4 de fevereiro de 2014

Blitzkrieg Punk

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Os três primeiros álbuns dos Ramones são objectos sem falhas e pedras basilares do movimento punk. Devolveram o rock à sua simplicidade básica e à sua energia pura e intensa. Ramones, Leave Home e Rocket to Russia  são bíblias na arte de fazer mexer o corpo e esquecer o que vai na mente. As suas canções entranham-se sem pedir licença e transformam num teenager instantâneo o ouvinte que a elas sucumbe. Air guitar e headbanging tornam-se tão naturais como respirar.
No seu apogeu criativo, o quarteto nova-iorquino editou um dos álbuns ao vivo mais marcantes e excitantes da história do rock. Um disco que comprova a máquina imparável que eram em concerto e o poder galvanizador e revigorante da sua música.
It's Alive foi gravado na última e suada noite de 1977, no londrino Rainbow Theatre, perante uma audiência que não poupou o espaço nem o físico. Os Ramones também não ajudaram, debitando tema atrás de tema a velocidade alucinante. Uma sucessão de clássicos, onde não faltou a imortalidade vigorosa, contagiante e bubblegum de Rockaway Beach, Sheena is a Punk Rocker, Blitzkrieg Bop ou Pinhead.
Os 28 temas que compõem o disco foram reduzidos para metade no filme do concerto. Uma avalanche igualmente deliciosa e plena de desbunda punk que constitui outro documento obrigatório para consumir a combustão de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy. E agora, sem mais delongas, one two three four...!


          

1 de fevereiro de 2014

Dieta Mediterrânica XI

http://1.bp.blogspot.com/-a3WiVUiKCUs/UTexJ7UGrxI/AAAAAAAAA-w/h4qo9UoCRPA/s1600/Elektriktus%2B-%2BElectronic%2BMind%2BWaves%2B-%2Bfront.jpg
O projecto Elektriktus é uma estrela isolada na constelação de lavores do músico italiano Andrea Centazzo. Mais inspirado por estéticas avant-garde e pelo jazz improvisado, editou em 1976 um disco de nome Electronic Mind Waves que o aproximou perigosamente dos devaneios cósmicos alemães desse período.
Esta obra misteriosa principia com uma descarga de sons cintilantes e agudos, que agulham os ouvidos como se quisessem purgar a mente de qualquer pensamento para a invadir sem resistências. Chama-se Frequencer Departure e dilui-se progressivamente na siamesa Flying At Day-Break até que o ataque se resume a um murmúrio espumoso e flutuante.
First Wave sincroniza os padrões, emitindo ondas sonoras cadentes e repetitivas sobre um ritmo fixo e maquinal. Mais duas ondas se seguirão, a primeira vibrante e fluida, a segunda apaziguadora e suspensa. Pelo meio instalam-se Power Hallucination, devaneio sombrio que pinga gotas electrónicas e sopra ventos cibernéticos, e Implosion, nova espiral que combina melodias circulares a envolvências meditativas, a tendência geral do disco. É igualmente em círculo que Electronic Mind Waves se fecha no final. Primeiro com o balsâmico e planante Flying At Sunset e depois com o cair do pano definitivo de Frequencer Arrival. Volta a acupunctura sonora, mas desta vez em tons graves e crepusculares.
Da aurora ao ocaso, a única obra do percussionista Andrea Centazzo sob a denominação Elektriktus é uma preciosidade a descobrir e valorizar. As influências germânicas são de sobremaneira evidentes (Kraftwerk e Neu! nos temas mais ritmados, Conrad Schnitzler e Cluster nas peças mais atmosféricas), mas a paixão e a frescura que vibram neste disco demonstram mais inventividade que mero decalque. E Electronic Mind Waves pode muito bem ser a melhor referência da Itália como satélite da música cósmica.

29 de janeiro de 2014

Dancing in the Dark

Apesar das guitarras inexistentes e dos ritmos electronicamente gerados, os Suicide foram o primeiro  grupo a autodefinir-se como punk. Surgido no alvor dos anos 70, o duo nova-iorquino formado por Alan Vega e Martin Rev causou controvérsia, animosidade e estranheza logo à partida, mas foram também esses elementos que os fizeram perdurar no tempo e tornar-se um dos projectos mais influentes do final do século XX sem nunca perderem o estatuto underground.
O primeiro álbum, clássico absoluto e um dos discos mais distintos da sua era, surgiu apenas em 1978. Nessa altura, os Suicide já não soavam e pareciam tão singulares e ofensivos como nos primórdios, mas a postura confrontacional mantinha-se, especialmente nos concertos ao vivo, eventos normalmente utilizados pelo vocalista Alan Vega para espicaçar e provocar o público, observado pelos impenetráveis e constantes óculos escuros do gerador de sons Martin Rev.
A música de Suicide é densa, tensa e sombria. Quase lúgubre no seu negrume e envolta numa disforia espectral. Os trovejos electrónicos expelidos pelos teclados de Rev alternam entre o calor hipnótico e o frio imaterial. Vega paira por cima, qual morcego rockabilly, debitando vocalizações que invocam os fantasmas de Elvis Presley e Gene Vincent.
As letras são vagas e minimais. America, America is killin' its youth, ouve-se em Ghost Rider, o propulsivo e intenso tema de abertura. Gonna crash, gonna die and I don't care, apregoa o urgente e turbulento Rocket U.S.A.. E Frankie Teardrop leva ao extremo a união entre palavras explícitas e música transtornada, com o relato de um jovem operário que fica na miséria e mata mulher e filho, suicidando-se em seguida. We're all Frankies, we're all lying in hell, clama Alan Vega no final, e ninguém sai incólume deste filme de terror sonoro.
Girl debita ritmo em chicotadas metralhadas e Cheree é uma das canções de amor mais desviantes e incomuns de sempre. Um abraço quente na frieza das ruas, um poema parco em palavras mas rico em ardor. E é da desolação das ruas escuras da Nova York dos anos 70 que toda a música de Suicide se alimenta. Um disco para ouvir sempre fora de horas e sempre um disco fora de tempo, apesar de inovador e influente.
A reedição de 2000 desta obra seminal acrescenta-lhe um merecido e lendário artefacto: 23 Minutes Over Brussels, gravação de um concerto em que os Suicide abriam para Elvis Costello. A hostilidade do público para com a banda passa de latente para evidente, Vega e Rev são forçados a abandonar o palco e Costello responde tocando apenas uns minutos. Tudo termina em motim e pancadaria. Alan Vega pode ter saído da Bélgica com o nariz partido, mas foi ele e o seu parceiro que riram melhor no fim.

15 de janeiro de 2014

Às Armas

A música dos Gun Club entranha-se como o calor da sua Califórnia natal. Mas é um calor nocturno, que rasteja pelo deserto e se infiltra na cidade, acordando vícios e transgressões. É música urgente e vibrante, mas que carrega o peso das raízes americanas, fantasmas do passado que encarnam no esqueleto do punk e do rock de garagem.
O grupo de Los Angeles foi formado em 1979 por Jeffrey Lee Pierce e Brian Tristan, em breve rebaptizado Kid Congo Powers. O melting pot entre a energia do punk, a visceralidade dos blues e a atmosfera ao vivo quase tribal que os Gun Club exibiam lançou as primeiras sementes para subgéneros como o punk blues e o psychobilly.
Aquando da edição de Fire of Love, o guitarrista Kid Congo Powers tinha-se tornado membro das principais referências deste último, os Cramps. Mas isso não impediu que o primeiro álbum dos Gun Club fosse um prodígio vertiginoso e venenoso de urgência, desespero e intensidade. Os seus 40 minutos passam como um ritual voodoo alimentado a guitarras extáticas e ritmos inquietos, em que a atmosfera alterna entre o transe arrebatado e o torpor narcótico.
Sex Beat é, em si, uma referência. Um frenesim diabólico de sexo, drogas e country fustigado pelo punk. Um som crú mas refrescante em simultâneo, expelindo fantasmas das trevas musicais americanas à luz de 1981. A sedução com odor a morte é uma constante ao longo do disco. She's Like Heroin To Me, pulsante e intoxicante, contém a mesma mensagem dúbia, o vício como mulher ou uma mulher como vício. Impossível não relembrar as palavras de Keith Richards na sua biografia quando diz heroin is the most seductive bitch in the world. 
For the Love of Ivy é coberta por uma mortalha gótica, uma história de amor e morte entre a surdina paranóica e o estouro descontrolado que soa a antepassada remota dos tremendos 16 Horsepower. A mesma sombra gótica, sulista e fatalista, paira sobre a cavalgada espectral de Ghost on a Highway. Uma versão demolidora de Preaching the Blues transforma o original de Robert Johnson num lança-chamas musical, tão contagiante como infernal. Goodbye Johnny despede-se como um outlaw country tocado por cowboys demoníacos que inflingem descargas eléctricas de guitarra como se fossem chicotadas.
Ao longo do disco, Jeffrey Lee Pierce estraçalha a laringe que nem um perdido e a temática das suas letras não deixam muito espaço à imaginação quanto ao seu estilo de vida e ao destino que o aguardava. Pierce morreria em 1996, depois de anos de abuso de drogas e álcool, seropositivo e cirrótico. O seu legado musical com os Gun Club, que começou a ser escrito de forma brilhante e influente em Fire of Love, depurou-se e transmutou-se ao longo de mais seis álbuns. Com altos e baixos, mortes e ressurreições até ao estertor final. O legado é notório e salta à vista, mas nada excede o pecado original.

30 de dezembro de 2013

2013: A Soundtrack



Valha-nos a música para suportar mais um annus horribilis em Portugal. 2013 foi exasperante para qualquer pessoa socialmente consciente e os tempos revoltos teimam em agudizar-se. Neste retrocesso civilizacional que todos experienciamos, algumas regressões musicais foram prova de vitalidade e reinvenção. Os My Bloody Valentine voltaram, tão subitamente como se desvaneceram, e com um álbum mais que à altura das expectativas. Tal como David Bowie, que nos presenteou com um álbum de admirável solidez e pertinência criativa. Nick Cave continua a manter a qualidade composicional mesclada com arrojos e audácias nos seus registos, o que nunca o torna fastidioso e nos deixa sempre à espera de mais (continua imbatível ao vivo). Da nova fornada, as Savages engoliram-nos na escuridão visceral e Julia Holter trancou-nos no seu universo onírico e deitou fora a chave. Os Daft Punk fizeram tudo para seduzir e conseguiram arrebatar e os Arcade Fire estiveram-se nas tintas para fundamentalismos e incompreensões e editaram o mais surpreendente e polémico álbum do ano. Os eternos cruzados na demanda do Graal em forma de canção, não foram defraudados pelos Vampire Weekend, que confirmaram a tendência para a perfeição.
Segue abaixo a lista da praxe. Como sempre, a ordem não é rígida, reflectindo apenas a música que mais prazer me deu descobrir e ter como companheira ao longo do ano que agora termina.
 

1. My Bloody Valentine - MBV

2. Vampire Weekend - Modern Vampires of the City

3. Julia Holter - Loud City Song

4. Arcade Fire - Reflektor

5. Savages - Silence Yourself

6. Daft Punk - Random Access Memories

7. David Bowie - The Next Day

8. Nick Cave & The Bad Seeds - Push the Sky Away

9. The Knife - Shaking the Habitual

10. Kanye West - Yeezus

11. Factory Floor - Factory Floor

12. Laurel Halo - Chance of Rain

13. Oneohtrix Point Never - R Plus Seven

14. The National - Trouble Will Find Me

15. Disclosure - Settle

16. Forest Swords - Engravings

17. James Blake - Overgrown

18. Tim Hecker - Virgins

19. John Grant - Pale Green Ghosts

20. Chvrches - The Bones of What You Believe

21. Boards of Canada - Tomorrow's Harvest

22. Phosphorescent - Muchacho

23. Kurt Vile - Wakin On a Pretty Daze

24. Bill Callahan - Dream River

25. Unknown Mortal Orchestra - II

26. Mikal Cronin - MCII

27. Thee Oh Sees - Floating Coffin

28. Deafheaven - Sunbather

29. These New Puritans - Field of Reeds

30. Roy Harper - Man and Myth

31. Rhye - Woman

32. Arctic Monkeys - AM

33. Queens of the Stone Age - ...Like Clockwork

34. Grumbling Fur - Glynaestra

35. Haim - Days Are Gone

36. Fuck Buttons - Slow Focus

37. Darkside - Psychic

38. Laura Marling - Once I was an Eagle

39. Autre Ne Veut - Anxiety

40. Local Natives - Hummingbird

41. Rashad Becker - Traditional Music of Notional Species Vol. 1

42. Deerhunter - Monomania

43. Jonathan Wilson - Fanfare

44. James Holden - The Inheritors

45. Jon Hopkins - Immunity

46. Sun Kil Moon & The Album Leaf - Perils From the Sea

47. Foxygen - We are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic

48. Dean Blunt - The Redeemer

49. Mutual Benefit - Love's Crushing Diamonds

50. Midlake - Antiphon

29 de dezembro de 2013

Eterna Juventude (Sónica)


Raramente uma banda soou tão fresca como os Sonic Youth. Como se o próprio nome escolhido lhes garantisse perenidade e longevidade. Muito provavelmente o colectivo mais importante e influente do rock alternativo norte-americano dos últimos 30 anos, os diversos flirts com o noise e o experimentalismo, bem como curtas crises de acessibilidade, nunca lhes retiraram a aura punk. No sentido intencional, panfletário, iconoclasta e anti-establishment.
1991: The Year Punk Broke é um documentário de David Markey que retrata a tournée europeia dos Sonic Youth nesse mesmo ano. Em última instância acaba por ser um filme de época, que retrata a invasão europeia pelo rock underground americano e que utiliza factos culturais e históricos desse período para marcar a sua urgência, o seu teor de manifesto. É pelo momentum que o documentário vale e que o mantém apelativo após todos estes anos. Pelo cruzamento do passado com o futuro, em que os lendários Ramones convivem com os sempre intensos Dinosaur Jr.. Pela apresentação ao mundo dos magnânimos Nirvana, ainda diamante em bruto, sem suspeitas que Kurt Kobain se tornaria o Ian Curtis da geração MTV, e em topo de forma humorística (quem não for capaz de sorrir nostalgicamente algures entre os 15 e os 20 minutos do filme já não é corruptível pela punkalhada transgressora, o que é lamentável...).
1991: The Year Punk Broke continua a ser um estandarte da eterna renovação do rock, especialmente do mais descomprometido e centrado na sua energia e poder. Lírico mas real. Fugaz mas marcante. Muitos filmes do género surgiram, antes e depois dele. Este continua a ser o melhor para quem se deixou entranhar por esta música tão hormonal quanto amoral, tão congregante quanto alienante. Peço desculpa pelas legendas em espanhol, mas é o que há. E é suposto isto ser punk...


                              

27 de dezembro de 2013

Electrochoque


Dois exactos meses passaram desde que o mundo e a música perderam Lou Reed. É difícil afastar o sentimento de negação. Foi a maior perda de 2013, o desaparecimento de um artista irreverente, descomprometido e esclarecido até ao fim. Influente como poucos conseguiram e numa constante alimentação e fuga da sua própria lenda.
Já quase tudo foi dito desde a morte do músico norte-americano, porque todos temos sempre algo para dizer quando perdemos um herói, um modelo, um ídolo. As elegias a Reed, visionário fundador dos Velvet Underground; Reed, anjo caído num mar de drogas e álcool nos anos 70; Reed, ressuscitado criativamente no final dos anos 80... Cada disco, cada nicho, cada alto e baixo da sua vida merece ser avivado e escrutinado, porque é feito da matéria que compõe as lendas.
Lou Reed foi o verdadeiro patriarca do rock sofisticado, à frente do seu tempo. Sem ele não haveria David Bowie, Ian Curtis ou Kevin Shields. Poetizou as drogas, sacralizou o álcool, encafuou as ruas de Nova Iorque nos nossos quartos e electrificou-nos as vidas. Tudo aquilo que os nossos pais não queriam que soubéssemos mas que existe e não pode ser escondido. Revelado algures entre o romantismo e o escárnio, a raiva e o sarcasmo de uma voz que contava enquanto cantava.
Cada um tem algo para dizer quando perde um ídolo. Eu não sou excepção. Agora a bruma da morte começa a dissipar-se e o consumo exacerbado da obra, provocado por uma euforia triste, ganha um critério mais selectivo. Ao fim de anos de culto, é Berlin o disco que mais me marcou. O mal amado Berlin, cuja fraca recepção aquando da primeira edição, em 1973, levou Reed a um desprezo pelo corporativismo musical cujo acme foi atingido com o terrorismo sónico de Metal Machine Music.
Uma vez mais, a clássica resiliência reediana venceu, e, 35 anos depois da edição original, Berlin foi alvo de merecida aclamação ao longo de uma série de concertos comemorativos. A celebração foi imortalizada em filme por Julian Schnabel e capta na perfeição o êxtase eléctrico, a poesia urbana e a musculatura rítmica que brotam do melhor Lou Reed ao vivo.
No fim sobra o vazio, o luto perpétuo. Fica pouco no mundo quando alguém que nos ajudava a suportá-lo e a fugir dele se desvanece. Restam os passeios pelo lado selvagem, os subterrâneos de veludo, a magia e a perda, os dias perfeitos...

               

23 de dezembro de 2013

Fantasias de Natal

Os discos de Natal são vistos, por norma, como obras menores. Feitas no intuito de encaixar mais uns cobres ou desencadear um sentimentalismo foleiro. Este dogma tem fundamento quando nos deparamos com aberrações tais como o disco natalício de Billy Idol. Mas é discutível se for aplicado a uma obra mais consistente como Christmas, de Chris Isaak.
Se existe um disco de Natal incontornável em termos da qualidade da música e dos seus intérpretes, esse disco é The Bells of Dublin dos Chieftains, datado de 1991. O lendário colectivo irlandês - o mais famoso e aclamado da música tradicional da Ilha Esmeralda - concilia um conjunto de temas alusivos à época, intemporais e místicos. E congrega igualmente alguns nomes sonantes da música popular para a sua interpretação.
Elvis Costello dá voz ao vincadamente celta St. Stephen's Day Murders; Marianne Faithfull despe o manto de bruxa e canta para embalar em I Saw Three Ships a Sailing; Jackson Browne presenteia-nos com uma rendição plangente do belíssimo The Rebel Jesus. O recatado The Wexford Carol toma proporções devocionais na voz de Nanci Griffith e Rickie Lee Jones entrega-se de alma e coração a O Holy Night.
O que sobra (e é imenso e riquíssimo) é Chieftains da melhor safra. Carols, jigs, reels e outras fantasias celtas mescladas com as incursões que os decanos irlandeses sempre tomaram por músicas de outras paragens, da música tradicional francesa de Il Est Né/Ca Berger ao recolhimento contemplativo de A Breton Carol (cantada em gaélico). A ambiência conjura noites frias, mas aquecidas por lareiras e aconchego humano. Por whiskey e boas memórias, de cores, cheiros e sabores eternos. Noites intermináveis que se prolongam para dias luminosos e cheios, em que a esperança parece regressar, nem que seja por momentos. A execução é mágica, envolvente e penetrante. E é da noite para o dia que The Bells of Dublin se projecta. O anúncio festivo dos doze sinos centenários da Catedral de Christchurch prolonga-se pela escuridão fria, de melodias ricas mas essência pobre, e termina num amanhecer resplandecente de alegria e comunhão. Não sei se é o melhor disco de Natal de sempre mas, depois deste, não tive vontade de ouvir nenhum outro, para não correr o risco de quebrar o encanto.

16 de dezembro de 2013

Kosmische Kosmetik XLVII

A missão dos irmãos Seesselberg, Eckart e Wolf-J., começou por ser académica: mostrar ao mundo as capacidades e potencialidades dos sintetizadores, extraterrestres electrónicos para a maioria dos mortais dos inícios dos anos 70. Essas demonstrações levaram a que o duo alemão editasse para a posteridade um disco feito das suas próprias pirotecnias cibernéticas, algo que deve ter afugentado os melómanos mais incautos e classicistas da época mas que detém hoje uma imagem quase paterna para a descendência da música electrónica mais audaz e não conformista.
Surgido em 1973, o álbum Synthetic 1 arranca como o despertar de um sonho mau dos Kraftwerk. Uma sucessão de agudos alarmantes que põe os sentidos em alerta antes de se afundar num charco de bleeps e estática. A esta Overtüre segue-se uma série de peças de curta duração, que se assemelham a processadores com vida própria, desesperados por comunicar. A melodia é quase inexistente e, quando surge, é fria e descarnada, um fio conectado algures, perdido entre os demais. Como em Speedy Achmed ou no denso e tenso Was Dir Heute Freude Macht, Das Verschieb Nicht Über Nacht!.
O tema de maior duração tem um título à altura: Die Menschen Sind Glücklich, Sie Kriegen, Was Sie Begehren, Und Begehren Nichts, Was Sie Nicht Kriegen Können - Laubsägebastler, Briefmarkensammler Und Brieftaubenzüchter Bilden Das Rückgrat Der Menschheit. Mas são palavras a mais na idade dos porquês. A música é abstracta, elegíaca e foge da luz. Uma marcha fúnebre electrónica em subliminar crescendo até ao enterro final. Phönix aproxima-se da precedente em termos de duração, mas a monotonia escura e fria dá lugar a um pulsar constante, com picos e quebras de intensidade. Como ser largado na escuridão do espaço, ou passear sozinho pela desolação lunar.
Algures entre Stockhausen e Conrad Schnitzler no passado e Merzbow e os Autechre no presente, a fraternidade Seesselberg nunca passou da obscuridade nem do academismo. Synthetic 1 perdeu-se na bruma dos tempos e tornou-se um artefacto mais curioso que musical. No entanto, continua a haver um bizarro e apelativo charme neste disco. Como nas aulas a que assistíamos na faculdade só pelo prazer de ouvir o professor e sabendo que aquela matéria nunca teria aplicação prática.

                                 

11 de dezembro de 2013

Grande Lata



A principal característica dos Can sempre foi a espontaneidade. O próprio Holger Czukay, baixista e mentor da banda, chegou a afirmar que as composições e as actuações ao vivo do seu colectivo derivavam de criações instantâneas. E foi o improviso e o constante experimentalismo que fizeram do grupo germânico, mais que um dos porta-estandartes do krautrock, um dos projectos mais vanguardistas, subversivos e influentes do rock inteligente. Serão, juntamente com os Velvet Underground, a maior banda de culto de sempre. Mas enquanto os nova-iorquinos viram a sua projecção aumentar ao longo do tempo, a banda de Colónia sempre se moveu nas sombras, a sua música mais fácil de mencionar para impressionar que de ouvir para apreciar.
A formação clássica dos Can que, para além de Czukay, incluía Damo Suzuki, Michael Karoli, Irmin Schmidt e Jaki Liebezeit editou alguns dos discos mais futuristas e estratosféricos da década de 70. A música de Tago Mago, Ege Bamyasi ou Future Days é estranha, cerebral, hipnótica, tão imediata como depurada na sua estrutura, tão variada como repetitiva em termos rítmicos. É a mais imperativa de ouvir, ter e venerar, se bem que os Can nunca foram desinteressantes ou vulgares. A odisseia iniciada com o imenso e intenso Monster Movie e terminada com Rite Time está repleta de passos em frente e estratégias progressistas.
Can - The Documentary propõe uma história visual da banda. Parte integrante da exaustiva Can Deluxe Box DVD editada em 2005, é o filme ideal e definitivo para conhecer os Can para além da música. Filmagens raras e históricas, excertos de antológicas actuações ao vivo e muitas entrevistas preenchem a hora e meia de imagens, que passa demasiado depressa. Apesar de tudo, o documentário condensa o essencial da singular carreira de um dos colectivos mais geniais de sempre, que não só colocou a Alemanha no mapa da música influente como revolucionou para sempre os preceitos do rock como forma de arte.

                                 

10 de dezembro de 2013

O Homem dos Quatro Instrumentos

John Surman começou por ser uma figura chave no boom do novo jazz britânico nos finais dos anos 70. Saxofonista exímio e caloroso, foi abandonando ao longo da sua carreira os territórios mais óbvios da cartilha jazzística, enveredando por estéticas mais atmosféricas. Esta lenta migração deveu-se sobretudo à ECM, casa da qual Surman é residente a tempo inteiro desde a edição de Upon Reflection em 1979.
O estilo do músico inglês é, hoje, inconfundível. São enaltecidas as atmosferas e as ambiências nocturnas e instrospectivas e o tom meditativo e melancólico impera na maioria dos seus registos. John Surman acaba por ser, em simultâneo, uma influência e um produto da escola ECM, um dos mais importantes definidores da sua estética.
Da sua vasta obra, um dos discos mais emblemáticos é Private City, de 1987. Um disco criado para um bailado com o mesmo nome, feito de improvisações e no qual, como começará a ser tendência no seu percurso criativo, Surman executa todos os instrumentos, saxofone, clarinete, piano e sintetizadores. O controlo é total, a mestria absoluta. Apesar do nome, a música não evoca apenas paisagens citadinas. Persiste um misticismo, que conjura os elementos e acorda sentimentos.
O álbum começa com um dos mais belos e perenes temas de John Surman, Portrait of a Romantic. Uma lenta e arrebatadora espiral de clarinete sobre piano eléctrico com efeitos balsâmicos e transcendentes. E termina com The Wizard's Song, outra composição perfeita, atmosférica e cinemática, que fica a ressoar inconscientemente muito tempo depois do disco ter terminado. Outras magníficas paragens nesta jornada incluem Not Love Perhaps, ruminação crepuscular ladeada por vozes fantasmagóricas, The Wanderer, melodia cristalina e contemplativa que serpenteia encantatoriamente ao nosso redor, e Roundelay, em que uma miríade de sopros em overdub ganha contornos de jazz de câmara.
Místico, sideral e sempre envolvente, Private City é a obra de um músico romântico mas aberto às possibilidades sónicas para expandir a sua arte. Dessa forma expande igualmente o coração e a mente de quem o ouve.

5 de dezembro de 2013

Jazz Impuro

Eric Dolphy foi um dos maiores inovadores do jazz da década de 60. Multi-instrumentista exímio, dividido entre o saxofone, a flauta e o clarinete, impulsionou o género para a vanguarda durante a sua curta existência. Dolphy faleceu aos 36 anos, no auge do seu talento e após a edição daquela que muitos consideram a sua obra máxima: Out To Lunch!
Foi apenas o quinto disco lançado durante esse esparso tempo de vida. Estávamos em 1964 e outras obras marcantes fizeram desse ano um período rico para o jazz. Crescent de John Coltrane, Speak No Evil de Wayne Shorter ou Spiritual Unity de Albert Ayler, são alguns dos clássicos de um estilo musical que começava a afastar-se do seu estatuto de entretenimento para angariar cores da paleta do experimentalismo. Cada vez mais próximas das estruturas avant-garde da música clássica contemporânea que da propulsão do swing, as novas tendências jazzísticas apontavam armas à mente em detrimento do corpo.
Out To Lunch! combina com mestria física e metafísica. O quinteto de Dolphy (com especial destaque para os acólitos Freddie Hubbard e Bobby Hutcherson, respectivamente no trompete e no xilofone) alcança momentos mais transcendentes e cerebrais sem nunca trocar a paixão pela razão. Abundam os solos e as mudanças de textura, as variações de ritmo e a complexidade melódica. Caminhamos pela fronteira entre um jazz que ainda é bebop mas que já tem muito de free. Hat and Beard é vertiginoso e desconjunta-se para se unir de novo. O tema-título assemelha-se a uma marcha jazzística entrecortada por quebras de tempo, ritmos angulares e melodias dissonantes. Something Sweet, Something Tender é o tema lento flagrante do disco, mas a estranheza da estrutura e rasgos de atonalidade não deixam que a ternura e a doçura reinem em absoluto. Gazzelloni faz jus ao virtuosismo de Dolphy na flauta mas vincando as possibilidades experimentais e sónicas que este retira do instrumento. E Straight Up and Down tem um groove tão alienígena que quase poderíamos apelidá-la experimentalismo emocional.
Não é à toa que Out To Lunch! é considerado uma das obras-primas do jazz de vanguarda. É um disco desafiante e surpreendente ainda hoje. Os puristas do género poderão ficar de cabelos em pé com o arrojo e o ludismo com que a música é tratada, mas os amantes da arte mais transgressiva e progressista deliciar-se-ão continuamente.