18 de abril de 2010

O Ruído Explicado

O Resto é Ruído, do crítico musical do New York Times Alex Ross, é um dos mais livros sobre música escritos com mais profundidade e seriedade que já tive o prazer de ler. É uma leitura proveitosa e compulsiva, de um tema difícil, restrito e complexo: a música clássica do século XX.
Alex Ross conta uma história do último século, tendo como ponto de partida a música e o período temporal em que ela mais se fragmentou, inovou, radicalizou e popularizou. Desde a quebra de convenções surgida com a audaz atonalidade das obras de Arnold Schoenberg, à contemporaneidade já impregnada de influências recentes e fracturantes de John Adams, O Resto é Ruído é uma obra essencial para quem queira conhecer os meandros da composição erudita dos cem anos que nos antecederam.
Ross consegue magistralmente, e em constantes rasgos de profundo know-how da matéria que disseca, traçar o percurso da música moderna, o porquê das suas convulsões e revoluções e a sua contaminação simbiótica e influente em fenómenos de massas como o rock, a pop e as bandas-sonoras de filmes. Isto sem deixar de lado uma leitura biográfica e de aspectos maioritariamente desconhecidos dos homens que dedicaram a sua vida à arte de criar sons no conturbado e mutante século que passou. É obra; é obra-prima e é a prova palpável que se pode escrever sobre música sem a descaracterizar ou desmistificar, provocando no leitor o desejo e a curiosidade de conhecer aqueles sons, descritos com fascínio e um rigor quase científico. A excelência deste livro tem sido louvada um pouco por todo o lado e vale a pena consultar as suas repercurssões e outros aspectos biográficos do autor em http://www.therestisnoise.com/.

Dr. Phil

Ao nomear os mais virtuosos e influentes guitarristas de todos os tempos, Phil Manzanera raras vezes vem à baila. É algo injusto pois, mesmo ofuscado por Brian Eno e Bryan Ferry nos inícios dos Roxy Music, Manzanera preenche os discos da banda com o seu estilo elegante, sofisticado e futurista, mas vigoroso quando é necessário puxar dos galões mais ásperos. Desde os anos 70 que o guitarrista anglo-colombiano se dedicou a projectos paralelos sem nunca adandonar a Banda-Mãe, fugas essas que lhe permitiram experimentar outras sonoridades e ser rei e senhor do seu próprio território. Lançou o primeiro álbum a solo, o excelente Diamond Head em 1975 e, no mesmo ano, reuniu um colectivo imbuído do melhor espírito de Canterbury chamado Quiet Sun. O único disco que legaram, Mainstream, é um belo exercício infestado por fusões entre jazz e rock, apelativas e inventivas.
Aproveitando a desmobilização temporária dos Roxy Music em 1976, Manzanera conjurou um colectivo fugaz, os 801, cuja formação embrionária incluiu Brian Eno. Estes, per si, nunca editaram nenhum álbum de estúdio, gravando no tempo apenas a memória de vários concertos de culto. A última concentração, ocorrida no Queen Elizabeth Hall, pode ser escutada no magistral 801 Live.
Com Eno a mover-se nas sombras e os 801 revistos e aumentados como banda-suporte, Phil Manzanera gravou em 1977 um soberbo álbum intitulado Listen Now!. Quase um disco conceptual, Listen Now! debruça-se vagamente sobre a temática muito Orwelliana de viver numa sociedade totalitária, vigilante e opressiva. No entanto, e apesar do pesado mote, a música é maioritariamente suave e superiormente melódica, ao contrário de, por exemplo, a obra-prima 1984, de Hugh Hopper, disco bem mais complexo e assombrado. Leves trejeitos funk aliam-se na perfeição às vocalizações justapostas do tema-título, todas em quase-surdina, numa paranóia contida. A guitarra elegante desponta de quando em vez, nítida mas sem imposições e a canção esvazia-se em parada jazzística. Flight 19 é pop contagiosa abençoada pela guitarra vertiginosa de Manzanera e pela voz do praticamente desconhecido Simon Ainley. No absolutamente divinal Island, as seis cordas transfiguram-se majestosamente, e conjugam-se a uma bateria estratosférica para tornar o instrumental a peça mais bela de todo o álbum. A clássica edição em vinil fecha o lado A com Law and Order, outra pérola pop imaculada e de refrão ideal, se bem que distante e desencantada como todas as canções do disco. E continua a ser magnífico o modo com a guitarra de Manzanera enche o tema sem o sufocar. Pura classe e nada mais...
A segunda parte do álbum principia com Que?, curto surto instrumental que parece homenagear a expressão mais pronunciada pelo célebre criado Manuel da eterna série cómica Fawlty Towers. O teor mais político e circunspecto retorna em City of Light, canção palpitante, dominada pelo baixo alarmista de Billy MacCormick e pela guitarra novamente possuída por efeitos. Initial Speed é outro instrumental, desta feita frenético e tomado de assalto pelo jazz mais salutarmente conspurcado.
Duas canções em tons de cinzento encerram o álbum. Postcard Love evoca a pop mais atmosférica e menos bacoca dos 10cc, cujos membros Kevin Godley e Lol Creme também se juntaram à corte de 16 músicos que ajudaram a construir Listen Now!. That Falling Feeling prolonga e acentua a insular melancolia, provando que Simon Ainley foi a escolha perfeita para dar voz a estas canções em que o Sol ilumina, mas está sempre escondido atrás das nuvens. Phil Manzanera, como sempre, espalha arte e mistério dedilhados tema afora.
Para os coleccionadores, Listen Now! foi reeditado em 2000, contendo três faixas que ficaram de fora da edição original: Rude Awakening, Blue Gray Uniform e Remote Control. As duas primeiras escapam à banalidade graças ao trabalho sempre bem-vindo de Manzanera. A terceira é um bom tema roqueiro, a fazer lembrar os Roxy Music mais edgy de Country Life.
Listen Now! continua a ser um excelente disco para conhecer o universo de Phil Manzanera enquanto cançonetista e virtuoso da guitarra. E esta última é usada de forma especialmente hábil e escorreita, o que faz do mestre um homem inteligente na contenção e sábio no manejo do instrumento, sem nunca o tornar objecto de masturbações egóicas.

17 de abril de 2010

Galardão


Foi atribuído, pelo eminente e respeitável site / rádio online Cotonete o honroso galardão Blog da Semana ao Escrito no Som. Não posso deixar de expressar as minhas palavras de gratidão para com a atenção e o interesse dispensados a este espaço, solitário e artesanal. O incentivo é enorme, a responsabilidade de manter o nível, maior ainda. As expectativas não serão defraudadas. A boa nova pode ser consultada neste local.

The Fellowship

No circo muitas vezes inconsequente do chamado rock gótico dos anos 80, os Sisters of Mercy foram o melhor de todos os colectivos. Sempre conseguiram olhar para além do negrume austero e até inflingir a sua imagética de subliminares doses de humor. Andrew Eldritch, eterno pai e mentor do projecto, viu a sua vida a andar para trás no devir do litígio com Wayne Hussey, guitarrista da banda, após o lançamento de First and Last and Always em 1985. O conflito levaria à cisão entre ambos, sendo que Eldritch, sempre mais inteligente, garantiu o uso do nome da banda e forçou Hussey a agrupar-se sob a denominação The Mission. O motivo: The Sisterhood. O objecto: Gift. Ao contrário do que se possa pensar, Gift não é uma dádiva, mas sim a palavra alemã para veneno. Cingindo-se à cadeira de produtor, Andrew Eldritch reuniu Alan Vega (Suicide), Patricia Morrison (Gun Club), Lucas Fox (Motörhead) e James Ray (The MK Ultra) para um dos discos mais genuinamente góticos de sempre e, incrivelmente, um dos mais dançáveis. Deixando para trás o lirismo folhetinesco que se debruça, logicamente, sobre a animosidade e o ressentimento entre as duas ex-Irmãs da Misericórdia, Gift (1986) é um monolito musical fascinante, desolador nas ambiências e mais escuro que uma noite de trovoada. Não há bateria. O ritmo, marcial e opressivo é assegurado por uma série de maquinaria conhecida como Doktor Avalanche. O convite à dança é óbvio, mas o movimento é espectral, descarnado, frio e mecânico. Jihad abre o disco em movimentações de guerrilha, intercortadas por esgares electrónicos das Arábias. Não se consegue ser muito mais gótico que em Colours, oito minutos de queda no abismo, minimais, densos e perfeitos. Um verso repetido em tom gélido, um vácuo pulsante e um embalar demoníaco.
Giving Ground mantém a simplicidade eficaz, debruada a negro, onde se nota a presença flutuante de Alan Vega e dos seus seminais Suicide, na claustrofófica e alienada paisagem urbana, poeticamente feia e industrial. Finland Red, Egypt White é repetitiva como uma rajada de metralhadora e serve de roupagem ideal à declamação do Motörhead Lucas Fox, uma académica descrição do funcionamento da AK-47. A última das longas e arrastadas faixas é Rain From Heaven, uma agonia chuvosa e monocórdica, cântico processional ao qual o sintetizador empresta uma tonalidade ainda mais funesta.
Andrew Eldritch viria a conseguir a sua melhor obra de sempre com os Sisters of Mercy em Floodland, no ano seguinte. Mas nunca conseguiu tingir corações de preto como neste despojado e - aqui o nome ajusta-se perfeitamente - gótico disco.

Ils Ce-Sont Fous, Ces Gaulois...

Gilbert Artman toca piano e fala francês, mas é, acima de tudo, um baterista nato. Preciso quando é preciso, extravasando quando assim lhe é exigido. Músico de escola jazz por essência, fundou no colectivo gaulês Lard Free uma fusão entre esse estilo, o rock e a electrónica mais sedentos de desbravamento. Gilbert Artman's Lard Free, primeiro capítulo oficial destas catanadas musicais, fez-se em 1973 e manifesta-se como um disco arrojado e visionário para a época. A mistura incandescente e totalmente instrumental, umas vezes abrasiva, outras atmosférica, de sonoridades orgânicas com electrónicas, coloca este disco nos píncaros de uma nova onda revigorante da música francesa, que encontraria similitudes nos Heldon ou nos mais freaky Atoll.
...Lard Free inicia a sua lenta invasão mental com Warinobaril, em que a secção rítmica, cadente e impenetrável, se volta de costas para um saxofone em cantus horribilis tal e qual sereia e uma guitarra que parece gritar por soltura. 12 ou 13 Juillet Que Je Sais d'Elle cresce lentamente, invadindo-nos com uma suave paranóia, muito graças ao sintetizador ansiogénico e imparável que penetra os tímpanos em golpes agudos; sem aviso, uma guitarra perigosamente Frippiana enceta uma segunda parte do tema, esquizofrenicamente distinta da primeira, e em que os ritmos mais espaciais do jazz são novamente reis e senhores. Sente-se já aqui o ténue aroma do fugaz movimento Rock in Opposition, variante extrema do avant-garde progressivo e que influenciou grupos altamente recomendáveis, mas dotados de igual dose de saudável insanidade, como os suíços Dèbile Menthol ou os canadianos Miriodor.
Honfleur Écarlate prossegue a eucaristia a Fripp, que aqui dá pelo nome de François Mativet, mas que emula o mestre na perfeição. Lá atrás, o ritmo propositadamente monótono e descarnado parecem antecipar as litografias musicais em miniatura do excelso Another Green World de Brian Eno. Acide Framboise, provavelmente o momento-chave do álbum, abre com um cinematográfico sintetizador que, por mais que o ouça, não me tira da cabeça o belíssimo filme Der Stadt Der Dinge de Wim Wenders... talvez porque o tema é, no seu todo, cinematográfico; talvez porque a música é tão envolvente, entorpecente e enigmática como a própria película. Um contínuo latejar que invoca noites estranhas ou madrugadas fora do sítio...
Livarot Respiration é docemente noctívaga, impregnada de solidão e fumo e levemente claustrofóbica, devido ao pulsar do baixo de Hervé Eyhani que, apesar das subtis nuances, parece nunca projectar-se além do mesmo círculo. Culturez-vous vous-mêmes termina o álbum em tom lúgubre e minimal, quase um assombro dos Kluster e da sua electrónica ancestral.
...Lard Free é um dos discos mais misteriosos que conheço. Após inúmeras audições, a sensação de estranheza e de incompletude mantém-se. É por isso que gosto tanto de regressar a ele para nunca o descobrir. Algo como ser abraçado pela Vénus de Milo...

9 de abril de 2010

Kosmische Kosmetik XI

Kalacakra é um termo da filosofia tântrica que significa algo como Roda do Tempo. É igualmente o nome adoptado por um duo alemão dos primórdios da década de 70 e que não tem nada a ver com a célebre e magnífica decalogia literária de Robert Jordan. Estes Kalacakra praticam uma sonoridade fortemente influenciada pela música indiana, pelas suas ragas e pelos seus mantras. Mais uma pedrada psicadélica sob a forma de música e, em abono da verdade, uma das mais fortes que conheço, o primeiro álbum dos senhores intitula-se apropriadamente Crawling To Lhasa. Percorrido maioritariamente por flautas, congas e cítaras, é um disco circular, relaxante, pegajoso e envolvente como uma serpente. O primeiro tema, um contínuo minimal e hipnótico denominado Naerby Shiras, arrasta-se tribalisticamente e arrasta-nos com ele para uma escuridão iniciática, em que uma voz reptiliana nos sopra ao ouvido ecos sibilinos. O testemunho é passado para a densa e docemente sinistra Jageline. Aos sopros orientais e aos pingos de xilofone junta-se uma voz perturbada, repetitiva, no limiar do depressivo. Surgem à ideia os Amon Düul mais cavernosos.
Os mantras vertiginosos prosseguem com Raga Nº 11. Esta peça desdobra-se em caleidoscópica cadência, parecendo desabrochar continuamente e fazendo perder a noção do tempo à medida que se expande. Um circulo fecha-se para permitir que outro se abra, infinitamente...
Ao quarto tema, September Full Moon, os Kalacakra despem o sari e embarcam numa longa deambulação acústica, em constante planar e colorida a pastel pela flauta sereníssima. Como se os Incredible String Band ou os Forest decidissem evocar Brahma num improviso folk. Acentuando a estranheza geral da obra, a peça seguinte, Arapathos Circle Dance, oferece o protagonismo a uma convoluta harmónica, que, seguindo as tendências anteriores, é igualmente repetitiva e minimal, rasgando a roda do ritmo. A edição original em vinil termina com um blues intoxicado, primeira e única canção do álbum, e que deriva mais do psicadelismo underground alemão, denso e pesado, que da paz tântrica que o iniciou.
A edição em CD de 2001, levada a cabo pela Garden of Delights, editora germânica especialista em resgatar estes tesouros do fundo do tempo, acrescenta duas criações extra e mais recentes a Crawling to Lhasa. A primeira, Vamos, não é de todo uma versão da endiabrada canção dos Pixies, mas sim um upgrade tecnológico do som hipnótico característico da banda. O segundo, Deja Vu (sic), pouco difere desse, não constituíndo cada um deles nada de entusiasmante. Como na maioria das bandas do primórdios do krautrock, parece que a intrusão da electrónica mais sintética e a tentativa de actualização do som para uma colagem às tendências modernas, apenas esmorece o mistério e o extremismo artesanal e belo que as transformou em algo tão especial e único. Quem quiser os Kalacakra de Crawling to Lhasa, que os procure no vinil e sem extras descoloridos. Encontrará o que precisa para satisfazer os seus desejos melómanos mais transcendentes...

O Rapaz Mal Desenhado

Herói do Lo-Fi, Damon Gough iniciou os seus tímidos passos com uma série de EP's nos finais dos anos 90. Como a rusticidade da publicidade boca-a-boca é quase sempre infalível, estas gravações primárias granjearam-lhe um culto precoce. No virar do século, o homem conhecido artisticamente como Badly Drawn Boy é universalmente aclamado por aquele que continua a ser o seu pico criativo: The Hour of Bewilderbeast. Uma pérola da pop contemporânea, impregnada de canções em absoluto estado de graça. Em 3 anos, Gough afasta-se dos territórios mais familiares a Beck ou ao mais demencial de Baby Bird e enfrenta o mundo com arranjos à Van Dyke Parks, reminiscências folk e composições de uma beleza por vezes frágil, mas de um conteúdo memorável. Ouvido do princípio ao fim, o disco parece um exercício de corte e colagem, onde canções se intercalam com curtos interlúdios instrumentais e os mais variados tipos de sons são atirados às melodias. É suposto o álbum reflectir o ciclo de vida de uma relação amorosa, pelo que se compreende a amálgama muitas vezes desordenada mas sempre bela que o afecta. Revela-se sempre mais coração que razão. Da abertura serena e ensolarada de The Shining ao encerramento acústico, informal e acompanhado a passarinhos de Epitaph, passa uma hora de encantamento. Os temas mais despojados penetram como agulhas e só não acertam em quem nunca amou: ouça-se Fall in a River, Camping Next to Water ou o arrebatado Magic in the Air e sonhe-se com a amante perdida ou a amante impossível. E, já que a idealização veio à tona, quem diz que Nick Drake não parece ressuscitar no Outono verde-escuro da magnífica Stone on the Water?
Once Around the Block e Pissing in the Wind são dois singles de génio. A primeira, que chega a fazer lembrar Golden Brown dos Stranglers, é igualmente uma valsa dourada, com uma lindíssima melodia de guitarra e uma cantilena que penetra a alma; a segunda inflecte subtilmente pela country mais existencial e embala corações no escuro. Ambos os videoclips são de visualização obrigatória: Um porque enternece, outro (com uma soberba Joan Collins) porque comove. Para completar o ramalhete a um disco já de excepção, há que realçar a energia pulsante de Disillusion e o ribombar cintilante mas circunspecto de Everybody's Stalking. Em suma, o ano 2000 poderia ter vivido sem este disco, mas não teria sido a mesma coisa...
Após vencer o marcante (e meter uma boas notas ao bolso) Mercury Prize logo ao primeiro álbum, Damon Gough não editaria nada até 2002, dedicando esse período à divulgação de The Hour of Bewilderbeast em concertos já clássicos pelo insólito e estrambólico que os revestia.
2002 vê, então, a saída da banda-sonora de About a Boy, filme mediano cuja música é uma das boas razões para o ver. Disco à margem, detém um trunfo infalível no persistente suspiro de Silent Sigh, soberba canção e uma das melhores composições de sempre de Badly Drawn Boy. Muito bons são igualmente Something About a Boy e Donna & Blitzen, sendo que o resto do álbum é irregular, um misto de melodias folk e tímidos ritmos hip-hop aqui e ali.
No final desse ano, sai novo álbum, o segundo oficial. Have You Fed the Fish? é o seu nome e os peixes parecem estar já bem gordos, porque todo o álbum parece ser possuído por uma atmosfera balofa, longe das idiossincrassias deliciosas de The Hour of Bewilderbeast. O disco começa bem, com o tema-título a desvelar-se como um misto do Todd Rundgren mais meloso e do Harry Nilsson mais luminoso. Seguem-se dois temas esquecíveis e outro, fortíssimo: All Possibilities, um update contagiante da soul orquestrada dos anos 70, ritmado e saboroso. O yin-yang acústico-eléctrico de I Was Wrong / You Were Right funciona na perfeição, constituíndo o melhor momento do álbum. How cresce a partir da introversão e é banhada por luzes, violinos e sopros que não conseguem esconder a sua timidez. A partir daqui o combóio parece descarrilar-se, devido ao excesso de produção que tira o prazer solitário que tanto cativa à escuta de Badly Drawn Boy. Talvez a única excepção seja Tickets To You What You Need, tema que tresanda aos Beatles mais dados ao vaudeville e, talvez por isso, nos enlaça no seu amplexo.
Novo álbum surge em 2004, desta feita intitulado One Plus One Is One. Obra bem mais apagada que o seu antecessor, torna-se aborrecida pelo marasmo inerente, salvando-se temas simples de inspiração folk, como Easy Love ou This is That New Song. Summertime in Wintertime parece saída das caves do progressivo de inícios de 70, emulando a flauta de Ian Anderson dos Jethro Tull ou as guitarras em linha recta dos Iron Butterfly. O resto perde-se em arranjos desnecessários e um Damon Gough demasiado perdido em delícias domésticas para sair da sua ostra e correr riscos.
O pior acontece em 2006: Born In The U.K. envereda por um território comercialão e facilitista, pleno de melodias polidas e arranjos inchados comprimidos em canções de 4 minutos. Claro que o disco soa bem, a produção é impecável. Mas soa bem no sentido de uma viagem pela auto-estrada ao som da RFM: Não se passa nada digno de captar a nossa atenção, mas também nada nos distrai verdadeiramente da paisagem. Infelizmente um disco esquecível, traz claramente à ideia que foi feito para seguir o trilho do maior sucesso de vendas de sempre do ídolo de Damon Gough: Bruce Springsteen e o seu Born In The U.S.A.. Mas teria sido bem melhor que o trilho seguido fosse o do superior Nebraska...
Uma esperança parece despontar com o último trabalho de Badly Drawn Boy. Is There Nothing We Could Do?, editado em 2009, traz de volta as ambiências genuinamente melancólicas do seu primeiro álbum e parece ver tenuamente despertos de novo os talentos composicionais do artista. Tratando-se de uma nova banda-sonora e não de um álbum propriamente dito, soa a música inspirada em e não a música para inspirar. De qualquer forma, temas magníficos como o que dá título ao disco, Welcome Me To Your World ou Wider Than a Smile ainda arrepiam e renovam a esperança de Damon Gough nos revolver romanticamente as entranhas como no princípio do milénio. E que saudades de preciosidades como esta:

27 de março de 2010

O Livro-Labirinto

É um livro inigualável. O Manuscrito Encontrado em Saragoça, obra escrita em estilhaços pelo aristocrata polaco Jan Potocki no início do século XIX, é inúmeras vezes comparado a clássicos como As 1001 Noites ou o Decameron. Ninguém sabe se o livro foi definitivamente concluído, pois o autor suicidou-se antes da sua edição, deixando fragmentos espalhados pelos mais diversos lugares. Certo é que se trata de um tomo literário arrebatador, labiríntico e esotérico, no qual convivem em igual medida o oculto, o erótico, o sagrado e o profano. O que começa por ser a história de Alphonse van Worden, capitão dos Guardas Valões que decide atravessar a Serra Morena a caminho de Madrid, desenrola-se numa espiral de histórias e eventos, passada em 66 jornadas. Nada acontece por acaso, sendo o 66 o número cabalístico que designa a circularidade. As estranhas e coloridas personagens sucedem-se umas às outras, todas com a sua história própria, todas interligadas. Revolver as páginas é um sonho constante, com o Manuscrito transportando-nos magistralmente para um mundo de fantasia, belo e horrendo, etéreo mas igualmente carnal. Provavelmente, lê-lo somente uma vez não é suficiente para açambarcar todas as suas delícias e mistérios. As interpretações da obra são inúmeras, o seu apelo afecta o mais íntimo de um ser aberto a delírios criativos. Tal como quem vive uma vida cheia não quer morrer sem mais uma emoção, sem mais uma aventura, assim é este livro. Parece conter tudo o que de mais maravilhoso e terrífico se pode deparar a uma fantástica existência humana, em rasgos de imaginação memoráveis. É fabuloso chegar à terceira década de existência e, após incontáveis livros lidos, sentir os prazeres da literatura como se fosse a primeira vez. E fechar as cortinas ao mundo, sine diae, como há muito tempo...


Ilusões Gratuitas

Para além da sonoridade única e fantasiosa, Merriweather Post Pavillion, o já celebérrimo disco do ano passado dos Animal Collective, merece os meus louros por me relembrar Akiyoshi Kitaoka. Seria quase impossível para um jovem estudante de Psicologia como eu era há 10 anos atrás escapar às suas complexas e sedutivas ilusões e deturpações sensoriais e perceptivas. Este psicólogo japonês influenciou de sobremaneira o grafismo directamente derivado de uma Gestalt moderna que transparece no último álbum do colectivo de Baltimore.
Kitaoka possui um site pessoal, onde se podem apreciar atentamente as suas criações, como por exemplo as sobejamente conhecidas Cobras Giratórias. Atentamente é como quem diz, dado que a página alerta para o facto de algumas ilusões poderem provocar tonturas ou enjoos aos observadores mais sensíveis. Pegue-se em Electronic Meditation ou Zeit dos Tangerine Dream como estímulo auditivo (que, aproveitando a intromissão, deram um concerto transcendente e épico de 3 horas no Coliseu dos Recreios quinta-feira passada) e o estrago será ainda mais significativo. Ide, pois, e perdei-vos nestas ilusões.

17 de fevereiro de 2010

Thinking Heads


Se as bandas pop inteligentes fossem partes integrantes de um cérebro, os Talking Heads seriam o seu hipotálamo: demasiado complexos para o seu tamanho, todavia emotivos e influentes nas funções mais básicas. Se é hiperbólico referirmo-nos desta forma ao quarteto nova-iorquino, é porque eles não merecem menos. Durante metade da sua existência foram incontornáveis como banda pioneira e persecutora de novas sonoridades, ideias e cruzamentos. É certo que, em momentos-chave, constituíram o laboratório e o repositório de outra mente brilhante da música moderna, Brian Eno. Exceptuando os Roxy Music, nunca este último esteve tão próximo de uma banda como seu membro honorário como dos Talking Heads. Os U2 pagaram-lhe bem melhor, por isso não os convém deixar ficar mal (never shit where you eat, as they say...), mas presume-se que os Talking Heads terão sido uma aventura bem mais solta e entusiasmante...
Tudo remonta a 1975, ano em que os Talking Heads se consolidam como banda de quatro elementos: 3 estudantes de design (David Byrne, Tina Weymouth e Chris Frantz) e o ex-guitarrista dos Modern Lovers (Jerry Harrison). A sua cidade, New York, atravessava um dos períodos artísticos mais inovadores e marcantes, com a eclosão do esconso CBGB's e a consequente explosão de actos inesquecíveis como os Television, Ramones, Blondie, Richard Hell ou Patti Smith. Os Talking Heads, contudo, não se regiam somente pela electricidade urgente e pela energia despojada da maioria das bandas do punk nova-iorquino. Mais sofisticados e próximos das correntes avant-garde e do art rock gravado com o cunho da Big Apple, embarcam numa sonoridade mais experimental e menos directa, se bem que extraordinariamente melódica e acessível. Logo, mais próxima dos Television e de Patti Smith que dos eternos Ramones...
Após o tradicional circo de demos e singles, o álbum de estreia da banda homenageia o ano da sua edição: 77 é, ainda hoje, um clássico incontornável, um misto de música fresca e ingénua, mas igualmente inteligente e de vistas largas. Estão lá a imortal paranóia dançarina de Psycho Killer, a quietude enganosa que acaba por se esfrangalhar de No Compassion e o trote rítmico altamente intrusivo de The Book I Read. Destaque especial para a primeira canção, Uh-Oh, Love Comes to Town, onde se denotam já ténues nuances de ritmos caribenhos que indiciam as incursões pela world music que os Talking Heads levaram a cabo de forma tão pioneira como influente. Não tão ténues são as vocalizações de David Byrne. Para além de cantar, Byrne parece já encarnar diferentes personagens em cada canção, ou a mesma personagem em diferentes cenários. Os nervos parecem estar constantemente em franja e a realidade, por mais agradável que aparente ser, mal disfarça a neurose subjacente. Byrne parece sempre um homem desconfortável, que esconde qualquer coisa, que desconfia de algo, que tudo lhe causa estranheza. E esta abordagem é uma das relações causa-efeito do génio dos Talking Heads: a neurótica banda simpática.
Em 1978, o som de banda de garagem intelectual apruma-se com a chegada de Brian Eno. O galope nervoso que levanta pó em Thank You For Sending Me an Angel é mais coeso, a música mais panorâmica. More Songs About Buildings and Food, segundo álbum dos Talking Heads, arranca assim, abruptamente, mas a variedade prevalece ao longo dos seus 40 minutos. Existe a guitarra angular e o tom new wave falsamente idílico de The Good Thing. Está lá o ritmo aquoso mas frio do magnífico Warning Sign, com a voz única de Byrne no seu demencial melhor. Junte-se a excelente e levemente subvertida versão do clássico soul de Al Green Take Me to the River à paisagística descrição da América interior pincelada a slide guitar do belíssimo The Big Country e obtém-se um disco ainda melhor que 77.
Os Talking Heads tornam-se um caso ainda mais sério com a edição de Fear of Music, terceiro álbum, datado de 1979 e um dos melhores da década que vem encerrar. Há quem lhe chame art punk e o desígnio encaixa-se bem, não obstante ser uma obra profundamente ecléctica e vanguardista. No campo da música moderna, existem poucos álbuns tão visionários e radicais, mas que conseguem manter audíveis os seus intentos. É este o disco de I Zimbra, peça que faz acreditar que a banda se mudou de Nova Iorque para a Nigéria, provocando a simbiose de influências musicais de ambas no seu ADN. É igualmente o disco de Drugs, bad trip disfarçada de música, e em que o sentimento de estranheza, paranóia e desligamento da realidade quase nos toca a pele. Fantásticas, Cities e Memories Can't Wait assentam em pilares mais convencionais, mas David Byrne consegue, como sempre, virá-las do avesso com interpretações à beira de um colapso nervoso. Tal como em Animals, em que é plausível duvidar da sanidade mental do cantor, nem que seja por um bocadinho. O lirismo inusitado também não ajuda: Air é uma canção de protesto contra a atmosfera...
Nos píncaros, merecem ser colocados dois temas: o magistral disco-sound alienado de si mesmo e anti-festivo de Life During Wartime e a suspensão temporal do onírico e perfeito Heaven. O refrão Heaven, heaven is a place /A place where nothing ever happens é, ao mesmo tempo, calmante e agitador.
Se a banda termina os anos 70 com um dos marcos discográficos da década, irrompe pelos anos 80 de mesma forma. Para além de ser o melhor álbum dos Talking Heads, Remain In Light é um dos 100 melhores discos de sempre da música popular. É o zénite do grupo, a consolidação ideal da parceria com Brian Eno. Imensamente afectado pela música africana, nomeadamente o Afrobeat do genial Fela Kuti, ainda hoje transborda para além dos seus horizontes. Uma produção state of the art de mãos dadas com composições tão inteligentes e originais como acessíveis, fazem de Remain In Light algo diferente de tudo o que se tinha feito até então. Aqui reside o primado do ritmo. Mais ou menos intenso, é ele que dita as regras, que manda o cérebro mover o corpo. A maior parte dos temas é mais longo que o habitual na banda, e eles evoluem e contorcem-se tribalisticamente. Todo o disco é um ritual, hipnótico e libertador. Não existem temas medianos, o deleite e o delírio são constantes. Logicamente, não há fuga possível do omnipresente Once In A Lifetime, um dos maiores sucessos do grupo e o tema mais in your face de Remain In Light. Mas é como um todo (e bem alto) que o disco deve ser ouvido, como um contínuo de ideias em associação livre, uma nebulosa sonora que se expande e se contrai à nossa volta. Favoritos pessoais são o cerimonial de ecos índios em Listening Wind, o trompete de Jon Hassell que se espraia, fumarento, pelo funk minimal de Houses In Motion e o extático e sugador The Great Curve, rasgado a meio pela guitarra diamantina de Adrian Belew. Tudo o resto, um panegírico. Apetece dizer que, nestes tempos, qualquer melómano mais esclarecido que não tivesse os Talking Heads como uma das suas bandas-fetiche, estava morto e ainda não tinha sido avisado...

Byrne & Eno

No período que mediou Fear of Music e Remain In Light, David Byrne e Brian Eno entretiveram-se nos seus tempos livres a criar uma das obras musicais mais importantes da história. My Life In The Bush Of Ghosts, editado em 1981, é um objecto raro, do qual convém aproximarmo-nos com cautela. Quem espera encontrar os Talking Heads sintetizados sai defraudado, pois o máximo que aqui extraímos da banda é a sua aura, as suas influências, o seu interior convoluto. Quem espera encontrar Brian Eno e David Byrne a cantarem alegremente sobre as tapeçarias ambientais do primeiro e a sensibilidade melódica do segundo, deverá dirigir-se ao segundo álbum que a dupla lançou em 2008, Everything That Happens Will Happen Today. Radicalmente diferente, é um disco de belas e plácidas canções, ao contrário do seu estimulante e desafiador parente arcaico.
Em My Life In The Bush Of Ghosts não se ouvem canções. Ouvem-se exercícios de corte e colagem, samples de evangelistas radiofónicos, pregadores irados, exorcistas a exercerem, vozes arábicas a ecoar no éter. Tudo isto entrapado numa vertiginosa roupagem sonora, embrionária de tantos estilos que vieram mais tarde a disseminar-se na electrónica, na música ambiental e na world music. Já tinha sido feito, mas nunca de forma tão subversiva. Verdadeiros agents provocateurs, Eno e Byrne legaram às gerações vindouras uma das primeiras provas de que, na música, tudo se pode imiscuir a bem do produto final. Ouça-se Regiment, The Jezebel Spirit e Help Me Somebody para confirmação. Ouça-se Mountain Of Needles para posterior e total relaxamento...

Na ressaca do pináculo atingido nos últimos 3 anos e com o fim do casamento perfeito com Eno, os Talking Heads iniciaram o seu lentíssimo mas nobre declínio. Esta decadência apenas se fez sentir a nível artístico, pois a nível comercial, foi a partir de 1983, e com o lançamento de Speaking In Tongues que a banda iniciou o seu crescendo. Menos experimental e fora dos limites que os dois poderosos antecessores, é, ainda assim, um disco extremamente chamativo e colorido. Burning Down The House é pop perfeita, na qual os Talking Heads se sentem como peixe na água. O mesmo se pode dizer da contagiante Girlfriend is Better, igualmente irresistível e à espera que lhe saquem a cavilha para providenciar uma explosão dançante. De resto, está lá outro material de fino recorte como a estranha mistura de funk e blues de Swamp e a habitual neurose, coreografada e ritmada, em Making Flippy Floppy. E a belíssima That Must Be The Place (Naïve Melody), em que os músicos trocam de posições e tocam outros instrumentos que não os seus costumeiros. Esta música é a banda-sonora das ídílicas férias balneares da minha infância, nostálgica, pacífica e solarenga...
Na ausência de Eno, era mais que natural que uma personagem como David Byrne assumisse total preponderância no grupo. No fim de contas, quando se fala em Talking Heads é a sua imagem que se materializa desde logo. Iconicamente nerd, Byrne entrevista-se a ele mesmo aquando da propaganda ao seminal filme de culto Stop Making Sense, de 1984, que retrata magistralmente um concerto da banda. E ninguém como ele consegue explicar melhor o nonsense das suas letras e o sentido da sua arte. Eis o resultado:


Em 1985, com o polido e imediato Little Creatures, os Talking Heads conseguem o seu disco mais acessível até à data. E a meio da década do optimismo e da produção musical glossy, canções como And She Was e Stay Up Late servem que nem uma luva. Imerso no júbilo constante, está um clássico incontornável: o magnífico Road To Nowhere, decantando gospel e existencialismo light.
No ano seguinte, vem à tona True Stories, construído à base das canções compostas para o primeiro filme do debutante realizador David Byrne. Bem longe dos estranhos constructos rítmicos e das divagações psicanalíticas de outrora, o álbum sobrevive graças a dois soberbos temas: Dream Operator e City of Dreams, duas quase-baladas encantatórias feitas de melodias widescreen, fáceis de ouvir, mas desavergonhadamente belas. Wild Wild Life é mais um adictivo single de sucesso e Radio Head merece destaque por ter dado o nome ao colossal quinteto de Thom Yorke. Mais banda querida dos yuppies que da tribo punk e arty que os viu nascer, os Talking Heads desta época tornam-se indissociáveis dos anos 80 americanos. Bret Easton Ellis não se cansa de os mencionar nos seus primeiros romances, especialmente no inesquecível e perturbador Less Than Zero.
Naked, de 1986, faz brilhar novamente a ténue centelha dos tempos mais criativos da banda. Mas a produção já não é a mesma e o disco não arrisca de forma tão lunática como antes. Podemos falar numa revisitação à obra-prima Remain In Light, mas sem a espontaneidade de outrora. De qualquer forma, os Talking Heads despedem-se aqui em boa forma, plenos de dignidade e com um grandessíssimo tema de ouvir e chorar por mais: (Nothing But) Flowers, hino ecológico embebido na guitarra fresca do convidado Johnny Marr. A invasão de estilos latinos e africanos, florescente em Mr. Jones ou Totally Nude é sintomática do futuro a solo de David Byrne. Os Talking Heads só viriam a reunir-se em 1991, para gravarem o seu canto do cisne: Sax And Violins, superlativo tema encomendado para a igualmente superlativa banda-sonora do filme Until The End Of The World de Wim Wenders.

É praticamente redundante falar da influência dos Talking Heads na música da actualidade. Nomes como Arcade Fire são flagrantes, assim como os Clap Your Hands Say Yeah e os Vampire Weekend. Até os Tom Tom Club, projecto paralelo levado a cabo por Tina Weymouth e Chris Frantz encontra hoje sucedâneos em bandas como os excelentes Dirty Projectors. Nova banda americana que se preze (os fantásticos Local Natives são os mais recentes...) cita-os e emula-os, directa ou indirectamente, mantendo viva a chama. E, enquanto assim for, as cabeças que já não são falantes, mantém-se presentes como catalisadoras de cabeças pensantes. Same as it ever was...

Crisálida

Os Catapilla são mais uma daquelas bandas que só se encontram se esgravatarmos bem fundo nas areias do tempo. Perdidos no limbo psicadélico de finais de 60 e princípios de 70, deixaram apenas dois álbuns como legado. O primeiro, homónimo, data de 1971 e é um caldeirão iridescente de jazz ácido e rock progressivo desregrado, tão sedutor como esquivo, tão arrebatador como intrigante. É impossível não mencionar Embryonic Fusion, o bacanal sónico de 25 minutos que lhe põe termo. O segundo, Changes, viu a luz do dia no ano seguinte e apresenta-se bem mais interessante e depurado que o seu irmão mais velho.
Guiado igualmente pela parafernália saxofónica do influentíssimo e infelizmente malogrado Robert Calvert e pela voz acrobática de Anna Meek, Changes é um marco incontornável no cruzamento entre a implausibilidade do jazz e a inevitabilidade do rock. Atmosférico q.b., o disco alonga-se por não mais de 4 faixas, todas elas de duração considerável, todas elas perfeitas para meditação, reclusão, desligamento temporário da realidade. Reflections, primeiro tema, desliza como bicho-da-seda sobre folha verde, lenta e viscosamente, o saxofone e o órgão a debaterem-se por entre a voz de Anna Meek, que parece oscilar entre os guinchos de banshee da Kate Bush dos primórdios e a genuína pedrada (herbal ou qualquer que seja...) de Grace Slick. O ritmo é bombeado em força e a velocidade é estanque, sendo o final da peça um ecoante delírio fantasmagórico, inesperadamente acústico e invadido por sombras inquietas, invocadas pela voz de Meek. Diamanda Galás bem poderia ser uma delas, que parecem carpir à distância...
Charing Cross atenua a gélida performance concluída segundos atrás, revelando-se mais morna e dominada pelo sopro melódico mas parcimonioso de Robert Calvert. Protótipo descarnado de canção jazz, inflecte a meio caminho por um ritmo frenético e espacial, não muito longe dos desvarios fora de órbita dos apocalípticos Hawkwind, outro dos part-times do free-lancer Calvert. A terminar, um soberbo e planante solo de guitarra de Graham Wilson, que coloca o tempo em suspenso à medida que se escoa em fade-out.
Thank Christ for George escancara-se à partida como um forte e belíssimo exercício jazz-rock. Traz reminiscências dos magníficos Nucleus e dos seminais Soft Machine, gente incontornável por estas alturas na velha Albion... Anna Meek junta-se à festa, com voz felina e enfeitiçada. A partir daí, a música entra em transe, um transe nocturno e psicadélico da melhor safra, dos que penetram o cérebro e não lhe dão descanso. E o acme chega à quarta faixa. Simplesmente magistral, It Could Only Happen to Me é a melhor criação dos Catapilla. Três minutos iniciais em que o saxofone de Calvert despeja uma beleza e um langor quase seráficos, antes de se deixar impregnar pela guitarra em sinuoso improviso. A envolvência é extrema e, à medida que a música progride, somos enredados num sublime casulo sonoro. É um daqueles temas que só peca por ser escasso e que, ao terminar, nos impele a ouvi-lo de novo.
Como em todas as crisálidas, esta pouco ou nada nos exige em termos de movimentos. Changes é uma escuta incorpórea, ideal para serões solitários em que a alma pede alimento e a mente pede estímulo.

1 de fevereiro de 2010

A Emoção das Máquinas

Os praticamente ignorados Ultramarine introduziram na electrónica dos inícios da década de 90 influências da folk britânica e explorações inteligentes de gentes de Canterbury como os Soft Machine ou os Caravan. Every Man and Woman is a Star, álbum que os deu a conhecer aos poucos iluminados que fizeram caso disso, trazia na bagagem texturas ambientais e elegantes, humanizando a electrónica e desafiando a sua abstracção com samples de Kevin Ayers e dos Matching Mole.
Após esta obra, já de si surpreendente, o duo britânico constituído por Ian Cooper e Paul Hammond conseguiu a proeza de maravilhar ainda mais os adeptos mais livres-pensadores da música dita de dança. Com o lançamento de United Kingdoms em 1993, os Ultramarine juntam-se a uma ténue vaga de criadores de electrónicas e batidas que não se resumem ao minimalismo e à repetição até à exaustão para justificar a toma de MDMA. Nomes como Aphex Twin, The Orb ou The Future Sound of London saíam das respectivas tocas para consagrar o Techno e a Trance como música que também pode ser inteligente, desafiadora e estimulante para lá das fronteiras físicas. Uma fonte de inspiração e de experimentação cujos horizontes são extensos. Os Ultramarine fizeram-no magistral e majestosamente no disco eleito para hoje. Respirando tradição e herança celtas por todos os poros, não conterá propriamente música para acompanhar a leitura d’ O Mabinogion (é demasiado solarenga e beatífica), mas abre a porta a um deslumbrante mundo de escapismo e fantasia. Como se druídas da pós-modernidade se reunissem em Stonehenge e celebrassem com música do seu tempo, mas que não quebrasse a ligação com o mais arcaico; como se as florestas se enchessem de sons festivos e luxuriantes, mas baseados na antiga comunhão entre Homem e Natureza, por antítese à alienação e os excessos que dominam essa relação no presente. Electrónica verde, Techno ecológica.
Todo o álbum encerra uma miríade de delícias que vagueiam entre o tecnológico e o orgânico. A liberdade é total. Repare-se no início da primeira faixa, Source, fabulosa porta de entrada, em que um acordeão nebuloso é digitalmente alcançado, irrompendo daí um ritmo lento e tribal, emparelhado em simultâneo por flauta e maquinaria. Kingdom é a primeira de duas belíssimas canções de travo mais pop às quais o imenso Robert Wyatt dá voz. A flauta que lhe dá personalidade é inesquecível. A outra é Happy Land e possui um interlúdio de saxofone nada menos que fosforescente. Sabendo que o senhor não coloca a sua venerável voz em qualquer palavreado, a primeira é uma adaptação de um poema do século XIX intitulado The Song of The Lower Classes e a segunda uma farsa social dos tempos vitorianos. Basta uma única leitura de ambas, para concluirmos que continuam a ser tristemente actuais...
Ritmos mais vincados e dançáveis surgem em Queen of The Moon ou Dizzy Fox, mas mantendo sempre um sentido de aventura e a frescura melódica dos instrumentos de sopro. A comunhão total entre homem e máquina sente-se na perfeição em The Badger, soberbo tema em que palmas e inflexões de voz aparentemente sem sentido são parte integrante da música, que nos embala a espaços com um violino em arrasto e exala um doce aroma jazzístico. Os ecos de uma Canterbury tornada electrónica propagam-se na flagrante revisitação aos Matching Mole feita em Instant Kitten e na longa deambulação de English Heritage, cujo coda só peca pela escassa duração do devaneio melódico. Percorrendo territórios experimentais mais limítrofes, mas sem nunca descambar no bacoco, Urf ensaia um funk abstracto e o genial Hooter enlaça uma circular cadência rítmica a uma tontura narcótica e constante que faz as vezes de melodia. Provavelmente, o ponto alto do disco. No Time encerra-o subtilmente, fazendo a súmula dos elementos que ficaram para trás. A toada é sombria, quase crepuscular, o saxofone e um velhinho Hammond tomam conta da ocorrência. Aos poucos, dá-se o ocaso e o silêncio instala-se sobre um disco todo ele feito de sensações e que deveria ser alvo de um reconhecimento maior e merecido. No entanto, nunca é tarde...
Em certos momentos, United Kingdoms pode parecer datado, oriundo dos primitivos inícios de 90. Os discos dos Kraftwerk também o parecem e é no seu pioneirismo que ainda hoje reside todo o seu génio, charme e influência. Aliás, como os próprios Kraftwerk afirmaram um dia, as máquinas possuem vida e emoção. Ipsis verbis o que se passa aqui...