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26 de julho de 2009

Kosmische Kosmetik VII

O segundo álbum dos Agitation Free, editado em 1973, e simplesmente intitulado 2nd, é um prodígio na classe do Krautrock mais ambiental e atmosférico. Obra construída, maioritariamente, em torno das guitarras vagueantes e transcendentes dos grandes Lutz Ulbrich e Stefan Diez, 2nd é um disco luxuriante, esmagadoramente instrumental e onde as melodias cálidas e planantes se congregam a momentos de improvisação que convidam ao abandono e induzem um estado de relaxamento deveras prazenteiro. A bruma que inicia First Communication dissipa-se aos poucos, com a suave invasão das guitarras. Primeiro, o tímido dedilhar de Lutz Ulbrich, depois, o eco divino do mago Diez, num transe crescente, virtuoso mas libertador. Os restantes membros da banda fazem o que lhes compete, sustendo a morna quietude até aos momentos finais, em que um súbito mas suave ataque rítmico engole o tema num estertor quase orgásmico. Dialogue & Random é interlúdio experimental, com ecos de música concreta, que lança chispas de Stockhausen durante a sua breve duração, até que um golpe de piano a silencia. Surge a curta mas sublime primeira parte de Laila, onde, após a excelente introdução do baixista Michael Günter, Stefan Diez se excede novamente pela positiva na forma como consegue com que a sua guitarra envolva num ciclone de prazer quem a ouve. Mas nada como o genial Laila, Part 2 para destacar o talento excepcional deste quinteto berlinense. Sobre uma base rítmica jazzística, vai sendo colorido um quadro melódico improvisado que culmina numa gloriosa pincelada de guitarras que tem de ser ouvida para se acreditar nela. Belíssimo tema do princípio ao fim, a guitarra mais trippy que nunca de Stefan Diez é capaz de dar vida a um morto.
In The Silence Of The Morning Sunrise, que principia com o canto de pássaros, atenua a ambiência, muito graças ao superlativo desempenho de Michael Hoenig nas teclas que acompanham as seis cordas, o que confere ao tema uma brisa pastoral e estival muito remanescente da onda west coast americana. Escutar este tema é como vaguear por um bosque numa manhã de Verão, onde a sombra revigora e o Sol surge, a espaços, por entre a viçosa folhagem das árvores. Esta vertente prolonga-se por A Quiet Walk, 9 minutos deambulantes por veredas electrónicas e planícies intercortadas pela singular sonoridade do bouzouki de Lutz Ulbrich. O instrumento grego inflecte algo de mediterrânico na música, a proximidade do mar, o aroma do restolho...
A terminar, o único tema vocalizado do disco. Numa atmosfera assombrada e onírica, ácida até à medula, Burghard Rausch recita Dreamland, poema de Edgar Allan Poe, como se o fizesse dentro de um escafandro dos inícios do século XX. Alimentada a mellotron, esta peça é nada menos que penetrante, possuíndo o condão de deixar vidrado e perdido nesta terra de sonho o feliz ouvinte que a procura. Densa e acessível em simultâneo, esta música é um panegírico para a alma. Em 2nd dos Agitation Free encontra-se mais um excelente álbum dos anos 70, Krautrock possuído por espíritos jazzísticos, brisas west coast e alguns pozinhos de progressivo que não matam nem moem. Imprescindível e muito aconselhável para quem, como eu, sofre de uma paixão assolapada pela Costa Vicentina. É banda-sonora perfeita para conduzir pelas estradas rodeadas de campo avermelhado pelo Sol e experienciar as praias semi-desertas daquele paraíso. Pelo que tenho oportunidade de experienciar naquelas paragens, muitos alemães sentirão o mesmo.

25 de julho de 2009

Kosmische Kosmetik VI

Pouco se sabe dos obscuros Gäa (leia-se Gaia, a deusa da mitologia grega que simboliza a Terra). Mas muito esta banda nos legou no seu primeiro e único álbum, o magnífico Auf Der Bahn Zum Uranus. Na vertente do krautrock mais underground e psicadélico, o disco solitário deste agrupamento oriundo da pequena cidade de Saarland é um marco solidamente cravado no rock alemão dos anos 70. Logo a abrir, o solene e fortíssimo Uranus, é um misto de torpor e estranheza, onde o espírito dos omnipresentes Pink Floyd (uma das maiores influências das bandas desta altura) se junta à melancólica austeridade germânica para nos deixar boquiabertos. Após os minutos iniciais, em que uma voz ecoando de um qualquer cockpit de foguetão ricamente decorado para um filme de ficção científica dos anos 50 nos anuncia que entrámos na estrada para Urano, a trip inicia-se. As coordenadas parecem ser dadas de fora para dentro, à medida que o ritmo pulsante e a voz ecoante de Werner Frey nos afogam numa atmosfera sombria e fumarenta. Uma paragem abrupta faz entrar um interlúdio de órgão magistral, ao qual se junta um coro fantasmagórico e distante, que vagueia compassada e deliciosamente, sem noção do tempo, por entre um rítmo incorpóreo, até à regressão da espiral. A guitarra em profunda distorção Hendrixiana e o eco semi-operático da voz afectada precipitam-se sobre nós novamente, terminando o tema em reticências... Segue-se a entrada de inflexões flamencas de Bossa Rustical, que abre as portas a um tema de ritmo quente, quase latino, envolvente e contagiante, especialmente pela fabulosa e virtuosa guitarra de Helmut Heisel. O ambiente enegrece ligeiramente com a toada dolente da bela Tanz mit dem Mond. Melodia espectral e nocturna, mantém a austeridade teutónica da voz associada a um piano jazzístico mas sóbrio, até que surge a primeira vaga explosiva de guitarra, inundando o castelo de areia em construção. Um regresso ao zero, para a música começar dos alicerces, encetar o lento caminho antes traçado e terminar uma vez mais sob a onda eléctrica da guitarra inquieta. Mutter Erde, a próxima canção, igualmente fabulosa, transpira um rock enérgico e extasiado por todos os poros, intercortado com quebras rítmicas para deixar escorrer o suor. Música quente, ao rubro, sem rodriguinhos, que pode comparar-se aos Led Zeppelin ou aos Deep Purple dos primórdios. Segue-se o suave psicadelismo temperado com blues de Welt Im Dunkel. Uma vocalização com inflexões estranhamente Bowiescas assombra o tema, escuro e ébrio, em lenta combustão como papel de fumar. Perto do fim, há uma luz que se acende, distante, mas suficiente para nos despertar do seu embalo quase opiáceo. O álbum chega ao fim com Gäa, mais uma dissertação em torno do blues-rock de flores no cabelo. Guitarra inebriante, laivos contemplativos de flauta e um pouco de scat singing a cozinhar em lume brando durante 7:30 minutos. Não vale a pena falar muito. Pensar, muito menos. Esta fase do álbum é somente para sentir. E quem já estiver embrenhado nestas curvas e contracurvas a caminho de Urano, sentirá nada menos que um prazer imenso, um prazer nostálgico e naïf, do tempo em que hippies como estes alemães acreditavam mesmo na música que faziam transbordar.

6 de julho de 2009

Kosmische Kosmetik V

Green Desert é o elo perdido entre Atem e o seminal Phaedra, dois clássicos na imensa discografia dos reis da electrónica cósmica, Tangerine Dream. Gravado em 1973, Green Desert somente viu a luz do dia em 1986. Não sabemos o quanto a edição final difere da gravação original, mas as 4 faixas deste álbum perdido durante mais de uma década oferecem-nos Tangerine Dream da melhor safra, como se de um disco de ficção científica se tratasse.
Green Desert arranca com o tema homónimo, 5 minutos iniciais de projecção sintetizada no espaço glaciar até à entrada dos restantes instrumentos. A guitarra planante de Edgar Froese e a bateria lenta, circular de Chris Franke fazem-nos viajar pela escuridão de galáxias distantes, desoladas mas coloridas, disformes mas pulsantes. A viagem parece durar uma eternidade, com o insistente vórtice rítmico a exigir de nós um quase torpor e abandono, como se fôssemos satélites a girar em torno da música que fustiga como vento sideral. Já totalmente em órbita após estes 20 minutos fora da Terra, a sensação de fuga prossegue com o magistral White Clouds. Tangerine Dream no seu mais clássico e frio, o tema vagueia por entre a invernal e majestosa melodia do sintetizador de Froese e a cadência maquinal da bateria de Franke, para nos transportar a um mundo de gelo, desolado e inóspito, mas deslumbrante na sua beleza estéril. Astral Voyager é dominada por um sequenciador minimal, daqueles que anteciparam a trance music em 20 anos, e embrulhada em sintetizadores que bafejam poeira estelar. Mais uma volta no carrossel cósmico, imenso e infinito, sinalizado por corpos celestes que, aqui e ali, interrompem a constante do breu. O périplo termina com Indian Summer e a sua electrónica espaçada e flutuante. Peça simples, é atravessada por uma sensação de deslumbramento e procura interior perante o Universo que nos transcende, mas de cuja matéria somos igualmente feitos. Um convite à meditação, envolvente mas não soporífero, que encerra o disco de forma morna e apaziguadora. Como se depois da tempestade viesse sempre a bonança. Como se, à escuridão vazia do espaço, se sucedesse a luz de um mundo paradisíaco, deserto e verde. Para começar de novo.
Green Desert não é o melhor álbum dos Tangerine Dream, mas é uma obra fundamental para adicionar aos anos de ouro e mais vanguardistas da banda, entre a flamejante electrónica experimental de 1969 e as texturas mais formais e melódicas de 1983.

5 de julho de 2009

Kosmische Kosmetik IV

Obscuro cigano suíço, de aparência Rasputinesca e especialista em Tarologia, Walter Wegmüller foi capturado pelo lendário manager da Ohr Records Ralf-Ulrich Kaiser com o intuito de produzir um álbum ao qual a sua peculiar personagem daria voz. Corria o ano de 1972. Wegmüller produzia, desde finais dos anos 60, um baralho de cartas de Tarot pintado à mão e que deu o mote para o longa-duração submetido a essa temática. Tarot: Obra em que cada peça é inspirada e dedicada a uma das cartas do baralho místico. Acompanhado pela crème de la crème dos anos dourados e gloriosos do krautrock, Walter Wegmüller assina aquele que é, provavelmente, o melhor álbum de sempre deste estilo musical. Antes dele, nada desta envergadura tinha sido criado pelas hostes teutónicas e, depois dele, nada idêntico foi conseguido. Disco irrepetível, é um labirinto de delícias para quem nele se perde. Quem nele entrar, nunca mais será o mesmo. Se existe esoterismo na música rock, Tarot será o seu expoente máximo. Ao mesmo tempo malévolo e benfazejo, beatífico e aterrador, este álbum é génio puro do princípio ao fim. Seis músicos numa demonstração superlativa dos seus talentos e um cigano suíço a declamar / sussurrar / profetizar / amaldiçoar / abençoar por cima deles é algo de absolutamente inesquecível e, acima de tudo, intocável.
A montanha russa começa com Der Narr, o louco, a carta sem nome, a faixa 0 em que todos os intervenientes são apresentados, como se o que nos aguardasse fosse um espectáculo de music hall a ter lugar no Congresso de Vilar de Perdizes. Em breves e sincopadas investidas, cada um dos músicos se apresenta. No final, ao chegar a vez de Wegmüller, o mesmo tosse e fala por cima dos estranhos efeitos que irão distorcer a sua voz ao longo do álbum. Um pouco de humor germânico, à laia de preparação para a massiva experiência que se segue. E ela começa com Der Magier, a primeira carta. O mago, que desvenda o oculto, que brinca com a Natureza e que flutua no vácuo sintetizado de Klaus Schulze. O ritmo e os relâmpagos electrónicos confundem e agitam e o feitiço invade-nos. Entra em cena Die Hohepriesterin, a sacerdotisa, convidando a um transe meditativo, que nos envolve como um círculo de velas acesas na maior das escuridões. Wegmüller é hipnótico e o ambiente entorpece. Fazemos já parte da cerimónia, solene e arcana, maior que nós. Segue-se Die Herrscherrin, a imperatriz, ritmo circular, levemente tribal e melodia dolente. O transe acentua-se e os rasgos de electrónica assemelham-se a vibrantes raios de luz. O esoterismo encarna no rock duro de Der Herrscher, o imperador. As guitarras de Manuel Göttsching e Hartmut Enke traçam solos e ritmos em paralelo com a voz xamânica, fumarenta e carregada de efeitos do cigano suíço. Quem precisa de substâncias ilícitas com músicas como esta?...
A carta seguinte representa o hierofante, Der Hohepriester. Lindíssimo tema, de toada folk, onírico e etéreo na forma como conjuga de forma sublime piano, guitarra acústica e flauta. Wegmüller apenas sussurra, e mais não é necessário, pois a beleza pastoral e inocente deste tema dispensa palavras. Contemplativa e luminosa ao mesmo tempo, a música parece levitar em torno do amor platónico ideal ou da união mística com a divindade. Verdadeiro alimento para o espírito... Die Entscheidung, os enamorados, é um pequeno idílio em que o suave piano eléctrico de Jürgen Dollase é sucessivamente contaminado pelos estertores electrónicos de Klaus Schulze e pelos mantras em surdina de Wegmüller. Der Wagen faz entrar novamente o ritmo, cadente e primário da bateria de Harald Grosskopf, que colide com as electrónicas endiabradas de Schulze e a vocalização grave mas possessa de Wegmüller, num dos momentos mais escuros do álbum. A toada negra prossegue com a chegada de Die Gerechtigkeit, a justiça. Sente-se o martelar funesto e inexorável da condenação, a voz afectada do veredicto e da separação.
Der Weise, o eremita, torna a caminhos de maior beatitude, e a voz de Wegmüller encontra-se agora despojada de efeitos. Como se a harmonia se encontrasse melhor na solidão, na retirada de máscaras e artifícios. A melodia deixa a luz passar novamente, uma luz estranha, que parece tocar a alma, mas não o corpo.
Se, ao longo deste disco, se vislumbram lampejos ácidos, nada como Das Glücksrad para o comprovar. A abordagem da carta dedicada à roda da fortuna é feita de forma assumidamente psicadélica, uma trip fantasiosa por terrenos inóspitos, reminiscências infantis e labirintos de espelhos. A sorte e os seus caprichos, tomando forma numa melodia cristalina, mas ansiogénica. Die Kraft é quase funk, com o baixo em regime groove de Jerry Berkers a ditar o ritmo e a inundar o corpo de energia, da força que diz respeito à carta em epígrafe. Quase se pode dançar, desastrada porque humanamente, ao som deste germanismo africanizado, que encerra o primeiro disco de Tarot.
A segunda parte do álbum abre na mesma toada acentuadamente rítmica com Die Prüfung, o enforcado. Parece estarmos em plena noite africana, deserta e imensa, em plena cerimónia tribal, e Walter Wegmüller é novamente o bruxo de negro, de rosto vermelho perante a fogueira. Sente-se a iminência do sacrifício. Der Tod, a morte, o arcano sem nome, é um sopro fantasmagórico de electrónica, inominável e indescritível, um pedaço de nada. Die Massigkeit, a temperança, centra-se numa guitarra em contínuos estertores improvisados, como que à procura de equilíbrio, à qual se sobrepõe a voz de Wegmüller no seu paganismo mais afectado. No magnífico Der Teufel, o suiço sopra-nos ao ouvido sobre a guitarra quase flamenca de Manuel Göttsching e a flauta de Walter Westrupp como se do próprio Lúcifer se tratasse. Tema absolutamente genial, parece apresentar o Diabo não como fonte do mal, mas como algo que surge do lugar mais recôndito para seduzir e mostrar o que está oculto, o que é carnal e instintivo. Sentimo-nos transportados para bosques de árvores muito antigas, em dias cinzentos, receosos, mas ao mesmo tempo curiosos pelo que se encontrará escondido em sítios onde ninguém deveria ir. Esta peça assemelha-se a entrar numa casa velha, vazia e escura, iluminada apenas por luzes bruxuleantes, mas onde não sentimos medo de estar. Onde há algo a conhecer que mais ninguém sabe...
Outra melodia belíssima surge com Die Zerstörung. A torre é dominada pelo piano doce mas firme, em contínua espiral, e invadida por investidas dissonantes de electrónica e bateria. Wegmüller surge, a espaços, indiferente quer à beleza, quer ao caos. Die Sterne é povoada por uma guitarra luminescente, de um brilho pulsante como as estrelas que pretende emular. É a peça mais minimalista do álbum, mantendo-se suspensa no tempo, circular e incomensurável. No seguimento das estrelas, surge a carta que descreve a lua. Der Mond, segue a mesma linha minimal, mas sem brilho. Apenas uma opacidade cinzenta transborda da electrónica desoladora de Klaus Schulze. Em sequência lógica, segue-se Die Sonne, o sol que lateja, em convulsões internas, para colorir mais uma peça fabulosa da kosmische musik. Sem melodia discernível, o ambiente criado por este tema é uma autêntica aurora boreal, música que transcende este planeta. Abruptamente, surge Das Gericht, o julgamento. À medida que se aproxima do fim, o disco vai tornando-se progressivamente mais etéreo, mais irreal, como se chegasse à sua conclusão lógica e a parcimónia fosse o único caminho a seguir, mas igualmente como se regressasse ao princípio e tudo voltasse a ser um livro em branco pronto a ser escrito outra vez. O final efectivo surge com Die Welt, o mundo, fabulosa jam session que se arrasta num rock dolente polvilhado por electrónica até à convulsão final, autêntica nave espacial kraut desgovernada e imparável.
Tarot é um álbum ímpar, uma das pérolas do krautrock, se não mesmo a sua jóia da coroa. As primeiras edições (numeradas) do álbum vinham acompanhadas do baralho pintado por Walter Wegmüller, algo que já saiu de circulação há muito tempo. Resta a música, essencialmente para ouvir sozinho, em ambiente escuro e de longe a longe, de forma a não corromper a magia de cada encontro.

9 de abril de 2009

Krautrockbible

Em 1995, o excêntrico Julian Cope publicou um livro seminal e fonte de inesgotável deleite para quem se interessa pela música alemã dos anos 60 e 70. Krautrocksampler: One Head's Guide to the Great Kosmische Musik - 1968 Onwards é uma obra que descreve a génese e a expansão da cena underground alemã, assim como as suas personagens mais emblemáticas e discos de referência.
O ex-vocalista dos Teardrop Explodes escreve sobre esta música e sobre o folclore que a rodeia com um entusiasmo e uma subjectividade ao mesmo tempo sinceros e coloridos, o que torna o livro um acto de reverência de um adepto fervoroso do krautrock, ao invés de mais uma insípida verborreia de qualquer crítico musical.
Para além da narração apaixonada de episódios lendários, orgias massivas, uso e abuso de psicotrópicos e tarologia, Cope elabora a sua lista dos 50 melhores discos de sempre dentro deste género, mostrando alguns deles ao mundo pela primeira vez como as obras-primas inestimáveis e insubstituíveis que são, da genialidade musical que encerram às belíssimas capas que as guardam...
Infelizmente, o livro encontra-se esgotado há bastante tempo, não havendo previsões para a sua reedição. É possível encontrar cópias usadas no e-Bay ou no Amazon, ou, se o culto roçar o fanatismo, tentar a sorte em qualquer alfarrabista da londrina Charing Cross. À guisa de conclusão, apresento um guia descritivo, mas sem alma, desta corrente, denominado The Crack In The Cosmic Egg. Um resumo significativo do mesmo pode ser encontrado aqui. Ninguém lhe tira o mérito de ser um compêndio exaustivo, mas não pode ser comparado à obra fundamental e dedicada do druída de Tamworth.

22 de março de 2009

Kosmische Kosmetik III

Thomas Dinger foi o irmão mais novo de uma das figuras mais incontornáveis do krautrock, Klaus Dinger, o mentor dos geniais Neu!.
Exceptuando os dois primeiros álbuns da banda supracitada, Thomas foi o baterista de serviço nos projectos do irmão mais velho e assumiu esse papel de forma mais proeminente nos não tão geniais mas não menos superlativos La! Düsseldorf. Este papel mais ou menos secundário e potenciador de um esquecimento instintivo, não o impediu de gravar a solo um álbum de rara beleza e raro de encontrar que dá pelo nome de Für Mich.
Nesta edição de 1982, já longe da era clássica e mais inventiva do rock alemão da primeira metade dos anos 70, encontramos um disco que parece tudo menos criação de um baterista. Obra essencialmente atmosférica e minimal, principia com o sublime Ballgeflüster, elegia electrónica, outonal e hipnótica, uma dança em espiral que se eleva lentamente até ao desmaio final. Leierkasten será provavelmente um intróito do hermético humor teutónico e passa como uma nuvem até aos latidos caninos que abrem Für Dich, tema enraizado na melhor tradição dos Neu! e La! Düsseldorf e o que melhor deixa transparecer o instinto rítmico de Thomas Dinger. Melodia a motor, que se entranha na pele e nos transporta em mais uma viagem de partida incerta e sem destino. E-605, a próxima paragem, será, talvez, a peça-chave do álbum. Um início lento, lentíssimo, quase fúnebre na desolação sonora que se vai revelando aos poucos, abre caminho a um piano delicado e a um xilofone que o segue como uma sombra. A bateria surge, esparsa e marcial, marcando o ritmo de uma longa marcha em câmara lenta que os Joy Division aplaudiriam de pé. O significado disto? Não interessa. Para onde caminha esta triste e dolente procissão musical? Menos ainda. Mas não importa. Música assim não é para interpretar, somente para sentir o privilégio de a podermos ouvir. Alleewalzer prossegue a toada elegíaca mas melódica, desta feita em modo electrónico-celestial, impregnado de nostalgia. Provavelmente por algo aconchegante que já tivémos e perdemos. Für Euch encerra o disco, com brevidade e abstracção, como se o que o que se tivesse passado antes não fosse para ser lembrado e o despertador da realidade iniciasse o seu triste martelar. Como foi dito, esta não parece ser a obra de um baterista. Mas os irmãos Dinger sempre desafiaram o óbvio. E este mundo já está saturadamente cheio de coisas previsíveis...

10 de fevereiro de 2009

...Halber Maschine

Do delírio libertador kraut à estética formal mas visualmente avassaladora, o legado dos Kraftwerk não deixa de deslumbrar. O agrupamento continuará, certamente. O futuro de Florian Schneider deverá passar por projectos a solo. Esperemos que surpreenda...

Halber Mensch...

Ao abandonar os Kraftwerk, Florian Schneider põe termo a 40 anos de colaboração com a mais grandiosa e influente de todas as bandas electrónicas. A aventura começou em 1969, no colectivo Organisation, cujo único álbum, Tone Float, assemelha-se mais a um conjunto de mantras krautrock improvisados e não indicia o que os Kraftwerk viriam a fazer nos anos 70, em obras seminais como Autobahn ou Trans-Europe Express. A meticulosidade das melodias, fáceis de ouvir, mas ao mesmo tempo tão austeras nas formas e na frieza e o ritmo mecânico e cibernético, pleno de disciplina germânica, mas igualmente dançável, constituem o centro nevrálgico desta banda futurista mas intemporal. Em conjunto com Ralf Hutter, Florian Schneider foi o grande cabecilha destes inventivos teutónicos. Techno, trance e electro são estilos musicais que não existiriam sem eles. Para relembrar um trajecto de génio, nada como penetrar nas brumas do tempo. Rückzuck, tema aqui apresentado pelos Organisation, viria a ser a primeira faixa do primeiro álbum dos Kraftwerk. Schneider está na flauta, mas provavelmente o expansivo percurssionista será o showstopper...


29 de novembro de 2008

Kosmische Kosmetik II

Motorik: Motor skill: 2 por 2. Em sucessivas e livres depurações é possível sintetizar a alma musical de Michael Rother. É possivel sintetizá-la, mas nunca contextualizá-la. O guitarrista e teclista co-fundador de colossos musicais como Neu! ou Harmonia, gigantes da inovação musical alemã dos anos 70 e que ainda hoje são refrescantes como da primeira vez que se fizeram escutar, é um músico eclético e ímpar. O álbum Sterntaler, segunda obra a solo datada de 1978, prova-o inequivocamente. Produzido pelo mestre Conrad Plank, aqui se encontram as paisagens e os patchworks que o definem. Rítmos maquinais, como se avançássemos por uma interminável autobahn, ladeada de arvoredo / ladeada de indústria, melodias hipnóticas e uma permanente atmosfera de fuga. Ao real, aos outros, ao nosso lado vulgar...
O disco começa como um prolongamento do mais emblemático dos Neu!. A batida mecânica que dita o ritmo a forçar-nos a entrar na viagem e a guitarra hesitante a abrir caminho, até que um refrão sem voz, feito de um riff magnânimo dá o mote para o que todo o álbum nos oferece: música que é alegre e triste ao mesmo tempo. Que pode ser ouvida como viagem interior nos confins de um quarto escuro, ou a avançar determinadamente por uma estrada inundada de luz. É assim Sonnenrad. Segue-se Blauer Regen, composição esmagada pelas guitarras, suaves mas melancólicas, austeras no minimalismo, mas sempre emotivas. Stromlinien movimenta-nos novamente. Mais uma jornada dentro da nossa mente, melodicamente irrepreensível, que parece permitir-nos olhar a paisagem que se espraia perante nós apenas uma vez, pois é preciso continuar, é preciso que nos movimentemos. É preciso avançarmos em direcção a algo. Sempre. Até ao fim. Eis que chega Sterntaler, peça feita de um deslumbramento quase infantil, pejada de electrónica que quase se respira como uma brisa outonal e cuja melodia é deveras encantatória. É música feita descoberta, um regresso ao despojamento em que o sentir se sobrepõe ao pensar. É impossível definir Fontana di Luna recorrendo a outro termo que não seja o que o próprio título encerra. Um xilofone lunar, uma atmosfera reconfortante, quase um regresso ao útero... mas com um coração que pulsa inexoravelmente. Orchestrion encerra a edição original do álbum, colocando uma vez mais o ritmo no horizonte, como se corressemos em direcção ao Sol mesmo sabendo que não o podemos tocar. Seguem-se 3 faixas na reedição do disco, datada de 1993: Lichter von Cairo, Patagonia Horizon e Südseewellen. Não sendo totalmente descaracterizadas da edição original de Sterntaler, apresentam-se como um complemento maioritariamente electrónico e de cariz ambiental às composições mais sensoriais e emotivas do original. Ideal para quem queira prolongar a viagem onírica ou meditativamente...

2 de novembro de 2008

Kosmische Kosmetik

O primeiro album de Joachim Ehrig, artisticamente conhecido como Eroc, foi lançado em 1975. Misto de guitarras e electrónica, esta obra apresenta momentos sublimes e ricos em textura e melodia. Após uma breve introdução, chega Kleine Eva, peça avassaladoramente bela na sua simplicidade e minimalismo e que, à medida que se vai revelando, nos pode transportar cada vez para mais longe ou fazer-nos retornar a um ambiente in utero. Uma autêntica miríade hipnótica de sons que funciona como uma canção de embalar cósmica e convida à meditação. Músicas como esta poderiam durar para sempre... O tom prossegue com Des Zauberers Traum, que parece suspender-nos no espaço e no tempo e faz-nos sentir como serpentes à mercê de um qualquer encantador. O encantamento quebra-se, contudo, com a chegada de Die Musik Vom "Oldberg", em que Mozart parece encarnar num sintetizador dos anos 70 e nos agarra num breve e repentino vaudeville electrónico. Surge em seguida Chaotic Reaction, interlúdio preenchido por tambores africanos frenéticos, colagens sonoras e um orgão jazzístico que irá desembocar na guitarra refrescante e planante que preenche a belíssima Norderland. Segue-se o experimentalismo de Horrorgoll, pleno de ambientes sombrios, sobreposições electrónicas e vozes sampladas, que nos confronta pela primeira vez com o sonho mau que podemos ter mesmo adormecendo no paraíso. Sternchen, faixa onde a guitarra impera novamente, parece voltar a transportar-nos para um mundo distante, fazendo-nos levitar para depois nos mergulhar num mar de reverb. Segue-se Teenage Love '69, cujo título diz tudo. Uma guitarra ensolarada e sentida provoca reminiscências de um amor há muito vivido, do mistério da descoberta de outros lábios e de outra pele, da nostalgia da perda da inocência. Talvez o mais teutonicamente parecido com saudade... E o sentimento de nostalgia prossegue com Abendfrieden, mais uma peça de música tão poderosa quanto frágil, breve mas penetrante. Ostergloingg parece tentar remendar memórias de um Verão há muito passado, soando a música feita com instrumentos quebrados e o disco chega ao fim com Andromeda, despedida feita sem preparação prévia e atabalhoada como são quase todas. Soa a partida, mas também ao princípio de algo. Algo que parece brilhar...

2 de outubro de 2008

Oh Yeah...

Can... Será que alguém ainda os ouve? Será que alguém os ouviu realmente? Esta peça inovadora e imortal continua a revolver os meus neurónios. Continua a ser o reflexo de uma música genial e sem compromissos onde Stockhausen, os Mothers Of Invention e os Velvet Underground parecem fundir-se para criar algo de tão novo e estimulante que, passados mais de 30 anos ainda mantém a estranheza e o deslumbramento original. A bateria do assombroso Jaki Liebezeit, o verdadeiro Mann Maschine, o baixo do mítico Holger Czukay e as vocalizações ad lib de Damo Suzuki preenchem o magnífico álbum Tago Mago. O Krautrock será sempre uma constante deste espaço, pois nunca a música denominada popular foi tão livre de amarras e aberta a novas experiências. O resultado: ARTE musical no mais puro sentido do termo, assente na sensação, no prazer da interligação e na libertação do improviso...