Lisboa é uma cidade fértil em homenagens e louvores. São incontáveis as canções, os poemas, os quadros e os livros que a exaltaram séculos a fio. Vitor Manuel Adrião, historiador, filósofo e estudioso do esoterismo oferece-nos agora uma das visões mais desconhecidas da velha Olisipo. Uma história alternativa, que desvenda os seus mistérios ocultos e mostra segredos em locais que, à primeira vista, parece não terem nada a esconder.
Adrião é um dos mais prestigiados mestres no campo da mitologia tradicional portuguesa. É autor de obras de culto como História Oculta de Portugal ou a enciclopédica descrição da fantástica Quinta da Regaleira - A Mansão Filosofal de Sintra. O gosto pelo hermetismo e a sabedoria acumulada são imensos, como se pode constatar pelos escritos editados. A cidade capital tinha sido já motivo de narração esotérica ha uns anos, no livro Lisboa Secreta - Capital do Quinto Império. Agora, Lisboa Insólita e Secreta apresenta-se como um guia. Um guia diferente, que convida à descoberta dos segredos mais recônditos da cidade e à decifração de enigmas que permanecem fechados aos olhos de quem não é iniciado nestas matérias. Símbolos ocultos, mensagens templárias e arquitecturas cabalísticas são algumas das muitas curiosidades apresentadas nestas páginas. A mesma assume-se igualmente como guia iniciático de uma cidade que, em tempos, chegou a ser projectada como capital espiritual do Velho Mundo.
Os mais cépticos poderão olhar para esta obra com uma ponta de ironia, como um encaixe financeiro esotérico. Mas acredito que os alfacinhas (e todos os que amam Lisboa) se sentirão tentados a pegar neste livro e descobrir uma imensidão de coisas novas em ruas tantas vezes percorridas, em edifícios tantas vezes visitados. Mito ou realidade, edições como esta contribuem em muito para a auto-estima de uma nação deprimida. Para o enraizamento do que está a ser descurado. Quiçá para relembrar que existiu um ideal chamado de Quinto Império...
É fácil afirmar que os La Düsseldorf são o filho bastardo e comercial dos Neu!. Após a ruptura do seminal colectivo alemão, o mentor Klaus Dinger apontou os mísseis para um projecto assente na mesma base, porém mais acessível às massas e menos vagueante no conteúdo. Em 1976, com o estandarte do krautrock a começar a ser erguido bem alto pela intelligentsia formada por gente como como David Bowie ou Brian Eno, o trio La Düsseldorf edita um dos álbuns mais bem sucedidos e admirados do género. O verdadeiro disco que espraia a sua influência pelas gerações vindouras e que ajuda à arquitectura do sustento musical de muitos bafejados pela sua inspiração.
La Düsseldorf é uma obra tão cativante quanto visionária. Cruza o típico ritmo motorik dos Neu! e dos Harmonia com um imediatismo visceral quase punk e intuições dançantes que o tornam um objecto ainda mais sedutor. Às vagas sonâmbulas e abstractas dos dois projectos supracitados, os La Düsseldorf respondem com música igualmente expansiva, mas encaixada em padrões mais clássicos e massajantes. As guitarras são mais atrevidas e outra novidade é a voz. Está presente em três dos temas e é lida em letras tão minimais como inescrutáveis. São apenas quatro na totalidade, os ditos temas, mas todos eles podem ser entendidos como históricos. O único instrumental, o sumptuoso Silver Cloud, é a conjugação da frieza com a ambiência que embala o corpo e levanta o ânimo. Típicas atmosferas germânicas, rigorosas mas deliciosas de ouvir.
O lado A do disco ergue-se na perfeição com Düsseldorf e La Düsseldorf. A fixação pela cidade é inquestionável. A primeira homenagem sabe ao prazer do reencontro. A música é extraordinariamente melodiosa, provoca-nos fisicamente, impele-nos a acompanhar o seu trajecto. E tem a bonita duração de 13 minutos. O equivalente krautrock ao sexo tântrico... A segunda começa com cânticos futebolísticos (provavelmente dedicados ao Fortuna Düsseldorf, que conseguiu alguns brilharetes nos anos 70) e constitui um dos momentos mais assumidamente punk da música alemã da época. Enérgica e espontânea, antecipa muitas coisas já em trabalho de parto na Inglaterra e influenciará outras tantas no futuro. O álbum termina em grande com o épico pulsar de Time. Um início em surdina, que se expande em meditativas mutações, da monotonia ao escapismo, até ao alívio da explosão final - e ao retomar do segundo zero.
Mais que um derivativo dos Neu!, os La Düsseldorf apresentam-se ao mundo em 1976 com uma linguagem renovada. Menos fechada na concha hermética da Arte e na seriedade da experimentação, mais aberta às possibilidades da fusão e da exibição. La Düsseldorf é um dos discos mais influentes e perenes da segunda metade dos anos 70 e é tarefa simples defini-lo numa só palavra: Essencial.
Raras são as bandas que podemos considerar absolutamente inovadoras. Detentoras de uma personalidade própria e inventoras de uma linguagem única. Os franceses Magma foram e serão sempre um caso à parte, estranhos demais para o mainstream, demasiado imiscuídos na cultura popular para serem eruditos.
Rezam as crónicas que Christian Vander teve uma visão. Não faltavam músicos nos anos 70 que tivessem visões - muito graças às substâncias que corriam livremente por esses tempos -, mas a visão de Vander foi de tal modo intensa e perturbadora que mudou para sempre o curso da sua existência. Este virtuoso baterista francês, herdeiro directo da velha escola do jazz, anteviu um futuro negro, decadente e convoluto para a humanidade (mais ou menos o que estamos a viver agora...). E decidiu comungá-lo através da melhor forma de expressão ao seu alcance: música visionária.
Todo o imaginário dos Magma parte de uma estética conceptual. Um grupo de humanos deixa a devastada Terra e fixa-se num planeta imaginário chamado Kobaïa. É nesse mundo ficcional que decorrerão estas crónicas épicas e que constituem as principais obras da discografia magmática. Christian Vander levou de tal forma a sério a construção deste universo paralelo, que inventou uma linguagem própria (o Kobaïan) para acompanhar as suas criações. Este peculiar idioma faz-se ouvir ao longo dos discos da banda, assemelhando-se a mais um instrumento na complexidade do conjunto. A imagem adoptada pelo colectivo foi igualmente estilizada ao pormenor, com os seus membros a aparentarem mais ser parte de uma frota espacial que músicos:
Musicalmente, a forma mais fácil de encaixar os Magma foi no rock progressivo. Mas a sonoridade do grupo e as suas influências transcendem em muito os arquétipos deste estilo. Os dois primeiros álbuns dos franceses, os excelentes e influentes Magma (Kobaïa) e 1001º Centigrades são massivamente contaminados por sombras de música clássica contemporânea e, sobretudo, pelo jazz, sendo que John Coltrane é a eterna inspiração do líder Christian Vander. As composições são complexas e artisticamente arrojadas, nos antípodas de tudo o que o universo rock tinha conhecido até então. Ainda hoje é impossível não ser invadido por um sentimento de estranheza e desorientação perante peças tremendas e frenéticas como Kobaïa, Aïna, Nau Ektila ou o estonteante Rïah Sahïltaahk. Imagine-se o resultado se esta música fosse gravada sem as contingências de produção dos inícios dos anos 70...
Em 1973, Mekanïk Destruktïw Kommandöh vai ainda mais longe na inovação e inventividade do conjunto. Verdadeira ópera alieníngena e marcial, intensa e abrasiva, é muitas vezes considerada a Carmina Burana do rock. Para além da constante vertigem, a estrutura similar à obra de Carl Orff revela-se, quer em termos da utilização de vários coros, quer na utilização massiva das percurssões. M.D.K. celebrizou-se por inventar um estilo per si. Uma corrente desviante do rock progressivo denominada Zeuhl. Zeuhl significa celestial na linguagem Kobaïan inventada por Christian Vander, mas esta música não nos leva propriamente ao céu. Leva-nos para os confins do Universo. Uma miríade de bandas, derivadas directa ou indirectamente dos Magma, brotam desta corrente, sendo os casos mais notórios Univers Zero, Zao e Dün. Estes últimos editaram apenas um único e muito recomendável disco, o magnífico Eros. A sonoridade Zeuhl assenta no cruzamento entre a música clássica e a música contemporânea, na fusão entre rock e jazz e na alternância entre momentos de agressividade com outros mais atmosféricos. É uma música escura e quase ritualística, da qual o insano De Futura - presente no álbum Üdü Wüdü, de 1976 - é um bom exemplo...
Köhntarkösz, de 1974, inicia uma nova fase na existência dos Magma, fase essa que se prolonga até hoje. Deixando Kobaïa em pousio, Vander e as suas hostes debruçam-se agora sobre questões existenciais. Segundo tomo de uma trilogia terminada em 2009, Köhntarkösz conta a história de um faraó egípcio que teria alcançado a chave para os segredos do Universo e da imortalidade e do arqueólogo moderno que as tenta desvendar. Como é normal nos Magma, o enredo é cabeludo, mas a música é devastadora. Köhntarkösz (Part I & II) são duas das melhores criações da banda, impressionantes e penetrantes mesmo sem fazer uso dos cânticos repetitivos e hipnóticos do grande Mekanïk Destruktïw Kommandöh. Coltrane Sündïa é um raro momento de paz nas erupções sónicas do colectivo, mas constitui uma sublime elegia a John Coltrane.
As edições dos Magma escassearam a partir de 1976 e estagnaram durante 20 anos a partir de 1984. O regresso fez-se em 2004 com K.A.(Kohntarkosz Anteria), disco que recupera magistralmente o Zeuhl em pleno século XXI. K.A. funciona como prólogo a Köhntarkösz e é composto por 3 extensas e densas peças. Incrivelmente, há americanos evangelizados pelos Magma e esta crítica surpreendente da revista online Pitchfork define como ninguém o que se passa no disco....
A trilogia termina em 2009 com Ëmëhntëhtt-Ré, álbum que mantém a mesma forma do seu antecessor e que gravita em redor da essência dos Magma dos anos 70. Mesmo sendo Vander e a esposa Stella os membros que restam da formação original, a sonoridade que comporta os elementos clássicos do colectivo está presente por inteiro. Funëhrarïum Kahnt é gótico à moda dos Magma e as quatro partes de Ëmëhntëhtt-Ré recuperam a tríade cântico operático - música clássica do século XX - jazz de fusão na qual assenta o som único e desafiante dos franceses.
Não é fácil gostar dos Magma, tal como não é fácil entendê-los. É um grupo bizarro, que desassossega. Que tanto canta o fim do mundo, como a busca da luz e da espiritualidade. A sua sonoridade é a de um planeta em rebuliço, alienado da sua identidade. E não deixa de ser curioso que o globo pareça estar em muito piores condições actualmente, que quando Christian Vander teve a sua "visão". Seria profecia? Certo é que não há bandas nos dias de hoje a traçar o retrato fiel e negro do mundo, ou pelo menos o que ele merecia. Talvez os Radiohead, que estão de volta com mais um disco para nos assombrar. Mas esses estão demasiado encafuados no seu próprio útero misantropo para se preocuparem com activismos... Os Magma podem muito bem ser (ainda) o grupo a dar como exemplo a seguir quando se diz que a música de hoje em dia é demasiado tépida, narcísica e esquecível. Cópia de cópia de cópia de cópia...
Terminemos então com um agradável espaço de consulta do legado de Christian Vander. No site7th Records é possível encontrar vídeos e temas dos Magma, assim como entrevistas e artigos de imprensa. Agora e sempre, nas palavras de um dos poucos bateristas-líder da história da música (e um dos melhores), à la recherche de la musique suprême. Ei-lo em acção, no misto de paixão e técnica que sempre o têm caracterizado, num excerto de K.A. III...
Expelidos do multicolorido ventre do psicadelismo londrino de finais de 60, os Hawkwind ficarão para sempre reconhecidos como os criadores do space rock. Ao estilo já lisérgico e fantasista praticado pelos Pink Floyd ou Soft Machine, a banda de Ladbroke Grove acrescentou elementos de electrónica, ficção científica, impressionismo visual e um consumo de drogas ainda mais monstruoso. Mas a maior trip de sempre do rock'n'roll (ou a segunda maior, se contarmos com os igualmente excessivos Grateful Dead) não nasceu com um pé em Vénus e outro em Marte. O primeiro álbum - homónimo - de 1970, é um disco de loucura controlada, mas que já olha os céus com desejos de os desbravar. É terreno na sua essência, com o arranque em contornos folk de Hurry on Sundown e com Mirror of Illusion a despedir-se em ecos de canção pagã. Momentos embrionários de desvario sónico surgem na jam session densa e pedrada de Seeing It as You Really Are e no martelar cerebral do magnífico Be Yourself. Sem ser lendário, Hawkwind conseguiu fazer gravitar em torno da sua órbita irregular um aglomerado de hippies, freaks e inadaptados no geral, que se tornariam o núcleo seguidor do grupo.
Em 1971, com a edição de In Search of Space, o núcleo expande-se e os Hawkwind cimentam a base da sua imagem e sonoridade. Personagens de referência, como o escritor de ficção científica Michael Moorcock e o jornalista / poeta Robert Calvert, ajudam a construir o imaginário da banda. O carismático Calvert acaba por ser o frontman não-oficial durante a fase mais criativa da congregação. Entra em cena igualmente a exótica e opulenta dançarina Stacia , figura central nos ritualísticos espectáculos da banda. Senhora perante a qual ninguém fica indiferente, Stacia apresentava-se em palco nua, simbolizando a Mãe Terra ou uma moderna Deusa da Fertilidade. E as danças duravam horas, culminando numa sadia confraternização...
O pivotal In Search of Space guarda alguns dos melhores momentos dos Hawkwind. É o álbum de Master of the Universe, tema alucinado e propositadamente monótono, que nos enfia num fato de astronauta e nos põe à deriva na escuridão sideral, sem esperança de voltar à nave. As delícias cósmicas invadem e adulteram a mente mais incauta em You Know You're Only Dreaming e You Shouldn't Do That é a quintessência dos Hawkwind: quinze minutos de insanidade total e de obliteração do raciocínio em favor da sensação mais primária. Esta música acerta directamente no Id sem fazer pontaria.
O disco foi reeditado em meados dos anos 90 com alguns extras, sendo que merece destaque a inclusão do single Silver Machine e do respectivo lado B, Seven by Seven. Ambas são peças marcantes na trajectória do grupo; a segunda pelo fustigante ritmo e a espiral de theremin que a transformam numa queda num vácuo negro e glacial; a primeira, por ser a canção mais conhecida e bem sucedida da cartilha dos Hawkwind. Rock'n'roll de primeira água que, para além desse mérito, apresenta ao mundo o novo membro da banda: o icónico Ian "Lemmy" Kilmister.
Com a inclusão de Lemmy, o som da banda torna-se mais duro, ao mesmo tempo que mantém os tão preciosos e extremos devaneios psicadélicos. O terceiro álbum, Doremi Fasol Latido, quase pode ser apelidado de cosmic metal, tal é o peso e a densidade das guitarras e a velocidade vertiginosa a que a maioria dos temas se desenrola. A perda total de contacto com este mundo continua, felizmente, assim como a estrutura básica e minimal dos temas: poderoso riff introdutório, melodia vocal catchy e subsequente queda (ou suspensão) num buraco negro musical. Brainstorm e Lord of Light são magistrais e avassaladoras viagens à velocidade da luz, e quem entra na nave-mãe já não sai, ou sai para sempre alterado... O peso das substâncias manipuladoras da consciência sente-se como nunca no cântico repetitivo e entorpecente de Time We Left This World Today, tema que devia vir com o rótulo listen with care. Respiram brisas acústicas em duas peças igualmente belíssimas: Space is Deep e Down Through the Night. Mas a falta de oxigénio apodera-se de ambas e as escotilhas fecham-se ao som da electrónica flutuante para mais um mergulho vertiginoso na imensidão negra e sem vida.
Em 1973, os Hawkwind gozam o seu período de maior impacto e exposição. A crítica aprecia-os e o recentemente ex-Roxy Music Brian Eno afirma considerá-los a sua banda preferida. Aliás, são bem audíveis harmonias e melodias derivadas da trupe no seu primeiro disco a solo - Here Come the Warm Jets - sendo caso flagrante Needle in the Camel's Eye. Como resultado das apocalípticas, surreais e bem compostas experiências em concerto do colectivo, sai nesse mesmo ano Space Ritual. É, em absoluto, um dos melhores álbuns ao vivo de sempre. Constitui o apogeu da experiência Hawkwind e é o único disco verdadeiramente imprescindível em qualquer colecção de qualquer bom chefe de família. Um amigo londrino que os viu ao vivo nesta tournée disse-me que a experiência visual era de tal forma alucinante que só as duas filas da frente olhavam para o palco. As restantes olhavam para cima e para trás. Pelo que se ouve no disco, acredito piamente. Uma espécie de rave party avant la lettre... O tempo parece parar, enquanto a música nunca pára. O oceano de guitarras escaldantes, audio generators subliminares, bateria incansável e vozes alieníngenas projecta-nos para um local onde ninguém conseguiu chegar até hoje no universo rock. Se os Verve tivessem pensado neste disco, nunca teriam escrito The Drugs don't Work...
Para compreender um pouco este fenómeno e como os Hawkwind funcionavam nestes tempos, nada como dar a palavra aos intervenientes neste documentário que a BBC dedicou à banda e que vale a pena ver por inteiro:
Os Hawkwind curam a ressaca de Space Ritual com um improvável e brilhante disco, muito provavelmente o melhor da sua longa existência. Hall of the Mountain Grill vem provar que há vida para além das diatribes lisérgicas extensas e descontroladas do grupo, sem haver perda da sua identidade, teatralidade e intensidade. Este LP de 1974, solidíssimo e coerente do princípio ao fim, mostra uns Hawkwind mais focados e menos lunáticos, concentrados num formato de canção mais clássico, mas ainda perfeito para fazer as delícias auditivas dos leitores da Colecção Argonauta. The Psychedelic Warlords (Disappear in Smoke), D-Rider e Paradox são três das melhores composições de sempre do colectivo. A pura desbunda parece agora entremear com atmosferas mais desoladoras, as melodias arrastam consigo arranjos mais low key e o paganismo dos primeiros discos dá lugar a um niilismo latente. O tema-título e Wind of Change, ambas instrumentais e soberbas, consubstanciam este escurecimento, derramando uma melancolia que apenas gotejava em momentos passados.
No ano seguinte, vê a luz a última grande obra dos Hawkwind: Warrior on the Edge of Time. O disco prossegue (e bem) a linha do seu antecessor, mas a estética sci-fi é trocada por roupagens descendentes directas do imaginário Dungeons & Dragons. Os dois primeiros temas, Assault and Battery (Part 1) e The Golden Void (Part 2), provam que a banda continua a ser capaz de produzir pequenos épicos geniais. Opa-Loka é uma carga a galope sobre as hostes inimigas, batalha interminável travada na bruma. O que sobra é um conjunto de temas fortes e bem estruturados, menos loucos e tresloucados que há um par de anos atrás. É aqui que Lemmy é despedido (conseguia ter um estilo de vida ainda mais decadente que os seus colegas...) e que outra história (gloriosa) começa por ele a ser escrita. Curiosamente, escreve-se com o título da última faixa da reedição de Warrior on the Edge of Time: Motorhead. Escusado será dizer que quem não conhece a banda homónima, mas com umlaut no segundo o, merece assistir acorrentado a todos os programas Made in Portugal apresentados por Carlos Ribeiro...
Sai Lemmy, Calvert volta a ser o capitão da nave e os Hawkwind vão deixando de ser o que eram. Astounding Sounds, Amazing Music, disco de 76, é uma obra agradável mas sofrível, tendo em conta a imponência do passado recente. 1977 recebe Quark, Strangeness and Charm, o verdadeiro último estertor da banda e um cruzamento bem sucedido entre o space rock e as sonoridades new wave que despontavam na época. A transição está bem patente nesta aparição ao vivo no curto programa musical de Marc Bolan.
A existência dos Hawkwind perde relevância a partir de finais dos anos 70. Apesar de parcialmente esquecido, o colectivo continua a editar discos até hoje. Uns piores, outros melhores, percorrendo variados géneros, mas nada com a relevância e o poder das cinco primeiras criações. Os melómanos mais obsessivos poderão encontrar boas súmulas da sua obra remota e recente em compilações como The Weird Tapes ou Epochelipse. A década de 90 assistiu a um ressurgimento da banda, muito graças à rave culture e ao espírito livre e ecuménico cujo estandarte ela sempre ergueu. Dave Brock é, actualmente, o único membro da formação original. É também um dos fundadores e o seu principal mentor ao longo dos últimos 40 anos. Neste momento, os Hawkwind são ele. Resta saber o que serão quando ele já não for. A única garantia é que os guerreiros psicadélicos já conquistaram a eternidade neste canto remoto do Universo.
La Blogothèque tem vindo a mostrar novas formas de ver música e da música ser vista. Criada pelo cineasta independente francês Vincent Moon, esta iniciativa pretende despojar as bandas e os artistas dos adereços e do supérfluo, mostrando as raízes da música e os seus intervenientes num trapézio sem rede. Sediada em Paris, La Blogothèque tem-se caracterizado pelos seus vídeos simples mas poéticos, de um romantismo a que só o cinema de autor pode almejar. O imprevisto domina, muitas vezes, as actuações e a sua captação. Os chamados Concerts à Emporter ou Take Away Shows podem ocorrer em cafés, bares, ou em plena rua. Nada é ensaiado nem arquitectado, projecta-se apenas a emoção do momento e a limpidez desmascarada do som. São mais de uma centena, os actos presentes no site de La Blogothèque. Actos que se renderam a este formato e que são tão variados e consagrados como R.E.M. ou Sigur Rós.
O exemplo abaixo caracteriza na perfeição a estética desde projecto. Uma belíssima canção num espaço público, que lhe acentua ainda mais o sentimento de desejo e solidão. Encontro perfeito entre a excelência do músico e inventividade da filmagem...
In a Silent Way ocupa um lugar peculiar na interminável discografia de Miles Davis. Arrumado entre os indícios de fusão de Filles de Kilimanjaro e o monumental Bitches Brew, este álbum de 1969 pode ser reconhecido como o primeiro disco eléctrico do maior trompetista de jazz de todos os tempos.
É uma obra discreta, nocturna e algo misteriosa. Arrasta consigo um luar majestoso e uma aura de film noir. Possui a estrutura de uma sinfonia clássica, com os seus dois temas subdivididos em 3 movimentos cada, ouve-se como um disco de rock progressivo e sente-se como um disco de jazz. Parece confuso, mas quando chegamos a It's About Time, segundo movimento da circular In a Silent Way, tudo se conjuga com uma limpidez ofuscante. Piano eléctrico, guitarra eléctrica, órgão, trompete, baixo e bateria fundem-se, complementam-se, afastam-se e enlaçam-se, soprando-nos ao ouvido que estamos perante a mais bela abstracção musical que foi inventada. Algo intemporal e indefinido, mas que não apetece parar de ouvir, tal como olhar para um quadro de Jackson Pollock e não tentar explicar. Antes disso, embrenhámo-nos na cinemática e hipnótica Shhh/Peaceful, peça que se move como um felino na noite, deslizando pelas sombras como a trompete de Miles e sempre de atalaia como os címbalos incessantemente varridos de Tony Williams. É música pintada de negro e azul, quente e sensual, uma especiaria sonora.
In a Silent Way é um disco para ser ouvido do princípio ao fim, sem interrupções que quebrem a espiral do seu círculo e o feitiço que conjura. O seu ecletismo transforma-o num disco para noites solitárias, para um whisky à média-luz, ou para fazer ressoar como seda em íntima cumplicidade. A partir daqui, já não sabemos se podemos continuar a chamar jazz à arte de Miles Davis. Sabemos, isso sim, que se seguiu uma imensidade de música genial, única e pioneira. Acólitos fiéis como Jaga Jazzist ou Cinematic Orchestra ainda andam por aí a comprová-lo...
O fenómeno rotulado de Hypnagogic Pop parece estar longe de se esgotar. Já dissecado neste espaço há alguns meses, parece manter uma inesperada relevância na cultura alternativa. A própria revista online Pitchfork, uma das mais influentes e interessantes publicações musicais do presente, criou um site paralelo que, praticamente, investe tudo neste movimento. Denomina-se Altered Zones e está pejado de imagética retro, referências culturais kitsch dos anos 80 - da música à ficção científica - e de projectos que dão os primeiros passos dentro de um género tão experimental e underground como estranhamente familiar. Parecem terem voltado as edições em cassette e CD-R, repletas de sons saídos do subconsciente como esqueletos coloridos do armário. A maioria desses projectos assenta num regime forçado DIY, é charmosamente artesanal e é tão futurista que parece termos chegado ao século XXV de Buck Rogers e à sua verdadeira banda-sonora original. Esta influência primitiva, ou o uso de estéticas e de ferramentas do passado para desenhar a música do futuro, tem-se espalhado por vários géneros, sendo que a música electrónica e o hip-hop são as mais contaminadas neste momento. Vale a pena estar atento a projectos como Stellar Om Source, Innercity ou Hype Williams, pois nunca se sabe se uma parte do devir não estará nas suas mãos embrionárias... Entretanto, nunca é demais relembrar dois actos que transitam directamente do sonho diurno hipnagógico e que editaram dois dos melhores discos de 2010: Os Rangers e a sua sonoridade algures entre o cinzentismo suburbano e a luminosidade do mainstream dos anos 80 e o regresso aos paraísos estivais da adolescência de Ariel Pink's Haunted Graffiti. Recordar é viver, já dizia Vítor Espadinha, um possível alvo de samplagem numa possível hipnagogia lusa..
Eis o Atlas ilustrado da Kosmische Musik. Um livro faustoso, prolífico em fotografias, enciclopédico na informação. Krautrock: Cosmic Rock and its Legacy será, para os amantes deste revolucionário e influente género musical alemão, o equivalente à caderneta de cromos preferida da infância. Está tudo lá. As bandas mais representativas, o lado mais obscuro, os discos mais celebrados e as raridades. Profusamente ilustrado, o livro traça pequenas biografias preenchidas por um festim de imagens para os olhos. Não esqueçamos que muito do krautrock foi igualmente marcante e pioneiro a nível visual, nomeadamente ao nível das capas dos álbuns e da estética dos seus actos. Do estilo hippy fortemente psicadélico dos Amon Düul à imagem sucessivamente expressionista e construtivista dos Kraftwerk, muitos são os arquivos históricos encontrados nesta obra. Posters, flyers de concertos e a mais variada memorabilia encontram-se igualmente expostos. A prosa é assegurada por algumas referências da escrita musical, tais como David Stubbs, David Keenan ou Erik Davis. Ao longo de 200 páginas, espraia-se um belíssimo compêndio da génese, evolução e legado de alguma da mais arrojada e original música do século XX. Ainda não o vi em Portugal. Consegui adquiri-lo em Trafalgar Square e a melhor expressão que encontro para o definir não é germanófila, mas anglófila: THE MOTHERLODE...
Compositor e intérprete de eleição para os praticantes e entusiastas da folk mais desviante da actualidade, Roy Harper carregava já o peso de quatro álbuns no momento da edição de Stormcock, em 1971.
A sua obra, erigida desde 1966, assentava em canções folk puras e duras, contaminadas não raras vezes pela electricidade do rock. Os discos lançados até essa altura não podem ser apelidados de geniais, valendo mais por composições individuais que, aqui e ali, surpreendem e encantam, que pelo seu todo. Another Day, por exemplo, constante do seu quarto álbum, Flat Baroque and Berserk, emerge do nada e arrebata-nos como uma das baladas mais etéreas e absurdamente belas que a folk britânica alguma vez ofereceu.
Tido como personagem um pouco excêntrica e lunática, Harper chegou a ser homenageado pelos admiradores e amigos Led Zeppelin no tema Hats Off to (Roy) Harper, algo estranho e raro para um homem que preza a guitarra acústica mais que tudo.
É esse sentimento de desprendimento do real e do concreto, de favorecimento do sonho e das possibilidades da experimentação, que povoa Stormcock. O mesmo é composto por apenas quatro peças, extensas, inventivas e surpreendentemente arty. O cantor apresenta-se sozinho à guitarra a maior parte do tempo, fazendo apenas uso pontual de um Hammond espectral, de uma segunda guitarra e de subtis orquestrações. As canções, gentis, suaves e oníricas, fluem como nuvens, como as águas calmas de um rio, ricas em variações de tom e emoção, dominadas por uma incrível mas tranquila mestria das seis cordas e pela entrega poética da voz. Podemos chamar a The Same Old Rock e a Me and My Womanfolk progressiva ou folk esotérica, pois a música expande-se e expande-nos, parecendo saída de um plano irreal, algures entre o medieval e o místico. Igualmente inspiradas e poderosas são Hors d' Oeuvres e One Man Rock'n'Roll Band. O tempo estica e encolhe ao sabor das cordas da guitarra e da dolência algo narcótica da voz, ambas a susterem o nosso peso até que a sensação de gravidade se perca, para que partamos livres de amarras nesta ímpar travessia musical.
Joanna Newsom, Devendra Banhart, The Sunburned Hand of The Man, todos devem algo a Roy Harper e a Stormcock. O título do álbum evoca um pássaro inglês, que costuma fazer ouvir o seu canto de lugares cimeiros, geralmente quando está mau tempo ou durante a noite. E esta será, indubitavelmente, a melhor descrição de Roy Harper neste disco de excelência. Para ouvidos curiosos, corajosos e com tempo a perder para se perderem nos meandros desta densa floresta de sons.
Barton Lee Hazlewood deu um bigode a muitos dos compositores da música popular do século XX. Aliás, o seu gosto por pilosidades acima do lábio superior é lendária. Estéticas masculinas à parte, este cantautor do Oklahoma foi um enorme artesão de sons, um nome que deve figurar eternamente no panteão dos grandes nomes da música norte-americana. Os seus primeiros passos nas lides sonoras iniciaram-se em meados dos anos 50, mas foi nos anos 60 que Lee Hazlewood (o Barton ficou pelo caminho...) se assumiu como compositor e produtor de referência e de excelência. Aliás, a sua discografia pode ser dividida em três décadas distintas, cada uma explorando um pouco o espírito da sua época, mas ao mesmo tempo intemporais em termos artísticos...
The Sixties Lee
É a década em que vários estilos começam a ser explorados. Rock, Country, Easy Listening e algum Jazz aparecem isoladamente ou em amálgama, encimados por uma poesia irónica e inteligente, que domina quer os momentos mais espirituosos, quer os mais doridos. Hazlewood apresenta-se como um crooner contador de histórias e discos como Trouble is a Lonesome Town, The Very Special World ofLee Hazlewood ou The N.S.V.I.P., funcionam como relatos da vida numa América mais ou menos profunda, mais ou menos surreal, da qual Hazlewood é observador acutilante.
No entanto, o trabalho mais considerado nesta era foi conseguido com Nancy Sinatra, filha do Mr. Ol' Blue Eyes. Por mais que os discos a solo do compositor produzidos nos anos 60 sejam reverenciados, Nancy & Lee é o álbum trademark e clássicos imortais como These Boots Were Made For Walking, Summer Wine ou Some Velvet Morning são motivo de veneração e revisitação até aos dias de hoje por gente tão díspar como Primal Scream, Nick Cave ou Gry...
The Seventies Lee
Os anos 70 albergam os grandes clássicos de Lee Hazlewood. Aqueles em que a escrita amadureceu e se tornou mais agridoce, mais penetrante, mas ainda acessível a todos os corações vagabundos do mundo. As canções transformam-se num híbrido entre o outlaw country e um easy listening kitsch, mas irresistível, povoado, por vezes, por orquestrações cinemáticas. Quatro álbuns desta década são absolutamente incontornáveis. Sem qualquer respeito pela sua ordem cronológica, eles são: Poet, Fool or Bum, 13, Cowboy in Sweden e Requiem for an Almost Lady. Se alguém só tiver espaço ou tempo para dois discos de Lee Hazlewood, pois que sejam estas últimas obras-primas. Requiem for an Almost Lady é um dos melhores discos de canções de amor de que há memória. Com dez temas em menos de meia-hora de duração, debita paixão, ternura, saudade e amargura magistralmente. É crú, directo e rasteiro, como quem ama sem defesas nem máscaras. E guarda canções belíssimas, com direito a introduções filosóficas, como I'm Glad I Never, If It's Monday Morning, Won't You Tell Your Dreams ou Come on Home to Me. Cowboy in Sweden é um dos melhores discos de country rock psicadélico conhecidos. Um misto de guitarras acústicas, orquestra e inebriantes vozes femininas, que serviu de muleta a um programa televisivo sueco do mesmo nome. Absorvente e poderoso do princípio ao fim, este western spaghetti escandinavo pode muito bem ser o culminar artístico de Lee Hazlewood. A atmosfera é onírica e cinemática, procurando e conseguindo revolver e alterar consciências, o que consegue perfeitamente em momentos como Leather & Lace, Easy and Me e What's More I don't Need Her. Há ainda lugar para uma das melhores canções de sempre do músico (o genial The Night Before) e, sempre, para as senhoras brilharem. Nina Lizell e Suzi Jane Hokom derretem corações em For a Day Like Today e numa versão arrepiante e sombria de um tema folk sueco de nome Vem Kan Segla (em inglês, Who can Sail). É sobejamente conhecido o fetiche escandinavo por música de raízes country, e Lee Hazlewood foi um dos nomes mais amados de sempre na península setentrional. Aqui vai uma relíquia da TV sueca, em dueto com uma estrela da época - Siw Malmkvist. Pergunte-se a Stuart Staples dos Tindersticks onde foi buscar inspiração para duetos como Travelling Light ou Buried Bones e não será difícil adivinhar a resposta. E o bigode lá continua, tão azeiteiro quanto respeitável. Será que Fernando Chalana era fã?
The 21st Century Lee
Sagazmente, ou porque lhe apeteceu, Lee Hazlewood desapareceu durante a década de 80 e a maior parte da década de 90. Fez bem, não eram tempos para ele. Mas como todas as coisas grandes projectam sombra mesmo sem a sua presença, assim o barítono do Oklahoma se guardou até que as influências o impelissem à derradeira investida. O homem que regressa em boa forma em 1999, com um disco intitulado Farmisht, Flatulence, Origami, ARF!!! & Me..., é alguém muito confortável na sua pele. Alguém que sabe o que deu e o que lhe é exigido nesta altura do campeonato. Apresenta-se com um disco blasé e descontraído, de clássicos jazzísticos, apropriado para ouvir on the porch numa tarde de Primavera. O tempo que lhe resta é devotado a entrevistas e alguns concertos ao vivo. Pelo meio, um fabuloso disco, algures entre o açucarado e o amargo (For Every Solution There's a Problem - 2002) e a terceira e última colaboração com Nancy Sinatra (2004). Em 2006, após ter conhecimento de padecer de cancro renal, Hazlewood não deixa de fumar e grava a sua última obra, Cake or Death. É um disco mais que meritório, forte na generalidade e, como é habitual, vincadamente irónico. Gravado por um senhor de 77 anos, detém momentos de mais frescura e jovialidade que muitos artistas com 1/3 da sua idade. O toque de Midas ainda atinge Please Come to Boston, It's Nothing to Me ou a última das últimas, T.O.M. (The Old Man).
Barton Lee Hazlewood faleceu a 4 de Agosto de 2007. Viveu uma vida cheia, à sua maneira. E deixou tanta música e de tanta qualidade, que faz parte do batalhão dos eternos.
A discografia dos alemães Harmonia é feita de duas obras seminais, uma parceria inspirada e um álbum de culto gravado ao vivo. Muitas vezes, e com alguma sensatez, definidos como o supergrupo do krautrock, este trio é um dos pilares mais sólidos da sustentação deste género nos idos anos 70. Michael Rother (dos Neu!) congregou-se a Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius (os Cluster) na Alemanha rural, desenvolvendo um estúdio e reunindo material sonoro. A primeira exposição criativa do grupo data de 1974 e intitula-se Musik von Harmonia. É notória a convergência entre as esparsas e abstractas paisagens ambientais dos Cluster e os ritmos mecânicos e deambulantes dos Neu!. No seu todo, o disco é uma experiência sensorial soberba e desafiante, construída em torno de electrónica arcaica e à base de uma economia de meios que o transforma num objecto ainda mais charmoso e intrigante. A música diverge, faixa após faixa, entre o minimalismo hipnótico (Watussi, Sonnenschein), o vácuo ambiental (Sehr Kosmisch, Ohrwurm) e o robótico motorik (Dino, Veterano). Ahoi! é um devaneio beatífico em órbita lunar e a profética Hausmusik encerra o circuito em toada de música de câmara cibernética. Extremamente vanguardista, criativo e visionário para a época, Musik von Harmonia deve ser entendido como um facho que ilumina de forma ténue, mas perene, os desenvolvimentos electrónicos mais inteligentes que estavam para vir.
À boa maneira germânica, para suceder a uma obra-prima, nada como fabricar outra. No absolutamente fabuloso Deluxe, editado em 1975, perfeccionismo e disciplina não faltam. Mas, em relação ao seu antecessor, a música é mais ampla, mais bombástica, o som enche-se de luz e ofusca-nos com a intensidade do seu brilho. Para além de ser um dos melhores temas de sempre da kosmische musik, a peça que abre o disco - Deluxe (Immer Wieder) - é um rasgo de génio e uma espiral interminável de energia melódica. Uma fonte de alegria inesgotável! Walky-Talky prossegue o deslumbramento, ao longo de uma marcha circular, faseada pela guitarra em cascata e pela electrónica subversiva. Desta feita transformados em quarteto, os Harmonia demonstram muito bem neste tema que a inclusão do baterista Mani Neumeier (dos Guru Guru) foi mais que acertada. O senhor é um aristocrata do ritmo. Segue-se novo golpe de génio com a viagem alucinante de Monza (Rauf und Runter). É o tema mais enérgico da história da banda, um cruzamento entre o proto-punk e a compulsão motorik, muito ao estilo do que se encontra em Neu!75. Apetece pegar no carro e acelerar vertiginosamente numa estrada deserta, rumo a nada...
Notre Dame pára para recuperar o fôlego e fá-lo em torno de sintetizadores etéreos e ritmos que apenas roçam a pele. Gollum, excelente como tudo até aqui,desbrava território mais denso e sombrio, num tenso e sincopado avanço, talvez fixado no Anel que o domina (convém lembrar que esta gente era muito apreciadora do imaginário de Tolkien...). E, no final, chega Kekse, melodia de embalar, cristalina e intra-uterina. O som definha lentamente, até imperar um estranho silêncio que parece prometer mais qualquer coisa, mas que nada devolve. Mais um disco que ninguém ouviu na altura devida, mas que continua a ser uma fonte de prazer e descoberta para quem o conhece hoje.
O olho de falcão de Brian Eno não deixou de capturar a inventividade e o brilhantismo do projecto alemão. Eno chegou até a nomear os Harmonia the world's most important rock band em meados dos anos 70. A admiração e a cumplicidade artística culminaram num álbum em colaboração. O mesmo é conhecido como Tracks and Traces, data de 1976 e é, naturalmente, soberbo. Importa aqui realçar a reedição que teve lugar em 2009 e que, para além de manter os temas originais, adicionou-lhe mais três extras de fino recorte. Num disco pensado e executado por quatro sumidades da música moderna, a totalidade dos temas é inexcedível. Sobressaem, porventura, a placidez atmosférica e algo nostálgica de Welcome, a planante e contemplativa Almost, ou as longas deambulações meditativas e improvisadas de Sometimes in Autumn e By the Riverside. Mas Weird Dream é um belo pedaço de electrónica cósmica, assim como Les Demoiselles é um momento onírico de electrónica naïf. Luneburg Heat é o único tema vocalizado (por Eno) e estende a passadeira para a estrutura das suas futuras colaborações com Roedelius e Moebius.
O elo quebrou-se após a edição de Tracks & Traces, com cada membro do colectivo a enveredar por outros projectos ou a voltar a territórios familiares. Pontuais colaborações entre eles viriam a surgir, mas nada com o peso e a lenda do nome Harmonia.
Mais de 20 anos depois, e em plena redescoberta dos sons da kosmische musik, vem à tona um álbum perdido, uma gravação ao vivo de 1974. É o som dos Harmonia no seu mais primitivo, vanguardista e cerebral. O disco arrasta-se, sonâmbulo e estático, ao longo de cinco magistrais peças, num balanço perfeito entre melodias espectrais e frias e o puro gozo da experimentação. Realce para a tríade Schaumburg, Veteranissimo e Holta-Polta, que excedem os dez minutos de duração, espraiando-se num serpentear electrónico, rumo a uma lenta e perseverante conquista mental. Ainda e sempre, sons que não são deste mundo, únicos e estranhos como tudo o que ultrapassa as convenções.
Aqui estão quatro discos a ter e a estimar. Quatro obras à parte, detentoras de uma linguagem própria, fora dos parâmetros definidos pelas estéticas anglo-saxónicas e norte-americanas. E, quando a estética é tão sensaborona que tudo parece igual, nada como ouvir o que não se parece com nada...
2010 não foi o Ano do Contacto. Talvez tenha sido, graças a tanto compromisso de austeridade, o Ano do Contrato. A música não escapou à crise e à letargia colectiva, pelo que o ano que agora termina não ficará reconhecido pelo boom de clássicos absolutos. Mesmo com o seu quinhão de belas e inescapáveis obras discográficas, é difícil ser consensual no que concerne ao álbum do ano. Segue abaixo a lista dos mais ouvidos e apreciados por este escriba, neste 2010 que nos tirou Captain Beefheart mas nos deu John Grant. Ou que nos confirmou Joanna Newsom e nos preparou para a provável (e indesejável) retirada de James Murphy como LCD Soundsystem. Como se o ADN musical se renovasse e replicasse em permanente equilíbrio. Num ano estranho, revolto e atípico, o disco mais ambicioso surge de territórios hip-hop. É impossível não ficar enfeitiçado e esmagado pela produção assombrosa e pela incandescência épica que crepita ao longo da obra megalómana que encabeça esta escolha.
1. Kanye West - My Beautiful Dark Twisted Fantasy
2. John Grant - Queen of Denmark
3. Joanna Newsom - Have One on Me
4. Deerhunter - Halcyon Digest
5. Ariel Pink's Haunted Grafitti - Before Today
6. The National - High Violet
7. LCD Soundsystem - This is Happening
8. Arcade Fire - The Suburbs
9. Beach House - Teen Dream
10. Gil Scott-Heron - I'm New Here
11. Vampire Weekend - Contra
12. Janelle Monáe - The ArchAndroid
13. Oneohtrix Point Never - Returnal
14. These New Puritans - Hidden
15. The Walkmen - Lisbon
16. Grinderman - Grinderman 2
17. Emeralds - Does It Look Like I'm Here?
18. Swans - My Father Will Guide Me Up a Rope To The Sky
19. Caribou - Swim
20. Rangers - Suburban Tours
21. Four Tet - There is Love in You
22. Actress - Splazsh
23. Gonjasufi - A Sufi and a Killer
24. Sun Araw - On Patrol
25. Julian Lynch - Mare
26. Neil Young - Le Noise
27. Flying Lotus - Cosmogramma
28. Field Music - Field Music (Measure)
29. Robert Plant - Band of Joy
30. Twin Shadow - Forget
31. Midlake - The Courage of Others
32. Gorillaz - Plastic Beach
33. The Fall - Our Future Your Clutter
34. Ali Farka Touré & Toumani Diabaté – Ali & Toumani
35. Yeasayer – Odd Blood
36. MGMT – Congratulations
37. Wyatt / Atzmon / Stephen – For the Ghosts Within
38. Hot Chip – One Life Stand
39. Foals - Total Life Forever
40. Sufjan Stevens - The Age of Adz
41. Big Boi - Sir Lucious Left Foot: The Son of Chico Dusty