15 de maio de 2010

Atavismo

Em 1971, os Kraftwerk eram uma banda embrionária, com um único álbum lançado e cuja metamorfose electrónica era ainda inaudita. Os Neu! ainda não sabiam que viriam a existir. Florian Schneider (dos primeiros) aparece aqui junto a Klaus Dinger e Michael Rother (dos segundos), num daqueles documentos únicos e históricos que, de quando em vez, um qualquer filantropo lança na web.
A peça do híbrido aqui apresentada intitula-se Truckstop Gondolero. A música é, felizmente, tão cerebral e irreal como o título - um Pangea sonoro inicial que dá consigo a esboroar-se sob uma rudimentar batida motorik. Gravado no lendário programa Beat Club, é a única versão editada e disponivel do tema. Para observar com nostalgia, pois, apesar das imitações, realmente já não se vê disto...

Die Sammlung

A Soul Jazz Records é um nobilíssimo exemplo de divulgação de géneros musicais fora do mainstream e do rebanho das novas tendências. Para além de um trabalho exemplar no lançamento de artefactos obscuros do dub, do reggae e do ska e da recuperação de peças verdadeiramente incríveis e estimulantes do Brasil do movimento Tropicália e dos anos 70, a editora britânica tem dado à luz excelentes gravações oriundas do pós-punk, do disco e de música de altíssimo gabarito, recolhida dos mais insuspeitos cantos do planeta.
Desta feita voltou-se para a electrónica e o rock experimental alemães. E fê-lo com a sageza habitual e o bom gosto dos apreciadores exigentes. Deutsche Elektronische Musik - Experimental German Rock and Electronic Music 1972-83 é uma colecção a roçar a perfeição.
A música que se descobre ao deambular por este disco, é feita de ruptura, de utopia, de idealismo e de romantismo. É arte criada pelos filhos do nazismo, encurralados entre um passado tenebroso e um futuro que não controlam. É um manifesto contra a ocupação, um grito de liberdade e individualidade, uma reacção às melopeias anglo-saxónicas, com as quais não se identificam e das quais não querem ser copistas.
Com o coração no Maio de 68 e a mente na vanguarda e na transcendência dos valores culturais, as bandas alemãs desta época construíram a sua própria linguagem, obstinada e propositadamente empenhada em romper com o passado e com a omnipresença da música inglesa e norte-americana. O que resultou foi descomunal em termos de influência, se bem que, como muitas vezes acontece, os merecidos louros não estejam nas sementes, mas sim nos frutos. É impensável falar de "Heroes" de David Bowie sem falar de Hero dos Neu!; é impossível mencionar The Bogus Man dos Roxy Music sem referenciar o pulsar cadente e monótono dos Can; ouça-se até o fabuloso Real to Real dos Simple Minds quando ainda eram uma boa promessa e denote-se a pastiche perfeita dos Kraftwerk. A espiral prolonga-se até ao infinito, sendo que o rasto ainda pode ser seguido nos mais actuais Deerhunter, The Horrors ou LCD Soundsystem...
É redundante apontar casos pontuais na excelência global de Deutsche Elektronische Musik.... Somente os gigantes Kraftwerk e o catedrático Klaus Schulze se podem apontar como ausências na congregação. Mas essas lacunas possibilitam igualmente a inclusão de actos menos conhecidos, mas igualmente possantes, como é o caso dos Between (envolventes e ritualistas na belíssima Devotion) ou dos Kollektiv (na libertária cosmogonia jazzística de Rambo Zambo). O agrupamento Ibliss apresenta igualmente uma sonoridade solta de jam session na longa High Life e dois exemplos da electrónica menos conhecida mas de créditos firmados surge com os temas de Michael Bundt e Deuter. O primeiro, La Chasse aux Microbes é derivativo dos grandes mestres do futurismo sintetizado, uma peça planante e suspensa no tempo, daquelas que possuem o dom de nos fazerem transcender a nossa própria presença. O segundo, Soham, é espiritualidade electrónica, que ora nos imerge em águas turvas como nos ergue até à luz. A palavra mantra faz sempre sentido na caracterização destas peças, pois parecem despoletar viagens circulares na nossa mente, travessias às apalpadelas pelo nosso próprio espírito, para que seja permitido o tempo e a possibilidade de descobri-lo.
O lauto pedaço que resta é composto por material lendário que todo o melómano que se preze deveria conhecer e que todo o neófito tem o dever de descobrir. Até porque a compilação é devotada ao lado mais acessível e menos carrancudo do Krautrock. Faust, Harmonia, Popol Vuh, Ash Ra Tempel e Cluster são mais nomes do copioso cardápio. Devorem-no!

9 de maio de 2010

Espírito Encarnado


Hoje, pela 32ª vez, é dia de enaltecer um dos mais belos e apaixonados poemas que a língua de Camões e Pessoa nos legou:

Sou do Benfica
E isso me envaidece
Tenho a genica
Que a qualquer engrandece
Sou de um clube lutador
Que na luta com fervor
Nunca encontrou rival
Neste nosso Portugal.

Ser Benfiquista
É ter na alma a chama imensa
Que nos conquista
E leva à palma a luz intensa
Do sol que lá no céu
Risonho vem beijar
Com orgulho muito seu
As camisolas berrantes
Que nos campos a vibrar
São papoilas saltitantes.

8 de maio de 2010

Japrockbible

As bandas rock japonesas foram sempre rodeadas por uma aura de mistério e secretismo. Como se a própria cultura nipónica fosse algo hermético e muito próprio, que pertencesse somente ao país do sol nascente e nunca irradiasse para fora desse ilhéu território. Por mais açambarcadores que sejam da cultura ocidental, fazendo até com que certos actos e artistas sejam mais venerados no Japão que nas suas nações de origem (a célebre e, muitas vezes pejorativa, sindrome Big in Japan), os nativos da milenar Cipango têm mais que motivos para se orgulharem do que criam e exportam a nível musical. Para além de gente universalmente (re)conhecida como os Yellow Magic Orchestra (e o seu filho desviante Ryuichi Sakamoto), Silent Poets ou Pizzicato Five, o Japão detém actualmente uma miríade de grupos e artistas que é obrigatório conhecer. Nomes como Ghost, Boris, Boredoms, Merzbow, Somei Satoh, Keiji Haino ou os Acid Mothers Temple em todas as suas manifestações são exemplos da vanguarda musical única, tremenda e excitante que vai despontando desde há anos por terras do Oriente.
Impecável e meticuloso arqueólogo de sons como é habitual, Julian Cope decidiu agarrar na picareta e na lanterna e explorar os sons mais arcaicos e recônditos do rock japonês. Tal como a essencial obra Krautrocksampler relatou magistralmente o advento da música moderna alemã, este livro narra a história de um Japão pós-bomba atómica e como a música ocidental se juntou às tradições do país para criar algo único, transcendente e metamórfico. Flower Travellin' Band, Far East Family Band, Masakiko Satoh ou Taj Mahal Travellers são nomes a reter e a investigar por entre a parafernália comburente dos primórdios do rock amarelo. A dissecar neste espaço, futura e certamente. Entretanto, nada como beber directamente da fonte em http://www.japrocksampler.com/.

DEVOlution

O álbum de estreia dos norte-americanos Devo soa a um cruzamento entre o primeiro disco dos Talking Heads e os dois primeiros dos XTC, com a mão sagrada de Brian Eno a segurar o ceptro da produção. As guitarras são angulares, os ritmos frenéticos e sincopados, as vozes nervosas e robóticas. A música parece querer renunciar a toda a sua humanidade, apesar do constante encorajamento à "dança". Como se mexer o corpo ao som desta música fosse pura e simplesmente uma consequência mecânica do estímulo e nunca uma reacção emocional. Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! - o título desse disco de 1978 diz tudo.
O que fez dos Devo radicalmente diferentes da maioria das bandas New Wave americanas, foi a adopção de fardamentos e ornamentos que os fazia parecer um grupo de cientistas de laboratório vítimas da sua própria experiência demencial. Aliado à apetência por um catálogo de referências kitsch, como a ficção-científica americana dos anos 60, e a um humor corrosivo e muito próprio, este estilo tornou-os um dos fenómenos mais visualmente fascinantes da cultura popular. A música não foi tão uniforme como os próprios uniformes e é no primeiro álbum da banda que as melhores ideias despontam mas também se esgotam.
Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! possui hoje o estatuto de clássico. É merecido. Com a inteligência suprema de Brian Eno a preencher o disco de pequenas grandes interjeições e sons palpitantes e originais, a obra soa eternamente fresca e desafiante. Tudo acontece a grande velocidade, os temas são curtos e urgentes, catchy e melódicos de uma forma esquisita. Se há corolários a apontar, serão decerto o espantoso e provocante Mongoloid, tema que ainda possui o condão de fazer vibrar qualquer cérebro inteligente, Jocko Homo e a ciência emperrada do seu ritmo e a versão fracturante e praticamente irreconhecível de (I Can't Get No) Satisfaction dos Rolling Stones. Peças mais ortodoxas, mas igualmente excitantes, são o deslizar New Wave das guitarras e do piano em Gut Feeling / (Slap Your Mammy) e a energia quase punk do electrizante Come Back Jonee. Uncontrollable Urge e Sloppy (I Saw My Baby Gettin') são coloquiais e ecos da influência dos supracitados Talking Heads e XTC. Mesmo assim, fazem cair o queixo a qualquer pessoa que não seja surda à inventividade e aprecie em simultâneo abanar o esqueleto. Shrivel Up é o som de Nova Iorque no mais castiço da sua vanguarda, mesmo sendo a banda nada e criada no Ohio...
Provavelmente foram sempre mais imagem que substância, mas é certo que o primeiro álbum dos Devo conseguiu uma pequena revolução. Revolucionou a imagem de muitas bandas, imiscuiu a sátira e a crítica social de forma surrealista e subliminar no contexto das canções pop de 3 minutos e aproveitou as fatiotas amarelas e os chapéus saídos de qualquer personagem de um filme de Ed Wood para conseguir projecção nesse símbolo da música massificada que é a MTV. Que o diga um dos vídeos literalmente mais marados da história, abaixo replicado. Se Eno tivesse vestido o fato de latex de dominador, o que teria feito destes moços...



Kosmische Kosmetik XII

O nome é idêntico ao do célebre romance de Hermann Hesse, mas sairá defraudado quem vier procurar nestes Siddhartha a simplicidade e o Om primordial que transbordam do livro. O único álbum desta banda de Estugarda, datado de 1975, é um disco complexo e denso, onde o virtuosismo mais classicista abraça o mais desgarrado experimentalismo. Looking in the Past, o primeiro tema, é, grosso modo, um trecho para guitarra e órgão, opulentamente arty e progressivo até à medula. Assim sendo, a vocalização de Gabi Rossmanith (algures entre Renate Knaup-Kroetenschwanz dos Amon Düul e a Dagmar Krause do período Slapp Happy), soa estranhamente desfocada do todo, o que confere à peça uma tonalidade ainda mais retalhada.
Tanz im Schnee é um instrumental que inicia a galope os seus 5 minutos, sofrendo várias alterações de passo pelo caminho e atingindo o clímax num ribombar cintilante de órgão. Tema vincadamente clássico, emana fragrâncias do progressivo alemão mais melódico, muito ao gosto dos Grossnicht, e cria texturas para teclado que lembram amiúde os Egg.
A atmosfera mais tristonha que se espera de um álbum intitulado, como este foi, Weltschmerz (A Dor do Mundo), desponta à terceira faixa, contraditoriamente intitulada Times of Delight. Apesar da óptima intrusão de um violino, a predominância instrumental continua a ser dada à guitarra e as teclas, em constante duelo, e, aqui em particular, com um feeling melódico e melancólico sublimes. Cortado ao meio por uma quase-canção, é um tema típico de uma certa angústia tipicamente germânica e que se expressa com todo o seu peso existencial nesta sonoridade. A toada maioritariamente dolente continua em Weit Weg, longo trecho que oscila entre o introspectivo e o exuberante. Elementos novos, como flauta, guitarra acústica e, inclusivé, uma insuspeita tuba, povoam esta extensa peça, que consegue manter-se cativante ao longo dos seus 10 minutos devido às constantes voltas e piruetas que os músicos lhe injectam.
Um órgão chegado à frente e um violino a espreitar por detrás marcam o tempo da derradeira canção do disco, Gift of the Fool. O cinzentismo prevalece, a guitarra lacrimeja e a voz oscila entre a entrega operática e o desligamento espectral.
De Weltschmerz só se pode dizer que é uma obra de saudável incoerência. Um disco inclassificável, daqueles que utilizam toda a paleta de sonoridades possível para expressar os seus intentos. Numa altura em que o período mais criativo e profícuo do Krautrock já seduzia algum mainstream, este disco vem reafirmar que as primeiras intenções desta geração de músicos foi criar arte libérrima e descomprometida, pura e dura na sua obscuridade.

18 de abril de 2010

O Ruído Explicado

O Resto é Ruído, do crítico musical do New York Times Alex Ross, é um dos mais livros sobre música escritos com mais profundidade e seriedade que já tive o prazer de ler. É uma leitura proveitosa e compulsiva, de um tema difícil, restrito e complexo: a música clássica do século XX.
Alex Ross conta uma história do último século, tendo como ponto de partida a música e o período temporal em que ela mais se fragmentou, inovou, radicalizou e popularizou. Desde a quebra de convenções surgida com a audaz atonalidade das obras de Arnold Schoenberg, à contemporaneidade já impregnada de influências recentes e fracturantes de John Adams, O Resto é Ruído é uma obra essencial para quem queira conhecer os meandros da composição erudita dos cem anos que nos antecederam.
Ross consegue magistralmente, e em constantes rasgos de profundo know-how da matéria que disseca, traçar o percurso da música moderna, o porquê das suas convulsões e revoluções e a sua contaminação simbiótica e influente em fenómenos de massas como o rock, a pop e as bandas-sonoras de filmes. Isto sem deixar de lado uma leitura biográfica e de aspectos maioritariamente desconhecidos dos homens que dedicaram a sua vida à arte de criar sons no conturbado e mutante século que passou. É obra; é obra-prima e é a prova palpável que se pode escrever sobre música sem a descaracterizar ou desmistificar, provocando no leitor o desejo e a curiosidade de conhecer aqueles sons, descritos com fascínio e um rigor quase científico. A excelência deste livro tem sido louvada um pouco por todo o lado e vale a pena consultar as suas repercurssões e outros aspectos biográficos do autor em http://www.therestisnoise.com/.

Dr. Phil

Ao nomear os mais virtuosos e influentes guitarristas de todos os tempos, Phil Manzanera raras vezes vem à baila. É algo injusto pois, mesmo ofuscado por Brian Eno e Bryan Ferry nos inícios dos Roxy Music, Manzanera preenche os discos da banda com o seu estilo elegante, sofisticado e futurista, mas vigoroso quando é necessário puxar dos galões mais ásperos. Desde os anos 70 que o guitarrista anglo-colombiano se dedicou a projectos paralelos sem nunca adandonar a Banda-Mãe, fugas essas que lhe permitiram experimentar outras sonoridades e ser rei e senhor do seu próprio território. Lançou o primeiro álbum a solo, o excelente Diamond Head em 1975 e, no mesmo ano, reuniu um colectivo imbuído do melhor espírito de Canterbury chamado Quiet Sun. O único disco que legaram, Mainstream, é um belo exercício infestado por fusões entre jazz e rock, apelativas e inventivas.
Aproveitando a desmobilização temporária dos Roxy Music em 1976, Manzanera conjurou um colectivo fugaz, os 801, cuja formação embrionária incluiu Brian Eno. Estes, per si, nunca editaram nenhum álbum de estúdio, gravando no tempo apenas a memória de vários concertos de culto. A última concentração, ocorrida no Queen Elizabeth Hall, pode ser escutada no magistral 801 Live.
Com Eno a mover-se nas sombras e os 801 revistos e aumentados como banda-suporte, Phil Manzanera gravou em 1977 um soberbo álbum intitulado Listen Now!. Quase um disco conceptual, Listen Now! debruça-se vagamente sobre a temática muito Orwelliana de viver numa sociedade totalitária, vigilante e opressiva. No entanto, e apesar do pesado mote, a música é maioritariamente suave e superiormente melódica, ao contrário de, por exemplo, a obra-prima 1984, de Hugh Hopper, disco bem mais complexo e assombrado. Leves trejeitos funk aliam-se na perfeição às vocalizações justapostas do tema-título, todas em quase-surdina, numa paranóia contida. A guitarra elegante desponta de quando em vez, nítida mas sem imposições e a canção esvazia-se em parada jazzística. Flight 19 é pop contagiosa abençoada pela guitarra vertiginosa de Manzanera e pela voz do praticamente desconhecido Simon Ainley. No absolutamente divinal Island, as seis cordas transfiguram-se majestosamente, e conjugam-se a uma bateria estratosférica para tornar o instrumental a peça mais bela de todo o álbum. A clássica edição em vinil fecha o lado A com Law and Order, outra pérola pop imaculada e de refrão ideal, se bem que distante e desencantada como todas as canções do disco. E continua a ser magnífico o modo com a guitarra de Manzanera enche o tema sem o sufocar. Pura classe e nada mais...
A segunda parte do álbum principia com Que?, curto surto instrumental que parece homenagear a expressão mais pronunciada pelo célebre criado Manuel da eterna série cómica Fawlty Towers. O teor mais político e circunspecto retorna em City of Light, canção palpitante, dominada pelo baixo alarmista de Billy MacCormick e pela guitarra novamente possuída por efeitos. Initial Speed é outro instrumental, desta feita frenético e tomado de assalto pelo jazz mais salutarmente conspurcado.
Duas canções em tons de cinzento encerram o álbum. Postcard Love evoca a pop mais atmosférica e menos bacoca dos 10cc, cujos membros Kevin Godley e Lol Creme também se juntaram à corte de 16 músicos que ajudaram a construir Listen Now!. That Falling Feeling prolonga e acentua a insular melancolia, provando que Simon Ainley foi a escolha perfeita para dar voz a estas canções em que o Sol ilumina, mas está sempre escondido atrás das nuvens. Phil Manzanera, como sempre, espalha arte e mistério dedilhados tema afora.
Para os coleccionadores, Listen Now! foi reeditado em 2000, contendo três faixas que ficaram de fora da edição original: Rude Awakening, Blue Gray Uniform e Remote Control. As duas primeiras escapam à banalidade graças ao trabalho sempre bem-vindo de Manzanera. A terceira é um bom tema roqueiro, a fazer lembrar os Roxy Music mais edgy de Country Life.
Listen Now! continua a ser um excelente disco para conhecer o universo de Phil Manzanera enquanto cançonetista e virtuoso da guitarra. E esta última é usada de forma especialmente hábil e escorreita, o que faz do mestre um homem inteligente na contenção e sábio no manejo do instrumento, sem nunca o tornar objecto de masturbações egóicas.

17 de abril de 2010

Galardão


Foi atribuído, pelo eminente e respeitável site / rádio online Cotonete o honroso galardão Blog da Semana ao Escrito no Som. Não posso deixar de expressar as minhas palavras de gratidão para com a atenção e o interesse dispensados a este espaço, solitário e artesanal. O incentivo é enorme, a responsabilidade de manter o nível, maior ainda. As expectativas não serão defraudadas. A boa nova pode ser consultada neste local.

The Fellowship

No circo muitas vezes inconsequente do chamado rock gótico dos anos 80, os Sisters of Mercy foram o melhor de todos os colectivos. Sempre conseguiram olhar para além do negrume austero e até inflingir a sua imagética de subliminares doses de humor. Andrew Eldritch, eterno pai e mentor do projecto, viu a sua vida a andar para trás no devir do litígio com Wayne Hussey, guitarrista da banda, após o lançamento de First and Last and Always em 1985. O conflito levaria à cisão entre ambos, sendo que Eldritch, sempre mais inteligente, garantiu o uso do nome da banda e forçou Hussey a agrupar-se sob a denominação The Mission. O motivo: The Sisterhood. O objecto: Gift. Ao contrário do que se possa pensar, Gift não é uma dádiva, mas sim a palavra alemã para veneno. Cingindo-se à cadeira de produtor, Andrew Eldritch reuniu Alan Vega (Suicide), Patricia Morrison (Gun Club), Lucas Fox (Motörhead) e James Ray (The MK Ultra) para um dos discos mais genuinamente góticos de sempre e, incrivelmente, um dos mais dançáveis. Deixando para trás o lirismo folhetinesco que se debruça, logicamente, sobre a animosidade e o ressentimento entre as duas ex-Irmãs da Misericórdia, Gift (1986) é um monolito musical fascinante, desolador nas ambiências e mais escuro que uma noite de trovoada. Não há bateria. O ritmo, marcial e opressivo é assegurado por uma série de maquinaria conhecida como Doktor Avalanche. O convite à dança é óbvio, mas o movimento é espectral, descarnado, frio e mecânico. Jihad abre o disco em movimentações de guerrilha, intercortadas por esgares electrónicos das Arábias. Não se consegue ser muito mais gótico que em Colours, oito minutos de queda no abismo, minimais, densos e perfeitos. Um verso repetido em tom gélido, um vácuo pulsante e um embalar demoníaco.
Giving Ground mantém a simplicidade eficaz, debruada a negro, onde se nota a presença flutuante de Alan Vega e dos seus seminais Suicide, na claustrofófica e alienada paisagem urbana, poeticamente feia e industrial. Finland Red, Egypt White é repetitiva como uma rajada de metralhadora e serve de roupagem ideal à declamação do Motörhead Lucas Fox, uma académica descrição do funcionamento da AK-47. A última das longas e arrastadas faixas é Rain From Heaven, uma agonia chuvosa e monocórdica, cântico processional ao qual o sintetizador empresta uma tonalidade ainda mais funesta.
Andrew Eldritch viria a conseguir a sua melhor obra de sempre com os Sisters of Mercy em Floodland, no ano seguinte. Mas nunca conseguiu tingir corações de preto como neste despojado e - aqui o nome ajusta-se perfeitamente - gótico disco.

Ils Ce-Sont Fous, Ces Gaulois...

Gilbert Artman toca piano e fala francês, mas é, acima de tudo, um baterista nato. Preciso quando é preciso, extravasando quando assim lhe é exigido. Músico de escola jazz por essência, fundou no colectivo gaulês Lard Free uma fusão entre esse estilo, o rock e a electrónica mais sedentos de desbravamento. Gilbert Artman's Lard Free, primeiro capítulo oficial destas catanadas musicais, fez-se em 1973 e manifesta-se como um disco arrojado e visionário para a época. A mistura incandescente e totalmente instrumental, umas vezes abrasiva, outras atmosférica, de sonoridades orgânicas com electrónicas, coloca este disco nos píncaros de uma nova onda revigorante da música francesa, que encontraria similitudes nos Heldon ou nos mais freaky Atoll.
...Lard Free inicia a sua lenta invasão mental com Warinobaril, em que a secção rítmica, cadente e impenetrável, se volta de costas para um saxofone em cantus horribilis tal e qual sereia e uma guitarra que parece gritar por soltura. 12 ou 13 Juillet Que Je Sais d'Elle cresce lentamente, invadindo-nos com uma suave paranóia, muito graças ao sintetizador ansiogénico e imparável que penetra os tímpanos em golpes agudos; sem aviso, uma guitarra perigosamente Frippiana enceta uma segunda parte do tema, esquizofrenicamente distinta da primeira, e em que os ritmos mais espaciais do jazz são novamente reis e senhores. Sente-se já aqui o ténue aroma do fugaz movimento Rock in Opposition, variante extrema do avant-garde progressivo e que influenciou grupos altamente recomendáveis, mas dotados de igual dose de saudável insanidade, como os suíços Dèbile Menthol ou os canadianos Miriodor.
Honfleur Écarlate prossegue a eucaristia a Fripp, que aqui dá pelo nome de François Mativet, mas que emula o mestre na perfeição. Lá atrás, o ritmo propositadamente monótono e descarnado parecem antecipar as litografias musicais em miniatura do excelso Another Green World de Brian Eno. Acide Framboise, provavelmente o momento-chave do álbum, abre com um cinematográfico sintetizador que, por mais que o ouça, não me tira da cabeça o belíssimo filme Der Stadt Der Dinge de Wim Wenders... talvez porque o tema é, no seu todo, cinematográfico; talvez porque a música é tão envolvente, entorpecente e enigmática como a própria película. Um contínuo latejar que invoca noites estranhas ou madrugadas fora do sítio...
Livarot Respiration é docemente noctívaga, impregnada de solidão e fumo e levemente claustrofóbica, devido ao pulsar do baixo de Hervé Eyhani que, apesar das subtis nuances, parece nunca projectar-se além do mesmo círculo. Culturez-vous vous-mêmes termina o álbum em tom lúgubre e minimal, quase um assombro dos Kluster e da sua electrónica ancestral.
...Lard Free é um dos discos mais misteriosos que conheço. Após inúmeras audições, a sensação de estranheza e de incompletude mantém-se. É por isso que gosto tanto de regressar a ele para nunca o descobrir. Algo como ser abraçado pela Vénus de Milo...

9 de abril de 2010

Kosmische Kosmetik XI

Kalacakra é um termo da filosofia tântrica que significa algo como Roda do Tempo. É igualmente o nome adoptado por um duo alemão dos primórdios da década de 70 e que não tem nada a ver com a célebre e magnífica decalogia literária de Robert Jordan. Estes Kalacakra praticam uma sonoridade fortemente influenciada pela música indiana, pelas suas ragas e pelos seus mantras. Mais uma pedrada psicadélica sob a forma de música e, em abono da verdade, uma das mais fortes que conheço, o primeiro álbum dos senhores intitula-se apropriadamente Crawling To Lhasa. Percorrido maioritariamente por flautas, congas e cítaras, é um disco circular, relaxante, pegajoso e envolvente como uma serpente. O primeiro tema, um contínuo minimal e hipnótico denominado Naerby Shiras, arrasta-se tribalisticamente e arrasta-nos com ele para uma escuridão iniciática, em que uma voz reptiliana nos sopra ao ouvido ecos sibilinos. O testemunho é passado para a densa e docemente sinistra Jageline. Aos sopros orientais e aos pingos de xilofone junta-se uma voz perturbada, repetitiva, no limiar do depressivo. Surgem à ideia os Amon Düul mais cavernosos.
Os mantras vertiginosos prosseguem com Raga Nº 11. Esta peça desdobra-se em caleidoscópica cadência, parecendo desabrochar continuamente e fazendo perder a noção do tempo à medida que se expande. Um circulo fecha-se para permitir que outro se abra, infinitamente...
Ao quarto tema, September Full Moon, os Kalacakra despem o sari e embarcam numa longa deambulação acústica, em constante planar e colorida a pastel pela flauta sereníssima. Como se os Incredible String Band ou os Forest decidissem evocar Brahma num improviso folk. Acentuando a estranheza geral da obra, a peça seguinte, Arapathos Circle Dance, oferece o protagonismo a uma convoluta harmónica, que, seguindo as tendências anteriores, é igualmente repetitiva e minimal, rasgando a roda do ritmo. A edição original em vinil termina com um blues intoxicado, primeira e única canção do álbum, e que deriva mais do psicadelismo underground alemão, denso e pesado, que da paz tântrica que o iniciou.
A edição em CD de 2001, levada a cabo pela Garden of Delights, editora germânica especialista em resgatar estes tesouros do fundo do tempo, acrescenta duas criações extra e mais recentes a Crawling to Lhasa. A primeira, Vamos, não é de todo uma versão da endiabrada canção dos Pixies, mas sim um upgrade tecnológico do som hipnótico característico da banda. O segundo, Deja Vu (sic), pouco difere desse, não constituíndo cada um deles nada de entusiasmante. Como na maioria das bandas do primórdios do krautrock, parece que a intrusão da electrónica mais sintética e a tentativa de actualização do som para uma colagem às tendências modernas, apenas esmorece o mistério e o extremismo artesanal e belo que as transformou em algo tão especial e único. Quem quiser os Kalacakra de Crawling to Lhasa, que os procure no vinil e sem extras descoloridos. Encontrará o que precisa para satisfazer os seus desejos melómanos mais transcendentes...