28 de janeiro de 2013

Velho Testamento


Para as gerações mais novas, Tim Buckley fica muitas vezes confinado ao estatuto de pai de Jeff Buckley. O filho, tal como o pai, malogrado prematuramente, deixou-nos Grace, obra-prima que deixava antever glórias maiores mas nunca cumpridas. Um disco que se tornou marcante na existência musical de muito boa gente. O legado de Tim é bastante mais extenso, eclético e exploratório. Começou como bardo folk rock no seu primeiro álbum, adicionando temperos psicadélicos à sua música em registos como Happy Sad e Blue Afternoon. Um progressivo interesse pelo jazz e pela música de vanguarda desenhou o esqueleto de Lorca e Starsailor, as suas obras mais experimentais. E os seus últimos discos voltaram-se para territórios em que a nunca abandonada folk foi exaltada pela soul e pelo funk. Esta derradeira fase é a menos interessante da carreira do músico, se bem que Greetings From L.A. seja um dos seus registos mais celebrados.
Tim Buckley viveu uma existência de progressivos excessos. Por ironia do destino, escapou ao Clube dos 27, mas a morte levou-o aos 28 anos, calando uma das mais belas e impressionantes vozes que o mundo conheceu.
My Fleeting House é o documento visual mais completo dedicado ao músico norte-americano. Feito de interpretações ao vivo de temas que marcaram a sua história e da pontual participação de colaboradores (caso do guitarrista Lee Underwood, presença constante durante toda a carreira de Tim), este documentário de 2007 é um tesouro de arquivos que ajudaram a construir a lenda. As rendições brilhantes de clássicos como Song To The Siren, Dolphins ou Morning Glory enfatizam o génio e a voz única do cantor, uma voz que tanto cantava poesia como era ela própria um instrumento a juntar aos demais, uma entidade abstracta que encantava mesmo sendo ininteligível.
Se a memória de Jeff Buckley continua muito viva (basta ver a quantidade de doppelgängers de Grace que continuam a ser editados), a de Tim é cíclica, nunca saindo dos escalões do culto. Um génio que deu vida a outro génio, ambos torturados, ambos levados demasiado cedo. Mais que um pai, um genitor de arte.

4 de janeiro de 2013

Remédio Santo

Os Cure sempre resultaram melhor movendo-se por entre as sombras que expostos à luz. Artesã de canções pop enormes e intemporais, a banda de Crawley caracterizou-se igualmente pela bipolaridade. Pela alternância entre rigor negro e surrealismo colorido, entre rarefacções góticas e baforadas de ar fresco. À desolação hardcore de Pornography seguiu-se a pop mergulhada em psicadelismo de The Top. Ao caleidoscópio inconsistente de Wild Mood Swings seguiu-se a neblina monolítica de Bloodflowers. E, entalado entre duas obras de extrema variedade criativa e alguns tiros ao lado (Kiss Me Kiss Me Kiss Me e Wish) encontra-se o opus maximus do grupo: Disintegration.
Rezam as crónicas que o líder Robert Smith se encontrava mergulhado em águas depressivas quando o disco veio à tona. Indefinições artísticas, envelhecimento, incompreensão, eis alguns dos fantasmas que Smith invocou para a sua concepção. A desintegração emocional provocada pela confrontação com uma realidade sombria, contrária às expectativas.
Disintegration não é um disco para ouvir de ânimo leve, muito menos com os ouvidos. É algo pesadamente sentimental, que se incrusta no coração como a criatura de Alien. A música é, invariavelmente, arrastada, escura, aquosa e desavergonhadamente romântica. Insistentemente sublime. Os temas são longos e expansivos, com pontuais excepções, como os celebrados e eternos Lovesong e Lullaby, duas das mais perfeitas e irresistíveis criações dos Cure. Mas é como um todo, de uma ponta à outra, que esta obra de arte deve ser consumida. Do prelúdio à tempestade em tons de psicadelismo cinza de Plainsong à melancolia resignada e crepuscular de Untitled. O fim, a ideia de extinção, estão sempre presentes, mais ou menos metafóricos, mas sempre dilacerantes (Pictures of You, Disintegration, Closedown). Prayers For Rain e o monumental The Same Deep Water As You são momentos magistrais de profunda introspecção, tão atmosféricos como intensos. E a depressão torna-se doce no embalo oceânico de música tão onírica.
Se Disintegration não fosse um disco dos Cure, provavelmente não teria tido o sucesso massivo que conseguiu. Sucesso que deu azo a uma reedição titânica, composta por quatro discos, em 2010. Mais que merecido e ideal para quem não vive sem esta música, da mais bela e triste alguma vez feita. Um milagre sonoro para melancólicos praticantes.

29 de dezembro de 2012

2012: A Soundtrack

                               

Não é de admirar que o mundo não tenha acabado em 2012. O que é de admirar é que houve gente a acreditar nisso. Sinal dos tempos que vivemos, talvez, em que o progresso é acompanhado de obscurantismo. Mas, se a profecia Maia não se cumpriu à letra, muita coisa terá mudado irreversivelmente no mundo como o conhecemos. Especialmente na Velha Europa e, dolorosamente, no rectângulo luso.
Uma amálgama de música encheu o ano, na sua grande maioria indiferenciada. Segue abaixo a listagem do que mais me surpreendeu, prendeu e preencheu. Scott Walker e o seu Bish Bosch podem ser ainda recentes para permitir uma prolongada degustação, mas o choque é suficiente para deixar marcas profundas à primeira audição. Talvez por não haver mais nada nem ninguém a soar assim, talvez por parecermos entregues à bisharada, este disco captura magistralmente o espírito desta época em que estamos condenados a existir. Complexo e perturbador, intenso e sombrio. E a sanidade parece não estar à vista no ano que se aproxima...

1. Scott Walker - Bish Bosch

2. Swans - The Seer

3. Tame Impala - Lonerism

4. Beach House - Bloom

5. Frank Ocean - Channel Orange

6. Grimes - Visions

7. Bill Fay - Life Is People

8. Godspeed You! Black Emperor - 'Allelujah! Don't Bend! Ascend!

9. Fiona Apple - The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do

10. The XX - Coexist

11. Chromatics - Kill For Love

12. Grizzly Bear - Shields

13. Liars - WIXIW

14. Julia Holter - Ekstasis

15. Dirty Projectors - Swing Lo Magellan

16. Kendrick Lamar - good kid, m.A.A.d city

17. Laurel Halo - Quarantine

18. The Walkmen - Heaven

19. Sharon Van Etten - Tramp

20. Death Grips - The Money Store

21. Ty Segall Band - Slaughterhouse

22. Bob Dylan - Tempest

23. Jack White - Blunderbuss

24. Actress - R.I.P.

25. Alt-J - An Awesome Wave

26. Cat Power - Sun

27. Django Django - Django Django

28. Toy - Toy

29. Japandroids - Celebration Rock

30. Ariel Pink's Haunted Grafitti - Mature Themes

31. Twin Shadow - Confess

32. Andy Stott - Luxury Problems

33. Dr. John - Locked Down

34. Chairlift - Something

35. Jessie Ware - Devotion

36. Leonard Cohen - Old Ideas

37. Spiritualized - Sweet Heart Sweet Light

38. Cloud Nothings - Attack On Memory

39. Bobby Womack - The Bravest Man In The Universe

40. Sun Araw & M Geddes Gengras meet the Congos – Icon Give Thank

41. Neil Young & Crazy Horse - Psychedelic Pill

42. Mark Lanegan Band - Blues Funeral

43. Flying Lotus - Until The Quiet Comes

44. Alabama Shakes - Boys & Girls

45. Neneh Cherry & The Thing - The Cherry Thing

46. Bat For Lashes - The Haunted Man

47. El-P - Cancer For Cure

48. Carter Tutti Void - Transverse

49. Porcelain Raft - Strange Weekend

50. Gravenhurst - The Ghost In Daylight

27 de dezembro de 2012

Kosmische Kosmetik XLVI

Dieter Moebius foi sempre considerado a face mais agreste dos Cluster. A metade mais arrojada e experimental do duo, acrescentando uma paleta de escuridão à luminosidade melódica do seu par Roedelius. Para além desta mítica dupla electrónica, o músico alemão operou em vários projectos e colaborações antes da sua primeira aventura a solo. Harmonia, Liliental e dois discos seminais em parceria com Conny Plank são algumas das referências inescapáveis que antecederam Tonspuren, álbum de 1983 totalmente moldado pela sua mão.
Apesar das semelhanças óbvias com a abstracção electrónica em miniatura dos Cluster mais tardios, Tonspuren possui uma forte identidade própria. A personalidade vincada de Moebius, deixado sozinho, brincando e experimentando com as suas inspirações e intuições. Como se a carne dos Cluster tivesse sido roída, deixando exposta apenas a carcaça, um esqueleto de ambiências minimais e melodias quebradiças.
É um disco que caminha para a noite. Que pede isolamento e abstracção. Maioritariamente sombrio, começa com esparsos estilhaços de luz e cor. Os três primeiros temas, Contramio, Hasenheide Rattenwiesel, são os que mais se aproximam da estética dos Cluster de Zuckerzeit ou Sowiesoso. Depois o crepúsculo começa a erguer-se lentamente, abafando luz e cor num manto progressivamente cinzento. Transport é veículo subterrâneo que serpenteia por túneis industriais. Nervös faz juz ao nome, destilando paranóia rítmica e melodia opressiva. A tensão prolonga-se na dança com as sombras que é B 36 e culmina no palpitar gélido de Sinister. Surgem pistas para o que seria o advento da techno mais densa e minimal em Etwas e Immerhin é escolástica na forma como mistura polidez estética a estertores colaterais.
Tonspuren significa banda-sonora em português. À la lettre, seria certamente a música ideal para um filme de espionagem a preto e branco passado em Berlim ou na Moscovo da Guerra Fria. Despida de interpretações, é um compêndio da importância e influência de Dieter Moebius nas linguagens electrónicas contemporâneas.

21 de novembro de 2012

Kosmische Kosmetik XLV

A prolífica carreira a solo de Hans-Joachim Roedelius é plena de bons momentos. Mais ou menos memoráveis, mas sempre com selo de qualidade. E essa caminhada solitária teve início ainda nos tempos em   que o berlinense se movia com audácia e estilo em projectos como os Cluster e os Harmonia.
Foi entre 1973 e 1979 que as peças que compõem Selbstportrait I ganharam vida. E este disco, que deveria ser o primeiro em nome de próprio de Roedelius, acabou por nascer tardiamente, após o magnífico Durch die Wüste e de Jardin au Fou.
Selbstportrait I é o som do músico em introspecção, em relaxamento egocêntrico e despido de artifícios. Minimal, simples, melódica e beatífica, a música patente nesta obra define bem as aproximações de Roedelius à electrónica ambiental, bem mais próximas do seu ocasional colaborador Brian Eno que das texturas mais abrasivas e experimentais dos seus primórdios exploratórios.
Os instrumentos usados, maioritariamente um órgão Farfisa e um sintetizador Revox A77, conferem a Selbstportrait I uma atmosfera de pureza quase virginal e uma proximidade confessional. Música sem filtros, despojada e descarnada, guarda em si o embrião de muitos sons futuros. E quão aconchegante é deixar pensamentos e emoções fluir no suave embalo de In Liebe Dein, Arcona Girlande. Ou estimulante pintar quadros imaginários ao som de micro-sonatas electrónicas como Inselmoos,  Fabelwein ou Halmharfe. Sempre em onírica travessia até ao lullaby final de Minne.
Os auto-retratos de Roedelius continuaram a ser revisitados ao longo da sua existência musical, sendo que o oitavo volume desta série foi editado em 2002. Todos muitíssimo aconselháveis, mas nunca esquecendo que, mesmo com a sua ingenuidade e improviso, não há amor como o primeiro.

20 de novembro de 2012

Fall From Grace


Gimme Shelter é um filme documental que retrata os últimos dias da tournée dos Rolling Stones pelos Estados Unidos em 1969. Será sempre infamemente lembrado pelas ocorrências que ensombraram o Festival de Altamont e não pela música, da melhor que a banda alguma vez produziu.
Realizado pelos irmãos Albert e Davis Maysles, Gimme Shelter está impregnado das estratégias e métodos do cinema directo (ou o nome norte-americano dado ao cinéma verité), a câmara vagueando livremente e captando a verdade objectiva das imagens e do som.
Os Stones são capturados ao vivo e em estúdio, debitando clássicos como Brown Sugar, Wild Horses ou Sympathy For The Devil, assim como em episódios meio icónicos meio anedóticos que ajudaram a construir o seu mito. Mas o pináculo do documentário acontece em Altamont, evento que manchou de violência e sangue a utopia dos sixties. Concerto transformado em cenário de tensão, agressão e morte, a prestação da banda inglesa é a celebração do fim dos ideais de uma geração. Se Woodstock foi o início da ilusão, Altamont foi o início da realidade. Os Rolling Stones nunca mais seriam os mesmos e o mundo também não.



19 de novembro de 2012

Rugido Sombrio

A sorte nunca quis nada com os londrinos Sound. Uma das bandas mais talentosas surgidas no período pós-punk, esfumaram-se sem apelo nem agravo quando deveriam ter saltado para a primeira liga da música da sua época.
A subvalorização nunca foi estranha ao grupo liderado pelo torturado Adrian Borland. Jeopardy, álbum de estreia editado em 1980, era um livre cruzamento entre os ataques bombásticos dos U2 dos primórdios e a matéria mais sombria dos Joy Division. Apesar de intenso, urgente e vibrante, Jeopardy foi um flop comercial e as vénias da crítica constituíram o alento que lhes permitiu voltar à carga. E que artilharia pesada apresentaram: From The Lions Mouth, datado de 1981, para além de definir, passe a redundância, o som dos Sound, é um dos melhores e mais injustamente ignorados registos dos anos 80.
Winning dispara a primeira salva e a melodia circular, espiralada entranha-se de imediato. Fabulosa canção, provavelmente o pico artístico da banda, Winning é um manifesto de intenção. É escura, mas intrinsecamente optimista. Pontapeia a porta com estrondo e anuncia a ambição do quarteto.
Segue-se mais uma dezena de canções que levanta a fasquia dos Sound, se não acima dos seus pares, pelo menos ao seu nível. From The Lions Mouth não fica a dever absolutamente nada a obras suas contemporâneas e bastante mais laureadas, como Heaven Up Here dos Echo & The Bunnymen ou Faith dos Cure.
O espectro urbano-depressivo característico da brigada das gabardines destes anos impregna o disco, mas não o transfigura num monolito cinzento de betão armado. O som é quase sempre minimal, esquelético, mas a estrutura e a profundidade dos temas tornam-no expansivo. Os Sound voam para além das suas próprias fronteiras, pelos céus carregados de Judgement, até às profundezas glaciais do pulsante Possession. As chamas irrompem na cadente deflagração de Sense of Purpose e revelam todo o seu esplendor terrífico na frenética The Fire. A lindíssima Silent Air apazigua a urgência nervosa que ficou para trás e New Dark Age varre o disco com majestosa soturnidade.
From The Lions Mouth não vingou, apesar do culto que ainda hoje lhe é devotado. Os Sound editariam mais três álbuns antes da separação final, que lhes garantiram secreta imortalidade. Adrian Borland seguiria uma discreta carreira a solo, constituída por alguns registos sólidos mas sempre longe da aclamação universal. Terá sido essa ausência de um reconhecimento mais vasto que o fez definhar lentamente. Após anos de luta contra depressões profundas e um alcoolismo crescente, Borland suicidou-se em 1999. O som vive.

25 de outubro de 2012

Kosmische Kosmetik XLIV

Wolfgang Bock é um nome raramente pronunciado quando se fala na escola electrónica alemã, especialmente a berlinense. Este explorador de sons caiu praticamente no esquecimento, mas o seu primeiro disco é um tomo fundamental na enciclopédia da música sintetizada e analógica.
Cycles, de 1980, surge numa altura em que os grandes clássicos do género pareciam estar já editados e serem inultrapassáveis, mas é tudo menos uma revisão decadente da matéria dada.
As comparações com o estilo de Klaus Schulze são, porém, inescapáveis. Ambos comungam da mesma energia planante, da vastidão das paisagens sonoras, da electrónica cósmica e ausente de gravidade. O que Wolfgang Bock traz de novo são fraseados rítmicos que tiram a música da suspensão e a lançam num trilho meteórico. Uma versão algo anfetaminada de Schulze. O tema-título, que abre o disco, define bem esta sonoridade. Arranca em animação suspensa e termina num ritmo pulsante, latejante, de cadente dança estelar. Seguem-se as duas partes de Robsai, a primeira uma delícia física e estimulante de sequenciadores, a segunda uma elegíaca e intensa ode cósmica de curta duração. Changes traz a mudança, para uma melodia luminosa e um ritmo circular, orgânico, que termina às apalpadelas às paredes de um buraco negro.
Stop the World conclui o disco e recupera a cadência hipnótica e a indução ao transe. É um tema que eleva a electrónica cósmica à condição de energizante musical e não ficaria mal numa proto-rave party, salpicada a ácidos e não a ecstasy.
Cycles vale sobretudo por ser uma alternativa mais acessível à caracteristicamente hermética e experimental electrónica germânica sua contemporânea. Mesmo assim, em breve surgiriam as radicais mudanças estéticas trazidas pela década de 80 e este estilo de música foi relegado para um nicho e diluiu-se na paleta berrante desses anos. O epíteto Super Bock não assentaria nada mal a este senhor. Mais que um disco, o fim de um ciclo.

18 de outubro de 2012

Post-Punk is not Dead



O período pós-punk abordado por Simon Reynolds no seu essencial Rip It Up And Start Again situa-se entre 1978 e 1984, anos curtos mas que deixaram marcas profundas no panorama musical.
O próprio título da obra (surripiado a uma canção de 1982 dos escoceses Orange Juice) indica que foram anos revolucionários. Uma era em que a urgência e visceralidade semeadas pelo punk foram depuradas por estéticas mais elaboradas mas sem perda de intensidade, como se a agressividade e a confrontação se tornassem eruditas. Reynolds, um dos mais esclarecidos e influentes críticos musicais britânicos da actualidade, traça um retrato abrangente e completíssimo do movimento pós-punk, o que resulta num compêndio imprescindível para o entendimento da sua génese e evolução.
Joy Division, Public Image Ltd. ou A Certain Ratio são algumas das muitas bandas deste período dissecadas no livro, projectos que podem ser considerados uma espécie de punk arty e literato, tendo em conta o background académico de muitos dos artistas e as suas referências culturais e intelectuais. Para além do modernismo e experimentalismo inerentes a esta corrente, é palpável também o activismo político que caracterizou os anos imediatamente a seguir ao fenómeno punk. Colectivos como Pop Group ou Gang of Four conseguiram agregar mensagens desafiantes a uma música muitas vezes radical.
Rip It Up And Start Again não se limita a ficar suspenso nesta bolha temporal. Reynolds acaba por acompanhar os destinos de muitos destes músicos vanguardistas, dos que cederam às pressões comerciais dos anos 80 aos que acabaram por desaparecer. O próprio termo pós-punk entrou em criogenia em meados dessa década infame, sendo apenas revisto e actualizado nos princípios do século XXI, com o advento de bandas como Interpol, Franz Ferdinand ou Rapture. A qualidade destes e outros projectos revivalistas veio provar uma vez mais que este movimento, apesar de fugaz, lançou raízes e estabeleceu-se como influente para discípulos desviantes.

9 de outubro de 2012

Desespero e Resolução

Ao segundo álbum, os australianos Dead Can Dance puseram de lado as guitarras. O acentuado travo gótico foi suavizado pela adopção de um som mais expansivo, assente em instrumentos clássicos e repositório assumido de influências medievais.
Em 1985, nada soava como Spleen and Ideal no universo dito pop. O disco foi um dos marcos na implementação da editora 4AD como uma das mais visionárias e marcantes fontes de música alternativa nos anos 80. A imagem austera, o rigor formal das composições e a solenidade cerimonial da atmosfera fizeram de Spleen and Ideal a mais que provável obra definitiva dos Dead Can Dance.
Musicalmente, o disco continua a ser um assombro. Uma celebração de dias cinzentos, uma descida em espiral a subterrâneos de melancolia, uma liturgia grave e sombria. Tacteamos as paredes dos túneis escuros à procura da luz que se adivinha para logo se desvanecer. Há uma dualidade omnipresente nesta obra, uma dicotomia entre claro e escuro, conflito e apaziguamento. Baudelaire abre as suas Fleurs du Mal com uma série de poemas condensados como Spleen et Idéal e é óbvia a apropriação do conceito pelos Dead Can Dance. Tal como nos versos do poeta francês, o mundo de Brendan Perry e Lisa Gerrard está afogado num desespero silencioso, num permanente tédio (verdadeiros sentidos do termo spleen). O ideal seria a troca deste mundo sensaborão pelo culto da beleza, pela rejeição do físico abraçando o imaterial. Neste ponto, Spleen and Ideal pode ser absorvido como um ritual iniciático, uma depuração espiritual. A vastidão widescreen do som eleva-nos e convida igualmente à introspecção. Vejam-se títulos como De Profundis (Out of the Depths of Sorrow) ou Indoctrination (A Design for Living), respectivamente as peças colossais que abrem e fecham o álbum. A atmosfera é severa, quase monástica, e revestida de uma beleza fria como paredes de claustros. Lisa Gerrard dá voz à primeira, na sua clássica vocalização que transcende a linguagem para comunicar emoções intensas. Brandan Perry canta na última, no seu notável misto de estoicismo e sentimento.
Entrementes, somos levados em marcha lenta numa travessia etérea, onde as trevas medievais são recuperadas à luz do século XX. O pulsar tenso de Advent, as trompas funestas de The Cardinal Sin e a cadência marcial do magistral Enigma of the Absolute, todas entregues por Perry, carregam letras de pesado existencialismo. Gerrard transforma Circumradiant Dawn, Avatar e Mesmerism em lamentos possantes, cânticos de beleza terrível.
Autêntica catedral sonora, o segundo disco dos Dead Can Dance mantém o fascínio e o poder de há quase 20 anos. Somente em The Serpent's Egg o duo australiano conseguiria aproximar-se desta força composicional e interpretativa, já com as influências da world music que viriam a marcar a sua sonoridade nos anos mais tardios. Desespero e resolução na busca pela perfeição: eis Spleen and Ideal.

29 de setembro de 2012

How to Disappear Completely


A reclusão de Scott Walker foi abruptamente quebrada com a chegada de 30th Century Man. O filme documental de 2006, obra de Stephen Kijak, trouxe à tona pela primeira vez em muitos anos Scott, o homem, se bem que Scott, o mito, manterá sempre sua a aura intacta.
Para muitos, foi a primeira vez que o viram realmente. Noel Scott Engel, Walker por via da sua primeira banda, descia do seu reino ascético, dos rumores de loucura esquizóide, e falava e sorria em frente a uma câmara. Parecia tangível, real, mesmo depois do lançamento de mais uma obra abismal e incatalogável: The Drift.
O filme conta a história do icónico cantor, acompanhando-o desde o sucesso dos Walker Brothers até ao seu progressivo desvanecimento. Da histeria de raparigas que o perseguiam, até ao exílio auto-imposto, do qual só o culto impediu que o nome Scott Walker significasse hoje apenas cinzas ao vento. E não falta a parada de estrelas a demonstrar a veneração ao mestre, neste caso nomes como David Bowie, Brian Eno ou Radiohead...
Se alguém alguma vez duvidou do génio criativo de Walker, 30th Century Man prova que o talento do norte-americano é único e inimitável. Não existiu nem existirá mais ninguém como ele, tão consciente da sua imagem, do mundo que o rodeia, da futilidade do show business em que se movimenta e que subtilmente despreza. Nas palavras do próprio a explicar a sua arte, If I have nothing new to say, why show up? E nós, comuns mortais, contentamo-nos com um álbum por década do homem mais misterioso da música popular (ou o que quer que seja que ele magistralmente conjura...).

28 de agosto de 2012

Miose Pop

O Idiota, celebérrimo livro de Dostoiévski, narra a história do benevolente príncipe Liev Míchkin. Este, após regressar à cidade de São Petesburgo vindo de um sanatório, depara-se com tamanha corrupção e perversidade humanas que conclui ser melhor viver num sanatório que no mundo real. The Idiot, disco de Iggy Pop, inspirou-se livremente nesta premissa.
Foi David Bowie que resgatou James Osterberg do seu próprio sanatório circa 1976. O final dos Stooges e o tsunami de excessos associados à banda deixou o seu vocalista à beira do colapso e a entregar-se voluntariamente nos braços de uma instituição psiquiátrica. The Idiot, editado no ano seguinte, resulta das experiências revitalizantes levadas a cabo em conluio com o Camaleão.
É o disco mais atípico assinado por Iggy Pop, mas é também a sua obra mais profunda e fascinante. Longe do rock propulsivo e visceral dos Stooges, The Idiot habita no reino das sombras e movimenta-se pela calada da noite em regime de autofagia introspectiva. Com os seus rasgos de electrónica e produção paludosa, o álbum desliza qual fantasma de sobrolho carregado pela noite monocromática e desolada da urbe. A urbe é Berlim, desfigurada pelo quelóide de cimento que a divide em duas, escura como breu, friamente romântica. E narcótica.
Sister Midnight, exercício assente numa guitarra funky futurista e groove obstinado, empurra desejos reprimidos para a noite faminta e fecha a porta atrás deles. Robótica, Nightclubbing faz uma vénia ao krautrock enquanto penetra, lânguida, pelas decadentes caves berlinenses. Imaginamos Pop e Bowie, esquálidos, vampirescos, intoxicadamente ausentes, a vaguear entre os comuns mortais.
Funtime desce mais fundo na escadaria gótica e prolonga o devaneio kraut, com a vertigem repetida do seu ritmo a la Neu!. I'm gonna get stoned and hang around, canta Pop com pragmatismo e sem falsos pudores, lembrando-nos que Berlim era o lar europeu da heroína no final dos anos 70 e que ele e Bowie eram inquilinos curiosos...
Baby é uma tensa estação que passa, frenética, para dar lugar a China Girl. Hit massivo para Bowie anos mais tarde, apresenta-se aqui pouco polida e produzida, uma canção de amor que irrompe a altas horas da noite, quando a mente ainda sofre os frémitos de uma noite excessiva e o corpo procura um consolo que não vem.
Lenta e arrastada, Dum Dum Boys é uma nostálgica e, ao mesmo tempo, corrosiva excursão aos despojos dos Stooges. Tiny Girls é uma espécie de soul futurista e plastificada e que elucida de sobremaneira quando Iggy definiu The Idiot como um cruzamento entre James Brown e Kraftwerk. E o grand finale fica entregue a Mass Production, literalmente uma massiva e esmagadora orgia narcótica, num martelanço crescente e doentio que espicaça a mente. Delicioso...
David Bowie terá sido o grande beneficiado em toda esta história. The Idiot parece, muitas vezes, um laboratório de ensaio para as suas experiências futuras (nomeadamente a sua fase berlinense), sendo Iggy Pop a cobaia. Alguns dos temas foram recuperados posteriormente por Bowie e este tipo de sonoridade ficará sempre mais associado ao Camaleão que à Iguana. Mesmo assim, este é o disco sério de Iggy e, porque não dizê-lo, a sua obra mais marcante apesar de não o definir. O Idiota foi apresentado a outro mundo, mas logo se refugiou naquele onde sempre se sentiu mais confortável...