10 de fevereiro de 2016

Feeling Low



A minha primeira memória de David Robert Jones remonta aos 7 anos de idade. 1983. Um colega da escola primária, decerto por vias insondáveis, apareceu um dia com um caderno diferente. Na capa vermelha ressaltava, ao centro, uma figura estranha mas igualmente hipnótica. Tinha um olho de cada cor. O cabelo era vermelho e o rosto, envolto numa maquilhagem berrante e futurista, não permitia vislumbrar se era rapaz ou rapariga. Somente o nome, escrito a letras que mais pareciam gordos relâmpagos, dissipava as dúvidas. Era um rapaz chamado David. Bowie o seu segundo nome.
Mais tarde (dias? meses?), surgiu na televisão o videoclip de Let´s Dance. Um homem magro, de cabelo louro e roupas claras, cantava num bar no meio de nenhures, aparentemente num calor abrasador. O nome apareceu no fim: David Bowie. A estranheza acentuou-se. Como podiam aquele homem que tocava guitarra de luvas brancas e a figura flamejante do caderno ser a mesma pessoa? Afinal era músico e não uma personagem de ficção científica!
Ser criança é ser, essencialmente, uma esponja. Tudo é absorvido rapidamente e triturado para dar lugar à próxima revelação. A bizarra figura daquele simples caderno (que, obviamente, era Ziggy Stardust em toda a sua pompa) foi remetida para um canto da memória e coberta por camadas de novas descobertas musicais, algumas de gosto bastante duvidoso...
O primeiro regresso a David Bowie deu-se com a sua primeira vinda a Portugal. Não se falava doutra coisa. Tocou num estádio e o concerto foi transmitido na televisão. Vi, entre o fascinado e o desapegado, as suas movimentações teatrais e reptilianas em palco. Em 1990, o meu gosto adolescente colocava-me nos antípodas de qualquer música que agradasse às massas. Aquela figura destoava num quarto preenchido por posters de bandas obscuras de heavy-metal.
Com o tempo, veio o amadurecimento e o ecletismo nos gostos e nas escolhas. E, com ele, o primeiro disco de Bowie. Gostaria de dizer que a peça inaugural foi um clássico como The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars ou até Let´s Dance. Mas não. A compilação Changesbowie parecia ter um pouco de tudo para escrutinar a carreira da camaleónica personagem. Mas seria apenas uma pequena fresta para um mundo de delícias e mistérios a descobrir. Sucederam-se os abandonos e os regressos, o enfado e as saudades. Lembro-me de ficar definitivamente deslumbrado e rendido com Outside, o disco de 1995 feito em parceria com Brian Eno e que me franqueou as portas para a existência de uma anterior fase berlinense de Bowie, reverenciada de forma quase religiosa por uma certa franja cognoscente.
Em 1999, após a edição de Hours, outro disco que me tocou inesperadamente, chegou a notícia da reedição de toda a obra do músico londrino. Era chegada a hora da imersão total. Comprei todos obsessivamente e obsessivamente os escutei, inclusive a inusitada aventura denominada Tin Machine...

Low sempre foi o meu preferido. Muito provavelmente será o disco da minha vida. Não pelo que trouxe em definitivo, mas pelas portas que abriu. Este blog não existiria sem Low. Tal como eu não partiria em expedição do krautrock que tanto o influenciou e não abriria a mente a todos os sons mais experimentais e arrojados, aqueles que primeiro se estranham e depois se entranham.
Ao contrário do que muitos apregoam, Low não foi gravado em Berlim na sua totalidade e Brian Eno não é o seu produtor. O álbum foi parcialmente gravado em França e a produção dividiu-se entre Bowie e o quase omnipresente Tony Visconti. Dos onze temas que o compõem, seis são maioritariamente instrumentais, o que ilustra bem a direcção tomada por uma das maiores vozes de sempre da música popular.
Tudo em Low soa a novo, sempre, a cada audição, mesmo passados quase 40 anos da sua edição original. Nunca se ouviu uma bateria assim e a atmosfera geral jamais foi repetida. Friamente melódico, solitariamente emocional e envolto numa escuridão latente, é assombrosa a forma como uma obra tão alienada e alienante possui tamanha capacidade de cativar. Consta que Bowie abandonara Los Angeles, onde vivera até então, para se livrar das amarras da cocaína. Talvez derive desse facto o tom introvertido e melancólico do disco. A lenta descida à sóbria realidade.
Os temas mais imediatos de Low são, indubitavelmente, os dois singles que produziram: Sound and Vision e Be My Wife. O primeiro é uma das melhores criações de sempre de Bowie, um hino à depressão, mas cuja melodia cristalina e ritmo límpido tornam luminoso. O segundo constitui a peça musicalmente mais clássica do disco, apesar do tom agridoce que prevalece.
Os curtos mas brilhantes estilhaços de canções que fazem o álbum levantar voo, imediatamente a seguir ao arranque propulsivo e infeccioso de Speed of Life, transportam consigo tantas influências como disseminam o que deveria ser escrito musicalmente no futuro. É neste capítulo que se nota a tremenda sombra criativa e inovadora de Brian Eno. Ao esqueleto dos temas, Eno adiciona a sua alquimia pessoal e as suas estratégias oblíquas, tornando a música arte pura.
À medida que Low se encaminha para a conclusão, a sensação de solidão e clausura intensifica-se. A New Career in a New Town é a última paragem antes da entrada na noite cerrada, urbana e distópica. Warszawa é o hino nocturno a todas as cidades-fantasma do mundo, uma elegia terrivelmente bela e desoladora, que nos eleva e nos esmaga perante a indiferença da gélida paisagem sonora que contemplamos. Art Decade e Weeping Wall são quase autistas na forma como se fecham sobre si próprias num manto de electrónica lúgubre, xilofone repetitivo e efeitos ominosos. Subterraneans encerra o disco como um lento nevoeiro que se ergue na densa, cinzenta e nocturna paisagem urbana, envolvendo-nos e cobrindo-nos, até que a estrela mais alta desapareça do alcance da vista. Fica um saxofone, despojado e lunar, paradoxo de um instrumento que deveria ser caloroso.
Nunca David Bowie soou tão alienado/alieníngena como em Low. Seguir-se-iam outros momentos de génio, da mesma forma que outros o precederam. Mas Low será sempre um caso à parte, o exemplo flagrante do que fez de David Bowie único, imprevisível e irrepetível.

Agora, um mês passado da sua súbita, inesperada e quase orquestrada morte, é impossível superar o vazio que se instalou. As ondas de choque da perda avançam e regridem a cada notícia, a cada memória, a cada audição do seu impressionante legado musical. António Lobo Antunes disse uma vez que, quando perdemos o nosso pai, nada mais resta entre nós e a morte. Será, porventura, exagero comparar esta afirmação ao falecimento de David Bowie. Mas não será exagero apontar que uma grande fatia da minha geração perdeu o seu pai musical. E, ponderando até a sua própria finitude, ficou por sua conta, obrigada a viver num mundo menos inspirador. Não será fácil, mas também não será impossível. A música existirá sempre, para embalar o luto perpétuo. Virão, até, momentos em que não nos lembraremos dele. Mas, como em tudo o que é imortal e ajudou a construir a nossa identidade, a centelha da memória estará sempre latente, pronta para ser reavivada. Da minha tentacular família musical, David Bowie foi sempre o pai. Mesmo quando não o sabia. Mesmo sem o desejar. E ainda me lembro da imagem espelhada naquele caderno...

31 de dezembro de 2015

2015: A Soundtrack



Em 2015, Ian "Lemmy" Kilmister passou, definitivamente, ao estatuto de imortal. Perante isso, pouco mais há a assinalar. O Sport Lisboa e Benfica foi campeão pela 34ª vez. E maldito terrorismo. Os discos que alimentaram a minha existência foram muitos e seguem-se os que vieram para ficar.


1 - Julia Holter - Have You in My Wilderness

2 - Jamie XX - In Colour

3 - Sufjan Stevens - Carrie & Lowell

4 - Kendrick Lamar - To Pimp a Butterfly

5 - Grimes - Art Angels

6 - Father John Misty - I Love You, Honeybear

7 - Jim O'Rourke - Simple Songs

8 - Courtney Bartnett - Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit

9 - Björk - Vulnicura

10 - Kamasi Washington - The Epic

11 - New Order - Music Complete

12 - Jlin - Dark Energy

13 - Holly Herndon - Platform

14 - Matana Roberts - Coin Coin Chapter Three: River Run Thee

15 - Kurt Vile - B'lieve I'm Goin Down

16 - Tame Impala - Currents

17 - Oneohtrix Point Never - Garden of Delete

18 - Natalie Prass - Natalie Prass

19 - Beach House - Depression Cherry

20 - Deerhunter - Fading Frontier

21 - Panda Bear - Panda Bear Meets the Grim Reaper

22 - Blur - The Magic Whip

23 - Joanna Newsom - Divers

24 - Miguel - Wildheart

25 - Low - Ones and Sixes

26 - Wilco - Star Wars

27 - Floating Points - Elaenia

28 - Sleaford Mods - Key Markets

29 - Benjamin Clementine - At Least For Now

30 - Donnie Trumpet & The Social Experiment - Surf

31 - James Ferraro - Skid Row

32 - Unknown Mortal Orchestra - Multi-Love

33 - Future - DS2

34 - Sleater-Kinney - No Cities to Love

35 - Arca - Mutant

36 - John Grant - Grey Tickles, Black Pressure

37 - Mbongwana Star - From Kinshasa

38 - Drake - If You're Reading This It's Too Late

39 - Tobias Jesso Jr. - Goon

40 - Viet Cong - Viet Cong

41 - Jenny Hval - Apocalypse, Girl

42 - Vince Staples - Summertime '06

43 - FFS - FFS

44 - Deafheaven - New Bermuda

45 - Ryley Walker - Primrose Green

46 - Destroyer - Poison Season

47 - Bill Fay - Who is the Sender?

48 - Matthew E White - First Blood

49 - Alabama Shakes - Sound & Color

50 - Bob Dylan - Shadows in the Night


Dieta Mediterrânica XII

Uma agulha num palheiro. Ou uma pérola numa ostra. Eis dois aforismos que definem o encontro com Integrati...Disintegrati na actualidade. O único álbum (conhecido) do italiano Franco Leprino é uma jóia rara de encontrar e, definitivamente, a preservar.
Produto nascido em 1977, fase já decrépita da electrónica de simpatias progressivas, esta magnífica obra desafia não só a fecunda prole oriunda de terras transalpinas nessa década, como se impõe com recatada majestade.
Terão sido, provavelmente, a época do seu lançamento - contra-corrente com as tendências panfletadas -, ou a cordata assertividade dos sons que guarda, as barreiras maiores para o reconhecimento universal deste disco. Porém, Integrati...Disintegrati sobreviveu incólume à passagem de três décadas e conserva uma aura genuinamente refrescante e fascinante, fruto, especialmente, da peculiar mistura de instrumentos que lhe dão alma.
Franco Leprino é, acima de tudo, um músico clássico. A guitarra acústica serve de leito às suas composições. E é ela que, singularmente, toma o papel de charneira neste disco e nas duas partes que o constituem. A primeira é um exercício que brota de uma suspensão quase cósmica, uterina, e se torna telúrica com a invasão suave e acalentadora dos dedilhados e a minimal mas sublime melodia das teclas sintetizadas. Mais tarde surgirá um piano e um choro pueril, que darão lugar a nova elevação sideral, desta feita dominada pela electrónica state of the art da época, nomeadamente os quase omnipresentes Moog e VCS 3. E ainda há espaço para uma coda, feita de teclas, oboé e cordas, num conjunto de tal forma envolvente cuja resposta não pode ser outra que a rendição à sua pulsante perfeição.
Mais abstracto, o segundo tema do álbum envereda por territórios mais experimentais, denotando que Leprino é um estudioso atento da música contemporânea, podendo elevar a fasquia do belo ao atonal e do melódico ao dissonante. Se a primeira parte da obra pode ser entendida como a integração, pela forma como os sons se conjugam para formar um todo coerente e sedutor, aqui chega a desintegração, uma contaminação pelo caos, um sonho que cede lugar ao realismo. Fragmentada e complexa, esta segunda parte apresenta-se mais escura e cerebral, mas com a porta para a sedução melódica sempre entreaberta. Ouça-se o interlúdio de guitarra acústica e flauta que soam a raio de sol que desponta por entre nuvens negras, para dar lugar a um mosaico electroacústico que culmina com o planante final do disco.
Integrati...Disintegrati acaba por ser uma ponte solidamente construída entre o clássico e o moderno, engenhosamente desenhada e nectárea como o favo de mel que ostenta na capa. Uma verdadeira obra de arte em termos de composição e estética e que merece bem mais que o culto obscuro que lhe tem sido devotado.

27 de dezembro de 2015

O Lado Negro da Folk

First Utterance é o primeiro álbum dos ingleses Comus, nome que remete de imediato para o Deus grego, filho de Dióniso e representativo dos prazeres excessivos. Editado em 1971, o disco constitui um dos marcos primordiais nos flirts da folk com o rock progressivo que então despontava.
Esta primeira declaração de intentos é um misto de bucolismo e negrume, que oscila entre melodias pastorais mas complexas e um lirismo sombrio. O produto final é um disco hermético e desafiante, com tanto de sedutor como de assustador, mas que acaba por ser gratificante e envolvente quando as defesas do ouvinte se quebram.
First Utterance assemelha-se à banda sonora de um ritual pagão, uma cerimónia crua e improvisada, em que os instrumentos fluem ao sabor das emoções, entre o subtil e o febril, e as vocalizações se projectam entre o murmúrio e o grito mais animalesco. Estas são divididas entre homem e mulher - Roger Wootton e Bobbie Watson - e a sonoridade é arcaica, não no sentido antigo do termo, mas no sentido de algo sem tempo definido. Parece ser música que brota da terra, das pedras, da floresta. Conforta e repele na sua entrega por lapidar e nos atavismos que manifesta.
Os temas de First Utterance são, maioritariamente, extensos na sua duração. Propagam-se como um fogo em lenta combustão mas chispando constantes centelhas. Drip Drip e o encantatório e predominantemente instrumental The Herald são monumentos de embriaguez quase dionisíaca, danças nocturnas nos bosques cujas coreografias são tão belas como diabólicas.
Song to Comus e Diana (o primeiro e único single do grupo) apresentam-se como exercícios quase psicadélicos na imagética, mas mergulhados nas trevas e possuídos por qualquer espírito ancestral, vibrante e delirante. Não será de todo descabido afirmar que estes temas (especialmente o segundo) franquearam de sobremaneira as portas para o movimento dark folk surgido na Europa anos mais tarde e influenciaram a estética de projectos como os Sol Invictus ou os Current 93. Merece igualmente destaque All The Color of Darkness, canção apenas disponível na reedição do disco e que o brinda com um ocaso escarlate e melancólico, um culminar perfeito para toda a estranheza musical que a precedeu.
Na actualidade, First Utterance é um disco tão anacrónico como fascinante. Transporta-nos ao tempo em que as possibilidades musicais eram tão inocentes como infinitas e a mais louca das criatividades se manifestava sem receios nem preconceitos.

26 de dezembro de 2015

Amor à Arte

Andy Warhol faleceu em 1987. Nas suas exéquias fúnebres, Lou Reed e John Cale, amargamente afastados desde o afastamento do último dos Velvet Underground há quase 20 anos, voltaram a comunicar. A inquebrável química artística entre ambos levou a uma imponderável colaboração e ao início do que seria a primeira - e última - reunião da banda que fundaram. As eternas diferenças pessoais entre ambos levaram a que nunca mais trabalhassem em conjunto depois disso.
Andy Warhol foi alcunhado Drella por Ondine, membro do séquito da sua Factory. Tal epíteto, que Warhol sempre desdenhou, era uma fusão entre Drácula e Cinderela. Reed e Cale recuperaram-no para o disco de homenagem Songs for Drella, editado em 1990.
A escolha do título não surpreende. A relação com Warhol sempre oscilou entre a cumplicidade e a acrimónia. Todavia, em última instância, o que emana desta colaboração é um conjunto de canções entre o elegíaco e o afectuoso, em que a distância e a frieza se esbatem na admiração e gratidão ao rei indestronável da pop art.
Todos os temas de  Songs for Drella são executados em dueto. Não existe secção rítmica, apenas a electricidade acutilante da guitarra de Reed, as chispas das cordas de Cale e teclados e vocalizações repartidas por ambos. A toada emotiva é constante, sendo que as letras narram episódios marcantes da vida de Warhol de forma reflexiva e despojada da pirotecnia extravagante que sempre o acompanhou.
Style It Takes, Faces and Names Forever Changed, todas cantadas por Cale, evocam a arte de Warhol e a peculiaridade da sua visão do mundo e das pessoas. Open House, Slip Away (A Warning) e It Wasn't Me, pela voz de Reed, mostram o homem por baixo da camada de superficialidade e artificialidade que tanto lhe associavam, a tentativa de assassinato da qual foi alvo e as mudanças que o tempo acarreta. O tema mais pungente do disco será, certamente, o que o encerra. Hello, It's Me é uma despedida terna, uma catarse refreada nas palavras de Lou Reed e na melodia sombria do violino de John Cale. E Songs for Drella será um disco de homenagem despojado e intimista a um ícone da extravagância e da controvérsia.    
Previamente à edição do álbum, as canções que o compõem foram alvo de gravação ao vivo na Brooklyn Academy of Music. A gravação, registada sem audiência, documenta exemplarmente o entrosamento musical entre dois gigantes tão próximos artisticamente, mas nos antípodas do entendimento pessoal.


                              

Compêndio Krautrock




Future Days, subtitulado Krautrock and the Building of Modern Germany, será, muito provavelmente, a obra mais definitiva lavrada até à data no que toca à revolução rock alemã. Exaustivo, revelador e continuamente interessante, o livro do jornalista britânico David Stubbs constitui um misto de trabalho arqueológico e paixão devota pela arte que narra.
Ao longo de quase 500 páginas, Stubbs dedica-se, sobretudo e sensatamente, aos nomes mais marcantes e seminais da vanguarda musical germânica de finais dos anos 60 e inícios dos anos 70 do século passado. Future Days acaba por ser, assim, uma obra direccionada a neófitos nesta matéria, não obstante conter episódios obscuros e sumarentos que farão as delícias dos maiores aficionados do género e que a tornam uma preciosidade incontornável.
A obra principia com uma epifania: um evento artístico e comunal, em que música, filmes e ativismo colidem e se sobrepõem, e no qual um espírito de renascimento parece brotar de cada gesto e de cada nota. Tal evento decorreu na cidade rural de Unna, oeste da Alemanha, em 1970. Stubbs relata a sua visualização de um documento de 3 horas, de acesso restrito, granjeado pela cadeia televisiva WDR. Nothing better happened in the world that night, escreve o autor, e acreditamos ele. O resto dos comuns mortais, por ora, apenas pode ter ideia do que aconteceu através de pequenos vislumbres como este:

                             

Desta epifania fazem parte os Kraftwerk (aqui na sua fase embrionária e irreconhecível perante a estética futura) e os Can (aos quais Stubbs - pertinentemente - rouba a canção que dá título ao livro). Ambos são devidamente escrutinados e homenageados com lucidez apaixonada. A eles juntam-se exercícios sempre elucidativos e fascinantes, quer do ponto de vista artístico, quer do contexto sócio-cultural de onde surgiram e se implementaram. Neu!, Tangerine Dream, Faust e outros nomes maiores do krautrock (esse epíteto que continua a predominar para revelar a estranheza e a ausência de rotulagem para a música sem convenções) dominam o grosso da obra. Porém, movimentos paralelos como a alucinose espacial dos projectos conjurados pelos Cosmic Couriers, bem como bandas menos divulgadas, como os Embryo ou os Kraan, marcam igualmente presença e reforçam o carácter enciclopédico de Future Days.
A terminar, capítulos dedicados à Neue Deutsche Welle (o equivalente alemão ao pós-punk) e reflexões sobre o presente e o futuro da música, não deixam cair o pano sobre a arte descrita nas páginas precedentes. Assumem a sua herança e a forma como um punhado de grupos alemães - saudavelmente insurrectos contra a herança cultural e os costumes vigentes na sua época - mudou e imprimiu um cunho indelével na criação musical do século XX.
Future Days acaba, igualmente, por ser uma obra que documenta a reinvenção de uma nação. Através de uma geração que renega o passado ao mesmo tempo que deseja manter a sua individualidade. A música acabou por ser apenas uma parte do curso da história. Mas não mudou somente uma nação. Mudou o mundo.

30 de novembro de 2015

Poesia para as Massas



Algures entre Songs From a Room e Songs of Love and Hate, seus segundo e terceiro álbuns, Leonard Cohen passou, de forma algo relutante, pelo festival Isle of Wight de 1970. O que, à primeira vista, poderia parecer um desastre, resultou num concerto-experiência intimista para meio milhão de pessoas. Uma noite, a todos os títulos, mágica e poética, e à qual é possível aceder desde a edição revista e aumentada de Live at the Isle of Wight, editada em 2009.
Os temas que compõem o concerto são, na sua esmagadora maioria, oriundos dos dois primeiros discos do baladeiro canadiano - Songs of Leonard Cohen e o supramencionado Songs From a Room - e incluem clássicos como Suzanne, Bird on a Wire ou Hey, There's no Way to Say Goodbye. Porém, Famous Blue Raincoat e Sing Another Song, Boys, sementes do genial Songs of Love and Hate, são igualmente lançadas sobre a turba silenciosa e atmosfera quase sacra.
Não deixa de ser um artefacto inusitado assistir a um poeta de gabardina enquanto encanta uma multidão de hippies numa noite de Verão com a solenidade hipnótica da sua voz, uma guitarra melancólica e parcos artefactos acessórios. Uma estranha forma de beleza que agora é contada em filme.


                       
leonard cohen isle of wight 1970 full complete concert from sujit phatak on Vimeo.

28 de novembro de 2015

Zénite Lunar

É impossível não chegar ao fim de Moon Blood com uma sensação de esmagamento. Especialmente para quem enceta, pela primeira vez, contacto com os Fraction.
Se existem bandas injustamente condenadas ao esquecimento, estes californianos são membros honorários do clube. Formado por trabalhadores que ensaiavam nas primeiras horas da manhã, e antes dos seus afazeres proletários, a estranheza deste quinteto acentua-se pelo facto de se assumirem como uma banda cristã. Mas que soa como se tivesse o diabo no corpo.
O que torna os Fraction apelativos é a entrega verdadeira que colocam em cada nota tocada e sílaba cantada. Uma urgência ponderada, mas igualmente ritualista. Certos arautos anunciam Moon Blood como o álbum que os Doors nunca fizeram mas que sempre almejaram, e é notória a aproximação - entre o transe e a explosão - do vocalista Jim Beach a Jim Morrison. Todavia, a ausência dos teclados floreados de Ray Manzarek e a preponderância das guitarras, regurgita ecos da escuridão dos Black Sabbath e da intensidade dos Stooges.
É tarefa complicada apontar pontos altos a uma obra tão monolítica e consistente como Moon Blood, o único longa-duração do grupo. O álbum funciona como um turíbulo que asperge incenso heavy psych a cada movimento. O ano do seu lançamento remonta a 1971, mas parece obra padroeira do stoner rock.
Se a produção reflecte os meios state of the art da época, podemos agradecer o facto dos Fraction não terem sofrido uma lapidação artificial. O som é crú e os únicos efeitos que prevalecem e intoxicam são o fuzz das guitarras, filhas pródigas do psicadelismo. Os ritmos são densos e narcóticos, acentuando o inusitado cocktail bíblico-roqueiro que evangeliza o ouvinte pela incineração.
Um enorme disco de uma enorme e perdida banda, Moon Blood ganha, actualmente, contornos de fanatismo no que concerne à sua edição original. Delícia para melómanos obsessivos (e cristãos propensos a romarias ácidas de quando em vez), o encanto hipnótico e denso de Sanc-Divided, Come Out of Her, Eye of the Hurricane, Sons Come to Birth e This Bird (Sky High) urge ser reavivado ad aeternum, pois nunca será ad nauseam. Prisms, Dawning Light e Intercessor's Blues são apêndices que completam a reedição do disco, surgida em 2010, e que não abanam, de forma alguma, os pilares que o sustentam.
Indubitavelmente um dos discos mais intensos, penetrantes e intoxicantes do rock americano pós-Woodstock, Moon Blood retém o espírito da era, mas aventura-se por labirintos sem medo de não encontrar a saída. Se a fé move montanhas, esta obscura e deslumbrante obra-prima comprova-o fervorosamente.

24 de novembro de 2015

Kosmische Kosmetik XLVIII

Jeronimo. Nem o líder do PCP (o que hoje não deixaria de vir a propósito), nem propriamente uma banda do espectro genuíno do krautrock. Talvez o epíteto de banda mais americana do rock alemão seja o que melhor defina este trio, surgido em finais dos anos 60 e criador de três obras a perseguir e capturar.
De todas, a primeira será a mais estranhamente aprazível e deliciosamente acessível. À primeira audição, é quase impossível avançar com a teoria que o rock possante e de laivos psicadélicos que se eleva, fumegante e viscoso, de Cosmic Blues, seja engenho germânico. A voz de Rainer Marz não deixa cair a máscara que revele um sotaque teutónico, assim como a sua guitarra rola e flui com gingares pélvicos. Da mesma forma, o baixo de Gunnar Schäfer e a bateria de Ringo Funk investem em sintonia como dois panzers artilhados de groove. O resultado deste combo bem oleado e atrevido é, assim, um disco de excelente rock musculado e solto, com tanto de orelhudo como de imponente.
Um primeiro vislumbre sobre a capa e os senhores hirsutos que a decoram projecta-nos para um imaginário que cruza os Blue Cheer com os Black Sabbath. Tal não será descabido, pois os Jeronimo apresentam-se com a energia dos primeiros e o peso-pesado dos segundos. Todavia, o seu psicadelismo não chega nunca a ser lisérgico e Belzebu não parece habitar estas paragens. O termo proto-metal assenta-lhes muitíssimo bem, mas as influências são bem mais abrangentes, dos Kinks mais incisivos em News, aos blues pomposos dos Cream em The Key, passando por um Bob Dylan em versão prazenteira em The Light Life Needs.
Os temas cativantes sucedem-se, tornando Cosmic Blues uma obra de coerência e consistência contagiantes. Apesar do rock ser hard, as vibrações são boas e luminosas. A melhor prova encontra-se nos dois singles do álbum, que causaram relativo impacto aquando da sua edição em 1970: Na Na Hey Hey e He Ya, canções celebratórias e convidativas a um discreto mas veemente headbanging.
A partir daqui, é só deixar que estes alemães nos ponham a mexer, com maior ou menor intensidade, através da combustão constante de So Nice To Know, Let The Sunshine In ou Never Goin' Back, temas que parecem colocar a Califórnia na Baviera.
Cosmic Blues, é, acima de tudo, um disco de feel good music. Um álbum de rock despretencioso, mas forte e extremamente lúdico, cujos 40 minutos de duração constituem uma curta mas eficaz panaceia contra dias cinzentos e outros tormentos. A acompanhar com cerveja.

22 de novembro de 2015

Folie Cosmique

A arte sonora do francês Pierre Zalkazanov evidenciou-se, obscura e remotamente, num disco de paisagens electrónicas denominado Green Ray. Tal obra, editada em 1976, permaneceu num recanto poeirento de memórias futuristas, mas merece de sobremaneira o resgate para ouvidos presentes.
O seu charme não reside na novidade ou na audácia - pouco ou nada de novo conseguimos desenterrar do filão electrónico dos idos de 70 -, mas na sedutora envolvência que reveste os três temas que o compõem.
Imagine-se um motor híbrido, criativamente posicionado entre as paisagens infinitamente estelares e estéreis de Klaus Schulze e a sónica torre em mel de Jean-Michel Jarre. Um Volkswagen com as curvas de um Citröen, eis a infraestrutura que alberga Green Ray.
É impossível não olhar esta obra como uma reacção, ou um derivado, da cena electrónica germânica da época. Todavia, ao invés de ser mais um sucedâneo de herméticas ruminações provindas do lado oculto da Lua, o primeiro disco de Zanov apresenta-se como um monolito colorido, um vitral de paisagens gélidas e inóspitas, mas de recortada e tangível beleza.
O tema-título, hipnótico e onírico, resume o condão dos sintetizadores analógicos em criar espirais dançantes de coreografia artificial. Mesmo arcaico, o som é caleidoscópico, servido em camadas que parecem desdobrar-se infinitamente, adornado por tons escuros, mas estranhamente sedutor.
Machine Desperation incorpora um rigor austero e evolui mecanicamente, num pulsar que consome tudo o que encontra na sua roldana. Não existem melodias identificáveis, ou harmonias aconchegantes, mas apenas um convite ao mergulho no vazio, embalado por braços indefinidos.
Green Ray nunca deixa de ser experimental, o que se encontra bem patente na longa e alquímica navegação que o encerra. Running Beyond a Dream revela-se como o astronauta perdido no espaço, estranho a tudo o que o rodeia, mas demasiado fascinado para temer o desconhecido. O tempo parece suspender-se e os sons ecoam como canto de sereias. Ao nível do melhor do supramencionado Schulze ou dos Tangerine Dream, esta peça constitui uma verdadeira delícia para os amantes da música que encerra nos seus domínios o espaço profundo.
Belo na sua essência e recompensador no seu transe atonal mas inebriante, Green Ray é uma estrela distante, mas intensamente brilhante, da era de ouro da música electrónica. Ouvi-lo hoje é, simultaneamente, nostálgico e desafiante. E tão recompensador como sentir saudades de um futuro que poderia ter sido idêntico ao que sonhámos.

31 de dezembro de 2014

2014: A Soundtrack




Em retrospectiva, 2014 foi um ano de revelações e confirmações. Portugal, por exemplo, revelou novos podres e confirmou várias enfermidades. Por entre as farsas e falcatruas que tornam os dias na ocidental praia lusitana mais animados, bendita a música que desceu sobre nós. O ano foi prolífico em qualidade e surpresas boas, o que, em conjunto com cada conquista do Sport Lisboa e Benfica, ajudou este escriba a caminhar diariamente pelo país surreal.
O eleito desta retrospectiva é Adam Granduciel e a sua extensão musical chamada The War on Drugs. Com um disco magistral que combina ritmos motorizados derivados do krautrock, guitarras paisagísticas e atmosferas evocativas da América vasta e das estradas intermináveis, Granduciel desponta como o filho ilegítimo de Dylan e Springsteen. Cria música com o barro do passado para moldar o futuro. E cada disco seu, é, cada vez mais uma viagem que nos tira do presente e nos arrasta para um tempo paralelo.
Destaque óbvio para a afirmação de Annie Clark, vulgo St. Vincent, como um das estetas mais sofisticadas e inovadoras da pop actual. A sua inventividade, sem nunca perder o poder tentador e inebriante das melodias, nunca resvala para o excesso e o bom gosto é uma constante.
Swans e Scott Walker continuam a mostrar sinais de um vigor viçoso e de uma capacidade de reinvenção notável. Richard James/Aphex Twin regressou com um disco que superou as expectativas mais exigentes e D'Angelo ainda chegou a tempo para conquistar um lugar no Top 10. 14 anos depois do seu último registo, Black Messiah prova que a música negra norte-americana se torna mais quente, sedutora e até ritualista nas suas mãos.
No ecletismo das escolhas, de Run The Jewels a Sun Kil Moon, passando por FKA Twigs e Mac DeMarco, importa a qualidade e não o género, a longevidade e não o imediatismo. Foi sempre assim e sempre será. A ordem é necessária, mas todos são tesouros. 2014 está morto! Viva 2014!


1 - The War on Drugs - Lost in the Dream

2 - St. Vincent - St. Vincent

3 - Aphex Twin - Syro

4 - Swans - To Be Kind

5 - Scott Walker & Sunn O))) - Soused

6 - Sun Kil Moon - Benji

7 - D'Angelo and the Vanguard - Black Messiah

8 - FKA Twigs - LP1

9 - Grouper - Ruins

10 - Run The Jewels - Run The Jewels 2

11 - Real Estate - Atlas

12 - Mac DeMarco - Salad Days

13 - Sharon Van Etten - Are We There

14 - Perfume Genius - Too Bright

15 - Caribou - Our Love

16 - Todd Terje - It's Album Time

17 - Earth - Primitive and Deadly

18 - Ty Segall - Manipulator

19 - Richard Dawson - Nothing Important

20 - Actress - Ghettoville

21 - Dean Blunt - Black Metal

22 - Beck - Morning Phase

23 - Ariel Pink - Pom Pom

24 - Arca - Xen

25 - East India Youth - Total Strife Forever

26 - Future Islands - Singles

27 - Shabazz Palaces - Lese Majesty

28 - Warpaint - Warpaint

29 - The Antlers - Familiars

30 - Spoon - They Want My Soul

31 - Lana Del Rey - Ultraviolence

32 - Sleaford Mods - Divide and Exit

33 - Andy Stott - Faith in Strangers

34 - Jack White - Lazaretto

35 - Angel Olsen - Burn Your Fire For No Witness

36 - Damon Albarn - Everyday Robots

37 - Leonard Cohen - Popular Problems

38 - The Bug - Angels & Devils

39 - Steve Gunn - Way Out Weather

40 - Robert Plant - Lullaby and... The Ceaseless Roar

41 - Flying Lotus - You're Dead!

42 - Owen Pallett - In Conflict

43 - Fennesz - Bécs

44 - Ex Hex - Rips

45 - Ben Frost - Aurora

46 - The Black Keys - Turn Blue

47 - Manic Street Preachers - Futurology

48 - Timber Timbre - Hot Dreams

49 - Wild Beasts - Present Tense

50 - Gazelle Twin - Unflesh

Film Noir



De todos os nomes surgidos do movimento rock gótico, os Sisters of Mercy foram sempre os mais sólidos e credíveis. Por não se limitar a ficar pendurado na sua caverna de pernas para o ar, o grupo britânico imiscuiu-se no romantismo, no existencialismo e até na geopolítica, conseguindo deixar transparecer uma saudável dose de humor negro, pouco perceptível através da austeridade estética, mas real.
Wake - In Concert at the Royal Albert Hall retrata a banda ao vivo nos seus quase primórdios e na ressaca da edição de First and Last and Always, o primeiro álbum. Estávamos em 1985 e o sucesso e a improvável visibilidade surgidos posteriormente pareciam longínquos e até imponderáveis.
O concerto documenta os Sisters of Mercy na posse das suas plenas faculdades e estranhos poderes. Muito fumo e pouca luz não significam muita parra e pouca uva e o rigor denso e formal que o colectivo sempre prezou nas suas actuações ao vivo surge aqui em todo o seu nebuloso e hipnótico esplendor. O palco como local de comunhão onde nos podemos perder mas também encontrar.
O rock dançável, escuro e narcótico dos Sisters of Mercy atingia aqui o seu grau máximo de pureza. Do barítono angustiado de Andrew Eldritch ao baterista imaginário chamado Doktor Avalanche - na realidade uma caixa de ritmos programada -, o culto underground arreganha feliz os seus dentes vampirescos. De confortos instalados do negrume como Marian ou Walk Away a temas menos imediatos como Body and Soul ou o tremendo Emma, este concerto é uma agradável descida às sombras. De um tempo musical tão estranho e soturno que, por vezes, duvidamos se terá mesmo existido.