23 de fevereiro de 2013

Arte Rock

Em 1972, ano insuflado por odisseias sinfónicas de rock progressivo, irromperam os Roxy Music, destilando canções de 3 minutos como Virginia Plain ou Pyjmarama, decretando um boicote ao supérfluo e recuperando a urgência do momento. Juntamente com o Bowie de Ziggy Stardust e os T-Rex de Bolan e o seu Electric Warrior, devolveram a lascívia ao rock, desta feita de forma premeditadamente arty, encenada, cinemática. Se o primeiro álbum da banda londrina era um oásis num deserto de solos de guitarra intermináveis e peças que ocupavam o lado inteiro de um vinil, se a própria imagem dos seus membros (do dandy futurista Bryan Ferry ao alien andrógino Brian Eno, passando pelos óculos de mosca de Phil Manzanera) era radicalmente diferente e inovadora para os standards da época, a sua segunda aparição solidificou o pouco que remanescia líquefeito.
There's a new sensation / A fabulous creation... As duas primeiras estrofes de Do The Strand, tema que abre For Your Pleasure, são indicativas do que se segue. O disco de 1973 pode bem ser a criação mais fabulosa dos Roxy Music, aquela que encontra o grupo no pico dos seus poderes. Onde o classicismo melódico e requintado de Ferry se cruza na perfeição com o experimentalismo vanguardista de Eno.
Supostamente, Do The Strand pretende ser um incentivo à dança com o mesmo nome. Uma dança desconhecida, sob um ritmo enérgico e uma letra críptica, debitada incansavelmente. Um clássico hoje, mas uma bizarria no panorama musical de 1973.
A mesma mistura de familiaridade e estranheza percorre o álbum, flagrantemente acessível mas distorcidamente maquilhado. É inegável a afinidade com o krautrock, mais especificamente os Can, no longo épico minimal e hipnótico The Bogus Man. A beleza fugaz da juventude e o estrelato efémero de Beauty Queen. A decadência crepitante do genial In Every Dream Home a Heartache, onde um homem que tem tudo ama obsessivamente uma boneca insuflável (Inflatable doll / My roll is to serve you ... I blew up your body / But you blew my mind).
Sem um único tema fraco, do frenesim contagiante de Editions of You às difusas sombras existenciais de Strictly Confidential, For Your Pleasure é um dos álbuns de referência da década de 70 do século passado. Há quem chame a esta música excepcional glam rock, há quem lhe chame art rock. Ambas fazem sentido, mas felizmente aqui a arte sobrepõe-se ao glamour. E quando chegamos ao fim, quando o tema-título começa solenemente a circular à nossa volta, qual canção de embalar com electricidade estática na ponta dos dedos, uma estranha calmaria invade-nos e leva-nos para longe. E arroubamo-nos. E deixamo-nos levar pela fantasia. E acreditamos que o rock pode ser arte.
O conflito de egos entre Eno e Ferry não demoraria a abrir fissuras e o não-músico extravagante e pejado de penas e lantejoulas cedo partiria para uma carreira a solo que moveu montanhas na música como hoje a conhecemos. Ferry prosseguiu a timonar o barco, os Roxy Music continuariam a ser a sua banda e muitos feitos notáveis se seguiram. Mas a sintonia de ideias e a química artística de For Your Pleasure são únicas e irrepetíveis.

                             

Scottology




Na ressaca de mais um disco desconcertante e incatalogável, Bish Bosch, continua a ser saudável assistir a uma nova vaga de interesse por Noel Scott Engel. Ou Scott Walker, americano por defeito, europeu por virtude, cujo nome adoptado pela banda que primeiro o acolheu nunca mais o deixou em paz e a ele se cola como um alter ego tão notório quanto grotesco. Uma persona que perdura ao longo de tantos anos de inflexões e radicalismos.
O conjunto de ensaios e entrevistas reunido em No Regrets - Writings on Scott Walker não é para neófitos. É para conhecedores e admiradores da estranha arte e dos bizarros métodos de um dos músicos verdadeiramente únicos dos últimos 50 anos. Mais que descritivo, o livro é uma discreta torrente de admiração pelo homem e a sua obra. Uma viagem pelos caminhos tortuosos da sua vida (sempre a artística, porque a pessoal é um perpétuo mistério, alimentado a rumores e mitos) e da música que desovou. Uma música que consegue erguer-se aos píncaros do belo para depois cair a pique no mais aterrador dos pesadelos.
Do advento dos Walker Brothers à abismal feitura de The Drift, No Regrets conta com o contributo de grandes nomes da escrita musical realmente importante da actualidade, como Rob Young (o editor), David Stubbs, Ian Penman ou David Toop (que assina um texto brilhante). Com a chancela de qualidade da revista Wire, o livro é essencial para os seguidores de Scott - homem, mito e magia.

5 de fevereiro de 2013

Sons Frondosos


O Verão de 1999 foi invadido e sarapintado pelos sons sobrenaturais dos Olivia Tremor Control. A música bela e surreal dos norte-americanos, mergulhada em mares lisérgicos e domando magistralmente o psicadelismo, ganhou corpo num disco sem tempo, uma obra-prima chamada Black Foliage: Animation Music Vol. 1.
A dimensão onírica que povoa este registo não acontece por acaso: durante meses, os Olivia Tremor Control inspiraram-se em excertos de sonhos pedidos aos seus fãs. Fizeram gravações de campo ao melhor estilo da música concreta e adicionaram-lhes as suas melodias alucinogéneas, o que resultou num disco tão encantador como exploratório e esquizofrénico.
Black Foliage é, efectivamente, atravessado por diversas camadas de consciência, sucessivas clivagens e ambiências caleidoscópicas de sonhos despertos e abismos ilusórios.
Um surrealismo derivado de  Dali transborda da capa e, se a música tivesse cor, a dos Olivia Tremor Control seria uma explosão clara e escura, multicolorida. A máquina psicadélica de sons estranhos e indefiníveis não pára de mover-se, orquestrando uma teia ao longo dos 27 temas que compõem o disco. No imediato, surgem à ideia Magical Mystery Tour dos Beatles e o mítico Smile dos Beach Boys, obras que encerram o espírito de estios tão imaculados como intoxicados. As melodias mais deliciosas e sumarentas são intercaladas por momentos de puro delírio que desafiam as convenções. As vocalizações erguem-se, harmónicas e emotivas, mas ao mesmo tempo distantes e a riqueza de detalhes é uma constante, o que impede que o disco seja absorvido numa única audição. Exige tempo e abertura mental para deixar escorrer a sua luxuriante torrente musical.
A Familiar Noise Called "Train Director", Hideaway, A Sleepy Company, I Have Been Floated, Black Foliage (Itself), The Sylvan Screen, California Demise (3) Hilltop Procession (Momentum Gaining) são estilhaços imprescindíveis em qualquer vitral psicadélico de excelência. Obras-primas absolutas na arte de criar pequenas canções fervilhantes de sonho e fantasia. Tal como o precipício demencial de The Bark and Below It, o negativo escuro e labiríntico das luminosas florestas sónicas que com ele coabitam.
Music for the Unrelased Film Script: Dusk at Cubist Castle, o primeiro álbum dos Olivia Tremor Control, é também muitíssimo aconselhável. Mas é no seu sucessor que a banda da Louisiana depura a sua arte, se revela em pleno e nos arrebata sem pudor nem misericórdia. Já disse que é uma obra-prima? E o Verão que nunca mais chega...

Chancelaria


A excelente editora alemã Bureau B reeditou recentemente o primeiro álbum dos seus conterrâneos hamburgueses Palais Schaumburg. O disco, datado de 1981, é uma das obras de charneira da Neue Deutsche Welle, a resposta teutónica ao pós-punk britânico. Tão dançável como cerebral, tão cativante como esquisito, Palais Schaumburg ainda hoje intriga e desarma. É um disco tão alemão na sua estética formal como anti-alemão na mensagem.
A génese do grupo incluiu dois nomes maiores da modernidade musical da nação: o mestre da samplagem Holger Hiller, aqui encarregue da guitarra e das vocalizações entre o histriónico e o acossado, e F.M. Einheit, futuro baterista dos Einstürzende Neubauten. O primeiro abandonou a banda para seguir uma carreira a solo pouco depois do lançamento do álbum de estreia. O segundo saiu ainda antes disso. Esta perda progressiva de elementos fundamentais fez com que os Palais Schaumburg fossem perdendo qualidades até colocarem um ponto final na sua existência em 1984, após três álbuns e uma mão-cheia de singles. Merece, no entanto, destaque Moritz von Oswald, um dos maiores nomes da electrónica dançante da actualidade e que foi igualmente percussionista do grupo na sua derradeira fase.
Algures entre o tratamento esquelético e minimal que os A Certain Ratio deram ao funk e o rock experimental dos This Heat, Palais Schaumburg instala-se no sistema nervoso do ouvinte como uma agulha fina que penetra a pele e por lá se move sem nunca trespassar a carne. Wir Bauen Eine Neue Stadt é o tema que abre o disco e o único single dele extraído. Um festival de irreverência anárquica, com ritmo espasmódico e vídeo a condizer:





Gute Luft e Deutschland Kommt Gebräunt Zurück surgem depois, estranhamente dançáveis, inadaptados mas acessíveis. Die Freude e Eine Geschichte incorporam os ritmos ossudos e os baixos angulares pelos quais a banda se notabilizou, assim como as demenciais vocalizações de Holger Hiller, a meio caminho entre David Thomas e David Byrne. Hat Leben Noch Sinn? é quase disco mutante, uma marcha militar a trilhar a pista de dança. E Madonna pode bem ser o melhor momento do álbum, um tremendo exercício de frenesim rítmico, impregnado de frieza eufórica.
A edição deluxe de Palais Schaumburg acrescenta-lhe prestações ao vivo, bem como os primeiros singles da banda, onde a estética se começou a delinear e peças imprescindíveis para compreender a sua evolução. Fica a interpretação de um deles, Telephon, envolta numa atmosfera quase expressionista e um belo atestado das capacidades do quarteto. Que entretanto se reuniu na formação original, voltando a espalhar brasas pelos palcos que tiverem o arrojo de os acolher.


4 de fevereiro de 2013

Ópio do Povo



Religulous, documentário de 2008 nascido da parceria entre o comediante Bill Maher e o realizador Larry Charles é, antes de mais, um objecto hilariante. Apesar da temática abordada ter o condão de pôr os cabelos em pé ou os ânimos exaltados a todos os que a defendem: as crenças religiosas e a forma como a religião se encontra organizada.
Ao longo do filme, o comediante confronta seguidores de vários cultos acerca dos princípios e da lógica das suas crenças. A ténue fronteira entre o preocupante e o ridículo está sempre presente nas palavras da maioria dos  entrevistados, assim como a improbabilidade de congregações como os Judeus por Jesus ou a Capela dos Camionistas.
Ninguém é poupado à irreverência de Maher. Cristãos, judeus e muçulmanos são escrutinados e as suas crenças viradas do avesso à procura de uma razão para a o que as fez surgir, propagar e serem aceites sem dúvidas ou contestação. No campo teológico, filosófico ou científico, Religulous (óbvio cruzamento entre religion e ridiculous) não pretende demonstrar que é dono da verdade. Acima de tudo assume que não existe verdade nenhuma, e é assim que deve ser visto, como um excelente filme de entretenimento que nos faz rir enquanto nos obriga a reflectir mais seriamente nesta matéria.


1 de fevereiro de 2013

O Pulsar de Reich

Passados 35 anos da sua edição original, Music for 18 Musicians não perdeu nenhuma da sua frescura. A obra de Steve Reich, provavelmente a mais conhecida e reconhecida do seu cânone, funciona perfeitamente quer como introdução ao minimalismo, quer para um estudo mais aprofundado dos seus mecanismos.
O contributo do nova-iorquino para a música minimal é incomensurável. Reich é um dos compositores mais vanguardistas dos últimos 50 anos e as suas teorias e práticas projectaram uma miríade de influências, das ambiências de Brian Eno ao pós-rock dos Tortoise.
Music for 18 Musicians marca a diferença no minimalismo por usar um número substancialmente maior de executantes na sua interpretação. Os vários instrumentos envolvidos, incluindo vozes femininas, apresentam-se como pequenas partículas de um todo, gotas que fluem para formar um rio sonoro. A obra divide-se em duas partes, Pulse - Sections I - IV e Sections V - X - Pulse. A estrutura é circular e assemelha-se a um fractal. As onze pequenas peças são constituídas por onze acordes, que se imiscuem, sucedem e expandem até voltarem ao ponto de partida. O pulsar sente-se constantemente. Apesar de minimal, a música é rica em detalhes, harmoniosa e melodiosa. O facto da obra ser executada por, pelo menos, 18 músicos, ajuda à percepção dessa riqueza, em que os sons, circulares e repetidos, provocam diferentes reacções sensoriais. A psicoacústica era um dos interesses de Reich por esta altura e Music for 18 Musicians é um case study perfeito para induzir reacções ao som.
Pondo de parte a frieza e os componentes técnicos e organizacionais da obra, Music for 18 Musicians é uma criação de grande beleza e extremamente cativante e recompensadora para quem se deixar flutuar no leito das suas águas. Uma composição que tanto nos consegue abrir a mente a turbilhões imaginativos, como relaxar-nos na sua cadência repetitiva. Everybody grows up with a sound, disse certa vez Steve Reich. Mas este som cresce dentro de nós.


Idade do Vinil



A norte-americana Amoeba Music define-se como a maior loja independente de discos do mundo. Como em tudo na vida, o tamanho é relativo, mas este histórico espaço parece não descansar à sombra da sua dimensão. Recentemente, os adeptos da música mais obscura, especialmente os devotos do vinil, têm um motivo de regozijo. A Amoeba Music tem-se dedicado a digitalizar e a colocar online o seu espólio mais raro, muito dele constituído por edições descontinuadas. Na secção Vinyl Vaults do seu website, a loja disponibiliza para download um largo número de discos em vários formatos e que percorrem os mais diversos géneros musicais. Tomando como exemplo o jazz, é possível encontrar relíquias de Louis Armstrong ou Coleman Hawkins a conviver sem sobrancerias com nomes desconhecidos da esmagadora maioria. Improváveis e kitsch, como Your Friendly Neighborhood Rhythm Section ou Cotton Top Mountain Sanctified Singers.
Passear por este espólio é ser teletransportado para um mundo de música vintage e desaparecida e já não é preciso ir à Califórnia para o conseguir. Para adeptos do coleccionismo, ou para quem ainda é capaz de pagar por estes artefactos, a Amoeba Music será um nome a acalentar.

28 de janeiro de 2013

Velho Testamento


Para as gerações mais novas, Tim Buckley fica muitas vezes confinado ao estatuto de pai de Jeff Buckley. O filho, tal como o pai, malogrado prematuramente, deixou-nos Grace, obra-prima que deixava antever glórias maiores mas nunca cumpridas. Um disco que se tornou marcante na existência musical de muito boa gente. O legado de Tim é bastante mais extenso, eclético e exploratório. Começou como bardo folk rock no seu primeiro álbum, adicionando temperos psicadélicos à sua música em registos como Happy Sad e Blue Afternoon. Um progressivo interesse pelo jazz e pela música de vanguarda desenhou o esqueleto de Lorca e Starsailor, as suas obras mais experimentais. E os seus últimos discos voltaram-se para territórios em que a nunca abandonada folk foi exaltada pela soul e pelo funk. Esta derradeira fase é a menos interessante da carreira do músico, se bem que Greetings From L.A. seja um dos seus registos mais celebrados.
Tim Buckley viveu uma existência de progressivos excessos. Por ironia do destino, escapou ao Clube dos 27, mas a morte levou-o aos 28 anos, calando uma das mais belas e impressionantes vozes que o mundo conheceu.
My Fleeting House é o documento visual mais completo dedicado ao músico norte-americano. Feito de interpretações ao vivo de temas que marcaram a sua história e da pontual participação de colaboradores (caso do guitarrista Lee Underwood, presença constante durante toda a carreira de Tim), este documentário de 2007 é um tesouro de arquivos que ajudaram a construir a lenda. As rendições brilhantes de clássicos como Song To The Siren, Dolphins ou Morning Glory enfatizam o génio e a voz única do cantor, uma voz que tanto cantava poesia como era ela própria um instrumento a juntar aos demais, uma entidade abstracta que encantava mesmo sendo ininteligível.
Se a memória de Jeff Buckley continua muito viva (basta ver a quantidade de doppelgängers de Grace que continuam a ser editados), a de Tim é cíclica, nunca saindo dos escalões do culto. Um génio que deu vida a outro génio, ambos torturados, ambos levados demasiado cedo. Mais que um pai, um genitor de arte.

4 de janeiro de 2013

Remédio Santo

Os Cure sempre resultaram melhor movendo-se por entre as sombras que expostos à luz. Artesã de canções pop enormes e intemporais, a banda de Crawley caracterizou-se igualmente pela bipolaridade. Pela alternância entre rigor negro e surrealismo colorido, entre rarefacções góticas e baforadas de ar fresco. À desolação hardcore de Pornography seguiu-se a pop mergulhada em psicadelismo de The Top. Ao caleidoscópio inconsistente de Wild Mood Swings seguiu-se a neblina monolítica de Bloodflowers. E, entalado entre duas obras de extrema variedade criativa e alguns tiros ao lado (Kiss Me Kiss Me Kiss Me e Wish) encontra-se o opus maximus do grupo: Disintegration.
Rezam as crónicas que o líder Robert Smith se encontrava mergulhado em águas depressivas quando o disco veio à tona. Indefinições artísticas, envelhecimento, incompreensão, eis alguns dos fantasmas que Smith invocou para a sua concepção. A desintegração emocional provocada pela confrontação com uma realidade sombria, contrária às expectativas.
Disintegration não é um disco para ouvir de ânimo leve, muito menos com os ouvidos. É algo pesadamente sentimental, que se incrusta no coração como a criatura de Alien. A música é, invariavelmente, arrastada, escura, aquosa e desavergonhadamente romântica. Insistentemente sublime. Os temas são longos e expansivos, com pontuais excepções, como os celebrados e eternos Lovesong e Lullaby, duas das mais perfeitas e irresistíveis criações dos Cure. Mas é como um todo, de uma ponta à outra, que esta obra de arte deve ser consumida. Do prelúdio à tempestade em tons de psicadelismo cinza de Plainsong à melancolia resignada e crepuscular de Untitled. O fim, a ideia de extinção, estão sempre presentes, mais ou menos metafóricos, mas sempre dilacerantes (Pictures of You, Disintegration, Closedown). Prayers For Rain e o monumental The Same Deep Water As You são momentos magistrais de profunda introspecção, tão atmosféricos como intensos. E a depressão torna-se doce no embalo oceânico de música tão onírica.
Se Disintegration não fosse um disco dos Cure, provavelmente não teria tido o sucesso massivo que conseguiu. Sucesso que deu azo a uma reedição titânica, composta por quatro discos, em 2010. Mais que merecido e ideal para quem não vive sem esta música, da mais bela e triste alguma vez feita. Um milagre sonoro para melancólicos praticantes.

29 de dezembro de 2012

2012: A Soundtrack

                               

Não é de admirar que o mundo não tenha acabado em 2012. O que é de admirar é que houve gente a acreditar nisso. Sinal dos tempos que vivemos, talvez, em que o progresso é acompanhado de obscurantismo. Mas, se a profecia Maia não se cumpriu à letra, muita coisa terá mudado irreversivelmente no mundo como o conhecemos. Especialmente na Velha Europa e, dolorosamente, no rectângulo luso.
Uma amálgama de música encheu o ano, na sua grande maioria indiferenciada. Segue abaixo a listagem do que mais me surpreendeu, prendeu e preencheu. Scott Walker e o seu Bish Bosch podem ser ainda recentes para permitir uma prolongada degustação, mas o choque é suficiente para deixar marcas profundas à primeira audição. Talvez por não haver mais nada nem ninguém a soar assim, talvez por parecermos entregues à bisharada, este disco captura magistralmente o espírito desta época em que estamos condenados a existir. Complexo e perturbador, intenso e sombrio. E a sanidade parece não estar à vista no ano que se aproxima...

1. Scott Walker - Bish Bosch

2. Swans - The Seer

3. Tame Impala - Lonerism

4. Beach House - Bloom

5. Frank Ocean - Channel Orange

6. Grimes - Visions

7. Bill Fay - Life Is People

8. Godspeed You! Black Emperor - 'Allelujah! Don't Bend! Ascend!

9. Fiona Apple - The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do

10. The XX - Coexist

11. Chromatics - Kill For Love

12. Grizzly Bear - Shields

13. Liars - WIXIW

14. Julia Holter - Ekstasis

15. Dirty Projectors - Swing Lo Magellan

16. Kendrick Lamar - good kid, m.A.A.d city

17. Laurel Halo - Quarantine

18. The Walkmen - Heaven

19. Sharon Van Etten - Tramp

20. Death Grips - The Money Store

21. Ty Segall Band - Slaughterhouse

22. Bob Dylan - Tempest

23. Jack White - Blunderbuss

24. Actress - R.I.P.

25. Alt-J - An Awesome Wave

26. Cat Power - Sun

27. Django Django - Django Django

28. Toy - Toy

29. Japandroids - Celebration Rock

30. Ariel Pink's Haunted Grafitti - Mature Themes

31. Twin Shadow - Confess

32. Andy Stott - Luxury Problems

33. Dr. John - Locked Down

34. Chairlift - Something

35. Jessie Ware - Devotion

36. Leonard Cohen - Old Ideas

37. Spiritualized - Sweet Heart Sweet Light

38. Cloud Nothings - Attack On Memory

39. Bobby Womack - The Bravest Man In The Universe

40. Sun Araw & M Geddes Gengras meet the Congos – Icon Give Thank

41. Neil Young & Crazy Horse - Psychedelic Pill

42. Mark Lanegan Band - Blues Funeral

43. Flying Lotus - Until The Quiet Comes

44. Alabama Shakes - Boys & Girls

45. Neneh Cherry & The Thing - The Cherry Thing

46. Bat For Lashes - The Haunted Man

47. El-P - Cancer For Cure

48. Carter Tutti Void - Transverse

49. Porcelain Raft - Strange Weekend

50. Gravenhurst - The Ghost In Daylight

27 de dezembro de 2012

Kosmische Kosmetik XLVI

Dieter Moebius foi sempre considerado a face mais agreste dos Cluster. A metade mais arrojada e experimental do duo, acrescentando uma paleta de escuridão à luminosidade melódica do seu par Roedelius. Para além desta mítica dupla electrónica, o músico alemão operou em vários projectos e colaborações antes da sua primeira aventura a solo. Harmonia, Liliental e dois discos seminais em parceria com Conny Plank são algumas das referências inescapáveis que antecederam Tonspuren, álbum de 1983 totalmente moldado pela sua mão.
Apesar das semelhanças óbvias com a abstracção electrónica em miniatura dos Cluster mais tardios, Tonspuren possui uma forte identidade própria. A personalidade vincada de Moebius, deixado sozinho, brincando e experimentando com as suas inspirações e intuições. Como se a carne dos Cluster tivesse sido roída, deixando exposta apenas a carcaça, um esqueleto de ambiências minimais e melodias quebradiças.
É um disco que caminha para a noite. Que pede isolamento e abstracção. Maioritariamente sombrio, começa com esparsos estilhaços de luz e cor. Os três primeiros temas, Contramio, Hasenheide Rattenwiesel, são os que mais se aproximam da estética dos Cluster de Zuckerzeit ou Sowiesoso. Depois o crepúsculo começa a erguer-se lentamente, abafando luz e cor num manto progressivamente cinzento. Transport é veículo subterrâneo que serpenteia por túneis industriais. Nervös faz juz ao nome, destilando paranóia rítmica e melodia opressiva. A tensão prolonga-se na dança com as sombras que é B 36 e culmina no palpitar gélido de Sinister. Surgem pistas para o que seria o advento da techno mais densa e minimal em Etwas e Immerhin é escolástica na forma como mistura polidez estética a estertores colaterais.
Tonspuren significa banda-sonora em português. À la lettre, seria certamente a música ideal para um filme de espionagem a preto e branco passado em Berlim ou na Moscovo da Guerra Fria. Despida de interpretações, é um compêndio da importância e influência de Dieter Moebius nas linguagens electrónicas contemporâneas.

21 de novembro de 2012

Kosmische Kosmetik XLV

A prolífica carreira a solo de Hans-Joachim Roedelius é plena de bons momentos. Mais ou menos memoráveis, mas sempre com selo de qualidade. E essa caminhada solitária teve início ainda nos tempos em   que o berlinense se movia com audácia e estilo em projectos como os Cluster e os Harmonia.
Foi entre 1973 e 1979 que as peças que compõem Selbstportrait I ganharam vida. E este disco, que deveria ser o primeiro em nome de próprio de Roedelius, acabou por nascer tardiamente, após o magnífico Durch die Wüste e de Jardin au Fou.
Selbstportrait I é o som do músico em introspecção, em relaxamento egocêntrico e despido de artifícios. Minimal, simples, melódica e beatífica, a música patente nesta obra define bem as aproximações de Roedelius à electrónica ambiental, bem mais próximas do seu ocasional colaborador Brian Eno que das texturas mais abrasivas e experimentais dos seus primórdios exploratórios.
Os instrumentos usados, maioritariamente um órgão Farfisa e um sintetizador Revox A77, conferem a Selbstportrait I uma atmosfera de pureza quase virginal e uma proximidade confessional. Música sem filtros, despojada e descarnada, guarda em si o embrião de muitos sons futuros. E quão aconchegante é deixar pensamentos e emoções fluir no suave embalo de In Liebe Dein, Arcona Girlande. Ou estimulante pintar quadros imaginários ao som de micro-sonatas electrónicas como Inselmoos,  Fabelwein ou Halmharfe. Sempre em onírica travessia até ao lullaby final de Minne.
Os auto-retratos de Roedelius continuaram a ser revisitados ao longo da sua existência musical, sendo que o oitavo volume desta série foi editado em 2002. Todos muitíssimo aconselháveis, mas nunca esquecendo que, mesmo com a sua ingenuidade e improviso, não há amor como o primeiro.