10 de julho de 2010

Kosmische Kosmetik XIV

Känguru é o terceiro tomo da vasta e dispersa discografia dos Guru Guru. Após o extremismo alucinogéneo de UFO (1970) e as aventuras free-form de Hinten (1971), este disco de 1972 encontra o colectivo alemão em territórios mais concisos e formais, se bem que mantendo algumas conexões neuronais ao passado psicotrópico. Desde sempre liderados pelo baterista e vocalista Mani Neumeier, músico com provas dadas na cena free jazz europeia desde os anos 60, os Guru Guru são mais uma das bandas que borbulham no caldeirão do krautrock, mas que encerram outros tesouros escondidos para além da rotulagem.
Intensamente jazzística e dotada de um imenso poder idiossincrático e de improviso, a banda lança em Känguru a sua cartada mais certeira e, provavelmente, a sua obra melhor conseguida. Espraiado por 4 temas sem medo da expansão temporal, é uma fonte de maravilhas mascarada de guitarras oceânicas e ritmos em total liberdade.
Oxymoron abre o álbum viscosamente, com as seis cordas, o baixo e a bateria a imiscuirem-se pantanosamente e a arrastarem-nos para a sua dimensão pegajosa. Neumeier trata os bombos e os pratos como só ele sabe e entrega-se a uma ladaínha que soa a um blues confusional. Ooga-Booga fecha o disco revisitando os trâmites do rock'n'roll clássico, para depois o virar do avesso e expôr-lhe as entranhas dilaceradas por golpes psicadélicos e mordidelas tribalísticas. Como sempre, o óbvio não mora aqui e o imprevisível espreita a cada nota debitada. Pelo meio, ficam Immer Lustig e Baby Cake Walk. A primeira faz-se anunciar por uma espécie de apresentação de combate de luta livre, ao que se segue uma marcha pesadona em tons de fanfarra. É então que a peça se fractura, vagabundeando à nossa volta por mais um quarto de hora, em tonalidades que vão do jazz ao rock mais enérgico e catártico, passando obrigatoriamente pela espiral do improviso. A segunda é uma rockalhada poderosíssima à moda germânica, que implora por ser ouvida bem alta. Aliado à voz pejada de efeitos de Mani Neumeier, este tema assemelha-se à deliciosa mas impossível plausabilidade de juntar o Jimi Hendrix de Electric Ladyland aos Hawkwind de In Search of Space.
Um clássico à sua maneira, Känguru é uma hora garantida de música abismal e impressionante. Uma máquina teutónica de fazer sons, tão fria na precisão como destrambelhada no seu caos caleidoscópico. Basta dizer que é mais um lançamento da seminal editora Brain...

3 de julho de 2010

A Marca Amarela III

Merzbow é o mais conhecido dos aliases adoptados pelo japonês Masami Akita. O Anjo Negro do noise é detentor de uma discografia que ronda os 250 títulos, só em álbuns de originais. No activo desde a recta final dos anos 70, é tarefa árdua apontar uma obra que se assuma como definitiva na carreira do artista. Talvez 1930, datado de 1998, seja um disco a reter como exemplo da abrasiva expressão de Merzbow. Nele conjugam-se os elementos mais ambientais, experimentais e puramente ruidosos que traçam as linhas da sua geometria musical.
Não há nada de Masami Akita que seja fácil de ouvir. Não há nada de bonito nas suas criações. Isto não significa, necessariamente, que não exista nelas nada de belo. O conceito de beleza é elevadamente subjectivo nos discos de Merzbow. Ela pode surgir no silêncio que acalma as suas investidas mais impiedosas. Pode surgir no abandono que o som transmite quando desistimos de tentar interpretá-lo. Pode até ser intrínseca à própria música, cuja abstracção nos deixa à mercê das nossas pulsões mais primárias, agarrando-nos a alma pelas entranhas e confrontando-nos com a vertigem mais profunda do nosso Ser.
1930 é composto por 5 temas de puro ruído branco, cegante e flagelante. A ambiência geral faz-nos sentir como se fôssemos agarrados por uma pinça e colocados na dimensão da estática que se encontra entre duas estações de rádio. Um autêntico trabalho de bondage cerebral que quase faz sangrar os ouvidos de quem não estiver previamente alertado. Extensas e catárticas peças como o tema título ou Degradation of Tapes funcionam como chicotadas de som, uma inundação de ruído primário que repele tanto como compele. Ao cair nestas espirais de som, a música deixa de ser um prazer para se tornar em algo que provoca, que desafia e que catalisa reacções físicas que podem raiar a dor. À chegada do quinto tema, de bom tom intitulado Iron, Glass, Blocks and White Lights, só há duas coisas a discernir: este é o melhor tema do álbum, com as suas injecções de electrónica com odor a éter e ecos de música concreta, ou então o pesadelo ainda não se desvaneceu.
Nos minutos imediatos à audição deste disco, os ouvidos continuarão a pulsar como se a estática libertada ainda circulasse dentro de nós à procura de uma saída. O efeito pode causar inquietação e confusão, mas acabará por se desvanecer em breve. Outro efeito, a longo prazo, pode ser o de nunca mais voltar a este disco, ou o de guardá-lo num sítio recôndito, só nosso conhecido, onde saibamos que ele está, mas não o vejamos. Pode ser necessário para futuras expedições a dimensões sonoras de terrível beleza cujo portal poucos se atrevem a atravessar.

29 de junho de 2010

Jazz Club

Os apreciadores da série britânica The Fast Show, deverão recordar-se do momento dedicado ao jazz intitulado, apropriadamente, Jazz Club. Nele, satirizava-se impiedosamente o estilo musical, o seu milieu, o seu jargão e todos os tiques a ele associados. Sempre inteligentes, na veia da melhor e, ao mesmo tempo, mais hermética comédia britânica, estes pequenos sketches conseguiam ser povoados de excelentes músicos que aparentavam quase divertir-se mais que o espectador. Para almas que amam o jazz, mas que se deixam subverter por um magnífico trabalho de humor, eis alguns momentos transcendentes de Jazz Club. Acho que até o circunspecto Evan Parker deve rir com isto...

26 de junho de 2010

Estival Surreal

Para começar o Verão com alegria, nada melhor que fazê-lo com Beck. Meio apagado (ou ostracizado?) ultimamente, convém não esquecer que o senhor é dono de um dos percursos mais geniais, criativos e estimulantes dos últimos 20 anos. Impecável e verdadeiramente original a forma como sempre associou a qualidade da música aos elementos visuais. Deadweight, tema da banda-sonora do esquecível filme A Life Less Ordinary, é um excelente retrato do surrealismo cénico que Beck consegue transmitir às suas composições. Notável também a rotação que teve na MTV, o que não deixa de ser estranho para um homem que, anos antes, escreveu um tema chamado MTV Makes Me Want to Smoke Crack...

A Marca Amarela II

Os Boris nunca deixam pistas. Do que ficou para trás ou do que há-de vir. O trio nipónico é uma constante incógnita em termos criativos, oscilando entre influências tão desunidas como os Sleep e Nick Drake. E são os fundadores do Stoner Metal e o crepuscular escultor da folk britânica que convivem, sem se encontrarem, em Akuma No Uta, álbum de 2003.
Akuma No Uta principia com uma introdução: 10 minutos de um drone fantasmático e esmagador que parece convidar para um banquete todos os minimalistas nova-iorquinos dos anos 60 e em que Dylan Carson dos Earth é o criador da ementa. Uma guitarra afinada em tom baixo choca com o uivo penetrante de outra, como placas tectónicas a conjurarem um sismo. E eis que a terra treme em seguida, no ataque furioso de Ibitsu. Um misto de Detroit dos finais de 60 com a vertigem asfixiante dos Motörhead, este tema devia ter escrito por cima a sigla handle with care. O espancamento sónico continua, felizmente, com Furi. E até parece que os Stooges apareceram em sonhos aos Boris e lhes indicaram como ser agressivos e conseguir criar grooves obnubilantes em simultâneo.
A coisa muda de figura ao quarto tema. Naki Kyoku é um épico, de início brando e contemplativo, palidamente belo. Mas a anorexia logo dá lugar a um ritmo farto, que nos agita e contamina. Ficamos à mercê de um desvario eléctrico, de contornos setentistas, mas mais cavernoso que progressivo, mais dissonante que sinfónico. E é pena acabar tão depressa. Ano Onna no Onryou continua a acelerar sem destino, trazendo reminiscências de travessias em alta velocidade pelas estradas poeirentas dos Kyuss e Akuma No Uta justifica o nome - A Canção do Diabo. As palavras são dispensáveis no que é um assalto deliciosamente malévolo de guitarras em desbunda e ritmos a bombear adrenalina. Uma verdadeira valsa com a cornífera entidade.
Após esta injecção de rock tão abrasivo e denso quanto experimental e minimal, não se olha da mesma maneira para três japoneses esqueléticos e guedelhudos. Olha-se para três enormes músicos, obreiros de mais uma experiência a reter. E onde aparece Nick Drake no meio deste furacão eléctrico? Quem conhece o magnífico Bryter Layter tem somente de passar os olhos pela capa que o esconde...

25 de junho de 2010

Astral Connections

Em dia de Portugal - Brasil, urge em mim o sentimento de referenciar o blog do meu amigo carioca A. Moreira. Há muito (infelizmente) arredado destas lides, o espaço que este astrónomo/melómano criou não vale pelos poucos (mas irreverentes) posts, mas sim pelas brilhantes conexões com outras paragens cibernautas. Vale a pena descer pelo lado esquerdo do monitor e seguir a extraordinária e, em grande medida, fascinante, enciclopédia de sítios seleccionados. Um autêntico festim, onde o Planeta é rei e o Universo é reino. E tudo está interligado. É imperetrível parar para abastecimento e reflexão na estação espacial sita em http://astralconnections.blogspot.com/.

22 de junho de 2010

Mondo Bizarre

Mike Patton é dono de uma elasticidade vocal que faz dele o candidato favorito a cantor mais versátil da actualidade. Desde os tempos dos Faith no More, passando pelos Mr. Bungle, Peeping Tom e mais de uma dezena de side projects e colaborações, a voz do norte-americano tem sido o sangue, o suor e as lágrimas de muitos discos. Em termos de carreira a solo, Patton possui somente dois trabalhos em nome próprio, ambos editados pela Tzadik. O primeiro, Adult Themes for Voice, data de 1996 e é puro experimentalismo do primeiro ao último acorde (aqui faz mais sentido dizer grito ou suspiro); o segundo, Pranzo Oltranzista, foi editado no ano seguinte e, apesar de desafiante e radical também não é disco para colocar em baile de finalistas. A menos que os colegas sejam aduladores de Luigi Nono ou do John Zorn mais terrorista.
Agora, em 2010, Mike Patton oferece às massas a sua terceira obra a solo. Tendo em conta as anteriores, poderíamos intuir que a travadinha lhe deu de vez. O disco, intitulado Mondo Cane, vê a luz no seguimento de uma série de concertos Europa fora em que Patton interpretou canções populares italianas dos anos 50 e 60, acompanhado de grande orquestra a condizer. Mas, para quem já deu voz a uma dedicatória a um carro chamada Caralho Voador, encantou com a versão de I Started a Joke dos Bee Gees (ambas nos Faith No More) e fez uma banda-sonora para um livro de BD em que cada tema corresponde a uma página do mesmo (Suspended Animation dos Fântomas), isto é apenas o percurso (i)lógico de um magnífico, descomprometido e tentacular artista.
Mike Patton não é desconhecedor da cultura italiana (foi casado durante anos com uma transalpina). Neste sentido, a escolha dos temas é tão precisa quanto variada e a interpretação é levada a cabo in italiano perfetto. O que faz diferir Mondo Cane de um simples disco de covers é a versatilidade e o toque muito próprio que o cantor lhes confere. Pegando em melodias charmosas, românticas e até mais sombrias, de roupagem predominantemente jazzística e easy listening, Patton consegue sempre infectá-las com o seu talento experimental e desconstrutivista. Ore d' Amore é uma canção belíssima, que o croon do californiano torna ainda mais intensamente dramática; o mesmo se passa com Il Cielo in una Stanza. Num crescendo tremendo, Patton chega ao refrão a carregar impiedosamente nos erres, como que a fazer pequenas maldades a uma melodia irresistível. São estas pequenas malícias e subversões que estimulam cada tema e que não tornam o disco uma espécie de Tony de Matos para a Geração Facebook. Che Notte! é música para casanovas de fato branco e brilhantina em diabruras pela noite, mas que transporta para o imaginário dos cartoons. Urlo Negro vem lembrar que o homem ainda é dotado da capacidade de soltar uns belos urros metaleiros e relembra o demencial e magistral California dos Mr. Bungle. Senza Fine é um slow que se dança a altas horas da noite e soltado com voz sibilina, intoxicada, que parece escarnecer do amor tanto como desejá-lo com urgência.
Mike Patton gerou um disco magnífico, de romantismo distorcido, caricatural até. A voz reina, livre e assombrosa, por entre a catadupa de arranjos. Pode trazer reminiscências de um passeio sob o luar pela elegância esparsa da Piazza Navona ou pela luz alva que irradia da Fontana di Trevi. Mas a polaroid que se tira do momento é transgredida por cores garridas e a Lua observa com um sorriso vampiresco...


19 de junho de 2010

Hipnagogias

Quem, como é o meu caso, anda pela casa dos trinta, terá, certamente, recordações vívidas e saudosas dos anos 80. É muito provável que se lembre do campeonato do mundo de futebol de Espanha, em 1982, que será sempre melhor que todos os que se seguiram; da série Verão Azul; de Margaret Thatcher e do cubo de Rubik; do italo-disco e outros case studies musicais barricados nesse nicho temporal. Quem anda hoje pela casa dos vinte terá somente remotas e primárias reminiscências dessa década. Memórias arcaicas, visões distorcidas, pouco coerentes e nada abrangentes.
Decorreram já uns bons meses desde que a (im)popular revista Wire lançou um artigo onde se debruçava sobre um novo e estranho fenómeno musical. Baptizou-o de Hypnagogic Pop. O rótulo vale o que vale, mas faz algum sentido. A hipnagogia é um estado de consciência alterado, que ocorre na transição entre a vigília física dita normal e o sono natural. Durante a permanência neste limbo, a mente humana é capaz de apreender informação, mas nunca no seu todo. O som específico de uma palavra numa frase, o eco isolado do fragmento de uma melodia, será isso que ficará registado. A memória fará o resto anulando a maior parte desses dados na sua base. Mas o que acontece se esses dados insistirem em permanecer? Aí tornar-se-ão parte de nós, transformando-se igualmente em recordações, mas imperfeitas, inacabadas, pois o cérebro não as captou em total estado de vigília.
São estes fragmentos evocativos que constróem o cerne da pop hipnagógica. Peças soltas, melodias amputadas, o todo diferente da soma das partes. Música composta a partir de samples sensoriais, captados isoladamente com 2 ou 3 anos de idade, sem se perceber o que eram na realidade. Neste sentido, êxitos orelhudos e demodé dos anos 80, passam a ser fonte de inspiração para criações artísticas. Como se o resquício de memória da primeira infância ficasse completo sendo actualizado à luz da realidade de agora. Como se recuperassem memórias de memórias. Nomes como James Ferraro (e seus desdobramentos criativos), Nite Jewel, Gary War ou Pocahaunted editam gravações em cassette e lançam sucessivas obras em CD-R. Peças urgentes ou arrastadas, estáticas e oníricas, são injectadas com partículas de qualquer êxito esquecido do Verão de 1984. O que era foleiro passa a ser inspirador. Bizarro, surreal, mas que compele estranhamente à escuta e que acaba por revelar capacidades alucinogéneas e confontar-nos com as nossas próprias memórias. Outros actos, como o belíssimo projecto Oneohtrix Point Never, Emeralds ou Ducktails centram-se em atmosferas mais ambientais, referências à electrónica alemã mais cósmica e até reabilitações futuristas da maldita New Age. Em todos está samplada a memória, o que foi filtrado antes de adormecer e ficou para sempre acordado neles, bom ou mau.
Para além da alucinação auditiva, os praticantes desta retro futurista sonoridade têm levado a cabo surreais criações visuais, especialmente no YouTube, muitas delas fascinantes. Tal como o som, também as imagens que povoam os vídeos são oníricas, espicaçando o inconsciente de cores garridas e através de formas sem conteúdo. Quase que se poderia falar numa recriação psicadélica dos anos 80, expressão que tem tanto de contraditório como de potencialidade. No caso a seguir, veja-se como Daniel Lopatin (timoneiro do projecto Oneohtrix Point Never) consegue induzir a evocação hipnagógica, bastando para isso samplar um brevíssimo excerto de Lady in Red de Chris de Burgh, associando-o a qualquer efeito televisivo state of the art gravado em Betamax há 25 anos. Os comentários de quem assistiu dizem tudo...

A Marca Amarela

Hypnotic Underworld constitui, até à data, o pináculo artístico dos japoneses Ghost. Monumento da mais recente corrente derivada do psicadelismo, este disco de 2004 é uma simbiose magistral entre o Japão antigo e o Japão moderno. A folk, enevoada e arcana, evocativa de mistérios antigos, cruza-se com a electricidade das guitarras e os estímulos rítmicos. Pelo meio, cirandam mellotrons, harpas, flautas e theremins. O todo é belo, um ponto indefinido no tempo, uma trip pelos milenares matagais nipónicos.
O disco principia na bruma, densa e húmida. 15 minutos de música fumarenta, suspensa e circular, perdida num labirinto escuro e opressivo de folhagens densas e troncos retorcidos. God Took a Picture of His Illness on This Ground, assim se chama a primeira das quatro partes que compõem Hypnotic Underground. Somos como que guiados por uma lúgubre paisagem, que não cativa pela beleza, mas que nos compele a desbravá-la, a ver até onde nos leva. O caos ordena-se em Escaped and Lost Down in Medina, segunda parte do processo de hipnose. Poderosíssimo tema, assenta numa espiral de baixo estonteante, por onde curvas e contracurvas, um saxofone tenta equilibrar-se. A primeira noção de ritmo acaba por surgir, transformando o tema num groove ritualístico que se propaga como fogo. Sucede-lhe Aramaic Barbarous Dawn, curto tema descendente em linha directa do rock progressivo mais vigoroso dos anos 70. A guitarra e a bateria pregam-nos à parede e estreia-se a voz de Masaki Batoh, grave e distante. Leave the World! encerra o subterrâneo hipnótico com um estertor rítmico hardcore de poucos segundos.
A luz derrama-se magistralmente com a cálida e genial versão de Hazy Paradise, original dos holandeses Earth & Fire. Sem dúvida um tema lindíssimo e um convite ao abandono nos seus doces braços, é abençoado pela guitarra feérica do prodigioso Michio Kurihara. Kiseichukan Nite retorna às entranhas do Japão e é temperada levemente a flauta e percussão em surdina. A improbabilidade de uma harpa céltica apimenta de estranheza o tema, mas confere-lhe ainda mais misticismo. A plácida flauta da entrada meditativa e melancólica de Piper não prevê o assalto eléctrico que a invade. Tal como nuvens carregadas que chocam e culminam em relâmpagos, assim é esta canção, um dos temas mais fortes do disco, novamente assaltado pela guitarra de Kurihara.
O passeio por este jardim das delícias oriental prossegue nos 10 minutos de Ganagmanag - jam instrumental, usurpadora, com retoques de jazz sobre a máscara psicadélica. Feed e Holy High são mais duas peças de altíssimo nível, conjugando com mestria sapientes devaneios progressivos a estruturas mais vanguardistas mas sempre tonais e melódicas. A fechar, uma versão altamente personalizada e praticamente irreconhecível de Dominoes, do bardo enlouquecido Syd Barrett, que passa o testemunho a Celebration for the Gray Days. A bruma penetra novamente, o órgão insistente aumenta o dramatismo, uma voz ressoa nas profundezas e a bateria impõe uma autoridade cansada. Lentamente, tudo é engolido, sobrando o silêncio e farrapos da magnífica teia de sons que ficou para trás. Hypnotic Underworld encerra a mensagem de um disco de luto. Luto pela natureza que desaparece, luto pelas tradições ancestrais que se perdem a cada dia que passa, luto pela espiritualidade que o homem moderno abdicou de ter. Por isso e pela excelência criativa, é um dos grandes discos do rock alternativo japonês dos últimos 10 anos.

18 de junho de 2010

Kosmische Kosmetik XIII

É curioso constatar que o primeiro álbum de um dos maiores vultos da música electrónica não contenha electrónica nenhuma. Este oxímoro faz de Irrlicht a obra mais incaracterística de Klaus Schulze, mas torna-a um monolito de beleza desolada.
O nome completo deste álbum de estreia é Irrlicht: Quadrophonische Symphonie für Orchester und E-Maschinen. Trocado por miúdos, o que Schulze construiu foi um conjunto de peças longas e estáticas, moldadas a partir de um órgão eléctrico preparado e de gravações ensaiadas e distorcidas de uma grande orquestra sinfónica. Ao fazer o som regurgitado da miscelânea transbordar pelos poros de um amplificador danificado, resulta um latente, hipnótico e obsessivo eco fantasmagórico dividido em três Movimentos (Satz).
O primeiro, Satz: Ebene, inicia com um gemido de violinos distantes e trémulos, sucessivamente desfeito pelo lento (e pejado de sombras ominosas) órgão amplificado. O tema faz ressoar Ligeti e, mais actualmente, evoca Gorecki, dois compositores aos quais o macabro e o trágico não são desconhecidos. A estática e sombria sonoridade tanto nos pode levitar para remotas paragens cósmicas como nos pode fazer planar sobre as ruínas da bombardeada e desoladora Dresden.
O segundo andamento da sinfonia, Satz: Gewitter, inflecte flagrantemente por territórios da música concreta, tendo como semelhanças com a electrónica somente os laivos reminiscentes dos primeiros experimentos de Stockhausen neste campo. É o momento mais breve do álbum e também o mais pulsante, aquele onde mais se sente o expelir de energia de Irrlicht (alemão para fogo-fátuo).
A terceira e última parte intitula-se Satz: Exil Sils Maria. Trata-se, sem dúvida, de uma das peças mais espectrais e mentalmente penetrantes da kosmische musik. Autêntica viagem ao lado oculto da Lua, este tema só consegue ser rivalizado na sua lenta e densa dança sideral pelas quatro partes do enorme Zeit dos Tangerine Dream. É um drone de 20 minutos que não é deste mundo, ou que, pelo menos tenta não ser. E consegue-o na perfeição. Um facto curioso é que Sils Maria era a localidade suiça onde Nietzsche passava a maioria dos Verões. Especulando um pouco, podemos traçar um paralelismo entre esta peça e Also sprach Zarathustra do conterrâneo de Schulze, Richard Strauss. Para além da referência ao filósofo, há que lembrar que esta última é o tema fulcral de 2001: A Space Odyssey de Stanley Kubrick, filme em que a música de Klaus Schulze se sentiria, igualmente, como peixe na água...
Na reedição de 2005 do álbum, foi acoplada uma quarta faixa, denominada Dungeon. Fora do contexto do álbum que o acolhe, o tema, longo e vagaroso, aparenta já similitudes electrónicas com o que Schulze viria a fazer em breve, neste caso, no mais expansivo Cyborg.
Pedra basilar na afirmação de Klaus Schulze como artista a solo, Irrlicht é um marco na criatividade do músico, que conseguiu, com poucos meios mas muito engenho, criar uma obra à frente do seu tempo. Ainda hoje, 38 anos passados desde o seu lançamento, é uma escuta nada convencional e capaz de pôr em órbita mesmo o ouvinte que tenha os pés bem assentes na Terra.

20 de maio de 2010

A Escolha do Camaleão

Há muito que não se ouve nada novo de David Robert Jones, que é como quem diz, David Bowie. O último álbum de originais desta mais que influente personagem data de 2003 e deixou água na boca a quem lhe prestou a devida atenção. Mas o camaleão calou-se desde esse Reality, mais um marco na excelente forma que estava a conseguir em discos consecutivos desde o final do século passado. Propositadamente ou não, este silêncio tem aumentado ainda mais a parafernália de colectâneas, álbuns ao vivo e bootlegs tornados honestos que Bowie já ostentava com opulência.
No meio do constante revivalismo e consequente e saboroso cash-in, chamou-me a atenção uma compilação de 2008. Mesmo sendo mais uma, iSelect possui a diferença ser composta por temas reunidos propositadamente pelo Thin White Duke, em vez de material seleccionado por indivíduos engravatados reunidos no último andar de uma editora. O que sucede é um conjunto de temas menos conhecidos do grande público, mas queridos do autor e todos com o seu quinhão de génio. À excepção da abertura, consagrada ao épico e imortal Life on Mars?, a maioria dos temas restantes são momentos menos flagrantes da carreira do cantor, dos inícios como bardo da folk lisérgica em The Bewlay Brothers à vitória do estilo sobre a substância do ambíguo Time Will Crawl (que surge aqui remisturado para fazer esquecer o esquecível álbum que o albergou - Never Let Me Down). Da fase algo laxista, se bem que glossy e hiper-produzida dos anos 80, foi incluído igualmente Loving the Alien, talvez um dos poucos temas dessa década dos quais Bowie se pode legitimamente orgulhar.
Como seria de esperar, os desempenhos vocais são excelsos, com ênfase absoluto para o medley Sweet Thing/Candidate/Sweet Thing (Reprise), escuro, arrepiante e inimitável. Fantastic Voyage começa por assistir ao planar da voz até esta se lançar em vôo picado. Teenage Wildlife funde na perfeição os malabarismos vocais de Bowie à guitarra pirotécnica de Robert Fripp. A vaporosa, dramática e exacerbadamente romântica Lady Grinning Soul é um dos slows mais cintilantes do glam rock. Win é a soul de plástico que passeia ao de leve sobre a pele para nos penetrar a alma assim que nos apanha rendidos ao calor da sua investida.
iSelect pode ser mais uma colecção do camaleónico artista, mas uma das mais recompensadoras para os seus verdadeiros admiradores. Aliás, conhecer todos estes temas é prestigiante, pelo que voltar a eles é um prazer renovado. O próprio David Bowie apresenta a história que cada uma das peças encerra em http://www.davidbowie.com/iSelect/. Em vários idiomas, entre os quais o português, que já se viu que o homem gosta de açambarcar tudo.

19 de maio de 2010

Musicofilia

O neurologista britânico Oliver Sacks tornou-se conhecido publicamente muito graças à interpretação que o histriónico Robin Williams fez dele no filme Awakenings. Nessa película, baseada no livro com o mesmo nome e na experiência verídica de Sacks, Robert DeNiro era acordado da doença do sono por uma nova e miraculosa droga. Desde então (corria o ano de 1973), o médico inglês têm-se mantido na vanguarda da divulgação científica ao nível das neurociências, lançando sucessivas obras de interesse inescapável. A sua penúltima publicação, Musicophilia - Tales of Music and the Brain, de 2007, é um livro essencial e magnífico para uma audiência mais voltada para os fenómenos que os sons podem ocultar. Musicophilia relata, em resumo, a forma como o cérebro apreende a música e o porquê dessa amálgama sonora ser tão querida à espécie humana. A música, no dizer de Oliver Sacks, penetra onde nada mais consegue chegar, podendo ser fonte de júbilo ou tristeza, reavivar memórias ou recuperar linguagens.
Situações curiosas, mas reais, não faltam ao longo destas páginas. Dois exemplos deveras bizarros são a história de um cirurgião que, após ser atingido por um relâmpago, se tornou obcecado por Chopin e o caso de um homem que possui uma capacidade de memória de sete segundos para tudo o que apreende sensorialmente, excepto para a música. Incrível é igualmente a explicação de uma patologia denominada amusia, que, latu sensu, significa incapacidade para ouvir música. Indivíduos com este distúrbio, ouvem muitas vezes algo como um batuque de tachos contra panelas quando submetidos, digamos, a uma sinfonia de Beethoven.
Musicophilia é um livro indispensável para todos os amantes de música e para todos os que se interessam pelo funcionamento do cérebro humano, órgão tão grandioso quanto misterioso. Aconselha-se uma visita ao  site do autor, para detalhes das suas obras e busca de informação. Algo me diz que a minha próxima aquisição será The Man Who Mistook His Wife for a Hat. Para além do título, que nos agarra de imediato pelos colarinhos, o conteúdo parece ser igualmente absorvente...