28 de dezembro de 2011

2011: A Soundtrack



Os tempos estão a mudar. Por poucos motivos positivos. O mundo regurgita ecos de uma caixa de Pandora económica, que se entreabre a cada rotação sobre o seu eixo. Dentro ou fora de tempo, mais ou menos sensível ao filme da vida real, a música seguiu o seu próprio curso. Referências continuam a confortar-nos com a sua presença (Tom Waits, Kate Bush, Paul Simon), promessas já cumpridas vieram provocar-nos com ideias frescas (Bon Iver, James Blake, Destroyer). Outras promessas surgiram, com raízes no futuro ou liquidadas à partida... Mas foi a sombra de Polly Jean Harvey que se projectou mais alto, envolvendo o ano que se aproxima do fim como um regresso a escuros e góticos tempos vitorianos, a memórias em letargia acordadas pelo génio e mordacidade do seu talento. O quadro dos males do mundo foi pintado na sua Inglaterra, mas, como toda a arte destinada a ser grande, transcendeu essas fronteiras insulares. Sucedem-lhe os restantes discos de 2011 que continuarei a ouvir para lá de 2011...

1. PJ Harvey - Let England Shake

2. Bon Iver - Bon Iver

3. James Blake - James Blake

4. Tom Waits - Bad As Me

5. The Horrors - Skying

6. The Weeknd - House of Baloons

7. Girls - Father, Son, Holy Ghost

8. Oneohtrix Point Never - Replica

9. The War on Drugs - Slave Ambient

10. St. Vincent - Strange Mercy

11. The Antlers - Burst Apart

12. Shabazz Palaces - Black Up

13. Real Estate - Days

14. Jonathan Wilson - Gentle Spirit

15. tUnE-yArDs - w h o k i l l

16. Destroyer - Kaputt

17. Fleet Foxes - Helplessness Blues

18. Kurt Vile - Smoke Ring For My Halo

19. Paul Simon - So Beautiful Or So What

20. Kate Bush - 50 Words For Snow

21. Josh T. Pearson - Last Of The Country Gentlemen

22. James Ferraro - Far Side Virtual

23. Grouper - A I A (Alien Observer / Dream Loss)

24. Rustie - Glass Swords

25. Radiohead - The King Of Limbs

26. Tim Hecker - Ravedeath, 1972

27. Nicolas Jaar - Space Is Only Noise

28. Wild Beasts - Smother

29. Bill Callahan - Apocalypse

30. Anna Calvi - Anna Calvi

31. The Field - Looping State Of Mind

32. Balam Acab - Wander / Wonder

33. EMA - Past Life Martyred Saints

34. M83 - Hurry Up, We're Dreaming

35. Colin Stetson - New History Warfare Vol. 2: Judges

36. Panda Bear - Tomboy

37. Gang Gang Dance - Eye Contact

38. Björk - Biophilia

39. Thurston Moore - Demolished Thoughts

40. The Black Keys - El Camino

41. Battles - Gloss Drop

42. Drake - Take Care

43. White Denim - D

44. Raphael Saadiq - Stone Rollin'

45. Demdike Stare - Tryptich

46. Frank Ocean - Nostalgia, Ultra

47. Iceage - New Brigade

48. Arbouretum - The Gathering

49. Toro Y Moi - Underneath The Pine

50. Washed Out - Within and Without

23 de dezembro de 2011

Kosmische Kosmetik XXX

A maneira mais fácil de definir os dois grupos musicais surgidos da comuna artística Amon Düül é a seguinte: uns sabiam tocar, os outros não. Uns elevavam o activismo político e a total liberdade experimental, outros aprimoravam a técnica e a complexidade musical. Falo hoje dos segundos, conhecidos como Amon Düül II.
Os anos 60 aprimoravam radicalismos, políticos, artísticos, filosóficos. A comuna sediada na Alemanha Ocidental dava o exemplo, convindo lembrar que foi dela que surgiram as bases do famigerado grupo terrorista Rote Armee Fraktion, igualmente conhecido como Baader-Meinhof. Mas podemos separar o trigo do joio, pois os Amon Düül II eram gente de paz. Relativamente. Quem escutou a sua música e viu os seus espectáculos, notou certamente que o conceito de ordem passava por mergulhar no caos.
Iniciaram o seu trajecto discográfico em 1969, com uma obra-prima alucinada chamada Phallus Dei (literalmente, O Falo de Deus), uma das pedras basilares do krautrock. Ao segundo disco, Yeti, alcançaram o estatuto de lenda. As quatro partes que (de)compõem Soap Shop Rock precipitam-se sem alerta, como uma bátega psicadélica pronta a encharcar-nos até aos ossos. O som sujo e pouco polido do rock de garagem funde-se a vozes transviadas e divaga livremente. Um violino em marcação cerrada durante todo o tema sobrevem, magnânimo, no quarto andamento - Flesh-Coloured Anti-Aircraft Alarm - e a orgia sonora termina como começou.
She Came Through the Chimney levanta uma brisa folk, que acaba por evoluir para uma aragem de violino desvairado e órgão sem travões. O tremendo Archangels Thunderbird devolve-nos aos braços da electricidade. Cerberus volta a raptar-nos para paisagens campestres intoxicantes. Estas intermitências entre a calma e a tempestade perduram por todo o disco. O tal caos organizado que só faz sentido quando não parece fazer sentido nenhum... e em que a liberdade escoa sem limites nem imposições estéticas. The Return of Ruebezahl, o poderoso Eye-Shaking King e Pale Gallery sucedem-se numa rajada de tempo difícil de cronometrar, impossível de controlar. A fechar, uma trindade de longas improvisações: os esmagadores Yeti, Yeti Talks to Yogi e Sandoz in the Rain. Três odisseias sónicas que levaram rock e folk onde poucos se atreveram a ir. Três panaceias para almas que estejam a levar a vida demasiado a sério e necessitem de bloquear o pensamento para abrir os poros da mente à sensação, a algo escuro mas libertador.
A capa de Yeti merece, obrigatoriamente, referência. O ceifeiro de vidas (em alemão, der sensenmann) que a ilustra dava pelo nome de Wolfgang Krischke, técnico de som da banda que morreu de hipotermia sob os efeitos do LSD. Este episódio tenebroso ajuda a acentuar ainda mais a atmosfera negra e densa do álbum, ao mesmo tempo que a icónica fotografia perdurou ao longo dos anos como uma das imagens de marca, quer dos Amon Düül II, quer do próprio folclore krautrock. Que o diga Julian Cope, cuja obra de culto Krautrocksampler a ostenta na capa. Abominável somente no título, Yeti persiste como um ritual envolvente e louco, que nos tira de uma espécie de nada para nos levar a uma vaga ideia de tudo.

5 de dezembro de 2011

Kosmische Kosmetik XXIX

Dentro do Dream Syndicate, Tony Conrad expandiu as possibilidades da música até ao infinito. Ludibriando o tempo, o colectivo norte-americano caracterizou-se pela teoria e prática dos drones, recorrentes do minimalismo e das alquimias de John Cage, suspensos em horas imperceptíveis e minutos intermináveis. Igualmente conhecido como Theatre of Eternal Music, o projecto vanguardista editou várias obras de referência em que participaram, para além de Conrad, nomes maiores como John Cale, La Monte Young ou Angus MacLise. Os volumes que compõem a trilogia Inside the Dream Syndicate são hoje bíblias das aventuras musicais vividas em Nova York nos anos 60.
Fora do Dream Syndicate, o primeiro registo a solo (ou quase) de Tony Conrad surge somente em 1973. Apoiado pelos fracturantes Faust, grava com estes no rural retiro da banda em Wümme. E a contra-cultura da banda alemã cai que nem ginjas nas estratégias do americano.
Outside the Dream Syndicate é o ponto onde o drone minimal e o krautrock radical se encontram. From the Side of Man and Womankind parece começar já a meio, em tom funéreo, com uma processional batida motorik. A monotonia rítmica, meditativa - provável fonte de desconforto para tímpanos incautos - entranha-se aos poucos, revelando pequenas nuances e subtis mudanças de tom. A estrutura é semelhante à da música indiana, mas aqui a cítara dá lugar a violino, baixo, bateria e órgão ocasional. É música microtonal, que corre ao sabor de uma só nota por largos períodos, apenas para sofrer uma ligeira inflexão no seu curso sonoro. E a nossa mente resvala com ela, se nos abandonarmos ao sabor da corrente...
From the Side of the Machine é menos sonâmbula, mais circular, igualmente absorvente. Em vez de linhas rectas, baixo e bateria traçam elipses que se reabrem ao serem fechadas. Opressiva e libertadora em simultâneo, a progressão do tema propicia alucinoses, derivativas da linhagem psicadélica que educou os seus executantes. O tempo não passa como o tempo deveria passar dentro desta narcose musical. A esfera da realidade é permeável...
From the Side of Woman and Mankind encerra a primeira edição em CD de Outside the Dream Syndicate. Rondando, como os seus pares, a meia-hora de duração, trata-se do primeiro tema do disco reflectido ao espelho, de violino restringido. A segunda dose de minimalismo cósmico, servida em prato sem fundo.
A edição comemorativa do trigésimo aniversário do disco, posta na rua em 2003, acrescentou-lhe mais dois extras, fruto das mesmas sessões: The Pyre of Angus Lies in Kathmandu e The Death of the Composer Was in 1962. Ambos remetem para a elegia do compositor e amigo de Conrad, Angus MacLise. Drasticamente mais curtas na duração, variam igualmente na forma. A primeira propaga os drones indo-minimais do grosso do álbum; a segunda inclina-se para o avant rock, assemelhando-se a um concubinato nada descabido entre os Faust e os Velvet Underground.
Ostracizado e desvalorizado por alturas do seu lançamento original, Outside the Dream Syndicate recuperou actualmente o lugar merecido. Pela exploração do minimalismo no rock, por brincar com o fogo e não ter medo de arder, por estar muito à frente do seu tempo. Música de sonho fora do sindicato do sonho...

2 de dezembro de 2011

Back in Black

Godbluff assinala o regresso dos Van der Graaf Generator, após um hiato de quatro anos. O seu antecessor, o monstruoso Pawn Hearts, pôs ponto final à primeira fase da existência da banda britânica. A separação, amigável, levou o líder Peter Hammill a mergulhar a solo em águas mais profundas, resultando nalgumas das suas obras mais romanticamente escuras e sonicamente extremas. Os seus três colaboradores constantes editariam apenas um longa-duração durante este interregno - um disco totalmente instrumental, sereno e atmosférico, nos antípodas dos VdGG e sob o pseudónimo The Long Hello.
Juntos novamente em 1975, os anjos negros do rock progressivo evoluíram e convergiram para uma sonoridade mais densa e coesa, revelando um certo abandono pela complexidade técnica a favor de sólidas ambiências. Num renascimento ponderado e subtil a partir de despojos bombásticos e viscerais, os VdGG de Godbluff voltaram mais sombrios que nunca. Mas sempre incatalogáveis, sem cedências e sem precisarem de guitarras para serem electrizantes.
Desta vez, será a música a descrever-se a si própria. Um imortal concerto captado na Bélgica em 1975, guardou para a posteridade a interpretação integral dos quatro temas de Godbluff. Este será, igualmente, o documento definitivo para apreciar os ingleses no início da sua melhor e mais prolífica fase - no espaço de um ano editariam ainda a obra-prima Still Life e o mais abrasivo World Record. Que as luzes se apaguem e se dê início ao espectáculo...

30 de novembro de 2011

Lusofonia VII

António Ferreira parece colocar-nos à vontade quando assina o seu primeiro álbum como Tózé Ferreira. Mas o que se ouve em Música de Baixa Fidelidade é uma quietude inquieta, densidade de sons que evocam uma melancolia negra, pós-industrial. O artista apresenta-se com um diminutivo, mas a sua criação é hiperbólica.
Datado de 1988, Música de Baixa Fidelidade mantém-se como um dos discos mais desconcertantes e fascinantes do panorama contemporâneo português. A sua concepção inicia-se na Holanda, onde Ferreira, então estudante de Sonologia, cria amizade com o texano Rodney Washka II. Dessa frutífera troca de ideias surgiriam as peças More Adult Music e This is Music, as it was Expected, exercícios computorizados que sustentam a récita de dois textos pelo americano. Na primeira, a abstracção sintética, esparsa e atonal funciona como prolongamento das palavras, uma narrativa circular tão surrealista como impenetrável. A segunda assemelha-se a uma pregação apocalíptica, que se arrasta, monocórdica, sobre um escuro e penetrante circuito sonoro, como se as palavras se esgotassem nas máquinas e estas acabassem por prevalecer.
As cinco composições restantes do disco são inteiramente instrumentais. A mão humana é praticamente imperceptível, dado que todas são o resultado de uma complexa equação de computadores, samplagem e sintetizadores. Música programada, em que o computador interage com o criador, ajudando-o no processo, artificialmente intuitivo. Evoca Robert Ashley e faz pensar num Morton Subotnick mais contido. Abraça elementos da musique concrète e projecta harmonias em regime matemático. O Verão Nasceu da Paixão de 1921 brota de processadores melancólicos, criando atmosferas de beleza rara, quase alieníngena. Algumas Pessoas Olharam para Sul e Viram o Deserto é feita de ecos e sopros puramente sintéticos. Máquinas com nervo, que parecem tocar-nos com a ponta dos seus terminais e mostrar-nos o vazio do ciberespaço. Um Som, Seguido de uma Cena Negra e Malva acrescenta um piano de contornos Cageianos e aproximações melódicas à electrónica experimental dominante, mas a frieza cerebral e a ambiência laboratorial nunca lhes cedem terreno.
A Força Silenciosa do Possível e Europa, Depois da Chuva não fizeram parte da edição original em vinil. Foram integradas na versão em CD lançada em 2003, aquela que realmente interessa ter. Apesar de possuírem a mesma genealogia, revelam-se mais ásperas e escuras, invasivas de desolação electroacústica. São o exemplo perfeito da baixa fidelidade e da sua estranheza soturna e desapegada.
Música de Baixa Fidelidade varia entre o estudo académico das possibilidades dos computadores como órgãos reprodutivos de música e o próprio acto de experimentar a criação. O seu eco ressoa pela electrónica periférica de muitos projectos actuais, quer dentro, quer fora de portas, mas não há amor como o primeiro e a paixão de António Ferreira revelou-se tão exploratória quanto assolapada.

28 de novembro de 2011

Lusofonia VI

1977 foi o ano em que o punk destronou definitivamente o rock progressivo, criando uma nova ordem musical que relegou quaisquer lampejos sinfónicos para a obscuridade. Mas, se as tendências ditadas no Reino Unido declaravam que era melhor ser Pretty Vacant como os Sex Pistols que ouvir as Wonderous Stories dos Yes (e lá isso é verdade...), o burgo lusitano vivia por esta altura o seu idílio progressivo.
Editado nesse ano, Mistérios e Maravilhas dos Tantra é um dos grandes marcos do género em Portugal. Talvez a medalha de prata num pódio cujo lugar cimeiro é, indubitavelmente, ocupado por José Cid e o superlativo 1000 Anos Depois Entre Vénus e Marte. As semelhanças entre ambos começam logo pela história de vida (e de carreira artística) dos seus mentores. Se Cid enveredou pelo caminho que todos conhecemos e o bom gosto lamenta, o vocalista dos Tantra não fez a coisa por menos. Era ele Armando Gama, futura lenda da Eurovisão, futura voz das canções da série infantil Sport Billy e futuro autor (com a esposa Valentina Torres - os John Lennon e Yoko Ono nacionais) de um álbum intitulado Tu Tens Outra...
Voltando a falar de arte, o que se encontra no primeiro disco dos Tantra é música bem pensada, bem tocada e de inegável qualidade. Rock progressivo até à medula, puro e duro, sem fugir um milímetro aos clichés do estilo. E um regalo para os seus apreciadores. Épico, fantasista e imaginativo, Mistérios e Maravilhas não envergonha a nação perante obras dos Genesis ou dos Gentle Giant. Mas a sonoridade, sempre atenta aos aspectos melódicos e polvilhada de arabescos, inclina-se mais para Itália e para terras do Sul. À Beira do Fim é um enorme portal colorido a abrir o disco, pleno de variações de tempo e de ambiências contrastantes. Os quatro elementos dos Tantra revelam não ter medo de mostrar o que valem e atiram-se com unhas, dentes e arrojo a uma peça tão labiríntica quanto límpida. O igualmente teclista Armando Gama só se voltará a ouvir no último tema, o iluminado Partir Sempre, em que a conexão rigorosa e intensa baixo/bateria se deixa entrelaçar pela emotividade da voz e o calor da guitarra.
Se o guitarrista Manuel Cardoso carrega nos ombros um instrumento que parece, por vezes, possuir vida própria, a personalidade vincada de Mistérios e Maravilhas deve-se igualmente à inspiração do baterista Tó Zé Almeida, um mestre das baquetas que ajuda a levar o álbum para os meandros da fusão, atirando-se a um furor jazzístico extasiante em Máquina da Felicidade. Mérito igualmente para Américo Luis, que prova não ter feito figura de corpo presente, arrancando um poderoso e viperino riff no complexo e frenético tema-título. Dois curtos interlúdios (Aventuras de um Dragão num Aquário e Variações sobre uma Galáxia), à guitarra acústica e ao piano, refrescam o disco por entre a torrente abrasadora que o arrasta.
O primeiro álbum dos Tantra foi também o único construído por este exemplar quarteto. Pouco tempo depois da sua edição, Armando Gama saiu do grupo, que, entre o culto e o esquecimento, irrompeu em várias encarnações. Mistérios e Maravilhas continua a ser um dos discos mais marcantes da música portuguesa. Hoje soará um pouco datado, é certo, bem como fruto de um atraso atávico do qual Portugal sempre sofreu em relação a novas tendências externas. Mas há 35 anos revelava o brilho cegante da arte liberta da clausura da ditadura. Um documento histórico feito de idealismo musical.

21 de novembro de 2011

Jazz Core

Durante a primeira metade dos anos 70 do século XX, os Nucleus foram um bastião de bom gosto. Espalharam originalidade, charme, aventura e fleuma britânica ao longo dos seus primeiros discos, ao mesmo tempo que ensinaram o jazz a falar novas línguas.
Apesar dos disfarces, o jazz sempre foi o núcleo do grupo liderado pelo enorme Ian Carr. Ao longo desses verdes anos, de metamorfoses e da erosão das musas, os Nucleus nunca deixaram de jazzar com esmero. Mas também nunca deixaram de flirtar com o psicadelismo, nem abandonaram o sindicato do rock progressivo.
Em 1970, Elastic Rock entra de rompante e, praticamente, funda a cena jazz rock britânica. O primeiro sinal desponta na capa. A cascata lávica que escorre de uma erupção vulcânica, alegoria lógica à fusão. Depois vem 1916, com uma bateria que se estilhaça e lança chispas em todas as direcções. Esta pequena explosão serve de introdução a Elastic Rock, elegante e deslizante peça, desenhada entre sopros quentes e cordas soltas. Striation interrompe o elo, num curto estertor improvisado, ao que se seguem Taranaki e Twisted Track, belíssimos momentos de um jazz nocturno e apaziguador, mas ardente no seu núcleo. Os dois episódios de Crude Blues põem mais achas na fogueira e o jazz vai sendo progressivamente invadido pela energia primária do rock1916 (Battle of Boogaloo) solidifica em definitivo o magma do tema de abertura, fundindo os sopros de Ian Carr e Karl Jenkins à guitarra em espiral crescente de Chris Spedding.
É já na recta final de Elastic Rock que surge o seu tema central, Torrid Zone. É aqui que as influências do Miles Davis desconstrucionista estão ao rubro e que jazz e rock disputam acesamente o troféu da música. Stonescape e Speaking for Myself, Personally, in My Own Opinion, I Think... são curtos interlúdios que assentam na personalidade dos solos mais que em composições estruturadas. O transe fluido e complexo é retomado em Earth Mother, com a recorrente base rítmica das melodias a debitar um vigor escorreito e irrepreensível, tal como sucede na energética conclusão do álbum, a fervilhante Persephones Jive.
Quente, melódica e hipnótica, a primeira obra dos Nucleus será sempre um belo pretexto para aquecer as noites frias. Pouca luz é recomendável, talvez no bar perfeito (aquele que não existe...). Conduzir a horas mortas pela cidade é igualmente um bom método para o absorver. E o disco poderia também chamar-se Elastic Jazz que ninguém daria pela diferença...

9 de novembro de 2011

A Marca Amarela VII

Keiji Haino é um camaleão que pouco muda de cor. Um réptil a preto e branco, que irradia igualmente vários tons de cinzento. Move-se discretamente pela música desde os finais dos anos 70, mas projecta uma sombra gigante no meio underground. Para além de ser alavanca de diversos projectos mais ou menos fugazes (como os Knead ou os excelentes Vajra), constam do currículo do japonês colaborações excepcionais com várias individualidades e colectivos consagrados. Destas, merecem especial louvor as gravações com Derek Bailey, Boris e o trio formado com Jim O'Rourke e Oren Ambarchi.
A solo, Keiji Haino detém uma extensa e eclética obra, dezenas de registos que absorvem e regurgitam estilos vários, que vão do rock ao noise, dos blues ao experimentalismo mais inóspito. Tudo filtrado através dos omnipresentes óculos escuros de Haino, resultando numa musicalidade catártica, em que a delicadeza e a aspereza coabitam numa quase esquizofrenia.
Os vários tons de cinzento supracitados não significam que podemos retirar aleatoriamente qualquer obra a solo do nipónico para demonstração das suas artes. Apesar da aparente imutabilidade do estilo, há nuances que os demarcam. A escolha (pessoal e subjectiva) para levantar um pouco do véu negro e translúcido da música  de Keiji Haino recaiu sobre I said, This is the Son of Nihilism - disco de 1995, reeditado em 2003 e com a chancela de qualidade da Table of Elements.
É um delírio com uma hora de duração, comparável ao infame Metal Machine Music de Lou Reed ou aos drones de Stephen O'Malley e do igualmente nipónico Merzbow. A guitarra, hoje e sempre o instrumento de eleição do músico, precipita-se em queda livre, em direcção às trevas, em danação sonora. A acompanhá-la, apenas a voz de Haino, liberta de palavras, num lamento intermitente de anjo caído. Um quarto de hora depois, a queda é amortecida e amparada por mão invisível, o peso transforma-se em pena, o suplício extingue-se. A guitarra adopta a posição fetal, a música é intra-uterina, a voz um suspiro gritado. A partir daqui, a sucessão entre ordem e entropia instala-se. À paz ilusória segue-se a catarse e o nada sobrevém nos momentos finais da peça. E assim uma guitarra, deixada sozinha no escuro, dá à luz o niilismo...

A Marca Amarela VI

É um dado adquirido que a música electrónica moderna em todas as suas variantes não existiria sem os Kraftwerk. O sopro da vida que injectou animismo às máquinas partiu dos alemães, mas foi no Oriente que elas assumiram o estatuto de hedonismo programado. Tudo graças a um colectivo de Tóquio conhecido como Yellow Magic Orchestra. Trio visível mas quarteto mascarado (Hideki Matsutake foi sempre um quarto elemento, escondido na ostra dos artifícios sonoros...), a electrorquestra nipónica foi pioneira no surgimento e expansão de toda a música de dança, bem como da pop electrónica assente em melodias suculentas.
O nome mais sonante do grupo foi, sem dúvida, Ryuichi Sakamoto. Musicalmente ubíquo e influente desde então, forma um triângulo equilátero com os seus pares Haruomi Hosono e Yukihiro Takahashi, uma geometria artística que projecta a Yellow Magic Orchestra como um monolito coeso. 1978 é o ano da afirmação, com a edição do primeiro e marcante álbum homónimo, preenchido por temas coloridos e imaginativos e pela recorrente tendência para a miscelânea entre sons orientais e ocidentais (Firecracker é um magistral exemplo...). 1979 depura o material e traz ao mundo o provável grande clássico da YMO: Solid State Survivor.
Technopolis entra a matar, sem vergonha de ser melódica e despudoradamente dançante. Contra olfactos não há argumentos e aqui sente-se o perfume disco futurista do insígne Giorgio Moroder. Absolute Ego Dance aumenta os níveis de energia, sustém os níveis de melodia e deve ter feito muito japonês pular de excitação nas caves de Tóquio por estes dias... Day Tripper é uma hilariante versão electrónica do clássico dos Beatles, quase tão demencial como a desconstrução que os Devo exerceram sobre (I can't get no) Satisfaction dos Rolling Stones. Mas Solid State Survivor não vive só de irreverência e alegria desbragada. O prazer físico do disco é, acima de tudo, um prazer mental. O tema-título conjuga ambos na perfeição e faz-nos imaginar os Kraftwerk possuídos pelo espírito de uma noite na lendária Studio 54. A roçar o sublime, Rydeen e Behind the Mask são clássicos absolutos da electrónica, temas samplados e remisturados até à exaustão desde a sua génese, mas imbatíveis e indissociáveis do seu génio original. Castalia e Insomnia testemunham a rara lentificação do álbum e aproximam-se da geografia característica das paisagens ambientais. Duas micro-delícias, coisas perfeitas que só os japoneses conseguem produzir tão bem em formato tão diminuto.
Solid State Survivor é um disco multiusos, um trajecto ambíguo. Tanto nos pode transportar para o imaginário arcaico dos jogos para ZX Spectrum como para a Tóquio iluminada/desolada de Lost in Translation. É muito provável que alegre a existência de miúdos e graúdos. Foram os Yellow Magic Orchestra os Kraftwerk nipónicos? Sim, mas com o expressionismo exuberante de um temaki sushi...

21 de outubro de 2011

Santa Aliança

Foram as estradas do minimalismo que ali os levaram. John Cale, músico clássico transformado pela electricidade e visceralidade do rock e Terry Riley, músico clássico infectado pelo jazz livre e pelos sons do Oriente, encontraram-se num vértice em 1970. Aí lançaram a primeira pedra na fundação de Church of Anthrax, disco cooperativo que apenas viria a luz do dia passado um ano. E a pedra basilar de Church of Anthrax é a música minimal. Tanto Cale como Riley eram dois dos mais proeminentes seguidores desta corrente, professando ensinamentos derivativos das suas experiências com John Cage ou o fundamental Theatre of Eternal Music, em que militavam igualmente nomes como Tony Conrad ou La Monte Young.
Após ter sido despedido dos Velvet Underground, John Cale iniciou uma frutuosa carreira a solo, iniciada em 1969 com o excelente e estranhamente acessível Vintage Violence. Terry Riley trazia na bagagem os recentes e imprescindíveis A Rainbow in a Curved Air e In C, duas obras-primas da música de vanguarda dos anos sessenta. A miscelânea de ideias dos dois homens origina um disco que parece ser rock composto por músicos clássicos, bem como música clássica tocada como se fosse rock. O regime minimalista é a única coisa que não arreda pé de Church of Anthrax. Assim como a toada progressista das peças, futuristas na forma, suspensas no tempo em que se desenrolam.
O disco abre com o tema-título, que se ergue em rasgos desiguais de Hammond e saxofone, contrastando com a cadência repetitiva e quase obsessiva do ritmo. À medida que os minutos passam, a intensidade aumenta, numa espiral arrasadora, semelhante ao voo de um insecto confinado a um espaço diminuto. Uma placidez estática instala-se com a chegada do belo The Hall of Mirrors in the Palace at Versailles. Piano e saxofone degladiam-se introspectivamente, mas nunca de costas voltadas. A música parece eterna, sentindo-se a aproximação conceptual às ragas indianas. E o amplo salão de espelhos do Palácio de Versalhes materializa-se perante nós, interminável e majestoso, num magnífico chiaroscuro musical.
The Soul of Patrick Lee constitui o momento mais diletante do álbum. A única canção, vocalizada por um misterioso Adam Miller, cujo timbre é, em muito, idêntico ao de John Cale. Ficará para sempre a dúvida se este Adam Miller não é mais que o próprio Cale em registo aveludado, ou um desconhecido escolhido pela similariedade na voz. A canção, essa, destoa do que vem para trás e do que se seguirá. É um curto interlúdio vocal, no que geralmente costuma ser instrumental. Uma bela melodia, contemplativa e melancólica, que tresanda ao Cale da primeira fase por todos os lados. O disco retoma o seu curso normal com Ides of March, um longo e veemente exercício minimal, tão cerebral como apelativo ao movimento. O feeling jazzístico transborda livremente, tornando esta a peça onde a improvisação é raínha e senhora. The Protegè, quinto e último tema, é, por sua vez, aquele onde o rock mais se ingere. Guitarra, baixo e bateria servem de suporte para um piano destemido e gingão, que nos retira de idílios meditativos e nos devolve às ruas.
Um dos charmes de Church of Anthrax acaba por ser a procura de sintonia, que ora se alcança, ora se esfuma, entre duas almas pouco gémeas mas muito inspiradas. Algures entre o erudito e o vernáculo, é um disco sem falhas, ilustrativo de facetas menos exploradas de dois músicos cujo talento e influência são sobejamente conhecidos.

15 de outubro de 2011

Memories of a (Free) Festival

Terminou há exactamente uma semana mais uma edição do Out.Fest. Nunca tinha passado tanto tempo no Barreiro como nos cinco dias desta celebração de música exploratória... Do princípio (com Alexander von Schlippenbach, que recuperou o trio do seminal Pakistani Pomade de 1976, associando-se em palco aos excepcionais Evan Parker e Paul Lovens) ao fim (com uns Oneida a cilindrar até às quatro da madrugada o público resistente), o evento foi um éden para as mentes musicais mais afoitas. Dos drones martirizantes de Stephen O'Malley aos blues ruminantes e apocalípticos de Bill Orcutt, passando por uma excelente folie a deux entre Sei Miguel e Norberto Lobo, houve lugar para tudo um pouco. E para todos um pouco.
A surpresa mais agradável talvez tenha sido o projecto KWJAZ, do solitário Peter Berends. Ocasional colaborador dos excelentes Rangers, este norte-americano pratica uma sonoridade algures entre os lavores mais pacatos de Conrad Schnitzler e as coloridas hipnagogias de James Ferraro. Em suma, electrónica cerebral com laivos de emoção e ritmos ocasionais.
Vale a pena perscrutar o único registo até à data desta enigmática entidade. Dividido em duas peças, Once in Babylon e Frighteous Wane, está directamente prescrito a quem pretenda acrescentar estados hipnóticos e semi-letárgicos à sua dieta mental. A primeira tranche é servida em salva hipnagógica, como se memórias de uma noite festiva dos anos 80 tivesse sobrevivido em animação suspensa para o que dela resta ser reanimada cem anos depois. Fora de tempo, fora de sítio, a tentar fazer sentido nas nossas cabeças. A segunda imerge até ao pescoço em lodaçais de electrónica incógnita, com breves tragos do dub cósmico que o mestre Dieter Moebius tanto gosta de oferecer (coincidência ou não, foi ele o cabeça de cartaz na noite de KWJAZ...) e mais samplagem rebuscada de um passado qualquer.
Damo Suzuki, o mais lendário vocalista dos mais que lendários Can, também esteve no Barreiro. Tive o imenso prazer de conversar largos minutos com ele e de perpetuar o encontro. Mais tarde, pouco percebi das palavras que o pequeno gigante entonou em palco. Mas, perante a intensidade dos mantras eléctricos debitados, isso não interessa para nada. Obviamente, foi um enorme e extasiante concerto...

No Place Like Home

Mais logo, haverão manifestações. Pacíficas ou quezilentas, envoltas em algazarra ou num silêncio ensurdecedor, elas espalhar-se-ão por todo o mundo como metástases de mal-estar. Algo parecido com uma mensagem será difundido, os receptores farão dela a interpretação que quiserem. Esperemos que essa mensagem seja correctamente direccionada para a oligarquia que governa as nossas democracias. Porque vivemos num tempo em que o poder democraticamente eleito, seja qual for a sua facção, se encontra subjugado a um governo de poucos que realmente detem o verdadeiro poder: o financeiro. E há que reclamar o que é nosso por direito e universal porque não tem proprietário. Passada a confrontação, fica uma metáfora do que está em jogo...


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