A noite cai e os mistérios adensam-se. As públicas virtudes cedem aos vícios privados. O que dantes era inócuo torna-se assustador após ser tomado pelas sombras. As ruas esvaziam-se, tornando-se corredores fantasmagóricos a céu aberto. O único calor provém do néon despersonalizado. Entre-se num carro e acenda-se um cigarro. Conduza-se sem destino pelas artérias nuas da cidade nocturna. Olhe-se de soslaio para portas abertas que dão para um vácuo de luz vermelha; para luzes azuis que banham apartamentos incógnitos. Mergulhe-se no escuro, sem outra companhia que não seja um som que nos molde e verga à sua alienante desolação urbana: o som dos Bohren & der Club of Gore e do seu Sunset Mission (2000).
Aqueles que antes fervilhavam de energia em grupos hardcore alemães, fecharam-se no casulo de um jazz negríssimo, que percorre ruas desconfiadas rumo ao bar mais fumarento e inacessível da nossa fértil imaginação. Nos dois primeiros discos da banda, Gore Motel e Midnight Radio, foi possível ouvir guitarras. A partir daqui, emergiu um quarteto de saxofone, piano, baixo e bateria, a tocar jazz como se fosse doom metal. Denso como basalto e escuro como uma noite em que a Lua se limitou a ser voyeur oculta por um manto de nuvens carregadas, Sunset Mission coloca a atmosfera de Mullholand Drive na lugubridade de Blade Runner. Peças longas arrastam-se pela noite interminável e opressiva. Uma noite soturna, mas igualmente sedutora, feita de olhos que se fixam em câmara lenta e vultos que se insinuam na escuridão protectora. De Prowler a Dead End Angels, passando por Midnight Walker ou Nightwolf, as diferenças são poucas, uma discreta soma de subtilezas laborada para um todo de ambiências arrastadas mas pungentes. Um jazz noir que convida à vadiagem solitária fora de horas, fora de portas, à introspecção que se encontra no fundo de um copo de whisky e no aproximar da chama a um cigarro adormecido. Um trago mais profundo e é provável que a languidez entorpecente da música faça o Diabo soprar ao ouvido a sua língua sibilina e o que foi introspecção passe a ser tentação... O pecado não mora ao lado. Mora aqui.
6 de fevereiro de 2012
Enologia
Brian Eno é um dos nomes mais consensuais e influentes no espectro musical dos últimos 40 anos. E o mais pitoresco é que o britânico nunca foi um músico. Descrever a vida de uma personagem tão intrigante e fascinante não é tarefa fácil, mas foi o propósito a que David Sheppard se lançou em On Some Faraway Beach: The Life and Times of Brian Eno.
Obra cujo título nomeia uma das mais belas e expansivas criações de Eno, presente no seu disco de estreia, Here Comes The Warm Jets, este tomo constitui uma leitura interessante e um poderoso retrato de uma existência lendária. Aparece-nos recheado de histórias que todo o melómano instruído conhece mas nunca se cansa de relembrar, assim como de peripécias e pormenores sumarentos mas ocultos para a maioria dos seus seguidores. Rica em detalhes e abrangente no percurso narrado, On Some Faraway Beach é uma biografia pessoal e artística mais que recomendável e que honra em absoluto o génio extraordinário de Brian Eno.
2 de fevereiro de 2012
Leonard Cohen A.C.
Antes das canções, Leonard Cohen era apenas um escritor. Um poeta ainda por consumar a sua união com a música. Agora que o digníssimo Old Ideas, a mais que provável despedida discográfica do canadiano chega aos escaparates, porque não olhar para trás, muito para trás, e recordar o homem no tempo em que era movido apenas pelas palavras?
Em 1965, ano do filme documental Ladies and Gentlemen... Mr. Leonard Cohen, a sua escrita era já relativamente famosa. Constavam da sua obra literária antologias poéticas como Let Us Compare Mythologies e romances como The Favorite Game. A película traça um retrato descontraído e informal de Cohen, algo idiossincrático relativamente ao imaginário solene e melancólico que a maioria idealiza. Em vários momentos, descobrimos até o talento cómico à solta do criador de Songs of Love and Hate. Porque Leonard Cohen não se esgota na música e porque as palavras foram sempre o núcleo das suas canções, este documentário é um retrato de vivacidade.
Em 1965, ano do filme documental Ladies and Gentlemen... Mr. Leonard Cohen, a sua escrita era já relativamente famosa. Constavam da sua obra literária antologias poéticas como Let Us Compare Mythologies e romances como The Favorite Game. A película traça um retrato descontraído e informal de Cohen, algo idiossincrático relativamente ao imaginário solene e melancólico que a maioria idealiza. Em vários momentos, descobrimos até o talento cómico à solta do criador de Songs of Love and Hate. Porque Leonard Cohen não se esgota na música e porque as palavras foram sempre o núcleo das suas canções, este documentário é um retrato de vivacidade.
31 de janeiro de 2012
Capitania
Já passou mais de um ano desde o falecimento de Captain Beefheart. Mais um motivo para recordar um imortal. The Artist Formerly Known As Captain Beefheart é um pequeno mas belíssimo documentário que traça o percurso de Don Van Vliet desde o despontar musical até ao ocaso dos palcos e dos discos para abraçar de vez a pintura. O amigo de infância e errante companheiro de percurso Frank Zappa foi um dos ilustres participantes, assim como vários intervenientes da estrondosa Magic Band. Outro imortal ficou encarregue da narração: John Peel, o melhor arauto de sempre das boas novas musicais. Now, let's get booglarized again!
30 de janeiro de 2012
Kosmische Kosmetik XXXII
O berlinense Zodiak Free Arts Lab foi um dos míticos locais em que a música alemã inflectiu para a pós-modernidade. A atmosfera de psicadelismo underground impregnava as paredes e o espaço encontrava-se pejado de instrumentos para livre utilização dos frequentadores. O experimentalismo e o improviso eram fomentados e a casa serviu de rampa de lançamento para muitos nomes incontornáveis do krautrock, tais como Ash Ra Tempel, Agitation Free e, acima de tudo, Tangerine Dream.
Para além do futuro Cluster Hans-Joachim Roedelius, o recentemente malogrado Conrad Schnitzler foi um dos fundadores do Zodiak. Juntamente com Wolfgang Seidel e o engenheiro de som Klaus Freudigmann, Schnitzler formou os embrionários Eruption, plantando, em 1970, uma das sementes mais obscuras e radicais da kosmische musik e que veria a luz do dia somente em 2006.
Eruption é construído nas ruínas de uma Alemanha devastada pela guerra e dominado por ambiências industriais e pós-apocalípticas. A expansividade cósmica que Schnitzler conseguiu pela mesma altura em Electronic Meditation, o primeiro álbum dos Tangerine Dream, é aqui substituída pelo caos controlado do experimentalismo licencioso. O som é inóspito e agressivo, investindo como uma nuvem negra carregada de ecos e distorções, ritmos despedaçados, borrascas de guitarra, violino espectral e vozes inumanas.
Os sete temas que compõem o disco não possuem nome próprio e são indivisíveis do todo desta equação sonora. Um longo e frio manto cinzento cobre o ouvinte, como uma viagem em primeira classe pela desolação. Ao invés das flutuantes e hipnóticas sagas cósmicas do futuro, foram a electrónica punk e arquitectura industrial que começaram a ser desenhadas aqui. Lambidas as feridas, o espaço seria a fronteira final para a sublimação...
28 de janeiro de 2012
Voz Baixa
Para além dos seus seis filhos, Karlheinz Stockhausen foi considerado o pai da música electrónica e da música espacial, bem como um dos maiores vultos revolucionários da música contemporânea. Personagem sempre polémica e nunca consensual, levou o seu génio inequívoco a patamares próximos da loucura e da megalomania. Os seus detractores afirmam que o que ele produziu não pode ser entendido como música; os seguidores apontam que não haveria modernidade sem as suas arrojadas e transgressoras composições. As estranhas percepções de Stockhausen nunca foram igualmente discretas, ficando conhecidas tiradas como o 11 de Setembro ter sido a maior obra de arte jamais concebida ou ele próprio ter origem extraterrestre, sendo a sua música ponte de comunicação com civilizações para lá do nosso Sistema Solar...Da vastíssima paleta do compositor alemão, retiro hoje uma das peças mais esparsas e frugais. Stimmung, de 1968, é uma obra feita para seis vocalistas e seis microfones. Encontra-se dividida em 51 pequenas secções, que raramente excedem os dois minutos de duração. Em cada uma delas, um solista incia um fragmento de melodia a que os outros se procuram juntar. Logo que a consonância seja alcançada, é a vez de outra voz iniciar o mesmo processo. Na linguagem de Stockhausen, muito simples. Deuses astecas, aborígenes e gregos são nomeados ao longo dos excertos, entremeados com poemas de amor do próprio compositor. A história de Stimmung começa numa viagem ao México, onde Stockhausen vagueou pelas ruínas das civilizações pré-colombianas, inspirando-se e tornando-se um dos seus. De volta a uma pequena casa de praia nos Estados Unidos, as memórias da experiência transformaram-se em música. O Inverno era rigoroso e o trabalho de composição guardado para a noite. Com a mulher e os dois filhos pequenos perto, Stockhausen laborava em surdina, o que resultou no registo baixo e nocturno de Stimmung. Nas palavras do autor: Nothing oriental, nothing philosophical: just the two babies, a small house, silence, loneliness, night, snow, ice (also nature was asleep): pure miracle! Felizmente há Inverno...
Clockwork Pop
Regressar ao advento da pop electrónica continua ser o regresso ao futuro. Ao futuro que nunca existiu e que residiu no imaginário de sonhadores sintetizados. O consistente documentário Synth Britannia, com a habitual chancela de qualidade da BBC, conta a história de um período agora relegado para o nicho das memórias, mas por onde passaram todos os que nasceram nos anos 70. Foi a génese da música industrial pelas mãos dos Cabaret Voltaire ou Throbbing Gristle. E a ponte para a electrónica moderna através dos Human League, Depeche Mode ou New Order. O dano colateral seriam os neo-românticos, mas a dose de infiltração tocou a todos. E se eles transformaram a electrónica totalitária dos Kraftwerk em glamour robótico e vídeos glossy, servem agora de inspiração não pela música, mas pelo que sonharam. Quem nunca pecou que atire a primeira pedra...
O Canterbury
Pode ser apenas uma cidade (bem bonita, por sinal) do sudeste britânico, mas reuniu em tempos (involuntariamente ou não) uma certa vanguarda musical que ainda hoje predispõe bem. Ficarão para a eternidade associados a Canterbury nomes como os Soft Machine, Caravan, Gong ou Hatfield and The North. Outros, como os Matching Mole, foram pontos de paragem na viagem por esta suculenta sonoridade. A sua vida foi curta, mas selou um clássico do rock progressivo dos anos 70 em Inglaterra.
Acabado de editar o seu primeiro álbum a solo, o exploratório End of an Ear, e ainda a despertar do sonho diurno que foi a primeira encarnação dos Soft Machine, Robert Wyatt acolheu no seu regaço três membros da nata das natas do tal som de Canterbury. Eram eles o teclista David Sinclair (dos Caravan), o guitarrista Phil Miller (dos Delivery) e um excelente músico de estúdio chamado Bill MacCormick, especializado no baixo. Wyatt, como sempre, tomou conta da bateria e emprestou o timbre único da sua voz. O nome do projecto, que foi igualmente o título do seu primeiro álbum, era uma variação estilística das palavras Machine Molle, a tradução para francês de Soft Machine.
1972 foi o ano da estreia. Uma estreia auspiciosa, que floriu como uma rosa, mas que logo murchou. O quarteto toca com ganas, interage por instinto, comunica por osmose. Os recursos estilísticos são típicos dos arquétipos de Canterbury: Elasticidade interpretativa, inventividade rock, criatividade jazz e a mescla única de melodia e complexidade para o topping de um disco belo e bizarro.
Quem resiste a O Caroline resiste a tudo. E não tem alma. De todas as sublimes criações com o cunho de Robert Wyatt, esta é uma das mais admiráveis. Uma canção de amor e de perda, inusitadamente luminosa, como se o objecto de desejo continuasse a viver em nós depois de ter partido e o elo de ligação persistisse. Provavelmente teríamos um fabuloso compêndio de canções de amor light se o álbum prosseguisse nesta toada, mas não estava na mente desta gente dar descanso ao ouvinte. Instant Pussy instala-se, com felino langor e o embalo oceânico da voz de Wyatt. Abre a porta para o magnífico Signed Curtain, canção com cabeça, tronco e membros, mas em que todos trocaram de posição. A letra é surreal, a música um rebuçado.
Part of the Dance tira-nos em definitivo da zona de conforto, presenteando uma longa jam de jazz e rock entrelaçados pelos cabelos. A expedição adensa-se em Dedicated to Hugh, But You Weren't Listening . Beer as in Braindeer, cuja progressão aventureira apenas encontra descanso na clareira rock com coda sibilante de Instant Kitten. Entre a aridez e a melancolia, o mellotron de Immediate Curtain encerra o pano.
O fugaz agrupamento editaria no mesmo ano mais um disco antes da dissolução: Matching Mole's Little Red Record, uma espécie de sucedâneo do primeiro registo, largamente instrumental, bom companheiro, mas nunca arrebatador. Meses depois, Robert Wyatt sofreria um acidente que acabaria com a sua vida enquanto baterista. Os Matching Mole arderam de uma vez, mas o infortúnio deu ao mundo um dos mais geniais e peculiares escritores de canções dos últimos 40 anos.
Acabado de editar o seu primeiro álbum a solo, o exploratório End of an Ear, e ainda a despertar do sonho diurno que foi a primeira encarnação dos Soft Machine, Robert Wyatt acolheu no seu regaço três membros da nata das natas do tal som de Canterbury. Eram eles o teclista David Sinclair (dos Caravan), o guitarrista Phil Miller (dos Delivery) e um excelente músico de estúdio chamado Bill MacCormick, especializado no baixo. Wyatt, como sempre, tomou conta da bateria e emprestou o timbre único da sua voz. O nome do projecto, que foi igualmente o título do seu primeiro álbum, era uma variação estilística das palavras Machine Molle, a tradução para francês de Soft Machine.
1972 foi o ano da estreia. Uma estreia auspiciosa, que floriu como uma rosa, mas que logo murchou. O quarteto toca com ganas, interage por instinto, comunica por osmose. Os recursos estilísticos são típicos dos arquétipos de Canterbury: Elasticidade interpretativa, inventividade rock, criatividade jazz e a mescla única de melodia e complexidade para o topping de um disco belo e bizarro.
Quem resiste a O Caroline resiste a tudo. E não tem alma. De todas as sublimes criações com o cunho de Robert Wyatt, esta é uma das mais admiráveis. Uma canção de amor e de perda, inusitadamente luminosa, como se o objecto de desejo continuasse a viver em nós depois de ter partido e o elo de ligação persistisse. Provavelmente teríamos um fabuloso compêndio de canções de amor light se o álbum prosseguisse nesta toada, mas não estava na mente desta gente dar descanso ao ouvinte. Instant Pussy instala-se, com felino langor e o embalo oceânico da voz de Wyatt. Abre a porta para o magnífico Signed Curtain, canção com cabeça, tronco e membros, mas em que todos trocaram de posição. A letra é surreal, a música um rebuçado.
Part of the Dance tira-nos em definitivo da zona de conforto, presenteando uma longa jam de jazz e rock entrelaçados pelos cabelos. A expedição adensa-se em Dedicated to Hugh, But You Weren't Listening . Beer as in Braindeer, cuja progressão aventureira apenas encontra descanso na clareira rock com coda sibilante de Instant Kitten. Entre a aridez e a melancolia, o mellotron de Immediate Curtain encerra o pano.
O fugaz agrupamento editaria no mesmo ano mais um disco antes da dissolução: Matching Mole's Little Red Record, uma espécie de sucedâneo do primeiro registo, largamente instrumental, bom companheiro, mas nunca arrebatador. Meses depois, Robert Wyatt sofreria um acidente que acabaria com a sua vida enquanto baterista. Os Matching Mole arderam de uma vez, mas o infortúnio deu ao mundo um dos mais geniais e peculiares escritores de canções dos últimos 40 anos.
19 de janeiro de 2012
Bruxa Boa
Em 1979, Marianne Faithfull era um anjo caído nos Infernos. Uma diva esfarrapada, imersa em drogas e álcool, a viver num pardieiro londrino sem água quente nem luz eléctrica. Longe iam os tempos do diáfano rosto de menina que cantava As Tears Go By e ostentava Mick Jagger como namorado. Presa nas malhas dos excessos, vagueando de homem para homem (ou de Rolling Stone para Rolling Stone...), Marianne tropeçou e caiu num poço negro e sem fundo. A premente influência sobre Jagger & Richards empalideceu com o passar do tempo e os glamourosos anos 60 deram lugar a uma lúgubre década de 70. Por entre tentativas de suicídio, a crescente espiral do vício e a excomunhão pelo Vaticano, a cantora londrina morreu como fada e ressuscitou como bruxa.Broken English é uma lavagem de roupa suja e uma lavagem da alma. Intenso e cortante, não permite que ninguém saia ileso das suas crónicas dolorosas e amargas. Os efeitos nefastos da religião dão visados no elegíaco Guilt, enquanto que Witches' Song remete de imediato para a sua condenação pela Igreja como bruxa. O eterno presente do drogado reflecte-se em What's The Hurry? e o disco punk sombrio do magnífico tema-título inspira-se no terrorismo.
Marianne Faithfull participou apenas em três das composições do disco, todas elas com a parceria do guitarrista Barry Reynolds. A aposta nas versões é extremamente bem-sucedida em Working Class Hero, de John Lennon, e The Ballad of Lucy Jordan, de Shel Silverstein. A primeira é um gélido retrato da classe trabalhadora, quase gótico na sua austeridade. E, por falar em austeridade, nada como ouvi-lo enquanto se lê o recente acordo de Concertação Social. A segunda bifurca-se numa história que tanto pode ser a de uma dona de casa desesperada como a de uma louca suicida. Banha-se em electrónica etérea e esparsa. Why d'Ya Do It? leva ao extremo o clima desencantado do álbum. Relato de traição, é o espelho límpido da Marianne endemoniada, cuspindo bílis e rimas vernáculas com uma voz de corvo que outrora foi rouxinol. É a voz de uma mulher num mundo despido de qualquer romantismo. E a desgraça dela foi, uma vez mais, o nosso folguedo...
12 de janeiro de 2012
Kosmische Kosmetik XXXI
Uma história do Homem, da sua evolução e crescimento tecnológico. Eis o conceito de Planet of Man, o único legado deixado pelo projecto Code III. O objectivo é ambicioso, mas nada despropositado para a Alemanha de 1974. Klaus Schulze é o nome que sobressai nesta obra, mas foi o recatado Manfred Schunke, um animal de estúdio, o seu verdadeiro arquitecto. A narrativa sonora é sequencial e principia com Formations/The Genesis. A alegoria é perfeita, partindo de uma amálgama de electrónica cósmica e caótica, lentamente ordenada, ciclicamente depurada. Estranhas vozes ecoam e o espaço sem vida cede aos sons de uma natureza edénica e incorrupta. Ouvem-se pássaros, o mar, e uma guitarra entra de mansinho. Flauta e voz harmonizam-se depois para criar um todo envolvente e ensopado em psicadelismo folk. Segue-se Dawn of an Era, de paladar menos doce após o idílio que a precedeu e assente num tribalismo primário e denso. É notório o retrato das primeiras civilizações, talhado com rudeza, batuques com arritmia e cantos ritualísticos. Transparece uma aura de comunicação elementar com o sagrado.
O álbum termina com outra dupla: Countdown/Phoenix Rising. Somos recebidos por uma raga, hipnótica, conjugada a vozes que entram e saem sucessivamente, colocando a desordem sobre a serenidade. Uma mudança brusca e somos banhados numa espécie de dub cósmico, primeiro a meio-gás e depois acelerado. Uma voz feminina entoa palavras ininteligíveis, uma voz masculina esmaga-a sem aviso. O que se ouve nestes minutos é indecifrável e quase indescritível. Chamemos-lhe apenas fabuloso. Se pretende ser o som de uma sociedade à beira do desmoronamento, consegue-o brilhantemente.
Outra clivagem súbita e o disco mergulha num silêncio escuro. As vozes que antes se ouviam com limpidez, surgem agora lamacentas, imersas num pântano sonoro. Aos poucos, vislumbra-se um despertar electrónico, um coração que bate frouxamente. E o disco termina com a simbólica fénix, majestosamente erguida, como o final de uma ópera cósmica.
Depois deste monumento, o nome Code III desvaneceu-se e Planet of Man singrou como disco de culto, um dos maiores marcos da kosmische musik mais aventureira e radical. É hoje considerado uma raridade, extremamente difícil de encontrar, mas imprescindível de possuir. Aos corajosos, recomendam-se headphones e ausência de luz para o ouvir.
8 de janeiro de 2012
Ageless
David Bowie entra hoje na terceira idade. Mas o que significa isso para alguém nunca teve idade, ou identidade, ou tempo? A sua ausência torna-o mais presente que nunca. O seu silêncio ecoa. Voltará para reinventar-se ou superar-se outra vez?... Cada um tem a sua fase preferida do Camaleão. Esta é a minha:
2 de janeiro de 2012
O Renegado
Se o rock'n'roll encarnasse num corpo, esse corpo seria o de Ian Fraser Kilmister. Conhecido pelas massas como Lemmy, o inglês é uma das maiores lendas vivas da música, parecendo ser sempiterno e imutável. Iniciou-se nas lides nos anos 60, década que assistiu à sua passagem por várias bandas, dos quase desconhecidos The Rockin' Vickers aos psicadélicos Sam Gopal, cujo único álbum editado - Escalator, de 1968 - ainda hoje merece umas boas audições. Pelo meio, foi ainda roadie de Jimi Hendrix e seus Experience.
O primeiro momento de projecção surge com o ingresso nos Hawkwind, os space rockers alucinados aos quais emprestou a voz e o seu peculiar estilo de tocar baixo. Despedido em 1975 após prisão por posse de drogas, Lemmy concebe o projecto que ainda hoje possui o dom de pôr várias gerações a fazer headbanging: os poderosos e inimitáveis Motörhead. Grupo normalmente associado ao heavy metal, não se esgota absolutamente neste rótulo. Os Motörhead são muito mais que isso e tocam uma franja muito mais abrangente: foram dos poucos colectivos que passaram intactos pela explosão do punk em Inglaterra, sendo mesmo idolatrados e emprestando elementos da sua imagem e estilo ao movimento. Os rockabillies adoram-nos. E qualquer melómano que se preze não pode deixar de admirar a sua garra, longevidade e influência. Lemmy tem 66 anos, mas não tem vontade de abrandar. Tem a raça, a mística e o eterno humor de alguém que nunca fez nada que o deixasse desconfortável ou infringisse a sua natureza. Há uns tempos foi o actor principal do seu próprio filme. Mr. Rock'n'Roll já o merecia e nós já o merecíamos.
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