É fatal como o destino. De tempos a tempos, em dias insuspeitos e horas inesperadas, estes discos voltam qual atavismo para nos possuir de novo. A trilogia berlinense de David Bowie. Ou seria melhor dizer a troika berlinense de David Bowie? Ou, pensando bem, o triunvirato berlinense de David Bowie? Todos estão errados. Somente Low e "Heroes" foram gravados nos míticos Hansa Studios da cidade alemã. Lodger foi gerado entre a Suíça e Nova York. E toda a gente séria sabe o que se passa nestas míticas criações, as suas causas e consequências. Caso não o saiba deveria estar já a ouvir os discos em ver de procurar o desfecho desta bajulação gratuita. Para ser estilhaçado pelas influências difusas dos Talking Heads, da música africana, turca e do disco-punk de Lodger. Para ser arrebatado na confluência entre os Neu!, os Kraftwerk e a visceralidade de Iggy Pop presentes em "Heroes". Para ser libertado em territórios nunca antes desbravados por um artista pop, que uniu Roxy Music a Steve Reich e Philip Glass em Low. Tudo isto em parceria quase siamesa com Brian Eno e com o pontual toque de Midas do Jimi Hendrix cerebral: Robert Fripp. David Bowie provou definitivamente nestes discos a sua capacidade genial de transmutação.
A verdade mais provável é que, quem leu até aqui com prazer, conhece estas obras na perfeição e apenas se juntou a mim na bajulação. É fatal como o destino. De tempos a tempos, em dias inesperados e horas insuspeitas, estes discos voltam qual atavismo para nos possuir de novo...
28 de maio de 2011
Claramente Obscuro
O rasto de mistério deixado por um disco há muito considerado perdido, esquecido ou obsoleto alimenta qualquer melómano com instintos de toupeira. Trazer de volta ao mundo dos vivos estas obras suspensas no limbo musical, bizarrias únicas e raras, e descobrir os tesouros que escondem é uma tarefa louvável e infatigável.
A arqueologia dos sons agradece aos superlativos Midlake a recuperação de muitos nomes ocultos na poeira do tempo. Nomes da folk mais obscura, da country fiel às suas raízes e do psicadelismo rural. Um homem que incorpora solidamente estas características é Bob Carpenter. Redescoberto através da exposição feita pela banda americana na excelente selecção reunida para a série Late Night Tales (mais uma, alíás, na constante consistência dos seus convidados), Carpenter é membro honorário do clube dos baladeiros que só lançaram um álbum, ignorado na altura, mas objecto de culto para quem não era nascido nessa época. Foi em 1975 que este músico canadiano editou o seu opus solitarium: Silent Passage.
Disco de grandeza humilde, Silent Passage conta com a presença da ainda emergente Emmylou Harris nas vozes. E apenas viu a luz do dia em 1984, após anos de litígio editorial que votaram Carpenter ao ostracismo. O rato de discoteca que tiver a sorte de passar por ele fortuitamente, reparará quiçá no lirismo algo fantasmagórico em tons de sépia que a capa ostenta, mas é provável que não lhe dê guarida. Afinal de contas, quem é este Bob Carpenter? Terá alguma coisa a ver com os delicodoces Carpenters? Felizmente não. O senhor é um singer-songwriter de voz rústica mas expressiva, dorida mas límpida e que compõe canções de sumptuosa sinceridade. A country music é o caule de onde os ramos se espraiam. Miracle Man e Morning Train são exemplos flagrantes, temas que carregam o peso da tradição ao mesmo tempo que roem o seu cordão umbilical. First Light e Beyond My Time poderiam formar um patchwork com as peças de psicadelismo pastoral de Jimmie Spheeris e Tom Rapp. Assombradas e acinzentadas, Gypsy Boy e Down Along The Border fazem crer que o tristemente malogrado Vic Chesnutt foi algo inspirado por este disco.
Ficam para o fim duas magníficas criações: Old Friends, um misto de country e soul muito antes dos Lambchop patentearem o invento, uma canção quente no ritmo, mas fria no trompete que a rasga solitariamente. Silent Passage, o tema-título, é incontornável. O álbum vale a pena só por ela. O génio de Bob Carpenter reside aqui, nas palavras em estado bruto, soldadas à melodia bela mas agreste. Esta curta balada merecia ombrear com as melhores canções de Bob Dylan ou Townes Van Zandt...
Do rigor da tundra canadiana para o sol da Califórnia. Ted Lucas ultimava igualmente em 1975 o seu igualmente único registo. O mesmo não tem nenhum título oficial para além do nome do músico, mas há quem lhe chame The Om Album. Apesar de não ser literalmente uma experiência mística musical em torno do som primordial budista, transcendência é coisa que não falta a esta obra, sendo que as mais recentes tendências da folk sem pára-quedas a resgataram para o panteão dos Achados.
As influências de Lucas vão dos blues mais primitivos (Robin's Ride) às meditativas ragas indianas (estudou com Ravi Shankar e aprendeu bem a lição, como se constata em Love and Peace Raga). Mas o que este disco deixa para a posteridade é um conjunto de canções acústicas em que o psicadelismo se ouve sob a forma de folk e se sente como uma droga que só faz efeito através da escuta. É cinismo ou ingenuidade intitular uma canção It is so Nice to get Stoned? Pela forma como Ted Lucas a canta (e ela é belíssima) parece ser franqueza...
O álcool tem direito a menção honrosa logo a seguir em Sonny Boy Blues, devaneio que não saberia a azedo na pint de John Martyn. Mas são os cinco primeiros temas que dá gosto nomear, pela simplicidade magistral e quase minimal que os estrutura. Melodias circulares e economia de meios fazem de Plain and Sane and Simple Melody e Baby Where You Are perfeitas carícias no espírito. Now that I Know e I'll Find a Way to Carry it All deixam intuir a que soariam discos como Five Leaves Left de Nick Drake ou Whatevershebringswesing de Kevin Ayers caso tivessem sido concebidos e paridos na costa do Pacífico.
It's so Easy when You Know what You're Doing, canta Ted Lucas na canção que também se chama assim. Que grande verdade. O músico sabe bem o que está a fazer e por isso tudo flui tão facilmente e seduz-nos com idêntica mestria. Tal como o Om budista, estas pequenas mas adoráveis canções poderiam tocar infinitamente, que não deixariam de nos iluminar...
8 de maio de 2011
Vida Entre as Ruínas
Em 1972, antes de saírem fora de órbita com The Dark Side of The Moon e ficarem por lá, os Pink Floyd eram uma das forças criativas mais excepcionais e inovadoras deste planeta (e talvez de mais uns quantos...). Editado durante o período do superlativo álbum Meddle, Live at Pompeii é um concerto-documentário refinadíssimo e seminal.
Visualmente expansivo e impressionante, o filme entrelaça o intimismo da banda em estúdio com prestações memoráveis nas ruínas da lendária cidade devastada. Os ingleses devaneiam na beatitude mediterrânica, comem ostras, descrevem a sua música e apresentam-nos um quinto elemento da banda surpreendente e que parece não ficar indiferente ao som da harmónica. As gravações ao vivo são sublimes e panorâmicas, tornando enormes clássicos cósmicos como Set The Controls For The Heart of The Sun e A Saucerful of Secrets. O manto flutuante de Careful With That Axe, Eugene recebe igualmente tratamento majestoso.
Esta seria a última vez que veríamos os Pink Floyd tão perto. Live at Pompeii é um documento histórico por essa razão. O grupo que já era gigante passou a ser gargantuano. Até ao ponto em que se viam mais luzes e equipamento que quatro homens a tocar. Foi aí que Johnny Rotten, dos futuros Sex Pistols, saiu à rua com uma t-shirt onde se lia I Hate Pink Floyd. Veja-se este filme, ainda mais apelativo na versão Director's Cut, para relembrar uma época em que ser revolucionário era dizer I Love Pink Floyd.
Visualmente expansivo e impressionante, o filme entrelaça o intimismo da banda em estúdio com prestações memoráveis nas ruínas da lendária cidade devastada. Os ingleses devaneiam na beatitude mediterrânica, comem ostras, descrevem a sua música e apresentam-nos um quinto elemento da banda surpreendente e que parece não ficar indiferente ao som da harmónica. As gravações ao vivo são sublimes e panorâmicas, tornando enormes clássicos cósmicos como Set The Controls For The Heart of The Sun e A Saucerful of Secrets. O manto flutuante de Careful With That Axe, Eugene recebe igualmente tratamento majestoso.
Esta seria a última vez que veríamos os Pink Floyd tão perto. Live at Pompeii é um documento histórico por essa razão. O grupo que já era gigante passou a ser gargantuano. Até ao ponto em que se viam mais luzes e equipamento que quatro homens a tocar. Foi aí que Johnny Rotten, dos futuros Sex Pistols, saiu à rua com uma t-shirt onde se lia I Hate Pink Floyd. Veja-se este filme, ainda mais apelativo na versão Director's Cut, para relembrar uma época em que ser revolucionário era dizer I Love Pink Floyd.
7 de maio de 2011
Garage Days IV
The Psychedelic Sounds of the 13th Floor Elevators é um dos álbuns mais influentes da história do rock. Colocado na bebida dos E.U.A. no longínquo ano de 1966, foi uma das primeiras obras (e obras-primas) a acidificar a música da nação. Roky Erickson, o líder do bando, é ainda hoje visto por muitos como o pai do rock psicadélico. Para além do inequívoco génio musical, Erickson possui uma história de vida no mínimo exótica, o que resultou numa aura mítica e na sua transformação em personagem de culto. Diagnosticado com esquizofrenia paranóide nos finais dos anos 60, o abuso de substâncias que alteram a consciência não ajudou, e o músico passou temporadas entre a prisão e o hospital psiquiátrico. Actualmente vive dias mais pacatos (domesticados?), havendo um período em que chegou a afirmar que o seu corpo era habitado por um marciano, o que motivava a sua perseguição pelos humanos...
Este clássico dos 13th Floor Elevators é um delicatessen psicadélico do princípio ao fim. Já foi reeditado em várias ocasiões, mas os 11 temas da edição original chegam e sobram para o culto. O poder e o génio de You Don't Know (How Young You Are), Reverberation, Rollercoaster, I've Seen Your Face Before (Splash 1) e You're Gonna Miss Me permanece intacto e flamejante após décadas. Sem estes texanos nunca teriam existido instituições como Screamadelica dos Primal Scream, The Jesus & Mary Chain ou os verdadeiros herdeiros da banda, os fabulosos e inesquecíveis Spacemen 3. Entretanto, o disco acabou. Acho que vou ouvi-lo outra vez...
6 de maio de 2011
Muito Barulho
No rescaldo da Troika e na ressaca do descalabro benfiquista, nada como desanuviar em direcção a novos horizontes... Uma das novidades mais recentes e interessantes da Internet dá pelo nome de Noisey. Esta plataforma pretende ser espaço de divulgação da nova música que se faz em mais de uma dezena de países e cuja prematuridade e falta de meios não permitem uma exposição mais abrangente e onerosa.
O Noisey apresenta-se como um local de descoberta e exploração. Coloca à disposição de qualquer internauta melómano concertos e pequenos documentários de bandas e artistas periféricos ou praticamente desconhecidos. Todo o material exposto é original.
Muito do futuro da divulgação musical e do entretenimento digital passam por esta lufada de ar fresco, que transcende fronteiras e é verdadeiramente comunal. Um marco da nova cultura alternativa do século XXI, acessível a partir daqui.
O Noisey apresenta-se como um local de descoberta e exploração. Coloca à disposição de qualquer internauta melómano concertos e pequenos documentários de bandas e artistas periféricos ou praticamente desconhecidos. Todo o material exposto é original.
Muito do futuro da divulgação musical e do entretenimento digital passam por esta lufada de ar fresco, que transcende fronteiras e é verdadeiramente comunal. Um marco da nova cultura alternativa do século XXI, acessível a partir daqui.
3 de maio de 2011
Die Pioniere
A génese e o desenvolvimento da música electrónica devem-se massivamente às explorações revolucionárias e inovadoras iniciadas na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial. De todos os elementos que contribuiram para que as novas linguagens electrónicas deixassem de ser experiências de laboratório e se aventurassem rumo ao mainstream, os Kraftwerk foram os mais visíveis. Da obscuridade ao estrelato e ao reconhecimento pelos seus pares e pela crítica da imensa influência exercida, a história dos homens-máquina de Düsseldorf é nada menos que fascinante.
O documentário (não oficial) de 2008 Kraftwerk and The Electronic Revolution é uma excelente adição ao universo do grupo. Para além de seguir a par e passo a evolução da banda, apresenta em paralelo outros nomes que se tornaram igualmente instituições da electrónica global. Os comentários são assegurados por sumidades jornalísticas como Mark Prendergast e David Stubbs e pioneiros lendários como Klaus Schulze e Conrad Schnitzler. Os dados estão lançados para três horas absorventes de mitologia musical. Deixem-se levar...
Watch Kraftwerk and the Electronic Revolution in Electronic | View More Free Videos Online at Veoh.com
O documentário (não oficial) de 2008 Kraftwerk and The Electronic Revolution é uma excelente adição ao universo do grupo. Para além de seguir a par e passo a evolução da banda, apresenta em paralelo outros nomes que se tornaram igualmente instituições da electrónica global. Os comentários são assegurados por sumidades jornalísticas como Mark Prendergast e David Stubbs e pioneiros lendários como Klaus Schulze e Conrad Schnitzler. Os dados estão lançados para três horas absorventes de mitologia musical. Deixem-se levar...
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2 de maio de 2011
Maldito Scott Walker
Noel Scott Engel precipita-se em queda livre a partir do lado B de 'Till The Band Comes In, o seu quinto álbum oficial de 1970 sob o pseudónimo Scott Walker. Até então, o crooner que estudou canto gregoriano e foi poster boy dos massivos Walker Brothers, deixava por onde passava um rasto de perfume tão charmoso quanto sombrio. Os seus quatro primeiros álbuns a solo são intocáveis. A espaços, e com 40 anos de distância a delimitar a sua concepção, Scott I e II apresentam arranjos desmesurados e orquestrações inusitadas. Mas guardam aquela voz que não é deste mundo e canções comparáveis a abismos profundos e impossíveis de esquecer a quem lá se deixa cair. Scott Walker poderia ser o filho bastardo de Jacques Brel e Juliette Grèco, nascido na América e apadrinhado por Sartre e Beauvoir para espalhar o existencialismo sob a forma de bruxuleantes torch songs. Scott III e IV adensam a matéria de que são feitos os pesadelos e são dois dos mais belos e terríficos discos do século XX. Em 1970, Walker é um artista reverenciado mas que vende pouco. Toma o partido da arte e deixa os departamentos de marketing com os nervos em franja. O rapaz que provocava desmaios quando cantava The Sun Ain't Gonna Shine Anymore é agora um homem reclusivo que prefere ler Camus e Freud e ver filmes de Bergman a aparecer em festas e sentar ao colo groupies extasiadas.
O comportamento esquizóide e o desinvestimento nas actividades artísticas mundanas arrastaram Walker como uma enxurrada a partir de 1970. A vida errante tomou o lugar do estrelato e instalou-se um período (conforme as palavras do próprio no magnífico documentário 30th Century Man) assente em a whole lotta drinkin'...
A travessia no deserto encetada por Scott Walker a solo entre 1970 e o renascimento criativo de Climate of Hunter (1984) deu azo a quatro discos tão repulsivos como fascinantes. Quatro discos que não possuem uma única composição do cantor, mas que detêm uma estranha aura de charme decadente, como se um homem que não soubesse fazer mais nada sem ser cantar se arrastasse ao longo da escuridão em busca de uma luz que tarda em aparecer. A primeira dessas obras intitula-se The Moviegoer e data de 1972. Como o próprio nome indica, é construída a partir de interpretações de temas de filmes e de compositores variados como Nino Rota, Henry Mancini ou Lalo Schifrin. Não deixa de ser particularmente bizarro ouvir Walker cantar Speak Softly Love de Rota (o universalmente conhecido tema de The Godfather)...
This Way Mary (de John Barry e Don Black), The Ballad of Sacco and Vanzetti (de Joan Baez e Ennio Morricone) e Glory Road (de Neil Diamond) resultam bem na entrega crooner do cantor e os restantes temas enquadram-se na perfeição num singles bar mal iluminado e fumarento, povoado apenas por almas solitárias a altas horas da noite, que procuram aconchego na voz de outra alma solitária. Ou no tempo de espera para a última sessão numa sala de cinema vazia...
Em 1975, os Walker Brothers reunir-se-iam e desse regresso brotariam três discos. Scott voltou a ter um fugaz protagonismo. Mas era tarde demais para ser aquilo que nunca quis ser: uma estrela pop. Voltou a solo em 1984, reinventando-se magistralmente e, desde então, presenteou-nos apenas com mais duas aparições. Tremendas e perturbantes, como o génio reclusivo que as molda e que, apesar de já não provocar histeria nas adolescentes, provoca calafrios e penetra fundo nas almas de gente crescida. Os quatro discos acima descritos são apenas obrigatórios para os obsessivos. É um trabalho sujo falar sobre eles, mas alguém tem de o fazer. A restante obra de Scott Walker é obrigatória para quem precisa de música bela e única como de ar para respirar.
O comportamento esquizóide e o desinvestimento nas actividades artísticas mundanas arrastaram Walker como uma enxurrada a partir de 1970. A vida errante tomou o lugar do estrelato e instalou-se um período (conforme as palavras do próprio no magnífico documentário 30th Century Man) assente em a whole lotta drinkin'...
A travessia no deserto encetada por Scott Walker a solo entre 1970 e o renascimento criativo de Climate of Hunter (1984) deu azo a quatro discos tão repulsivos como fascinantes. Quatro discos que não possuem uma única composição do cantor, mas que detêm uma estranha aura de charme decadente, como se um homem que não soubesse fazer mais nada sem ser cantar se arrastasse ao longo da escuridão em busca de uma luz que tarda em aparecer. A primeira dessas obras intitula-se The Moviegoer e data de 1972. Como o próprio nome indica, é construída a partir de interpretações de temas de filmes e de compositores variados como Nino Rota, Henry Mancini ou Lalo Schifrin. Não deixa de ser particularmente bizarro ouvir Walker cantar Speak Softly Love de Rota (o universalmente conhecido tema de The Godfather)...
This Way Mary (de John Barry e Don Black), The Ballad of Sacco and Vanzetti (de Joan Baez e Ennio Morricone) e Glory Road (de Neil Diamond) resultam bem na entrega crooner do cantor e os restantes temas enquadram-se na perfeição num singles bar mal iluminado e fumarento, povoado apenas por almas solitárias a altas horas da noite, que procuram aconchego na voz de outra alma solitária. Ou no tempo de espera para a última sessão numa sala de cinema vazia...
Da noite vazia e do anonimato cinéfilo aos bares de hotel ou de cruzeiros, nunca a decadência de Scott Walker foi tão acentuada como em Any Day Now (1973). Las Vegas e o lado mais doentio dos seus casinos e casas de espectáculos transborda em catadupa deste disco. Os ambientes continuam nocturnos como sempre, mas desta vez demasiado sacarinos e feitos para agradar a adeptos de música papel de parede que jogam blackjack e casais envelhecidos americanos unidos em Vegas por Elvis pela terceira vez. Há um charme depressivo neste disco, que lembra Burt Bacharach no seu melhor e Paul Anka no seu pior. A voz continua única, como sempre, mas poucas canções o livram da mediania: Ain't no Sunshine, When You Get Right Down to It, If Ships Were Made to Sail... O verdadeiro momento twilight zone é a versão de Maria Bethânia de Caetano Veloso. Scott Walker de camisa às flores e chapéu de palha? Não, Scott Walker a cumprir contrato...
O calvário das obras negligenciadas prolonga-se nos álbuns de 1973 e 1974, Stretch e We Had It All. O ideal é considerar estas obras em regime dois em um, tal como a edição definitiva em CD levada a cabo pela BGO em 1997. Desta feita, Walker atira-se largamente à música country e destila duas dezenas de temas mais ou menos obscuros desta cartilha. Mas não se espere daqui um rastilho do que viria a ser o alternative country ou uma cavalgada em pradarias outlaw country. Incompreensivelmente, e com tanto bom material por onde escolher, o cantor parece ser mais fiel ao espírito meloso e conservador de Nashville. As interpretações são polidas e orquestradas e alguns dos músicos alvos da leitura de Walker são creditados songwriters americanos (Mickey Newbury, Billy Joe Shaver, Randy Newman). Sunshine, Just One Smile, That's How I Got to Memphis, a cadência R & B de Use Me e a típica balada country Old Five Dimers Like Me são agradáveis, mas nunca memoráveis. Faltam nervo, risco e génio ao homem que compôs canções imortais como Plastic Palace People, It's Raining Today ou Duchess.
Em 1975, os Walker Brothers reunir-se-iam e desse regresso brotariam três discos. Scott voltou a ter um fugaz protagonismo. Mas era tarde demais para ser aquilo que nunca quis ser: uma estrela pop. Voltou a solo em 1984, reinventando-se magistralmente e, desde então, presenteou-nos apenas com mais duas aparições. Tremendas e perturbantes, como o génio reclusivo que as molda e que, apesar de já não provocar histeria nas adolescentes, provoca calafrios e penetra fundo nas almas de gente crescida. Os quatro discos acima descritos são apenas obrigatórios para os obsessivos. É um trabalho sujo falar sobre eles, mas alguém tem de o fazer. A restante obra de Scott Walker é obrigatória para quem precisa de música bela e única como de ar para respirar.
19 de abril de 2011
Kosmische Kosmetik XXII
Manuel Göttsching é um dos mais lendários guitarristas alemães. O seu estilo, um misto de ambiências etéreas e blues espaciais, enfeita com opulência os discos dos Cosmic Jokers, Walter Wegmüller e da sua banda de sempre, os Ash Ra Tempel. Assim sendo, é curioso que um dos mais influentes discos de electrónica de todos os tempos seja assinado por ele. Um homem das seis cordas que, inadvertidamente ou não, provoca um efeito borboleta com a sua obra a solo E2-E4: inventa o alfabeto através do qual se escreve muita da música de dança de hoje.
E2-E4 continua a ser um disco imbuído do espírito da kosmische musik. É um indutor de transe como o melhor dos Tangerine Dream e está lá a guitarra livre de amarras que se estilhaça nos Ash Ra Tempel. A diferença é que, desta vez, o ritmo impõe-se e é levado ao topo, enfatizando ainda mais as oferendas hipnóticas. Composto por um tema que raia os 60 minutos de duração e que se desdobra em 10 segmentos, o álbum é para ser ouvido como um contínuo. Após uma crescente introdução, o ritmo cibernético mas quente instala-se em definitivo. O convite ao movimento é óbvio, a vontade de resistir-lhe diminuta. Quiet Nervousness e Moderate Start são gâmetas que se fundem para formar o embrião da futura house music.
Em Promise emerge a guitarra de Göttsching, num balançar escorregadio e penetrante, quase afro-latino. A mescla entre o ritmo mecanizado, a electrónica repetitiva e a guitarra equatorial prolongam-se até ao fim do disco. E é curioso como uma atmosfera que nunca deixa de ser abstracta e minimal consegue causar tanto prazer auditivo. E2-E4 é paragem obrigatória para os amantes de electrónica. É um registo de extrema inovação (corria o ano de 1984 quando foi editado) e, acima de tudo, um álbum de culto. Que o diga James Murphy - mastermind dos LCD Soundsystem, alvo da indignação do próprio Göttsching por gostar tanto do disco e querer cloná-lo quase por inteiro...
O título desta obra essencial inspira-se na jogada de abertura mais clássica do xadrez. Tendo em conta os xeque-mates que conseguiu ao longo dos anos, tudo indica que Manuel Göttsching sabia bem o que estava a congeminar...
18 de abril de 2011
Five Aces
Não há confraria folk que se preze sem a comparência dos Fairport Convention. Com mais de 40 anos de história e mais de 25 membros nas suas fileiras, a mítica banda britânica, pioneira no tratamento eléctrico da música tradicional, não dá mostras de desistir. Mas os Fairport Convention de hoje são um agradável anacronismo. Um jarrão que fica bem continuar exposto mas cuja criatividade e importância empalideceu há décadas.
A eternidade e sacralização dos Fairport Convention erguem-se em apenas três anos. De 1968 a 1970, cinco discos magníficos chegam e sobram para sustentar e justificar a influência do grupo. É a música da América que começa por agitá-los, em emanações intermitentes de Bob Dylan e Joni Mitchell. Mas, para lá das reverências aos mestres, o primeiro álbum da banda revela sensibilidades mais psicadélicas que folk e é a obra mais fragmentada da sua quase interminável discografia.
Fairport Convention oscila entre o Sol e a Lua, entre o imediatismo de Time Will Show The Wiser ou If (Stomp) e temas mais contemplativos, como One Sure Thing, I Don't Know Where I Stand e o sublime Decameron. O igualmente excelente The Lobster mergulha-nos num escuro aquário psicadélico, enquanto Sun Shade flui como as ondas da west coast californiana. A primeira exposição dos Fairport Convention tem tanto de ingénuo como de experimental. A banda é ainda refém das suas influências, mas as composições em nome próprio vincam já algum do seu carácter. Richard Thompson sai lentamente da crisálida como um dos melhores guitarristas e compositores britânicos das últimas décadas. Este é, igualmente, o único disco do grupo que conta com Judy Dyble como vocalista. O seu registo aproxima-se de Joni Mitchell e Grace Slick, o que, apesar de agradável, não nos prepara para o assombro que estava para vir: uma doce tempestade chamada Sandy Denny.
Indubitavelmente uma das melhores vozes que a Inglaterra deu ao mundo, a jovem de formas robustas e look campestre injectou energia renovada nos Fairport Convention. What We Did On Our Holidays, segundo álbum da banda, é uma obra mais directa e sólida, em que a timidez e introspecção que povoavam grande parte do seu antecessor dão lugar a um som mais expansivo. A sombra da folk encobre cada vez mais o colectivo e o tema que abre este segundo capítulo da sua vida discográfica é a melhor porta de entrada possível. Fotheringay é o seu nome e a conjunção da voz de Sandy com a guitarra acústica parece ter sido criada para sustentar a expressão pele de galinha. Sublime, etérea e mística, Fotheringay seria suficiente para garantir o Olimpo aos Fairport Convention. Depois de recompostos da triste história de Mary, Queen of Scots, há outras delícias para descobrir. Duas versões bem conseguidas de Joni Mitchell e Bob Dylan (esta última - I'll Keep It With Mine - especialmente saborosa). Blues insular em Mr. Lacey, rock com f de folk no clássico Meet On The Ledge e duas abordagens inovadoras e igualmente electrificadas de canções tradicionais inglesas (Nottamun Town e She Moves Through The Fair). A capa do disco possui igualmente a sua história: foi desenhada a giz pelos membros da banda no quadro de uma escola, antes de um concerto.
Poucos meses depois, Unhalfbricking avança progressivamente pelos territórios da folk, quer britânica, quer americana, deixando o rock de lado em tudo excepto no suporte instrumental. Infalível do princípio ao fim, o terceiro álbum dos Fairport Convention guarda muitos dos seus melhores temas. É o disco de A Sailor's Life, revisitação épica e oceânica da canção tradicional com o mesmo nome e um dos marcos primordiais no surgimento da folk eléctrica. As revisitações e subversões do reportório dylanesco continuam, desta feita com realce para a espantosa versão de Percy's Song e a transformação de If You Gotta Go, Go Now numa espécie de canção folclórica da Bretanha francesa chamada Si Tu Dois Partir. Os dois membros mais proeminentes da banda oferecem prestações superlativas e contribuem com criações próprias da mais fina safra: Sandy Denny com os excelsos Autopsy e Who Knows Where The Time Goes?; Richard Thompson com Cajun Woman e o belíssimo (e favorito pessoal...) Genesis Hall. Se a música de Unhalfbricking é lendária, a capa que lhe dá rosto também quase algo de mítico. Os senhores da foto são os pais de Sandy Denny. A banda aparece por entre os buracos da vedação e é possível discernir com facilidade as cabeças de todos os elementos. Muita gente diz que foi propositado, os próprios dizem que foi pura coincidência. Eu também prefiro acreditar na segunda...

Ainda em 1969, um novo álbum vê a luz do dia. Os Fairport Convention viviam um período de euforia criativa e ao quarto disco alcançam o seu momento definitivo. Liege & Lief é o melhor álbum de sempre a ser rotulado folk rock. O efeito é o de um bando de jograis medievais metidos numa máquina do tempo e a quem deram instrumentos eléctricos e uma bateria para tocar umas cantigas lá do feudo. Somente três dos oito temas originais foram compostos internamente. Os restantes são adaptações ao universo rock do legado musical britânico. É isto que faz de Liege & Lief um disco único, um objecto estranhamente familiar e belo, mas igualmente atavístico e pesado como as areias do tempo. Torna-se quase impossível distinguir os temas novos dos antigos, pois todos estão embebidos no mistério da música alimentada por lendas e mitos. Matty Groves e Tam Lin são épicos e intensos, narrativas que brotam das fogueiras das muitas noites em que foram contadas e que continuam a atravessar gerações. Reynardine e The Deserter são lamentos forjados na pedra dos castelos e no verde da Inglaterra rural. Os temas compostos pela banda são igualmente afectados por este regresso ao campo, aos segredos dos bosques e ao animismo da Natureza. Come All Ye é um convite à dança sob o luar, por oposição ao recolhimento solitário de Farewell, Farewell e à melancolia outonal de Crazy Man Michael. Uma obra-prima da música inglesa, Liege & Lief mudou para sempre a forma como a música tradicional foi vista, deixando de ser uma curiosidade cultural para se tornar um elemento passível de fusão e aberto à modernidade.
É difícil para qualquer banda recuperar da perda de alguém como Sandy Denny. Os Fairport Convention não foram excepção. Esta perda (primeiro musical, depois definitiva, pois Sandy viria a falecer em 1977) é notória no quinto álbum do colectivo, Full House. Editado em 1970, é o disco feito pelos homens deixados sozinhos sem a mulher para orientar a casa. Isso resulta num trabalho mais musculado, o mais orientado para o rock até então na sua carreira, mas sem perder nada do espírito folk do seu antecessor.
Full House é estranhamente viciante. É um registo tendencialmente mais sombrio, sem a luminosidade projectada por Sandy Denny e em que as vozes são agora repartidas pelos vários membros da banda. Não faltam momentos de comunhão perfeita entre os músicos, especialmente em Doctor of Physick e Sir Patrick Spens, ambas com um violino irresistível - culpa de Dave Swabrick. Magnífico é também o entrosamento nos momentos mais sombrios e introspectivos, como Poor Will & The Jolly Hangman, Now Be Thankful e o majestosamente inebriante Sloth (muito graças à guitarra em êxtase contido de Richard Thompson). Para espíritos festivos, recomenda-se Walk Awhile e duas danças tradicionais transformadas em folk rock: Dirty Linen e a frugalmente intitulada Sir B. McKenzie's Daughter's Lament For The 77th Mounted Lancer's Retreat From The Straits Of Loch Knombe, In The Year Of Our Lord 1727, On The Occasion Of The Announcement Of Her Marriage To The Laird Of Kinleakie...
Após Full House, o percurso dos Fairport Convention tornou-se erraticamente estável. A sua história discográfica até aos dias de hoje é feita de trabalhos mais ou menos interessantes mas incomparavelmente menores que estes cinco ases saídos do mesmo baralho. De todos os elementos da banda, será Richard Thompson (que saiu logo após o término de Full House) aquele que ainda produz música relevante. E apenas Simon Nicol resta deste período imaculado...
P.S.: Este post é dedicado a um amigo que perdi hoje. Chamava-se Jimmy e era um cocker spaniel muito especial. Vivemos excelentes momentos de companheirismo. E ouvimos muitas vezes juntos os Fairport Convention...
3 de abril de 2011
Garage Days III
"Their name is Love but they are Hate." Esta expressão foi usada para definir os Love, uma das bandas mais geniais de sempre, que fundiu elementos de garagem, psicadelismo e barroquismo pop como mais ninguém. Os Belle & Sebastian não existiriam sem eles, assim como o reverenciado primeiro disco dos Stone Roses e Michael Head teria sido mais um post-punker inconsequente em vez de criar os belíssimos Pale Fountains / Shack. O colectivo que nos levou a um passeio pela perfeição no intocável Forever Changes brotou de poderosas ervas daninhas e começou por florescer num álbum homónimo do tipo bikini: curto, atraente e que focou os pontos essenciais.
Love, editado em 1966, é um disco que cruza o imediatismo e a urgência do Garage Rock com a sensibilidade da melodia e a arquitectura da canção concisa e perfeita. O malogrado Arthur Lee, eterno símbolo desta entidade, projecta já a sua mente torturada em temas agridoces, de sol enganador e sombras ominosas. O ódio dos Love sente-se nas palavras que repercutem o Vietname, as drogas pesadas ou a inutilidade do emergente sonho hippie. A música crava as unhas em elementos que vão da folk ao que agora é politicamente correcto chamar proto-punk (e que mais não era que raiva latente).
My Little Red Book transforma a temática pinga-amor do original de Burt Bacharach em sátira política, graças à compatibilidade com o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung e à carga eléctrica que lhe é inflingida. Signed D.C. é uma sombria incursão pela câmara escura da heroína, homenagem ao falecido ex-baterista Don Conka. O quarto é escuro e frio, mas há um prazer algo voyeurista em ficar à porta a contemplá-lo, pois a canção é memorável. E a memória mais propensa a néctares musicais nunca poderá descurar peças intrépidas como A Message to Pretty, Softly to Me ou You'll Be Following. Can't Explain e o ataque de nervos à clássica murder ballad Hey Joe apresentam-se menos polidas e mais garagistas na entrega.
Tudo é sangue na guelra neste disco, o prenúncio de mágicas, mas tortuosas, glórias futuras. Arthur Lee e o seu clã olham-nos de frente na capa de Love, rodeados de pedra e vegetação em seu redor. O local era a antiga casa de Bela Lugosi, onde o grupo viveu em comunhão os seus primeiros anos. Os olhares parecem dizer que, tal como a melhor encarnação de Drácula, esperam pacientemente para nos sugar o sangue. E nós, sofregamente, oferecemos o pescoço...2 de abril de 2011
Long Live BBC 4
No programa 60 Minutos da SIC Notícias, Mário Crespo costuma enfatizar a excelência de conteúdos da estação. Pegando nesse termo, louva-se hoje aqui a excelência de conteúdos do canal 4 da BBC. Especialmente no que diz respeito a documentários dedicados às artes e às ciências. Musicalmente, a estação britânica mantém o rigor, a qualidade e a variedade nas temáticas que transmite. Nunca poderia escapar ao Escrito no Som o excelente e completíssimo programa dedicado ao popularmente designado Krautrock. Trata-se de uma magnífica história visual desta corrente musical e da própria cultura alemã entre 1968 e 1977, onde proliferam sequências lendárias e não faltam testemunhos de personagens de culto. Um belo resumo para os iniciados, mais um motivo de júbilo para os convertidos. Aqui vai a série completa, para ver com olhos de ver...
27 de março de 2011
Um Americano em Londres
Em White Bicycles - Making Music in the 1960's é narrada, de forma autobiográfica, essa aventura. Boyd, catalisador e produtor de nomes honoráveis como Pink Floyd, Nick Drake, Incredible String Band ou Fairport Convention, demonstra ter sido uma espécie de John Peel da época: um homem que nunca criou música, mas que nunca disso precisou para se afirmar como um dos porta-estandartes da revolução sónica dos sixties. O seu toque de classe fez-se sentir em várias correntes, notando-se sobretudo no rock psicadélico que despontava na altura e nas novas tendências da folk. Uma consistente súmula da sua dedicação à música (e ao cinema, a outra das suas paixões) está disponível em http://www.joeboyd.co.uk/.
White Bicycles colhe, assim, o fruto dessas memórias. É uma obra fascinante, que recupera factos nunca antes revelados e que propicia um acutilante, renovado e - não raras vezes - bem-humorado insight de anos irrepetíveis. Um livro obrigatório para melómanos sem constrangimentos de tempo, escrito pela pena de alguém que soube manter-se lúcido no centro da loucura para poder contar a história.
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