Durante a primeira metade dos anos 70 do século XX, os Nucleus foram um bastião de bom gosto. Espalharam originalidade, charme, aventura e fleuma britânica ao longo dos seus primeiros discos, ao mesmo tempo que ensinaram o jazz a falar novas línguas.
Apesar dos disfarces, o
jazz sempre foi o núcleo do grupo liderado pelo enorme Ian Carr. Ao longo desses verdes anos, de metamorfoses e da erosão das musas, os Nucleus nunca deixaram de
jazzar com esmero. Mas também nunca deixaram de
flirtar com o psicadelismo, nem abandonaram o sindicato do
rock progressivo.
Em 1970,
Elastic Rock entra de rompante e, praticamente, funda a cena
jazz rock britânica. O primeiro sinal desponta na capa. A cascata lávica que escorre de uma erupção vulcânica, alegoria lógica à
fusão. Depois vem
1916, com uma bateria que se estilhaça e lança chispas em todas as direcções. Esta pequena explosão serve de introdução a
Elastic Rock, elegante e deslizante peça, desenhada entre sopros quentes e cordas soltas.
Striation interrompe o elo, num curto estertor improvisado, ao que se seguem
Taranaki e
Twisted Track, belíssimos momentos de um
jazz nocturno e apaziguador, mas ardente no seu núcleo. Os dois episódios de
Crude Blues põem mais achas na fogueira e o
jazz vai sendo progressivamente invadido pela energia primária do
rock.
1916 (Battle of Boogaloo) solidifica em definitivo o magma do tema de abertura, fundindo os sopros de Ian Carr e Karl Jenkins à guitarra em espiral crescente de Chris Spedding.
É já na recta final de
Elastic Rock que surge o seu tema central,
Torrid Zone. É aqui que as influências do Miles Davis desconstrucionista estão ao rubro e que
jazz e
rock disputam acesamente o troféu da música.
Stonescape e
Speaking for Myself, Personally, in My Own Opinion, I Think... são curtos interlúdios que assentam na personalidade dos solos mais que em composições estruturadas. O transe fluido e complexo é retomado em
Earth Mother, com a recorrente base rítmica das melodias a debitar um vigor escorreito e irrepreensível, tal como sucede na energética conclusão do álbum, a fervilhante
Persephones Jive.
Quente, melódica e hipnótica, a primeira obra dos Nucleus será sempre um belo pretexto para aquecer as noites frias. Pouca luz é recomendável, talvez no bar perfeito (aquele que não existe...). Conduzir a horas mortas pela cidade é igualmente um bom método para o absorver. E o disco poderia também chamar-se
Elastic Jazz que ninguém daria pela diferença...