31 de dezembro de 2009

2009: A Soundtrack



Nas horas derradeiras do conturbado e, muitas vezes, desconjuntado ano de 2009, resta-me ser arauto dos sons que mais me ajudaram a iluminá-lo e atravessá-lo. Como sempre, a lista é mais intuitiva que obsessiva e resume-se ao nicho da pop e do rock, mais ou menos alternativo, menos ou mais experimental. Muito foi ouvido e assimilado, aqui fica o que de mais essencial ficou retido e conseguiu ser inspirador...

1. Animal Collective – Merriweather Post Pavillion

2. The XX – The XX

3. Grizzly Bear – Veckatimest

4. Bill Callahan – Sometimes I Wish We Were Like An Eagle

5. Dirty Projectors – Bitte Orca

6. Fuck Buttons – Tarot Sport

7. The Flaming Lips – Embryonic

8. Fever Ray – Fever Ray

9. Girls – Album

10. Bob Dylan – Together Through Life

11. Antony & The Johnsons – The Crying Light

12. Wild Beasts – Two Dancers

13. Broadcast & The Focus Group - … Investigate Witch Cults Of The Radio Age

14. Sunn O)) – Monoliths & Dimentions

15. The Very Best – Warm Heart Of Africa

16. Neon Indian - Psychic Chasms

17. Atlas Sound – Logos

18. Yeah Yeah Yeahs - It's Blitz

19. The Antlers – Hospice

20. Micachu & The Shapes – Jewellery

21. Oneohtrix Point Never - Rifts

22. Bat For Lashes - Two Suns

23. Memory Tapes – Seek Magic

24. Richard Hawley – Truelove’s Gutter

25. Sonic Youth – The Eternal

26. Cass McCombs – Catacombs

27. Real Estate - Real Estate

28. Jim O'Rourke - The Visitor

29. Phoenix - Wolfgang Amadeus Phoenix

30. JJ – JJ nº 2

31. Alasdair Roberts – Spoils

32. Bibio - Ambivalence Avenue

33. The Low Anthem – Oh My God, Charlie Brown

34. Tinariwen - Imidiwan: Companions

35. Mayer Hawthorne – A Strange Arrangement

36. Dâm Funk - Toeachizown

37. Matias Aguayo - Ay Ay Ay

38. Emeralds - What Happened

39. Subway –Subway II

40. The Horrors - Primary Colours

41. Wilco - Wilco (The Album)

42. Espers – Espers III

43. David Sylvian - Manafon

44. The Sa-Ra Creative Partners - Nuclear Evolution: The Age Of Love

45. Ben Frost - By The Throat

46. Dinosaur Jr. - Farm

47. Iggy Pop - Preliminaires

48. Raphael Saadiq – The Way I See It

49. King Midas Sound - Waiting For You

50. Franz Ferdinand - Tonight: Franz Ferdinand

Manifesto


Toda a gente devia ter isto. Devia ser obrigatório por lei ou permitir benefícios fiscais a quem o adquire. Devia ser matéria de estudo nas escolas e ombrear com o PC Magalhães. Aqui reside a súmula da melhor música popular do século XX, honradamente revista e pomposamente melhorada. Podia ser a caixa de Pandora, mas daqui não saem maldições nem pragas, somente bálsamos. Pensava que o excelso Tomorrow Never Knows já não me conseguiria surpreender mais; A Day in the Life igualmente. Quão magnificentes soam lingotes de menor quilate mas igual valor sentimental como Blue Jay Way e Long, Long, Long nesta arca do tesouro sonicamente reconstruída! E porque nunca é demais lembrar paraísos terrenos...

19 de dezembro de 2009

Stars In The Bar Room Floor

Os Flaming Stars têm vindo a fazer, essencialmente, o mesmo álbum há 13 anos. Isto não implica que a sua música seja classificada como aborrecida ou repetitiva. O facto é que este quinteto londrino, liderado por Max Decharné, ex-membro dos nocturnos mas fogosos Gallon Drunk, tem apostado numa sonoridade que pouco ou nada se afasta da traça original. Essa traça bebe sofregamente das bandas de garagem dos anos 60 e de um imaginário noctívago, rockabilly e decadente, alimentado a álcool, tabaco e western spaghetti. Inúmeras vezes comparados aos Gun Club e aos Bad Seeds de Nick Cave, comungam dos primeiros a vertigem urbana e árida e dos segundos a visceralidade e qualidade interpretativa. Mas são acima de tudo bandas norte-americanas primordiais como os Sonics, os Artesians ou os Wailers e actos individuais icónicos como Elvis Presley ou Gene Vincent que moldam e assombram a sonoridade dos Flaming Stars.
Banda prolífera, desde o lançamento do primeiro álbum Songs From The Bar Room Floor em 1996 até Born Under a Bad Neon Sign, disco de 2006, os Flaming Stars editaram sete álbuns de originais e uma mão-cheia de singles, EP's e compilações. A consistência está presente em todos os lançamentos, sendo que Bring Me The Rest Of Alfredo Garcia será provavelmente a melhor carta de apresentação do grupo. O que fica, sobretudo, são as canções, urgentes e poderosas, penetrantes e inesquecíveis, amargas e ressacadas. Chamativas como um Cadillac dos anos 50 e espalhadas ao longo dos anos de existência da banda, são o sangue que lhe corre nas veias. Ten Feet Tall, A Hell Of A Woman, Downhill Without Brakes ou Sweet Smell Of Success são temas de fazer cair o queixo, nem que seja pelo majestoso Vox Continental que borboleteia infecciosamente ou pelos raids rítmicos do soberbo baterista Joe Whitney. The Day The Earth Caught Fire, The Last Picture Show, House Of Dreams ou Black Mask são sedutoramente escuras e palpam terreno nas sombras com dedos que parecem apreciar a travessia.
Como já foi dito, pouco ou nada mudou no estilo dos Flaming Stars desde a sua fundação. A música continua a encarnar no presente espectros do passado e as capas dos discos continuam a ser pastiches de cartazes cinematográficos dos anos 50. A atitude, essa, só pode ser apelidada de punk (por vezes dou comigo a pensar nos Stranglers dos primórdios quando os ouço...). Eternos membros da segunda divisão das bandas britânicas, parece não quererem mais que isso e também não precisam. Vestem os seus fatos e gravatas como se fossem membros da Rat Pack no coração do Soho; manda a tradição que iniciem cada álbum com um tema fervilhante e o encerrem com uma balada lacrimejante; arrancam tornados sónicos e são fiéis àquilo que fazem como se fossem a última das bandas de garage rock à face da Terra. Depois de vários anos de bulício constante, há três que se remetem ao silêncio discográfico. Pode ser que tenham terminado. Pode ser que lhes esteja a faltar combustível para arder. Seja como for, se voltarem, que seja na forma de sempre, pois não há mais ninguém como eles.

8 de dezembro de 2009

Chill-Out Folk

Em 1973, o mestre John Martyn editou aquela que será, seguramente, a sua obra de referência. A sua obra-prima. O disco recebeu o título Solid Air e, ainda hoje, a sua influência se faz sentir, especialmente pelo facto de a folk nunca ter ido tão longe como antes deste álbum. Composto originalmente por 9 canções em estado de graça, este excelso disco mantém ao longo da sua duração o mesmo tipo de ambiência, dolente, arrastada, profundamente nocturna e tocada pelas estações do frio. O clássico absoluto que abre o álbum e lhe dá título é dedicado ao mago Nick Drake, amigo pessoal de John Martyn entretanto falecido. Esta canção foi feita para ouvir em quase total ausência de luz e silêncio absoluto. A voz inebriada e fumarenta de Martyn é magistralmente acompanhada por gotas cintilantes de xilofone, enquanto um saxofone enlutado observa à distância. Segue-se a folk mais tradicional do esplêndido Over The Hill, complementada por bandolim e violino, e em que a letra foca as agruras de uma vida de excessos, temática presente na maioria das canções do disco. A penumbra regressa, em tons de vermelho-escuro, com Don't Want To Know, belíssima balada adornada por discretos mas valiosos enfeites jazzísticos, nos quais um cálido piano eléctrico é rei. I'd Rather Be The Devil cumpre a promessa. É um tema possesso, um martelar voodoo, em que John Martyn aparenta mais ser um bluesman como Howlin' Wolf ou Leadbelly que um baladeiro do Surrey. O espírito livre do jazz sente-se mais que nunca, sendo que a versão ao vivo deste original de Skip James que viria a povoar algumas reedições do álbum ganha novo fervor pela intensidade e pelo improviso. Em ambas, o tema fecha com um encantatório trabalho de guitarra que remete para paisagens mais psicadélicas.
Um contrabaixo meditabundo estende o tapete a Go Down Easy, canção trémula em que a folk e o jazz se imiscuem na perfeição. Um baixo meio funky e uma guitarra semi wah-wah encetam a travessia vincadamente ritmada e fortemente inebriada de Dreams By The Sea, até que o piano eléctrico, sonolento e às apalpadelas, põe termo à excitação.
Chega a vez de May You Never, hino à amizade e um dos temas mais belos e emblemáticos do álbum, terno e despojado, em que a guitarra, ora golpeada, ora dedilhada, e a voz sentida de John Martyn chegam e sobram para as encomendas. A bruma e as sombras envolvem-nos e trepam por nós em The Man In The Station, perfeita ode a solitários que vagueiam pelas ruas nas horas mortas da noite. O disco termina em toada mais tradicional e alegre, com a dupla The Easy Blues / Gentle Blues. A primeira mostra bem a influência de Hamish Imlach, homem da folk mais aguerrida que lançou Martyn; a segunda é um quase um breve trecho cujo intuito é colocar ponto final no disco. E fá-lo com a qualidade e o génio de tudo o que ficou para trás.
Solid Air foi considerado, com o habitual e histriónico valor acrescentado que os britânicos colocam quando formulam algumas opiniões artísticas, como o primeiro disco de trip-hop de sempre. Facto é que o influente radialista Gilles Peterson, homem mais vocacionado para danças e electrónicas, coloca amiúde o tema-título no éter. Mas isto não se aproxima da realidade, apesar de não andar totalmente fora dela. Solid Air é um álbum de ambiências extremamente carregadas, narcóticas até. Como terapêutica relaxante e entorpecente encontra pouca rivalidade. Trata-se, indubitavelmente, de um dos grandes discos britânicos do século XX, que, reedição após reedição (a última teve lugar este ano, poucos meses após a morte do seu autor) ainda mantém a traça original e não precisa de mais que os seus primeiros 9 temas para encantar e arrebatar para a eternidade.

Canterbury Delights

Apesar da magra obra que legaram, os Hatfield and The North são uma das bandas mais emblemáticas e representativas do que ficou conhecido nos inícios dos anos 70 como Canterbury Scene. Esta rotulagem, um pouco forçada e vaga como são todas, assentou numa semelhança de estilos entre diversas bandas do território inglês em epígrafe, muitas delas constituídas por elementos de outras bandas já existentes, o que confere a este estilo o estatuto de uma autêntica matrioska de individualidades. Estes estilos baseavam-se, essencialmente, em estruturas musicais intrincadas mas melódicas, em que os elementos mais acessíveis da música pop se conjugavam à complexidade mais experimental do avant-garde. Considerada muitas vezes um subgénero do rock progressivo, a onda (ou cena) de Canterbury é bem mais que isso. Daqui advém uma grande parte da ousadia e da inventividade que construiu os alicerces do rock mais arty, desafiador e incatalogável. O improviso é lema e peça-chave deste género musical, o que se nota distintamente na incorporação declarada de sequências jazzísticas e no liricismo muitas vezes absurdo e inusitado, que parece servir somente como bengala para a miríade instrumental que se estilhaça a cada momento. Música que encanta tanto como intriga, que se estranha tanto como se entranha, tem nos dois álbuns de originais dos Hatfield and The North um típico exemplo da suas artes sedutoras.
O primeiro álbum, homónimo, da banda, foi lançado em 1974, altura em que o estilo de Canterbury já tinha ultrapassado a sua fase embrionária. É uma obra rica e sofisticada, executada com a perfeição clínica dos seus calejados membros. O surrealismo e a excentricidade invadem-na a espaços, sendo que a música parece contorcer-se e amolgar-se para poder avançar pelas dobras do nosso córtex cerebral. A prova é o magistral Shaving is Boring, em que uma introdução saltitante de órgão vai sendo acometida de sucessivos estertores até se deixar levar numa corrente imparável e hipnótica da qual não apetece sair. O corte e colagem de ambiências e ritmos mais ou menos frenéticos perdura durante todo o álbum, pelo que é absolutamente normal suceder-se a uma peça suave e plena de coros femininos como Lobster in Cleavage Probe, o cataclismo em regime free-rock de Gigantic Land Crabs in Earth Takeover Bid. Como é igualmente apreensível, os títulos dos temas não apresentam grande margem para decifração. Exemplo disso é o intrigantemente denominado Big Jobs (Poo Poo Extract). Não raras vezes a capa de um álbum faz jus ao seu conteúdo, e desta feita acontece isso mesmo. O céu cujas nuvens parecem ser figuras de um fresco de Miguel Ângelo sobre a placidez cinzenta de um qualquer subúrbio britânico, demonstra bem a intrusão do surrealismo na normalidade.
O segundo álbum dos Hatfield and The North, lançado no ano seguinte e baptizado The Rotter's Club, prossegue a senda do seu antecessor, mas consegue alcançar a proeza de ser ainda mais conciso e depurado. O disco abre com uma declarada canção pop, Share It, leve à superfície, mas cuja escavação mais profunda revela um cinismo latente. Lounging There Trying principia com uma deliciosa e aquosa guitarra, que acaba por preencher magnificamente um tema outonal e sombrio, mas por onde apetece deambular bem agasalhado. Os interlúdios estranhos e vindos do nada mantém-se, como no gargantuamente denominado (Big) John Wayne Socks Psychology on the Jaw e no seu sucedâneo não menos esquizofrénico Chaos at the Greasy Spoon. O génio instala-se definitivamente ao quinto tema, uma peça contraditoriamente intitulada The Yes No Interlude. Aqui é dado livre-trânsito à improvisação, que se propaga em convulsões sobre a cadente secção rítmica. Primeiro o órgão de Dave Stewart, depois o saxofone de Jimmy Hastings, soltam chispas de sons naquele que é, provavelmente, o melhor momento do álbum. Após este bombardeamento, a toada prossegue serena e sem sobressaltos, com destaque para o excelente e jazzístico Underdub até Mumps, tema que encerra a edição original do álbum. Com 20 minutos de duração e dividida em 4 partes, a peça é o que mais se assemelha a rock progressivo em todo o espectro da obra da banda. Tocado pelo génio, a espaços, há que destacar obrigatoriamente a longa e extasiante deambulação de Lumps, mais um exemplo perfeito do motor propulsor que constituía o colectivo na posse dos seus plenos poderes. A abrir e a fechar esta última sequência do álbum, as duas partes de Your Majesty Is Like a Cream Donut, mais um título de referência a juntar ao reportório da banda. A reedição do disco em 1987 acrescentou-lhe mais 5 faixas extra. De todos os temas, há que realçar o belíssimo e sólido Halfway Between Heaven and Earth.
Pouco ou nada conhecidos fora do solo inglês, os Hatfield and The North conseguem ter a sua pequena legião de culto dentro de portas. Assim é com o escritor britânico Jonathan Coe, cujo notável romance de 2001 intitulado precisamente The Rotters' Club é uma homenagem indirecta à banda, que surge diversas vezes mencionada nas suas páginas. Mesmo não sendo a nata das natas de Canterbury (esse papel cabe a luminárias consagradas e instituídas como Robert Wyatt, Soft Machine, Caravan, ou mesmo os Gong), os Hatfield and The North constituem uma belíssima opção a juntar a este estilo musical tão único e sui generis.

7 de dezembro de 2009

Genes, Signos, Identidades

Quem Nos Faz Como Somos é uma nova iguaria literária do psiquiatra e professor universitário José Luis Pio Abreu. Nova não será o termo correcto, dado que foi editada em 2007, mas, latu sensu, é o seu mais recente livro e que sucede ao já clássico Como Tornar-se Doente Mental?.
Desta feita, o autor debruça-se sobre a extrema e, por vezes, hermética, complexidade que faz da espécie humana aquilo que ela é. Partindo do particular para o geral, dos genes para os signos, do biológico para o cultural, Pio Abreu demonstra perfeitamente que é possível escrever sobre temas científicos e filosóficos de forma clara e acessível. Através de uma prosa escorreita e, a espaços, bem-humorada, o livro conta ao leitor a história da evolução da vida do ser humano, desde a involuntária fecundação do óvulo, à voluntária escolha da sua identidade num mundo carregado de possibilidades. No final, fica perene a ideia de que, mesmo perante a multiplicidade de opções, de culturas, de religiões, de relações que constituem o mundo do Homem moderno, a sua identidade será sempre condicionada pela herança genética que transporta. É ela que o faz agir daquela forma, naquela altura, perante aquela situação. Os genes fazem-no para sobreviver, os signos também, e o Homem está condenado eternamente a perseguir a sua liberdade total. Uma obra do maior interesse e excelente como ponto de partida para futuros desbravamentos de Umberto Eco, Michel Foucault, Jean-Paul Sartre ou Daniel Dennett. Mais sobre este progressivamente influente autor aqui.

Space Ritual

The European Homepage For The NASA/ESA Hubble Space Telescope: Assim se apresenta a facção cibernauta do Velho Continente dedicada ao mega-telescópio espacial Hubble e às suas descobertas. O site é um regalo para a vista, um manancial de fotografias e vídeos do cosmos profundo captados pela microscópica potência do aparelho. É impossível não sentir o peso esmagador mas delicadamente belo destas imagens e dos mistérios que as envolvem. Mais que palavras para a descrever, a divulgação desta página deve ser feita com um convite a explorar as suas recônditas maravilhas. São autênticas viagens de alta definição pelo sistema solar, por quasares e nebulosas, luxuriosamente coloridas ou desoladamente negras. Perante o que nos surge, tanto nos podemos deixar levar pela espiral vertiginosa de nave desgovernada dos Hawkwind como pela ausência de gravidade dos intra-uterinos Ambients de Brian Eno. Para olhar demoradamente, com ou sem propostas sonoras, em http://www.spacetelescope.org/.

30 de novembro de 2009

Modas Outono - Inverno

Bill Fay é um dos mais obscuros, esquivos e geniais singer-songwriters dos princípios de 70 em Inglaterra. Algures entre o protesto cortante de Bob Dylan e a melancolia contida e elegante de Nick Drake, Fay comunga da voz pouco depurada mas expressiva do primeiro e do cinzentismo outonal e algo lúgubre que povoa as melodias do segundo. Em dois álbuns de referência, Bill Fay e Time of the Last Persecution, o cantor conquistou a matéria que faz os cultos e as lendas, ou seja, pouquíssimos discos vendidos e uma devoção considerável entre a intelligentsia mais atenta aos recantos poeirentos do passado provinda das gerações vindouras.
Os dois primeiros álbuns de originais, lançados, respectivamente, em 1970 e 1971, valem acima de tudo pelas fortíssimas composições individuais. Canções frágeis, de base folk, mas adornadas a espaços por uma solenidade e uma grandiosidade orquestral avassaladora, o que acentua ainda mais a fragilidade dos seus alicerces.
Bill Fay é uma obra-prima de canções outonais e chuvosas, por vezes circunspectas, feitas de tristeza resignada, de amores escorregadios e existências marginais. São 13 os temas que a compõem, todos uniformes na mestria da composição e na carga emotiva da entrega. Bill Fay soa como um Bob Dylan a quem emprestaram a orquestra de Scott Walker por alturas do magistral Scott 4. The Sun is Bored começa como uma nuvem a cobrir o Sol, até ribombar como um trovão e terminar com as palavras And the sun goes down / Never to rise again. Sing Us One Of Your Songs, May é uma belíssima elegia a mais uma jovem e incógnita vida perdida na guerra. A mesma temática prossegue na amargurada Gentle Willy, onde a visão das batalhas e da morte persegue inexoravelmente a sua figura central. Methane River é um hino à luta contra a adversidade, de poema simples que a melodia exacerbada torna comovente. Em peças de pouco mais de 2 minutos, Bill Fay consegue ser o mais expressivo dos trovadores, imerso em melodias lindíssimas e espectrais, inesquecíveis para os espíritos mais dados ao romantismo. The Room, Goodnight Stan, Cannons Plain, são pequenos monstros, absurdos no tamanho da sua intensidade e beleza. Be Not So Fearful tem sido alvo de cover várias vezes por uma das mais respeitáveis bandas americanas da actualidade, os Wilco, o que prova que este grande homem só influencia pela positiva. Esta primeira obra termina na mesma toada fatidicamente bela com Down to the Bridge, canção para ver um riacho a passar em dia de Inverno, sob ponte de pedra...
Time of the Last Persecution, o segundo álbum, é invadido, suavemente, por investidas eléctricas e alguns floreados blues-rock. Nesta toada, a abertura feita com Omega Day é deliciosa. Contudo, o disco não se deixa vislumbrar como uma peça mais luminosa que o seu antecessor. A prova surge logo na claustrofobia triste do segundo tema, o dorido Don’t Let My Marigolds Die. ’Til The Christ Come Back e Plan D são canções de redenção após a tentação ou a imersão no pecado. A canção de protesto mostra os caninos aguçados subtil mas magistralmente em Pictures of Adolf Again e Come a Day. Isto sem esquecer o penumbrento mas quase messiânico tema-título e o final impregnado de doce melancolia de Let All The Other Teddies Know.
Para além destes dois álbuns, Bill Fay lançou somente um single. Lançado em 1967 e constituído pelos duplos lados A Some Good Advice e Screams In The Ears, é uma belíssima porta de entrada a este génio ostracizado da música britânica. Um terceiro álbum, Tomorrow Tomorrow & Tomorrow, foi gravado em finais de 1970 mas somente lançado em 2005 pela mão de outro fã, desta feita David Tibet, testa de ferro dos apocalípticos Current 93. Sobra ainda a compilação de raridades From The Bottom Of An Old Grandfather Clock, editada em 2004. Tudo material altamente aconselhável deste sombrio e fugidío baladeiro inglês. Mas nada como as duas primeiras obras para apreender a experiência em pleno e, na mais feliz das circunstâncias, ficar viciado nela.
P.S.: Dada a parca informação existente acerca do bardo, vale a pena dar uma espreitadela ao único site que lhe é inteiramente dedicado. http://www.billfay.co.uk/ contém uma biografia decente, assim como a discografia e as letras completas.


21 de novembro de 2009

Alva Soul

A Strange Arrangement impregnou novamente a minha ímpia alma de soul. Já não me lembro há quanto tempo isto não acontecia, provavelmente desde que Jamie Lidell cantou mais alto. O álbum deste ano de Raphael Saadiq é também um ardor constante. Mas aqui canta-se melhor e as convenções são brilhantemente revolvidas. Não me canso desta voz. Não me canso destas canções quentes e lânguidas. Discos como este são um raio de sol permanente, uma prova que a (boa) música não tem cor ou idade. Podia ser um álbum de um monstro sagrado como Marvin Gaye, Otis Redding ou Al Green, algo gravado na Motown dos anos 60 ou 70. Na realidade, foi feito por um indivíduo branco do Michigan com um ar meio nerd chamado Mayer Hawthorne, que calha ter um vozeirão superlativo. É uma obra intemporal, transbordando excelentes canções, casualmente editada em 2009 e, desde já, uma das marcas discográficas do ano. Magnífica e contagiante, que é somente o que interessa. Não há muito mais a dizer, senão deixar a música penetrar cada poro, fechar os olhos e deixar a alma à mercê desta deliciosa cascata sonora. Definitivamente para ouvir numa companhia muito desejada. Acredito que derreta icebergs e faça milagres...

20 de novembro de 2009

Agridoce Sul

Os Housemartins trazem-me deliciosas memórias de infância. De tempos sem responsabilidade e horários / prazos para cumprir. Algo que só atingirei novamente se conseguir uma reforma que pague um bom Lar ou o seu sucedâneo moderno denominado Residência Assistida. Tal como o tempo, que avança inexoravelmente, assim esta simpática banda de Hull presenciou a sua desagregação. Este desmembramento levou a que o quasi desconhecido baixista Norman Cook se tornasse a maior estrela do fugaz movimento Big Beat sob o pseudónimo Fatboy Slim e que o quasi líder da banda Paul Heaton se afirmasse como um dos maiores compositores da pop britânica das últimas duas décadas. Em conjunto com o sobrevivente Dave Hemingway, este último formou os Beautiful South, um cocktail musical em que a doçura disfarça o álcool inerente e em que as melodias açucaradas disfarçam igualmente a amargura latente.
Ao mencionar os Beautiful South, é mais que provável que, por arrasto, venham a lume clássicos cantaroláveis como A Little Time, Perfect 10, Rotterdam (or Anywhere) ou Old Red Eyes is Back. Aos mais atentos, surgirá nitidamente a distinção flagrante entre a doçura da música e o azedume das palavras. É este contraste agridoce que transforma os Beautiful South numa banda potencialmente incomodativa, daquelas que choram por detrás da máscara de palhaço. Paul Heaton não é, nem nunca será, Elvis Costello e, nem por sombras, pretende sentar-se no trono desfeito de Ian Curtis. No entanto, a sua (distinta e sincera) voz toca pela triste plausibilidade das histórias que conta. São histórias que, ao mesmo tempo, nos pertencem tanto como aos personagens que as povoam. Ninguém aqui sai defraudado da realidade, por mais afastado que se considere dela. Alcoolismo, desemprego ou divórcio são temáticas na ordem do dia, sempre entregues na mais polida das formas, como se a resignação fosse a única arma possível e a doçura a prova que isenta a culpa de se ter nascido para este destino. Se não, escutem-se temas como Especially For You, Pockets, Window Shopping For Blinds, I May Be Ugly ou a belíssima versão de Everybody's Talking de Harry Nilsson na voz de Jacqui Abbott.
Na melhor tradição britânica, o sentimento auto-depreciativo sempre povoou a literatura e, na sua quota parte, a música. A crítica social idem. Mas, enquanto singer-songwriters como Ray Davies nos fazem pensar ainda bem que não sou como eles, Paul Heaton faz-nos desejar espero que isto não me aconteça a mim. Salva-se uma ou outra canção de amor, simples mas pungente como as demais. Dumb é um magnífico exemplo. Prettiest Eyes é outro. Este último, no entanto, bastante especial. Nos meus tempos de faculdade, havia um minúsculo contingente acerrimamente adepto desta banda. Inseguros e cínicos em relação ao futuro que os esperava. Esta cantiga homenageia-os directamente, assim como a cidade que muito aprecia estes ingleses e que, pelos vistos, estes ingleses apreciam muito...

17 de novembro de 2009

The Boys Next Cave

Antes do regurgitante negrume gótico dos Birthday Party e muito antes da redenção pelo Espírito Santo de Nick Cave e consequente evangelização dos Bad Seeds, irromperam fugazmente os Boys Next Door. A primeira banda de Nicholas Edward Cave foi formada em meados dos anos 70, em conjunto com o ubíquo companheiro de grande parte da sua carreira, Mick Harvey, começando por ser uma banda de covers Glam e New Wave. A sua identidade própria apenas se afirmou e vincou em finais dessa década, muito em parte devido à entrada do carismático e suavemente cadavérico Rowland S. Howard e da sua distinta guitarra. O apogeu deu-se em 1979, com a edição do único álbum do grupo, o monolítico Door, Door. À primeira audição parece estarmos perante um mascar e cuspir de influências, dos Stooges aos Roxy Music, dos New York Dolls aos Television; um disco de colegiais sempre a rasgar, feito de urgência adolescente, ritmos frenéticos e melodias contagiantes. Mas há muito que diferencia os Boys Next Door de serem arrepiantemente etiquetados como os Green Day da sua época. Em primeiro lugar, a voz de Nick Cave a dar os primeiros mas seguros passos em direcção ao fundo da caverna, as suas letras já pejadas de uma paranóia insinuante e de uma angústia juvenil, mas, a espaços, dilacerante. Em segundo lugar, a guitarra de Howard, que preenche os temas de uma palpável mas subtil sofisticação que, na sua ausência, seria pálida e magra. Os trejeitos verlainianos de After a Fashion e a alta tensão de Somebody's Watching Me ou The Nightwatchman são pontos a reter. I Mistake Myself é humoradamente tétrica, fria mas ainda longe do ambiente de câmara frigorífica de alguns temas dos futuros Birthday Party. The Voice e, em particular, Friends of My World, são mini-épicos de escassos minutos, punk na intenção, solenes na entrega. Curiosamente, o tema que mais se aproxima da estética de Nick Cave actualmente (re)conhecida, foi escrito por Howard, encerra o álbum e intitula-se Shivers. É uma daquelas peças que deveria ser obrigatória por lei em qualquer quarto de adolescente que sofreu o seu primeiro desgosto de amor e está à beira de tomar uma caixa de Rohypnol regada a Super Bock. Ainda hoje perdura como uma balada magistral, perfeitamente construída, em que a guitarra difusa como uma dor indecifrável consegue mesmo arrepiar a espinha.
Toda a gente sabe, ou deveria saber, o que aconteceu a seguir na vida destes rapazes. Nada do que aqui está seria repetido. As coisas tornaram-se progressivamente mais negras, Cave tocou o fundo do abismo com uma agulha no braço, retornou como prova palpável da salvação de Jesus Cristo e, na actualidade, é um dos melhores escritores de canções que o mundo já conheceu. Algumas das mais curiosas, directas e improváveis estão neste disco. Um artefacto nostálgico a estimar.

24 de outubro de 2009

Mr. Mojo Risin'

Desde há muito que as publicações musicais decidem acompanhar as suas edições de CD's gratuitos. Algumas não precisam, como a esmiuçante Record Collector; algumas fazem-no esporadicamente mas muito bem, como é o caso da Wire; outras fazem-no sistematicamente, como é o caso da Uncut ou da Mojo. A primeira já viu melhores dias neste campo, sendo que, há sensivelmente 8 ou 10 anos muitos adquiriam o pasquim pelo apêndice auditivo que oferecia. Infelizmente, de há uns anos a esta parte, a Uncut já não proporciona aos seus leitores a audição em primeira mão das obras que critica. Não obstante, continua a ser uma agradável revista musical, principalmente no que concerne à revisitação de bandas e discos mais antigos e na divulgação de nova e muito boa música feita em terras norte-americanas. Assim é também a Mojo, igualmente britânica, igualmente abrangente, igualmente interessada em divulgar certos artistas e determinadas obras de culto. Estas duas revistas constituem uma espécie de Bloco Central das publicações musicais, que se complementam uma à outra, mas que não exigem ser possuídas em conjunto. No entanto, e no que diz respeito a CD's ofertados ao comum melómano, a Mojo poderia ganhar aos pontos, se apresentasse amíude compilações da consistência e da qualidade que hoje decidi recuperar aqui. No relativamente recente mas igualmente remoto mês de Junho de 2003, esta revista ofereceu à borla uma das melhores compilações que alguma vez ouvi dedicada ao rock de garagem, a cena garage, surgida em meados dos anos 60, muito por culpa dos Rolling Stones e da sua aproximação branca e de fatiota aos blues. Instant Garage, como foi denominada, é uma autêntica Bíblia de referências nesta área. Ao contrário de, parafraseando o geriátrico José Saramago, ser um manual de maus costumes, esta Bíblia pura e simplesmente irrradia luz e júbilo sobre o ouvinte. Havendo quem pague (e bem) para adquirir algumas das rarídades de bandas aqui representadas, este disco grátis escancara magistralmente as portas para esta vertente musical tão rica e seminal. Muito do que se ouve nele é verdadeiramente raríssimo de encontrar, nomeadamente bandas como os Artesians ou os Brave New World, que tiveram existências curtas, resumidas a singles e a concertos dentro de portas nos seus E.U.A. natais. Pululam igualmente por aqui actos mais consagrados, mas embebidos no mesmo espírito rebelde, urgente e do it yourself, como os Modern Lovers e os Ramones, ou, em fase embrionária e crua, os Kinks e os Love.
Dos temas mais memoráveis desta colecção, realce para o genial I Had Too Much To Dream (Last Night) dos Electric Prunes, o sombrio e afectado My Daddy Walked In Darkness de Gil Bateman e o docemente doloroso Sometimes You Just Can't Win dos obscuros Mouse & The Traps. Destaque igualmente para o roufenho e primário Again & Again dos Iguanas, banda e bicho cujo baterista, James Osterberg, viria a homenagear na sua carreira a solo ao adoptar o nome Iggy Pop. De resto, que mais podemos dizer perante uma compilação que junta The Nazz (do excêntrico Todd Rundgren), MC5, Sonics e New York Dolls? Mais que um fim em si mesmo, esta colecção deve ser vista como ponto de partida para uma busca exaustiva das inúmeras bandas deste estilo, que lançou as raízes de movimentos marcantes como o punk e outros não tão marcantes como o psychobilly. A partir daqui, é provável e compreensível que se instale uma obsessiva-compulsiva febre de coleccionismo. Se houvesse uma nota a atribuir-lhe seria 18 valores. Se tivessem sido incluídos os 13th Floor Elevators e os Monks, seria justamente um disco merecedor de 20 valores. Gratuito, abrangente, enciclopédico e, acima de tudo, carregado de temas escaldantes, que mais se pode pedir? Se todas as revistas trouxessem discos assim, felizes seriam os humildes melómanos. A agarrar como se não houvesse amanhã, caso a estrela da fortuna brilhe e o encontrarem perdido por aí...


The Nazz - Open My Eyes (1968) por soulpatrol