29 de novembro de 2018

La Vie en Roseland

Portishead - Roseland New York



Roseland NYC Live foi já considerado um dos melhores álbuns ao vivo de sempre, feito estranho e discutível, tendo em conta a recatada e discreta banda que o assinou, os britânicos Portishead, bem como o estilo musical que praticam.  Contudo, a história toma outro rumo perante o contraponto visual do concerto registado em 1997 num velho salão de baile nova-iorquino. 
Roseland New York, filme-concerto realizado por Dick Carruthers, revela os Portishead num registo nú e crú, sem artifícios, luzes ou sombras além da atmosfera esparsa do local onde tocam, perante os olhares próximos do público e acompanhados por um conjunto de cordas intitulado apenas - e enigmaticamente - The Orchestra.
O contraste entre o trip-hop jazzístico com laivos de film noir praticado pelo grupo e a exposição da sala que alberga a música permite uma ilusória sensação de intimidade, no qual o narcótico embalo sonoro embate na rigidez permanente da luminosidade e da performance artística sem subterfúgios.
Os maneirismos vocais a la Billie Holiday de Beth Gibbons, a guitarra western spaghetti em território urbano de Adrian Utley e a teia sonora de teclas, ritmos e samples construída por Geoff Barrow florescem de forma hipnótica e encantatória em Roseland New York. Trata-se de um objecto único e precioso relicário para entender a música da década de 90 e de um dos seus colectivos mais geniais e influentes. Como esquecer ou não querer regressar ao abandono melancólico misturado com negrume sensual de Roads, All Mine, Glory Box ou Over? Esperemos que o sucessor de Third não demore mais dez anos a ver a luz da noite.



              

25 de novembro de 2018

Bowie Now



The age of bowie 9781471148118 hr



The Age of Bowie é, acima de tudo, uma biografia escrita por um admirador e seguidor. O seu autor é Paul Morley, eminente comentador artístico britânico e membro dos Art of Noise nas horas vagas (ou vice-versa). Erigida nos dias que se seguiram ao falecimento de David Bowie, a obra constitui um tour de force reactivo à perda de uma figura inimitável e insubstituível da cultura dos últimos 50 anos.
Num registo urgente, quase em regime stream of consciousness, muitas vezes verboso, mas sempre exaltado e apaixonado, Paul Morley constrói a sua visão histórica de Bowie, explorando como o artista emergiu, criou, estruturou, exibiu as suas ideias e envelheceu, à medida que revolucionou a música popular e inventou o futuro, tornando-se, ainda em vida, um mito.
O livro percorre os momentos mais marcantes da vida e da carreira do Camaleão, com óbvio e interessante destaque para a década de 70, definitivamente a mais assombrosa e marcante do ponto de vista criativo, sendo cada ano objecto de inspirada e emotiva dissecação.
Da viagem pelas influências e colaborações ao culminar da sua própria influência, de Space Oddity a BlackstarThe Age of Bowie é uma obra escrita por um fã confesso, que poderia ser qualquer um de nós. Certamente cada um escreveria a história de tão enorme figura apelando maioritariamente às razões do coração que da mente. Paul Morley segue o mesmo caminho, mostrando como a descoberta de David Bowie mudou a sua vida, a inspirou, a moldou, voltando a mudá-la com a sua morte. Em suma, sente o que todos sentimos, e expressa-o à sua maneira. Este é o Bowie de Morley, único mas caleidoscópico, que nos lembrará sempre o nosso.

24 de novembro de 2018

From Russia With Love

Aquando da entrada da voz em Northern Seaside, é impossível não fantasiar que Ian Curtis está vivo. E que reuniu um grupo de músicos russos em Rostov-on-Don para perpetuar a sua melancolia cinzenta e crónica. Todavia, à medida que o tema se espraia, a voz é envolvida por uma candura instrumental, cuja luminosidade coloca o desespero em segundo plano e deixa-o à espreita no escuro, por uma porta entreaberta. A voz é de Vladislav Parshin, a banda dá pelo nome de Motorama e este é Alps, o seu primeiro longa-duração.
Editado em 2010, o álbum é uma curiosa e interessante manifestação da música actual feita na Rússia, sendo que, para ouvidos incautos, passaria bem por um produto artístico britânico ou norte-americano.
A influência dos Joy Division é mais que notória, nomeadamente ao nível da já referida voz, mas igualmente das estruturas rítmicas bateria-baixo, que invocam constantemente o apelo à dança maquinal e descarnada de Morris-Hook. Contudo, o duo de guitarras formado pelo igualmente vocalista Vladislav Parshin e por Maxim Polivanov transporta as composições além do negrume pessimista do post-punk - corrente musical que constitui a raíz da banda - e torna-as mais expansivas, algures entre os Interpol menos austeros e o neo-psicadelismo outonal dos Church da década de 80.
A prova deste chiaroscuro está patente nos dois melhores temas do disco. Warm Eyelids é irresistível, imbuído da adolescência em crise do melhor indie rock, trespassado por guitarras afiadas e certeiras, ritmo frenético e urgência romântica. Wind In Her Hair é uma brisa melancólica, conduzida por guitarras cristalinas e oníricas, como uns Byrds renascidos nas praias do Mar Negro.
O que fica dos restantes temas de Alps é um trabalho de uniforme consistência e extrema meticulosidade, onde as guitarras seduzem e as melodias arrebatam sem tréguas. Fica sempre a ideia que já ouvimos isto nalgum lado, do andamento agridoce do tema-título ao cativante embalo de Empty Bed. Porém, a frescura da entrega e a qualidade composicional fazem-nos sentir aconchegados como na chegada a uma casa que sempre conhecemos mas nunca visitámos. O imaginário dos Motorama é um filme a preto e branco com algumas cenas pintadas a cores. Impele-nos à dança, impele-nos à introspecção, impele-nos a ambas em simultâneo. Em 2018, assinaram o seu quinto álbum, Many Nights. A fórmula criativa tem sido mantida, sem grandes alterações a registar. Os Motorama não conquistarão o mundo, mas parecem contentes em conquistar os corações de eternos adolescentes, que vagueiam, melancólicos, debaixo do Sol.

10 de novembro de 2018

A Marca Amarela VIII


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No final da audição do álbum homónimo (e única obra gravada em estúdio) dos japoneses Shingetsu, é impossível não perguntar "porquê só isto?"
Este disco de 1979 constitui, não apenas uma das obras mais marcantes do rock progressivo nipónico, mas de todo o universo do género. Pese embora não enveredar pelos caminhos mais experimentais e vanguardistas dos Van der Graaf Generator ou dos King Crimson, o colectivo liderado pelo vocalista Makoto Kitayama, Shingetsu guarda um relicário de belas e transcendentes melodias, em constante estado de mutação. Mais próximo do apogeu criativo dos Genesis (não é à toa que Makoto Kitayama é alcunhado de Peter Gabriel japonês), o disco exibe igualmente um certo exotismo oriental barroco em termos instrumentais, que o afasta das convenções e o transforma num objecto singular e numa autêntica delícia para os ouvidos.
Oni e Return of the Night, peças que abrem e fecham o álbum - e que, em última instância, se complementam - são possuídas por uma complexa e cristalina melancolia, acentuada pela voz etérea de Makoto Kitayama. A primeira é a verdadeira obra-prima e trave-mestra de Shingetsu, espraiando-se ao longo de quase dez minutos como uma onda de luz e sombras num intermitente e deleitoso duelo entre a guitarra sinuosa de Harukiko Tsuda e as teclas assertivas de Akira Hanamoto. Uma viagem levitante e cósmica, tão envolvente quanto estimulante, e que, sabiamente, é recuperada no final do disco para encerrar um círculo perfeito com uma guitarra em estado de graça.
The Other Side of Morning poderia ter sido um single arrojado, uma canção magnífica, que, mesmo sem refrão, emana luminosidade da sua doce melodia folk e da vocalização perfeita, como um lento nascer do Sol, cujo calor nos persegue o corpo à medida que cresce no céu. Influential Street inflecte igualmente por territórios mais exuberantes e harmoniosos, num cativante exercício que poderia ser apelidado glam prog.
A estética mais elaborada retorna em Afternoon (After the Rain), que acrescenta um oportuno saxofone à excelente base melódica, e prolonga-se em Fragments of the Dawn, peça de toada mais contemplativa, mas movida pela incessante criatividade e mestria instrumental da banda.
Após um breve e estranhamente ominoso interlúdio intitulado Freeze, surge Night Collector, que carrega no acelerador do rock sem nunca abandonar a estrada meândrica do prog, debitando inflexões rítmicas e melódicas com assombrosa destreza.
Em português, Shingetsu significa lua nova. A fase em que a Lua se encontra entre a Terra e o Sol. Não é visível a olho nú, mas sabemos que lá está. É igualmente bom saber que, não obstante os Shingetsu já não existirem, este belíssimo legado continua ao nosso alcance, para perpétuo encanto e deleite.

28 de dezembro de 2017

2017: A Soundtrack

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Mais um ano que termina, mais uma volta na Geringonça, que sacou da cartola um presidente do Eurogrupo. Num país ardido e traumatizado, valeu a chama imensa do Sport Lisboa e Benfica, que conquistou um inédito tetracampeonato. Lá fora, nostalgias da Guerra Fria no Paralelo 38 e um presidente norte-americano cujo cabelo muda de cor. Uma mistura que não augura nada de bom.
A música, essa, foi sempre a mesma. Mas também foi outra. Os LCD Soundsystem causaram polémica com um regresso prematuro, mas provaram que James Murphy nunca devia ter desistido da ideia. American Dream é a prova concludente que o projecto nova-iorquino continua a ser uma das máquinas musicais mais interessantes, pertinentes e influentes do século XXI. De saudar igualmente o regresso em belíssima forma dos seminais Slowdive, cujo álbum homónimo constituiu uma das surpresas mais sólidas e agradáveis do ano discográfico. Os National deram um golpe de rins e lançaram-se a mares nunca dantes navegados. O sétimo álbum do grupo é a mais exigente e experimental das suas obras, mas igualmente a mais entranhável e recompensadora. Björk continua a produzir sons que não parecem ser deste mundo, motivo pelo qual os nossos corações devem regozijar-se. Kendrick Lamar assinou um dos melhores discos de Rap que há memória, um trabalho assombroso, ao qual é impossível ficar indiferente e que torna o género ainda mais transversal.
2017 foi, assim, um ano de muita, variada e inspirada oferta musical. A lista que se segue foi a que mais me acompanhou e inspirou.



1. LCD Soundsystem - American Dream

2. The National - Sleep Well Beast

3. Kendrick Lamar - DAMN.

4. The War on Drugs - A Deeper Understanding

5. Slowdive - Slowdive

6. Mount Eerie - A Crow Looked At Me

7. St. Vincent - Masseduction

8. Björk - Utopia

9. Lorde - Melodrama

10. SZA - CTRL
  
11. Fever Ray - Plunge
       
12. Arca - Arca

13. Jlin - Black Origami

14. Perfume Genius - No Shape

15. Father John Misty - Pure Comedy

16. Richard Dawson - Peasant

17. Kelela - Take Me Apart

18. Vince Staples - Big Fish Theory

19. King Krule - The OOZ

20. Thundercat - Drunk

21. Brand New - Science Fiction

22. Cigarettes After Sex - Cigarettes After Sex

23. The Magnetic Fields - 50 Song Memoir

24. Sampha - Process

25. Ibeyi - Ash

26. Big Thief - Capacity

27. Moses Sumney - Aromanticism

28. Chino Amobi - Paradiso

29. Juana Molina - Halo

30. The XX - I See You

31. Kaitlyn Aurelia Smith - The Kid

32. Protomartyr - Relatives In Descent

33. Actress - AZD

34. Jane Weaver - Modern Kosmology

35. Robert Plant - Carry Fire

36. Laurel Halo - Dust

37. Fleet Foxes - Crack-Up

38. Alvvays - Antisocialites

39. Queens of the Stone Age - Villains

40. Do Make Say Think - Stubborn Persistent Illusions

41. Circuit des Yeux - Reaching For Indigo

42. Laura Marling - Semper Femina

43. Grizzly Bear - Painted Ruins
   
44. Ariel Pink - Dedicated To Bobby Jameson

45. Four Tet - New Energy

46. Wolf Alice - Visions Of A Life     
    
47. Sharon Jones & The Dap-Kings - Soul Of A Woman   
       
48. Andrew Weatherall - Qualia

49. Arcade Fire  - Everything Now
      
50. The Weather Station - The Weather Station

24 de dezembro de 2017

Lone Folk


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F.J. McMahon (O é de Fred) editou apenas um álbum durante a sua breve carreira. Um disco com menos de 30 minutos de duração, gravado em apenas 36 horas, mas que se tornou uma pérola obscura da folk moderna norte-americana.
Spirit of the Golden Juice foi composto e editado em 1969, na ressaca da experiência de McMahon na guerra do Vietname. Pese embora ser uma primeira obra, o disco revela uma maturidade criativa e uma profundidade lírica cuja ressonância se mantém intacta e capaz de afectar os corações mais empedrenidos.
São, sobretudo, canções de guerra e canções de amor. Do que foi visto e sentido em terras do Oriente, do regresso a casa, do fim dos idealismos da juventude, de forçados recomeços.
A omnipresente guitarra acústica do cantor é maioritariamente acompanhada por um baixo e uma bateria, esparsos e discretos, deixando os temas fluir numa cadência constante e dolente, envolvente mas não soporífera. Tendo em conta as vivências de F.J. McMahon, não é de estranhar o apelo e o desejo de paz que transpira do primeiro tema, Sister, Brother e que nos conquista de imediato pela bela melodia e a sinceridade da entrega.
Seguem-se mais oito canções, pungentes e superlativas na sua qualidade e simplicidade. Por vezes McMahon remete-nos para um Nick Drake nascido na Califórnia, para as ruminações solitárias de Fred Neil, ou para um Arthur Lee em regime ascético. Todavia, as suas composições são únicas e possuem um crivo de experiência pessoal que as torna realmente genuínas.
É difícil destacar algum tema em particular ao longo da audição de Spirit of the Golden Juice, sendo que todos eles reflectem experiências profundamente pessoais. O belíssimo Early Blue entranha-se imediato, na sua cálida e luminosa melancolia. A poética Black Night Woman conta a história de um amor impossível em tempo de guerra. A poeirenta The Road Back Home remete-nos para o contraste entre a imensidão solitária do deserto e a alienação de cidades hiperpopuladas. O tema-título inspira-se no bourbon bebido pelos soldados no Vietname para relatar o ambiente alucinado vivido na iminência da ameaça constante.
Ao contrário do que McMahon esperava, apesar do louvor da crítica, Spirit of the Golden Juice não teve o sucesso comercial esperado. Tal desapontamento, associado à mudança do paradigma musical no início dos anos 70, levou a que o cantor abandonasse a sua musa em definitivo. Nas palavras do próprio, glitter glam rock came in and I'm looking at this on TV thinking, uh I think my time is done.
É impossível não ficar algo sedento face ao que F.J. McMahon poderia ter continuado a criar musicalmente. A sua única obra deixa intuir que muito ficou por cantar, ao mesmo tempo que o consagra com um dos artistas de culto mais notórios da sua era.

23 de dezembro de 2017

Kosmische Kosmetik LII


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Em 1976, o krautrock evidenciava um declínio no seu florescimento. A maior parte dos nomes que catapultaram o estilo para o seu acme criativo encontravam-se extintos ou atravessavam fases de menor lampejo artístico e inspiração.
Todavia, à margem dos nomes que ajudaram à expansão da vertente mais vanguardista e arrojada do rock alemão, certos grupos e individualidades entendiam ter ainda algo a acrescentar a um lote artístico já digno de destaque na música mais original e influente do século XX.
Günter Schickert, Axel Struck e Michael Leske eram três desses idealistas/inconformados, que decidiram reavivar a velha chama e continuar a espalhar brasas pela música germânica. Com a inicial de cada um dos seus nomes selaram o projecto que os tornou num dos mais radicais nomes de culto do género: GAM.
O primeiro dos dois álbuns editados pelo grupo - simplesmente intitulado 1976 - é uma obra endiabrada e extrema. Criada a partir de três improvisações em estúdio, consegue ir mais além das excursões lisérgicas, espaciais e hipnóticas encetadas por Ash Ra Tempel ou Guru Guru, a título de exemplo.
O primeiro tema, GAM Jam, abate-se sobre o ouvinte como uma borrasca sem tréguas, arrastando-o para a dimensão paralela onde se desenrola, sem esperanças de regresso. Seja qual for a substância que inspirou o trio, a qualidade não deixa margem para dúvidas...
Apricot Brandy deixa para trás a toada ciclónica e deambula por caminhos sombrios e labirínticos. O ritmo é opressivo, a guitarra tensa, a voz paranóica. A produção rude e artesanal torna o tema ainda mais agressivo, mas há algo que nos puxa e nos impele a continuar a desbravar estas cavernosas galerias.
Für Elise und Alice é a queda final no abismo demencial que se escancarou perante nós logo ao princípio. O que começa por ser uma desconstrução perversa da clássica peça para piano de Beethoven evolui para um devaneio rock fora de órbita que os Cosmic Jokers não desdenhariam. Fustigante e fascinante, a peça apodera-se do ouvinte sem misericórdia e o som crú e pouco polido acentua a veracidade e a intencionalidade do monstro que se faz ouvir.
1976 não é um disco exemplificativo do lado mais congregacional do krautrock, nem sequer da qualidade técnica ou melódica da música germânica. É preferível assumi-lo e consumi-lo como um retorno ao seu inconsciente primordial, pagão e puro. 


Kosmische Kosmetik LI

Image result for grobschnitt rockpommel's landRockpommel's Land será, muito provavelmente, o ponto de total convergência entre o comummente denominado krautrock e o rock progressivo. O quarto álbum dos Grobschnitt, editado em 1977, depura liminarmente o estilo musical que o colectivo alemão abraçou desde o início, inflectindo para uma riqueza de formas e arranjos que o tornou um caso sério de culto para os amantes dos desvios mais sinfónicos e utópicos do rock.
O disco padece de uma temática pontualmente transversal às obras do género: o álbum conceptual. Narrativas carregadas de momentos épicos e idealistas, fora da realidade ou demasiado absurdos para serem levados a sério. Nesse aspecto, Rockpommel's Land  não constitui excepção. Senão, vejamos a história que encerra: Um rapaz, chamado Ernie, sedento de fantasia, estabelece amizade com um ser alado gigante chamado Maraboo, e ambos partem numa jornada conjunta que os fará conhecer o Bem e o Mal. Tolkien sorri, Pratchett cofia a barba, mas o melómano franze o sobrolho com desconfiança. Porém, pode ficar descansado. Por mais estapafúrdia que a narrativa seja, a música que lhe serve de base é algo que roça o sublime. E ainda bem, pois é isso que perdura.
Ernie's Rise, tema que principia o disco, fá-lo sem piedade. Na sua melodia luminescente, algures entre Mike Oldfield e os Yes mais dinâmicos, as magistrais variações dos cinco primeiros minutos do tema conseguem arrebatar o ouvinte mais aguerrido. Os restantes cinco fundamentam o postulado.
Severity Town arranca em toada infanto-juvenil, cristalina e bucólica, enveredando aos poucos por uma complexidade assertiva que não lhe retira qualquer graça ou poder. Anywhere é uma balada pastoral e orvalhada, que nos fecha na sua ostra solicitando recolhimento e oferecendo refrigério a meio da jornada.
Rockpommel's Land, a canção, fecha a edição original do disco e constitui, certamente, o seu ponto alto. Ao longo dos seus vinte minutos de duração, o tema consegue manter viva a chama artística, imiscuindo-se por diversas variações sem nunca perder o azimute. Os minutos finais são verdadeiramente espantosos, com a progressiva implosão da energia a dar lugar a uma longa, crepuscular e arrebatadora coda.
Rockpommel's Land tem sido alvo de várias reedições ao longo dos anos, mas merece especial destaque a ocorrida em 1998, especialmente pela faixa extra que encerra. Trata-se de Tontillon, um belíssimo e envolvente tema instrumental, que aparenta ser o prolongamento de um excerto de Ernie's Rise, mas que ganha vida própria e uma gravitas que chega a ser terapêutica. Excelsa é a  prestação do baterista Joachim Ehrig, que recuperou esta peça no seu terceiro trabalho a solo e já sob o pseudónimo Eroc.
Ao longo da sua carreira, os Grobschnitt sempre se pautaram pela liberdade criativa e uma certa forma humorística de abordar a música. Assim sendo, fica sempre no ar a dúvida se os devaneios estilísticos de Rockpommel's Land  deverão ser levados excessivamente a sério ou se constituem apenas mais um tentáculo criativo da banda germânica. Seja como for, enquanto testamento das suas capacidades composicionais e interpretativas, este continua a ser o seu porta-estandarte.

Das Sombras

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IN-SHADOW: A Modern Odyssey é uma curta metragem de animação desenvolvida e realizada por Lubomir Arsov e que pretende transportar o espectador através do inconsciente fragmentado do mundo ocidental.
Pleno de sátira, humor negro e referências jungianas, o filme pinta um quadro negro e perturbador das sociedades do mundo civilizado, desconstruindo o capitalismo e desmascarando as falsas percepções de quem habita a sua realidade, cultivadas via panis et circenses, materialismo e competição amoral.
Obra de enorme pertinência e clarividência na área dos filmes activistas, IN-SHADOW exige visionamento obrigatório e obrigatória divulgação. 



   

Kosmische Kosmetik L

Image result for michael bundt neonA capa de Neon, segundo álbum do alemão Michael Bundt é, literalmente, de fugir. Algures entre o futurismo kitsch e o erotismo azeiteiro, o invólucro da obra não deixa antever bons augúrios para a música que encerra. Quem o levou para casa de forma incauta e sem pré-aviso no ano de 1979, esperando uma soul máscula a la Tom Jones ou uma histérica dose de hard rock, viu certamente os seus intentos defraudados.
A capa de Neon é, efetivamente, o pior elemento do disco, que constitui uma peça curiosa e de elevado interesse arqueológico no que toca à era dourada da música electrónica em geral e germânica em particular. O que está lá dentro poderia funcionar perfeitamente como banda-sonora para um Blade Runner dirigido por Russ Meyer. Música nocturna e lânguida, urbana e lasciva, rítmica mas pouco convidativa à dança, preferindo abrir caminhos para a imaginação e a introspecção. O tema-título é disso prova, abrindo o álbum de forma panorâmica, porém minimalista, com a sua melodia expansiva a penetrar lentamente cada poro auditivo. Michael Bundt leva a cabo uma récita sobre as luzes da cidade, a sua frieza, o seu fascínio, os vícios que disfarçam. A entrega lembra John Cale. O que é sempre bom. Flashes de guitarra eléctrica e saxofone invadem a camada minimal do tema, como interlúdios luminosos sobre a toada penumbrenta.
O registo dolente e sombrio prossegue com This Beautiful Ray Gun, modulado por trechos que parecem saídos de um qualquer lobby de hotel de terceira  categoria. Future Street No. 7 assemelha-se a um funk em câmara lenta, esquelético e frio na camada electrónica que o cobre, mas envolvente na rendição vocal de Bundt. Em conjunto com o tema-título é a peça que mais aguentou a erosão do tempo, mantendo intacta a sua traça futurista.
Flying in a Thunderstorm soa quase a elegia, exalando uma inesperada e plástica melancolia. A atmosfera glacial é somente interrompida por intermitentes arpejos de teclas e flauta, que acabam por carregar o tema até à sua conclusão. Death of a Friend é uma estranha e tétrica catarse, assente em guitarra e piano rotativos, que coloca Michael Bundt novamente em plano recitativo e parece saída de um conto de Edgar Allan Poe. Pelo meio ficam dois exercícios de menor intensidade, mas que contribuem igualmente para a coesa desconexão de Neon: o movimento em suspensão de Welcome the Astral Dancer e Midnight Orange Juice, breve exercício de electrónica cósmica vergastada por guitarra. Em suma, um curioso artefacto musical, que merece estima e contida devoção.


3 de dezembro de 2017

Improvisos Elementares

Image result for third ear band 1970Os Third Ear Band foram um colectivo britânico, formado em Londres em meados dos anos 60, imbuído de elevar a música popular a mais altas esferas. Com muito pouco de convencional no que toca à abordagem composicional e à paleta de instrumentos escolhida, o grupo acabou por granjear relativo sucesso à sua época, muito graças ao regime flower power vigente e ao pleno franqueio de portas a todas as abordagens e liberdades musicais.
Longe das fronteiras demarcadas pelo rock, os elementos dos Third Ear Band reclamaram como influências sonoridades oriundas da música indiana, do experimentalismo e da folk mais arcaica.
Se o primeiro álbum da banda - Alchemy, de 1969, que contou com a participação do lendário John Peel - foi uma inovadora pedrada no charco musical do seu período, o seu sucessor consolidou-a como pilar definitivo na vanguarda sonora inglesa.
Editado em 1970, Third Ear Band tornou-se conhecido mais prosaicamente como Elements. A temática é conceptual e centra-se nos quatro elementos terrestres Ar, Terra, Fogo e Água. Os instrumentos que a animam envolvem apenas violino, violoncelo, viola, oboé e percussão. Tudo parece intuir que nos dirigimos de forma incauta para a new age mais pedante e anódina, mas felizmente a obra prova o contrário, mantendo ao longo das suas quatro peças a notável capacidade de abraçar e arrastar o ouvinte na sua cadência hipnótica, contudo sem nunca descurar um núcleo ardente e orgânico, que torna a experiência tão física como espiritual.
Air principia com um sopro forte, que estende a passadeira ao oboé de Paul Minns e ao violino de Ursula Smith, suspensos como folhas ao vento e aguardadas no solo por um ritmo circular, leve mas insistente.
Earth avança pelas sombras de uma dança medieval, lentamente ao princípio, depois num crescendo que a transporta para territórios do folclore balcânico. Um casamento belo e encantatório, que termina tão fugazmente como começou.
Fire surge envolta na transcendência de uma raga indiana, exalando exoticismo em elevadas doses psicadélicas. É a peça mais densa do álbum, mesmérica e penetrante, um convite ao abandono meditativo pelos confins da nossa mente.
Ao tema mais incandescente, segue-se o mais cristalino. Water constitui o culminar beatífico do disco, espargindo uma doce e envolvente melodia que nos transporta para o embalo de ondas marinhas.
Pese embora Third Ear Band entroncar plenamente no zeitgeist que lhe trouxe inspiração e vida, o lirismo musical que guarda continua a ser deveras intemporal e imensamente cativante. Após a sua edição, o grupo enveredou pela feitura de música para filmes e, entre aparições esporádicas e desaparições espontâneas, cessou oficialmente actividades em 1993. Além de irrepetível na história da Third Ear Band, a sua segunda obra merece justamente figurar no panteão dos discos mais singularmente belos e inovadores da sua era.

1 de dezembro de 2017

Aqui d'El Jazz

Related imageO flautista e compositor Bob Downes assumiu-se como uma das figuras mais criativas e inovadoras da cena jazz britânica, projectando a sua sombra numa miríade de contribuições em variados estilos contaminados por este género, que vão da música clássica contemporânea ao rock e à livre improvisação.
O artista de Plymouth foi um dos nomes sonantes e indissociáveis da revolução jazzística ocorrida na Europa nos finais dos anos 60 e que emancipou em definitivo o Velho Continente de décadas de influência e domínio norte-americanos.
Bob Downes participou como músico de estúdio em inúmeras obras seminais gravadas durante esse período dourado. As suas actividades foram, amiúde, executadas sob a égide da baptizada  Open Music, entidade transmutável de trio a big band e que, como a denominação sugere, se encontrava livre de quaisquer restrições ou amarras estilísticas.
Após gravar algumas obras para editoras mais voltadas para o mainstream, Downes arriscou a criação da sua própria editora, chamada Openian Records, na qual principiou o lançamento dos seus projectos, sendo um dos primeiros músicos deste período a avançar com tal empreitada. O álbum de 1970 intitulado Electric City, trabalho curioso, bizarro e, a espaços, genial, apresenta o compositor como um artífice do jazz rock, criando peças curtas, carregadas de energia e ornadas por arranjos intrincados.
A lista dos músicos participantes neste festim é capaz de fazer salivar os amantes do género à época, apresentando sumidades como os trompetistas Ian Carr e Kenny Wheeler, o baixista Harry Miller e o prodigioso guitarrista Chris Spedding. A música é constantemente brilhante e cativante, sugerindo um bulício urbano e nocturno, e as performances virtuosas constituem amplas expressões das várias correntes sonoras que circulam sem restrições pelo disco. Grooves rechonchudos como Crush Hour, inflexões abrasivas pelo rhythm'n'blues como Walking e frescos cinemáticos como o fantástico Dawn Until Dawn são exemplos flagrantes da versatilidade e ecletismo de Electric City. O ritmo quente e propulsante de  Keep of the Glass não destoaria de uma película blaxploitation. Gonna Take a Journey termina o álbum atirando todos os elementos para um caldeirão, enaltecendo um fundo free jazz sem freios com motivos vocais - coisa rara e estranha neste tipo de obras.
Bob Downes continuaria a criar música interessante e continuamente diferente, mas nunca nada similar a esta pérola frenética, a qual continua a ser uma porta de entrada perfeita para o seu mundo singular e um pequeno objecto sónico não-identificado no jazz disruptivo que despontou na Inglaterra e na Europa nas décadas de 60 e 70.