13 de dezembro de 2010

Mitologias

Erik Davis é um dos pensadores mais interessantes e estimulantes da actualidade. Escreve com exuberância e fala como escreve. Gosta de improvisar na guitarra. Numa era em que a informação navega à velocidade da luz e em que o acesso ao conhecimento se tornou corriqueiro para a maioria dos mortais graças aos suportes tecnológicos em constante evolução, este homem ainda crê no conceito de gnose. Gnose no sentido em que o conhecimento pode ser transcendente e provir do misticismo e da intuição. O seu livro TechGnosis: Myth, Magic + Mysticism in the Age of Information é um magnífico retrato de como tecnologia e religião continuam, mais que nunca, a repelir-se e a atrair-se em simultâneo. Outra excelente obra é The Visionary State: A Journey Through California's Spiritual Landscape, um ensaio debruçado sobre o mito e o fascínio que o estado do oeste americano exerce nas gentes e mentes de todo o planeta.
No site http://www.techgnosis.com/ está guardada a súmula das actividades de um intelectual que consegue ser futurista sem abdicar da sua espiritualidade. É um espaço interessantíssimo e que vale a pena percorrer para aceder ao que de novo e alternativo se vai processando na cultura norte-americana, bem como para vaguear por um mundo paralelo e fascinante. Um portal que se encontra a um click de distância dos comuns PC's, mas que permanece oculto para a maioria dos terráqueos. Em complemento, é igualmente proveitoso dispender algum tempo a visitar o blog de Erik Davis, parte integrante da webzine Reality Sandwich. Se ainda há quem pense que nada se está a passar no mundo para além da deprimente e corporativa realidade em que nos movemos, estes projectos visionários, alternativos e inspiradores podem ajudar a dissipar algum cinzentismo. Parece que ainda há quem se importe e consiga projectar alguma luz no pântano insalubre da cultura massificada. Quiçá a prova que o inconsciente colectivo postulado por Carl Jung existe realmente...

12 de dezembro de 2010

Life & Death & Rock 'n' Roll

Um livro cuja abertura é assinada por Iggy Pop só pode ser especial. Mas The Dark Stuff não é somente especial. É um poderoso e extraordinário insight de algumas das mais carismáticas existências da história do rock. Esse carisma, essa capacidade de sedução e encanto, de causar admiração e espanto, não é retratado candidamente. Pelo contrário, The Dark Stuff inflecte para o obscuro, desvela a face oculta, repousa sobre o lado negro.
Nick Kent nunca preferiu boas companhias, sempre percorreu as ruas mais sujas e escuras do jornalismo musical. Felizmente para nós. Quem acredita que, se nos juntarmos aos maus, nos tornaremos piores que eles, não deve ler este livro. Até porque os maus assemelham-se mais a vítimas na prosa de Kent, ele mesmo um jornalista que cometeu e viveu por dentro os excessos do estilo de vida alucinante do rock'n'roll. Eis um pequeno excerto da sua atribulada biografia, coincidente com o lançamento do seu mais recente livro, Apathy for the Devil...
The Dark Stuff é um acumulado de ensaios e entrevistas, tudo material de primeira mão do autor, reunido ao longo de mais de 30 anos de jornalismo militante. Originalmente publicado em 1994, é a versão expandida de 2007 que se pode considerar definitiva. Termina com uma peça intitulada Self-destruction in Rock and Elsewhere, o que resume essencialmente o que ficou para trás. Histórias de auto-destruição, morte, glória, alienação e megalomania que lançam uma perspectiva quase poética sobre vidas em parte perdidas ou perdidas para sempre. Por amor à arte, por amor à ribalta, por ódio a elas mesmas, por ódio à realidade. Todos os relatos são imensamente fortes e reveladores, fazendo com que a música dos visados desperte um culto ainda maior. Os artigos dedicados a Phil Spector, Syd Barrett e Serge Gainsbourg desassossegam e perturbam, especialmente o retrato decadente do músico francês. Lá estão suspeitos do costume nestas quedas no abismo, como Kurt Cobain ou Sid Vicious. Mas também se encontram casos de pontuais comportamentos desviantes que não levaram a encontros prematuros com o Todo-Poderoso (ou seja, John Malkovich), casos de Elvis Costello e Neil Young.
Uma excelente obra de um mítico jornalista britânico, The Dark Stuff é literatura obrigatória para percorrer o lado negro da personalidade de gente que admiramos, mas nunca podemos pensar que conhecemos.

3 de dezembro de 2010

Get your Kinks

O meu primeiro contacto com uma das melhores bandas de sempre estabeleceu-se com este disco. Essa banda, de nome Kinks, manteve-se até hoje entranhada nos meus ossos. O disco, The Kink Kronikles, continua a ser alvo de constante revisitação.
No seu período dourado, mais ou menos situado entre finais da década de 60 e princípios de 70, os Kinks obrearam e, por vezes, superaram Golias como os Beatles ou os Rolling Stones. Se, comercialmente, não foram tão bem sucedidos, ao nível de escrita e da composição apresentaram ao mundo um enorme artesão de canções, um génio irónico, sarcástico e acutilante chamado Ray Davies. O líder do quarteto londrino injectou na música popular um liricismo crítico, satírico, de ataque às instituições, ao poder, às desigualdades sociais. Ao contrário das tendências da época, que abraçavam, em larga medida, as temáticas boy meets girl ou as experiências com drogas, os Kinks falavam de novos-ricos, desemprego e alcoolismo, desancando forte e feio nos vícios e cinismos da sociedade britânica. Um quarto de século mais tarde, Damon Albarn e os seus Blur actualizaram este género de cantigas de escárnio e maldizer, maquilhando-as com o delírio jornalístico chamado Britpop. E fizeram-no muito bem.
The Kink Kronikles pode muito bem ser a compilação mais perfeitamente equilibrada dos Kinks. Originalmente editada em 1972, balança magistralmente grandes êxitos com temas mais obscuros, mas igualmente sólidos. E o segredo do seu encanto está, por exemplo, em misturar She's Got Everything com Get Back in the Line. Ou Sunny Afternoon com Mindless Child of Motherhood. Por todo o lado brotam canções sem as quais nenhum Kinksiano convicto consegue passar: Days, This is Where I Belong, Shangri-la e, da autoria do mano mais novo, Dave Davies, as magníficas Susannah's Still Alive e Death of a Clown.
A compilação foi lançada primordialmente (e em exclusivo) no mercado norte-americano. Sabendo como a maioria do público dessas paragens é conservador e convencional, não deixa de ser admirável a proliferação de composições tremendamente arreigadas na tradição britânica, plenas de recados subliminares e de subtil, mas viperino, humor. Waterloo Sunset, The Village Green Preservation Society ou Holiday in Waikiki são tão inglesas como um Gammon Steak ou uma pint de Old Speckled Hen. Mas resultam em qualquer parte do mundo, pois os alicerces da música são inabaláveis e a qualidade intocável. Como no caso de Lola. A aventura de um jovem rapaz provinciano no Soho, seduzido por uma misteriosa senhora. A história completa segue dentro de momentos...
Para terminar, muito se tem falado no mais recente disco de Ray Davies, que congrega várias personalidades, dos Metallica a Jackson Browne, em novas versões de velhinhos temas dos Kinks. Tem a sua piada, mas nada bate belíssimas e marcantes obras como The Kink Kronikles. Em suma, respeitemos eternamente o homem, mas devoremos essencialmente o original.

2 de dezembro de 2010

Blow the Whistle

Emitido pela primeira vez em 1971, o programa musical The Old Grey Whistle Test é considerado ainda hoje como um dos momentos mais revolucionários e influentes da música televisionada. Fortemente focado na vertente mais séria e menos comercial do pop rock, ao contrário do universalmente conhecido Top of the Pops, o programa atravessou anos imutável, esteticamente fiel à ambiência esparsa e despida de adereços de um pequeno estúdio da BBC. O espaço era mínimo e as bandas e artistas convidados não podiam enveredar por prestações mais feéricas, correndo o risco de fazer desmoronar o cenário. Mesmo assim, The Old Grey Whistle Test continua a ser um autêntico museu de prestações musicais, muitas delas raras e únicas na história da televisão. Por lá passaram Tim Buckley, Judee Sill, Roy Harper ou Kevin Ayers, todos em lendárias aparições. Foi possível assistir a actuações gargantuanas e marcantes de gente tão diferente como os Public Image Ltd., Edgar Winter Group, Focus ou Lynyrd Skynyrd. Infelizmente, e devido à abrangência do programa, também por lá passaram tiros ao lado como Meatloaf ou Simply Red. Coisas que podem ter prometido algo vago no início, mas todos sabemos no que se tornaram...
A última emissão do Whistle Test ocorreu em 1988, deixando influência e descendência em futuros programas britânicos como The Tube ou o excelente Later... with Jools Holland. Numa época em que a maioria dos actos vive do videoclip e de uma imagem ultra-saturada que acaba por mascarar a realidade, é com alguma nostalgia que se assiste à recuperação destas pioneiras e improvisadas apresentações. O despojamento e o enfoque exclusivo na música, tornam-nas documentos históricos ímpares na saga da música popular.
Sugere-se a aquisição do magnífico DVD The Old Grey Whistle Test - The Definitive Collection para percorrer estes 17 anos de sons. São 4 discos com mais de 100 performances, entrevistas e extras interessantes. Da categoria que preenche a maioria das prestações, destaco um favorito pessoal: Relay, dos Who, em que o baterista Keith Moon destila o seu estilo animalesco como nunca. Simplesmente, the real thing...

24 de novembro de 2010

Embuste Galáctico

O agrupamento alemão conhecido como Cosmic Jokers editou cinco álbuns em 1974, sem nunca realmente ter existido. Esta história, incongruente e insólita, merece sempre ser contada.
Em 1973, o ex-patrão da editora Öhr, Rolf-Ulrich Kaiser, decidiu congregar a ínclita geração da Kosmische Musik para uma série de sessões de estúdio. Eram eles os Kosmische Kuriere, o poderoso combo que emprestou o seu génio aos discos míticos de Walter Wegmüller, Sergius Golowin e à colaboração entre os Ash Ra Tempel e Timothy Leary. Composta, entre outras, por luminárias como Klaus Schulze e Manuel Göttsching, esta unidade reuniu-se para uma série de jam sessions espaciais e alucinantes, desconhecendo que estava a gravar para a posteridade algumas das peças mais fora de órbita que o rock alguma vez conheceu.
Rezam as crónicas que Rolf-Ulrich Kaiser aliciou os músicos para o estúdio oferecendo-lhes alucinogéneos gratuitos em troca de improvisos inspirados. Sendo os ácidos motor de arranque para as musas de muitos dos músicos desta era, os mesmos não se fizeram rogados. Após a conclusão do festim, o produtor Dieter Derks tratou de transformar o caos em ordem e a música foi lançada em disco. Meses depois, o guitarrista Manuel Göttsching decidiu ir a uma discoteca de Berlim para ouvir as novidades. Ao ouvir um som novo a transbordar das colunas, perguntou o que era. Ficou a saber que aquela guitarra bluesy, spacey, freaky, que estava a ouvir, era ele mesmo e a sua nova banda: The Cosmic Jokers. E a peixeirada estalou.

Para além do extravagante Kaiser, a usurpação musical teve o conluio da sua não menos colorida namorada, Gille Lettman. A senhora auto-intitulava-se artisticamente Sternenmädchen, ou Dama das Estrelas. Deu a voz e a cara no último disco da pseudo-banda, Gilles Zeitschiff, construído a partir de gravações pré-feitas e muito provavelmente o primeiro álbum de remisturas da história. E o resto sucedeu-se em catadupa: Processos em tribunal, os discos retirados do circuito e Kaiser e a luz dos seus olhos a fugirem da Alemanha. Felizmente, as gravações foram conservadas e podemos ainda apreciar a fabulosa, inovadora e única sonoridade dos Cosmic Jokers em toda a sua plenitude.

No que realmente interessa, ou seja, a música, os Cosmic Jokers deixaram um dos legados mais incríveis e extasiantes do rock alemão de setentas. Cada disco, mas especialmente os três primeiros, são obras-primas do psicadelismo cósmico e trippy (como já foi dito, o quinto álbum é um disco de remisturas, sendo o quarto uma espécie de sampler de vários actos que convergem na banda que nunca existiu). São discos quase hardcore na abordagem despudorada feita à música sob a influência de alucinogéneos. Guitarras lânguidas, que parecem projectar a aura dos blues no vácuo do espaço sideral, teclados faiscantes que cortam o negro como raios luminosos, bateria em constante elipse e pontuais vozes femininas que murmuram como sereias no Mar da Tranquilidade.

Galactic Joke, Cosmic Joy, Kinder des Alls, Galactic Supermarket... Momentos de absoluta rêverie, que invadem e conquistam a mente, deixando o ouvinte num estado de semi-torpor, interrompido por despertares electrónicos e batidas meteóricas. A lei da gravidade não impera aqui, o que reina é um transe contínuo e total, um carrossel imparável que gira a anos-luz deste mundo. É o som de buracos negros, quasares e nebulosas.
Verdade ou mito, a história dos Cosmic Jokers é a história de músicos geniais e inventivos, quebrando barreiras, ultrapassando fronteiras e tornando o próprio som uma contínua experiência lisérgica, detentora do poder de alterar consciências. Se o cérebro tivesse um ponto G, esta música titilá-lo-ia com pétalas e vibrações de seda.

Expo 70

O objecto voador identificado como Expo 70 é uma one man band veiculada por Justin Wright, californiano amante de cavalgadas cósmicas. Em rotação desde 2003, o projecto tem concebido gravações em catadupa, carregando já o peso de mais de 12 álbuns lançados, muitos deles em edição limitada e feitura artesanal. O segredo é simples, a estética complexa. Reside sobretudo na criação de longas peças instrumentais em improviso, perpétuos drones que descendem em linha directa do space rock ou da primeira e mais hermética vaga da kosmische musik. A música é sempre meditativa, minimalista, transcendental. Materializa-se do nada e evapora-se sem sabermos qual é o fim. Podemos atirar nomes, como quem lança cartas num truque de ilusionismo: Klaus Schulze, Kluster, Tangerine Dream, Hawkwind, Brian Eno, Sunn O))), Pink Floyd... Expo 70 é tão somente mais uma designação a juntar a esta metafísica congregação.
Os títulos e a imagética também não iludem. Infinite Macrocosm, Galaxy of Misticism ou Journey Through Astral Projection são discos que prometem o que cumprem: Longos minutos de abandono e hipnose sonora, para mentes disponíveis que procurem vaguear sem destino. As capas, apelativas simbioses de desenho e fotografia, de real e de imaginário, remetem-nos imediatamente para o grafismo garrido e psicadélico das edições da Brain, Ohr ou Sky na longínqua mas imortal década de 70. A quase totalidade do design é da autoria de Justin Wright, nitidamente um artista que depura no seu tempo o melhor de outro tempo. Tudo para seguir com maior detalhe em http://www.exposeventy.com/.
Um último parágrafo para destacar o mais recente (e soberbo!) lançamento deste projecto: Where Does Your Mind Go?. A avaliar pelo som que lá está guardado, para todo o lado e para lado nenhum em simultâneo. O álbum é constituído por quatro longos temas, quatro trajectos cósmicos e planantes, em que a noção do tempo é deliciosamente perdida. Podemos ouvir 10 minutos de uma peça e ter a sensação de que ela ainda agora começou... A música paira, como névoa, esticando e encolhendo os seus limites, convidando-nos tanto à abstracção como a esgueirarmo-nos para o portal que ela entreabre subliminarmente. A escolha é do ouvinte. Eu prefiro a segunda hipótese, bastando apenas seguir o conselho que dá título ao primeiro tema: Close Your Eyes and Effortly Drift Away...

9 de novembro de 2010

The Blue Nile Waltz

Em quase 30 anos de existência, a obra dos escoceses Blue Nile resume-se a quatro álbuns de estúdio. Os longos interregnos entre os lançamentos deixam intuir, para além da postura descontraída, uma banda mais preocupada com intenções artísticas que comerciais. E é certo que todos eles revelam preocupação com os detalhes, fazendo do trio de Glasgow autênticos mestres das possibilidades sonoras e técnicas do estúdio de gravação. Filhos da primeira geração do compact disc, os Blue Nile usaram e abusaram do digital nos primeiros discos, mas conseguiram sempre fugir à obesa e saturada produção que infectou os anos 80. O seu som é maduro, contemplativo, quase cinemático. É o som das grandes cidades à noite, imensas e solitárias, artificialmente luminosas mas sempre mergulhadas na escuridão. Vai beber ao jazz e à soul, sem deixar de ser pop alternativa para gente crescida e cansada de descargas hormonais eléctricas e descontroladas.

O primeiro longa-duração de Paul Buchanan e seus pares data de 1984 e intitula-se A Walk Across the Rooftops. Bateria é coisa que não existe por estas paragens. Os ritmos sintetizados são arrastados ou hesitantes. Somente nos dois singles extraídos do disco as coisas aceleram ligeiramente. De ambos, Tinseltown in the Rain é nitidamente o mais conseguido, um excelente pedaço de sofisticação pop, ao mesmo tempo emocionalmente exposto. O seu companheiro de 45 rotações, Stay, não é tão memorável, valendo pela sempre bela e sentida voz de Buchanan. O tema-título é um excelente exemplo de exploração do recente som digital da época. Uma escultura de estúdio, tecnicamente perfeita, mas arejada e penetrante em cada novo som que inventa. From Rags to Riches experimenta sons alienantes e que, opondo-se ao conceito de canção, acabam por tornar o tema mais misterioso e cativante. Mas os tesouros deste disco estão guardados nos temas mais lentos, que calha serem os três últimos. Heatwave e Automobile Noise são retratos perfeitos de solidão urbana, cinzentos blocos sonoros, de agridoce melancolia e contida lamentação. O ponto alto do disco é, definitivamente, Easter Parade. À mercê de um piano que soa como pingos de chuva, é uma monumental e triste canção, com Paul Buchanan mergulhado num esparso e poético solilóquio. Um momento de lindíssima solenidade.

Cinco anos volvidos, os Blue Nile regressam à suave carga com Hats. E este segundo álbum é, verdadeiramente, de se lhe tirar o chapéu. Estamos perante um discreto colosso, mas que é um dos melhores discos da década de 80. Mais atmosférico e denso que o seu antecessor, é perspicaz que uma livre descrição no YouTube o defina como o melhor disco para conduzir pela cidade à noite. Apesar de encaixar parcialmente na leitura da música, este rótulo é mais que redutor, pois Hats é, acima de tudo um disco para preencher a noite. Até muito tarde. Até que a solidão não doa. Até que a insónia cante vitória.
Hats ouve-se como um filme em widescreen que capta ruas nocturnas, molhadas de chuva, em que o asfalto reflecte néons azuis e vermelhos e em que automóveis se sucedem em câmara lenta. Uma noite anónima, que nos abre os braços com mil possibilidades de a atravessar, mas que, quando o abraço se fecha, apenas deixa resquícios de vazio. Não vale a pena apontar altos e baixos, pois todas as canções são clássicos distintos e sofisticados, vestidos a rigor para uma noite romântica cujo par é uma incógnita e pode até ser ninguém. Over the Hillside, Seven A.M., Saturday Night, projectam-nos para os solitários e nocturnos quadros urbanos de Edward Hopper, como Nighthawks, New York Movie ou Automat. Os dois singles, Headlights on the Parade e o fabuloso The Downtown Lights são melódicos e acessíveis sem perder o toque artístico e a elegância que percorre o álbum. Na melancolia escura e arrastada de Let's Go Out Tonight e From a Late Night Train somos engolidos pela noite, que nos gela o coração e nos arranha os ossos. Trazem-me à ideia a primeira quadra do poema O Sentimento de um Ocidental de Cesário Verde: Nas nossas ruas ao anoitecer/Há tal soturnidade, há tal melancolia/Que as sombras, a maresia, o Tejo, a melancolia/ Despertam-me um desejo absurdo de sofrer. Se Paul Buchanan lesse estas estrofes, aprovaria certamente. A sua sublime e emotiva prestação vocal é uma das mais sofridas e doridas que já ouvi. Sempre no limite da contenção, sem trair o gentleman ferido mas fleumático que narra estes épicos de solidão, romantismo e abandono. Hats é um disco enorme, que deve ser resgatado do esquecimento a que parece votado nos últimos anos.




Sete anos depois, Peace at Last apresenta-nos uns Blue Nile totalmente transfigurados. Longe das alquimias de estúdio, o álbum é maioritariamente acústico, com fortes influências country, gospel e soul. Happiness e Tomorrow Morning poderiam ser baladas de Bruce Springsteen da fase The River... Depois temos temas como Sentimental Man, Family Life ou God Bless You Kid, em que Paul Buchanan soa torturado como sempre, mas que ruminam as delícias da vida doméstica. É cruel dizê-lo, mas as melhores canções surgem em vivências de crise. Para os Blue Nile isto não é excepção. Estas odes de quem finalmente encontrou a paz são belas e bem arranjadas, mas demasiado mornas perante o fogo e o gelo de Hats.
Mais oito anos foram necessários para a banda dar à luz o seu quarto rebento. High de seu nome, é um disco de brando ardor, pleno de canções nocturnas e frágeis, mas sempre sofisticadas, como só os Blue Nile sabem fazer, apresentando-se como o real e digníssimo sucessor de Hats. O estilo e o bom gosto pululam por toda a obra, com arquitecturas electrónicas e acústicas em perfeito convívio. De Days of our Lives a Stay Close, passando por I Would Never, Because of Toledo ou Soul Boy, High será, talvez, um dos melhores discos de canções de 2004 que ninguém ouviu. Mais fica. Quem descobrir os Blue Nile agora, percebe que não perdeu nada. Toda a música foi preservada no âmbar que ultrapassa o tempo.

6 de novembro de 2010

Jazz Trip

Pelo que se ouve no começo, bem poderia ser uma composição de Albert Ayler ou Anthony Braxton. Mas a súbita e impiedosa invasão electrónica coloca-nos num limbo onde é estranho e intrigante permanecer. Esta coisa chama-se Triptik 2, espantosa primeira faixa do único álbum do francês Jean Guérin. Guérin costumava ser baterista de jazz nos finais dos anos 60. Free jazz para ser mais preciso. Como se a audácia e o experimentalismo dessa escola não lhe bastassem, o músico decidiu temperar o seu estilo com fortes injecções electroacústicas (Stockhausen e Xenakis perseguem-no com o olhar...) e adicionar-lhe ainda fortes pitadas de musique concréte.
Tacet, disco de 1971, é uma pérola na obscuridade, um dos mais surreais e originais discos de jazz do século XX. A base assenta nos alicerces usuais do género: bateria, trompete, saxofone e contrabaixo. Mas a intrusão poderosíssima da electrónica primitiva e a utilização da voz (neste caso a da senhora Françoise Achard) como uma interjeição instrumental a juntar às demais, colocam Tacet num plano mais elevado. No plano da música incatalogável.
Será jazz o que se ouve em Maochat? Será música clássica contemporânea o que se ouve em Ça va Lecomte? É tudo isto e ao mesmo tempo não é nada. O jazz empalidece até à transfiguração gerada pelas máquinas, a atonal estrutura das composições é mantida em lume brando por sopros esqueléticos de trompete ou cambaleantes swings de contrabaixo. Na Itália, os Dedalus esculpiam pedra similar. Tal como a electrónica abstracta dos alemães Kluster, que aqui parece encontrar uma alma gémea. Permitimos a entrada a Interminable Hommage a Zaza e a voz que nos sopra aos ouvidos parece tão inumana (em linguagem sensitiva e não no sentido filosófico de Lyotard) como a bizarra e estilhaçada instrumentação parece lisérgica. O melhor é deixado para o fim. Gaub 71 resume exemplarmente a trip à qual acedemos e da qual é difícil despertar. Nebuloso e centrífugo, leva o jazz (se é que se pode chamar a isto jazz) a mares nunca dantes navegados.
Depois desta experiência extrema, Jean Guérin nunca mais voltou. Tacet foi a banda-sonora de um esquecido fime de autor (Bof, de Claude Faraldo), mas o seu arrojo e ambição artística mantém-no até à data como banda-sonora para a mente. Um dos discos mais estranhos, vanguardistas e imprevisíveis que ouvi até hoje, em qualquer estilo. Continua a ser fundamental para o entendimento de como as linguagens electrónicas mudaram o rumo da música do século XX, radicalizando até o que parecia imutável. Uma lição e uma cartilha para os experimentalistas da actualidade.

4 de novembro de 2010

Kosmische Kosmetik XVIII

Nascido em Praga, mas tornado suíço, Sergius Golowin foi um dos nomes maiores da contra-cultura germanófila. Operando quase sempre na sombra, mas extraordinariamente influente nas mentes mais livre-pensadoras dos anos 60 e 70, o denominado Timothy Leary germânico foi personagem-chave na implementação e defesa da cultura jovem na Suíça e na Alemanha. Escritor por essência e investigador de temas esotéricos e enraízados no folclore teutónico, não tardou que Golowin fosse adoptado pela emergente vaga do rock cósmico e psicadélico nesses territórios. Essa associação acabou por gerar um fruto, que se tornou numa das obras de culto mais lendárias, mas pouco divulgadas, do krautrock: Lord Krishna von Goloka. Construído em 1973 e tendo como principais obreiros os membros dos Cosmic Couriers (congeminados pelo cérebro dominante do produtor Ralf-Ulrich Kaiser), Lord Krishna von Goloka é um disco que funciona como uma experiência religiosa, quase mística. Uma missa psicadélica e pagã, em que a música espacial serve na perfeição as declamações mântricas de Golowin. Segundo é apregoado, o guru vivia nos Alpes e tinha três mulheres, pelo que as musas parecem estar reunidas para uma forte dose de inspiração...
Três temas compõem o álbum. Der Reigen abre o portal para esta dimensão paralela, mergulhando-nos desde logo num mantra ritualístico e hipnótico. Os teclados ecoam em suspenso, circulares e penetrantes, até que surge Golowin, a sua voz em transe imperturbável, ecoando poesia cósmica. Flauta e guitarra acústica embalam-lhe as palavras até meio da viagem, altura em que o domínio folk é destronado pela invasão de uma percurssão primitiva e tribal, iluminada pelo piano cadente e cristalino de Klaus Schulze. Uma peça verdadeiramente do outro mundo! Die Weisse Alm parece espraiar-se ao longo dos Alpes, a melodia acústica e angelical a penetrar os ouvidos como de ar puro das montanhas se tratasse. E Golowin evoca a Edelweiss, a bela flor alpina, símbolo de pureza. Assim, toda a canção exala essa pureza e simplicidade, irradiando luz a cada movimento. Um hino à união entre a natureza e o divino, que convida a escapar para longe da asfixia urbana, rumo à meditação e à paz interior.
O improviso astral regressa com redobrada força em Die Hoch-Zeit. A congregação orgiástica dos instrumentos varia entre a aridez e a opulência, com destaque para as ondas planantes de mellotron e para os espasmos libertadores da percurssão, uma espécie de tambores do Punjab ecoantes e distorcidos. E não é preciso saber alemão para entender a mensagem, pois ela é universal.
Lord Krishna von Goloka assemelha-se, em menor dimensão, a outra obra concebida pela fina flor do krautrock: o monumental e soberbo Tarot de Walter Wegmüller, mais um helvético. Mas enquanto este oscila entre a iluminação e o oculto, o sagrado e o profano, Sergius Golowin revela uma experiência mística total. Um toque germânico dos deuses do firmamento a oriente.

Luzes Sombrias

O primeiro disco de Richard & Linda Thompson é o melhor de uma obra extraordinariamente consistente. Uma verdadeira obra-prima e um dos melhores álbuns de folk rock de sempre. É um disco tão belo quanto doloroso de ouvir. E o segredo da sua magia cortante como o frio de uma noite de Inverno reside na convergência entre beleza e dor.
Richard Thompson, um dos grandes guitarristas da história da música britânica, já não fazia parte dos seminais Fairport Convention. Linda, a futura esposa, era uma cantora de estúdio que ele abraçou sentimental e musicalmente. O primogénito fruto artístico da colaboração, I Want to See the Bright Lights Tonight, datado de 1973, é um disco praticamente intocável, comovente até para um coração empedrenido, espiritual até para um físico quântico.
Não há um tema que desponte acima dos seus pares. Persiste apenas a teimosia da perfeição. Richard dá voz a temas mais vincadamente tradicionais, como o sonho de fuga à opressão de When I Get to the Border e We Sing Hallelujah. A Linda e à sua forte e expressiva voz ficam entregues baladas lindíssimas como Withered and Died ou a solidão desesperada de Has He Got a Friend for Me. Favoritos pessoais, que toldam grandemente o discernimento, são a marcha lenta intitulada The Calvary Cross e o austero e sombrio tema final, The Great Valerio.
Sobra a grandeza dos restantes. E persevera a poesia em todos. Se a música prende pela melancolia, as palavras apertam ainda mais o nó com os seus relatos de vencidos da vida, amores impossíveis, fantasias proletárias e falsas esperanças. E basta aceder ao soturno The End of the Rainbow para ficar refém de um refrão que parece resumir a intencionalidade das letras do disco: Life seems so rosy in the cradle / But I'll be a friend, I'll tell you what's in store / There's nothing at the end of the rainbow / There's nothing to grow up for any more. Enfim, um tema apropriado ao Portugal de 2010...
Mais cinco álbuns sucederam a este. Viria a bizarra conversão do casal ao islamismo no excelente Pour Down Like Silver. E viria Shoot Out the Lights, a última estação antes do divórcio deste casamento que nunca poderia ser apenas musical. E foi este último o disco que mais se aproximou do estatuto de obra-prima alcançado por I Want to See the Bright Lights Tonight. Mais uma prova da grande arte que tanto brota do nascimento como da morte do amor.

Blues Attack

Reza a lenda que Jon Spencer cresceu quase sem acesso à música na casa onde vivia. Que as únicas sonoridades que permeavam as paredes eram de velhos discos de blues e programas de rock'n'roll debitados pelas rádios locais de New Hampshire. Isto tem um fundo de verdade tão consistente como qualquer rumor, mas é romântico imaginar que o futuro líder dos radicalmente ruidosos Pussy Galore e membro honorário da banda da esposa, os Boss Hog, angariou a crueza da sua música a partir dessas primárias sonoridades.
Em boa hora temos assistido, durante o corrente ano, às reedições da obra da Jon Spencer Blues Explosion, o mais vistoso projecto do norte-americano. Tem a peculiariedade de ser um trio sem baixista e com uso consistente de theremin. Apresenta música embebida no petróleo dos blues e do rock'n'roll e incendiada pela chama do punk e do noise, libertando a energia básica das primeiras e mantendo-se igualmente vanguardista e experimental. Álbuns de genial e provocante delírio associados a electricidade demoníaca como Orange, Now I Got Worry ou Acme, têm sido revistos e expandidos, para gáudio dos adeptos deste colectivo subversivo. Quem não conhece, está mais que na hora de deslizar para este pântano infestado e assombrado igualmente por Gun Club, Cramps, Dead Moon ou White Stripes. Ah, quem me dera ver estes rapazes a abrilhantar uma gala dos Ídolos ou um programa de Júlio Isidro com a serenidade e presença dos grandes artistas. Mais ou menos assim:

30 de outubro de 2010

Kosmische Kosmetik XVII

Pouco se sabe dos misteriosos E.M.A.K., sigla que resume Elektronische Musik Aus Köln. Pioneiros na definição da música electrónica moderna, este quarteto de Colónia transpira influências óbvias dos Kraftwerk e dos Cluster mais convencionais, acrescentando-lhes uma cristalina abstracção e um cinzentismo melódico tipicamente pós-punk.
Datado de 1982 e surgindo num período em que os grandes nomes da grande música alemã se desvaneciam ou entravam em lenta retracção, o primeiro álbum dos E.M.A.K. é um excelente e influente tomo da melhor sonoridade electrónica surgida no país da sauerkraut. E não há muito a dizer perante o génio dos dois temas que começam por brotar desta obra. Duas micro-sinfonias electrónicas, frias na estrutura mas contagiantes na forma, a primeira Alhara e a segunda Filmmusik. Se a primeira serpenteia à nossa volta, aprisionando-nos numa espiral de arabescos digitais, a segunda transfigura o clássico ritmo motorik dos Neu! ou Harmonia para encher o espaço circundante e assumir-se, desde logo, como o melhor tema do disco.
Ohne Titel é um belíssimo e visionário tema, um pedaço de electrónica futurista, tão dançável como meditativa, curto na duração, mas persistente na intenção. Reminiscências reformuladas das lendárias gravações de Brian Eno com os Cluster e do mesmo com David Byrne surgem, respectivamente, em Biela e em Was Kann Der Papst Da Sagen. Wenn Mr. Reagan Es Will é o único tema cantado do álbum, uma monolítica e paranóica ode à ameaça nuclear latente na alvorada dos anos 80. Uma certa desolação nocturna e urbana estrangula a maioria dos temas do disco, tornando-o ainda mais sombrio e anónimo. Gewitterluft e Schlammgang são assombrados por espectros industriais e solitária alienação. Tanz In Den Himmel é o protótipo da Neue Deutsche Welle, a nova vaga da música alemã, preenchida por ritmos robóticos e fraseados tão belos como melancolicamente gélidos. Por último, Bote Des Herbst abandona-nos na periferia opressiva e invernosa de uma noite sem destino. Este tema é como apanhar o último metro para casa e assistir, sozinho, à rotação sucessiva de estações desprovidas de vida. Se Ian Curtis fosse vivo, teria aplaudido de pé. Os New Order tê-lo-ão feito, se o escutaram. Sim, porque não há como escapar à imagética muito Factory da capa minimalista e artesanal do álbum.
O primeiro disco dos E.M.A.K. surge numa altura em que influências germânicas e britânicas convergiam, em bandas emblemáticas como os D.A.F., Cabaret Voltaire ou Throbbing Gristle. A partir daqui, começou a ser esculpida a melhor e mais inteligente música embebida em electrónica que se ramificou até à actualidade. E, seguindo a compulsão namedropping das linhas acima, basta citar nomes menos recorrentes mas de inegável qualidade como Schneider TM, Schlammpeitziger ou Kreidler para comprovar o legado dos E.M.A.K. e deste extraordinário disco. Merecedor, indubitável e independentemente da data em que viu a luz, de um lugar no panteão da mais selecta e refinada kosmische musik...