21 de setembro de 2010

Tropicósmico

A música brasileira dos anos 70 está recheada de tesouros escondidos e selvas por desbravar. Os frutos do movimento Tropicália pendem, polposos e sumarentos, da frondosa vegetação artística de terras de Vera Cruz. Casos pontuais de génio:
A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (Os Mutantes);
A Little More Blue (Caetano Veloso);
A Tábua de Esmeralda (Jorge Ben);
Clube da Esquina (Milton Nascimento e Lô Borges);
Paêbirú (Lula Cortês e Zé Ramalho);
Gita (Raúl Seixas);
Todos os Olhos (Tom Zé). Para além da música, este último merece atenção pela vetusta criação da sua icónica capa.
Nos meandros do colorido matagal desta época, um disco especialmente belo e encantatório é o álbum homónimo de Nelson Ângelo & Joyce, datado de 1972. O nome do duo pode avivar torturas auditivas como Sandy & Júnior ou Chitãozinho & Xororó, mas, afortunadamente, fica por aí. Esta música vem do interior, dos confins húmidos das matas, mas possui igualmente o doce embalo da bossa nova e a transcendência da folk psicadélica. Sobressaem os duetos, etéreos e mornos como a chuva de Verão. Um Gosto de Fruta é particularmente sublime, Mantra é delicadamente narcótico. Na toada tendencialmente acústica, o melhor instrumento é a voz de Joyce Moreno, suave e fluida, algures entre Astrud Gilberto e a Joni Mitchell sem nicotina. Hotel Universo é um aveludado sombrio para os nossos ouvidos.
Composto por canções breves, como raios de sol, como nuvens que passam, Nelson Ângelo & Joyce é evocativo das brisas pacíficas da west coast, das harmonias vocais de Crosby, Stills & Nash e do psicadelismo eremita, que comunga com a Natureza e volta costas ao betão. Detém o poder do ritmo vintage brasileiro em Tiro Cruzado e arrisca brilhantemente construções mais complexas como o belíssimo Vivo ou Morto. Sete Cachorros, cantado por Nelson Ângelo é uma pequena fatia de paraíso folk tropical, que Nick Drake poderia ter composto, numa canoa, no Amazonas. Tudo começa de Novo encerra o álbum, dolente balada que progride em lenta e ritualística combustão e que poderia ser um tema perdido dos primórdios dos Amon Düul. E é porque tudo começa de novo, que este belo disco pode ser o modo ideal de dizer adeus ao Verão que se aproxima do fim. Com nostalgia, mas sabendo que ele voltará.

1 de setembro de 2010

Surfistas Prateados

Com apenas dois álbuns, os Silver Apples tornaram-se num dos projectos musicais mais influentes dos anos 60. Sem eles, é muito provável que os Neu!, os Kraftwerk, os Suicide e a electrónica dançável não tivessem surgido. O duo resultou da parceria entre o baterista Danny Taylor e o vocalista enigmaticamente conhecido por Simeon. Simeon tocava um insondável instrumento com o mesmo nome, que segundo o próprio, consistia em nine audio oscillators and eighty-six manual controls...The lead and rhythm oscillators are played with the hands, elbows and knees and the bass oscillators are played with the feet.
É impossível não associar o nome do agrupamento à peregrina composição Silver Apples on the Moon do pioneiro da electrónica Morton Subotnick. Porém, longe das paisagens áridas, lunares e fustigantes desta criação, o duo nova-iorquino conjuga o futurismo e a frieza da maquinaria a melodias e sensibilidades empolgantes e envolventes.
A primeira obra-prima, Silver Apples, surge em 1968, libertando a inocência monstruosa e audaz da ruptura e da genialidade. Os cinco primeiros temas são inesquecíveis e não causariam espanto se fossem compostos por um qualquer colectivo electrónico do ano da graça de 2010. Oscillations balança como um pêndulo à frente dos nossos olhos, invasivo pelo bombear de bleeps e hipnótico pela enxurrada rítmica. Seagreen Serenades é indefensável, o ritmo pulsante parece levar cada músculo à submissão. O foguetão progride, vertiginosamente, esmagando-nos contra os assentos, mas a bizarria de uma flauta muito folk segreda-nos que ainda estamos em Terra. A viagem é puramente mental. Lovefingers está para 1968 como uma rave party está para 1994. Sons subliminares e faiscantes, a cadência repetitiva da bateria e os ecos psicadélicos da voz que se projecta para além da utopia hippie. Aqui, as flores que se usam no cabelo têm o peso da cintura de asteróides. O brilhantismo inusitado acentua-se em Program. Um início de luna park antecede uma canção que resultaria em guitarra acústica, mas que os Silver Apples transformam em hipnose despojada e minimal, interrompida no seu trajecto por estações de rádio avulsas que surgem do acaso. A tendência canção folk tornada espiral electrónica continua em Velvet Cave. Os Suicide conseguem ser mais agitadores, mas nunca tão perturbadores. A partir do sexto tema, é natural que o efeito surpresa desta profética obra de estreia se desvaneça ligeiramente, mas a genialidade perdura até ao último segundo. Dancing Gods é uma penetrante revisitação de uma cerimónia Navajo e Dust parece ser a antecâmara para os poemas cósmicos debitados por Robert Calvert nos surreais concertos dos Hawkwind.
Em 1969, é editado Contact. Não existem grandes desvios musicais em relação ao primeiro registo, aparte uma atmosfera geral mais sombria e o uso do banjo (em Ruby e Confusion), que acentua a ideia de hillbillies electrónicos, um misto de raízes criogenadas pela tecnologia. Logo a abrir, You and I é um dos melhores temas dos Silver Apples. O abandono pulsante do primeiro álbum parece ter dado lugar a uma maior urgência, um ponta de ansiedade difícil de disfarçar. Water faz-nos orbitar à sua volta, ora sugando-nos, ora repelindo-nos do seu centro de gravidade. Os presságios de paranóia do primeiro álbum tornam-se realidade em temas como Gypsy Love ou o denso A Pox on You. Simeon e Taylor atingem aqui uma elevada capacidade de manipulação sonora e ambiental, invertendo o olhar da escuridão do espaço para as trevas que nos habitam. Contact termina com o desvario psicadélico de Fantasies, oscilante e muito intoxicado.
Após a súbita desaparição que sucedeu a estes dois discos, a recuperação dos Silver Apples deu-se com a reedição conjunta dos mesmos em 1997. O revivalismo desaguou na edição de um punhado de álbuns, que não fez os mestres superar aprendizes entretanto surgidos como os Stereolab ou os Spacemen 3. O que realmente fica para a história são aqueles dois primeiros álbuns, únicos e inimitáveis, e em cuja criatividade o futuro começou a ser traçado.

28 de agosto de 2010

10 Brancos (Dispersos)

O vinho é tinto, costuma dizer-se. No entanto, nada seria dos enófilos se o branco não existisse. Nem do peixe grelhado. Considerado amiúde o vinho tecnológico, devido ao facto de ser mais trabalhado e depurado, este néctar merece cada vez maior atenção. Por cá, e para além das inclusões e incursões pelas universais Chardonnay e Sauvignon Blanc, não faltam castas excelentes, de Norte a Sul. Tenho um carinho particular pela Antão Vaz. O que talvez explique a supremacia alentejana da curta selecção pessoal que se segue...

1. Pêra Manca 2007 (Alentejo)


2. Esporão Reserva 2008 (Alentejo)


3. Tapada de Coelheiros 2007 (Alentejo)


4. Tapada do Chaves 2008 (Alentejo)


5. Dona Ermelinda 2008 (Terras do Sado)


6. Castello d' Alba 2008 (Douro)


7. Monte da Peceguina 2007 (Alentejo)


8. Cova da Ursa 2007 (Terras do Sado)


9. Portalegre 2007 (Alentejo)


10. Régia Colheita 2007 (Alentejo)

25 de agosto de 2010

Kosmische Kosmetik XVI

No princípio, os Wallenstein davam pelo nome de Blitzkrieg. Blitzkrieg era já o nome de uma banda britânica. O dilema resolveu-se ao primeiro álbum. Os Wallenstein editaram-no em 1972, baptizando-o com a sua abandonada designação.
Blitzkrieg é o disco que assiste à junção entre o krautrock e o rock sinfónico. A prova dos nove tira-se de imediato em Lunetic, mescla frenética de guitarras inflamadas e teclados classicistas. É a sinfonia espacial perfeita. Jürgen Dollase e Bill Barone são a verdadeira deutsche-amerikanische freundschaft, o alemão atacando o órgão como um Bach em fuga para Marte, o americano golpeando a guitarra até a deixar em carne viva. Lunetic dá cabo de qualquer amante do género logo à primeira, por mais calejado que esteja nestas lides.
The Theme retira-nos da rota de colisão com a cintura de asteróides. É uma quase-canção, imersa na doce tepidez dos instrumentos e que nos envolve no aperto suave do seu amplexo. O clímax surge num solo de guitarra imenso e avassalador de Bill Barone, que transforma a dita num paiol de pólvora.
A rota prossegue com Manhattan Project. A excelência dos músicos é inolvidável. Se Dollase e Barone detém a paleta e o pincel que coloram as belíssimas composições, a espinha dorsal rítmica composta pelo baixista holandês Jerry Berkers e pelo baterista germânico Harald Grosskopf alcança momentos de magistral fluidez e complexidade. Atente-se neste terceiro tema e na inebriante cadência que o percorre durante grande parte da sua duração. É algo majestoso e misterioso em simultâneo. O mellotron, arrastado e minimal, agudiza o efeito espacial da peça. Por fim, soltam-se as amarras à guitarra, que faz a música resplandecer e rejubilar antes dos últimos raios do seu ocaso. E é um privilégio poder experienciar tudo isto!
O quarto e último momento do disco chega com Audiences. É mais uma semi-canção, iniciada em tom plácido ao piano, que estoura momentos depois num frenesim minimal e cerebral de instrumentos que marcham alinhados sobre nós. O fim é lento e compassado, trazendo a canção de volta e despedindo-se de nós com a pompa e circunstância de uma cantata lunar.
Antes de reclamar o silêncio, resta dizer que Blitzkrieg é um disco grandioso, extremamente bem tocado e preenchido por momentos absolutamente magistrais.

Kosmische Kosmetik XV

Os segundos iniciais de Morning Sun parecem colocar-nos frente-a-frente com os Can. Mas a aparição de um saxofone aos soluços retira essa ideia. Este é um disco de jazz, um disco de jazz fundido com krautrock. Thirsty Moon, primeiro álbum da banda com o mesmo nome, leva o jazz ao hiperespaço, fazendo-o girar sobre o seu eixo e, com ele, as nossas cabeças. Morning Sun é, passada a primeira ilusão, uma canção que tresanda a progressivo até aos dois minutos e meio de duração, metamorfoseando-se depois numa caldeira musical intensa, com versos repetidos ad nauseam e sustentados por uma base rítmica contagiante.
Love Me é um curto tema, erguido lentamente sobre sopros e órgão, para a meio ganhar asas e rodopiar em círculos estonteantes de guitarra em espasmos de total distorção. A amparar-lhe a queda, surge um sereníssimo saxofone, que o pousa em definitivo no silêncio. Outra peça breve é Rooms Behind Your Mind, plena de agressividade hard-rock, mas exotizada por congas e transgredida pela exuberância de um jazz muito free.
Big City é brilhante, fazendo uma perfeita simbiose entre a cadência hipnótica do krautrock e a espiral fumarenta do jazz. Parece estarmos perante uma jam session entre os Can e os Nucleus, um sonho que nunca se realizou... BIG CITY!, grita entretanto a voz áspera de Harald Konietzko, e o tema perde a sensação de abandono urbano. Transforma-se numa amálmaga de vozes irreais, murmurando palavras irreconhecíveis à nossa volta, enquanto o cantor se fecha sobre si próprio, berrando para não ouvir mais nada. Belíssimo exercício, não aconselhável a paranóicos, Big City desmorona-se num solo de guitarra demolidor que, mesmo assim, não faz calar a indiferente verborreia.
Em linguagem vinílica, o lado B é preenchido por uma única peça, o que acaba por ser o ponto alto do disco. Do alto dos seus mais de 21 minutos de duração, Yellow Sunshine exige tempo e atenção ao ouvinte. E vale a pena cada segundo. Um enfeitiçado e enlevado clarinete, seguido à distância por uma secção rítmica exemplar, coloca-nos de imediato na troposfera. Depois é sempre a subir. Como em todo o tema progressivo que se preze, não faltam contrastes e abruptas variações. Mas o que evita Yellow Sunshine de cair na ratoeira dos clichés é a ausência de pompa e a concentração pura e simples na intensidade da música, que se revira e revolve magnificamente. É a verdadeira ópera cósmica, mergulhada na noite, mas avivada pelo brilho das estrelas. Um tema enorme, intrigante e tão belo quanto labiríntico.
É com cinco faixas que se faz a história do primeiro álbum deste colectivo de Bremen. Originalmente lançado em 1972, foi alvo de reedição em 2006, com a bonus track da praxe. Trata-se de Life is a Joke e tem a sua piada, sem embaraçar ninguém. É um tema rock, mais ou menos a direito, com o habitual quinhão jazzístico, e que demonstra o lado mais directo e menos depurado dos Thirsty Moon. A instrumentação de todos os envolvidos argumenta com firmeza. E assim, dá-se por concluída a presente intervenção. Viva o jazz! Viva o krautrock! Viva o krautjazz (ou o que quer que isso seja)!

Ciências Psicadélicas

Pode haver quem não saiba, mas existe nos Estados Unidos (where else?) uma organização que fomenta e estimula estudos psicadélicos. A sua sigla orienta-nos: M.A.P.S. : Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies.
As pesquisas da M.A.P.S. assentam sobretudo nas potencialidades e efeitos que os alucinogéneos desencadeiam na mente e corpo humanos. Avalia-se o uso de drogas psicotrópicas mais ou menos poderosos no alívio de sintomas clínicos associados a maleitas crónicas ou como paliativo em doenças terminais. Discutem-se e revelam-se abertamente os prós e os contras da utilização da marijuana e de outras substâncias psicadélicas (LSD, MDMA, etc.).
Para além da componente médica que paira sobre estas matérias, é possível encontrar igualmente no site da M.A.P.S. uma vasta e interessante bibliografia sobre a descoberta e a evolução das drogas psicadélicas. Podemos encontrar curiosidades culturais dos anos 60, tais como os arquivos da revista Psychedelic Review, disponíveis para consulta exactamente aqui, bem como uma miríade de artigos e obras nesta periférica área. As portas da percepção estão franqueadas para os interessados em http://www.maps.org/.

15 de agosto de 2010

Jazzonautas

Se a escrita fosse jazz, a prosa de Jorge Lima Barreto em Jazzarte 2 seria um disco de Cecil Taylor ou Ornette Coleman. Nesta obra, tão original quanto poética, do doutorado em Musicologia que é também 50% dos Telectu, experimentam-se as palavras em tom de improviso. Escreve-se sobre jazz como se ouve jazz, em sucessões de frases belas, complexas, inventivas e inventadas.
Jazzarte 2 conta uma erudita história desta música, que não é para iniciados, mas sim para quem a conhece e a ama. Os neófitos nesta matéria poderão perder-se nos meandros das páginas como numa das obras mais difíceis das parcerias do autor com Vítor Rua. A cronologia é atípica, a terminologia hermética e a escrita flui em mosaicos que se cruzam e desencontram.
Obra obrigatória e indispensável para a afición jazzística mais intelectual e vanguardista, Jazzarte 2 faz a música ressoar nas nossas cabeças. Apetece pegar num disco de Albert Ayler ou Anthony Braxton para apaziguar a fome de sons livres e agitadores. Abraça igualmente a filosofia do jazz, as suas raízes, o seu propósito, a forma como nos alimenta a existência.
Nas palavras de Rui Neves (outro homem do jazz, cujo programa Jazzosfera na extinta XFM deixou-me eternas saudades) no prefácio à primeira edição que seguro agora nas mãos: "Jazzarte 2 é o mais importante livro sobre jazz que se escreveu em língua portuguesa e a sua tradução impõe-se de imediato." Mais não se pode dizer. Para ler avidamente e direccionado a quem gosta de pensar para além do que lhe é exigido. O jazz é uma língua-franca. Jazzarte 2 documenta-a e exalta-a magistralmente.

14 de agosto de 2010

Trovas das Trevas



A implausível (mas possível) recuperação saudosista dos anos 80 tem varrido quase todas as áreas da pop nos últimos anos. Das genuflexões perante os Human League e Soft Cell ditadas pelo electroclash às regressões freudianas (a memória é mesmo o que aconteceu?) dos exercícios de estilo hipnagógicos, o arty e o kitsch, o belo e o lixo foram levantados da tumba. E não se pode misturar tumba e anos 80 no mesmo post sem falar no movimento gótico. Da mesma forma como estas reminiscências têm sido reavivadas via irreconhecimento e manipulação, assim o breu austero do goth foi transladado com nova mortalha a condizer com o século XXI.
Se existe um projecto interessante e credível nesta vertente, ele dá pelo nome de Zola Jesus. A criação da norte-americana Nina Roza Danilova consegue recuperar do esquecimento nomes como Siouxsie & The Banshees (a influência óbvia), X-Mal Deutschland ou os Cocteau Twins enquanto gatinhavam para fora da caverna.
Desavergonhadamente opressiva e ferida de romantismo negro, a música de Zola Jesus parece harmonizar-se com os tempos actuais. Discos como The Spoils ou Stridulum são ausentes de cor e luz. Emocionam e martirizam. Lembram a adolescência a quem gostava de envergar gabardines na Primavera. Evocam rostos alvos de rapariga e paixões taciturnas. Na noite e sempre na noite, da qual não se quer sair. Desde Siouxsie Sioux por volta de 1984 que não brotava uma dama tão fria e, ao mesmo tempo, tão apelativa...

11 de agosto de 2010

A Marca Amarela IV

O que são os Acid Mothers Temple? No site http://www.acidmothers.com/ são descritos da seguinte forma: "Collective led by Kawabata Makoto. There are currently around 30 members, famous and unknown, musicians, artist, dancers, farmers etc. In order to follow and document their multifarious activities, in 1998 the Acid Mothers Temple family record label was set up. The Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. group is just one part of collective's activities". E, das muitas encarnações desta comuna japonesa, são precisamente os Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. o objecto a destacar hoje.
É preciso coragem e dedicação para acompanhar a carreira discográfica da banda. São mais de meia centena as gravações editadas desde 1996 até à data. Por entre a catadupa de lançamentos, o ecletismo perdura, mas são flagrantes as influências do psicadelismo mais duro, do space rock mais sci-fi e do improviso em regime freak-out. Basta um fugaz vislumbre de alguns dos títulos do colectivo para confirmar as homenagens: Monster of the Universe; Does the Cosmic Shepherd Dream of Electric Tapirs?; Absolutely Freak Out "Zap Your Mind!".
Preparemos, então, os tímpanos para uma das obras mais emblemáticas dos Acid Mothers em todas as suas manifestações: o monstruoso Electric Heavyland, de 2002. O fantasma de Hendrix paira, desde logo, no nome, mas o disco é um maciço apocalíptico que transcende o deus das seis cordas. Irrompem das colunas eflúvios de guitarra, improvisos diabólicos, ecos da Detroit proto-punk e alucinogéneos em abundância.
Atomic Rotary Grinding God é uma gigantesca roda em chamas, disparando chispas em todas as direcções. Encontra-se acoplada a Quicksilver Machine Head e ambas são um monstro bicéfalo, uma encruzilhada onde acontece o rendez-vous entre o krautrock mais vulcânico e os Stooges de Funhouse. E não há neurónio que não fique chamuscado perante semelhante simbiose...
A radical e ululante vocalista Cotton Casino (que faz Yoko Ono parecer Susan Boyle) estende o tapete vermelho a Loved and Confused, um vácuo demencial incinerado por guitarras drone e electrónicas espaciais. São 17 minutos esmagadores e gargantuanos, um dos mais pesados grooves que já ouvi.
No limiar da eternidade que parece ter já passado, desponta Phantom of Galactic Magnum. Se o nome parece um híbrido entre os títulos palavrosos dos Tangerine Dream e os Yes, a música abate-se sobre nós como uma torre de som a implodir. Algures entre o psicadelismo mais insano e o ruído puro, este tema é a perfeita súmula da viagem cósmica. Um querido amigo portuense contou-me uma história curiosa aquando da passagem da banda pel' O Meu Mercedes É Maior Que O Teu: no término do concerto, o guitarrista e líder Kawabata Makoto pousou o instrumento, abandonou o recinto e foi sentar-se à beira do Douro, envolto em silêncio. Após ouvir Electric Heavyland, é provável que o silêncio nunca mais seja o mesmo. Assim parece cumprir-se o desígnio do colectivo nipónico: The freakout group for the 21st' century...

7 de agosto de 2010

Bureau B

A editora germânica Bureau B dedica-se à nobre e pouco lucrativa arte de divulgar e reeditar discos da segunda linha do Krautrock, merecendo destaque algumas pérolas da mítica Sky Records. Esta segunda linha não padece de inferior qualidade, somente não figura no panteão das obras mais conhecidas e laureadas.
A casa de Hamburgo tem vindo a resgatar da obscuridade gravações belíssimas dos Cluster e dos seus mentores (o melódico Hans-Joachim Roedelius e o experimental Dieter Moebius). Lançou há pouco tempo o mais recente ataque dos Faust. Tem investido na recuperação de bandas pós-punk alemãs pouco conhecidas das massas, mas altamente recomendáveis, como The 39 Clocks ou Din A Testbild. Pelo meio, uma pitada de curiosidades e bizarrias para encher chouriços.
Em http://www.bureau-b.com/ podem seguir-se as movimentações hamburguesas, conhecer um pouco mais a fundo as edições e abrir os cordões à bolsa.

25 de julho de 2010

Advanced Beauty

http://www.myspace.com/konxompax alberga um pouco da biografia e uma mão-cheia da imagética vívida, garrida e polvilhada de psicadelismo invasivo que pontua a arte de Tom Scholefield. O nome de guerra deste jovem escocês de 25 anos é Konx-Om-Pax, heterónimo poderoso retirado da obra homónima do ocultista Aleister Crowley. Mas entre o colorido cegante do endossado e as sombras esotéricas do endossante, não há paralelismo óbvio. A não ser o poder demoníaco de encantar. Personagem sonante graças às suas magníficas instalações visuais, Konx-Om-Pax é incontornável no fenómeno hipnagógico que borbulha no subconsciente da pop actual. Desde capas de discos para o tendencialmente genial projecto Oneohtrix Point Never, passando por vídeos para diversos performers e entertainers, de Jamie Lidell e Hudson Mohawke à editora Warp, as peças absolutamente magistrais e inovadoras deste rapaz são de estímulo obrigatório. De inspiração digital, embebidas na saturação cromática dos anos 80 e construídas a partir da música que lhes serve de inspiração, suplantam esta última muitas vezes. Um caso sério de criatividade visual a seguir no Vimeo (http://vimeo.com/konxompax) ou, em vertente DJ, nas sonoridades escolhidas com mãos de fada patentes no blog do artista: http://displaycopy.blogspot.com/. Três espaços cibernáuticos para uma só alma. Eis a Internet ao serviço do Ego! Aproveitem uma doce baforada de futuro no presente...


24 de julho de 2010

Musicoterapia

O Efeito Mozart foi publicitado pela primeira vez nos inícios dos anos 90, causando algum alarde e especulação. De acordo com o seu mentor original, o neurocientista Alfred A. Tomasi, a música de Wolfgang Amadeus Mozart possuiría poderes curativos, minimizando o impacto de algumas doenças do foro neurológico e ajudando à recuperação e ao equilíbrio de outros transtornos. Alguns anos mais tarde, este fenómeno atingiu laivos ainda mais espantosos, graças ao postulado provado por especialistas da Universidade de Califórnia, segundo o qual a música do compositor austríaco aumentaria a inteligência e melhoraria o desempenho em tarefas cognitivas que exigem competências espácio-temporais.
Don Campbell, estudante e erudito musical texano, celebra actualmente a primeira década de existência do seu seminal livro O Efeito Mozart. Obra baseada e alicerçada em estudos científicos decorrentes dos supracitados, é um excelente manual para descobrir e acentuar as capacidades terapêuticas, criativas e sensoriais da música, em todas as suas manifestações. Essencial para o entendimento da musicoterapia, O Efeito Mozart transcende a visão da música como arte e entretenimento. Define-a como meio de comunicação intrínseca e universal, uma espécie de esperanto sonoro, carregada de simbolismo e potencial terapêutico.
Recentemente, novos estudos efectuados pela Universidade de Psicologia de Viena vieram contrariar a existência do Efeito Mozart como catalisador da inteligência. A conclusão é que os ouvintes de música (seja ela do génio de Salzburg ou outra) conseguem um melhor desempenho em testes cognitivos que aqueles remetidos ao silêncio total. Facto consumado: com ou sem Mozart nos altifalantes, as capacidades mentais melhoram com música por perto. Para benefício do crescimento psicológico de quem lê, ou dos filhos de quem lê, há que espalhar a mensagem... Acerca do livro aqui falado (e muito recomendado) e do seu nobre autor, mais informações podem ser adquiridas em http://www.mozarteffect.com/.