20 de novembro de 2012

Fall From Grace


Gimme Shelter é um filme documental que retrata os últimos dias da tournée dos Rolling Stones pelos Estados Unidos em 1969. Será sempre infamemente lembrado pelas ocorrências que ensombraram o Festival de Altamont e não pela música, da melhor que a banda alguma vez produziu.
Realizado pelos irmãos Albert e Davis Maysles, Gimme Shelter está impregnado das estratégias e métodos do cinema directo (ou o nome norte-americano dado ao cinéma verité), a câmara vagueando livremente e captando a verdade objectiva das imagens e do som.
Os Stones são capturados ao vivo e em estúdio, debitando clássicos como Brown Sugar, Wild Horses ou Sympathy For The Devil, assim como em episódios meio icónicos meio anedóticos que ajudaram a construir o seu mito. Mas o pináculo do documentário acontece em Altamont, evento que manchou de violência e sangue a utopia dos sixties. Concerto transformado em cenário de tensão, agressão e morte, a prestação da banda inglesa é a celebração do fim dos ideais de uma geração. Se Woodstock foi o início da ilusão, Altamont foi o início da realidade. Os Rolling Stones nunca mais seriam os mesmos e o mundo também não.



19 de novembro de 2012

Rugido Sombrio

A sorte nunca quis nada com os londrinos Sound. Uma das bandas mais talentosas surgidas no período pós-punk, esfumaram-se sem apelo nem agravo quando deveriam ter saltado para a primeira liga da música da sua época.
A subvalorização nunca foi estranha ao grupo liderado pelo torturado Adrian Borland. Jeopardy, álbum de estreia editado em 1980, era um livre cruzamento entre os ataques bombásticos dos U2 dos primórdios e a matéria mais sombria dos Joy Division. Apesar de intenso, urgente e vibrante, Jeopardy foi um flop comercial e as vénias da crítica constituíram o alento que lhes permitiu voltar à carga. E que artilharia pesada apresentaram: From The Lions Mouth, datado de 1981, para além de definir, passe a redundância, o som dos Sound, é um dos melhores e mais injustamente ignorados registos dos anos 80.
Winning dispara a primeira salva e a melodia circular, espiralada entranha-se de imediato. Fabulosa canção, provavelmente o pico artístico da banda, Winning é um manifesto de intenção. É escura, mas intrinsecamente optimista. Pontapeia a porta com estrondo e anuncia a ambição do quarteto.
Segue-se mais uma dezena de canções que levanta a fasquia dos Sound, se não acima dos seus pares, pelo menos ao seu nível. From The Lions Mouth não fica a dever absolutamente nada a obras suas contemporâneas e bastante mais laureadas, como Heaven Up Here dos Echo & The Bunnymen ou Faith dos Cure.
O espectro urbano-depressivo característico da brigada das gabardines destes anos impregna o disco, mas não o transfigura num monolito cinzento de betão armado. O som é quase sempre minimal, esquelético, mas a estrutura e a profundidade dos temas tornam-no expansivo. Os Sound voam para além das suas próprias fronteiras, pelos céus carregados de Judgement, até às profundezas glaciais do pulsante Possession. As chamas irrompem na cadente deflagração de Sense of Purpose e revelam todo o seu esplendor terrífico na frenética The Fire. A lindíssima Silent Air apazigua a urgência nervosa que ficou para trás e New Dark Age varre o disco com majestosa soturnidade.
From The Lions Mouth não vingou, apesar do culto que ainda hoje lhe é devotado. Os Sound editariam mais três álbuns antes da separação final, que lhes garantiram secreta imortalidade. Adrian Borland seguiria uma discreta carreira a solo, constituída por alguns registos sólidos mas sempre longe da aclamação universal. Terá sido essa ausência de um reconhecimento mais vasto que o fez definhar lentamente. Após anos de luta contra depressões profundas e um alcoolismo crescente, Borland suicidou-se em 1999. O som vive.

25 de outubro de 2012

Kosmische Kosmetik XLIV

Wolfgang Bock é um nome raramente pronunciado quando se fala na escola electrónica alemã, especialmente a berlinense. Este explorador de sons caiu praticamente no esquecimento, mas o seu primeiro disco é um tomo fundamental na enciclopédia da música sintetizada e analógica.
Cycles, de 1980, surge numa altura em que os grandes clássicos do género pareciam estar já editados e serem inultrapassáveis, mas é tudo menos uma revisão decadente da matéria dada.
As comparações com o estilo de Klaus Schulze são, porém, inescapáveis. Ambos comungam da mesma energia planante, da vastidão das paisagens sonoras, da electrónica cósmica e ausente de gravidade. O que Wolfgang Bock traz de novo são fraseados rítmicos que tiram a música da suspensão e a lançam num trilho meteórico. Uma versão algo anfetaminada de Schulze. O tema-título, que abre o disco, define bem esta sonoridade. Arranca em animação suspensa e termina num ritmo pulsante, latejante, de cadente dança estelar. Seguem-se as duas partes de Robsai, a primeira uma delícia física e estimulante de sequenciadores, a segunda uma elegíaca e intensa ode cósmica de curta duração. Changes traz a mudança, para uma melodia luminosa e um ritmo circular, orgânico, que termina às apalpadelas às paredes de um buraco negro.
Stop the World conclui o disco e recupera a cadência hipnótica e a indução ao transe. É um tema que eleva a electrónica cósmica à condição de energizante musical e não ficaria mal numa proto-rave party, salpicada a ácidos e não a ecstasy.
Cycles vale sobretudo por ser uma alternativa mais acessível à caracteristicamente hermética e experimental electrónica germânica sua contemporânea. Mesmo assim, em breve surgiriam as radicais mudanças estéticas trazidas pela década de 80 e este estilo de música foi relegado para um nicho e diluiu-se na paleta berrante desses anos. O epíteto Super Bock não assentaria nada mal a este senhor. Mais que um disco, o fim de um ciclo.

18 de outubro de 2012

Post-Punk is not Dead



O período pós-punk abordado por Simon Reynolds no seu essencial Rip It Up And Start Again situa-se entre 1978 e 1984, anos curtos mas que deixaram marcas profundas no panorama musical.
O próprio título da obra (surripiado a uma canção de 1982 dos escoceses Orange Juice) indica que foram anos revolucionários. Uma era em que a urgência e visceralidade semeadas pelo punk foram depuradas por estéticas mais elaboradas mas sem perda de intensidade, como se a agressividade e a confrontação se tornassem eruditas. Reynolds, um dos mais esclarecidos e influentes críticos musicais britânicos da actualidade, traça um retrato abrangente e completíssimo do movimento pós-punk, o que resulta num compêndio imprescindível para o entendimento da sua génese e evolução.
Joy Division, Public Image Ltd. ou A Certain Ratio são algumas das muitas bandas deste período dissecadas no livro, projectos que podem ser considerados uma espécie de punk arty e literato, tendo em conta o background académico de muitos dos artistas e as suas referências culturais e intelectuais. Para além do modernismo e experimentalismo inerentes a esta corrente, é palpável também o activismo político que caracterizou os anos imediatamente a seguir ao fenómeno punk. Colectivos como Pop Group ou Gang of Four conseguiram agregar mensagens desafiantes a uma música muitas vezes radical.
Rip It Up And Start Again não se limita a ficar suspenso nesta bolha temporal. Reynolds acaba por acompanhar os destinos de muitos destes músicos vanguardistas, dos que cederam às pressões comerciais dos anos 80 aos que acabaram por desaparecer. O próprio termo pós-punk entrou em criogenia em meados dessa década infame, sendo apenas revisto e actualizado nos princípios do século XXI, com o advento de bandas como Interpol, Franz Ferdinand ou Rapture. A qualidade destes e outros projectos revivalistas veio provar uma vez mais que este movimento, apesar de fugaz, lançou raízes e estabeleceu-se como influente para discípulos desviantes.

9 de outubro de 2012

Desespero e Resolução

Ao segundo álbum, os australianos Dead Can Dance puseram de lado as guitarras. O acentuado travo gótico foi suavizado pela adopção de um som mais expansivo, assente em instrumentos clássicos e repositório assumido de influências medievais.
Em 1985, nada soava como Spleen and Ideal no universo dito pop. O disco foi um dos marcos na implementação da editora 4AD como uma das mais visionárias e marcantes fontes de música alternativa nos anos 80. A imagem austera, o rigor formal das composições e a solenidade cerimonial da atmosfera fizeram de Spleen and Ideal a mais que provável obra definitiva dos Dead Can Dance.
Musicalmente, o disco continua a ser um assombro. Uma celebração de dias cinzentos, uma descida em espiral a subterrâneos de melancolia, uma liturgia grave e sombria. Tacteamos as paredes dos túneis escuros à procura da luz que se adivinha para logo se desvanecer. Há uma dualidade omnipresente nesta obra, uma dicotomia entre claro e escuro, conflito e apaziguamento. Baudelaire abre as suas Fleurs du Mal com uma série de poemas condensados como Spleen et Idéal e é óbvia a apropriação do conceito pelos Dead Can Dance. Tal como nos versos do poeta francês, o mundo de Brendan Perry e Lisa Gerrard está afogado num desespero silencioso, num permanente tédio (verdadeiros sentidos do termo spleen). O ideal seria a troca deste mundo sensaborão pelo culto da beleza, pela rejeição do físico abraçando o imaterial. Neste ponto, Spleen and Ideal pode ser absorvido como um ritual iniciático, uma depuração espiritual. A vastidão widescreen do som eleva-nos e convida igualmente à introspecção. Vejam-se títulos como De Profundis (Out of the Depths of Sorrow) ou Indoctrination (A Design for Living), respectivamente as peças colossais que abrem e fecham o álbum. A atmosfera é severa, quase monástica, e revestida de uma beleza fria como paredes de claustros. Lisa Gerrard dá voz à primeira, na sua clássica vocalização que transcende a linguagem para comunicar emoções intensas. Brandan Perry canta na última, no seu notável misto de estoicismo e sentimento.
Entrementes, somos levados em marcha lenta numa travessia etérea, onde as trevas medievais são recuperadas à luz do século XX. O pulsar tenso de Advent, as trompas funestas de The Cardinal Sin e a cadência marcial do magistral Enigma of the Absolute, todas entregues por Perry, carregam letras de pesado existencialismo. Gerrard transforma Circumradiant Dawn, Avatar e Mesmerism em lamentos possantes, cânticos de beleza terrível.
Autêntica catedral sonora, o segundo disco dos Dead Can Dance mantém o fascínio e o poder de há quase 20 anos. Somente em The Serpent's Egg o duo australiano conseguiria aproximar-se desta força composicional e interpretativa, já com as influências da world music que viriam a marcar a sua sonoridade nos anos mais tardios. Desespero e resolução na busca pela perfeição: eis Spleen and Ideal.

29 de setembro de 2012

How to Disappear Completely


A reclusão de Scott Walker foi abruptamente quebrada com a chegada de 30th Century Man. O filme documental de 2006, obra de Stephen Kijak, trouxe à tona pela primeira vez em muitos anos Scott, o homem, se bem que Scott, o mito, manterá sempre sua a aura intacta.
Para muitos, foi a primeira vez que o viram realmente. Noel Scott Engel, Walker por via da sua primeira banda, descia do seu reino ascético, dos rumores de loucura esquizóide, e falava e sorria em frente a uma câmara. Parecia tangível, real, mesmo depois do lançamento de mais uma obra abismal e incatalogável: The Drift.
O filme conta a história do icónico cantor, acompanhando-o desde o sucesso dos Walker Brothers até ao seu progressivo desvanecimento. Da histeria de raparigas que o perseguiam, até ao exílio auto-imposto, do qual só o culto impediu que o nome Scott Walker significasse hoje apenas cinzas ao vento. E não falta a parada de estrelas a demonstrar a veneração ao mestre, neste caso nomes como David Bowie, Brian Eno ou Radiohead...
Se alguém alguma vez duvidou do génio criativo de Walker, 30th Century Man prova que o talento do norte-americano é único e inimitável. Não existiu nem existirá mais ninguém como ele, tão consciente da sua imagem, do mundo que o rodeia, da futilidade do show business em que se movimenta e que subtilmente despreza. Nas palavras do próprio a explicar a sua arte, If I have nothing new to say, why show up? E nós, comuns mortais, contentamo-nos com um álbum por década do homem mais misterioso da música popular (ou o que quer que seja que ele magistralmente conjura...).

28 de agosto de 2012

Miose Pop

O Idiota, celebérrimo livro de Dostoiévski, narra a história do benevolente príncipe Liev Míchkin. Este, após regressar à cidade de São Petesburgo vindo de um sanatório, depara-se com tamanha corrupção e perversidade humanas que conclui ser melhor viver num sanatório que no mundo real. The Idiot, disco de Iggy Pop, inspirou-se livremente nesta premissa.
Foi David Bowie que resgatou James Osterberg do seu próprio sanatório circa 1976. O final dos Stooges e o tsunami de excessos associados à banda deixou o seu vocalista à beira do colapso e a entregar-se voluntariamente nos braços de uma instituição psiquiátrica. The Idiot, editado no ano seguinte, resulta das experiências revitalizantes levadas a cabo em conluio com o Camaleão.
É o disco mais atípico assinado por Iggy Pop, mas é também a sua obra mais profunda e fascinante. Longe do rock propulsivo e visceral dos Stooges, The Idiot habita no reino das sombras e movimenta-se pela calada da noite em regime de autofagia introspectiva. Com os seus rasgos de electrónica e produção paludosa, o álbum desliza qual fantasma de sobrolho carregado pela noite monocromática e desolada da urbe. A urbe é Berlim, desfigurada pelo quelóide de cimento que a divide em duas, escura como breu, friamente romântica. E narcótica.
Sister Midnight, exercício assente numa guitarra funky futurista e groove obstinado, empurra desejos reprimidos para a noite faminta e fecha a porta atrás deles. Robótica, Nightclubbing faz uma vénia ao krautrock enquanto penetra, lânguida, pelas decadentes caves berlinenses. Imaginamos Pop e Bowie, esquálidos, vampirescos, intoxicadamente ausentes, a vaguear entre os comuns mortais.
Funtime desce mais fundo na escadaria gótica e prolonga o devaneio kraut, com a vertigem repetida do seu ritmo a la Neu!. I'm gonna get stoned and hang around, canta Pop com pragmatismo e sem falsos pudores, lembrando-nos que Berlim era o lar europeu da heroína no final dos anos 70 e que ele e Bowie eram inquilinos curiosos...
Baby é uma tensa estação que passa, frenética, para dar lugar a China Girl. Hit massivo para Bowie anos mais tarde, apresenta-se aqui pouco polida e produzida, uma canção de amor que irrompe a altas horas da noite, quando a mente ainda sofre os frémitos de uma noite excessiva e o corpo procura um consolo que não vem.
Lenta e arrastada, Dum Dum Boys é uma nostálgica e, ao mesmo tempo, corrosiva excursão aos despojos dos Stooges. Tiny Girls é uma espécie de soul futurista e plastificada e que elucida de sobremaneira quando Iggy definiu The Idiot como um cruzamento entre James Brown e Kraftwerk. E o grand finale fica entregue a Mass Production, literalmente uma massiva e esmagadora orgia narcótica, num martelanço crescente e doentio que espicaça a mente. Delicioso...
David Bowie terá sido o grande beneficiado em toda esta história. The Idiot parece, muitas vezes, um laboratório de ensaio para as suas experiências futuras (nomeadamente a sua fase berlinense), sendo Iggy Pop a cobaia. Alguns dos temas foram recuperados posteriormente por Bowie e este tipo de sonoridade ficará sempre mais associado ao Camaleão que à Iguana. Mesmo assim, este é o disco sério de Iggy e, porque não dizê-lo, a sua obra mais marcante apesar de não o definir. O Idiota foi apresentado a outro mundo, mas logo se refugiou naquele onde sempre se sentiu mais confortável...

24 de agosto de 2012

Visions of Angels

Numa altura em que a discografia dos Cocteau Twins está a ser alvo de reedição, nada como recuperar igualmente a história visual desta extraordinária banda. Uma história impactante, cromática e luxuriante que ajudou a elevar os britânicos ao panteão das melhores ocorrências musicais dos anos 80. Mesmo sendo esse período limitado no tempo que os viu crescer e brilhar, a arte dos Cocteau Twins não perdeu pitada do seu encanto desde então. Aliás, a sua magia é tão transcendente que não tem era definida. É banda-sonora de sonhos despertos, farrapo de paraíso derramado sobre o afortunado ouvinte.
Tishbites, compilação videográfica de 2004, congrega alguns dos momentos marcantes do percurso do grupo. Clips que, antes de tudo, são pequenas filigranas fílmicas que procuram dar imagem ao onirismo latente da música. Som e imagem em conchavo, num processo evolutivo que resulta em elegância garrida, quase psicadélica.
Em complemento aos vídeos para doze singles e da pequena peça Rilkean Dreams, Tishbites homenageia isoladamente a grande figura do colectivo, Elizabeth Fraser, através de dois clássicos modernos que a sua voz única aprimorou: Song to the Siren, original de Tim Buckley imortalizado pelo projecto This Mortal Coil e Teardrop dos Massive Attack. Motivos de sobra para uma espreitadela obrigatória...

16 de agosto de 2012

Kosmische Kosmetik XLIII

Manuel Göttsching amputou o nome dos seus Ash Ra Tempel para Ashra circa 1976. Com o fim do mítico colectivo germânico, a carreira a solo do guitarrista tornou-se realidade e, com ela, uma grande viragem no estilo e intenções musicais. O abandono progressivo da guitarra e o interesse crescente pela electrónica surtiram o primeiro efeito em New Age of  Earth. Essencialmente um disco a solo de Göttsching (todas as composições e instrumentos são da sua responsabilidade), o primeiro vislumbre do projecto Ashra é um conjunto de quatro peças planantes, meditativas, próximas da electrónica ambiental. Uma obra de rara beleza, quase tântrica nos seus devaneios expansivos e libertadores.
Sunrain mantém um rigor formal apenas afectado pela melodia radiosa que o empurra para além dos seus próprios limites. À medida que o fim se aproxima, instala-se uma comunhão extática entre todos os elementos que termina afogado num ponto de luz. Relaxante, Deep Distance sente-se como as pétalas de uma flor. A delicadeza da música roça a sensualidade, uma sensualidade inocente mas vibrante. Massagistas deste mundo, ponham as mãos neste tema!
A guitarra aparece nas duas composições restantes. Sempre bela, sempre perto do fim. Etérea e ensimesmada em Ocean of Tenderness, solitária e uivante em Nightdust. A genialidade mora em cada uma das peças. A primeira é uma lenta e cadente viagem introspectiva, um caminho a atravessar de olhos fechados e coração aberto. A segunda é uma odisseia cósmica como manda o figurino, um berço que acolhe um pedaço de infinitude, em que as estrelas brilham e fogem e o movimento é lento sob o peso de todo o tempo que já passou. E o fim chega para nos tirar da órbita confortável e depositar-nos novamente na realidade selvática...
New Age of Earth é o princípio das aventuras de Manuel Göttsching por terras electrónicas. O primeiro passo de uma caminhada que muito revolucionou e influenciou a forma de fazer música com máquinas nas décadas seguintes. Um monumento musical belíssimo.

15 de agosto de 2012

Kosmische Kosmetik XLII

Harald Grosskopf notabilizou-se pelos seus desempenhos como baterista em inúmeros projectos do rock alemão dos anos 70. Emprestou a sua energia rítmica, entre outros, aos infames Cosmic Jokers, aos Wallenstein e a Klaus Schulze.
Nome mais que mítico e consagrado no universo krautrock, Grosskopf acabou por estrear-se a solo com um disco fundado nos pilares da electrónica. Foi em 1980 que Synthesist viu a luz, luz essa que irradiou de imediato o universo da música sintetizada. Merecedor precoce do estatuto de clássico, Synthesist é incontornável e inesquecível. Um arraial de teclados e percurssão dominados exclusivamente pelo músico germânico, que debita uma sucessão de temas aquáticos e espaciais, dotados de uma fluidez cativante e de uma subtil vivacidade.
Synthesist principia em alta, com a volúpia rítmica e os teclados cósmicos de So Weit, So Gut. É notável a centelha de frescura que o tema carrega, o convite a uma viagem futurista e sedutora. 32 anos depois, o apelo é imutável. Os momentos mais ritmados do disco possuem a estranha dicotomia de motivar a dança, cibernética e maneirista, ao mesmo tempo que a refreiam com a sua frieza maquinal. Emphasis, 1847 - Earth e a deliciosa Transcendental Overdrive são ideais para dançarinos de sofá. O ritmo faz-nos ondular, serpentear, a melodia mantém-nos estáticos, em sonho desperto. O brilhante tema-título, sinfonia de electrónica progressiva em hipnótica deflagração, é igualmente o melhor momento do álbum.
O interesse subsiste quando as sombras se abatem sobre Synthesist. A animação suspensa de B. Aldrian, a excursão gélida de Trauma e o belo pulsar indefinido de Tai Ki complementam solidamente o lado luminoso do registo.
Synthesist foi reeditado em 2010, surgindo em 2011 Re-Synthesist, uma nova leitura dos seus temas executada por alguns dos nomes maiores da electrónica cósmica actual, como Oneohtrix Point Never ou Arp. Harald Grosskopf conseguiu, na sua estreia, um belo e coeso tratado electrónico, acima de tudo original, pois, apesar do peso óbvio de nomes como Tangerine Dream ou Kraftwerk neste tipo de música, nada se ouve que seja cópia ou colagem. Apenas mérito e audácia.

Hard America

Such Hawks Such Hounds, filme de 2007 realizado por John Srebalus, aborda, com fervor e dedicação, a ascensão de um certo rock americano, de alta densidade e acima do peso recomendável. Um estilo musical que descende do proto-metal e do psicadelismo mais duro dos inícios dos anos 70 e de bandas como Blue Cheer, Black Sabbath ou Hawkwind. Perdido no limbo dos anos 80, no qual o termo heavy-metal oscilava entre homens ostentando fartas permanentes (o louro oxigenado abundava) e adoradores de Satã, este género de rock, igualmente pesado, mas totalmente descomprometido, ressurgiu na década seguinte. Nomes como Kyuss, Sleep ou Monster Magnet revitalizaram as sonoridades psicadélicas mais hard, apimentando-as com a poeira árida do deserto. Assim nascia o stoner rock, com o seu ritmo tipicamente arrastado e baixos a elevarem-se até à estratosfera. Em territórios mais limítrofes, Om e Sunn O))) apropriaram-se do minimalismo drone para erigir catedrais escuras e monolíticas de guitarras titânicas e batidas hipnóticas.
Mas Such Hawks Such Hounds não se esgota aqui. Uma miríade de bandas e estilos é desfilada ao longo do documentário. Este acaba por ser um tomo valioso e satisfatório de um género musical que, apesar da ascensão supracitada, nunca abandonou o seu estatuto underground.

4 de agosto de 2012

Caesar Augustus

Augustus Pablo (cujo nome de baptismo era Horace Swaby) foi uma das estrelas maiores do firmamento dub. A sua morte prematura aos 44 anos arredou-o um pouco da apreciação massiva, mas a sua aura mantém-se viva. Os anos 70 foram dourados para ele, era em que deixou para a posteridade um legado incontornável da música jamaicana. 
King Tubbys Meets Rockers Uptown, disco de 1976, é unanimemente reconhecido como o grande feito artístico de Augustus Pablo. Sentado à mesa de produção encontrava-se outro peso-pesado: Osbourne Ruddock, mais conhecido como o lendário King Tubby, homem que revolucionou e ajudou a esculpir o conceito da produção em estúdio. Verdadeiro cientista do som, é uma referência venerável para qualquer pretendente a artesão nas áreas da electrónica e da dança. 
O encontro entre estes dois mestres é nada menos que seminal. Pablo transporta classe e sedução com a sua inseparável melodica e um manancial de instrumentos de teclas. King Tubby encarrega-se de juntar as peças do puzzle e submetê-las às suas esotéricas manipulações de estúdio. Na sombra, o amparo monumental da secção rítmica dos Wailers (os irmãos Barrett) e um baixista de excepção, Robbie Shakespeare, que emergeria como um dos maiores nomes do dub ao lado do baterista Sly Dunbar nos hiper-influentes Sly & Robbie. Lançados os dados, o poker resultante foi bem mais que um golpe de sorte. King Tubbys Meets Rockers Uptown é uma obra-prima viciante. Do magistral Keep on Dubbing a Satta Dub, o disco sacia o apetite do apreciador mais voraz do género. Não falta nada. Stop Them Jah envolve-nos em sopros fumegantes e ritmos semicerrados. 555 Dub St. e Young Generation Dub impregam-nos da suave melancolia exangue que se esconde para além das montanhas verdes da Jamaica. Each One Dub e o imaculado King Tubbys Meets Rockers Uptown colocam as vozes distorcidas e nebulosas na linha da frente e o efeito inebriante é irresistível. Assim não vale a pena lutar e é derrotados que nos sentimos vitoriosos. Um disco de Verão eterno, mas invadido por nuvens imprevisíveis, tal como a terra que lhe serviu de berço.