirty Projectors – Bitte Orca
6. Fuck Buttons – Tarot Sport
7. The Flaming Lips – Embryonic
8. Fever Ray – Fever Ray
9. Girls – Album
10. Bob Dylan – Together Through Life
11. Antony & The Johnsons – The Crying Light
12. Wild Beasts – Two Dancers
13. Broadcast & The Focus Group - … Investigate Witch Cults Of The Radio Age
14. Sunn O)) – Monoliths & Dimentions
15. The Very Best – Warm Heart Of Africa
16. Neon Indian - Psychic Chasms
17. Atlas Sound – Logos
18. Yeah Yeah Yeahs - It's Blitz
19. The Antlers – Hospice
20. Micachu & The Shapes – Jewellery
21. Oneohtrix Point Never - Rifts
22. Bat For Lashes - Two Suns
23. Memory Tapes – Seek Magic
24. Richard Hawley – Truelove’s Gutter
25. Sonic Youth – The Eternal
26. Cass McCombs – Catacombs
27. Real Estate - Real Estate
28. Jim O'Rourke - The Visitor
29. Phoenix - Wolfgang Amadeus Phoenix
30. JJ – JJ nº 2
31. Alasdair Roberts – Spoils
32. Bibio - Ambivalence Avenue
33. The Low Anthem – Oh My God, Charlie Brown
34. Tinariwen - Imidiwan: Companions
35. Mayer Hawthorne – A Strange Arrangement
36. Dâm Funk - Toeachizown
37. Matias Aguayo - Ay Ay Ay
38. Emeralds - What Happened
39. Subway –Subway II
40. The Horrors - Primary Colours
41. Wilco - Wilco (The Album)
42. Espers – Espers III
43. David Sylvian - Manafon
44. The Sa-Ra Creative Partners - Nuclear Evolution: The Age Of Love
45. Ben Frost - By The Throat
46. Dinosaur Jr. - Farm
47. Iggy Pop - Preliminaires
48. Raphael Saadiq – The Way I See It
49. King Midas Sound - Waiting For You
50. Franz Ferdinand - Tonight: Franz Ferdinand
Manifesto

Toda a gente devia ter isto. Devia ser obrigatório por lei ou permitir benefícios fiscais a quem o adquire. Devia ser matéria de estudo nas escolas e ombrear com o PC Magalhães. Aqui reside a súmula da melhor música popular do século XX, honradamente revista e pomposamente melhorada. Podia ser a caixa de Pandora, mas daqui não saem maldições nem pragas, somente bálsamos. Pensava que o excelso Tomorrow Never Knows já não me conseguiria surpreender mais; A Day in the Life igualmente. Quão magnificentes soam lingotes de menor quilate mas igual valor sentimental como Blue Jay Way e Long, Long, Long nesta arca do tesouro sonicamente reconstruída! E porque nunca é demais lembrar paraísos terrenos...
19 de dezembro de 2009
Stars In The Bar Room Floor
Os Flaming Stars têm vindo a fazer, essencialmente, o mesmo álbum há 13 anos. Isto não implica que a sua música seja classificada como aborrecida ou repetitiva. O facto é que este quinteto londrino, liderado por Max Decharné, ex-membro dos nocturnos mas fogosos Gallon Drunk, tem apostado numa sonoridade que pouco ou nada se afasta da traça original. Essa traça bebe sofregamente das bandas de garagem dos anos 60 e de um imaginário noctívago, rockabilly e decadente, alimentado a álcool, tabaco e western spaghetti. Inúmeras vezes comparados aos Gun Club e aos Bad Seeds de Nick Cave, comungam dos primeiros a vertigem urbana e árida e dos segundos a visceralidade e qualidade interpretativa. Mas são acima de tudo bandas norte-americanas primordiais como os Sonics, os Artesians ou os Wailers e actos individuais icónicos como Elvis Presley ou Gene Vincent que moldam e assombram a sonoridade dos Flaming Stars.
Banda prolífera, desde o lançamento do primeiro álbum Songs From The Bar Room Floor em 1996 até Born Under a Bad Neon Sign, disco de 2006, os Flaming Stars editaram sete álbuns de originais e uma mão-cheia de singles, EP's e compilações. A consistência está presente em todos os lançamentos, sendo que Bring Me The Rest Of Alfredo Garcia será provavelmente a melhor carta de apresentação do grupo. O que fica, sobretudo, são as canções, urgentes e poderosas, penetrantes e inesquecíveis, amargas e ressacadas. Chamativas como um Cadillac dos anos 50 e espalhadas ao longo dos anos de existência da banda, são o sangue que lhe corre nas veias. Ten Feet Tall, A Hell Of A Woman, Downhill Without Brakes ou Sweet Smell Of Success são temas de fazer cair o queixo, nem que seja pelo majestoso Vox Continental que borboleteia infecciosamente ou pelos raids rítmicos do soberbo baterista Joe Whitney. The Day The Earth Caught Fire, The Last Picture Show, House Of Dreams ou Black Mask são sedutoramente escuras e palpam terreno nas sombras com dedos que parecem apreciar a travessia.
Como já foi dito, pouco ou nada mudou no estilo dos Flaming Stars desde a sua fundação. A música continua a encarnar no presente espectros do passado e as capas dos discos continuam a ser pastiches de cartazes cinematográficos dos anos 50. A atitude, essa, só pode ser apelidada de punk (por vezes dou comigo a pensar nos Stranglers dos primórdios quando os ouço...). Eternos membros da segunda divisão das bandas britânicas, parece não quererem mais que isso e também não precisam. Vestem os seus fatos e gravatas como se fossem membros da Rat Pack no coração do Soho; manda a tradição que iniciem cada álbum com um tema fervilhante e o encerrem com uma balada lacrimejante; arrancam tornados sónicos e são fiéis àquilo que fazem como se fossem a última das bandas de garage rock à face da Terra. Depois de vários anos de bulício constante, há três que se remetem ao silêncio discográfico. Pode ser que tenham terminado. Pode ser que lhes esteja a faltar combustível para arder. Seja como for, se voltarem, que seja na forma de sempre, pois não há mais ninguém como eles.
Banda prolífera, desde o lançamento do primeiro álbum Songs From The Bar Room Floor em 1996 até Born Under a Bad Neon Sign, disco de 2006, os Flaming Stars editaram sete álbuns de originais e uma mão-cheia de singles, EP's e compilações. A consistência está presente em todos os lançamentos, sendo que Bring Me The Rest Of Alfredo Garcia será provavelmente a melhor carta de apresentação do grupo. O que fica, sobretudo, são as canções, urgentes e poderosas, penetrantes e inesquecíveis, amargas e ressacadas. Chamativas como um Cadillac dos anos 50 e espalhadas ao longo dos anos de existência da banda, são o sangue que lhe corre nas veias. Ten Feet Tall, A Hell Of A Woman, Downhill Without Brakes ou Sweet Smell Of Success são temas de fazer cair o queixo, nem que seja pelo majestoso Vox Continental que borboleteia infecciosamente ou pelos raids rítmicos do soberbo baterista Joe Whitney. The Day The Earth Caught Fire, The Last Picture Show, House Of Dreams ou Black Mask são sedutoramente escuras e palpam terreno nas sombras com dedos que parecem apreciar a travessia.
Como já foi dito, pouco ou nada mudou no estilo dos Flaming Stars desde a sua fundação. A música continua a encarnar no presente espectros do passado e as capas dos discos continuam a ser pastiches de cartazes cinematográficos dos anos 50. A atitude, essa, só pode ser apelidada de punk (por vezes dou comigo a pensar nos Stranglers dos primórdios quando os ouço...). Eternos membros da segunda divisão das bandas britânicas, parece não quererem mais que isso e também não precisam. Vestem os seus fatos e gravatas como se fossem membros da Rat Pack no coração do Soho; manda a tradição que iniciem cada álbum com um tema fervilhante e o encerrem com uma balada lacrimejante; arrancam tornados sónicos e são fiéis àquilo que fazem como se fossem a última das bandas de garage rock à face da Terra. Depois de vários anos de bulício constante, há três que se remetem ao silêncio discográfico. Pode ser que tenham terminado. Pode ser que lhes esteja a faltar combustível para arder. Seja como for, se voltarem, que seja na forma de sempre, pois não há mais ninguém como eles.
8 de dezembro de 2009
Chill-Out Folk
Em 1973, o mestre John Martyn editou aquela que será, seguramente, a sua obra de referência. A sua obra-prima. O disco recebeu o título Solid Air e, ainda hoje, a sua influência se faz sentir, especialmente pelo facto de a folk nunca ter ido tão longe como antes deste álbum. Composto originalmente por 9 canções em estado de graça, este excelso disco mantém ao longo da sua duração o mesmo tipo de ambiência, dolente, arrastada, profundamente nocturna e tocada pelas estações do frio. O clássico absoluto que abre o álbum e lhe dá título é dedicado ao mago Nick Drake, amigo pessoal de John Martyn entretanto falecido. Esta canção foi feita para ouvir em quase total ausência de luz e silêncio absoluto. A voz inebriada e fumarenta de Martyn é magistralmente acompanhada por gotas cintilantes de xilofone, enquanto um saxofone enlutado observa à distância. Segue-se a folk mais tradicional do esplêndido Over The Hill, complementada por bandolim e violino, e em que a letra foca as agruras de uma vida de excessos, temática presente na maioria das canções do disco. A penumbra regressa, em tons de vermelho-escuro, com Don't Want To Know, belíssima balada adornada por discretos mas valiosos enfeites jazzísticos, nos quais um cálido piano eléctrico é rei. I'd Rather Be The Devil cumpre a promessa. É um tema possesso, um martelar voodoo, em que John Martyn aparenta mais ser um bluesman como Howlin' Wolf ou Leadbelly que um baladeiro do Surrey. O espírito livre do jazz sente-se mais que nunca, sendo que a versão ao vivo deste original de Skip James que viria a povoar algumas reedições do álbum ganha novo fervor pela intensidade e pelo improviso. Em ambas, o tema fecha com um encantatório trabalho de guitarra que remete para paisagens mais psicadélicas.
Um contrabaixo meditabundo estende o tapete a Go Down Easy, canção trémula em que a folk e o jazz se imiscuem na perfeição. Um baixo meio funky e uma guitarra semi wah-wah encetam a travessia vincadamente ritmada e fortemente inebriada de Dreams By The Sea, até que o piano eléctrico, sonolento e às apalpadelas, põe termo à excitação.
Chega a vez de May You Never, hino à amizade e um dos temas mais belos e emblemáticos do álbum, terno e despojado, em que a guitarra, ora golpeada, ora dedilhada, e a voz sentida de John Martyn chegam e sobram para as encomendas. A bruma e as sombras envolvem-nos e trepam por nós em The Man In The Station, perfeita ode a solitários que vagueiam pelas ruas nas horas mortas da noite. O disco termina em toada mais tradicional e alegre, com a dupla The Easy Blues / Gentle Blues. A primeira mostra bem a influência de Hamish Imlach, homem da folk mais aguerrida que lançou Martyn; a segunda é um quase um breve trecho cujo intuito é colocar ponto final no disco. E fá-lo com a qualidade e o génio de tudo o que ficou para trás.
Solid Air foi considerado, com o habitual e histriónico valor acrescentado que os britânicos colocam quando formulam algumas opiniões artísticas, como o primeiro disco de trip-hop de sempre. Facto é que o influente radialista Gilles Peterson, homem mais vocacionado para danças e electrónicas, coloca amiúde o tema-título no éter. Mas isto não se aproxima da realidade, apesar de não andar totalmente fora dela. Solid Air é um álbum de ambiências extremamente carregadas, narcóticas até. Como terapêutica relaxante e entorpecente encontra pouca rivalidade. Trata-se, indubitavelmente, de um dos grandes discos britânicos do século XX, que, reedição após reedição (a última teve lugar este ano, poucos meses após a morte do seu autor) ainda mantém a traça original e não precisa de mais que os seus primeiros 9 temas para encantar e arrebatar para a eternidade.
Canterbury Delights
Apesar da magra obra que legaram, os Hatfield and The North são uma das bandas mais emblemáticas e representativas do que ficou conhecido nos inícios dos anos 70 como Canterbury Scene. Esta rotulagem, um pouco forçada e vaga como são todas, assentou numa semelhança de estilos entre diversas bandas do território inglês em epígrafe, muitas delas constituídas por elementos de outras bandas já existentes, o que confere a este estilo o estatuto de uma autêntica matrioska de individualidades. Estes estilos baseavam-se, essencialmente, em estruturas musicais intrincadas mas melódicas, em que os elementos mais acessíveis da música pop se conjugavam à complexidade mais experimental do avant-garde. Considerada muitas vezes um subgénero do rock progressivo, a onda (ou cena) de Canterbury é bem mais que isso. Daqui advém uma grande parte da ousadia e da inventividade que construiu os alicerces do rock mais arty, desafiador e incatalogável. O improviso é lema e peça-chave deste género musical, o que se nota distintamente na incorporação declarada de sequências jazzísticas e no liricismo muitas vezes absurdo e inusitado, que parece servir somente como bengala para a miríade instrumental que se estilhaça a cada momento. Música que encanta tanto como intriga, que se estranha tanto como se entranha, tem nos dois álbuns de originais dos Hatfield and The North um típico exemplo da suas artes sedutoras.
O primeiro álbum, homónimo, da banda, foi lançado em 1974, altura em que o estilo de Canterbury já tinha ultrapassado a sua fase embrionária. É uma obra rica e sofisticada, executada com a perfeição clínica dos seus calejados membros. O surrealismo e a excentricidade invadem-na a espaços, sendo que a música parece contorcer-se e amolgar-se para poder avançar pelas dobras do nosso córtex cerebral. A prova é o magistral Shaving is Boring, em que uma introdução saltitante de órgão vai sendo acometida de sucessivos estertores até se deixar levar numa corrente imparável e hipnótica da qual não apetece sair. O corte e colagem de ambiências e ritmos mais ou menos frenéticos perdura durante todo o álbum, pelo que é absolutamente normal suceder-se a uma peça suave e plena de coros femininos como Lobster in Cleavage Probe, o cataclismo em regime free-rock de Gigantic Land Crabs in Earth Takeover Bid. Como é igualmente apreensível, os títulos dos temas não apresentam grande margem para decifração. Exemplo disso é o intrigantemente denominado Big Jobs (Poo Poo Extract). Não raras vezes a capa de um álbum faz jus ao seu conteúdo, e desta feita acontece isso mesmo. O céu cujas nuvens parecem ser figuras de um fresco de Miguel Ângelo sobre a placidez cinzenta de um qualquer subúrbio britânico, demonstra bem a intrusão do surrealismo na normalidade.
O segundo álbum dos Hatfield and The North, lançado no ano seguinte e baptizado The Rotter's Club, prossegue a senda do seu antecessor, mas consegue alcançar a proeza de ser ainda mais conciso e depurado. O disco abre com uma declarada canção pop, Share It, leve à superfície, mas cuja escavação mais profunda revela um cinismo latente. Lounging There Trying principia com uma deliciosa e aquosa guitarra, que acaba por preencher magnificamente um tema outonal e sombrio, mas por onde apetece deambular bem agasalhado. Os interlúdios estranhos e vindos do nada mantém-se, como no gargantuamente denominado (Big) John Wayne Socks Psychology on the Jaw e no seu sucedâneo não menos esquizofrénico Chaos at the Greasy Spoon. O génio instala-se definitivamente ao quinto tema, uma peça contraditoriamente intitulada The Yes No Interlude. Aqui é dado livre-trânsito à improvisação, que se propaga em convulsões sobre a cadente secção rítmica. Primeiro o órgão de Dave Stewart, depois o saxofone de Jimmy Hastings, soltam chispas de sons naquele que é, provavelmente, o melhor momento do álbum. Após este bombardeamento, a toada prossegue serena e sem sobressaltos, com destaque para o excelente e jazzístico Underdub até Mumps, tema que encerra a edição original do álbum. Com 20 minutos de duração e dividida em 4 partes, a peça é o que mais se assemelha a rock progressivo em todo o espectro da obra da banda. Tocado pelo génio, a espaços, há que destacar obrigatoriamente a longa e extasiante deambulação de Lumps, mais um exemplo perfeito do motor propulsor que constituía o colectivo na posse dos seus plenos poderes. A abrir e a fechar esta última sequência do álbum, as duas partes de Your Majesty Is Like a Cream Donut, mais um título de referência a juntar ao reportório da banda. A reedição do disco em 1987 acrescentou-lhe mais 5 faixas extra. De todos os temas, há que realçar o belíssimo e sólido Halfway Between Heaven and Earth.
Pouco ou nada conhecidos fora do solo inglês, os Hatfield and The North conseguem ter a sua pequena legião de culto dentro de portas. Assim é com o escritor britânico Jonathan Coe, cujo notável romance de 2001 intitulado precisamente The Rotters' Club é uma homenagem indirecta à banda, que surge diversas vezes mencionada nas suas páginas. Mesmo não sendo a nata das natas de Canterbury (esse papel cabe a luminárias consagradas e instituídas como Robert Wyatt, Soft Machine, Caravan, ou mesmo os Gong), os Hatfield and The North constituem uma belíssima opção a juntar a este estilo musical tão único e sui generis.
7 de dezembro de 2009
Genes, Signos, Identidades
Quem Nos Faz Como Somos é uma nova iguaria literária do psiquiatra e professor universitário José Luis Pio Abreu. Nova não será o termo correcto, dado que foi editada em 2007, mas, latu sensu, é o seu mais recente livro e que sucede ao já clássico Como Tornar-se Doente Mental?.
Desta feita, o autor debruça-se sobre a extrema e, por vezes, hermética, complexidade que faz da espécie humana aquilo que ela é. Partindo do particular para o geral, dos genes para os signos, do biológico para o cultural, Pio Abreu demonstra perfeitamente que é possível escrever sobre temas científicos e filosóficos de forma clara e acessível. Através de uma prosa escorreita e, a espaços, bem-humorada, o livro conta ao leitor a história da evolução da vida do ser humano, desde a involuntária fecundação do óvulo, à voluntária escolha da sua identidade num mundo carregado de possibilidades. No final, fica perene a ideia de que, mesmo perante a multiplicidade de opções, de culturas, de religiões, de relações que constituem o mundo do Homem moderno, a sua identidade será sempre condicionada pela herança genética que transporta. É ela que o faz agir daquela forma, naquela altura, perante aquela situação. Os genes fazem-no para sobreviver, os signos também, e o Homem está condenado eternamente a perseguir a sua liberdade total. Uma obra do maior interesse e excelente como ponto de partida para futuros desbravamentos de Umberto Eco, Michel Foucault, Jean-Paul Sartre ou Daniel Dennett. Mais sobre este progressivamente influente autor aqui.
Space Ritual
The European Homepage For The NASA/ESA Hubble Space Telescope: Assim se apresenta a facção cibernauta do Velho Continente dedicada ao mega-telescópio espacial Hubble e às suas descobertas. O site é um regalo para a vista, um manancial de fotografias e vídeos do cosmos profundo captados pela microscópica potência do aparelho. É impossível não sentir o peso esmagador mas delicadamente belo destas imagens e dos mistérios que as envolvem. Mais que palavras para a descrever, a divulgação desta página deve ser feita com um convite a explorar as suas recônditas maravilhas. São autênticas viagens de alta definição pelo sistema solar, por quasares e nebulosas, luxuriosamente coloridas ou desoladamente negras. Perante o que nos surge, tanto nos podemos deixar levar pela espiral vertiginosa de nave desgovernada dos Hawkwind como pela ausência de gravidade dos intra-uterinos Ambients de Brian Eno. Para olhar demoradamente, com ou sem propostas sonoras, em http://www.spacetelescope.org/.
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