19 de junho de 2010

Hipnagogias

Quem, como é o meu caso, anda pela casa dos trinta, terá, certamente, recordações vívidas e saudosas dos anos 80. É muito provável que se lembre do campeonato do mundo de futebol de Espanha, em 1982, que será sempre melhor que todos os que se seguiram; da série Verão Azul; de Margaret Thatcher e do cubo de Rubik; do italo-disco e outros case studies musicais barricados nesse nicho temporal. Quem anda hoje pela casa dos vinte terá somente remotas e primárias reminiscências dessa década. Memórias arcaicas, visões distorcidas, pouco coerentes e nada abrangentes.
Decorreram já uns bons meses desde que a (im)popular revista Wire lançou um artigo onde se debruçava sobre um novo e estranho fenómeno musical. Baptizou-o de Hypnagogic Pop. O rótulo vale o que vale, mas faz algum sentido. A hipnagogia é um estado de consciência alterado, que ocorre na transição entre a vigília física dita normal e o sono natural. Durante a permanência neste limbo, a mente humana é capaz de apreender informação, mas nunca no seu todo. O som específico de uma palavra numa frase, o eco isolado do fragmento de uma melodia, será isso que ficará registado. A memória fará o resto anulando a maior parte desses dados na sua base. Mas o que acontece se esses dados insistirem em permanecer? Aí tornar-se-ão parte de nós, transformando-se igualmente em recordações, mas imperfeitas, inacabadas, pois o cérebro não as captou em total estado de vigília.
São estes fragmentos evocativos que constróem o cerne da pop hipnagógica. Peças soltas, melodias amputadas, o todo diferente da soma das partes. Música composta a partir de samples sensoriais, captados isoladamente com 2 ou 3 anos de idade, sem se perceber o que eram na realidade. Neste sentido, êxitos orelhudos e demodé dos anos 80, passam a ser fonte de inspiração para criações artísticas. Como se o resquício de memória da primeira infância ficasse completo sendo actualizado à luz da realidade de agora. Como se recuperassem memórias de memórias. Nomes como James Ferraro (e seus desdobramentos criativos), Nite Jewel, Gary War ou Pocahaunted editam gravações em cassette e lançam sucessivas obras em CD-R. Peças urgentes ou arrastadas, estáticas e oníricas, são injectadas com partículas de qualquer êxito esquecido do Verão de 1984. O que era foleiro passa a ser inspirador. Bizarro, surreal, mas que compele estranhamente à escuta e que acaba por revelar capacidades alucinogéneas e confontar-nos com as nossas próprias memórias. Outros actos, como o belíssimo projecto Oneohtrix Point Never, Emeralds ou Ducktails centram-se em atmosferas mais ambientais, referências à electrónica alemã mais cósmica e até reabilitações futuristas da maldita New Age. Em todos está samplada a memória, o que foi filtrado antes de adormecer e ficou para sempre acordado neles, bom ou mau.
Para além da alucinação auditiva, os praticantes desta retro futurista sonoridade têm levado a cabo surreais criações visuais, especialmente no YouTube, muitas delas fascinantes. Tal como o som, também as imagens que povoam os vídeos são oníricas, espicaçando o inconsciente de cores garridas e através de formas sem conteúdo. Quase que se poderia falar numa recriação psicadélica dos anos 80, expressão que tem tanto de contraditório como de potencialidade. No caso a seguir, veja-se como Daniel Lopatin (timoneiro do projecto Oneohtrix Point Never) consegue induzir a evocação hipnagógica, bastando para isso samplar um brevíssimo excerto de Lady in Red de Chris de Burgh, associando-o a qualquer efeito televisivo state of the art gravado em Betamax há 25 anos. Os comentários de quem assistiu dizem tudo...

A Marca Amarela

Hypnotic Underworld constitui, até à data, o pináculo artístico dos japoneses Ghost. Monumento da mais recente corrente derivada do psicadelismo, este disco de 2004 é uma simbiose magistral entre o Japão antigo e o Japão moderno. A folk, enevoada e arcana, evocativa de mistérios antigos, cruza-se com a electricidade das guitarras e os estímulos rítmicos. Pelo meio, cirandam mellotrons, harpas, flautas e theremins. O todo é belo, um ponto indefinido no tempo, uma trip pelos milenares matagais nipónicos.
O disco principia na bruma, densa e húmida. 15 minutos de música fumarenta, suspensa e circular, perdida num labirinto escuro e opressivo de folhagens densas e troncos retorcidos. God Took a Picture of His Illness on This Ground, assim se chama a primeira das quatro partes que compõem Hypnotic Underground. Somos como que guiados por uma lúgubre paisagem, que não cativa pela beleza, mas que nos compele a desbravá-la, a ver até onde nos leva. O caos ordena-se em Escaped and Lost Down in Medina, segunda parte do processo de hipnose. Poderosíssimo tema, assenta numa espiral de baixo estonteante, por onde curvas e contracurvas, um saxofone tenta equilibrar-se. A primeira noção de ritmo acaba por surgir, transformando o tema num groove ritualístico que se propaga como fogo. Sucede-lhe Aramaic Barbarous Dawn, curto tema descendente em linha directa do rock progressivo mais vigoroso dos anos 70. A guitarra e a bateria pregam-nos à parede e estreia-se a voz de Masaki Batoh, grave e distante. Leave the World! encerra o subterrâneo hipnótico com um estertor rítmico hardcore de poucos segundos.
A luz derrama-se magistralmente com a cálida e genial versão de Hazy Paradise, original dos holandeses Earth & Fire. Sem dúvida um tema lindíssimo e um convite ao abandono nos seus doces braços, é abençoado pela guitarra feérica do prodigioso Michio Kurihara. Kiseichukan Nite retorna às entranhas do Japão e é temperada levemente a flauta e percussão em surdina. A improbabilidade de uma harpa céltica apimenta de estranheza o tema, mas confere-lhe ainda mais misticismo. A plácida flauta da entrada meditativa e melancólica de Piper não prevê o assalto eléctrico que a invade. Tal como nuvens carregadas que chocam e culminam em relâmpagos, assim é esta canção, um dos temas mais fortes do disco, novamente assaltado pela guitarra de Kurihara.
O passeio por este jardim das delícias oriental prossegue nos 10 minutos de Ganagmanag - jam instrumental, usurpadora, com retoques de jazz sobre a máscara psicadélica. Feed e Holy High são mais duas peças de altíssimo nível, conjugando com mestria sapientes devaneios progressivos a estruturas mais vanguardistas mas sempre tonais e melódicas. A fechar, uma versão altamente personalizada e praticamente irreconhecível de Dominoes, do bardo enlouquecido Syd Barrett, que passa o testemunho a Celebration for the Gray Days. A bruma penetra novamente, o órgão insistente aumenta o dramatismo, uma voz ressoa nas profundezas e a bateria impõe uma autoridade cansada. Lentamente, tudo é engolido, sobrando o silêncio e farrapos da magnífica teia de sons que ficou para trás. Hypnotic Underworld encerra a mensagem de um disco de luto. Luto pela natureza que desaparece, luto pelas tradições ancestrais que se perdem a cada dia que passa, luto pela espiritualidade que o homem moderno abdicou de ter. Por isso e pela excelência criativa, é um dos grandes discos do rock alternativo japonês dos últimos 10 anos.

18 de junho de 2010

Kosmische Kosmetik XIII

É curioso constatar que o primeiro álbum de um dos maiores vultos da música electrónica não contenha electrónica nenhuma. Este oxímoro faz de Irrlicht a obra mais incaracterística de Klaus Schulze, mas torna-a um monolito de beleza desolada.
O nome completo deste álbum de estreia é Irrlicht: Quadrophonische Symphonie für Orchester und E-Maschinen. Trocado por miúdos, o que Schulze construiu foi um conjunto de peças longas e estáticas, moldadas a partir de um órgão eléctrico preparado e de gravações ensaiadas e distorcidas de uma grande orquestra sinfónica. Ao fazer o som regurgitado da miscelânea transbordar pelos poros de um amplificador danificado, resulta um latente, hipnótico e obsessivo eco fantasmagórico dividido em três Movimentos (Satz).
O primeiro, Satz: Ebene, inicia com um gemido de violinos distantes e trémulos, sucessivamente desfeito pelo lento (e pejado de sombras ominosas) órgão amplificado. O tema faz ressoar Ligeti e, mais actualmente, evoca Gorecki, dois compositores aos quais o macabro e o trágico não são desconhecidos. A estática e sombria sonoridade tanto nos pode levitar para remotas paragens cósmicas como nos pode fazer planar sobre as ruínas da bombardeada e desoladora Dresden.
O segundo andamento da sinfonia, Satz: Gewitter, inflecte flagrantemente por territórios da música concreta, tendo como semelhanças com a electrónica somente os laivos reminiscentes dos primeiros experimentos de Stockhausen neste campo. É o momento mais breve do álbum e também o mais pulsante, aquele onde mais se sente o expelir de energia de Irrlicht (alemão para fogo-fátuo).
A terceira e última parte intitula-se Satz: Exil Sils Maria. Trata-se, sem dúvida, de uma das peças mais espectrais e mentalmente penetrantes da kosmische musik. Autêntica viagem ao lado oculto da Lua, este tema só consegue ser rivalizado na sua lenta e densa dança sideral pelas quatro partes do enorme Zeit dos Tangerine Dream. É um drone de 20 minutos que não é deste mundo, ou que, pelo menos tenta não ser. E consegue-o na perfeição. Um facto curioso é que Sils Maria era a localidade suiça onde Nietzsche passava a maioria dos Verões. Especulando um pouco, podemos traçar um paralelismo entre esta peça e Also sprach Zarathustra do conterrâneo de Schulze, Richard Strauss. Para além da referência ao filósofo, há que lembrar que esta última é o tema fulcral de 2001: A Space Odyssey de Stanley Kubrick, filme em que a música de Klaus Schulze se sentiria, igualmente, como peixe na água...
Na reedição de 2005 do álbum, foi acoplada uma quarta faixa, denominada Dungeon. Fora do contexto do álbum que o acolhe, o tema, longo e vagaroso, aparenta já similitudes electrónicas com o que Schulze viria a fazer em breve, neste caso, no mais expansivo Cyborg.
Pedra basilar na afirmação de Klaus Schulze como artista a solo, Irrlicht é um marco na criatividade do músico, que conseguiu, com poucos meios mas muito engenho, criar uma obra à frente do seu tempo. Ainda hoje, 38 anos passados desde o seu lançamento, é uma escuta nada convencional e capaz de pôr em órbita mesmo o ouvinte que tenha os pés bem assentes na Terra.

20 de maio de 2010

A Escolha do Camaleão

Há muito que não se ouve nada novo de David Robert Jones, que é como quem diz, David Bowie. O último álbum de originais desta mais que influente personagem data de 2003 e deixou água na boca a quem lhe prestou a devida atenção. Mas o camaleão calou-se desde esse Reality, mais um marco na excelente forma que estava a conseguir em discos consecutivos desde o final do século passado. Propositadamente ou não, este silêncio tem aumentado ainda mais a parafernália de colectâneas, álbuns ao vivo e bootlegs tornados honestos que Bowie já ostentava com opulência.
No meio do constante revivalismo e consequente e saboroso cash-in, chamou-me a atenção uma compilação de 2008. Mesmo sendo mais uma, iSelect possui a diferença ser composta por temas reunidos propositadamente pelo Thin White Duke, em vez de material seleccionado por indivíduos engravatados reunidos no último andar de uma editora. O que sucede é um conjunto de temas menos conhecidos do grande público, mas queridos do autor e todos com o seu quinhão de génio. À excepção da abertura, consagrada ao épico e imortal Life on Mars?, a maioria dos temas restantes são momentos menos flagrantes da carreira do cantor, dos inícios como bardo da folk lisérgica em The Bewlay Brothers à vitória do estilo sobre a substância do ambíguo Time Will Crawl (que surge aqui remisturado para fazer esquecer o esquecível álbum que o albergou - Never Let Me Down). Da fase algo laxista, se bem que glossy e hiper-produzida dos anos 80, foi incluído igualmente Loving the Alien, talvez um dos poucos temas dessa década dos quais Bowie se pode legitimamente orgulhar.
Como seria de esperar, os desempenhos vocais são excelsos, com ênfase absoluto para o medley Sweet Thing/Candidate/Sweet Thing (Reprise), escuro, arrepiante e inimitável. Fantastic Voyage começa por assistir ao planar da voz até esta se lançar em vôo picado. Teenage Wildlife funde na perfeição os malabarismos vocais de Bowie à guitarra pirotécnica de Robert Fripp. A vaporosa, dramática e exacerbadamente romântica Lady Grinning Soul é um dos slows mais cintilantes do glam rock. Win é a soul de plástico que passeia ao de leve sobre a pele para nos penetrar a alma assim que nos apanha rendidos ao calor da sua investida.
iSelect pode ser mais uma colecção do camaleónico artista, mas uma das mais recompensadoras para os seus verdadeiros admiradores. Aliás, conhecer todos estes temas é prestigiante, pelo que voltar a eles é um prazer renovado. O próprio David Bowie apresenta a história que cada uma das peças encerra em http://www.davidbowie.com/iSelect/. Em vários idiomas, entre os quais o português, que já se viu que o homem gosta de açambarcar tudo.

19 de maio de 2010

Musicofilia

O neurologista britânico Oliver Sacks tornou-se conhecido publicamente muito graças à interpretação que o histriónico Robin Williams fez dele no filme Awakenings. Nessa película, baseada no livro com o mesmo nome e na experiência verídica de Sacks, Robert DeNiro era acordado da doença do sono por uma nova e miraculosa droga. Desde então (corria o ano de 1973), o médico inglês têm-se mantido na vanguarda da divulgação científica ao nível das neurociências, lançando sucessivas obras de interesse inescapável. A sua penúltima publicação, Musicophilia - Tales of Music and the Brain, de 2007, é um livro essencial e magnífico para uma audiência mais voltada para os fenómenos que os sons podem ocultar. Musicophilia relata, em resumo, a forma como o cérebro apreende a música e o porquê dessa amálgama sonora ser tão querida à espécie humana. A música, no dizer de Oliver Sacks, penetra onde nada mais consegue chegar, podendo ser fonte de júbilo ou tristeza, reavivar memórias ou recuperar linguagens.
Situações curiosas, mas reais, não faltam ao longo destas páginas. Dois exemplos deveras bizarros são a história de um cirurgião que, após ser atingido por um relâmpago, se tornou obcecado por Chopin e o caso de um homem que possui uma capacidade de memória de sete segundos para tudo o que apreende sensorialmente, excepto para a música. Incrível é igualmente a explicação de uma patologia denominada amusia, que, latu sensu, significa incapacidade para ouvir música. Indivíduos com este distúrbio, ouvem muitas vezes algo como um batuque de tachos contra panelas quando submetidos, digamos, a uma sinfonia de Beethoven.
Musicophilia é um livro indispensável para todos os amantes de música e para todos os que se interessam pelo funcionamento do cérebro humano, órgão tão grandioso quanto misterioso. Aconselha-se uma visita ao  site do autor, para detalhes das suas obras e busca de informação. Algo me diz que a minha próxima aquisição será The Man Who Mistook His Wife for a Hat. Para além do título, que nos agarra de imediato pelos colarinhos, o conteúdo parece ser igualmente absorvente...

15 de maio de 2010

Introspecções

Os nomes não dizem nada acerca da personalidade das pessoas. Quando se fala em artistas com pendor para um certo misticismo e espiritualidade orientais, tende a pensar-se que devem chamar-se algo como Pandit Pran Nath ou Toru Takemitsu. Tony Scott é um nome que não tem muito de filosofia milenar ou de faquir barbudo. No entanto, este clarinetista norte-americano editou, em 1964 e 1968, dois discos impregnados de savoir faire oriental e tão relaxantes e levitantes como um pôr-do sol em Jaipur ou um olhar demorado pelas montanhas de Shikoku.
Scott é um músico de jazz por excelência, tendo chegado a tocar com estrelas do firmamento do género como Billie Holiday ou Bill Evans. No entanto, uma perene paixão pela cultura oriental levou-o a terras nipónicas onde gravou em 64 o álbum Music for Zen Meditation and Other Joys. Rodeado de músicos japoneses e dos seus koto e shakuhachi, o único elemento jazzístico que flui do disco é o clarinete de Scott. Graças ao seu fraseado suave e circular, o sopro consegue realmente efeitos meditativos. Títulos sugestivos e derivados da poesia haiku como A Quivering Leaf, Ask the Winds ou After the Snow, the Fragrance, elevam a delicada energia que vibra do som.
Quatro anos volvidos, dá-se nova incursão pelos meandros do orientalismo. Desta feita, a travessia é feita pela Índia, ficando para a posteridade com o nome Music for Yoga Meditation and Other Joys. A atmosfera é densa, quase palpável, e os olhos parecem pesar perante o suave mas narcótico esmagamento da associação clarinete / cítara. Os temas são maioritariamente breves e chamados por uma só palavra (Prahna, Samadhi, Hatha...). Em Hare Krishna, uma voz entorpecente faz uma mântrica e parca aparição. O final do derradeiro capítulo, Santi, deixa escapar as sugestivas palavras que acabam por ser a súmula da intencionalidade da obra: Peace Above me / Peace Below Me / Peace All Around Me / Hare Krishna. Tal como o seu antecessor, não há grandes divergências nem fugas à estética traçada durante todo o álbum. Todos os trechos são tijolos coloridos do mesmo muro, assentes num forte espírito de improviso, mas coerentes e estáveis como produto final.
Cada um dos discos é uma obra-prima de música meditativa e introspectiva. Ideal para relaxar e deixar a tocar por longos períodos. Mesmo com o rótulo meditativo, o que se ouve aqui não é nada que se encontre no alguidar das bimbalhices new age ou das nauseabundas pan pipes. É música de qualidade, despida de polimentos, feita por verdadeiros músicos e habitáculo de uma pura e veemente transcendência. Imbuída de ideais que parecem desfasados da deprimente actualidade em que (quase) todos vivemos, mas aos quais é reconfortante regressar...

Atavismo

Em 1971, os Kraftwerk eram uma banda embrionária, com um único álbum lançado e cuja metamorfose electrónica era ainda inaudita. Os Neu! ainda não sabiam que viriam a existir. Florian Schneider (dos primeiros) aparece aqui junto a Klaus Dinger e Michael Rother (dos segundos), num daqueles documentos únicos e históricos que, de quando em vez, um qualquer filantropo lança na web.
A peça do híbrido aqui apresentada intitula-se Truckstop Gondolero. A música é, felizmente, tão cerebral e irreal como o título - um Pangea sonoro inicial que dá consigo a esboroar-se sob uma rudimentar batida motorik. Gravado no lendário programa Beat Club, é a única versão editada e disponivel do tema. Para observar com nostalgia, pois, apesar das imitações, realmente já não se vê disto...

Die Sammlung

A Soul Jazz Records é um nobilíssimo exemplo de divulgação de géneros musicais fora do mainstream e do rebanho das novas tendências. Para além de um trabalho exemplar no lançamento de artefactos obscuros do dub, do reggae e do ska e da recuperação de peças verdadeiramente incríveis e estimulantes do Brasil do movimento Tropicália e dos anos 70, a editora britânica tem dado à luz excelentes gravações oriundas do pós-punk, do disco e de música de altíssimo gabarito, recolhida dos mais insuspeitos cantos do planeta.
Desta feita voltou-se para a electrónica e o rock experimental alemães. E fê-lo com a sageza habitual e o bom gosto dos apreciadores exigentes. Deutsche Elektronische Musik - Experimental German Rock and Electronic Music 1972-83 é uma colecção a roçar a perfeição.
A música que se descobre ao deambular por este disco, é feita de ruptura, de utopia, de idealismo e de romantismo. É arte criada pelos filhos do nazismo, encurralados entre um passado tenebroso e um futuro que não controlam. É um manifesto contra a ocupação, um grito de liberdade e individualidade, uma reacção às melopeias anglo-saxónicas, com as quais não se identificam e das quais não querem ser copistas.
Com o coração no Maio de 68 e a mente na vanguarda e na transcendência dos valores culturais, as bandas alemãs desta época construíram a sua própria linguagem, obstinada e propositadamente empenhada em romper com o passado e com a omnipresença da música inglesa e norte-americana. O que resultou foi descomunal em termos de influência, se bem que, como muitas vezes acontece, os merecidos louros não estejam nas sementes, mas sim nos frutos. É impensável falar de "Heroes" de David Bowie sem falar de Hero dos Neu!; é impossível mencionar The Bogus Man dos Roxy Music sem referenciar o pulsar cadente e monótono dos Can; ouça-se até o fabuloso Real to Real dos Simple Minds quando ainda eram uma boa promessa e denote-se a pastiche perfeita dos Kraftwerk. A espiral prolonga-se até ao infinito, sendo que o rasto ainda pode ser seguido nos mais actuais Deerhunter, The Horrors ou LCD Soundsystem...
É redundante apontar casos pontuais na excelência global de Deutsche Elektronische Musik.... Somente os gigantes Kraftwerk e o catedrático Klaus Schulze se podem apontar como ausências na congregação. Mas essas lacunas possibilitam igualmente a inclusão de actos menos conhecidos, mas igualmente possantes, como é o caso dos Between (envolventes e ritualistas na belíssima Devotion) ou dos Kollektiv (na libertária cosmogonia jazzística de Rambo Zambo). O agrupamento Ibliss apresenta igualmente uma sonoridade solta de jam session na longa High Life e dois exemplos da electrónica menos conhecida mas de créditos firmados surge com os temas de Michael Bundt e Deuter. O primeiro, La Chasse aux Microbes é derivativo dos grandes mestres do futurismo sintetizado, uma peça planante e suspensa no tempo, daquelas que possuem o dom de nos fazerem transcender a nossa própria presença. O segundo, Soham, é espiritualidade electrónica, que ora nos imerge em águas turvas como nos ergue até à luz. A palavra mantra faz sempre sentido na caracterização destas peças, pois parecem despoletar viagens circulares na nossa mente, travessias às apalpadelas pelo nosso próprio espírito, para que seja permitido o tempo e a possibilidade de descobri-lo.
O lauto pedaço que resta é composto por material lendário que todo o melómano que se preze deveria conhecer e que todo o neófito tem o dever de descobrir. Até porque a compilação é devotada ao lado mais acessível e menos carrancudo do Krautrock. Faust, Harmonia, Popol Vuh, Ash Ra Tempel e Cluster são mais nomes do copioso cardápio. Devorem-no!

9 de maio de 2010

Espírito Encarnado


Hoje, pela 32ª vez, é dia de enaltecer um dos mais belos e apaixonados poemas que a língua de Camões e Pessoa nos legou:

Sou do Benfica
E isso me envaidece
Tenho a genica
Que a qualquer engrandece
Sou de um clube lutador
Que na luta com fervor
Nunca encontrou rival
Neste nosso Portugal.

Ser Benfiquista
É ter na alma a chama imensa
Que nos conquista
E leva à palma a luz intensa
Do sol que lá no céu
Risonho vem beijar
Com orgulho muito seu
As camisolas berrantes
Que nos campos a vibrar
São papoilas saltitantes.

8 de maio de 2010

Japrockbible

As bandas rock japonesas foram sempre rodeadas por uma aura de mistério e secretismo. Como se a própria cultura nipónica fosse algo hermético e muito próprio, que pertencesse somente ao país do sol nascente e nunca irradiasse para fora desse ilhéu território. Por mais açambarcadores que sejam da cultura ocidental, fazendo até com que certos actos e artistas sejam mais venerados no Japão que nas suas nações de origem (a célebre e, muitas vezes pejorativa, sindrome Big in Japan), os nativos da milenar Cipango têm mais que motivos para se orgulharem do que criam e exportam a nível musical. Para além de gente universalmente (re)conhecida como os Yellow Magic Orchestra (e o seu filho desviante Ryuichi Sakamoto), Silent Poets ou Pizzicato Five, o Japão detém actualmente uma miríade de grupos e artistas que é obrigatório conhecer. Nomes como Ghost, Boris, Boredoms, Merzbow, Somei Satoh, Keiji Haino ou os Acid Mothers Temple em todas as suas manifestações são exemplos da vanguarda musical única, tremenda e excitante que vai despontando desde há anos por terras do Oriente.
Impecável e meticuloso arqueólogo de sons como é habitual, Julian Cope decidiu agarrar na picareta e na lanterna e explorar os sons mais arcaicos e recônditos do rock japonês. Tal como a essencial obra Krautrocksampler relatou magistralmente o advento da música moderna alemã, este livro narra a história de um Japão pós-bomba atómica e como a música ocidental se juntou às tradições do país para criar algo único, transcendente e metamórfico. Flower Travellin' Band, Far East Family Band, Masakiko Satoh ou Taj Mahal Travellers são nomes a reter e a investigar por entre a parafernália comburente dos primórdios do rock amarelo. A dissecar neste espaço, futura e certamente. Entretanto, nada como beber directamente da fonte em http://www.japrocksampler.com/.

DEVOlution

O álbum de estreia dos norte-americanos Devo soa a um cruzamento entre o primeiro disco dos Talking Heads e os dois primeiros dos XTC, com a mão sagrada de Brian Eno a segurar o ceptro da produção. As guitarras são angulares, os ritmos frenéticos e sincopados, as vozes nervosas e robóticas. A música parece querer renunciar a toda a sua humanidade, apesar do constante encorajamento à "dança". Como se mexer o corpo ao som desta música fosse pura e simplesmente uma consequência mecânica do estímulo e nunca uma reacção emocional. Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! - o título desse disco de 1978 diz tudo.
O que fez dos Devo radicalmente diferentes da maioria das bandas New Wave americanas, foi a adopção de fardamentos e ornamentos que os fazia parecer um grupo de cientistas de laboratório vítimas da sua própria experiência demencial. Aliado à apetência por um catálogo de referências kitsch, como a ficção-científica americana dos anos 60, e a um humor corrosivo e muito próprio, este estilo tornou-os um dos fenómenos mais visualmente fascinantes da cultura popular. A música não foi tão uniforme como os próprios uniformes e é no primeiro álbum da banda que as melhores ideias despontam mas também se esgotam.
Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! possui hoje o estatuto de clássico. É merecido. Com a inteligência suprema de Brian Eno a preencher o disco de pequenas grandes interjeições e sons palpitantes e originais, a obra soa eternamente fresca e desafiante. Tudo acontece a grande velocidade, os temas são curtos e urgentes, catchy e melódicos de uma forma esquisita. Se há corolários a apontar, serão decerto o espantoso e provocante Mongoloid, tema que ainda possui o condão de fazer vibrar qualquer cérebro inteligente, Jocko Homo e a ciência emperrada do seu ritmo e a versão fracturante e praticamente irreconhecível de (I Can't Get No) Satisfaction dos Rolling Stones. Peças mais ortodoxas, mas igualmente excitantes, são o deslizar New Wave das guitarras e do piano em Gut Feeling / (Slap Your Mammy) e a energia quase punk do electrizante Come Back Jonee. Uncontrollable Urge e Sloppy (I Saw My Baby Gettin') são coloquiais e ecos da influência dos supracitados Talking Heads e XTC. Mesmo assim, fazem cair o queixo a qualquer pessoa que não seja surda à inventividade e aprecie em simultâneo abanar o esqueleto. Shrivel Up é o som de Nova Iorque no mais castiço da sua vanguarda, mesmo sendo a banda nada e criada no Ohio...
Provavelmente foram sempre mais imagem que substância, mas é certo que o primeiro álbum dos Devo conseguiu uma pequena revolução. Revolucionou a imagem de muitas bandas, imiscuiu a sátira e a crítica social de forma surrealista e subliminar no contexto das canções pop de 3 minutos e aproveitou as fatiotas amarelas e os chapéus saídos de qualquer personagem de um filme de Ed Wood para conseguir projecção nesse símbolo da música massificada que é a MTV. Que o diga um dos vídeos literalmente mais marados da história, abaixo replicado. Se Eno tivesse vestido o fato de latex de dominador, o que teria feito destes moços...



Kosmische Kosmetik XII

O nome é idêntico ao do célebre romance de Hermann Hesse, mas sairá defraudado quem vier procurar nestes Siddhartha a simplicidade e o Om primordial que transbordam do livro. O único álbum desta banda de Estugarda, datado de 1975, é um disco complexo e denso, onde o virtuosismo mais classicista abraça o mais desgarrado experimentalismo. Looking in the Past, o primeiro tema, é, grosso modo, um trecho para guitarra e órgão, opulentamente arty e progressivo até à medula. Assim sendo, a vocalização de Gabi Rossmanith (algures entre Renate Knaup-Kroetenschwanz dos Amon Düul e a Dagmar Krause do período Slapp Happy), soa estranhamente desfocada do todo, o que confere à peça uma tonalidade ainda mais retalhada.
Tanz im Schnee é um instrumental que inicia a galope os seus 5 minutos, sofrendo várias alterações de passo pelo caminho e atingindo o clímax num ribombar cintilante de órgão. Tema vincadamente clássico, emana fragrâncias do progressivo alemão mais melódico, muito ao gosto dos Grossnicht, e cria texturas para teclado que lembram amiúde os Egg.
A atmosfera mais tristonha que se espera de um álbum intitulado, como este foi, Weltschmerz (A Dor do Mundo), desponta à terceira faixa, contraditoriamente intitulada Times of Delight. Apesar da óptima intrusão de um violino, a predominância instrumental continua a ser dada à guitarra e as teclas, em constante duelo, e, aqui em particular, com um feeling melódico e melancólico sublimes. Cortado ao meio por uma quase-canção, é um tema típico de uma certa angústia tipicamente germânica e que se expressa com todo o seu peso existencial nesta sonoridade. A toada maioritariamente dolente continua em Weit Weg, longo trecho que oscila entre o introspectivo e o exuberante. Elementos novos, como flauta, guitarra acústica e, inclusivé, uma insuspeita tuba, povoam esta extensa peça, que consegue manter-se cativante ao longo dos seus 10 minutos devido às constantes voltas e piruetas que os músicos lhe injectam.
Um órgão chegado à frente e um violino a espreitar por detrás marcam o tempo da derradeira canção do disco, Gift of the Fool. O cinzentismo prevalece, a guitarra lacrimeja e a voz oscila entre a entrega operática e o desligamento espectral.
De Weltschmerz só se pode dizer que é uma obra de saudável incoerência. Um disco inclassificável, daqueles que utilizam toda a paleta de sonoridades possível para expressar os seus intentos. Numa altura em que o período mais criativo e profícuo do Krautrock já seduzia algum mainstream, este disco vem reafirmar que as primeiras intenções desta geração de músicos foi criar arte libérrima e descomprometida, pura e dura na sua obscuridade.