6 de abril de 2012

Omelete Progressiva

Como estamos a chegar à Páscoa, é oportuno falar dos Egg. Uma banda rock sem guitarras, que habitou o planeta entre 1970 e 1974. Ao comando estava Dave Stewart, mago virtuoso do órgão, que, na companhia do baixista Mont Campbell e do baterista Clive Brooks, espargiu alguma da música mais original dos cânones do rock progressivo. Juntando a essa base elementos clássicos, jazzísticos e ramificações da cena de Canterbury, o trio londrino conjurou um melting pot que apraz relembrar. E o segundo álbum da banda é a melhor forma de o fazer.
Após um promissor primeiro disco - Egg - que apalpava terreno e brincava com várias possibilidades musicais, chega em 1971 The Polite Force. E com ele unem-se as pontas soltas. Mais conciso e focado, coloca os Egg no seu próprio pedestal e delimita-os dos seus pares da época, nomeadamente os Emerson, Lake & Palmer, dos quais pareciam ser uma espécie de versão mais espinhosa. É, em suma, um disco imponderável, dos melhores exemplares da espécie Canterbury.
A Visit to Newport Hospital, tema que dá o pontapé de saída a The Polite Force, captura na perfeição a essência dos Egg. Irrompe e desvanece-se em toada hard rock, o que não deixa de ser bizarro, pois o que soa a guitarra são as teclas de Dave Stewart. Obviamente, o virtuosismo deste não passa despercebido ao longo da peça, vindo à tona em absorventes e complexos trechos individuais. O que sobra é Canterbury vintage, uma canção que, liricamente, resume a história da banda. A seguir à relativa bonança deste arranque, espera-nos a visita cerebral e descompassada de Contrasong. Mais uma equação que uma canção, este estranho exercício baralha e confunde, sem melodia definida, com sopros pelo meio e vestígios da improvisação a regra e esquadro dos Henry Cow. Boilk acentua a queda no abismo da experimentação. Tijolo a tijolo, vai sendo erguido um muro de ruídos vários e improváveis. Aparenta ser um pedaço esquecido de Ummagumma dos Pink Floyd que nos veio visitar sem aviso prévio. E eis que a atmosfera demencial se extingue ao som de Bach: Durch Adams Fall 1st Ganz Verdebt. Que tanto salva da loucura como pode ser o passo definitivo para não se sair dela...
Long Piece no. 3 é a viagem definitiva proporcionada por The Polite Force. Uma maratona progressiva instrumental em quatro partes, remendadas entre si e ricas em variações. As influências clássicas estão lá, como sempre, mas distorcidas e desmembradas. A diferença entre os Egg e os grupos progressivos mais excessivos e teatrais reside aqui: o virtuosismo e o domínio perfeito dos instrumentos faz-se sem show-off. O objectivo é provocar novas sensações e não prender o ouvinte numa teia sonora da qual não se consegue libertar. Provavelmente a qualidade que distingue a maioria das bandas associadas a Canterbury...
Os Egg editariam ainda The Civil Surface, álbum póstumo, em 1974. Tal como os dois pares que o antecederam, é um disco bastante aconselhável e inventivo. Mas The Polite Force será sempre primus inter pares.

Poker de Dados


É sempre bom assistir ao regresso controlado da electrónica analógica. Na sua artificialidade, é a que soa mais real. Cativa por ser esquiva e pela hipnose latente. É certo e sabido que a Alemanha criou uma escola neste estilo, encabeçada por nomes lendários como Kraftwerk, Tangerine Dream, Klaus Schulze ou Cluster. A palavra espalhou-se ao longo das últimas décadas e o pulsar cósmico e flutuante desta música tornou-se revolucionário, foi considerado ultrapassado e, nos últimos anos, tem sido novamente objecto de expedições e discreta ribalta.
Da Suécia chegam os Roll the Dice. Composto por Peder Mannerfelt e Malcolm Pardon, respectivamente um sueco e um inglês fixado em Estocolmo, o duo começou por editar um discreto mas sólido álbum de estreia em 2010. Roll the Dice, o disco, movia-se pela tundra da electrónica minimal e semi-improvisada, num filme sónico espacial. 2011 delapidou o som e a edição de In Dust trouxe a consolidação de um projecto a seguir com atenção. O sentido produtor de Peder Mannerfelt (que participou no excelente álbum de estreia de Fever Ray) encontra-se aqui mais apurado e o disco perde um pouco da amálgama sideral do seu antecessor. Parece dividir-se entre vertigens urbanas e a ambiência electro-pastoral dos Cluster. Tanto um como o outro são objectos imperdíveis para os que gostam de surfar pelas vagas da electrónica analógica que se levantaram em terras germânicas. Consta que, ao vivo, são igualmente pungentes e o impacto visual é forte. Só o Benfica me poderia impedir de os ver anteontem no Maria Matos... Ficam o toque à distância e os dois álbuns completos para desbravar aqui.

 

18 de março de 2012

Kosmische Kosmetik XXXV

O septeto Cornucopia, proveniente de Hamburgo, é mais um caso exemplar dos anos de ouro do underground teutónico. Após a edição do seu único álbum, Full Horn, em 1973, a banda desvaneceu-se em parte incerta e foi apenas retirada da teia de aranha das memórias em 2002, ano da reedição da pérola solitária que legaram.
Full Horn não surpreenderá os connaisseurs do krautrock. Mas atraí-los-à. Levitando entre o caótico, o esquisito e a fusão, desmembra-se em quatro capítulos que incorporam rock psicadélico, influxos jazzísticos e grooves à moda de Zappa. Entretém o cérebro e foge do aborrecimento como o Diabo da cruz.
Day of a Day-Dream Believer abre o disco de forma imponente. Um delírio esquartejado em nove partes, deambulando entre o maníaco, o excessivo e as retiradas introspectivas. Um must para os amantes de bizarrias sónicas. Contrastando radicalmente com este enorme zeppelin inflamado, segue-se Morning Sun. Curto e directo, evoca a ideia de alemães a passar férias nas praias da Califórnia e cheira a single que nunca saiu das sombras. Spot on You, Kids lança-nos novamente em órbita, num azimute perfeito entre o krautrock de denominação de origem controlada e os floreados imprevisíveis de uns Mothers of Invention. É um doce cataclismo que se abate sobre nós, fustigando-nos com uma mão e acariciando-nos com a outra. And the Madness... irrompe e fecha o disco da forma mais alucinante possível. Um exercício surreal de corte e colagem que, a meio caminho, se transforma num cortejo elegíaco.
Full Horn é mais um disco voador do seu tempo. Um tempo sem restrições criativas e barreiras conceptuais. Tempo da Alemanha que se emancipava como entidade capaz de passar o rock pela picadora e transformá-lo numa linguagem única na sua visão mas num esperanto musical acessível aos aliados do seu progresso.

14 de março de 2012

... Explicit Content

É impossível falar de stand-up comedy sem falar de Bill Hicks. Especialmente quando nomes que ainda mexem, como o anteriormente falado Denis Leary, lhe devem tanto (No caso de Leary, até demasiado, pois rezam algumas crónicas que este roubou muitas das suas ideias a Hicks - coisa feia no mundo da comédia...).
Bill Hicks foi único e um marco na sua geração. Para além dos lendários espectáculos ao vivo, deixou vários registos discográficos imperdíveis como Dangerous ou Relentless. Morreu no pico dos seus poderes em 1993, com apenas 32 anos, deixando para a posteridade outras duas gravações imprescindíveis: Arizona Bay e Rant in E-Minor, às quais a música adicionada veio acentuar ainda mais a força das palavras.
Hicks revolucionou o modo de fazer comédia. Deixou de ser apenas um tipo a debitar piadas em frente de uma audiência, para passar a interagir directamente com ela e torná-la parte integrante das suas actuações. Dizia as verdades que ninguém queria ouvir e punha o dedo nas feridas mais incómodas. Não é à toa que lhe chamaram The First Rock n' Roll Comic. O registo que se segue, intitulado Revelations, não será o melhor de Hicks. Também não será o pior, pois rareiam momentos maus. Trata-se do seu último espectáculo em Inglaterra, quando já padecia da doença que o vitimou, mas que não lhe tirou o génio e a mordacidade. Comédia, à séria.

Parental Advisory...

Tal como em todas as artes, existe igualmente humor intemporal. Aquele que se inspira nos imutáveis ridículos, fraquezas e idiossincracias do ser humano e que assenta que nem uma luva em tempos agrestes como o que nos coube suportar actualmente. Humor negro para tempos negros, é isso que podemos encontrar na obra do norte-americano Denis Leary. Homem dos sete ofícios no que toca às câmaras, Leary alicerçou a sua notoriedade pelos controversos e bombásticos espectáculos de stand-up comedy. Não poupando nada nem ninguém à sua visão sardónica e corrosiva do mundo em geral e da sociedade americana em particular, performances como No Cure for Cancer ainda arrancam risos escandalizados. Quem conseguir, que conte o número de cigarros fumados e cervejas ingeridas durante esta actuação, simultaneamente temas e adereços usados por Leary enquanto arrasa com o politicamente correcto qual bulldozer desgovernado.
No Cure for Cancer data de 1993 e foi editado em filme, livro e disco. Um improvável caso de sucesso tendo em conta o teor da mensagem e que, apesar de um pouco datado nesta ou naquela piada, ainda é capaz de convencer as mentes mais taciturnas, deste que sejam abertas...

13 de março de 2012

Som Só


A presença flutuante de Nick Drake assemelha-se a uma vela sozinha no escuro, cuja chama tremeluzente nunca se extingue. A morte visitou-o prematuramente, aos 26 anos, ceifando uma existência frágil e hermética, mas cujo testamento artístico foi monumental.
Em três dos discos mais belos, melancólicos e solitários que a Humanidade já conheceu, Nick Drake tornou-se o trovador do isolamento, cortando laços com o mundo exterior para conviver com o silêncio dos bosques e o murmúrio do vento, deambulando em autismo musical pelos trilhos de um Outono perpétuo. Five Leaves Left, Bryter Layter e Pink Moon são o arquétipo da folk mágica e romântica, uma música que arrebata pela beleza triste e pela simplicidade elegante. Ao longo destas três obras, assistimos ao desabrochamento, ao florescimento e à murchidão de um artista de enorme talento mas parcas capacidades de lidar com ele e fazê-lo singrar. Avesso a entrevistas, concertos e demais aparições em público, o reclusivo Drake quis apenas ficar a observar o mundo da janela, mas as suas sensíveis criações tornaram-se parte do mundo de muita gente.
Em A Skin Too Few: The Days of Nick Drake, o holandês Jeroen Berkvens conseguiu um fiel retrato do mítico músico britânico. Este documentário de 2002 traça o seu percurso pessoal e artístico, sustentando-se em depoimentos de familiares, amigos e companheiros de armas musicais. Até hoje, continua a ser imbatível e um precioso artefacto para juntar aos demais que lhe são dedicados. Escusado será dizer que o culto é imortal...

29 de fevereiro de 2012

Kosmische Kosmetik XXXIV

Os Ejwuusl Wessahqqan (tentar dizer três vezes seguidas sem se enganar) são mais uma pérola da Alemanha obscura. Oriundos da bávara Munique, editaram um único disco durante a sua quase desconhecida existência. Álbum de culto na verdadeira acepção da palavra, Ejwuusl Wessahqqan (1975) constrói o seu ninho no ramo mais estouvado e anárquico do krautrock. O caos é quem mais ordena dentro deste registo, um caos orientado, torrente de música sem limites de espaço e tempo, mas que nos enlaça. Alienantes e fascinantes na mesma dose, as longas jams do álbum podem ser incluídas na linhagem dos Amon Düül II, Gila ou Guru Guru.
Die Geborstenen Kuppeln Von Yethlyreom é o primeiro raid. Irrompe em combustão espontânea e deflagra vertiginosamente, com guitarras em ebulição e teclados entre o transe e o vaudeville demoníaco dos Doors. A hipnose varia mas prossegue os seus intentos na segunda peça, Die Orangefarbene Wüste Südwestlich Von Ignarh. Igualmente longa, mas comparativamente mais lenta, vagueia como procissão psicadélica em terras remotas. Há que destacar a presença preponderante do filouphone, instrumento artesanal de sete cordas, criado e tocado por Renè Filous, e que soa a uma guitarra com expressões orientais.
Ninguém se pode queixar de falta de variedade em Ejwuusl Wessahqqan. Ao terceiro tema, Thuloneas Körper, surge nova inflexão estilística, desta feita para uma curta e melódica composição, bela mas desfasada do que veio e do que está para vir. Hobbl-Di-Wobbl retorna às digressões psicadelicamente assistidas, alastrando-se em alucinação por mais de um quarto de hora. Satisfação garantida para apreciadores...
Em 1996, a editora especialista em recuperar estes achados arqueológicos - Garden of Delights - editou o disco acrescentando-lhe quatro faixas bónus. Nenhuma delas se enquadra verdadeiramente no espírito do alinhamento original, mas exigem audição. Passaceety e AFN são mais rock progressivo que krautrock, duas peças de estremecimento sinfónico que remetem para uns Egg ou uns Emerson, Lake & Palmer menos aburguesados e mais intrépidos. The Crystal e La Mer são temas de outro grupo surgido posteriormente, os Koala-Bär. Estes não são mais que os Ejwuusl Wessahqqan revistos e diminuídos para três membros dos cinco originais. The Crystal é o único tema vocalizado, uma canção psicadélica clássica e espacial, muito ao estilo dos conterrâneos germânicos Eloy; La Mer emana ecos etéreos, uma ária cósmica e escapista.
O nome Ejwuusl Wessahqqan foi retirado de uma obra de ficção científica. Eles próprios foram uma, demasiado reais para serem duvidados, demasiado fantasistas para se confinarem às fronteiras do possível.

Kosmische Kosmetik XXXIII

Se dúvidas subsistissem acerca da importância da fugaz existência dos Dzyan, Electric Silence existe para dissipá-las. O terceiro álbum da curta discografia do colectivo alemão, sucessor do mui celebrado Time Machine, é um cheio e colorido exemplo da salada sonora que nutria muitas bandas germânicas dos anos 70.
Psicadelismo de inspiração californiana, space rock, abundância de jazz e afluências étnicas são os ingredientes principais deste composto. Totalmente instrumental, o disco de 1975 dos Dzyan é uma mistura de sensação e razão, um híbrido entre a música livre de amarras e as amarras do virtuosismo.
Back To Where We Come From parece um OVNI que aterra no coração de uma floresta virgem, desbravando a folhagem e a calma selvagem com ondas eléctricas e vibrações jazzísticas. A Day In My Life  lembra o título do enorme tema dos Beatles, mas o conteúdo não podia ser mais díspar. Rodopio de cítaras e ritmo extático, traz à baila o costumeiro ideário indo-cósmico, tão querido por algumas bandas deste período e (aqui particularmente) tão bem emulado. A extravagância assenta arraiais em The Road Not Taken. O nome diz tudo. Aqui não há nada a associar a uma estrada, quanto muito um trilho adverso a caminhantes, um atalho musical extremo e inesperado a cada esquina. A tortuosa travessia desemboca em Khali e, com ela, retornam as cítaras e emerge uma espiritualidade exótica, reminiscente dos Popol Vuh.
For Earthly Thinking é a peça mais expansiva de Electric Silence. Ritualística e intrincada, expele ecos de cerimónia budista sob o efeito de alucinogéneos. Arrasta-se por estranhas passagens e culmina num clímax de  jazz arreganhado. O tema-título chega no fim, miscelânea psicadélica entregue a devaneios de guitarra e improvisos sincopados. Difícil de ouvir, como tudo o resto neste disco, mas singularmente apelativo. Electric Silence é coisa para nos aproximarmos com cuidado, mas de ouvidos bem abertos...

10 de fevereiro de 2012

Rave Back


Em noite de frio glacial, nada como lembrar tempos quentes. De Verões sem fim e splashes de cor derramados como latas de tinta. O elixir da eterna juventude que se bebeu na fugaz era da Madchester. 
Manchester era uma cidade mais cinzenta que o Barreiro. De repente, graças ao génio de indivíduos como visionário patrão da Factory Records Tony Wilson e à música contagiante e viva de bandas como os gloriosos Stone Roses, os intoxicantes Happy Mondays, a cidade estava no centro do mundo. Foram quatro anos que mudaram uma geração, as festas, as roupas, as drogas e em que o rock começou a ser dançante bebendo das celebratórias raves. As saudades nunca partem, mas é sempre possível reavivar memórias...

 

Estilo de Vício


A revista Vice atravessa actualmente o seu período de adolescência. O que acaba por ser irrelevante numa publicação que sempre se caracterizou por grandes doses de irreverência e a dose q.b. de controvérsia. Nascida no Canadá em 1996, a Vice espalhou-se pelo mundo, ao mesmo tempo que se manteve gratuita. Portugal tem igualmente a sua delegação, sediada no Porto.
A cultura pop em todas as suas facetas constitui o móbil principal da revista. Mas é o lado underground que se destaca sempre, na música, no cinema, na fotografia e em todas as outras temáticas abordadas. A Vice possui igualmente uma pequena editora discográfica - a Vice Records - que editou, entre outras, gravações dos sempre recomendáveis Black Lips e Death From Above 1979. Um canal próprio de televisão online, de nome VBS.tv, opera desde 2007, funcionando como uma extensão dos assuntos que dominam a publicação escrita e espraiando-se por temas políticos e da actualidade. Como sempre, o estilo é muito próprio e o tipo de jornalismo transcende as normas do género.
Feita de e para um público alternativo, hipster (se é que isso ainda existe...), crítico e esclarecido, a Vice continua a ser uma colorida brisa primaveril no Inverno monocromático da cultura corporativa.

9 de fevereiro de 2012

Ressonância Magnética



Imagine a radio station like no other. A radio station that makes public those artworks that have no place in traditional broadcasting. A radio station that is an archive of the new, the undiscovered, the forgotten, the impossible. That is an invisible gallery, a virtual arts centre whose location is at once local, global and timeless. And that is itself a work of art. Imagine a radio station that responds rapidly to new initiatives, has time to draw breath and reflect. A laboratory for experimentation, that by virtue of its uniqueness brings into being a new audience of listeners and creators. All this and more, Resonance104.4fm aims to make London’s airwaves available to the widest possible range of practitioners of contemporary art.
Resonance104.4fm is the world’s first radio art station, established by London Musicians’ Collective. It started broadcasting on May 1st 2002. Its brief? To provide a radical alternative to the universal formulae of mainstream broadcasting. Resonance 104.4 fm features programmes made by musicians, artists and critics who represent the diversity of London’s arts scenes, with regular weekly contributions from nearly two hundred musicians, artists, thinkers, critics, activists and instigators; plus numerous unique broadcasts by artists on the weekday “Clear Spot”.

Este é o manifesto de intenção de uma das melhores rádios da actualidade, a londrina Resonance FM. Pouco mais se pode acrescentar à política da emissora, senão realçar a qualidade das temáticas. Desafiante e abrangente, a oferta programática da rádio abraça os estilos mais variados e díspares, exibindo rubricas dedicadas ao dub, ao metal mais extremo e à música contemporânea, entre muitas outras possibilidades extra-musicais. E é, em absoluto, música para os nossos ouvidos saber que tudo está ao alcance de um click aqui...

8 de fevereiro de 2012

Acid Heirs

Muito pouco se sabe dos Liquid Sound Company. Apenas que são texanos, filhos bastardos de John Perez - guitarrista dos metaleiros Solitude Aeternus - e praticantes de música baptizada com ácido lisérgico. Desde o primeiro álbum que transmitiram a ideia de serem uma aparição fugaz, mas eis que já editaram três. Em 16 anos...
Ainda existem doidos assim. Gente que revisita os labirintos psicadélicos e se perde lá dentro com gozo. Os Liquid Sound Company não fazem a coisa por menos e dedicam-se a dar continuidade ao space rock dos Hawkwind e Pink Floyd e à acidez flower power mais introspectiva. O primeiro disco data de 1996, intitula-se Exploring the Psychedelic e a capa tem-no escrito na testa.
O cenário expande-se em guitarras que oscilam entre tranches planantes e zunidos fuzz, mística oriental e viagens estelares sem partida nem destino. A levitante Let the Incense Drift e a deliciosa Golden Gate '67 são uma boa montra da forma como esta trupe trata as guitarras, a primeira com dolência, a segunda com encanto eléctrico. A Splash of Color e Ride the Coaster Pyramid são os temas mais directos, rock elaborado e melódico, mas envolto em loucura controlada. Loucura que se torna desbragada em Swallow, sucedâneo trippy do stoner rock. Mas as maiores explorações psicadélicas são os fantásticos Mesmerizing the Eye e Sadhana Siddhi. Longos e penetrantes, elementos orientais brotam e florescem, baixando-nos as resistências e obrigando-nos a seguir a sua hipnótica odisseia.
Novo álbum só surgiria em 2002. Se o título e a capa intuem que os Liquid Sound Company não mudaram, o conteúdo chacina qualquer delator. Inside the Acid Temple ataca uma vez mais em todas as frentes, começando em Cubehead (que parece misturar Hawkwind e Queens of the Stone Age), passando por The Art of Ecstasy (mais guitarras tratadas com paixão) e terminando no transe rítmico e minado por efeitos externos do tema-título. Tal como no primeiro registo, a voz assemelha-se estranhamente a um Iggy Pop intoxicadamente introspectivo e o belo desempenho nas seis cordas remete para outro herói do psicadelismo moderno, o brilhante japonês Michio Kurihara.
O resto continua a oscilar entre o físico (The Gospel According to Robert A. Hull) e o espiritual (Unfolding). Basta olhar para títulos hiperbólicos como The League for Spiritual Discovery Lives ou Preparation for the Psychedelic Eucharist para descortinar o que se passa dentro do templo ácido. E o que decorre é uma cerimónia bela, mas que nem todos conseguirão experienciar...
Quando se pensava que o nome Liquid Sound Company tinha desaparecido tão rápida e misteriosamente como tinha surgido, eis que os norte-americanos retornam em 2011 com outro meteorito. Acid Music for Acid People é um nome que lhe cai bem. E é o disco mais pesado até agora, uma catadupa de temas crús mas com todos os nutrientes da sonoridade do grupo intactos. Guitarras que soam a cítaras, bateria que soa a tambura, efeitos do arco da velha e sons que não se sabe bem de onde vêm, mas que parecem ser de uma galáxia distante. Morning Sun é a única composição que não excede os seis minutos de duração. Um interlúdio mínimo e cintilante, que contrasta com as desmedidas carburações ácidas de Liquid Sound Freedom Agitation Free. Um álbum que detém uma música com este nome nunca pode ser mau, mesmo sendo Acid Music for Acid People feito à base de outtakes e temas antigos. Altera a mente, mas sem efeitos danosos. Afinal, as iniciais da banda não são LSD, mas sim LSC...