17 de dezembro de 2014

Noite Palaciana

   


Provavelmente um dos mais antigos programas musicais da Europa, o Rockpalast aquece o continente a partir da Alemanha desde 1974. Ainda em actividade, a decana emissão da WDR revelou-se pioneira na sua mescla entre divulgação da vanguarda musical e palco de nomes consagrados. De David Bowie a John Cale, passando por Peter Hammill ou Tom Waits, muitos foram os artistas e bandas a produzir nesse palco performances memoráveis e que o foram tornando o objecto de culto que hoje constitui.
Ao longo das suas quatro décadas, o tempo de antena do Rockpalast foi maioritariamente colocado ao serviço de bandas externas à Alemanha. Porém, em 2006, foi dada a oportunidade aos santos da casa de fazerem milagres, numa emissão dedicada exclusivamente à música teutónica.
Apesar de alguns tiros ao lado e da sonoridade datada de alguns dos intervenientes, a Deutschrock Nacht compila de forma fascinante a evolução do rock alemão, desde os dias do puro decalque das tendências americanas e anglo-saxónicas até à emergência revolucionária da nova e transformativa vaga do que se popularizou como krautrock.
Trata-se de uma maratona musical de quase cinco horas, apelativa para acólitos, instrutiva para neófitos. Uma obscura curiosidade com selo de qualidade e uma prova de como é possível agradar a várias audiências sem perder a identidade. O Palácio do Rock está longe de ruir.


                              

                              

                              


Celtic Soul

A música conjurada durante a primeira década da carreira de Van Morrison deveu tanto à poesia e ao misticismo como à mistura de folk, jazz e blues que lhe deu corpo. Após uma sucessão de álbuns imaculados e celebrados desde então como clássicos intemporais (Astral Weeks, Moondance, Tupelo Honey), o Leão de Belfast descansou. Os rigores da estrada e a montanha-russa de uma vida amorosa conturbada levaram-no a um retiro na sua amada e inspiradora Irlanda. Corria o ano de 1974 quando as musas da Ilha Esmeralda convergiram para Morrison e lhe sussurraram a essência de Veedon Fleece, uma das suas melhores e mais profundas criações, apesar de discretamente menosprezada.
Veedon Fleece é poesia pura. A súmula perfeita da alma ardente de Van Morrison, desfiada em regime introspectivo. A paixão e a entrega características do músico irlandês continuam omnipresentes, mas o registo enaltece uma sensibilidade despojada e os temas parecem envolvidos numa aura de beleza mística, idealista e ensopada em romantismo.
Fair Play inicia o lento encantamento, com um piano a gotejar e um ritmo circular que sustenta o canto arrebatado de Morrison. Como nas melhores canções do músico, complexidade e melodia chocam e repelem-se, com as emoções em constante intensidade. Linden Arden Stole the Highlights e Who Was That Masked Man são curtas canções cheias de alma. Estilhaços tão solenes quanto belos e que parecem fruto dos lampejos de inspiração que deve ser logo materializada ou perdida para sempre.
Streets of Arklow envolve-nos na sua atmosfera brumosa, acentuada pela flauta vincadamente celta e dilacerada por golpes orquestrais. Bulbs e Cul de Sac são os temas mais directos do álbum, bebendo avidamente da fonte dos blues, mas animados pelos adornos de um espírito mais irlandês que americano. Depois deles, é cedido o lugar às criações mais etéreas e sentimentais do disco: Comfort You é alma à flor da pele, confissão de desejo de união carnal e espiritual; Come Here My Love é uma das mais despojadas e tocantes canções de amor de Van Morrison e - porque não dizê-lo? - dos últimos 50 anos. A prova que basta uma voz e uma guitarra acústica para criar magia.
Country Fair fecha o disco em toada bucólica e apaziguadora, mas saturada de imagens criadas mentalmente em torno de verões campestres. O que significa exactamente Veedon Fleece provavelmente não é para ser conhecido. Ou não significará mesmo nada. Talvez a busca por uma espécie de Santo Graal poético, amoroso e mitológico que existe em cada um de nós. O melhor tema do álbum e a sua peça central, You don't Pull no Punches, but You don't Push the River, aponta para esta jornada interior e convida à deambulação pelos nossos labirintos particulares. A sua estrutura exploratória e a letra críptica trazem à tona o Van Morrison mais esotérico e experimental.
Após a conclusão de Veedon Fleece, Van Morrison iniciou um hiato de 3 anos na sua carreira musical. Quem sabe terá sido cansaço ou falta de inspiração. Mas seria bom acreditar que foi sensatez, deixando aos comuns mortais uma obra que exige tempo para ser assimilada mas que se torna fluída como o ar à medida que penetra nos recantos de cada alma.

1 de março de 2014

Movimento Perpétuo




Ainda faltam alguns meses para nova edição do Jazz em Agosto, o mais importante, histórico e pertinente festival de jazz realizado em terras lusitanas. As 30 edições cumpridas no ano transacto culminaram com a edição do livro Partidas/Chegadas - Novos Horizontes no Jazz, uma resenha dos nomes mais relevantes que actuaram no festival ao longo da sua história. 
A obra, assinada por Stuart Broomer, Brian Morton e Bill Shoemaker, acaba por transcender a homenagem ao evento que, com o passar dos anos, se tornou cada vez mais ilustre e incontornável. Consegue igualmente funcionar como súmula das evoluções e revoluções que o jazz sofreu ao longo das últimas três décadas e que os palcos da Fundação Calouste Gulbenkian conseguiram, muitas vezes arrojada e audaciosamente, difundir.
Basta passar os olhos pela capa para ver que o material é mistura fina. De Anthony Braxton a Sun Ra, de Ornette Coleman a John Zorn, muitos são os vultos incontornáveis deste género musical objecto de dissecação e dissertação. Sob a pena dos três experts supracitados, sucedem-se pequenas biografias desses grandes nomes, assim como uma discografia selectiva e recomendada. Partidas/Chegadas - Novos Horizontes no Jazz é uma obra sólida e fundamental para o entendimento do jazz de vanguarda e do perpétuo movimento que o faz parecer sempre imutável mas também sempre novo.

An Alien in London

                                            


Dont Look Back documenta a primeira tournée de Bob Dylan por terras do Reino Unido em 1965. Filmado por D.A. Pennebaker, algures entre o cinèma verité e o expressionismo, traça um retrato do cantautor norte-americano no crescendo popular e crítico que sucedeu a uma das suas primeiras obras-primas: Bringing It All Back Home.
Ao longo do filme, Dylan desfila, ora esfíngico e fleumático, ora arrogante e sanguíneo, conquistando audiências, repelindo admiradores, destilando emoção/desdém perante o talento notório de Donovan e deixando antever a presumível separação de Joan Baez (nesta altura mais uma partenaire que uma amante).
A folk americana invade a swinging London, e Dylan, vestido de preto, envergando óculos escuros como se o dia ou a noite fossem iguais para ele, falando e fumando compulsivamente e filosofando e desafiando as convenções, alberga já a aura enigmática e misteriosa que o tornou lendário. Nunca sabemos se estamos a ver o verdadeiro Robert Allen Zimmerman ou apenas uma distorção da sua persona. E é desta matéria que as lendas são feitas. Dont Look Back é um dos melhores filmes musicais de sempre, sobre um dos mais icónicos artistas da história. Simplesmente obrigatório.


                             

25 de fevereiro de 2014

Loucura Controlada

Thank God for Mental Illness é o terceiro registo editado pelos Brian Jonestown Massacre no ano de 1996. É igualmente a mais consistente de todas as obras da banda até essa data, aquela em que uma certa errância artística, charmosa mas auto-indulgente, dá lugar a maior enfoque e nervo.
A obsessão pelo som psicadélico dos anos 60 continua a fazer-se sentir, bem como inflexões pronunciadas pelos sons de garagem, mas com eles coexiste uma certa sensibilidade indie rock que aproxima mais a banda da modernidade. Um cocktail forte e colorido, que translada na perfeição o espírito dos sixties para os nineties e sem o polimento excessivo aplicado por uma certa facção da britpop.
Começando pelo fim, Thank God for Mental Illness termina audaciosamente com uma peça que ultrapassa os trinta minutos de duração. Chama-se Sound of Confusion e une cinco temas intercalados por sons urbanos, pregações de rua e outros ruídos voadores não-identificados. É o momento em que a banda de São Francisco soa mais progressista e desafiante, mas sem invenções desnecessárias. Para trás ficou um oceano de vibrações oscilantes e influências irrepreensíveis.
Spanish Bee dá início ao álbum em regime de flamenco lisérgico, temperado a Farfisa ensimesmado e enaltecido por tambores intrusivos; Ballad of Jim Jones emana uma aura dylanesca evidente; It Girl, 13 e Talk - Action = Shit comprovam a influência dos Rolling Stones na música dos californianos. Especialmente os Stones de Aftermath e Between the Buttons, momentos de inspiração maior na sua épica carreira. Country e blues contaminam These Memories e Free and Easy, Take 2. Há ainda espaço para baladas, de despojamento outonal em Stars, de psicadelismo sombreado em Down.
Thank God for Mental Illness é uma obra condenada a ser eternamente excitante e revigorante. Rezam as crónicas que custou menos de 20 dólares a produzir e que foi todo gravado no mesmo dia. Verdade ou não, certo é que discos como este são raridades cada vez maiores na indústria musical que mede tudo a régua e esquadro. Pode tresandar a revivalismo, mas é um manifesto de liberdade com certificado de autenticidade.

20 de fevereiro de 2014

Cisnes Negros


http://2.bp.blogspot.com/-v0Y9ekxc1iY/UdvdTubsBZI/AAAAAAAAIQ8/Ttpm9-nVbRU/s1600/%5BAllCDCovers%5D_swans_children_of_god_1990_retail_cd-front.jpgChildren of God é uma primeira mas ilusória acalmia em relação ao niilismo apocalíptico que os Swans reflectiam nos primórdios. O negrume abrasivo, pesado e denso dos quatro primeiros álbuns da banda nova-iorquina granjeou-lhes um culto underground e tratou de afastar sem contemplações quem não estivesse à altura de saborear sons tão misantropos. Em última instância, esta tetralogia é uma sátira terrorista e extrema, que fustiga o capitalismo, o poder corporativo, a polícia e outros cancros sociais aos olhos dos Swans e, principalmente, do seu líder Michael Gira.
Editado em 1987, Children of God é mais sombrio que agressivo e mais sedutor que repulsivo. A religião (ou a sua dessacralização) é a temática mais visada no álbum e as atmosferas ritualistas e tribais são a única herança das obras passadas. Os Swans expandem-se e suavizam-se sem nunca perderem a intensidade e a capacidade de inquietar e provocar. O trespassante New Mind abre o disco com ritmos marciais e mostra um Michael Gira mais barítono cavernoso que o gritador irado que predominava anteriormente. The sex in your soul will damn you to hell, anuncia ele, e a música que envolve a pregação é a mais expansiva que o seu grupo arquitectou até à data.
A massa industrial que pontuava o som dos Swans dissipa-se em sombras góticas ao longo de Children of God. Como se um filme gore se transformasse em thriller psicológico. Jarboe torna-se peça fulcral no xadrez da banda e divide com Gira as vocalizações. In My Garden merece óbvio destaque, com a voz da cantora a brotar como orvalho de um labirinto de vegetação morta. A mesma voz que surge, trágica e ominosa em Blood and Honey e cristalina como uma mortalha em Blackmail.
Outro interessante e importante passo em frente é a inclusão proeminente de instrumentos acústicos, que vão da guitarra aos sopros, e que projectam os Swans em ritos neofolk muito em voga na Europa via Death in June ou Current 93. As seis cordas arrastadas de Real Love e o oboé taciturno que serve de entrada ao pungente Trust Me são claros exemplos da expansão que o grupo empreende. Graciosamente, mas sem facilitismos. Porque do outro lado do espelho escondem-se atavismos poderosos e corruptores como Blind Love ou Sex, God, Sex.
Children of God pode não ser o melhor trabalho dos Swans, mas é o mais importante. É uma obra que lançou sementes evolutivas e que se assume como eterno azimute para um grupo que vive no presente um constante estado de graça. Um disco com bolinha no canto superior direito para as mentalidades mais sensíveis (tacanhas).

12 de fevereiro de 2014

Antro de Luxo



http://www.tribute.ca/tribute_objects/images/movies/CBGB/CBGB.jpg

CBGB, o filme, conta a história do lendário clube e bar que ajudou a gestar e parir o movimento punk em Nova York. Uma espelunca meio esconsa, no coração da mal-afamada Bowery dos anos 70, e gerida por um idealista chamado Hilly Kristal. A história deste homem, desde sempre ligada directa ou indirectamente à música, é igualmente explorada na película de 2013 realizada por Randall Miller. Um homem que pretendia apenas erguer um espaço que divulgasse a música tradicional americana (Country, Bluegrass e Blues, iniciais do nome da casa) mas que acabou por criar um monstro. O mundo nunca mais seria o mesmo depois do advento de bandas icónicas como Ramones, Talking Heads, Television, Dead Boys ou Blondie. Produtos à margem do mainstream da época e que encontraram no CBGB um veículo de divulgação e um trampolim para o reconhecimento. Melhor ou pior clonadas, todas elas surgem no filme, que vale mais pela banda-sonora e pelo desfile de referências, que pelo impacto interpretativo. Mesmo assim, e à falta de melhor, não deixa de ser um objecto curioso e recomendável para quem não conhece este capítulo importantíssimo da história do rock. Assim como um pedaço de nostalgia para quem o conhece ou viveu in loco. Aos interessados, segue o link para a película completa: CBGB (2013) Full Movie Watch Online.

4 de fevereiro de 2014

Blitzkrieg Punk

http://991.com/NewGallery/The-Ramones-Its-Alive-526711.jpg
Os três primeiros álbuns dos Ramones são objectos sem falhas e pedras basilares do movimento punk. Devolveram o rock à sua simplicidade básica e à sua energia pura e intensa. Ramones, Leave Home e Rocket to Russia  são bíblias na arte de fazer mexer o corpo e esquecer o que vai na mente. As suas canções entranham-se sem pedir licença e transformam num teenager instantâneo o ouvinte que a elas sucumbe. Air guitar e headbanging tornam-se tão naturais como respirar.
No seu apogeu criativo, o quarteto nova-iorquino editou um dos álbuns ao vivo mais marcantes e excitantes da história do rock. Um disco que comprova a máquina imparável que eram em concerto e o poder galvanizador e revigorante da sua música.
It's Alive foi gravado na última e suada noite de 1977, no londrino Rainbow Theatre, perante uma audiência que não poupou o espaço nem o físico. Os Ramones também não ajudaram, debitando tema atrás de tema a velocidade alucinante. Uma sucessão de clássicos, onde não faltou a imortalidade vigorosa, contagiante e bubblegum de Rockaway Beach, Sheena is a Punk Rocker, Blitzkrieg Bop ou Pinhead.
Os 28 temas que compõem o disco foram reduzidos para metade no filme do concerto. Uma avalanche igualmente deliciosa e plena de desbunda punk que constitui outro documento obrigatório para consumir a combustão de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy. E agora, sem mais delongas, one two three four...!


          

1 de fevereiro de 2014

Dieta Mediterrânica XI

http://1.bp.blogspot.com/-a3WiVUiKCUs/UTexJ7UGrxI/AAAAAAAAA-w/h4qo9UoCRPA/s1600/Elektriktus%2B-%2BElectronic%2BMind%2BWaves%2B-%2Bfront.jpg
O projecto Elektriktus é uma estrela isolada na constelação de lavores do músico italiano Andrea Centazzo. Mais inspirado por estéticas avant-garde e pelo jazz improvisado, editou em 1976 um disco de nome Electronic Mind Waves que o aproximou perigosamente dos devaneios cósmicos alemães desse período.
Esta obra misteriosa principia com uma descarga de sons cintilantes e agudos, que agulham os ouvidos como se quisessem purgar a mente de qualquer pensamento para a invadir sem resistências. Chama-se Frequencer Departure e dilui-se progressivamente na siamesa Flying At Day-Break até que o ataque se resume a um murmúrio espumoso e flutuante.
First Wave sincroniza os padrões, emitindo ondas sonoras cadentes e repetitivas sobre um ritmo fixo e maquinal. Mais duas ondas se seguirão, a primeira vibrante e fluida, a segunda apaziguadora e suspensa. Pelo meio instalam-se Power Hallucination, devaneio sombrio que pinga gotas electrónicas e sopra ventos cibernéticos, e Implosion, nova espiral que combina melodias circulares a envolvências meditativas, a tendência geral do disco. É igualmente em círculo que Electronic Mind Waves se fecha no final. Primeiro com o balsâmico e planante Flying At Sunset e depois com o cair do pano definitivo de Frequencer Arrival. Volta a acupunctura sonora, mas desta vez em tons graves e crepusculares.
Da aurora ao ocaso, a única obra do percussionista Andrea Centazzo sob a denominação Elektriktus é uma preciosidade a descobrir e valorizar. As influências germânicas são de sobremaneira evidentes (Kraftwerk e Neu! nos temas mais ritmados, Conrad Schnitzler e Cluster nas peças mais atmosféricas), mas a paixão e a frescura que vibram neste disco demonstram mais inventividade que mero decalque. E Electronic Mind Waves pode muito bem ser a melhor referência da Itália como satélite da música cósmica.

29 de janeiro de 2014

Dancing in the Dark

Apesar das guitarras inexistentes e dos ritmos electronicamente gerados, os Suicide foram o primeiro  grupo a autodefinir-se como punk. Surgido no alvor dos anos 70, o duo nova-iorquino formado por Alan Vega e Martin Rev causou controvérsia, animosidade e estranheza logo à partida, mas foram também esses elementos que os fizeram perdurar no tempo e tornar-se um dos projectos mais influentes do final do século XX sem nunca perderem o estatuto underground.
O primeiro álbum, clássico absoluto e um dos discos mais distintos da sua era, surgiu apenas em 1978. Nessa altura, os Suicide já não soavam e pareciam tão singulares e ofensivos como nos primórdios, mas a postura confrontacional mantinha-se, especialmente nos concertos ao vivo, eventos normalmente utilizados pelo vocalista Alan Vega para espicaçar e provocar o público, observado pelos impenetráveis e constantes óculos escuros do gerador de sons Martin Rev.
A música de Suicide é densa, tensa e sombria. Quase lúgubre no seu negrume e envolta numa disforia espectral. Os trovejos electrónicos expelidos pelos teclados de Rev alternam entre o calor hipnótico e o frio imaterial. Vega paira por cima, qual morcego rockabilly, debitando vocalizações que invocam os fantasmas de Elvis Presley e Gene Vincent.
As letras são vagas e minimais. America, America is killin' its youth, ouve-se em Ghost Rider, o propulsivo e intenso tema de abertura. Gonna crash, gonna die and I don't care, apregoa o urgente e turbulento Rocket U.S.A.. E Frankie Teardrop leva ao extremo a união entre palavras explícitas e música transtornada, com o relato de um jovem operário que fica na miséria e mata mulher e filho, suicidando-se em seguida. We're all Frankies, we're all lying in hell, clama Alan Vega no final, e ninguém sai incólume deste filme de terror sonoro.
Girl debita ritmo em chicotadas metralhadas e Cheree é uma das canções de amor mais desviantes e incomuns de sempre. Um abraço quente na frieza das ruas, um poema parco em palavras mas rico em ardor. E é da desolação das ruas escuras da Nova York dos anos 70 que toda a música de Suicide se alimenta. Um disco para ouvir sempre fora de horas e sempre um disco fora de tempo, apesar de inovador e influente.
A reedição de 2000 desta obra seminal acrescenta-lhe um merecido e lendário artefacto: 23 Minutes Over Brussels, gravação de um concerto em que os Suicide abriam para Elvis Costello. A hostilidade do público para com a banda passa de latente para evidente, Vega e Rev são forçados a abandonar o palco e Costello responde tocando apenas uns minutos. Tudo termina em motim e pancadaria. Alan Vega pode ter saído da Bélgica com o nariz partido, mas foi ele e o seu parceiro que riram melhor no fim.

15 de janeiro de 2014

Às Armas

A música dos Gun Club entranha-se como o calor da sua Califórnia natal. Mas é um calor nocturno, que rasteja pelo deserto e se infiltra na cidade, acordando vícios e transgressões. É música urgente e vibrante, mas que carrega o peso das raízes americanas, fantasmas do passado que encarnam no esqueleto do punk e do rock de garagem.
O grupo de Los Angeles foi formado em 1979 por Jeffrey Lee Pierce e Brian Tristan, em breve rebaptizado Kid Congo Powers. O melting pot entre a energia do punk, a visceralidade dos blues e a atmosfera ao vivo quase tribal que os Gun Club exibiam lançou as primeiras sementes para subgéneros como o punk blues e o psychobilly.
Aquando da edição de Fire of Love, o guitarrista Kid Congo Powers tinha-se tornado membro das principais referências deste último, os Cramps. Mas isso não impediu que o primeiro álbum dos Gun Club fosse um prodígio vertiginoso e venenoso de urgência, desespero e intensidade. Os seus 40 minutos passam como um ritual voodoo alimentado a guitarras extáticas e ritmos inquietos, em que a atmosfera alterna entre o transe arrebatado e o torpor narcótico.
Sex Beat é, em si, uma referência. Um frenesim diabólico de sexo, drogas e country fustigado pelo punk. Um som crú mas refrescante em simultâneo, expelindo fantasmas das trevas musicais americanas à luz de 1981. A sedução com odor a morte é uma constante ao longo do disco. She's Like Heroin To Me, pulsante e intoxicante, contém a mesma mensagem dúbia, o vício como mulher ou uma mulher como vício. Impossível não relembrar as palavras de Keith Richards na sua biografia quando diz heroin is the most seductive bitch in the world. 
For the Love of Ivy é coberta por uma mortalha gótica, uma história de amor e morte entre a surdina paranóica e o estouro descontrolado que soa a antepassada remota dos tremendos 16 Horsepower. A mesma sombra gótica, sulista e fatalista, paira sobre a cavalgada espectral de Ghost on a Highway. Uma versão demolidora de Preaching the Blues transforma o original de Robert Johnson num lança-chamas musical, tão contagiante como infernal. Goodbye Johnny despede-se como um outlaw country tocado por cowboys demoníacos que inflingem descargas eléctricas de guitarra como se fossem chicotadas.
Ao longo do disco, Jeffrey Lee Pierce estraçalha a laringe que nem um perdido e a temática das suas letras não deixam muito espaço à imaginação quanto ao seu estilo de vida e ao destino que o aguardava. Pierce morreria em 1996, depois de anos de abuso de drogas e álcool, seropositivo e cirrótico. O seu legado musical com os Gun Club, que começou a ser escrito de forma brilhante e influente em Fire of Love, depurou-se e transmutou-se ao longo de mais seis álbuns. Com altos e baixos, mortes e ressurreições até ao estertor final. O legado é notório e salta à vista, mas nada excede o pecado original.

30 de dezembro de 2013

2013: A Soundtrack



Valha-nos a música para suportar mais um annus horribilis em Portugal. 2013 foi exasperante para qualquer pessoa socialmente consciente e os tempos revoltos teimam em agudizar-se. Neste retrocesso civilizacional que todos experienciamos, algumas regressões musicais foram prova de vitalidade e reinvenção. Os My Bloody Valentine voltaram, tão subitamente como se desvaneceram, e com um álbum mais que à altura das expectativas. Tal como David Bowie, que nos presenteou com um álbum de admirável solidez e pertinência criativa. Nick Cave continua a manter a qualidade composicional mesclada com arrojos e audácias nos seus registos, o que nunca o torna fastidioso e nos deixa sempre à espera de mais (continua imbatível ao vivo). Da nova fornada, as Savages engoliram-nos na escuridão visceral e Julia Holter trancou-nos no seu universo onírico e deitou fora a chave. Os Daft Punk fizeram tudo para seduzir e conseguiram arrebatar e os Arcade Fire estiveram-se nas tintas para fundamentalismos e incompreensões e editaram o mais surpreendente e polémico álbum do ano. Os eternos cruzados na demanda do Graal em forma de canção, não foram defraudados pelos Vampire Weekend, que confirmaram a tendência para a perfeição.
Segue abaixo a lista da praxe. Como sempre, a ordem não é rígida, reflectindo apenas a música que mais prazer me deu descobrir e ter como companheira ao longo do ano que agora termina.
 

1. My Bloody Valentine - MBV

2. Vampire Weekend - Modern Vampires of the City

3. Julia Holter - Loud City Song

4. Arcade Fire - Reflektor

5. Savages - Silence Yourself

6. Daft Punk - Random Access Memories

7. David Bowie - The Next Day

8. Nick Cave & The Bad Seeds - Push the Sky Away

9. The Knife - Shaking the Habitual

10. Kanye West - Yeezus

11. Factory Floor - Factory Floor

12. Laurel Halo - Chance of Rain

13. Oneohtrix Point Never - R Plus Seven

14. The National - Trouble Will Find Me

15. Disclosure - Settle

16. Forest Swords - Engravings

17. James Blake - Overgrown

18. Tim Hecker - Virgins

19. John Grant - Pale Green Ghosts

20. Chvrches - The Bones of What You Believe

21. Boards of Canada - Tomorrow's Harvest

22. Phosphorescent - Muchacho

23. Kurt Vile - Wakin On a Pretty Daze

24. Bill Callahan - Dream River

25. Unknown Mortal Orchestra - II

26. Mikal Cronin - MCII

27. Thee Oh Sees - Floating Coffin

28. Deafheaven - Sunbather

29. These New Puritans - Field of Reeds

30. Roy Harper - Man and Myth

31. Rhye - Woman

32. Arctic Monkeys - AM

33. Queens of the Stone Age - ...Like Clockwork

34. Grumbling Fur - Glynaestra

35. Haim - Days Are Gone

36. Fuck Buttons - Slow Focus

37. Darkside - Psychic

38. Laura Marling - Once I was an Eagle

39. Autre Ne Veut - Anxiety

40. Local Natives - Hummingbird

41. Rashad Becker - Traditional Music of Notional Species Vol. 1

42. Deerhunter - Monomania

43. Jonathan Wilson - Fanfare

44. James Holden - The Inheritors

45. Jon Hopkins - Immunity

46. Sun Kil Moon & The Album Leaf - Perils From the Sea

47. Foxygen - We are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic

48. Dean Blunt - The Redeemer

49. Mutual Benefit - Love's Crushing Diamonds

50. Midlake - Antiphon