7 de agosto de 2011

San Francisco Serenade

Chet Powers escolheu o nome artístico Dino Valenti no princípio da sua carreira. Posteriormente, na banda que ajudou a fundar - os Quicksilver Messenger Service - passou a chamar-se Jesse Oris Farrow. Este estranho desdobramento de pseudónimos parece dever-se à divisão do músico entre vários projectos, à procura de uma identidade diferente em cada criação.
O único registo a solo deixado pelo californiano veio complicar um pouco mais a sua identificação. Um erro da editora fez com que o seu nome aprecesse como Dino Valente. 1968 foi o seu ano. Se o nome artístico parece remeter superficialmente para algo entre o mafioso e o intérprete de canções napolitanas numa trattoria de Little Italy, o conteúdo engana redondamente. Este é um disco de excepção, um tesouro perdido que poucos contemplaram e menos resgataram para o presente. Longe do rock psicadélico dos Quicksilver Messenger Service, Dino Valente é um disco orgulhosamente folk. Do mar e não da terra. A obra de um baladeiro com os poros entupidos de sol e sal, com a alma assombrada pela doce melancolia de um Verão que nunca dura. De um homem que viveu atrás das grades e de um pioneiro a quem chamaram the underground Bob Dylan...
As belíssimas e emotivas canções raramente transcendem a fronteira acústica. Arranjos de sopro e brisas de piano agitam My Friend e uma cascata orquestral tomba sobre a sublime Tomorrow. Uma bateria esparsa e gotas de cravo preenchem o não menos soberbo Time. De resto, erguem-se maioritariamente o trovador Dino e a sua guitarra, completando-se um ao outro, aconchegando-se mutuamente. E mais não é preciso, quando ruminações românticas e dolentes como Something New, Listen To Me ou New Wind Blowing param o tempo e salvam-nos, por momentos, do mundo real. À história de Me and My Uncle poderíamos chamar algo como outlaw folkChildren of the Sun guarda algum bucolismo psicadélico e Test vem terminar a edição original do álbum em expedição psicadélica explícita, mostrando que o baladeiro nunca deixou de ser um dos pais desta corrente.
Dino Valente é um disco com uma exposição bem mais reduzida que aquela que merece. É um exemplo perfeito do som de San Francisco nos finais dos anos 60, esse som pacífico e solarengo, em que uma acalmia algo triste se projecta no azul do céu. Reeditado em 2004, acrescentou Shame On You Babe e Now and Now Only aos dez temas originais e enfatizou uma vez mais o excelente escritor de canções que Chet Powers (o homem) foi. Justiça fosse feita (e um pouco menos de dedicação à marijuana...) e a sua obra-prima a solo seria falada na mesma dimensão que alguns discos de Tim Buckley, o seu génio composicional no mesmo patamar de Arthur Lee. Este é o único sítio na Internet onde existe um tributo ao músico. É rudimentar, mas funciona como local de culto a um artista que nunca passará disso.

6 de agosto de 2011

San Francisco Jam

É costume dizer-se que o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Os californianos Quicksilver Messenger Service surgiram para contrariar esse rebuscado dogma. Rezam as crónicas que Chet Powers (Dino Valenti no meio artístico), o mentor da banda, foi preso por posse de marijuana no dia que se seguiu ao seu primeiro ensaio. Isto aconteceu em 1965, três anos antes dos QSM editarem o seu álbum inaugural. Grupo rodado e habituado ao pó da estrada, chegou a 1968 sem o fundador, mas num misto de frescura e experiência, com uma sonoridade distintiva que os transformou num dos pilares do psicadelismo da West Coast.
As raízes clássicas e folk da banda provocam uma reacção química perfeita ao entrarem em contacto com o rock psicadélico do seu primeiro registo. Quicksilver Messenger Service é uma genial súmula do som californiano dos anos 60. Um som vagueante, ensolarado, música descapotável que circula devagar por imensas estradas desertas. Intercalam os temas mais directos (Light Your Shadows, Dino's Song) com psicadélicos sonambulismos ao sol (a longa jam ácida de The Fool e o excelso Gold and Silver). É nestas composições mais soltas que se revela o verdadeiro carácter e o real talento dos QSM. Essencialmente graças às guitarras em comunhão orgiástica, cujo prazer em dar música comunga do nosso prazer em recebê-la. Mas é a versão electrificada da canção folk Pride of Man que rouba o disco. Melhor que o original...
A tour de force das guitarras retorna em força em Happy Trails, provavelmente o momento definitivo do grupo. O disco divide-se num segmento gravado ao vivo e outro registado em estúdio. O primeiro é um imenso devaneio em torno do tema Who do you Love? do bluesman Bo Diddley. A desgarrada sem amarras, simbiótica, dos dois guitarristas (Gary Duncan e o genial John Cippolina) alucina-nos durante quase meia-hora. A parte gravada em estúdio gerou duas belíssimas criações, o blues rock intoxicado de Mona e o peso astral de Maiden of the Cancer Moon. Calvary, ao que consta, é uma épica jam surgida em plena viagem lisérgica. Soa como tal, na sua introspecção distorcida e no exotismo melódico. Para algo completamente diferente, o disco termina com uma revisitação ao tema da série televisiva Roy Rogers... Happy Trails acaba por ser a prova física de como os QSM eram uma banda de palco, um pouco como os seus contemporâneos Grateful Dead, com um nadinha menos de droga, com um nadinha mais de luz.
Em menos de um ano, o panorama altera-se. Após Happy Trails, o fulcral Gary Duncan abandona o grupo (diz-se que foi percorrer a América de mota...) e o segundo registo editado em 1969 é uma súbita encruzilhada na auto-estrada psicadélica. Shady Grove nunca será um mau disco. Mas coloca os QSM no roteiro das bandas mais convencionais numa altura em que poderiam ter expandido o seu som até ao fim do horizonte. A saída de Duncan parece tê-los deixado como um cão com três patas. Povoado por canções mais contidas no tempo e no espaço, Shady Grove tira do armário os esqueletos da folk e dos blues e cruza-os amiúde, como no tema-título e Holy Moly. Mas também separa a clara da gema, como em Flute Song ou Words can't Say. A estrela da companhia desta feita é o recém-recrutado Nicky Hopkins, pianista inglês e session man de gente como os Rolling Stones e Beatles. O seu estilo escorreito e sofisticado acrescenta ao disco um aroma de honky tonk erudito, especialmente no fabulosamente apurado Edward, The Mad Shirt Grinder.
Dois anos volvidos, Chet Powers (pergunto-me sempre se Cat Power foi aqui buscar o nome...) era já livre como um passarinho. Com um álbum de culto nos ombros, lançado em 1968 sob o pseudónimo Dino Valente, o carismático californiano volta à banda que viu parir. Para complicar ainda mais a sua identificação, adopta o alter ego Jesse Oris Farrow e torna-se o líder da matilha. A folk está no seu ADN e os QSM prosseguem rumo ao ocaso do psicadelismo na sua arte. Pelo menos o mais complexo e extravagante. Just For Love, de 1970, é um eterno disco de Verão. Para o dia e para a noite. Para o bem e para o mal. Produto genuíno da West Coast, ataca a nossa existência com uma deliciosa preguicite aguda. Implora uma praia escondida, uma noite com o mar por perto, um pôr-do-sol em cinemascope... Gary Duncan está igualmente de volta, mas o espectáculo pirotécnico das guitarras é ocultado pelo calor poroso. Just For Love, Pt. 1 e Fresh Air são os flagrantes delitos, o primeiro doce como néctar, o segundo o único sucesso da carreira dos QSM. Um eterno clássico. Gone Again e The Hat são convites irresistíveis ao torpor, ao pecado da gula - seja qual for o objecto de prazer... Cobra mostra um pouco da boogie band que subsiste nos Quicksilver e que sabe sempre a pouco.
O Verão do Amor da banda prolonga-se em What About Me. Igualmente editado em 1970, é um disco muito similar ao seu antecessor, acrescentando sopros em alguns dos temas. Continua a busca por sonoridades mais directas, o que se encontra logo no tema de abertura, manifesto capaz de aliviar uma otite. A aridez dos blues desponta em Local Color e Good Old Rock'n'Roll é exactamente o que anuncia. Mas o álbum acaba por ser mais um caldeirão de canções banhadas pelo sol da Califórnia. Baby Baby, Spindrifter e Call on Me são nomes talhados nas palmeiras, apetece quase vestir uma camisa às flores (uma que não seja muito foleira, vá...) e tomar uns mojitos a olhar o Pacífico. Long Haired Lady é uma típica balada ao estilo Dino Valenti e All In My Mind acrescenta uma tonalidade caribenha às cores quentes da paisagem. Just For Love e What About Me são conhecidos como os álbuns hawaianos dos QSM. Está tudo dito.
Em 1971, a trupe perde dois pesos-pesados: John Cippolina e Nicky Hopkins. Este desfalque e o idílio dos dois últimos discos fazem adivinhar um grupo à beira de cair na auto-indulgência ou a tocar para turistas nos bares de Honolulu. Mas a música é feita de surpresas e o novo registo da banda de Dino Valenti prova que ainda estão a uns valentes anos da reforma. Quicksilver é bastante sólido e está recheado de composições fortes. As infusões de folk sabem melhor que nunca, especialmente em Hope e no divinal Don't Cry for My Lady Love. I Found Love poderia ter saído das mãos do Carlos Santana dos inícios e o genial Fire Brothers é um milagre nesta fase da banda. Um dos melhores e mais vincadamente psicadélicos temas da sua história aparece ao sexto álbum. Que mais se pode pedir? O patrão da 4AD, Ivo Watts-Russell, que sabe muito bem o que faz, incluiu uma versão sombria e quase irreconhecível deste tema em Filigree & Shadow do projecto This Mortal Coil. The Truth fecha o álbum em modo rock descomprometido. Acima de tudo, sente-se o prazer dos músicos que, nesta altura do campeonato, conseguem um disco surpreeendente e que resume a carreira da banda em todas as suas facetas.
Foi sol de pouca dura. Em 1972, Comin' Thru aniquila as esperanças de uns Quicksilver renovados e perenes. À excepção de dois ou três temas (justiça seja feita, California State Correctional Facility Blues ainda entusiasma...), o disco é uma desilusão perante o que tinha sido alcançado há apenas um ano. Para castigo, não ponho aqui a capa.
A banda volta à carga em 1975 e com o line-up original. Desta vez, parte do hype é verdadeiro e os QSM  podem orgulhar-se do que apresentam. I Heard You Singing é boa, Gypsy Lights é melhor, Cowboy on the Run é a melhor de todas. Witches Moon e Bittersweet Love são prazenteiros regressos ao passado, o que constitui o único problema do álbum Solid Silver. Oito anos antes teria sido uma bomba, em 1975 é apenas um estalinho. Foram as melhoras da morte dos Quicksilver Messenger Service. A loja fechou e reabriu em 1986 pela mão de Gary Duncan. Mais valia ter sido demolida. O grupo que existe hoje é apenas um pálido retrato do passado. Uma banda de covers de si própria. Mas, quando chega o Verão, os fantasmas do passado de um dos melhores colectivos de sempre a sair de San Francisco, ícones incontornáveis do psicadelismo, chegam para nos atormentar de forma benfazeja. High Spirits...

30 de julho de 2011

Kosmische Kosmetik XXVII

Conrad Schnitzler tem 74 anos de idade e quase o dobro de discos editados. Este alemão de Düsseldorf, desconhecido para muitos, é um dos maiores pioneiros da música electrónica. Membro da primeira formação dos Tangerine Dream e co-fundador dos Kluster (que trocariam o K pelo C após a sua saída), Schnitzler foi igualmente o mentor do breve projecto Eruption, que duraria o tempo suficiente para gerar um único álbum. Enquanto os Eruption seriam uma alavanca para o movimento krautrock, esse único registo - homónimo - apenas veria a luz do dia em 2006, mais de 30 anos após a sua criação.
Muito viveu e produziu Conrad Schnitzler entretanto. A sua quase infinita discografia necessita de uma hercúlea dedicação para ser desbravada por inteiro. A trajectória do músico parece ser circular desde os primeiros tempos da sua carreira a solo. Começando por assentar em edições exclusivamente em cassette, até aos dias de hoje, em que perduram as concepções caseiras e disseminadas em CD-R, Herr Schnitzler conviveu pouco tempo com a visibilidade mediática. Talvez o excelente Ballet Statique, de 1978, seja visto hoje como a sua obra mais abrangente e influente, um dos melhores discos de electrónica já criados e uma bússola para muitos artífices e seguidores do clássico, frio e minimal som germânico. Cinco anos antes, porém, surgia outro mastodonte robótico pela mão do catedrático. Longe, muito longe, das atmosferas mais acessíveis presentes nos seus discos de finais de 70 e princípios de 80, a aventura chama-se Zug.
A história de Zug escreve-se em dois temas apenas, ou, como nestes tempos havia dois lados nas construções musicais, numa peça partida em dois: Spur e Rhythmus. Causa e consequência. Desde o início somos colocados numa locomotiva desgovernada, que avança irredutivelmente, mas sem nunca sair dos carris. Uma vertigem sonora, que não pára em estações nem apeadeiros e que tanto nos pede para mover o corpo às suas investidas, como nos titila a massa encefálica para continuar a ouvir, para saber onde a viagem nos leva. O ritmo pica como esporas, impedindo a atenção de ser desviada, mesmo sendo minimal e repetitivo. Lá atrás sucedem-se sibilares mecânicos, metálicos, metamorfoses subtis que acrescentam tonalidades cinzentas ao preto e branco dominante. Em Trans-Europe Express dos Kraftwerk, sentimo-nos igualmente transportados, mas como passageiros enamorados pelo Velho Continente. Zug é mais actual, parece arrastar-nos para uma fuga, não nos deixa olhar a paisagem, não nos deixa reter o momento. É movimento puro, o que acontecerá daqui a um minuto poderá ser exactamente o que aconteceu há um minuto atrás. Abruptamente, como se entrasse num túnel perpétuo, o movimento desvanece-se. Passaram perto de 40 minutos. De quê?
Em 2010, o disco foi reeditado tendo como base reconstruções da peça original. Provavelmente para dar continuidade, um fim, ou um sentido a uma obra tão vaga e misteriosa mas que ajudou a construir o futuro. O primeiro disco de trance music de sempre? O motor de arranque do techno inteligente? Nada disso, mas muito mais que isso...

African Night Flight

Imagine-se uma noite em que a escuridão subjuga e o calor entorpece. Uma noite em que é impossível dormir, mas em que os movimentos do corpo são forçados a minima. Uma noite opiácea, em que os espíritos vagueiam sonambulamente fora dos corpos e os sentidos não distinguem luzes reais de sombras irreais. Fourth World, Vol. 1: Possible Musics, colaboração entre o trompetista de vanguarda Jon Hassell e o mestre das ambiências Brian Eno é música em transe profundo, um delírio hipnótico e fantasmagórico. Parece conjurar danças tribais perdidas no tempo, ecos de ritos passados que regressam, possessos. Seduz-nos a segui-lo a paragens onde mortos e vivos se encontram. Onde o visionário e o arcano coabitam.
Este ritual mágico e soberbo estende-se ao longo de seis temas, praticamente indistinguíveis entre si, mas subtilmente impregnados de nuances e atmosferas que agem sobre o ouvinte como magia negra. O bruxo supremo é, naturalmente, o distinto trompete trabalhado de Jon Hassell. Os sons que derrama parece não pertencerem a este mundo e irrigam a música como uma espécie de om meditativo. Como pano de fundo, residem as texturas de Brian Eno. Emergem as paisagens oníricas de monolitos como Another Green World e a abstracção contemplativa das suas tríades com Roedelius e Moebius.
O termo Fourth World significava, para Hassell, a junção entre o vanguardismo musical e diferentes culturas e eras. Uma miríade de possibilidades, que assistem este disco em pleno e que reflectem África como um espelho negro. Delta Rain Dream recupera os tambores reais do Burundi, em regime processional e introvertido. Ritualística, Griot (Over 'Contagious Magic') faz das palmas ritmo e Rising Thermal 14° 16' N; 32° 28' E deixa-nos sós perante a claustrofobia da imensidão. Hassell vai fazendo o trompete carpir como uma alma penada ou uivar como um animal selvagem.
A metade mais forte do álbum começa no primeiro tema, Chemistry. A química entre os intervenientes mostra-se, desde logo, perfeita. Trompete sussurrante, um baixo com Parkinson e o percurssionista brasileiro Naná Vasconcelos a acariciar as congas. Ba-Benzélé coloca um Hassell em loop intermitente (inebriante) e outro em desdobramento. Ouvem-se trovões à distância e o ritmo dança seduzindo o céu com a promessa de chuva. Eno mantém-se em segundo plano, adicionando sintetizadores e efeitos, dando tempero. Ambos deixam o melhor para o fim. Charm (Over 'Burundi Cloud') é a peça que define este disco magistral. Durando mais de 20 minutos (o que correspondia a todo o lado B do vinil original), é daqueles temas em que vale a pena ter nascido para poder experienciá-lo. Está lá tudo o que melhor define as artes de Hassell e Eno. O trompete parece um ser vivo, que não só comunica com a nossa alma, como nos toca fisicamente. As electrónicas giram em espirais contínuas e tudo se repete, uma vez, outra vez, até que o solo deixa de existir e estamos a voar lentamente pela noite infinita. Lá em baixo, flora negra, águas paradas, fogo que se eleva mas não nos consegue alcançar. O ritmo conduz-nos, continente acima, até terras do Magrebe, até sabe-se lá onde, porque há coisas das Arábias...
Fourth World, Vol. 1: Possible Musics assumiu-se como uma obra embrionária no que viria a ser o multiculturalismo musical, especialmente na música electrónica e de dança. Uma obra que é mais Hassell que Eno, mas cuja existência seria impossível se os dois não tivessem marcado encontro e traçado o mesmo destino.

27 de julho de 2011

Beef do Vazio


Unconditionally Guaranteed e Bluejeans & Moonbeams são tidos como os pontos mais baixos da obra de Captain Beefheart. Erros de percurso em que o experimentalismo cedeu ao comercialismo, em que os fãs antigos se sentiram defraudados e em que os fãs novos... bem, quais fãs novos?
Ambos estes discos de 1974 quase arruinavam a reputação de Don Van Vliet ao mesmo tempo que não lhe permitiram transpor o portal que dá acesso ao sucesso massificado (se era mesmo isso o pretendido). A emblemática Magic Band, que o acompanhava desde os primórdios, chegou a ser apelidada Tragic Band. Beefheart portava-se quase normalmente na televisão (ver vídeo no final). Que aberrações eram estas!?
Hoje, quase 40 anos passados da sua edição, será que estas obras continuam a ser malditas? O Escrito no Som, imbuído do seu espírito de harmonia e apaziguamento, coloca-os na mesa de operações.


Para começar, Unconditionally Guaranteed mostra na capa Captain Beefheart agarrado a um maço de dólares. Das duas uma: ou este gesto faz parte da sua ironia habitual, ostentando que fez um disco somente pelo dinheiro, ou então fez mesmo um disco somente pelo dinheiro. Outra coisa é o facto de Beefheart estar, por estes dias, apaixonado e recém-casado com a senhora Jan Van Vliet. Em circunstâncias normais, isto é motivo de júbilo. Para um artista como este, é um pesadelo. Ouvir o homem que criou uma das obras musicais mais surrealistas e abismais do século XX (Trout Mask Replica, obviamente) a cantar algo como Happy Love Song é como beber óleo de fígado de bacalhau puro. Por entre a tepidez geral e constante, há algumas canções que sobressaem e se insinuam num estranho chove não molha. This is the Day e Magic Be são pérolas incaracterísticas. Certamente seriam apreciadas noutro personagem que não Captain Beefheart, o que suscita o interessante debate de como os artistas ficam involuntariamente presos aos rótulos - sejam eles bons ou maus. I Got Love on my Mind é um blues-rock enérgico, mas que nunca infringe a lei. Apenas Upon the My-O-My traz ténues reminiscências do passado mais experimental e transgressor. Os restantes temas enchem chouriços na perfeição. A frase 100% Pure and Gold, inscrita na capa do álbum, só pode gozar literalmente com o ouvinte. 25% seria a percentagem correcta.


Bluejeans & Moonbeams começa melhor que o seu predecessor. Party of Special Things to Do avança com algum do veneno vocal e rítmico que os beefheartianos tanto adoram. Logo a seguir, o tratamento dado a Same Old Blues supera o original de J.J. Cale. Não profana os blues tanto como seria desejável, mas mantém a decência. E eis que surge Observatory Crest para salvar em definitivo a honra do convento. Nos meandros da atmosfera ofuscante, de um estio abrasador, palpita um psicadelismo puro e acessível que não se conhecia no Capitão desde Safe as Milk. Infelizmente, o combóio descarrila a partir daqui. Nenhuma das peças seguintes supera o que ficou para trás e somente Further Than We've Gone e o tema-título conseguem deixar algo de memorável. Nem que seja pela impressão que esta encarnação da Magic Band está a emular o rock progressivo ou as paisagens mais açucaradas da música dos anos 70. Em mais nenhuma fase de Beefheart se conseguem escutar solos de guitarra planantes ou teclados com priapismo...

Até hoje, é difícil descortinar se Don Van Vliet agiu deliberadamente na criação destes dois registos ou se foi coagido para tal. Há quem culpe a falta de carisma da banda ou o facilitismo na produção de Andy DiMartino. Certo é que não se ouviu falar em Captain Beefheart nos quatro anos que se seguiram. Mas a fera que parecia dopada e à beira de cair no abismo do mainstream regressaria para nos presentear com mais três discos até à sua retirada final em 1982. Três discos à (sua) moda antiga, desafiantes, intrigantes, imprescindíveis.
Mesmo assim, não existem razões para obliterar totalmente Unconditionally Guaranteed e Bluejeans & Moonbeams. Com a mediocridade criativa facilmente audível que prolifera por aí, é provável que alguns músicos doassem um rim para os fazer. Aqui foram a excelência previamente alcançada e a fasquia muito alta que tramaram Don Van Vliet. Voltar a estes discos de quando em vez não provoca micoses. Mas que nunca sejam glorificados. Isso seria como ver-me a festejar um golo do FC Porto, ou a comer sardinhas assadas com Coca-Cola. Nunca se sabe se poderá vir a acontecer, mas é extremamente improvável...

12 de julho de 2011

West Coast Blues

Dennis Wilson sempre foi o menos conhecido dos manos Wilson e o menos proeminente dos Beach Boys. No entanto, era o único verdadeiro surfista de uma banda pivotal na cultura do surf. Este é um dos muitos paradoxos da vida pessoal e musical do baterista dos ícones californianos. Foi o mesmo rapaz sorridente que apresentou Charles Manson ao mundo da música; foi o surfista ideal, apaixonado pelo oceano e que nele mergulhou embriagado pondo termo à vida; foi parte de um conjunto detentor das mais celebradas harmonias vocais e terminou a carreira com a voz devastada por álcool & nicotina. Live fast, die young é um lugar-comum do rock'n'roll. Live like you want, die almost young podia ser a sua adaptação a Dennis Wilson. A única obra que editou a solo mostra que praticava aquilo que pregava: Pacific Ocean Blue, de 1977, é o clássico definitivo nas carreiras a solo dos membros dos Beach Boys, sendo apenas superado pela conclusão magnânima de Smile assinada pelo irmão Brian.
O que fica quando Pacific Ocean Blue se evapora é a certeza do grande escritor de canções que deixou tanto por deslumbrar. É o disco da Califórnia como Terra Prometida eternamente banhada pelo Sol, do oceano impossivelmente azul, das intermináveis noites de Verão na praia. É igualmente a reflexão de um homem que viveu o paraíso e o inferno dos excessos, de um homem que possui uma relação simbiótica com o mar e que degusta demasiado a vida para a deixar tornar-se sensaborona.
São canções enormes, as de Pacific Ocean Blue. O título não poderia ser outro para a música aconchegante e luxuriante que lá está guardada. Para trás, muito para trás, estão as pranchas de surf com acne dos Beach Boys. Dennis Wilson senta-se agora ao piano, faz pontual uso de arranjos orquestrais e a sua voz, trôpega mas sentida, torna as canções ainda mais penetrantes. A abertura com River Song mostra desde logo o que nos espera: um início solarengo, vozes a arranhar o gospel e nuvens em forma de piano a cobrirem o sol perto do final. Poucos são os choques frontais com o rock neste disco, ele é mais um efeito colateral que se manifesta em sólidos temas como Friday Night, What's Wrong ou Pacific Ocean Blue. Dreamer é blue-eyed-soul que surge na calada da noite a pedir para nos portarmos mal. Rainbows foi feita para nos aclarar a alma. Mas são as baladas o prato forte deste registo. É nelas que reside o oceano, luminescente em You and I Thoughts of You, interminável escuridão líquida em Time e no belíssimo Moonshine. Farewell My Friend torna-se arrepiante, sendo que foi a elegia que Wilson escreveu para si próprio e que se fez soar no seu funeral. E o final não poderia ser mais perfeito, com o magnífico End of the Show a ver um gigantesco sol vermelho a afundar-se no horizonte, a voz quebrada de Wilson a levantar-se em agradecimento, quando somos nós que temos que agradecer.
Em 2008, Pacific Ocean Blue foi alvo de edição deluxe, que inclui as míticas Bambu Sessions - sessões que dariam origem a um segundo álbum nunca editado, logicamente intitulado Bambu. Este dois em um é absolutamente imprescindível, dado que esta jóia perdida aproxima-se bastante do brilho ofuscante do tesouro que a antecedeu. It's Not Too Late, Cocktails ou Love Surrounds Me cimentam ainda mais a imagem de Dennis Wilson como bardo californiano, o crooner surfista. É bom sentir o Pacífico aqui tão perto e poder contemplá-lo fechando os olhos e abrindo os ouvidos. Aproveitem o Verão enquanto dura.

Dinosaur Sr.

Insuflado, pomposo, mal-amado. Eis o rock progressivo em todo o seu esplendor. De música revolucionária a revolução que esqueceu a música, do underground aos aviões a jacto, Prog Rock Britannia conta (quase) tudo. Sejamos fãs ou detractores, este documentário da BBC sobre a génese, ascensão e queda deste polémico estilo musical está muitíssimo bem conseguido. O rigor e a minúcia associados aos testemunhos dos intervenientes tornam-no fundamental para a compreensão deste nicho da história musical do século passado. Now lose yourself in Prog...

11 de julho de 2011

Kosmische Kosmetik XXVI

Here comes the big wave of aggression! Assim se ergue, por entre ventania e ondas, o primeiro álbum dos Gila - homónimo, mas igualmente conhecido como Free Electric Sound. Poderoso e esmagador, é uma das obras-primas da primeira vaga do krautrock, a mais selvagem e mentalmente intrusiva. Sob o látego impiedoso de guitarras à deriva e ritmos assertivos, caímos subjugados pela força de um disco enorme, um tsunami eléctrico.
Será que as quatro mentes que conceberam este portento em 1971 estavam cientes do que faziam? Que acabavam de criar um portal sonoro para uma dimensão de mistérios e maravilhas? O som que debitam é expansivo e imenso, flutuante e majestoso como oceanos de estrelas. Aggression, o primeiro tema, irrompe sem aviso, atacando sem cerimónias e por todos os flancos, com guitarras que dançam em transe e teclados que silvam como almas a quererem sair do corpo. O prodigioso Kommunication materializa-se em seguida e ganha forma de gigante à medida que abandona as sombras em direcção à luz. Guitarra e mellotron acasalam lenta e deliciosamente, a voz de Conny Veit sopra fugazmente do nada e, quando damos conta, já não há escapatória possível da teia entorpecente e engenhosamente arquitectada. Esta é, sem dúvida alguma, uma das mais suculentas confecções saídas da panela do rock alemão na primeira metade dos anos setenta.
Kollaps acentua o ambiente místico e encantatório. Os instrumentos parecem pairar na irrealidade, um bebé chora, a música tacteia na escuridão. Tudo muitíssimo bem conseguido, com espírito, sem artifícios. Um tímido, contido, mas muito belo exercício acústico, surge na peça seguinte, Kontakt. Amacia os ouvidos e sente-se como água fresca a pingar sobre a pele. Novas contaminações psicadélicas explícitas emergem das derradeiras peças: Kollektivität e Individualität. A primeira reina ainda na dimensão ambiental e ritualística, exibindo um ritmo circular e guitarras minimais e repetitivas, muito ao estilo dos Pink Floyd da altura. A segunda acentua a energia, bombeando um ritmo intenso e tribal. A guitarra rasga o ar em espasmos de distorção, o êxtase cresce de intensidade e escoa-se sem clímax na imensidão da noite...
Trabalho de mestres, o primeiro álbum dos Gila é um salmo de referência na bíblia da kosmische musik. Ideal para voar para longe sem hora marcada de regresso. Pressa não existe por estes lados, apenas a cristalização da sensação...

Tripology


Ninguém diria que o australiano Daevid Allen, guitarrista co-fundador dos Soft Machine, escolheria o caminho que seguiu nos Gong. As diferenças entre os conceitos de ambos os colectivos não poderiam ser maiores. Talvez as suas errâncias em Paris durante o Maio de 68 e, posteriormente, no Sul de Espanha, na companhia de beatnicks, hippies e quejandos, o tivessem afastado da seriedade arty da banda britânica. Mas o mais provável é terem sido mesmo as drogas. Os Gong são um dos agrupamentos mais alucinados e alucinantes de que há memória. Resistente à sucção pela espiral do tempo, a banda inglesa - que também é francesa - sofreu várias alterações de liderança e até de nome ao longo das suas décadas de militância artística. Por entre o caos deste organismo sempre vivo, o período em que Daevid Allen comandava as operações é considerado o mais fértil e imaginativo. E as obras que compõem a Radio Gnome Trilogy são as montanhas mais altas dessa surreal cordilheira discográfica.


Flying Teapot, de 1973, é o primeiro tomo da trilogia conceptual. É, igualmente, um dos discos mais lunáticos e surreais de sempre. Como manda a tradição setentista, assenta numa narrativa desenrolada ao longo dos temas. E o enredo de Flying Teapot alcança um patamar de bizarria invejável, complicado de explicar em poucas linhas. Basicamente, um criador de porcos com uma fascinação pelo Antigo Egipto adquire um brinco mágico a um vendedor de bules de chá que lhe permite ouvir ligações de rádio de um planeta distante: Planeta Gong. Entretanto, a personagem principal da história (Zero the Hero) tem uma visão desses extraterrestes em pleno centro de Londres e passa a venerá-los. As criaturas dão pelo nome de Pothead Pixies, são verdes, têm uma hélice na cabeça e fazem-se transportar pelo espaço em bules de chá... Acredito piamente que seja necessário encontrarmo-nos no mesmo estado alterado dos autores para dar sentido a esta novela psicadélica. O mesmo não se passa com a música, felizmente. O surrealismo e a imaginação extremas transbordam para o som (outra coisa não seria de esperar), mas as composições são do mais inventivo, original e contagiante. Blocos instrumentais cuja matéria-prima é um jazz cósmico, estonteante e venenoso colam-se a um rock vertiginoso, ensandecido. Algo como juntar os Weather Report e os Hawkwind num filme de animação espacial criado por Ed Wood. Zero The Hero & The Witch's Spell, Witch's Song/I Am Your Pussy e o tema-título são bafejados por uma genial anarquia e entram nas nossas cabeças para nunca mais serem esquecidas. The Pot Head Pixies é a peça mais directa, mas é difícil obter airplay quando se fala de drogas tão abertamente. O casal Daevid Allen e Gilly Smith encarna personagens e situações magistralmente e todo este bolo inusitadamente coerente faz de Flying Teapot um disco único e uma experiência ilógica mas belíssima.


Ainda em 1973, é lançada a segunda parte da saga: Angel's Egg. O enredo adensa-se e mantém o surrealismo. Desta feita, Zero the Hero é transportado até ao Planeta Gong depois de tomar uma intoxicante poção. Aí trava finalmente laços com os seus habitantes, começando por uma prostituta alieníngena e acabando na consciência planetária chamada Ovo do Anjo. O objectivo é fazer do terráqueo mensageiro da chegada extraterrestre à Terra, o que acontecerá numa grande festa que dará início a uma Nova Era e à união entre civilizações. Business as usual para Daevid Allen e sua confraria...
A música de Angel's Egg roça o sublime. Este é, na verdade, o capítulo mais conseguido da trilogia, feito de temas directos e engenhosos, com uma sensibilidade apelativa notável. Mas dos Gong nunca se espera o óbvio e o disco é apetecível sem ser fácil e lúdico sem ser descartável. É fantástico do princípio ao fim, como um fio condutor carregado de electricidade e de insanidade, que só se esgotam no último segundo. Other Side of the Sky, Prostitute Poem e Oily Way possuem o raro dom musical de alimentar corpo e alma, pela simbiose entre as atmosferas cósmicas e a sedução física. Steve Hillage brilha com uma aura intensa e a sua guitarra resplandece em Sold to the Highest Buddha e I Never Glid Before. O resto é um pouco de jazz, um pouco de nonsense, um pouco de tudo e um pouco de nada. No fim fica a garantia de termos sido expostos a um dos melhores álbuns dos anos 70.


You constitui o último volume da Radio Gnome Trilogy. Data de 1974 e volta aos territórios mais livres, improvisados e desgarrados de Flying Teapot. O herói da narrativa encontra-se de volta à Terra e prepara o encontro entre civilizações. Será um grande concerto em Bali com o sugestivo nome Great Melting Feast of Freeks. Durante o festim, todos os participantes são presenteados com um terceiro olho que permite aceder à revelação de um novo mundo. Zero distrai-se a comer um bolo de frutas e perde o momento. A partir daí, cai numa espiral sucessiva de nascimento e morte até se tornar parte do Ovo do Anjo... Nada mais simples.
Este seria o último álbum dos Gong com o líder Daevid Allen, que ficaria longos anos afastado do colectivo, dedicando-se a uma miríade de projectos, sozinho ou mal acompanhado. Mas a sua banda do coração seriam sempre os Gong e Allen nunca teve melhoras significativas, como se pode constar pela capa de Acid Motherhood, álbum de 2004. A sua presença em You é efémera e algo apagada, o que se nota na ausência de delírios narrativos e na proliferação de temas instrumentais. A guitarra de Steve Hillage, os sopros de Didier Malherbe e a bateria de Pierre Moerlen (estes últimos futuros fundadores de uns Gong renovados e mais próximos do rock progressivo que do psicadelismo) são as estrelas da companhia. Jazz e rock interagem, expandindo os horizontes de ambos os estilos, não raras vezes até ao irreconhecimento. Isle of Everywhere, Master Builder e You Never Blow Yr Trip Forever arrasam e mostram que este terceiro episódio não deve ser considerado o elo mais fraco da trilogia, simplesmente o mais espontâneo e libertário.

Radio Gnome Trilogy fica para a história como uma das obras mais visionárias e bizarras que o rock já conheceu. Uma verdadeira intoxicação musical, a verdadeira pedrada do outro mundo. Este descaramento pode ser chocante para uns e fascinante para outros. A história não ficou por aqui, sendo que foi novamente resgatada nos álbuns Shapeshifter (1992) e Zero to Infinity (2000), mas sem a surpresa dos primeiros registos.
Hoje a música é mais cirúrgica, alguma move-se com calculismo. Os Gong deste período são igualmente uma cirurgia, mas de coração aberto e sem anestesia. E há quem acredite que o Planeta Gong se tornará visível em 2032... Aqui estão outras pérolas deste universo tão mítico quanto louco.

29 de junho de 2011

Negritude

A união faz a força. Quando os raios atravessam o ar em alturas de tempestade, provocam o fenómeno conhecido como trovoada. A colisão entre Archie Shepp e Philly Joe Jones, captada em Paris no ano da graça de 1969, é um trovão ribombante e invasivo. O primeiro é (ainda) um saxofonista de excepção, um dos pioneiros do free jazz e do cruzamento entre este género e o tribalismo que o infectou nos anos 60. É dono de discos fabulosos desta era como The Music of Ju-Ju e The Way Ahead. O segundo foi um criativo baterista, que fez a escola primária no bebop e se licenciou em  jazz modal. Constam do seu currículo memoráveis colaborações com Miles Davis ou, como líder, Showcase.
O encontro foi, já se sabe, bombástico. Shepp apresenta-se sozinho, debatendo-se no vórtice intenso do sexteto de Jones. O ilustre colectivo, composto, entre outros, por luminárias como o violinista Leroy Jenkins e o saxofonista Anthony Braxton, desarruma convenções e passeia pelo caos.
Archie Shepp & Philly Joe Jones é jazz livre na sua mais pura forma. Uma imensidão sensorial, abrasadora como o inferno. Um quadro impressionista vermelho sobre fundo preto. Uma ferida aberta.
Desçamos ao cenário, quente e fumarento, onde tudo se passa. Vozes possessas, gritos vagos, desencadeiam a entrada apocalítica de Shepp, logo seguido por Jones. Segue-se uma avalanche de quase 20 minutos chamada The Lowlands em que a liberdade é total. Chicago Beau interrompe pontualmente o cataclísmico idílio com récitas inflamadas, primárias. A música avança em linha recta, violentamente inebriante, e sentimo-nos como se estivéssemos a escutar tudo numa sauna. A peça pretende reflectir a vida dos negros no sul dos Estados Unidos e o sentimento de cerco e opressão é magistral, o que enfatiza o poder da libertação interior.
A segunda e última composição do disco divide-se em duas partes e intitula-se Howling in the Silence. A parte a), Raynes or Thunders começa por intuir um falso swing antes de resvalar para a abstracção intensa do improviso emocional. Chicago Beau irrompe novamente, qual pregador atormentado, e o violino tresmalhado de Leroy Jenkins acrescenta uma atmosfera de pântano sulista ao tema. A parte b), Julio's Song, inflecte para o trilho dos blues, nomeando a harmónica de Julio Finn que aqui se faz ouvir como um eco remoto do delta do Mississippi. A música gira em transumância, percorrendo os quatro cantos do jazz e arrasta-nos com ela para um estado de vadiagem mental. O disco que começou aos berros acaba por esvair-se num último estertor de harmónica e contrabaixo, sussurrando don't try this at home...
Archie Shepp & Philly Joe Jones é uma das experiências mais limite do jazz, qualquer que seja o ramo da sua árvore genealógica. Para a posterioridade ficou uma gravação crua e pouco depurada, um som visceral e escuro, que num momento ataca e no outro seduz. Diamante jazz por lapidar...

27 de junho de 2011

Voz Activa

O magazine online I See Voices surgiu com uma premissa interessante: colocar individualidades das artes e das letras a falar de tópicos universais. Projecto alemão, foi criado em 2008 pela mão da criativa produtora independente Svenson Suite. Desde então, aglomerou mentes pensantes tão variadas como Dieter Kosslick, Jon Savage ou Wim Wenders a dissertar sobre temas tão subjectivos e etéreos como o gosto, a violência, a velocidade...
A subjectividade acaba por ser o elemento mais saboroso de I See Voices. Cada cabeça sua sentença e, concorde-se ou não com o que os intervenientes afirmam sobre a temática que lhe coube, acabamos sempre por ser estimulados, por, irreflectidamente, reflectir.
Apesar de ter mais pernas para andar que uma centopeia, o projecto caiu no silêncio em 2010. Prematura e lamentavelmente, pois é gritante o muito que ficou por dizer por gente que vale muito a pena ouvir. A última cabeça (literalmente) que falou foi Charles Michael Kittridge Thompson IV (Black Francis nos Pixies, Frank Black a solo). Foi erótico...

24 de junho de 2011

Matemática Aplicada

Voltaram os Battles. Desta feita reduzidos a trio, após a saída do líder Tyondai Braxton. Com uma perda desta envergadura, os cépticos começaram a temer pela consistência criativa da banda nova-iorquina. Braxton é a prova que quem sai aos seus não degenera. Filho de um dos mais inovadores e vanguardistas músicos de jazz de sempre (o saxofonista Anthony Braxton), o júnior foi o grande motor dos primeiros passos dos Battles e da cerebral mas estranhamente contagiante música exibida em Mirrored, o álbum de estreia. A crítica coçou a cabeça e chamou-lhe muita coisa, como por exemplo Math Rock. Estilo oblíquo e assente em estruturas angulares e complexas mudanças de ritmo, este Math Rock não foi inventado pelos Battles. As suas origens perdem-se na noite dos tempos, sendo que equações musicais foram anteriormente formuladas por várias bandas, dos Henry Cow aos Cardiacs, passando - fatidicamente - por Frank Zappa e Captain Beefheart.
Quem teve o privilégio de ouvir Mirrored em toda a sua frescura, guardou certamente na memória a forma como o disco cruzava o experimentalismo laboratorial aos grooves mais abrasivos e apelativos. Ritmos e melodias vindos directamente do futuro baralhavam as regras do presente. Provas óbvias, auditivas mas também visuais, foram imortalizadas assim:





Os Battles de 2011 renunciaram parcialmente a esta herança. Reinventaram-se, não querendo ser ruínas de uma outrora torre altaneira. Como um cão com três patas, equilibram-se e andam, sabendo que a pata que falta será sempre notória. Tyondai Braxton complicou, os Battles simplificaram. O ex-líder manteve-se fiel aos seus ideais e lançou-se numa experimental e exploratória carreira a solo. O seu único álbum até à data, Central Market, de 2009, mantém os grooves potentes e as estruturas imaginativas, condensando-os a elementos de música clássica contemporânea. O resultado é tão curioso como interessante.
O agora trio suavizou ligeiramente a sua sonoridade. O novo disco, Gloss Drop, não é uma cedência ao facilitismo, mas acaba por ser uma obra mais luminosa e menos matemática. A complexidade técnica ainda ferra o dente no ouvinte e pressentem-se extravagâncias prog, mas a abordagem é mais branda e até - pasme-se! - dançável. Africastle, My Machines (parceria improvável com Gary Numan) e o esplendidamente excêntrico Ice Cream (em conluio com o ás chileno da electrónica Matias Aguayo) são passos em frio decididos e desempoeirados. São os Battles a deixar entrar o verão na equação.



Os Battles de hoje provam que souberam resistir à perda de um líder carismático sem perder identidade, criatividade e a capacidade de nos presentar com sons nunca antes debitados. Gloss Drop deixa água na boca para as possibilidades que se seguirão. Resta saber se ao vivo conseguirão acender o pavio que Braxton deixou apagado e que chegava a fazer arder cérebros em proporções devastadoras...