15 de janeiro de 2017

Kosmische Kosmetik XLIX

Die Grüne Reise ou The Green Journey foi o primeiro álbum produzido pelo guitarrista Achim Reichel após o abandono dos popularíssimos (pelo menos na República Federal Alemã) The Rattles. Esta banda chegou a ganhar o epíteto de Beatles germânicos devido às similaridades como os Fab Four de Liverpool, mas sempre mais no estilo que na substância. O agrupamento que Reichel reuniu para iniciar a sua nova trajectória musical não reteve, certamente, tais paralelismos, a não ser, talvez, uma saudável obsessão por Tomorrow Never Knows ou Revolution nº 9. Denominados A.R. & Machines, constituem um dos colectivos mais originais, inovadores e interessantes das franjas do rock teutónico mais arrojado.
Die Grüne Reise foi primariamente idealizado como uma banda-sonora para um filme imaginário e parece ter o poder de penetrar em todos os neurónios do ouvinte em simultâneo. Ataca em todas as frentes como onda que desfaz castelos de areia, não deixando destroços à sua passagem, mas sim novas geometrias mentais. Flui em registo contínuo, sem pausas, num caudal sonoro que aumenta e diminui de intensidade, sem nunca perder a sua essência pulsante e encantatória.
A sonoridade de Die Grüne Reise assenta num cocktail de rock enraizado nos blues e uma carga psicadélica capaz de implodir qualquer cérebro mais incauto. É, em suma, um disco sensitivo e policromático, que nos envolve mental e fisicamente. A abertura com Globus (Globe) dá-se num crescendo rítmico repetitivo e guitarras espiraladas que culminam em espasmos psicadélicos, tudo no espaço de três minutos, e que desembocam no hard rock insinuante e alucinogéneo de In the Same Boat (Im Selben Boot)Schones Babylon (Beautiful Babylon) é o ponto de convergência entre ambas e, por esta altura, a contaminação sonora já se consumou.
I'll Be Your Singer - You'll Be My Song (Ich Bein Dein Sänger, Du Bist Mein Lied) envereda por guitarras acústicas e percussão orgânica e aproxima-se dos territórios trilhados pelos Can. Body e A Book's Blues são dois intróitos que acrescentam bizarria à já hiperactiva toada do álbum, sendo a primeira uma colagem de guitarra, percussão e voz e a segunda um exercício de blues estranhamente convencional.
Als Hätt Ich das Älles Schon Mal Gehesen (As If I Had Seen This All Before) retoma o curso sonâmbulo da viagem (trip?) verde, enaltecendo a paisagem sónica com electrónicas transcendentes. Cosmic Vibration não se afasta do rumo e as guitarras envolvem-nos em ecos vertiginosos, por entre o ritmo e a electrónica fustigantes. Come on People arrasta consigo ecos do rock da West Coast americana, calorosos e vibrantes e a jornada chega ao fim em Wahrheit und Wahrscheinlichkeit (Truth and Probability). Aqui perdem-se quaisquer elos de ligação com a realidade e o tema move-se fora da gravidade, entre vozes fantasmagóricas e absurdas - que poderiam ter sido conjuradas por Ligeti - e electricidade em ebulição. Alucinante, distorcida e desafiante, a peça parece ser um negativo da restante toada do álbum, voltando-nos para uma surreal introspecção.
Die Grüne Reise é, em suma, um dos grandes clássicos da primeira fase do krautrock. Uma obra inovadora, que ainda hoje soa muito à frente do ano em que foi editada (1971) e cuja influência não pode ser desdenhada. Consta, inclusive, que Brian Eno se inspirou nela para a sua própria obra-prima Another Green World, pelo que não faltam razões para dar a Die Grüne Reise o realce merecido.
De salientar igualmente que a produção aqui abordada diz respeito à reedição do disco levada a cabo em 2007. O alinhamento é ligeiramente diferente da primeira edição em vinil, considerando-se, contudo, definitivo. Esta versão remasterizada do álbum apresentou-se acompanhada de um DVD, fazendo jus ao objectivo primário da obra: um filme produzido por estudantes universitários alemães e que permite, finalmente, experienciar Die Grüne Reise em toda a sua plenitude.


             


2 de janeiro de 2017

2016: A Soundtrack




Por motivos deliberados, esperei por 2017 para desvendar as minhas escolhas musicais de 2016. Seria bom que o ano agora morto e enterrado fosse erradicado da memória colectiva. Infelizmente não será assim. 2016 foi uma ponte, um trilho de fogo aberto no tempo e que, à falta de maiores desgraças, prenunciou friamente o futuro próximo.
O ano que nos roubou David Bowie, Leonard Cohen e Prince, presenteeou-nos com o Brexit e colocou o pató Donald Trump à frente dos destinos da nação mais poderosa do mundo. Para além de ter sido bissexto, foi também bipolar. Já terminou, mas deixou traumas difíceis de extinguir. Salve-se o tricampeonato para o Sport Lisboa e Benfica, momento de paradoxal regozijo num lodaçal quase permanente de desgraças.
Musicalmente, além do luto motivado pela perda de nomes sobejamente influentes e consagrados, algumas centelhas surgiram cujo fulgor iluminou o negrume. Há uma nova fornada de cantautores pronta a encantar e os produtos surgidos do Rap/Hip-Hop assumem-se cada vez mais como laboratórios sonoros e fonte da verdadeira originalidade da música desta segunda década do milénio. Não obstante, a aura dos mestres - os que lutam, os que perderam e os que nós perdemos - continua a projectar uma extensa e inescapável sombra na arte sonora do presente. 2016 foi um ano em que passado, presente e futuro se fundiram como raras vezes. Eis a banda-sonora que me ajudou a enfrentar cada dia.


1. David Bowie - Blackstar

2. Radiohead - A Moon Shaped Pool

3. Nick Cave & The Bad Seeds - Skeleton Tree

4. Angel Olsen - My Woman

5. Solange - A Seat at the Table

6. Anohni - Hopelessness

7. Bon Iver - 22, A Million

8. Shirley Collins - Lodestar

9. Leonard Cohen - You Want It Darker

10. Frank Ocean - Blonde

11. PJ Harvey - The Hope Six Demolition Project

12. Elza Soares - A Mulher do Fim do Mundo

13. Anderson.Paak  - Malibu

14. Let's Eat Grandma - I, Gemini

15. Car Seat Headrest - Teens of Denial

16. Beyoncé - Lemonade

17. Kanye West - The Life of Pablo

18. Brian Eno - The Ship

19. DIIV - Is The Is Are

20. Iggy Pop - Post Pop Depression

21. Jenny Hval - Blood Bitch

22. Danny Brown - Atrocity Exhibition

23. Cass McCombs - Mangy Love

24. Chance The Rapper - Coloring Book

25. Thee Oh Sees - A Weird Exits

26. A Tribe Called Quest - We Got It From Here... Thank You 4 Your Service

27. James Blake - The Colour in Anything

28. Parquet Courts - Human Performance

29. Ryley Walker - Golden Sings That Have Been Sung

30. Blood Orange - Freetown Sound

31. Christine And The Queens - Chaleur Humaine

32. Lambchop - FLOTUS

33. Sturgill Simpson - A Sailor's Guide to the Earth

34. Savages - Adore Life

35. The Avalanches - Wildflower

36. Weyes Blood - Front Row Seat to Earth

37. Kaytlin Aurelia Smith - EARS

38. Moor Mother - Fetish Bones

39. The 1975 -  I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful Yet So Unaware of It

40. Gaika - Security

41. Teenage Fanclub - Here

42. Michael Kiwanuka - Love & Hate

43. Anna Meredith - Varmints

44. Yves Tumor - Serpent Music

45. Cavern of Anti-Matter - Void Beats/Invocation Trex

46. Paul Simon - Stranger to Stranger

47. Kevin Morby - Singing Saw

48. Mitski - Puberty 2

49. Wilco - Schmilco

50. Swans - The Glowing Man

1 de março de 2016

Filme Ambiente



Brian Eno é universalmente conhecido como o criador da música ambiente. Todavia, Mistaken Memories of Mediaeval Manhattan, obra visual datada de 1981, pode igualmente atribuir-lhe o epíteto de inventor do filme ambiente. Nada de realmente novo, pois Andy Warhol tinha já experimentado anteriormente com os efeitos das imagens estáticas e hipnóticas. Todavia, esta criação do multifacetado artista britânico revela uma frescura que perdura.
Gravada ininterruptamente durante 4 dias, a peça incide sobre as variações e mutações elementares dos céus de Manhattan, observadas a partir da janela de Eno. Na medida em que as câmaras portáteis eram um artefacto relativamente recente na época, o mesmo não dispunha de um suporte para efectuar a captação de imagens na forma correcta, pelo que o dispositivo foi mantido em posição horizontal. O resultado acabou por se revelar mais um dos muitos felizes acasos que polvilham a mente criadora de Brian Eno. Uma obra de arte visual, de imagens primárias e saturadas, cuja premissa assenta na colocação do écran onde é exibida na vertical, para que as formas tomem a sua posição natural. Ou não, se o espectador preferir manter o discreto surrealismo que emana da peça. Arte involuntária e instantânea, mas genial e pertinente, ao melhor estilo deste regente futurista.


                                   

Conferência Krautrock

Interessante prelecção acerca das raízes e evolução do krautrock, conduzida pelo académico francês Dominique Fellmann...


                      


                      

29 de fevereiro de 2016

Open Can



Provavelmente um dos concertos mais importantes da história do rock vanguardista e de laivos experimentais, a prestação ao vivo dos Can no lendário festival de Soest em 1970 continua a ser um documento assombroso. Parecemos assistir ao parto de uma nova forma de música, sendo que, ainda hoje, o poder encantatório e o arrojo artístico destes sons não perderam um suspiro do seu fôlego inovador. 
Estamos perante a formação clássica do grupo e é pouco menos que incrível assistir ao estranho entrosamento destes músicos e captar os sons únicos e misteriosos que emanam dos seus instrumentos. Felizmente tudo isto está disponível e a dádiva tem um valor incalculável.


       

Turn on your mind



O Tumblr ostenta uma página carregadas de arte psicadélica do mais fino recorte. Uma fantástica máquina do tempo até aos idos de 60, onde posters, cartazes de concertos ou, pura e simplesmente, devaneios de vária ordem desfilam em onírica desordem. Porque uma imagem vale mais que mil palavras, nada como contemplar as delícias aqui guardadas.

Gomos Cósmicos




A Internet continua a ser, pontualmente, um mar de pérolas escondidas. A prová-lo estão peças raras,
de origem obscura e sem data definida como Rendezvous with Tangerine Dream. Este documento, na sua esmagadora maioria constituído por excertos musicais reunidos durante a primeira - e clássica -década de existência do grupo germânico, acaba por ser uma improvável mas excelente porta de entrada no seu imaginário.
Da mítica Bath Tube Session, captada em Berlim no ano 1969 a excertos do histórico concerto na Catedral de Coventry em 1975, esta curiosa colectânea serve como tónico para a memória e recupera a importância que os Tangerine Dream tiveram na génese e evolução da música electrónica.


                                 

Born to Lose, Live to Win



Dois meses passados desde a morte do enorme e icónico Lemmy, nada como lembrá-lo no local onde se sentia como peixe na água: o palco. E os seus Motörhead apresentam-se em estado de graça no concerto comemorativo dos 30 anos da banda. Gravado em Düsseldorf, Stage Fright é o documento comprovativo do eterno poder do colectivo britânico ao vivo. Recheada de clássicos de algum do rock'n'roll mais primário, visceral e enérgico alguma vez feito, esta prestação constitui igualmente um regalo para os olhos. Não pela beleza dos seus intervenientes, é certo, mas pela filmagem plena de nervo e vertigem que nos coloca no olho do furacão. É intenso e pesado, but that's the way I like it baby...


           

21 de fevereiro de 2016

Dreamhouse



Para além da música vanguardista, marcante e, insistentemente, brilhante, uma das imagens de marca da editora britânica 4AD foi sempre a estética que embrulha a arte. Nesse sentido, o forte poder imagético e, a espaços, cinemático, dos projectos que a incorporaram e continuam a surgir no presente, ajudou a construir a elegante catedral sonora e visual que hoje conhecemos.
Lonely is an Eyesore, datada de 1987, é uma compilação state of the art da 4AD em pleno estado de graça da sua existência. Editada sob o formato de áudio e vídeo, reúne alguns dos nomes maiores da sua história e funciona como porta de entrada ideal para o seu mundo sónico e visual.
Do onirismo exacerbado de Acid, Bitter and Sad do projecto This Mortal Coil ao psicadelismo etéreo e angelical de Crushed dos Cocteau Twins, passando pela austeridade espititual de ecos Tarkovskianos dos Dead Can Dance em The ProtagonistLonely is an Eyesore é um festim para os sentidos mais esclarecidos. Um documento de refinado bom gosto para olhos e ouvidos e que, mais que nostálgico, funciona como súmula perfeita da estética única e da beleza estranha de uma das casas musicais mais fascinantes e inconfundíveis da contemporaneidade artística.


                               

13 de fevereiro de 2016

Holy Rock




Rock & Holy Rollers, subtitulado The Spiritual Beliefs of Chart-Topping Rock Stars in Their Lives and Lyrics é um curioso compêndio acerca da relação de alguns dos nomes mais sonantes do universo rock com o misticismo e a espiritualidade.
Assinada pelo canadiano Geoffrey D. Falk, esta obra editada em 2006 explora a forma como essas crenças e práticas inspiraram a criação artística de músicos cuja influência é notória e marcante, ao mesmo tempo que nos revela a sua faceta mais esotérica.
A espaços bizarro, hilariante e surpreendente, Rock & Holy Rollers é, acima de tudo, um livro lúdico e cuja abordagem permite desbravar alguns dos conceitos por trás de letras, canções e concepções artísticas de nomes como David Bowie, Bob Dylan ou Jimi Hendrix. Os curiosos poderão percorrer as suas páginas no interessante website Holy Books, mais propriamente aqui.

10 de fevereiro de 2016

Feeling Low



A minha primeira memória de David Robert Jones remonta aos 7 anos de idade. 1983. Um colega da escola primária, decerto por vias insondáveis, apareceu um dia com um caderno diferente. Na capa vermelha ressaltava, ao centro, uma figura estranha mas igualmente hipnótica. Tinha um olho de cada cor. O cabelo era vermelho e o rosto, envolto numa maquilhagem berrante e futurista, não permitia vislumbrar se era rapaz ou rapariga. Somente o nome, escrito a letras que mais pareciam gordos relâmpagos, dissipava as dúvidas. Era um rapaz chamado David. Bowie o seu segundo nome.
Mais tarde (dias? meses?), surgiu na televisão o videoclip de Let´s Dance. Um homem magro, de cabelo louro e roupas claras, cantava num bar no meio de nenhures, aparentemente num calor abrasador. O nome apareceu no fim: David Bowie. A estranheza acentuou-se. Como podiam aquele homem que tocava guitarra de luvas brancas e a figura flamejante do caderno ser a mesma pessoa? Afinal era músico e não uma personagem de ficção científica!
Ser criança é ser, essencialmente, uma esponja. Tudo é absorvido rapidamente e triturado para dar lugar à próxima revelação. A bizarra figura daquele simples caderno (que, obviamente, era Ziggy Stardust em toda a sua pompa) foi remetida para um canto da memória e coberta por camadas de novas descobertas musicais, algumas de gosto bastante duvidoso...
O primeiro regresso a David Bowie deu-se com a sua primeira vinda a Portugal. Não se falava doutra coisa. Tocou num estádio e o concerto foi transmitido na televisão. Vi, entre o fascinado e o desapegado, as suas movimentações teatrais e reptilianas em palco. Em 1990, o meu gosto adolescente colocava-me nos antípodas de qualquer música que agradasse às massas. Aquela figura destoava num quarto preenchido por posters de bandas obscuras de heavy-metal.
Com o tempo, veio o amadurecimento e o ecletismo nos gostos e nas escolhas. E, com ele, o primeiro disco de Bowie. Gostaria de dizer que a peça inaugural foi um clássico como The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars ou até Let´s Dance. Mas não. A compilação Changesbowie parecia ter um pouco de tudo para escrutinar a carreira da camaleónica personagem. Mas seria apenas uma pequena fresta para um mundo de delícias e mistérios a descobrir. Sucederam-se os abandonos e os regressos, o enfado e as saudades. Lembro-me de ficar definitivamente deslumbrado e rendido com Outside, o disco de 1995 feito em parceria com Brian Eno e que me franqueou as portas para a existência de uma anterior fase berlinense de Bowie, reverenciada de forma quase religiosa por uma certa franja cognoscente.
Em 1999, após a edição de Hours, outro disco que me tocou inesperadamente, chegou a notícia da reedição de toda a obra do músico londrino. Era chegada a hora da imersão total. Comprei todos obsessivamente e obsessivamente os escutei, inclusive a inusitada aventura denominada Tin Machine...

Low sempre foi o meu preferido. Muito provavelmente será o disco da minha vida. Não pelo que trouxe em definitivo, mas pelas portas que abriu. Este blog não existiria sem Low. Tal como eu não partiria em expedição do krautrock que tanto o influenciou e não abriria a mente a todos os sons mais experimentais e arrojados, aqueles que primeiro se estranham e depois se entranham.
Ao contrário do que muitos apregoam, Low não foi gravado em Berlim na sua totalidade e Brian Eno não é o seu produtor. O álbum foi parcialmente gravado em França e a produção dividiu-se entre Bowie e o quase omnipresente Tony Visconti. Dos onze temas que o compõem, seis são maioritariamente instrumentais, o que ilustra bem a direcção tomada por uma das maiores vozes de sempre da música popular.
Tudo em Low soa a novo, sempre, a cada audição, mesmo passados quase 40 anos da sua edição original. Nunca se ouviu uma bateria assim e a atmosfera geral jamais foi repetida. Friamente melódico, solitariamente emocional e envolto numa escuridão latente, é assombrosa a forma como uma obra tão alienada e alienante possui tamanha capacidade de cativar. Consta que Bowie abandonara Los Angeles, onde vivera até então, para se livrar das amarras da cocaína. Talvez derive desse facto o tom introvertido e melancólico do disco. A lenta descida à sóbria realidade.
Os temas mais imediatos de Low são, indubitavelmente, os dois singles que produziram: Sound and Vision e Be My Wife. O primeiro é uma das melhores criações de sempre de Bowie, um hino à depressão, mas cuja melodia cristalina e ritmo límpido tornam luminoso. O segundo constitui a peça musicalmente mais clássica do disco, apesar do tom agridoce que prevalece.
Os curtos mas brilhantes estilhaços de canções que fazem o álbum levantar voo, imediatamente a seguir ao arranque propulsivo e infeccioso de Speed of Life, transportam consigo tantas influências como disseminam o que deveria ser escrito musicalmente no futuro. É neste capítulo que se nota a tremenda sombra criativa e inovadora de Brian Eno. Ao esqueleto dos temas, Eno adiciona a sua alquimia pessoal e as suas estratégias oblíquas, tornando a música arte pura.
À medida que Low se encaminha para a conclusão, a sensação de solidão e clausura intensifica-se. A New Career in a New Town é a última paragem antes da entrada na noite cerrada, urbana e distópica. Warszawa é o hino nocturno a todas as cidades-fantasma do mundo, uma elegia terrivelmente bela e desoladora, que nos eleva e nos esmaga perante a indiferença da gélida paisagem sonora que contemplamos. Art Decade e Weeping Wall são quase autistas na forma como se fecham sobre si próprias num manto de electrónica lúgubre, xilofone repetitivo e efeitos ominosos. Subterraneans encerra o disco como um lento nevoeiro que se ergue na densa, cinzenta e nocturna paisagem urbana, envolvendo-nos e cobrindo-nos, até que a estrela mais alta desapareça do alcance da vista. Fica um saxofone, despojado e lunar, paradoxo de um instrumento que deveria ser caloroso.
Nunca David Bowie soou tão alienado/alieníngena como em Low. Seguir-se-iam outros momentos de génio, da mesma forma que outros o precederam. Mas Low será sempre um caso à parte, o exemplo flagrante do que fez de David Bowie único, imprevisível e irrepetível.

Agora, um mês passado da sua súbita, inesperada e quase orquestrada morte, é impossível superar o vazio que se instalou. As ondas de choque da perda avançam e regridem a cada notícia, a cada memória, a cada audição do seu impressionante legado musical. António Lobo Antunes disse uma vez que, quando perdemos o nosso pai, nada mais resta entre nós e a morte. Será, porventura, exagero comparar esta afirmação ao falecimento de David Bowie. Mas não será exagero apontar que uma grande fatia da minha geração perdeu o seu pai musical. E, ponderando até a sua própria finitude, ficou por sua conta, obrigada a viver num mundo menos inspirador. Não será fácil, mas também não será impossível. A música existirá sempre, para embalar o luto perpétuo. Virão, até, momentos em que não nos lembraremos dele. Mas, como em tudo o que é imortal e ajudou a construir a nossa identidade, a centelha da memória estará sempre latente, pronta para ser reavivada. Da minha tentacular família musical, David Bowie foi sempre o pai. Mesmo quando não o sabia. Mesmo sem o desejar. E ainda me lembro da imagem espelhada naquele caderno...

31 de dezembro de 2015

2015: A Soundtrack



Em 2015, Ian "Lemmy" Kilmister passou, definitivamente, ao estatuto de imortal. Perante isso, pouco mais há a assinalar. O Sport Lisboa e Benfica foi campeão pela 34ª vez. E maldito terrorismo. Os discos que alimentaram a minha existência foram muitos e seguem-se os que vieram para ficar.


1 - Julia Holter - Have You in My Wilderness

2 - Jamie XX - In Colour

3 - Sufjan Stevens - Carrie & Lowell

4 - Kendrick Lamar - To Pimp a Butterfly

5 - Grimes - Art Angels

6 - Father John Misty - I Love You, Honeybear

7 - Jim O'Rourke - Simple Songs

8 - Courtney Bartnett - Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit

9 - Björk - Vulnicura

10 - Kamasi Washington - The Epic

11 - New Order - Music Complete

12 - Jlin - Dark Energy

13 - Holly Herndon - Platform

14 - Matana Roberts - Coin Coin Chapter Three: River Run Thee

15 - Kurt Vile - B'lieve I'm Goin Down

16 - Tame Impala - Currents

17 - Oneohtrix Point Never - Garden of Delete

18 - Natalie Prass - Natalie Prass

19 - Beach House - Depression Cherry

20 - Deerhunter - Fading Frontier

21 - Panda Bear - Panda Bear Meets the Grim Reaper

22 - Blur - The Magic Whip

23 - Joanna Newsom - Divers

24 - Miguel - Wildheart

25 - Low - Ones and Sixes

26 - Wilco - Star Wars

27 - Floating Points - Elaenia

28 - Sleaford Mods - Key Markets

29 - Benjamin Clementine - At Least For Now

30 - Donnie Trumpet & The Social Experiment - Surf

31 - James Ferraro - Skid Row

32 - Unknown Mortal Orchestra - Multi-Love

33 - Future - DS2

34 - Sleater-Kinney - No Cities to Love

35 - Arca - Mutant

36 - John Grant - Grey Tickles, Black Pressure

37 - Mbongwana Star - From Kinshasa

38 - Drake - If You're Reading This It's Too Late

39 - Tobias Jesso Jr. - Goon

40 - Viet Cong - Viet Cong

41 - Jenny Hval - Apocalypse, Girl

42 - Vince Staples - Summertime '06

43 - FFS - FFS

44 - Deafheaven - New Bermuda

45 - Ryley Walker - Primrose Green

46 - Destroyer - Poison Season

47 - Bill Fay - Who is the Sender?

48 - Matthew E White - First Blood

49 - Alabama Shakes - Sound & Color

50 - Bob Dylan - Shadows in the Night