Algumas bandas oriundas da primeira vaga do movimento progressivo italiano ficaram conhecidas pelos nomes bizarros e extravagantes: A Premiada Padaria Marconi, melhor dizendo, Premiata Forneria Marconi, foi uma delas. Artisticamente, a opulência musical rivaliza com a denominação. Per un Amico, segundo álbum do colectivo, é o ponto alto dessa opulência, uma autêntica arca do tesouro da música mais depurada editada em 1972. Deparada com alguns hiatos ao longo da sua história, esta banda milanesa ainda existe, apresentando episódicos rasgos de magia (como no excelente Stati di Immaginazione, de 2006), mas nada comparável ao disco de que hoje aqui se fala.Per un Amico foi um dos poucos discos que extrapolou além das fronteiras transalpinas, alcançando um considerável frissom na Inglaterra. A sua qualidade é inegável e assenta numa bela e escorreita mescla entre momentos brumosos e etéreos e rasgos viscerais e sanguíneos, muito ao estilo dos Van Der Graaf Generator.
O álbum abre fabulosamente com a leveza do theorbo em Appena un Po', tema que percorre toda a cartilha clássica, injecta-a de fulgor e vibra com um romantismo pulsante. Segue-se o dramático e intenso Generale, que avança desembestado, detém-se numa circular melodia militarizada, e prossegue a cavalgada, sem nunca desbaratar o rigor instrumental. Ventos mais amenos embalam-nos à terceira faixa. Per un Amico é magnífica em todos os sentidos. Das elásticas e imprevisíveis variações melódicas e de tempo à voz afastada mas sentida de Franco Mussida, a entrega é perfeita.
Il Banchetto é a prova que o rock progressivo não tem que ser massudo, carecer de sentido e assentar em faixas de 20 minutos para manifestar as suas intenções artísticas. Este tema, que conjuga mellotron, harpa, flauta e moog é um enorme swell sonoro, oceânico e poderoso, magnificamente executado sem perder o norte. Geranio é o último tema do álbum, que só peca por ser curto. Obviamente, é belíssimo e extremamente bem composto, guardando uma sensibilidade mainstream nos seus interstícios que o faz fluir com facilidade e transcender a rigidez de um estilo. Aliás, todo o disco é uma combinação de melodias geniais e composições inteligentes, o que o torna uma das mais inventivas obras de sempre do rock italiano. A acompanhar com um Chianti, à medida que cresce água na boca (mas um não muito caro, que a vida não está para luxos).
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Känguru é o terceiro tomo da vasta e dispersa discografia dos Guru Guru. Após o extremismo alucinogéneo de UFO (1970) e as aventuras free-form de Hinten (1971), este disco de 1972 encontra o colectivo alemão em territórios mais concisos e formais, se bem que mantendo algumas conexões neuronais ao passado psicotrópico. Desde sempre liderados pelo baterista e vocalista Mani Neumeier, músico com provas dadas na cena free jazz europeia desde os anos 60, os Guru Guru são mais uma das bandas que borbulham no caldeirão do krautrock, mas que encerram outros tesouros escondidos para além da rotulagem.


