12 de maio de 2012

Águas Profundas

Undercurrents Book

Há uns dias, por razões insofismáveis, senti a necessidade de procurar informação acerca do minimalismo na música e do uso do drone. Como ainda sou do tempo em que os livros eram respeitados como fonte de sabedoria, desprezei a internet e mergulhei de cabeça em The Eternal Drone: Good vibrations, ancient to future, um ensaio de Marcus Boon presente em Undercurrents: The Hidden Wiring of Modern Music.
É uma obra já com uns aninhos. Data de 2002 e foi editada por Rob Young no seguimento do vigésimo aniversário da Bíblia da música pensante, a revista Wire. Os dez anos entretanto passados não lhe pesaram, pelo contrário, tornaram-na académica e essencial para o estudo das correntes mais radicais e obscuras da música. Constituído por diversos ensaios de vários colaboradores em regime full-time ou part-time da revista britânica, Undercurrents explora os últimos 100 anos em transformações que alteraram o curso das artes sonoras. Desafiante e ousado, seguindo a escola da Wire, este conjunto de dissertações é um autêntico jardim de segredos desvendados, uma mistura do mito e da realidade que fizeram a construção e a destruição da música mais revolucionária do século XX. A minha procura fez-me passar os olhos novamente por ensaios fascinantes e consistentes, como Recording Angels: The esoteric origins of the phonograph de Erik Davis ou On The Mic: How amplification altered the voice for good de Ian Penman. Saciante é igualmente a peça sobre a nova música alemã dos anos 70, escrita por Biba Kopf (The Autobahn Goes On Forever: On the road with Kraftwerk, Neu!, Wim Wenders) e a influência da exploração espacial na música é superlativamente narrada por Ken Hollings em The Solar Myth Approach: Sun Ra, Stockhausen, P-Funk, Hawkwind: the live space ritual.
Undercurrents é, actualmente, leitura obrigatória em muitas universidades onde se professam estudos musicais. O que é obra para uma obra tão fora dos cânones convencionais. Que foi estendida a estudantes quando começou por ser de amantes.

11 de maio de 2012

Blue Bell

Every night I tell myself / I am the Cosmos / I am the Wind. Assim arranca uma das canções mais desamparadas de sempre. I am the Cosmos foi a única canção que Chris Bell viu lançada em vida. Um single de 1978 que, não satisfeito pela devastadora demonstração do lado A, apresenta no lado B a canção de amor perfeita: You and Your Sister.
Após partidas e regressos do meio musical, Bell começava a ser notado e reconhecido. Meses depois, o carro que conduzia embateu numa árvore a meio da noite, o homem terminou e começou a lenda.
Chris Bell foi um dos fundadores dos Big Star, mas abandonou o grupo deprimido pela fraca atenção consagrada ao seu álbum de estreia (dizem as más-línguas que o verdadeiro motivo da sua partida foi a maior preponderância que o mais extrovertido Alex Chilton conquistou no seio da banda...). Vagueou pelos Estados Unidos e pela Europa, tocou maioritariamente em bares e deixou um módico rasto de canções gravadas, algumas em conjunto com os seus ex-comparsas dos Big Star. Lutou contra a rejeição das editoras e morreu quando começou a sentir o primeiro lampejo de verdadeiro reconhecimento. Life's a bitch é a única coisa que apraz dizer...
Após anos, as poeirentas maquetes de Chris Bell foram resgatadas. 1992 (2009 em versão deluxe) assistiu ao lançamento do álbum I am the Cosmos, muito graças ao projecto da 4AD This Mortal Coil, cujo álbum Blood, de 1991, incluiu versões deste excepcional tema e do igualmente belíssimo You and Your Sister. Mas o disco vai muito para além destes dois clássicos. É um composto de baladas infecciosas e atormentadas e de temas na veia mais power pop dos Big Star. Consta que Bell era homossexual e que vivia em constante culpa e repressão dos seus instintos. Para além disso, era um depressivo crónico, que se refugiava na heroína e tentava libertar-se de tudo isto através de uma fé cristã acentuada. Uma mente em profundo e permanente desassossego. Better Save Yourself e Look Up reflectem essa espiritualidade quase irracional, duas lindíssimas canções ornadas de dor e desejo de redenção. There was a Light e a obra-prima Speed of Sound são punhaladas de amor, rasgando as entranhas com paradoxal melodia. A lacrimejante Though I Know She Lies arrasa de vez com qualquer coração despeitado. Quem nunca se fechou num quarto escuro a chorar por amor? Eis a banda-sonora perfeita...
Noutro contexto, os temas mais eléctricos (Get AwayI Got Kinda LostI don't Know) descendem em linha directa dos Big Star, especialmente da fase Radio City. Chegam para animar as hostes, são melódicos, directos e robustos, mas não atiram bóia de salvação para os temas mais sofridos e dramáticos de I am the Cosmos. São eles que nos arrastam nesta corrente e nos afogam nas águas turvas da arte turbulenta mas delicada de Chris Bell.

Por triste coincidência, escrevo estas linhas no dia em que perdemos um dos maiores músicos portugueses de sempre, que eu muito admirava e com quem cheguei a trocar umas palavras no velhinho Hot Clube: Bernardo Sassetti. Demasiado cedo e absurdamente. Só lhe posso, humildemente, dedicar este texto.

9 de maio de 2012

Estrela Cadente

Os Big Star ergueram-se, altaneiros, em 1972 com um magistral álbum de estreia. #1 Record era uma Bíblia de pop rock perfeito. Pleno de composições em estado de graça, de melodias doces mas poderosas e comandado pela voz imaculada de Alex Chilton, o disco estava talhado para o sucesso. Mas os Big Star caíram da sua torre mal estruturada. Reagiram à fraca atenção dispensada a uma obra que continha, entre outros, tesouros como Thirteen e The Ballad of El Goodo, reerguendo-se com Radio City. Este regresso, datado de 1974, é considerado hoje um clássico de um género pouco resiliente: o power pop. Foi igualmente laureado pela crítica e está igualmente cheio de excelentes canções (September Gurls, O My Soul, You Get What You Deserve...). Poucos tornaram a ouvir e a estrela voltou a cair.
Reduzidos ao duo Alex Chilton / Jody Stephens, os Big Star entraram em implosão. Reuniram-se em estúdio ainda em 1974 para gravar um novo disco, mas as sessões ficaram para sempre assombradas por infernos pessoais, abuso de substâncias e uma espiral de loucura generalizada. Third, paralelamente conhecido como Sister Lovers, acabou por ver a luz do dia somente em 1978, mas a versão editada em 1992 é considerada a definitiva. É sobre esta que falo hoje.
Third / Sister Lovers é um dos discos mais destroçados, penosos e, em última instância, deprimentes de sempre. É música vagabunda, largada na noite escura para nunca mais voltar a casa. E o mais estranho é que ela própria se alimenta deste romantismo trágico e não quer voltar a porto seguro. Há um monte de músicos de sessão a tocar no disco, mas nem uma orquestra nos píncaros da afinação consegue ludibriar a desolação latente e a auto-sabotagem com que o terrorista Alex Chilton mina as suas próprias criações. Se Pigmalião se apaixonou pela estátua que esculpiu, Chilton parece querer destruir tudo aquilo que compôs. Kizza Me, Jesus Christ e Thank You Friends são o que mais se aproxima dos antigos Big Star. Mas a última, especialmente, é exemplificativa do sarcasmo amargo que brota dos temas mais luminosos.
O mergulho no abismo começa no torpor narcótico de Big Black Car, que tanto pode ser a alegoria de um músico de sucesso transportado na sua limousine como a de um morto transportado num carro funerário e que finalmente encontrou a paz. Sucede-se um ror de temas quase pornográficos na forma como expõem uma alma espancada e ferida de morte. O fantasma demencial de Holocaust nunca deixará de nos acossar nos momentos em que precisamos de algo mais triste que nós. O doce pesadelo de Kangaroo é o trauma de amor que correu mal na nossa adolescência e não mais se dissipou (anos mais tarde foi o primeiro single do projecto This Mortal Coil, que lhe subtraiu desespero e adicionou romantismo). Nightime é a balada de uma relação atormentada. E Take Care, o último tema, aloja-se no nosso coração e derrete qualquer gelo que lá esteja incrustado. Uma canção tão bela quanto frágil, que soa à despedida de alguém que não queremos ver fugir. Inconstante e volátil como é expectável, a edição definitiva de Third / Sister Lovers conta com um total de 18 temas. Por entre originais e versões, a luz e as trevas, fica para sempre o génio mortificado de Alex Chilton, homem com os anjos na voz mas o Diabo no corpo, cuja errática carreira a solo foi sempre reflexo da entrada neste labirinto sem saída. Chilton faleceu em 2010. A sua voz é tão eterna como os anjos.

4 de maio de 2012

Supercordas

A guitarra é o pilar do rock. O falo simbólico que solta ondas eléctricas. O megálito da religião roqueira. Como todos os organismos pulsantes e sujeitos à mão do Homem, a guitarra tem mudado ao longo dos tempos e ao longo das mãos que a domaram. Toscos e génios, virtuosos e espontâneos, todos amam a guitarra à sua maneira. Até quem não tem uma pode sempre matar o desejo no nobre exercício da air guitar, dependendo do seu sentido de ridículo...
It Might Get Loud, documentário de 2008 realizado por Davis Guggenheim (homem cujo currículo fílmico inclui o célebre An Inconvenient Truth), debruça-se sobre a guitarra eléctrica e três grandes figuras eternamente enamoradas dela: Jimmy Page, David "The Edge" Evans e Jack White. Qualquer uma destas personagens dispensa apresentações e o documentário alimenta-se do choque entre as idiossincrasias e as semelhanças entre elas. São três gerações das seis cordas que se sucederam reactivamente. Jimmy Page é o ícone dos anos 70, o gigante que arcava com o peso dos Led Zeppelin e cujas matizes de guitarra variavam entre o bucólico e o orgásmico. The Edge emerge com a inspiração do punk e transforma-se, progressivamente, num rato de laboratório, experimentando sonoridades e arquitectando texturas inovadoras. Mesmo sabendo que os U2 já não são o que eram e que as jactâncias messiânicas de Bono enfadam muita gente, é impossível não admirar um guitarrista desta grandeza. Mas é Jack White quem rouba o filme. Todo ele é mística e surrealismo. O mentor dos White Stripes, Raconteurs e Dead Weather caminha com um pé no rock e outro nos blues. É um branco com alma de negro, que parece ter o espírito infestado de bluesmen do Delta do Mississippi.  E trata a guitarra com a sofisticação de quem exorciza os fantasmas que lhe assombram a alma através dela. Em It Might Get Loud, a guitarra não toca baixinho. Essencial para músicos e não-músicos e roqueiros dos 7 aos 77 anos.

It Might Get Loud from Quieren Rock on Vimeo.

17 de abril de 2012

Kosmische Kosmetik XXXVII

Os Brainticket são, acima de tudo, uma multinacional. Um colectivo krautrock que se espraia pela Alemanha, Suíça e Bélgica. Formaram-se nos finais dos anos 60 e permanecem intermitentemente activos até hoje. Editaram uma série de discos ao longo dos anos, alguns bastante recomendáveis, mas quase todos se desvaneceram entre as brumas da memória. Estariam quase esquecidos, se não fosse por uma particular criação: Cottonwoodhill.
Foi considerado um dos discos mais trippy e alucinados da história do rock. Uma vertigem ácida e incontrolável, que não dá sossego às mentes que seduz, mas que lhes garante uma sensação de escapismo inigualável. Mas, musicalmente, o que guarda este disco para lá do desvario?
Quem começa por ouvir Black Sand pode ficar com a ideia que o LSD é fraquinho. É um tema quase funk rock, teleguiado por órgão e com ritmo encorpado. Quase tudo dentro da normalidade, até que uma voz processada entra em cena para baralhar a pauta. Em Places of Light o caso muda de figura, com a flauta mágica de Joel Vandroogenbroek (igualmente organista e o grande timoneiro do projecto) a massajar os nossos pensamentos e a voz alterada de Dawn Muir a escavar os nossos tímpanos. A seguir, a barafunda instala-se. Do nada, a relativa calmaria da música transforma-se num ataque de pânico. Vidros que se partem, ambulâncias em fuga e uma dupla de guitarra e órgão que anunciam a sua visita. Visita que tão cedo não terminará. Brainticket é um apocalipse lisérgico dividido em três partes. Um engolfo num mar de rock psicadélico, música concreta e, acima de tudo, insanidade desmesurada. A Sra. Dawn Muir surge, a espaços, num misto de paranóia e possessão, o ritmo persistente e maquinal não pára, sons de toda a espécie e feitio bombardeiam-nos ilogicamente e a única forma de parar esta enxurrada é fugir. Ou calar o som. Quem correr o risco de ficar até ao fim (se é que a peça tem um fim...), resistiu ao maior ataque ácido nos anais do rock'n'roll. Os Hawkwind ou os Pink Floyd da primeira fase parecem meninos de escola ao pé destes catedráticos intoxicados.
Ainda hoje Cottonwoodhill consegue ser estranho e perturbador e não é, definitivamente, para paladares mais sensíveis e virgens nestas lides. Na altura do seu lançamento, em 1971, seria certamente a quintessência da alucinação psicotrópica esparramada numa rodela de vinil. O inlay do disco exibe as seguintes notas:
Advice: After listening to this record your friends won't know you anymore.
Warning: Only listen once a day to this record. Your brain might be destroyed!
Discordo da primeira, concordo com a segunda. Que alguém o ponha a tocar bem alto no intervalo dos plenários da Assembleia da República.

16 de abril de 2012

Blue Explosion

Os californianos Blue Cheer eram a banda mais pesada do mundo em 1968. Pegando na visceralidade sensual e tecnicamente perfeita de Jimi Hendrix, depenaram-na do virtuosismo e expuseram apenas as ossadas primitivas do rock. Summertime Blues, o seu primeiro (e praticamente único) grande sucesso continua a ser o tema que melhor os retrata. Original rockabilly de Eddie Cochran, transforma-se em artilharia pesada, com riff de guitarra descaradamente roubado a Foxy Lady de Hendrix. É o tema que abre da melhor maneira o álbum de estreia, Vincebus Eruptum, nesse ano de 68.
A estrutura pesada, tosca e crua que sustenta o disco, fez com que muitos o apelidassem de proto-metal. Os Blue Cheer são, inclusive, considerados os inventores da música metaleira. Mas o que se encontra verdadeiramente em Vincebus Eruptum é um concentrado de blues psicadélicos densos e intoxicados, uma guitarra elevada ao extremo e uma secção rítmica esmagadora. Rezam as crónicas que o nome do grupo adveio de uma marca de LSD particularmente poderosa e isso é um dos condimentos que mais enaltece o seu preparado musical. Da meia-dúzia de temas que compõem o álbum, três são versões duras e a pingar testosterona. Além do clássico Summertime Blues, Rock Me Baby (de B.B. King) e Parchment Farm (de Mose Allison) caem igualmente na ceifeira debulhadora dos Blue Cheer. Mais negros e explosivos, dilaceram totalmente as entranhas dos originais.
Os temas restantes saíram todos da pena (ou será melhor dizer do martelo e do escopro?) do baixista e vocalista Dickie Peterson. O registo não varia muito, preocupando-se pouco com trejeitos sentimentais e muito em propagar labaredas sónicas. Merece especial relevo Doctor Please, em que a distorção e o estrépito contínuos evocam a imagem de uma banda fechada numa garagem esconsa e com as mentes em exaltação lisérgica.
Vincebus Eruptum foi reeditado em 2003 com uma faixa extra, All Night Long. Se muitos rotulam o disco como proto-metal, este tema, curto e grosso, puxa a brasa à sardinha do proto-punk. Todavia, por mais tabuletas que se preguem nos Blue Cheer, a mais correcta é seminal. Basta dizer que, sem a influência deste power trio, não existiriam Black Sabbath, MC5 ou Stooges para acabar de vez com a conversa.

14 de abril de 2012

Idades da Pedra

Em 2007 e em parceria com o canal VH1, a BBC produziu uma série de documentários intitulada The Seven Ages of Rock. Uma breve história do rock contada em sete capítulos e que, no geral, alcançou os seus propósitos.
Da génese do estilo às novas tendências que lutam contra a premissa de que o rock está morto, The Seven Ages of Rock evoca movimentos tão importantes como o Blues-Rock, o Punk e o Rock alternativo. Infelizmente temos que suportar a aerocolia do Rock de estádio, mas o Heavy-Metal acaba por berrar mais alto e fazer-nos esquecê-lo. Excelente é o capítulo dedicado ao Art Rock.
No final, fica a sensação (romântica ou lírica) de que o Rock está bom e recomenda-se. Apetece quase trautear o mestre Neil Young: My my hey hey / Rock'n'roll is here to stay...
















O Fim do Arco-Íris

Terry Riley: A Rainbow In Curved Air; Poppy Nogood and the Phantom Band album coverEm 1967, nem a música contemporânea escapou ao ferrão psicadélico que picava às cegas. Terry Riley, compositor norte-americano inicialmente usurpador das técnicas de Stockhausen, cedo se deixou seduzir pelas novas possibilidades deste período artisticamente ilimitado. O contacto com outro compositor revolucionário, La Monte Young, abriu-lhe as portas da percepção a outras realidades sonoras e essa iniciação acabou por formar um dos pais do Minimalismo.
Foi, então, em 1967 que começou a tomar forma o que, dois anos depois, viria ser A Rainbow in Curved Air. Um magnífico documento em que os padrões do Minimalismo clássico se distorcem pelos ventos do psicadelismo e em que o pensamento livre de Riley musica o que o fascina.
A composição A Rainbow in Curved Air é uma mistura suprema. Uma sonata de electrónica primordial, em que padrões sonoros se sobrepõem uns aos outros, se empurram e entrechocam numa dança livre mas labiríntica. Todos os instrumentos são tocados por Riley, que consegue conjurar uma peça notável em que os espíritos livres do jazz, do Minimalismo e da música indiana são reanimados pelo sopro da vida psicadélica. O som evolui e retrai-se, padroniza-se e renova-se e fica a sensação que esta música joga Pacman com os nossos neurónios.
O crepúsculo baixa sobre Poppy Nogood and the Phantom Band. A explosão colorida de strobes mentais que o precedeu transforma-se em contemplativa abstracção. Remendos intrusivos vão sendo cerzidos à base do tema, mais ou menos até ao final dos primeiros 5 minutos, altura em que a música entra em modo de suspensão, deixando um saxofone penetrante, hipnótico e monástico a sós com o ouvinte. Terry Riley era já conhecido neste período pelos seus All Night Concerts, eventos em que a performance do compositor durava uma noite inteira. Antes dos Festivais de Verão despontarem, foi a única altura em que os espectadores levavam sacos-cama para os concertos... Poppy Nogood and the Phantom Band reflecte bem um pedaço desse pequeno infinito, em que a música parece ser feita para romper o véu do tempo e circular pelo Cosmos ilimitado.
Tal como não existe um pote de ouro no final do arco-íris, não há um pote de ouro no fim de A Rainbow in Curved Air. Começar a percorrê-lo e alcançar o seu final apenas nos enriquece o espírito. E não há riqueza maior...

6 de abril de 2012

Kosmische Kosmetik XXXVI

Pegue-se numa guitarra crua e num órgão mal passado. Adicione-se uma secção rítmica desejosa de largar suor e uma voz disposta a admitir que os blues nasceram na Alemanha. Misture-se tudo sem preceitos e leve-se ao forno à temperatura máxima, para que o cozinhado resulte nos Orange Peel. O equivalente krautrock dos Atomic Rooster ou dos Deep Purple dos primórdios. Dominados por teclados inflamados e um som gordo e saturado, os Orange Peel são a encruzilhada onde o rock alemão dá de caras com os blues em carne viva.
É um mistério o motivo pelo qual muitas das bandas germânicas de finais de 60 e princípios de 70 editaram apenas um disco antes de se sumirem sem deixar rasto. Por um lado, subsiste sempre a curiosidade em saber o que teriam feito e como a sua arte teria evoluído se não se dispersassem. Por outro, ainda bem que o fizeram, pois deixaram como legado obras de culto, achados irrepetíveis.
O único disco dos Orange Peel é um opus de quatro temas, abrasivo e em fúria constante, um caldeirão de emoções que faz atirar a toalha ao chão aos incautos que tentarem lutar contra as suas investidas. You Can't Change Them All, anuncia o primeiro tema. Mas bem que tenta, e é provável que o consiga, pois argumentos não lhe faltam. Trata-se de um épico de peito cheio, debulhando com energia tudo o que encontra pela frente. Toma o freio nos dentes e assume-se como uma das peças mais inflamadas e destabilizadoras de sempre nos anais do krautrock. O incêndio propaga-se em Faces That I Used To Know, intervenção rock curta e concisa, que foca na voz, no órgão e na guitarra os seus pontos essenciais.
Tobacco Road é o mais próximo que podemos falar de krautblues. O Reno transforma-se no Mississippi e a corrente arrasta-nos a velocidade psicadélica. Em We Still Try To Change, os Orange Peel encapsulam as suas práticas num tema só, debitando rock, blues, psicadelismo e desvario sem tréguas nem constrições. Mas tudo embrulhado e oferecido à maneira alemã. Os rodriguinhos aqui são supérfluos. Os disparos são à queima-roupa, sem direito a colete à prova de bala.
Em 1970, altura da edição deste registo, os Orange Peel ajudavam à disseminação do novíssimo e vanguardista rock alemão, juntamente com nomes como Faust, Can ou Amon Düül II. A memória de todos estes mantém-se bem viva até aos dias de hoje. Os Orange Peel, provavelmente os detentores de um som mais pesado e poderoso, se bem que menos arriscado, caíram no esquecimento. Mas a porta da memória está sempre entreaberta e o saber não ocupa lugar...

Omelete Progressiva

Como estamos a chegar à Páscoa, é oportuno falar dos Egg. Uma banda rock sem guitarras, que habitou o planeta entre 1970 e 1974. Ao comando estava Dave Stewart, mago virtuoso do órgão, que, na companhia do baixista Mont Campbell e do baterista Clive Brooks, espargiu alguma da música mais original dos cânones do rock progressivo. Juntando a essa base elementos clássicos, jazzísticos e ramificações da cena de Canterbury, o trio londrino conjurou um melting pot que apraz relembrar. E o segundo álbum da banda é a melhor forma de o fazer.
Após um promissor primeiro disco - Egg - que apalpava terreno e brincava com várias possibilidades musicais, chega em 1971 The Polite Force. E com ele unem-se as pontas soltas. Mais conciso e focado, coloca os Egg no seu próprio pedestal e delimita-os dos seus pares da época, nomeadamente os Emerson, Lake & Palmer, dos quais pareciam ser uma espécie de versão mais espinhosa. É, em suma, um disco imponderável, dos melhores exemplares da espécie Canterbury.
A Visit to Newport Hospital, tema que dá o pontapé de saída a The Polite Force, captura na perfeição a essência dos Egg. Irrompe e desvanece-se em toada hard rock, o que não deixa de ser bizarro, pois o que soa a guitarra são as teclas de Dave Stewart. Obviamente, o virtuosismo deste não passa despercebido ao longo da peça, vindo à tona em absorventes e complexos trechos individuais. O que sobra é Canterbury vintage, uma canção que, liricamente, resume a história da banda. A seguir à relativa bonança deste arranque, espera-nos a visita cerebral e descompassada de Contrasong. Mais uma equação que uma canção, este estranho exercício baralha e confunde, sem melodia definida, com sopros pelo meio e vestígios da improvisação a regra e esquadro dos Henry Cow. Boilk acentua a queda no abismo da experimentação. Tijolo a tijolo, vai sendo erguido um muro de ruídos vários e improváveis. Aparenta ser um pedaço esquecido de Ummagumma dos Pink Floyd que nos veio visitar sem aviso prévio. E eis que a atmosfera demencial se extingue ao som de Bach: Durch Adams Fall 1st Ganz Verdebt. Que tanto salva da loucura como pode ser o passo definitivo para não se sair dela...
Long Piece no. 3 é a viagem definitiva proporcionada por The Polite Force. Uma maratona progressiva instrumental em quatro partes, remendadas entre si e ricas em variações. As influências clássicas estão lá, como sempre, mas distorcidas e desmembradas. A diferença entre os Egg e os grupos progressivos mais excessivos e teatrais reside aqui: o virtuosismo e o domínio perfeito dos instrumentos faz-se sem show-off. O objectivo é provocar novas sensações e não prender o ouvinte numa teia sonora da qual não se consegue libertar. Provavelmente a qualidade que distingue a maioria das bandas associadas a Canterbury...
Os Egg editariam ainda The Civil Surface, álbum póstumo, em 1974. Tal como os dois pares que o antecederam, é um disco bastante aconselhável e inventivo. Mas The Polite Force será sempre primus inter pares.

Poker de Dados


É sempre bom assistir ao regresso controlado da electrónica analógica. Na sua artificialidade, é a que soa mais real. Cativa por ser esquiva e pela hipnose latente. É certo e sabido que a Alemanha criou uma escola neste estilo, encabeçada por nomes lendários como Kraftwerk, Tangerine Dream, Klaus Schulze ou Cluster. A palavra espalhou-se ao longo das últimas décadas e o pulsar cósmico e flutuante desta música tornou-se revolucionário, foi considerado ultrapassado e, nos últimos anos, tem sido novamente objecto de expedições e discreta ribalta.
Da Suécia chegam os Roll the Dice. Composto por Peder Mannerfelt e Malcolm Pardon, respectivamente um sueco e um inglês fixado em Estocolmo, o duo começou por editar um discreto mas sólido álbum de estreia em 2010. Roll the Dice, o disco, movia-se pela tundra da electrónica minimal e semi-improvisada, num filme sónico espacial. 2011 delapidou o som e a edição de In Dust trouxe a consolidação de um projecto a seguir com atenção. O sentido produtor de Peder Mannerfelt (que participou no excelente álbum de estreia de Fever Ray) encontra-se aqui mais apurado e o disco perde um pouco da amálgama sideral do seu antecessor. Parece dividir-se entre vertigens urbanas e a ambiência electro-pastoral dos Cluster. Tanto um como o outro são objectos imperdíveis para os que gostam de surfar pelas vagas da electrónica analógica que se levantaram em terras germânicas. Consta que, ao vivo, são igualmente pungentes e o impacto visual é forte. Só o Benfica me poderia impedir de os ver anteontem no Maria Matos... Ficam o toque à distância e os dois álbuns completos para desbravar aqui.

 

18 de março de 2012

Kosmische Kosmetik XXXV

O septeto Cornucopia, proveniente de Hamburgo, é mais um caso exemplar dos anos de ouro do underground teutónico. Após a edição do seu único álbum, Full Horn, em 1973, a banda desvaneceu-se em parte incerta e foi apenas retirada da teia de aranha das memórias em 2002, ano da reedição da pérola solitária que legaram.
Full Horn não surpreenderá os connaisseurs do krautrock. Mas atraí-los-à. Levitando entre o caótico, o esquisito e a fusão, desmembra-se em quatro capítulos que incorporam rock psicadélico, influxos jazzísticos e grooves à moda de Zappa. Entretém o cérebro e foge do aborrecimento como o Diabo da cruz.
Day of a Day-Dream Believer abre o disco de forma imponente. Um delírio esquartejado em nove partes, deambulando entre o maníaco, o excessivo e as retiradas introspectivas. Um must para os amantes de bizarrias sónicas. Contrastando radicalmente com este enorme zeppelin inflamado, segue-se Morning Sun. Curto e directo, evoca a ideia de alemães a passar férias nas praias da Califórnia e cheira a single que nunca saiu das sombras. Spot on You, Kids lança-nos novamente em órbita, num azimute perfeito entre o krautrock de denominação de origem controlada e os floreados imprevisíveis de uns Mothers of Invention. É um doce cataclismo que se abate sobre nós, fustigando-nos com uma mão e acariciando-nos com a outra. And the Madness... irrompe e fecha o disco da forma mais alucinante possível. Um exercício surreal de corte e colagem que, a meio caminho, se transforma num cortejo elegíaco.
Full Horn é mais um disco voador do seu tempo. Um tempo sem restrições criativas e barreiras conceptuais. Tempo da Alemanha que se emancipava como entidade capaz de passar o rock pela picadora e transformá-lo numa linguagem única na sua visão mas num esperanto musical acessível aos aliados do seu progresso.