Campo di Marte é o nome de uma estação de combóios em Florença. Parte daí, e de uma subtil associação ao Deus da Guerra, o nome que estes toscanos extraíram para o seu projecto. E, tal, como o último expresso que passa na noite, também este colectivo teve uma rápida e fugaz aparição na opulenta cena musical italiana da década de 70. Campo di Marte, de 1973, é o seu único legado, excluíndo um álbum ao vivo de pouca memória. Segmentado em sete peças, ou tempos, o disco floresce sob a forma de diversos estilos e ambiências.
Primo Tempo ostenta guitarras e ritmos densos e pouco habituais na suave e subtil paleta de sons que domina o progressivo italiano. Soam espigões melódicos dos King Crimson dos inícios, temperados pela brisa do Tirreno.
Secondo Tempo é o momento mais delicioso do álbum. Primaveril e salvífico, ofuscante de flauta e sopros, poderia bem ser a génese de Ce-Matin La, tema da mesma estirpe presente em Moon Safari dos Air.
Terzo Tempo parece brotar de um aquecimento para os dedos de Ritchie Blackmore, evoluíndo para um épico rock, mais chegado à tradição inglesa, traído pelo linguajar de Enrico Rosa e pelos intróitos de flauta de Alfredo Barducci.
Quarto Tempo é uma fuga. Irrompe a galope, contorcendo-se sobre si mesmo, assombrado por um órgão que surge de todos os lados. Desaparece na evocação de algo que já foi ouvido aqui.
Quinto Tempo prova o ecletismo do disco e as suas metamorfoses musicais. É o tema mais orgulhosamente poeirento. Estamos num museu de cera? Ou no salão de um palácio florentino, rodeado por fantasmas que dançam um baile setencentista sem notarem a nossa intrusiva presença?
Sesto Tempo é outro tema sem tempo. A capacidade dos Campo di Marte de injectarem onirismo nas suas composições é notável, sendo que a ponte entre o clássico e o moderno é fácil de erigir. Se o pós-rock é a utilização de instrumentos do universo rock para fazer música futurista que em nada se lhe assemelha, aqui consegue-se o efeito inverso: a electricidade coloca-se ao serviço do classicismo, vestindo-lhe nova roupagem. Chamar-lhe pré-rock seria foleiro até à medula, até porque a denominação rock sinfónico caracteriza-o na perfeição desde há muito. Mas o que é certo é que a banda toca com instrumentos rock música que em muito o antecedeu.
Settimo Tempo é mais do majestoso mesmo. Beleza pura, sem vergonha de mostrar o que esconde, enfatizada pelo músculo delineado da energia roqueira. Como a estátua de David, aliás. Clássica e imortal.


Känguru é o terceiro tomo da vasta e dispersa discografia dos Guru Guru. Após o extremismo alucinogéneo de UFO (1970) e as aventuras free-form de Hinten (1971), este disco de 1972 encontra o colectivo alemão em territórios mais concisos e formais, se bem que mantendo algumas conexões neuronais ao passado psicotrópico. Desde sempre liderados pelo baterista e vocalista Mani Neumeier, músico com provas dadas na cena free jazz europeia desde os anos 60, os Guru Guru são mais uma das bandas que borbulham no caldeirão do krautrock, mas que encerram outros tesouros escondidos para além da rotulagem.



