2 de maio de 2011

Maldito Scott Walker

Noel Scott Engel precipita-se em queda livre a partir do lado B de 'Till The Band Comes In, o seu quinto álbum oficial de 1970 sob o pseudónimo Scott Walker. Até então, o crooner que estudou canto gregoriano e foi poster boy dos massivos Walker Brothers, deixava por onde passava um rasto de perfume tão charmoso quanto sombrio. Os seus quatro primeiros álbuns a solo são intocáveis. A espaços, e com 40 anos de distância a delimitar a sua concepção, Scott I e II apresentam arranjos desmesurados e orquestrações inusitadas. Mas guardam aquela voz que não é deste mundo e canções comparáveis a abismos profundos e impossíveis de esquecer a quem lá se deixa cair. Scott Walker poderia ser o filho bastardo de Jacques Brel e Juliette Grèco, nascido na América e apadrinhado por Sartre e Beauvoir para espalhar o existencialismo sob a forma de bruxuleantes torch songs. Scott III e IV adensam a matéria de que são feitos os pesadelos e são dois dos mais belos e terríficos discos do século XX. Em 1970, Walker é um artista reverenciado mas que vende pouco. Toma o partido da arte e deixa os departamentos de marketing com os nervos em franja. O rapaz que provocava desmaios quando cantava The Sun Ain't Gonna Shine Anymore é agora um homem reclusivo que prefere ler Camus e Freud e ver filmes de Bergman a aparecer em festas e sentar ao colo groupies extasiadas.
O comportamento esquizóide e o desinvestimento nas actividades artísticas mundanas arrastaram Walker como uma enxurrada a partir de 1970. A vida errante tomou o lugar do estrelato e instalou-se um período (conforme as palavras do próprio no magnífico documentário 30th Century Man) assente em a whole lotta drinkin'...


A travessia no deserto encetada por Scott Walker a solo entre 1970 e o renascimento criativo de Climate of Hunter (1984) deu azo a quatro discos tão repulsivos como fascinantes. Quatro discos que não possuem uma única composição do cantor, mas que detêm uma estranha aura de charme decadente, como se um homem que não soubesse fazer mais nada sem ser cantar se arrastasse ao longo da escuridão em busca de uma luz que tarda em aparecer. A primeira dessas obras intitula-se The Moviegoer e data de 1972. Como o próprio nome indica, é construída a partir de interpretações de temas de filmes e de compositores variados como Nino Rota, Henry Mancini ou Lalo Schifrin. Não deixa de ser particularmente bizarro ouvir Walker cantar Speak Softly Love de Rota (o universalmente conhecido tema de The Godfather)...
This Way Mary (de John Barry e Don Black), The Ballad of Sacco and Vanzetti (de Joan Baez e Ennio Morricone) e Glory Road (de Neil Diamond) resultam bem na entrega crooner do cantor e os restantes temas enquadram-se na perfeição num singles bar mal iluminado e fumarento, povoado apenas por almas solitárias a altas horas da noite, que procuram aconchego na voz de outra alma solitária. Ou no tempo de espera para a última sessão numa sala de cinema vazia...


Da noite vazia e do anonimato cinéfilo aos bares de hotel ou de cruzeiros, nunca a decadência de Scott Walker foi tão acentuada como em Any Day Now (1973). Las Vegas e o lado mais doentio dos seus casinos e casas de espectáculos transborda em catadupa deste disco. Os ambientes continuam nocturnos como sempre, mas desta vez demasiado sacarinos e feitos para agradar a adeptos de música papel de parede que jogam blackjack e casais envelhecidos americanos unidos em Vegas por Elvis pela terceira vez. Há um charme depressivo neste disco, que lembra Burt Bacharach no seu melhor e Paul Anka no seu pior. A voz continua única, como sempre, mas poucas canções o livram da mediania: Ain't no Sunshine, When You Get Right Down to It, If Ships Were Made to Sail... O verdadeiro momento twilight zone é a versão de Maria Bethânia de Caetano Veloso. Scott Walker de camisa às flores e chapéu de palha? Não, Scott Walker a cumprir contrato...



O calvário das obras negligenciadas prolonga-se nos álbuns de 1973 e 1974, Stretch e We Had It All. O ideal é considerar estas obras em regime dois em um, tal como a edição definitiva em CD levada a cabo pela BGO em 1997. Desta feita, Walker atira-se largamente à música country e destila duas dezenas de temas mais ou menos obscuros desta cartilha. Mas não se espere daqui um rastilho do que viria a ser o alternative country ou uma cavalgada em pradarias outlaw country. Incompreensivelmente, e com tanto bom material por onde escolher, o cantor parece ser mais fiel ao espírito meloso e conservador de Nashville. As interpretações são polidas e orquestradas e alguns dos músicos alvos da leitura de Walker são creditados songwriters americanos (Mickey Newbury, Billy Joe Shaver, Randy Newman). Sunshine, Just One Smile, That's How I Got to Memphis, a cadência R & B de Use Me e a típica balada country Old Five Dimers Like Me são agradáveis, mas nunca memoráveis. Faltam nervo, risco e génio ao homem que compôs canções imortais como Plastic Palace People, It's Raining Today ou Duchess.

Em 1975, os Walker Brothers reunir-se-iam e desse regresso brotariam três discos. Scott voltou a ter um fugaz protagonismo. Mas era tarde demais para ser aquilo que nunca quis ser: uma estrela pop. Voltou a solo em 1984, reinventando-se magistralmente e, desde então, presenteou-nos apenas com mais duas aparições. Tremendas e perturbantes, como o génio reclusivo que as molda e que, apesar de já não provocar histeria nas adolescentes, provoca calafrios e penetra fundo nas almas de gente crescida. Os quatro discos acima descritos são apenas obrigatórios para os obsessivos. É um trabalho sujo falar sobre eles, mas alguém tem de o fazer. A restante obra de Scott Walker é obrigatória para quem precisa de música bela e única como de ar para respirar.

19 de abril de 2011

Kosmische Kosmetik XXII

Manuel Göttsching é um dos mais lendários guitarristas alemães. O seu estilo, um misto de ambiências etéreas e blues espaciais, enfeita com opulência os discos dos Cosmic Jokers, Walter Wegmüller e da sua banda de sempre, os Ash Ra Tempel. Assim sendo, é curioso que um dos mais influentes discos de electrónica de todos os tempos seja assinado por ele. Um homem das seis cordas que, inadvertidamente ou não, provoca um efeito borboleta com a sua obra a solo E2-E4: inventa o alfabeto através do qual se escreve muita da música de dança de hoje.
E2-E4 continua a ser um disco imbuído do espírito da kosmische musik. É um indutor de transe como o melhor dos Tangerine Dream e está lá a guitarra livre de amarras que se estilhaça nos Ash Ra Tempel. A diferença é que, desta vez, o ritmo impõe-se e é levado ao topo, enfatizando ainda mais as oferendas hipnóticas. Composto por um tema que raia os 60 minutos de duração e que se desdobra em 10 segmentos, o álbum é para ser ouvido como um contínuo. Após uma crescente introdução, o ritmo cibernético mas quente instala-se em definitivo. O convite ao movimento é óbvio, a vontade de resistir-lhe diminuta. Quiet Nervousness e Moderate Start são gâmetas que se fundem para formar o embrião da futura house music.
Em Promise emerge a guitarra de Göttsching, num balançar escorregadio e penetrante, quase afro-latino. A mescla entre o ritmo mecanizado, a electrónica repetitiva e a guitarra equatorial prolongam-se até ao fim do disco. E é curioso como uma atmosfera que nunca deixa de ser abstracta e minimal consegue causar tanto prazer auditivo. E2-E4 é paragem obrigatória para os amantes de electrónica. É um registo de extrema inovação (corria o ano de 1984 quando foi editado) e, acima de tudo, um álbum de culto. Que o diga James Murphy - mastermind dos LCD Soundsystem, alvo da indignação do próprio Göttsching por gostar tanto do disco e querer cloná-lo quase por inteiro...
O título desta obra essencial inspira-se na jogada de abertura mais clássica do xadrez. Tendo em conta os xeque-mates que conseguiu ao longo dos anos, tudo indica que Manuel Göttsching sabia bem o que estava a congeminar...

18 de abril de 2011

Five Aces


Não há confraria folk que se preze sem a comparência dos Fairport Convention. Com mais de 40 anos de história e mais de 25 membros nas suas fileiras, a mítica banda britânica, pioneira no tratamento eléctrico da música tradicional, não dá mostras de desistir. Mas os Fairport Convention de hoje são um agradável anacronismo. Um jarrão que fica bem continuar exposto mas cuja criatividade e importância empalideceu há décadas.
A eternidade e sacralização dos Fairport Convention erguem-se em apenas três anos. De 1968 a 1970, cinco discos magníficos chegam e sobram para sustentar e justificar a influência do grupo. É a música da América que começa por agitá-los, em emanações intermitentes de Bob Dylan e Joni Mitchell. Mas, para lá das reverências aos mestres, o primeiro álbum da banda revela sensibilidades mais psicadélicas que folk e é a obra mais fragmentada da sua quase interminável discografia.


Fairport Convention oscila entre o Sol e a Lua, entre o imediatismo de Time Will Show The Wiser ou If (Stomp) e temas mais contemplativos, como One Sure Thing, I Don't Know Where I Stand e o sublime Decameron. O igualmente excelente The Lobster mergulha-nos num escuro aquário psicadélico, enquanto Sun Shade flui como as ondas da west coast californiana. A primeira exposição dos Fairport Convention tem tanto de ingénuo como de experimental. A banda é ainda refém das suas influências, mas as composições em nome próprio vincam já algum do seu carácter. Richard Thompson sai lentamente da crisálida como um dos melhores guitarristas e compositores britânicos das últimas décadas. Este é, igualmente, o único disco do grupo que conta com Judy Dyble como vocalista. O seu registo aproxima-se de Joni Mitchell e Grace Slick, o que, apesar de agradável, não nos prepara para o assombro que estava para vir: uma doce tempestade chamada Sandy Denny.


Indubitavelmente uma das melhores vozes que a Inglaterra deu ao mundo, a jovem de formas robustas e look campestre injectou energia renovada nos Fairport Convention. What We Did On Our Holidays, segundo álbum da banda, é uma obra mais directa e sólida, em que a timidez e introspecção que povoavam grande parte do seu antecessor dão lugar a um som mais expansivo. A sombra da folk encobre cada vez mais o colectivo e o tema que abre este segundo capítulo da sua vida discográfica é a melhor porta de entrada possível. Fotheringay é o seu nome e a conjunção da voz de Sandy com a guitarra acústica parece ter sido criada para sustentar a expressão pele de galinha. Sublime, etérea e mística, Fotheringay seria suficiente para garantir o Olimpo aos Fairport Convention. Depois de recompostos da triste história de Mary, Queen of Scots, há outras delícias para descobrir. Duas versões bem conseguidas de Joni Mitchell e Bob Dylan (esta última - I'll Keep It With Mine - especialmente saborosa). Blues insular em Mr. Lacey, rock com f de folk no clássico Meet On The Ledge e duas abordagens inovadoras e igualmente electrificadas de canções tradicionais inglesas (Nottamun Town e She Moves Through The Fair). A capa do disco possui igualmente a sua história: foi desenhada a giz pelos membros da banda no quadro de uma escola, antes de um concerto.


Poucos meses depois, Unhalfbricking avança progressivamente pelos territórios da folk, quer britânica, quer americana, deixando o rock de lado em tudo excepto no suporte instrumental. Infalível do princípio ao fim, o terceiro álbum dos Fairport Convention guarda muitos dos seus melhores temas. É o disco de A Sailor's Life, revisitação épica e oceânica da canção tradicional com o mesmo nome e um dos marcos primordiais no surgimento da folk eléctrica. As revisitações e subversões do reportório dylanesco continuam, desta feita com realce para a espantosa versão de Percy's Song e a transformação de If You Gotta Go, Go Now numa espécie de canção folclórica da Bretanha francesa chamada Si Tu Dois Partir. Os dois membros mais proeminentes da banda oferecem prestações superlativas e contribuem com criações próprias da mais fina safra: Sandy Denny com os excelsos Autopsy e Who Knows Where The Time Goes?; Richard Thompson com Cajun Woman e o belíssimo (e favorito pessoal...) Genesis Hall. Se a música de Unhalfbricking é lendária, a capa que lhe dá rosto também quase algo de mítico. Os senhores da foto são os pais de Sandy Denny. A banda aparece por entre os buracos da vedação e é possível discernir com facilidade as cabeças de todos os elementos. Muita gente diz que foi propositado, os próprios dizem que foi pura coincidência. Eu também prefiro acreditar na segunda...


Ainda em 1969, um novo álbum vê a luz do dia. Os Fairport Convention viviam um período de euforia criativa e ao quarto disco alcançam o seu momento definitivo. Liege & Lief é o melhor álbum de sempre a ser rotulado folk rock. O efeito é o de um bando de jograis medievais metidos numa máquina do tempo e a quem deram instrumentos eléctricos e uma bateria para tocar umas cantigas lá do feudo. Somente três dos oito temas originais foram compostos internamente. Os restantes são adaptações ao universo rock do legado musical britânico. É isto que faz de Liege & Lief um disco único, um objecto estranhamente familiar e belo, mas igualmente atavístico e pesado como as areias do tempo. Torna-se quase impossível distinguir os temas novos dos antigos, pois todos estão embebidos no mistério da música alimentada por lendas e mitos. Matty Groves e Tam Lin são épicos e intensos, narrativas que brotam das fogueiras das muitas noites em que foram contadas e que continuam a atravessar gerações. Reynardine e The Deserter são lamentos forjados na pedra dos castelos e no verde da Inglaterra rural. Os temas compostos pela banda são igualmente afectados por este regresso ao campo, aos segredos dos bosques e ao animismo da Natureza. Come All Ye é um convite à dança sob o luar, por oposição ao recolhimento solitário de Farewell, Farewell e à melancolia outonal de Crazy Man Michael. Uma obra-prima da música inglesa, Liege & Lief mudou para sempre a forma como a música tradicional foi vista, deixando de ser uma curiosidade cultural para se tornar um elemento passível de fusão e aberto à modernidade.


É difícil para qualquer banda recuperar da perda de alguém como Sandy Denny. Os Fairport Convention não foram excepção. Esta perda (primeiro musical, depois definitiva, pois Sandy viria a falecer em 1977) é notória no quinto álbum do colectivo, Full House. Editado em 1970, é o disco feito pelos homens deixados sozinhos sem a mulher para orientar a casa. Isso resulta num trabalho mais musculado, o mais orientado para o rock até então na sua carreira, mas sem perder nada do espírito folk do seu antecessor.
Full House é estranhamente viciante. É um registo tendencialmente mais sombrio, sem a luminosidade projectada por Sandy Denny e em que as vozes são agora repartidas pelos vários membros da banda. Não faltam momentos de comunhão perfeita entre os músicos, especialmente em Doctor of Physick e Sir Patrick Spens, ambas com um violino irresistível - culpa de Dave Swabrick. Magnífico é também o entrosamento nos momentos mais sombrios e introspectivos, como Poor Will & The Jolly Hangman, Now Be Thankful e o majestosamente inebriante Sloth (muito graças à guitarra em êxtase contido de Richard Thompson). Para espíritos festivos, recomenda-se Walk Awhile e duas danças tradicionais transformadas em folk rock: Dirty Linen e a frugalmente intitulada Sir B. McKenzie's Daughter's Lament For The 77th Mounted Lancer's Retreat From The Straits Of Loch Knombe, In The Year Of Our Lord 1727, On The Occasion Of The Announcement Of Her Marriage To The Laird Of Kinleakie...
Após Full House, o percurso dos Fairport Convention tornou-se erraticamente estável. A sua história discográfica até aos dias de hoje é feita de trabalhos mais ou menos interessantes mas incomparavelmente menores que estes cinco ases saídos do mesmo baralho. De todos os elementos da banda, será Richard Thompson (que saiu logo após o término de Full House) aquele que ainda produz música relevante. E apenas Simon Nicol resta deste período imaculado...

P.S.: Este post é dedicado a um amigo que perdi hoje. Chamava-se Jimmy e era um cocker spaniel muito especial. Vivemos excelentes momentos de companheirismo. E ouvimos muitas vezes juntos os Fairport Convention...

3 de abril de 2011

Garage Days III

"Their name is Love but they are Hate." Esta expressão foi usada para definir os Love, uma das bandas mais geniais de sempre, que fundiu elementos de garagem, psicadelismo e barroquismo pop como mais ninguém. Os Belle & Sebastian não existiriam sem eles, assim como o reverenciado primeiro disco dos Stone Roses e Michael Head teria sido mais um post-punker inconsequente em vez de criar os belíssimos Pale Fountains / Shack. O colectivo que nos levou a um passeio pela perfeição no intocável Forever Changes brotou de poderosas ervas daninhas e começou por florescer num álbum homónimo do tipo bikini: curto, atraente e que focou os pontos essenciais.
Love, editado em 1966, é um disco que cruza o imediatismo e a urgência do Garage Rock com a sensibilidade da melodia e a arquitectura da canção concisa e perfeita. O malogrado Arthur Lee, eterno símbolo desta entidade, projecta já a sua mente torturada em temas agridoces, de sol enganador e sombras ominosas. O ódio dos Love sente-se nas palavras que repercutem o Vietname, as drogas pesadas ou a inutilidade do emergente sonho hippie. A música crava as unhas em elementos que vão da folk ao que agora é politicamente correcto chamar proto-punk (e que mais não era que raiva latente).
My Little Red Book transforma a temática pinga-amor do original de Burt Bacharach em sátira política, graças à compatibilidade com o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung e à carga eléctrica que lhe é inflingida. Signed D.C. é uma sombria incursão pela câmara escura da heroína, homenagem ao falecido ex-baterista Don Conka. O quarto é escuro e frio, mas há um prazer algo voyeurista em ficar à porta a contemplá-lo, pois a canção é memorável. E a memória mais propensa a néctares musicais nunca poderá descurar peças intrépidas como A Message to Pretty, Softly to Me ou You'll Be Following. Can't Explain e o ataque de nervos à clássica murder ballad Hey Joe apresentam-se menos polidas e mais garagistas na entrega.
Tudo é sangue na guelra neste disco, o prenúncio de mágicas, mas tortuosas, glórias futuras. Arthur Lee e o seu clã olham-nos de frente na capa de Love, rodeados de pedra e vegetação em seu redor. O local era a antiga casa de Bela Lugosi, onde o grupo viveu em comunhão os seus primeiros anos. Os olhares parecem dizer que, tal como a melhor encarnação de Drácula, esperam pacientemente para nos sugar o sangue. E nós, sofregamente, oferecemos o pescoço...

2 de abril de 2011

Long Live BBC 4

No programa 60 Minutos da SIC Notícias, Mário Crespo costuma enfatizar a excelência de conteúdos da estação. Pegando nesse termo, louva-se hoje aqui a excelência de conteúdos do canal 4 da BBC. Especialmente no que diz respeito a documentários dedicados às artes e às ciências. Musicalmente, a estação britânica mantém o rigor, a qualidade e a variedade nas temáticas que transmite. Nunca poderia escapar ao Escrito no Som o excelente e completíssimo programa dedicado ao popularmente designado Krautrock. Trata-se de uma magnífica história visual desta corrente musical e da própria cultura alemã entre 1968 e 1977, onde proliferam sequências lendárias e não faltam testemunhos de personagens de culto. Um belo resumo para os iniciados, mais um motivo de júbilo para os convertidos. Aqui vai a série completa, para ver com olhos de ver...

27 de março de 2011

Um Americano em Londres



Joe Boyd é um nome que permanece algo desconhecido da maioria, mas que constituiu um elemento de enorme importância no desenvolvimento musical dos anos 60. Este produtor americano, que trocou Boston por Londres em meados dessa década, tornou-se influente e agitador, privou de perto com os grandes nomes da época e assistiu in loco a episódios marcantes dessa era dourada da cultura popular.
Em White Bicycles - Making Music in the 1960's é narrada, de forma autobiográfica, essa aventura. Boyd, catalisador e produtor de nomes honoráveis como Pink Floyd, Nick Drake, Incredible String Band ou Fairport Convention, demonstra ter sido uma espécie de John Peel da época: um homem que nunca criou música, mas que nunca disso precisou para se afirmar como um dos porta-estandartes da revolução sónica dos sixties. O seu toque de classe fez-se sentir em várias correntes, notando-se sobretudo no rock psicadélico que despontava na altura e nas novas tendências da folk. Uma consistente súmula da sua dedicação à música (e ao cinema, a outra das suas paixões) está disponível em http://www.joeboyd.co.uk/.
White Bicycles colhe, assim, o fruto dessas memórias. É uma obra fascinante, que recupera factos nunca antes revelados e que propicia um acutilante, renovado e - não raras vezes - bem-humorado insight de anos irrepetíveis. Um livro obrigatório para melómanos sem constrangimentos de tempo, escrito pela pena de alguém que soube manter-se lúcido no centro da loucura para poder contar a história.

Future Past


O revivalismo electrónico não mostra indícios de parar. Surgem cada vez mais regularmente projectos que desenterram e devolvem à vida sintetizadores mumificados e sonoridades arcaicas. Um dos mais recentes e interessantes chama-se Giant Claw e é o produto solitário de Keith Rankin, membro honorário da excelente webzine Tiny Mix Tapes. Algures entre as paisagens cibernéticas dos Oneohtrix Point Never e as densas florestas electrónicas dos primeiros Cluster, o recentemente editado Midnight Murder é um solilóquio sintético que tanto nos transporta para jogos de computador dos anos 80 (Big Heat) como nos revolve o cérebro com melodias multicoloridas e infantis (Midnight Chew). Especial destaque para a serenidade minimal transformada em sobressalto de Parallax Border e para a cavalgada espacial de I Know I'm Like a Ghost. Ambos assentariam que nem uma luva nos filmes que Stanley Kubrick nunca fez. Visualmente, o projecto Giant Claw revela-se igualmente interessante na sua miscelânea retro-futurista, que floresce exemplarmente neste tema - e lembra Philip Glass em modo sci-fi...


Alegrem-se agora os amantes da kosmische musik! Rejubilem os tiffosi da electrónica vintage! Em pleno ano 2011 chega um disco capaz de esmagar e enternecer os adeptos da velha escola dos anos 70 e princípios de 80. Chama-se Primitive Neural Pathways e é a mais recente criação de Steve Moore, americano responsável pelo disco revival dos Lovelock e por 50% dos igualmente dançáveis - mas sombrios - Zombi.
Steve Moore tem o poder de assinar um álbum condenado a ser alvo de perseguição e abdução. Um jardim das delícias espacial e sedutor, assente em vórtices melódicos e pulsantes e pleno de ambiências voadoras não-identificadas. Claro que o nome Oneohtrix Point Never vem à baila (Daniel Lopatin é o principal culpado pelo resgate destes eflúvios), mas a influência notória vem de Edgar Froese e dos Tangerine Dream. As reminiscências do melhor Jean-Michel Jarre, antes das namoradas top model e dos espectáculos de luz mais caros que o PIB lusitano (ou seja, dos tempos de Oxygène), são igualmente notórias.
É essa súmula da mais épica e meditativa electrónica europeia que faz de Primitive Neural Pathways um objecto tão belo e especial. Ao contrário do supracitado projecto Giant Claw, Steve Moore capta o sentido melódico em detrimento das abstracções. Daí a latente semelhança com o Jarre de 1976 ou com os Tangerine Dream mais acessíveis de Force Majeure ou Hyperborea. Peças como Orogenous Zones e C Beams remetem para a sensibilidade melódica do francês; o tema-título, Feel the Difference e 248 Years levam-nos às travessias cósmicas dos alemães. Aliás, se os Tangerine Dream lançassem um disco assim neste momento, seria considerado um milagre. E tudo é cozinhado na contemporaneidade, fazendo do álbum um genuíno produto de 2011. Um dos grandes discos de electrónica dos últimos tempos, muito graças ao espírito intemporal que o consome, Primitive Neural Pathways possui o condão de nos retirar deste mundo durante mais de meia-hora. Pode não parecer assim tanto, mas vale muito a pena ser passageiro desta odisseia.

Os dois álbuns acima dissecados não foram lançados em formatos convencionais. Midnight Murder foi apenas editado em cassette e Primitive Neural Pathways em vinil. Mas os seus criadores foram uns mãos-largas: Keith Rankin disponibiliza todas as gravações do projecto Giant Claw neste local. O disco de Steve Moore pode ser escutado, na íntegra, aqui. Não deixa de ser curioso que duas das obras mais retro-futuristas do ano sejam lançadas em formatos retro-elitistas. Uma provável reacção ao facto da música ser cada vez menos uma arte e cada vez mais um produto...

Garage Days II

Os Monks são uma das bandas mais lendárias e proeminentes do chamado Garage Rock. Com apenas um álbum na sua cartilha, datado de 1966, espalharam culto e influência. O punk não teria acontecido sem eles e os ritmos mecanizados do krautrock também lhes devem a sua quota-parte. Tudo começou na Alemanha em meados dos anos 60, quando cinco militares americanos aí em serviço trocaram as espingardas pelas guitarras. Os cabelos foram cortados ao melhor estilo monástico, batinas começaram a ser envergadas e muitas vezes o quinteto tocava com cordas à volta do pescoço. A música era manifestamente anti-bélica, mas o som era rude e a entrega electrizante. Em Black Monk Time, o seu único testemunho, os Monks deram o seu contributo para a mudança da face do rock. Tornaram-na mais feia e agressiva, crua e desmaquilhada. 
Black Monk Time é um disco imparável. Nem as canções de amor acalmam a intensidade constante. A banda parece tocar música com o sentimento de quem disputa uma batalha. Rigorosos e concisos, os Monks mostram ser uma máquina precisa de tocar rock'n'roll. O que não significa que não haja espaço para emoções. Elas estão à flor da pele, febris e directas e deixam-nos sem fôlego enquanto os monges se entregam à penitência do ritmo. Monk Time é das melhores aberturas de sempre de um disco. Um ataque relâmpago, surpreendente e panfletário. O que lhe sucede é um conjunto variado de experiências roqueiras como nunca se tinha ouvido e que soam poderosíssimas ainda hoje. Todos os membros da banda cantam, a bateria nunca se liberta de um transe endemoniado e o órgão de igreja que assalta os temas é tudo menos litúrgico. Há ainda um banjo eléctrico que arranha melodias de barba rija.
A fúria dos Monks encerra 12 temas em menos de meia-hora. Black Monk Time tem sido alvo de reedições ao longo dos anos, mas nenhum dos extras por elas oferecidos chega ao nível da primeira dúzia. Assim, deixem marchar sobre vós os fantásticos Shut Up I Hate You. E deixem-se evangelizar pela espiral frenética de Higgle-Dy-Piggle-Dy e Blast Off! No fim, não há como perguntar onde está a energia das bandas de hoje em dia. Onde está a fúria? Se rock em português significa pedra, então Black Monk Time é a sua pedra filosofal. Para mais informações, é favor visitar o Mosteiro...

15 de março de 2011

Kosmische Kosmetik XXI

A essência dos Popol Vuh e a existência de Florian Fricke cruzam-se e facilmente se confundem. A relação é simbiótica. O lendário músico alemão, pioneiro da electrónica, raiou muitas vezes a genialidade nas suas criações. Hosianna Mantra foi um desses momentos, uma obra que rompe drasticamente com o transe electrónico e as fortes vibrações étnicas dos dois primeiros álbuns do projecto.
Fricke sempre cultivou uma aura mística. Um véu de eremita, reclusivo, raramente exposto às luzes da ribalta. A sua arte reflectiu-o na perfeição. Constantemente transcendental e convidando incessantemente à meditação e ao misticismo, a música dos Popol Vuh sente-se como uma experiência religiosa. E o que se espera de um homem devoto em simultâneo do cristianismo e do hinduísmo revela-se esplendorosamente nesse disco de 1972. O mesmo divide-se em duas partes distintas: Hosianna Mantra e Das V. Büch Mose. Na primeira, domina o espaço e a música flui e respira. Os sons apontam para Oriente, esparsos e solenemente belos, evocando rituais de paz e contemplação. Na segunda, sobrevém um rigor mais clássico, mas igualmente meditativo e beatífico - música de câmara para a alma. O gigantesco Moog que dominava os dois primeiros álbuns dos Popol Vuh, Affenstünde e In den Gärten Pharaos, dá lugar a instrumentos orgânicos, como o piano, o violino e uma tambura indiana. Trechos de guitarra eléctrica etérea e flutuante adornam a fabulosa Kyrie; um oboé cristalino eleva ainda mais a perfeição de Abschied. A voz celestial da coreana Djong Yun é uma luz dispersa pelo disco, mas particularmente no majestoso tema-título, tira-nos o peso do corpo. É também impossível não mencionar a magnífica Maria (Ave Maria), composição apenas dada a conhecer na reedição do álbum em CD, mas que condensa a intencionalidade do álbum: ser um elo de ligação espiritual e místico entre Ocidente e Oriente, assente na mescla de instrumentos e estilos musicais de ambas as culturas.
Florian Fricke não esgotou a sua prodigiosa criatividade precocemente nesta obra-prima. Continuou a tocar-nos com o misticismo e a estranha beleza da sua música até deixar este mundo em 2001. Hosianna Mantra é apenas o ponto de passagem mais delicado, harmonioso e sublime da giesta dos Popol Vuh. E pode muito bem ser o disco mais belo da música alemã dos anos 70...

13 de março de 2011

Garage Days

Há algo de puro e libertador no rock de garagem dos anos 60. Algo de genuíno, virginal até. Antecâmara do punk, caminho de cabras para o psicadelismo, muito do Garage Rock continua a soar tão fresco hoje como há quatro décadas atrás. Tudo graças a artistas e obras que primavam pela irreverência e pelo imediatismo, por jogarem mais com o coração que com a cabeça. O som era crú e primário. Não elaborava as emoções, entregava-as em bruto. Como se o caldeirão efeverescente e hormonalmente instável de uma mente adolescente fosse traduzido musicalmente.
São óbvias as referências dos blues e da forma como eles foram tratados pelos Rolling Stones no primeiro álbum - homónimo - dos Electric Prunes. A música é carnal e sensitiva. No entanto, há algo de transcendente e profano que transforma esta obra primogénita num dos embriões do psicadelismo. I Had Too Much Too To Dream (Last Night) e Get Me To The World On Time são dois clássicos intocáveis, duas das melhores canções dos sixties. A primeira é um clássico absoluto, a placenta do psicadelismo, omnipresente nas compilações do género e absolutamente genial, com uma fuzz guitar a zunir e outra a ecoar como violinos atrás da urgência da voz. A segunda é um exercício pulsante e intenso, um rush emergente e contagiante, de guitarras picadas, voz em lunático crescendo e ritmo sudoríparo.
Construído a propos destes colossais singles, The Electric Prunes apresenta muito mais que complementos às suas duas referências. Destaca-se, aliás, por ser um álbum bastante eclético e que percorre paisagens sonoras variadas, do típico rock de garagem de Try Me on For Size e Are You Lovin' Me More (But Enjoying It Less) ao vaudeville de About a Quarter to Nine e ao psicadelismo polvilhado de jazz do excelente Train For Tomorrow. Sold to the Highest Bidder acelera as guitarras até parecermos estar perante um adulterado agrupamento folclórico grego e não ficaria deslocado num disco dos Beirut ou A Hawk and a Hacksaw. A balada Onie merece idêntico destaque e constitui o momento mais delicado do disco, um sentido monumento ao amor na fase do Clearasil.
Após uma carreira algo errática, os Electric Prunes ainda perduram, essencialmente como banda de concertos, mas este primeiro assomo de 1967 é a sua criação de referência. Um disco que parece ter bebido da fonte da eterna juventude e ideal para satisfazer jovens de espírito.

7 de março de 2011

Cidade Global Alfa Menos


Lisboa é uma cidade fértil em homenagens e louvores. São incontáveis as canções, os poemas, os quadros e os livros que a exaltaram séculos a fio. Vitor Manuel Adrião, historiador, filósofo e estudioso do esoterismo oferece-nos agora uma das visões mais desconhecidas da velha Olisipo. Uma história alternativa, que desvenda os seus mistérios ocultos e mostra segredos em locais que, à primeira vista, parece não terem nada a esconder.
Adrião é um dos mais prestigiados mestres no campo da mitologia tradicional portuguesa. É autor de obras de culto como História Oculta de Portugal ou a enciclopédica descrição da fantástica Quinta da Regaleira - A Mansão Filosofal de Sintra. O gosto pelo hermetismo e a sabedoria acumulada são imensos, como se pode constatar pelos escritos editados. A cidade capital tinha sido já motivo de narração esotérica ha uns anos, no livro Lisboa Secreta - Capital do Quinto Império. Agora, Lisboa Insólita e Secreta apresenta-se como um guia. Um guia diferente, que convida à descoberta dos segredos mais recônditos da cidade e à decifração de enigmas que permanecem fechados aos olhos de quem não é iniciado nestas matérias. Símbolos ocultos, mensagens templárias e arquitecturas cabalísticas são algumas das muitas curiosidades apresentadas nestas páginas. A mesma assume-se igualmente como guia iniciático de uma cidade que, em tempos, chegou a ser projectada como capital espiritual do Velho Mundo.
Os mais cépticos poderão olhar para esta obra com uma ponta de ironia, como um encaixe financeiro esotérico. Mas acredito que os alfacinhas (e todos os que amam Lisboa) se sentirão tentados a pegar neste livro e descobrir uma imensidão de coisas novas em ruas tantas vezes percorridas, em edifícios tantas vezes visitados. Mito ou realidade, edições como esta contribuem em muito para a auto-estima de uma nação deprimida. Para o enraizamento do que está a ser descurado. Quiçá para relembrar que existiu um ideal chamado de Quinto Império...

5 de março de 2011

Kosmische Kosmetik XX

É fácil afirmar que os La Düsseldorf são o filho bastardo e comercial dos Neu!. Após a ruptura do seminal colectivo alemão, o mentor Klaus Dinger apontou os mísseis para um projecto assente na mesma base, porém mais acessível às massas e menos vagueante no conteúdo. Em 1976, com o estandarte do krautrock a começar a ser erguido bem alto pela intelligentsia formada por gente como como David Bowie ou Brian Eno, o trio La Düsseldorf edita um dos álbuns mais bem sucedidos e admirados do género. O verdadeiro disco que espraia a sua influência pelas gerações vindouras e que ajuda à arquitectura do sustento musical de muitos bafejados pela sua inspiração.
La Düsseldorf é uma obra tão cativante quanto visionária. Cruza o típico ritmo motorik dos Neu! e dos Harmonia com um imediatismo visceral quase punk e intuições dançantes que o tornam um objecto ainda mais sedutor. Às vagas sonâmbulas e abstractas dos dois projectos supracitados, os La Düsseldorf respondem com música igualmente expansiva, mas encaixada em padrões mais clássicos e massajantes. As guitarras são mais atrevidas e outra novidade é a voz. Está presente em três dos temas e é lida em letras tão minimais como inescrutáveis. São apenas quatro na totalidade, os ditos temas, mas todos eles podem ser entendidos como históricos. O único instrumental, o sumptuoso Silver Cloud, é a conjugação da frieza com a ambiência que embala o corpo e levanta o ânimo. Típicas atmosferas germânicas, rigorosas mas deliciosas de ouvir.
O lado A do disco ergue-se na perfeição com Düsseldorf e La Düsseldorf. A fixação pela cidade é inquestionável. A primeira homenagem sabe ao prazer do reencontro. A música é extraordinariamente melodiosa, provoca-nos fisicamente, impele-nos a acompanhar o seu trajecto. E tem a bonita duração de 13 minutos. O equivalente krautrock ao sexo tântrico... A segunda começa com cânticos futebolísticos (provavelmente dedicados ao Fortuna Düsseldorf, que conseguiu alguns brilharetes nos anos 70) e constitui um dos momentos mais assumidamente punk da música alemã da época. Enérgica e espontânea, antecipa muitas coisas já em trabalho de parto na Inglaterra e influenciará outras tantas no futuro. O álbum termina em grande com o épico pulsar de Time. Um início em surdina, que se expande em meditativas mutações, da monotonia ao escapismo, até ao alívio da explosão final - e ao retomar do segundo zero.
Mais que um derivativo dos Neu!, os La Düsseldorf apresentam-se ao mundo em 1976 com uma linguagem renovada. Menos fechada na concha hermética da Arte e na seriedade da experimentação, mais aberta às possibilidades da fusão e da exibição. La Düsseldorf é um dos discos mais influentes e perenes da segunda metade dos anos 70 e é tarefa simples defini-lo numa só palavra: Essencial.