4 de junho de 2011

Dieta Mediterrânica IX

Defraude-se quem vem aqui à procura dos góticos de Northampton. Cinco anos antes deles voltarem do mundo dos mortos, alguém se apropriou musicalmente do nome da escola de Gropius. Eram italianos, surgiram de rompante e assim se sumiram. A única prova da sua existência é Stairway to Escher, álbum gravado de uma assentada, ao vivo em estúdio, coisa inebriante e intensa. A arquitectura do jazz rock impregna o disco, uma música quente e suada, comunicativa e contagiante. Muito na senda dos Return to Forever ou dos Weather Report.
Stairway to Escher apresenta-se mais como uma raridade que como uma referência musical. Mas, como troféu de caça que é, a qualidade dos seus elementos, quer humanos quer artísticos, nao pode ser olvidada. Formado por alguns elementos dissidentes dos Buon Vecchio Charlie (já falados aqui), os Bauhaus distanciam-se do centro de gravidade do rock progressivo e passam à translacção em volta do jazz. As guitarras eléctricas ainda subsistem e a energia pulsa insistentemente. Mas o ouvido expande-se perante os empurrões do improviso, que fazem do disco uma espécie de saudável anarquia e uma espontânea demonstração de exuberância musical.
Tudo flui com método e improviso em Stairway to Escher. Não existem pontos fortes ou fracos. É um disco que abre buracos que ao mesmo tempo vão sendo tapados. The Lonious Gropious e Modulor são essencialmente geniais, jazz rock com botox a realçar as suas partes mais carnudas. Ri-Fusion e Tipi di Topi saltam fora do seu eixo e só são apanhados a tempo de evitar a projecção definitiva fora de órbita. O tema-título é escolástico na forma como aborda a fusão entre jazz e rock.
Belíssima fornalha musical, o único legado dos Bauhaus italianos é obrigatório para viciados em experiências híbridas dos anos 70 e para amantes da música em desalinho.

Dieta Mediterrânica VIII

Virtuosidade e paixão, eis a melhor forma de definir os Arti e Mestieri. Esta lendária banda italiana, cambaleante entre o jazz de fusão e o rock progressivo, ainda está no activo, produzindo música com algum interesse. No entanto, é no seu despontar e consolidação que reside o génio. Após a agradável e influente surpresa que foi Tilt - Immagini per un Orecchio, primeiro álbum que vale o seu peso em ouro, Giro di Valzer per Domani depura definitivamente os Arti e Mestieri como mestres europeus da fusão nos anos 70.
Enquanto Tilt... assentava em temas longos de estrutura complexa que se desenrolavam em regime de improviso, o segundo registo do grupo oferece composições mais curtas e directas, se bem que igualmente vertiginosas na entrega e no entrechoque de instrumentos. Apesar da complexidade inerente, Giro di Valzer per Domani é um disco extremamente audível e sedutor. Adiciona aos elementos jazzísticos e à precisão cerebral um irresistível perfume latino. Melodicamente imaculada, a música é luminosa e viva. Bebe tanto nas águas límpidas de Canterbury como no misticismo caloroso da Mahavishnu Orchestra. Poderia bem ser uma conversa musical entre Miles Davis e Herbie Hancock em Sirmione, circa 1975...
Alguns temas são vocalizados, o que aproxima os Arti e Mestieri de muita da produção prog italiana da altura (caso típico é o excelente Saper Sentire). Mas são as peças instrumentais, no seu dócil frenesim, que mais se agarram à pele e aí se incrustam, resistindo ao tempo. Valzer per Domani, Mirafiori ou Dimensione Terra são alguns dos melhores exemplos a dar. Energia contagiante, melodias soberbas e instrumentação irrepreensível (especialmente o violino em estado de graça). Em suma, uma obra-prima de fusão progressiva. Merece uma palavra especial de apreço Furio Chirico, um dos melhores bateristas de sempre, a catapulta do disco, que trata as peles com desvairada galhardia. A prova dos nove está em Sagra, Mescal, Da Nord a Sud...
Giro di Valzer per Domani é mais uma referência da Itália musical dos anos 70. A representação ideal do tratamento transalpino dado à música fusional. A arte está na sedução, o mistério no imprevisível.

3 de junho de 2011

Gene Dominante

Os Byrds foram pródigos na disseminação de grandes músicos norte-americanos. Roger McGuinn, David Crosby e Gram Parsons fizeram parte do seu concentrado sonoro, um dos mais ilustres da história. Mas é o seu génio mais obscuro e a sua melhor obra que falam mais alto hoje. Gene Clark - o verdadeiro cosmic cowboy - e o honorável No Other.
Imediatamente antecedido por dois excelentes álbuns (Roadmaster e o magnífico White Light) em que country rock e folk se misturavam com ingredientes mais elaborados e arranjos de subtil bom gosto, este registo de 1974 é o lado perfeito do triângulo. Ainda um disco que encontra no country rock e na folk a sua força motriz, No Other acaba por transcender os géneros e de ser, a espaços, inclassificável. Uma obra maior em todos os sentidos, em que arranjos quase barrocos dão as mãos a canções imensamente tristes e belas. Strenght of Strings conjuga harmonias vocais a la Byrds com uma orquestração de reminiscências orientais. Como em quase todo o disco, a voz de Clark quase dói ao ouvir. E o resultado é de uma melancolia tão transcendental que não admira que o tema fosse recuperado em Filigree & Shadow pelos 4AD all-stars This Mortal Coil. Céus negros abraçam o voo de Silver Raven, espectral e expansiva balada que cruza Neil Young e a atmosfera gótica e poética de Poe ou Hawthorne.
Tal como a beleza, a inspiração parece nunca esgotar-se ao longo de No Other. A quantidade de estranhos efeitos, de diferentes instrumentos e de overdubs propaga-se ao longo do disco. Se essa inspiração é ditada por substância ilícitas nunca saberemos, mas o que é certo é que influências country e folk raramente soaram tão etéreas e narcóticas como em Some Misunderstanding ou From a Silver Phial. E o arrasador tema-título tem cicatrizes de psicadelismo ao longo da sua pele. Os momentos mais límpidos e convencionais surgem nos temas que evocam o passado musical de Clark: Life's Greatest Fool e The True One. Ambos seriam a banda-sonora perfeita para ressoar entre as paredes de um honky-tonk sofisticado. A terminar, Lady of the North é outra estupenda balada barroca, romantismo de pradaria em estado puro. O álbum desvanece-se com o cowboy cósmico a desaparecer rumo ao pôr-do-sol...
É mais que recomendável a edição remasterizada de No Other que saiu em 2003. A soberba produção do disco ganha imenso com as novas roupagens. Gene Clark, infelizmente já falecido, pode ter uma certeza esteja onde estiver: There will be No Other like him.

2 de junho de 2011

Kosmische Kosmetik XXIII

A obra a solo de Edgar Froese sempre viveu à sombra do seu trabalho das 9 às 5, os Tangerine Dream. Mas o pai dos mestres da electrónica assinou, em nome próprio e nos anos 70, registos que rivalizam e até superam as conquistas do colectivo. As diferenças principais entre eles residem na implosão meditativa de Froese, que contrasta com as explosões espaciais dos Tangerine Dream. Epsilon in Malaysian Pale, disco de 1975, é uma magnífica porta de entrada para o imaginário do músico alemão, um mundo paralelo de planante mas exuberante beleza. Imagine-se uma floresta, virgem como todas as florestas perfeitas, um admirável mundo novo que se explora pela primeira vez. E que fascina. Assim é o tema-título do álbum, primeira de duas excursões tranquilas, hipnóticas e meditativas, a um verde exótico mais sonhado que real. A música é uma folhagem densa, bem exemplificada na capa do disco, mas que cede ao toque e se afasta para permitir a passagem da espiral de sintetizadores, flauta e mellotron. Os sons fluem com naturalidade, ora nostálgicos, ora melancólicos, revelando que o seu mais belo segredo é a simplicidade. Colam-se aos sons exteriores e conjuram um habitat quase edénico.
Maroubra Bay assoma-se com esgares de tempestade. Anuncia-se como um eclipse e avança como uma noite estranha mas não temível. A escuridão instalou-se e sente-se perto a imensidão do mar como um espelho negro. Ao desvanecer do prólogo, fica o embalo nas ondas sintetizadas, nos ritmos de laboratório e na elipse da melodia. A hipnose é novamente induzida e o núcleo dos Tangerine Dream arde sob este manto abstracto.
Maroubra Bay fica na Austrália. Epsilon in Malaysian Pale evoca, como o próprio nome indica, a Malásia. Ambos existem realmente, mas a percepção de Edgar Froese transforma-os em locais irreais, deturpados pela ebulição da sua mente criativa. E se a arte é a representação simbólica do mundo, este disco é uma obra de arte.

28 de maio de 2011

Eterno Retorno

É fatal como o destino. De tempos a tempos, em dias insuspeitos e horas inesperadas, estes discos voltam qual atavismo para nos possuir de novo. A trilogia berlinense de David Bowie. Ou seria melhor dizer a troika berlinense de David Bowie? Ou, pensando bem, o triunvirato berlinense de David Bowie? Todos estão errados. Somente Low e "Heroes" foram gravados nos míticos Hansa Studios da cidade alemã. Lodger foi gerado entre a Suíça e Nova York. E toda a gente séria sabe o que se passa nestas míticas criações, as suas causas e consequências. Caso não o saiba deveria estar já a ouvir os discos em ver de procurar o desfecho desta bajulação gratuita. Para ser estilhaçado pelas influências difusas dos Talking Heads, da música africana, turca e do disco-punk de Lodger. Para ser arrebatado na confluência entre os Neu!, os Kraftwerk e a visceralidade de Iggy Pop presentes em "Heroes". Para ser libertado em territórios nunca antes desbravados por um artista pop, que uniu Roxy Music a Steve Reich e Philip Glass em Low. Tudo isto em parceria quase siamesa com Brian Eno e com o pontual toque de Midas do Jimi Hendrix cerebral: Robert Fripp. David Bowie provou definitivamente nestes discos a sua capacidade genial de transmutação.
A verdade mais provável é que, quem leu até aqui com prazer, conhece estas obras na perfeição e apenas se juntou a mim na bajulação. É fatal como o destino. De tempos a tempos, em dias inesperados e horas insuspeitas, estes discos voltam qual atavismo para nos possuir de novo...


Claramente Obscuro


O rasto de mistério deixado por um disco há muito considerado perdido, esquecido ou obsoleto alimenta qualquer melómano com instintos de toupeira. Trazer de volta ao mundo dos vivos estas obras suspensas no limbo musical, bizarrias únicas e raras, e descobrir os tesouros que escondem é uma tarefa louvável e infatigável.
A arqueologia dos sons agradece aos superlativos Midlake a recuperação de muitos nomes ocultos na poeira do tempo. Nomes da folk mais obscura, da country fiel às suas raízes e do psicadelismo rural. Um homem que incorpora solidamente estas características é Bob Carpenter. Redescoberto através da exposição feita pela banda americana na excelente selecção reunida para a série Late Night Tales (mais uma, alíás, na constante consistência dos seus convidados), Carpenter é membro honorário do clube dos baladeiros que só lançaram um álbum, ignorado na altura, mas objecto de culto para quem não era nascido nessa época. Foi em 1975 que este músico canadiano editou o seu opus solitarium: Silent Passage.
Disco de grandeza humilde, Silent Passage conta com a presença da ainda emergente Emmylou Harris nas vozes. E apenas viu a luz do dia em 1984, após anos de litígio editorial que votaram Carpenter ao ostracismo. O rato de discoteca que tiver a sorte de passar por ele fortuitamente, reparará quiçá no lirismo algo fantasmagórico em tons de sépia que a capa ostenta, mas é provável que não lhe dê guarida. Afinal de contas, quem é este Bob Carpenter? Terá alguma coisa a ver com os delicodoces Carpenters? Felizmente não. O senhor é um singer-songwriter de voz rústica mas expressiva, dorida mas límpida e que compõe canções de sumptuosa sinceridade. A country music é o caule de onde os ramos se espraiam. Miracle Man e Morning Train são exemplos flagrantes, temas que carregam o peso da tradição ao mesmo tempo que roem o seu cordão umbilical. First Light e Beyond My Time poderiam formar um patchwork com as peças de psicadelismo pastoral de Jimmie Spheeris e Tom Rapp. Assombradas e acinzentadas, Gypsy Boy e Down Along The Border fazem crer que o tristemente malogrado Vic Chesnutt foi algo inspirado por este disco.
Ficam para o fim duas magníficas criações: Old Friends, um misto de country e soul muito antes dos Lambchop patentearem o invento, uma canção quente no ritmo, mas fria no trompete que a rasga solitariamente. Silent Passage, o tema-título, é incontornável. O álbum vale a pena só por ela. O génio de Bob Carpenter reside aqui, nas palavras em estado bruto, soldadas à melodia bela mas agreste. Esta curta balada merecia ombrear com as melhores canções de Bob Dylan ou Townes Van Zandt...


Do rigor da tundra canadiana para o sol da Califórnia. Ted Lucas ultimava igualmente em 1975 o seu igualmente único registo. O mesmo não tem nenhum título oficial para além do nome do músico, mas há quem lhe chame The Om Album. Apesar de não ser literalmente uma experiência mística musical em torno do som primordial budista, transcendência é coisa que não falta a esta obra, sendo que as mais recentes tendências da folk sem pára-quedas a resgataram para o panteão dos Achados. 
As influências de Lucas vão dos blues mais primitivos (Robin's Ride) às meditativas ragas indianas (estudou com Ravi Shankar e aprendeu bem a lição, como se constata em Love and Peace Raga). Mas o que este disco deixa para a posteridade é um conjunto de canções acústicas em que o psicadelismo se ouve sob a forma de folk e se sente como uma droga que só faz efeito através da escuta. É cinismo ou ingenuidade intitular uma canção It is so Nice to get Stoned? Pela forma como Ted Lucas a canta (e ela é belíssima) parece ser franqueza...
O álcool tem direito a menção honrosa logo a seguir em Sonny Boy Blues, devaneio que não saberia a azedo na pint de John Martyn. Mas são os cinco primeiros temas que dá gosto nomear, pela simplicidade magistral e quase minimal que os estrutura. Melodias circulares e economia de meios fazem de Plain and Sane and Simple Melody e Baby Where You Are perfeitas carícias no espírito. Now that I Know e I'll Find a Way to Carry it All deixam intuir a que soariam discos como Five Leaves Left de Nick Drake ou Whatevershebringswesing de Kevin Ayers caso tivessem sido concebidos e paridos na costa do Pacífico.
It's so Easy when You Know what You're Doing, canta Ted Lucas na canção que também se chama assim. Que grande verdade. O músico sabe bem o que está a fazer e por isso tudo flui tão facilmente e seduz-nos com idêntica mestria. Tal como o Om budista, estas pequenas mas adoráveis canções poderiam tocar infinitamente, que não deixariam de nos iluminar...

8 de maio de 2011

Vida Entre as Ruínas

Em 1972, antes de saírem fora de órbita com The Dark Side of The Moon e ficarem por lá, os Pink Floyd eram uma das forças criativas mais excepcionais e inovadoras deste planeta (e talvez de mais uns quantos...). Editado durante o período do superlativo álbum Meddle, Live at Pompeii é um concerto-documentário refinadíssimo e seminal.
Visualmente expansivo e impressionante, o filme entrelaça o intimismo da banda em estúdio com prestações memoráveis nas ruínas da lendária cidade devastada. Os ingleses devaneiam na beatitude mediterrânica, comem ostras, descrevem a sua música e apresentam-nos um quinto elemento da banda surpreendente e que parece não ficar indiferente ao som da harmónica. As gravações ao vivo são sublimes e panorâmicas, tornando enormes clássicos cósmicos como Set The Controls For The Heart of The Sun e A Saucerful of Secrets. O manto flutuante de Careful With That Axe, Eugene recebe igualmente tratamento majestoso.
Esta seria a última vez que veríamos os Pink Floyd tão perto. Live at Pompeii é um documento histórico por essa razão. O grupo que já era gigante passou a ser gargantuano. Até ao ponto em que se viam mais luzes e equipamento que quatro homens a tocar. Foi aí que Johnny Rotten, dos futuros Sex Pistols, saiu à rua com uma t-shirt onde se lia I Hate Pink Floyd. Veja-se este filme, ainda mais apelativo na versão Director's Cut, para relembrar uma época em que ser revolucionário era dizer I Love Pink Floyd.

7 de maio de 2011

Garage Days IV

The Psychedelic Sounds of the 13th Floor Elevators é um dos álbuns mais influentes da história do rock. Colocado na bebida dos E.U.A. no longínquo ano de 1966, foi uma das primeiras obras (e obras-primas) a acidificar a música da nação. Roky Erickson, o líder do bando, é ainda hoje visto por muitos como o pai do rock psicadélico. Para além do inequívoco génio musical, Erickson possui uma história de vida no mínimo exótica, o que resultou numa aura mítica e na sua transformação em personagem de culto. Diagnosticado com esquizofrenia paranóide nos finais dos anos 60, o abuso de substâncias que alteram a consciência não ajudou, e o músico passou temporadas entre a prisão e o hospital psiquiátrico. Actualmente vive dias mais pacatos (domesticados?), havendo um período em que chegou a afirmar que o seu corpo era habitado por um marciano, o que motivava a sua perseguição pelos humanos...
Mas concentremo-nos em The Psychedelic Sounds (...). O que transparece logo à primeira audição é um disco feito por uma banda de garagem. O som é crú, directo, composto por melodias fortes mas sem rodriguinhos. É a entrega desses elementos que faz toda a diferença e que coloca a música num patamar lisérgico. Erickson é intoxicante durante todo o registo e a sua voz parece partir-se em estilhaços, tal como o seu estado mental. A guitarra de Steve Sutherland é a base do disco, serpenteando por cavernas de blues sombrios e redondilhos de rock hipnótico. O som mais distinto do disco terá de ser o amplified jug de Tommy Hall: um jarro feito de cerâmica, que o músico coloca perto da boca sem nunca tocar com os lábios. Os movimentos bucais e a voz fazem o resto. O efeito é mais ou menos como se a nossa cabeça fosse feita de vidro e tivesse um enxame de abelhas lá preso. E a sensação de estranheza e loucura instala-se.
Este clássico dos 13th Floor Elevators é um delicatessen psicadélico do princípio ao fim. Já foi reeditado em várias ocasiões, mas os 11 temas da edição original chegam e sobram para o culto. O poder e o génio de You Don't Know (How Young You Are), Reverberation, Rollercoaster, I've Seen Your Face Before (Splash 1) e You're Gonna Miss Me permanece intacto e flamejante após décadas. Sem estes texanos nunca teriam existido instituições como Screamadelica dos Primal Scream, The Jesus & Mary Chain ou os verdadeiros herdeiros da banda, os fabulosos e inesquecíveis Spacemen 3. Entretanto, o disco acabou. Acho que vou ouvi-lo outra vez...

6 de maio de 2011

Muito Barulho

No rescaldo da Troika e na ressaca do descalabro benfiquista, nada como desanuviar em direcção a novos horizontes... Uma das novidades mais recentes e interessantes da Internet dá pelo nome de Noisey. Esta plataforma pretende ser espaço de divulgação da nova música que se faz em mais de uma dezena de países e cuja prematuridade e falta de meios não permitem uma exposição mais abrangente e onerosa.
O Noisey apresenta-se como um local de descoberta e exploração. Coloca à disposição de qualquer internauta melómano concertos e pequenos documentários de bandas e artistas periféricos ou praticamente desconhecidos. Todo o material exposto é original.
Muito do futuro da divulgação musical e do entretenimento digital passam por esta lufada de ar fresco, que transcende fronteiras e é verdadeiramente comunal. Um marco da nova cultura alternativa do século XXI, acessível a partir daqui.

3 de maio de 2011

Die Pioniere

A génese e o desenvolvimento da música electrónica devem-se massivamente às explorações revolucionárias e inovadoras iniciadas na Alemanha após a Segunda Guerra Mundial. De todos os elementos que contribuiram para que as novas linguagens electrónicas deixassem de ser experiências de laboratório e se aventurassem rumo ao mainstream, os Kraftwerk foram os mais visíveis. Da obscuridade ao estrelato e ao reconhecimento pelos seus pares e pela crítica da imensa influência exercida, a história dos homens-máquina de Düsseldorf é nada menos que fascinante.
O documentário (não oficial) de 2008 Kraftwerk and The Electronic Revolution é uma excelente adição ao universo do grupo. Para além de seguir a par e passo a evolução da banda, apresenta em paralelo outros nomes que se tornaram igualmente instituições da electrónica global. Os comentários são assegurados por sumidades jornalísticas como Mark Prendergast e David Stubbs e pioneiros lendários como Klaus Schulze e Conrad Schnitzler. Os dados estão lançados para três horas absorventes de mitologia musical. Deixem-se levar...


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2 de maio de 2011

Maldito Scott Walker

Noel Scott Engel precipita-se em queda livre a partir do lado B de 'Till The Band Comes In, o seu quinto álbum oficial de 1970 sob o pseudónimo Scott Walker. Até então, o crooner que estudou canto gregoriano e foi poster boy dos massivos Walker Brothers, deixava por onde passava um rasto de perfume tão charmoso quanto sombrio. Os seus quatro primeiros álbuns a solo são intocáveis. A espaços, e com 40 anos de distância a delimitar a sua concepção, Scott I e II apresentam arranjos desmesurados e orquestrações inusitadas. Mas guardam aquela voz que não é deste mundo e canções comparáveis a abismos profundos e impossíveis de esquecer a quem lá se deixa cair. Scott Walker poderia ser o filho bastardo de Jacques Brel e Juliette Grèco, nascido na América e apadrinhado por Sartre e Beauvoir para espalhar o existencialismo sob a forma de bruxuleantes torch songs. Scott III e IV adensam a matéria de que são feitos os pesadelos e são dois dos mais belos e terríficos discos do século XX. Em 1970, Walker é um artista reverenciado mas que vende pouco. Toma o partido da arte e deixa os departamentos de marketing com os nervos em franja. O rapaz que provocava desmaios quando cantava The Sun Ain't Gonna Shine Anymore é agora um homem reclusivo que prefere ler Camus e Freud e ver filmes de Bergman a aparecer em festas e sentar ao colo groupies extasiadas.
O comportamento esquizóide e o desinvestimento nas actividades artísticas mundanas arrastaram Walker como uma enxurrada a partir de 1970. A vida errante tomou o lugar do estrelato e instalou-se um período (conforme as palavras do próprio no magnífico documentário 30th Century Man) assente em a whole lotta drinkin'...


A travessia no deserto encetada por Scott Walker a solo entre 1970 e o renascimento criativo de Climate of Hunter (1984) deu azo a quatro discos tão repulsivos como fascinantes. Quatro discos que não possuem uma única composição do cantor, mas que detêm uma estranha aura de charme decadente, como se um homem que não soubesse fazer mais nada sem ser cantar se arrastasse ao longo da escuridão em busca de uma luz que tarda em aparecer. A primeira dessas obras intitula-se The Moviegoer e data de 1972. Como o próprio nome indica, é construída a partir de interpretações de temas de filmes e de compositores variados como Nino Rota, Henry Mancini ou Lalo Schifrin. Não deixa de ser particularmente bizarro ouvir Walker cantar Speak Softly Love de Rota (o universalmente conhecido tema de The Godfather)...
This Way Mary (de John Barry e Don Black), The Ballad of Sacco and Vanzetti (de Joan Baez e Ennio Morricone) e Glory Road (de Neil Diamond) resultam bem na entrega crooner do cantor e os restantes temas enquadram-se na perfeição num singles bar mal iluminado e fumarento, povoado apenas por almas solitárias a altas horas da noite, que procuram aconchego na voz de outra alma solitária. Ou no tempo de espera para a última sessão numa sala de cinema vazia...


Da noite vazia e do anonimato cinéfilo aos bares de hotel ou de cruzeiros, nunca a decadência de Scott Walker foi tão acentuada como em Any Day Now (1973). Las Vegas e o lado mais doentio dos seus casinos e casas de espectáculos transborda em catadupa deste disco. Os ambientes continuam nocturnos como sempre, mas desta vez demasiado sacarinos e feitos para agradar a adeptos de música papel de parede que jogam blackjack e casais envelhecidos americanos unidos em Vegas por Elvis pela terceira vez. Há um charme depressivo neste disco, que lembra Burt Bacharach no seu melhor e Paul Anka no seu pior. A voz continua única, como sempre, mas poucas canções o livram da mediania: Ain't no Sunshine, When You Get Right Down to It, If Ships Were Made to Sail... O verdadeiro momento twilight zone é a versão de Maria Bethânia de Caetano Veloso. Scott Walker de camisa às flores e chapéu de palha? Não, Scott Walker a cumprir contrato...



O calvário das obras negligenciadas prolonga-se nos álbuns de 1973 e 1974, Stretch e We Had It All. O ideal é considerar estas obras em regime dois em um, tal como a edição definitiva em CD levada a cabo pela BGO em 1997. Desta feita, Walker atira-se largamente à música country e destila duas dezenas de temas mais ou menos obscuros desta cartilha. Mas não se espere daqui um rastilho do que viria a ser o alternative country ou uma cavalgada em pradarias outlaw country. Incompreensivelmente, e com tanto bom material por onde escolher, o cantor parece ser mais fiel ao espírito meloso e conservador de Nashville. As interpretações são polidas e orquestradas e alguns dos músicos alvos da leitura de Walker são creditados songwriters americanos (Mickey Newbury, Billy Joe Shaver, Randy Newman). Sunshine, Just One Smile, That's How I Got to Memphis, a cadência R & B de Use Me e a típica balada country Old Five Dimers Like Me são agradáveis, mas nunca memoráveis. Faltam nervo, risco e génio ao homem que compôs canções imortais como Plastic Palace People, It's Raining Today ou Duchess.

Em 1975, os Walker Brothers reunir-se-iam e desse regresso brotariam três discos. Scott voltou a ter um fugaz protagonismo. Mas era tarde demais para ser aquilo que nunca quis ser: uma estrela pop. Voltou a solo em 1984, reinventando-se magistralmente e, desde então, presenteou-nos apenas com mais duas aparições. Tremendas e perturbantes, como o génio reclusivo que as molda e que, apesar de já não provocar histeria nas adolescentes, provoca calafrios e penetra fundo nas almas de gente crescida. Os quatro discos acima descritos são apenas obrigatórios para os obsessivos. É um trabalho sujo falar sobre eles, mas alguém tem de o fazer. A restante obra de Scott Walker é obrigatória para quem precisa de música bela e única como de ar para respirar.

19 de abril de 2011

Kosmische Kosmetik XXII

Manuel Göttsching é um dos mais lendários guitarristas alemães. O seu estilo, um misto de ambiências etéreas e blues espaciais, enfeita com opulência os discos dos Cosmic Jokers, Walter Wegmüller e da sua banda de sempre, os Ash Ra Tempel. Assim sendo, é curioso que um dos mais influentes discos de electrónica de todos os tempos seja assinado por ele. Um homem das seis cordas que, inadvertidamente ou não, provoca um efeito borboleta com a sua obra a solo E2-E4: inventa o alfabeto através do qual se escreve muita da música de dança de hoje.
E2-E4 continua a ser um disco imbuído do espírito da kosmische musik. É um indutor de transe como o melhor dos Tangerine Dream e está lá a guitarra livre de amarras que se estilhaça nos Ash Ra Tempel. A diferença é que, desta vez, o ritmo impõe-se e é levado ao topo, enfatizando ainda mais as oferendas hipnóticas. Composto por um tema que raia os 60 minutos de duração e que se desdobra em 10 segmentos, o álbum é para ser ouvido como um contínuo. Após uma crescente introdução, o ritmo cibernético mas quente instala-se em definitivo. O convite ao movimento é óbvio, a vontade de resistir-lhe diminuta. Quiet Nervousness e Moderate Start são gâmetas que se fundem para formar o embrião da futura house music.
Em Promise emerge a guitarra de Göttsching, num balançar escorregadio e penetrante, quase afro-latino. A mescla entre o ritmo mecanizado, a electrónica repetitiva e a guitarra equatorial prolongam-se até ao fim do disco. E é curioso como uma atmosfera que nunca deixa de ser abstracta e minimal consegue causar tanto prazer auditivo. E2-E4 é paragem obrigatória para os amantes de electrónica. É um registo de extrema inovação (corria o ano de 1984 quando foi editado) e, acima de tudo, um álbum de culto. Que o diga James Murphy - mastermind dos LCD Soundsystem, alvo da indignação do próprio Göttsching por gostar tanto do disco e querer cloná-lo quase por inteiro...
O título desta obra essencial inspira-se na jogada de abertura mais clássica do xadrez. Tendo em conta os xeque-mates que conseguiu ao longo dos anos, tudo indica que Manuel Göttsching sabia bem o que estava a congeminar...