27 de março de 2011

Um Americano em Londres



Joe Boyd é um nome que permanece algo desconhecido da maioria, mas que constituiu um elemento de enorme importância no desenvolvimento musical dos anos 60. Este produtor americano, que trocou Boston por Londres em meados dessa década, tornou-se influente e agitador, privou de perto com os grandes nomes da época e assistiu in loco a episódios marcantes dessa era dourada da cultura popular.
Em White Bicycles - Making Music in the 1960's é narrada, de forma autobiográfica, essa aventura. Boyd, catalisador e produtor de nomes honoráveis como Pink Floyd, Nick Drake, Incredible String Band ou Fairport Convention, demonstra ter sido uma espécie de John Peel da época: um homem que nunca criou música, mas que nunca disso precisou para se afirmar como um dos porta-estandartes da revolução sónica dos sixties. O seu toque de classe fez-se sentir em várias correntes, notando-se sobretudo no rock psicadélico que despontava na altura e nas novas tendências da folk. Uma consistente súmula da sua dedicação à música (e ao cinema, a outra das suas paixões) está disponível em http://www.joeboyd.co.uk/.
White Bicycles colhe, assim, o fruto dessas memórias. É uma obra fascinante, que recupera factos nunca antes revelados e que propicia um acutilante, renovado e - não raras vezes - bem-humorado insight de anos irrepetíveis. Um livro obrigatório para melómanos sem constrangimentos de tempo, escrito pela pena de alguém que soube manter-se lúcido no centro da loucura para poder contar a história.

Future Past


O revivalismo electrónico não mostra indícios de parar. Surgem cada vez mais regularmente projectos que desenterram e devolvem à vida sintetizadores mumificados e sonoridades arcaicas. Um dos mais recentes e interessantes chama-se Giant Claw e é o produto solitário de Keith Rankin, membro honorário da excelente webzine Tiny Mix Tapes. Algures entre as paisagens cibernéticas dos Oneohtrix Point Never e as densas florestas electrónicas dos primeiros Cluster, o recentemente editado Midnight Murder é um solilóquio sintético que tanto nos transporta para jogos de computador dos anos 80 (Big Heat) como nos revolve o cérebro com melodias multicoloridas e infantis (Midnight Chew). Especial destaque para a serenidade minimal transformada em sobressalto de Parallax Border e para a cavalgada espacial de I Know I'm Like a Ghost. Ambos assentariam que nem uma luva nos filmes que Stanley Kubrick nunca fez. Visualmente, o projecto Giant Claw revela-se igualmente interessante na sua miscelânea retro-futurista, que floresce exemplarmente neste tema - e lembra Philip Glass em modo sci-fi...


Alegrem-se agora os amantes da kosmische musik! Rejubilem os tiffosi da electrónica vintage! Em pleno ano 2011 chega um disco capaz de esmagar e enternecer os adeptos da velha escola dos anos 70 e princípios de 80. Chama-se Primitive Neural Pathways e é a mais recente criação de Steve Moore, americano responsável pelo disco revival dos Lovelock e por 50% dos igualmente dançáveis - mas sombrios - Zombi.
Steve Moore tem o poder de assinar um álbum condenado a ser alvo de perseguição e abdução. Um jardim das delícias espacial e sedutor, assente em vórtices melódicos e pulsantes e pleno de ambiências voadoras não-identificadas. Claro que o nome Oneohtrix Point Never vem à baila (Daniel Lopatin é o principal culpado pelo resgate destes eflúvios), mas a influência notória vem de Edgar Froese e dos Tangerine Dream. As reminiscências do melhor Jean-Michel Jarre, antes das namoradas top model e dos espectáculos de luz mais caros que o PIB lusitano (ou seja, dos tempos de Oxygène), são igualmente notórias.
É essa súmula da mais épica e meditativa electrónica europeia que faz de Primitive Neural Pathways um objecto tão belo e especial. Ao contrário do supracitado projecto Giant Claw, Steve Moore capta o sentido melódico em detrimento das abstracções. Daí a latente semelhança com o Jarre de 1976 ou com os Tangerine Dream mais acessíveis de Force Majeure ou Hyperborea. Peças como Orogenous Zones e C Beams remetem para a sensibilidade melódica do francês; o tema-título, Feel the Difference e 248 Years levam-nos às travessias cósmicas dos alemães. Aliás, se os Tangerine Dream lançassem um disco assim neste momento, seria considerado um milagre. E tudo é cozinhado na contemporaneidade, fazendo do álbum um genuíno produto de 2011. Um dos grandes discos de electrónica dos últimos tempos, muito graças ao espírito intemporal que o consome, Primitive Neural Pathways possui o condão de nos retirar deste mundo durante mais de meia-hora. Pode não parecer assim tanto, mas vale muito a pena ser passageiro desta odisseia.

Os dois álbuns acima dissecados não foram lançados em formatos convencionais. Midnight Murder foi apenas editado em cassette e Primitive Neural Pathways em vinil. Mas os seus criadores foram uns mãos-largas: Keith Rankin disponibiliza todas as gravações do projecto Giant Claw neste local. O disco de Steve Moore pode ser escutado, na íntegra, aqui. Não deixa de ser curioso que duas das obras mais retro-futuristas do ano sejam lançadas em formatos retro-elitistas. Uma provável reacção ao facto da música ser cada vez menos uma arte e cada vez mais um produto...

Garage Days II

Os Monks são uma das bandas mais lendárias e proeminentes do chamado Garage Rock. Com apenas um álbum na sua cartilha, datado de 1966, espalharam culto e influência. O punk não teria acontecido sem eles e os ritmos mecanizados do krautrock também lhes devem a sua quota-parte. Tudo começou na Alemanha em meados dos anos 60, quando cinco militares americanos aí em serviço trocaram as espingardas pelas guitarras. Os cabelos foram cortados ao melhor estilo monástico, batinas começaram a ser envergadas e muitas vezes o quinteto tocava com cordas à volta do pescoço. A música era manifestamente anti-bélica, mas o som era rude e a entrega electrizante. Em Black Monk Time, o seu único testemunho, os Monks deram o seu contributo para a mudança da face do rock. Tornaram-na mais feia e agressiva, crua e desmaquilhada. 
Black Monk Time é um disco imparável. Nem as canções de amor acalmam a intensidade constante. A banda parece tocar música com o sentimento de quem disputa uma batalha. Rigorosos e concisos, os Monks mostram ser uma máquina precisa de tocar rock'n'roll. O que não significa que não haja espaço para emoções. Elas estão à flor da pele, febris e directas e deixam-nos sem fôlego enquanto os monges se entregam à penitência do ritmo. Monk Time é das melhores aberturas de sempre de um disco. Um ataque relâmpago, surpreendente e panfletário. O que lhe sucede é um conjunto variado de experiências roqueiras como nunca se tinha ouvido e que soam poderosíssimas ainda hoje. Todos os membros da banda cantam, a bateria nunca se liberta de um transe endemoniado e o órgão de igreja que assalta os temas é tudo menos litúrgico. Há ainda um banjo eléctrico que arranha melodias de barba rija.
A fúria dos Monks encerra 12 temas em menos de meia-hora. Black Monk Time tem sido alvo de reedições ao longo dos anos, mas nenhum dos extras por elas oferecidos chega ao nível da primeira dúzia. Assim, deixem marchar sobre vós os fantásticos Shut Up I Hate You. E deixem-se evangelizar pela espiral frenética de Higgle-Dy-Piggle-Dy e Blast Off! No fim, não há como perguntar onde está a energia das bandas de hoje em dia. Onde está a fúria? Se rock em português significa pedra, então Black Monk Time é a sua pedra filosofal. Para mais informações, é favor visitar o Mosteiro...

15 de março de 2011

Kosmische Kosmetik XXI

A essência dos Popol Vuh e a existência de Florian Fricke cruzam-se e facilmente se confundem. A relação é simbiótica. O lendário músico alemão, pioneiro da electrónica, raiou muitas vezes a genialidade nas suas criações. Hosianna Mantra foi um desses momentos, uma obra que rompe drasticamente com o transe electrónico e as fortes vibrações étnicas dos dois primeiros álbuns do projecto.
Fricke sempre cultivou uma aura mística. Um véu de eremita, reclusivo, raramente exposto às luzes da ribalta. A sua arte reflectiu-o na perfeição. Constantemente transcendental e convidando incessantemente à meditação e ao misticismo, a música dos Popol Vuh sente-se como uma experiência religiosa. E o que se espera de um homem devoto em simultâneo do cristianismo e do hinduísmo revela-se esplendorosamente nesse disco de 1972. O mesmo divide-se em duas partes distintas: Hosianna Mantra e Das V. Büch Mose. Na primeira, domina o espaço e a música flui e respira. Os sons apontam para Oriente, esparsos e solenemente belos, evocando rituais de paz e contemplação. Na segunda, sobrevém um rigor mais clássico, mas igualmente meditativo e beatífico - música de câmara para a alma. O gigantesco Moog que dominava os dois primeiros álbuns dos Popol Vuh, Affenstünde e In den Gärten Pharaos, dá lugar a instrumentos orgânicos, como o piano, o violino e uma tambura indiana. Trechos de guitarra eléctrica etérea e flutuante adornam a fabulosa Kyrie; um oboé cristalino eleva ainda mais a perfeição de Abschied. A voz celestial da coreana Djong Yun é uma luz dispersa pelo disco, mas particularmente no majestoso tema-título, tira-nos o peso do corpo. É também impossível não mencionar a magnífica Maria (Ave Maria), composição apenas dada a conhecer na reedição do álbum em CD, mas que condensa a intencionalidade do álbum: ser um elo de ligação espiritual e místico entre Ocidente e Oriente, assente na mescla de instrumentos e estilos musicais de ambas as culturas.
Florian Fricke não esgotou a sua prodigiosa criatividade precocemente nesta obra-prima. Continuou a tocar-nos com o misticismo e a estranha beleza da sua música até deixar este mundo em 2001. Hosianna Mantra é apenas o ponto de passagem mais delicado, harmonioso e sublime da giesta dos Popol Vuh. E pode muito bem ser o disco mais belo da música alemã dos anos 70...

13 de março de 2011

Garage Days

Há algo de puro e libertador no rock de garagem dos anos 60. Algo de genuíno, virginal até. Antecâmara do punk, caminho de cabras para o psicadelismo, muito do Garage Rock continua a soar tão fresco hoje como há quatro décadas atrás. Tudo graças a artistas e obras que primavam pela irreverência e pelo imediatismo, por jogarem mais com o coração que com a cabeça. O som era crú e primário. Não elaborava as emoções, entregava-as em bruto. Como se o caldeirão efeverescente e hormonalmente instável de uma mente adolescente fosse traduzido musicalmente.
São óbvias as referências dos blues e da forma como eles foram tratados pelos Rolling Stones no primeiro álbum - homónimo - dos Electric Prunes. A música é carnal e sensitiva. No entanto, há algo de transcendente e profano que transforma esta obra primogénita num dos embriões do psicadelismo. I Had Too Much Too To Dream (Last Night) e Get Me To The World On Time são dois clássicos intocáveis, duas das melhores canções dos sixties. A primeira é um clássico absoluto, a placenta do psicadelismo, omnipresente nas compilações do género e absolutamente genial, com uma fuzz guitar a zunir e outra a ecoar como violinos atrás da urgência da voz. A segunda é um exercício pulsante e intenso, um rush emergente e contagiante, de guitarras picadas, voz em lunático crescendo e ritmo sudoríparo.
Construído a propos destes colossais singles, The Electric Prunes apresenta muito mais que complementos às suas duas referências. Destaca-se, aliás, por ser um álbum bastante eclético e que percorre paisagens sonoras variadas, do típico rock de garagem de Try Me on For Size e Are You Lovin' Me More (But Enjoying It Less) ao vaudeville de About a Quarter to Nine e ao psicadelismo polvilhado de jazz do excelente Train For Tomorrow. Sold to the Highest Bidder acelera as guitarras até parecermos estar perante um adulterado agrupamento folclórico grego e não ficaria deslocado num disco dos Beirut ou A Hawk and a Hacksaw. A balada Onie merece idêntico destaque e constitui o momento mais delicado do disco, um sentido monumento ao amor na fase do Clearasil.
Após uma carreira algo errática, os Electric Prunes ainda perduram, essencialmente como banda de concertos, mas este primeiro assomo de 1967 é a sua criação de referência. Um disco que parece ter bebido da fonte da eterna juventude e ideal para satisfazer jovens de espírito.

7 de março de 2011

Cidade Global Alfa Menos


Lisboa é uma cidade fértil em homenagens e louvores. São incontáveis as canções, os poemas, os quadros e os livros que a exaltaram séculos a fio. Vitor Manuel Adrião, historiador, filósofo e estudioso do esoterismo oferece-nos agora uma das visões mais desconhecidas da velha Olisipo. Uma história alternativa, que desvenda os seus mistérios ocultos e mostra segredos em locais que, à primeira vista, parece não terem nada a esconder.
Adrião é um dos mais prestigiados mestres no campo da mitologia tradicional portuguesa. É autor de obras de culto como História Oculta de Portugal ou a enciclopédica descrição da fantástica Quinta da Regaleira - A Mansão Filosofal de Sintra. O gosto pelo hermetismo e a sabedoria acumulada são imensos, como se pode constatar pelos escritos editados. A cidade capital tinha sido já motivo de narração esotérica ha uns anos, no livro Lisboa Secreta - Capital do Quinto Império. Agora, Lisboa Insólita e Secreta apresenta-se como um guia. Um guia diferente, que convida à descoberta dos segredos mais recônditos da cidade e à decifração de enigmas que permanecem fechados aos olhos de quem não é iniciado nestas matérias. Símbolos ocultos, mensagens templárias e arquitecturas cabalísticas são algumas das muitas curiosidades apresentadas nestas páginas. A mesma assume-se igualmente como guia iniciático de uma cidade que, em tempos, chegou a ser projectada como capital espiritual do Velho Mundo.
Os mais cépticos poderão olhar para esta obra com uma ponta de ironia, como um encaixe financeiro esotérico. Mas acredito que os alfacinhas (e todos os que amam Lisboa) se sentirão tentados a pegar neste livro e descobrir uma imensidão de coisas novas em ruas tantas vezes percorridas, em edifícios tantas vezes visitados. Mito ou realidade, edições como esta contribuem em muito para a auto-estima de uma nação deprimida. Para o enraizamento do que está a ser descurado. Quiçá para relembrar que existiu um ideal chamado de Quinto Império...

5 de março de 2011

Kosmische Kosmetik XX

É fácil afirmar que os La Düsseldorf são o filho bastardo e comercial dos Neu!. Após a ruptura do seminal colectivo alemão, o mentor Klaus Dinger apontou os mísseis para um projecto assente na mesma base, porém mais acessível às massas e menos vagueante no conteúdo. Em 1976, com o estandarte do krautrock a começar a ser erguido bem alto pela intelligentsia formada por gente como como David Bowie ou Brian Eno, o trio La Düsseldorf edita um dos álbuns mais bem sucedidos e admirados do género. O verdadeiro disco que espraia a sua influência pelas gerações vindouras e que ajuda à arquitectura do sustento musical de muitos bafejados pela sua inspiração.
La Düsseldorf é uma obra tão cativante quanto visionária. Cruza o típico ritmo motorik dos Neu! e dos Harmonia com um imediatismo visceral quase punk e intuições dançantes que o tornam um objecto ainda mais sedutor. Às vagas sonâmbulas e abstractas dos dois projectos supracitados, os La Düsseldorf respondem com música igualmente expansiva, mas encaixada em padrões mais clássicos e massajantes. As guitarras são mais atrevidas e outra novidade é a voz. Está presente em três dos temas e é lida em letras tão minimais como inescrutáveis. São apenas quatro na totalidade, os ditos temas, mas todos eles podem ser entendidos como históricos. O único instrumental, o sumptuoso Silver Cloud, é a conjugação da frieza com a ambiência que embala o corpo e levanta o ânimo. Típicas atmosferas germânicas, rigorosas mas deliciosas de ouvir.
O lado A do disco ergue-se na perfeição com Düsseldorf e La Düsseldorf. A fixação pela cidade é inquestionável. A primeira homenagem sabe ao prazer do reencontro. A música é extraordinariamente melodiosa, provoca-nos fisicamente, impele-nos a acompanhar o seu trajecto. E tem a bonita duração de 13 minutos. O equivalente krautrock ao sexo tântrico... A segunda começa com cânticos futebolísticos (provavelmente dedicados ao Fortuna Düsseldorf, que conseguiu alguns brilharetes nos anos 70) e constitui um dos momentos mais assumidamente punk da música alemã da época. Enérgica e espontânea, antecipa muitas coisas já em trabalho de parto na Inglaterra e influenciará outras tantas no futuro. O álbum termina em grande com o épico pulsar de Time. Um início em surdina, que se expande em meditativas mutações, da monotonia ao escapismo, até ao alívio da explosão final - e ao retomar do segundo zero.
Mais que um derivativo dos Neu!, os La Düsseldorf apresentam-se ao mundo em 1976 com uma linguagem renovada. Menos fechada na concha hermética da Arte e na seriedade da experimentação, mais aberta às possibilidades da fusão e da exibição. La Düsseldorf é um dos discos mais influentes e perenes da segunda metade dos anos 70 e é tarefa simples defini-lo numa só palavra: Essencial.

23 de fevereiro de 2011

Lava Celestial


Raras são as bandas que podemos considerar absolutamente inovadoras. Detentoras de uma personalidade própria e inventoras de uma linguagem única. Os franceses Magma foram e serão sempre um caso à parte, estranhos demais para o mainstream, demasiado imiscuídos na cultura popular para serem eruditos.
Rezam as crónicas que Christian Vander teve uma visão. Não faltavam músicos nos anos 70 que tivessem visões - muito graças às substâncias que corriam livremente por esses tempos -, mas a visão de Vander foi de tal modo intensa e perturbadora que mudou para sempre o curso da sua existência. Este virtuoso baterista francês, herdeiro directo da velha escola do jazz, anteviu um futuro negro, decadente e convoluto para a humanidade (mais ou menos o que estamos a viver agora...). E decidiu comungá-lo através da melhor forma de expressão ao seu alcance: música visionária.
Todo o imaginário dos Magma parte de uma estética conceptual. Um grupo de humanos deixa a devastada Terra e fixa-se num planeta imaginário chamado Kobaïa. É nesse mundo ficcional que decorrerão estas crónicas épicas e que constituem as principais obras da discografia magmática. Christian Vander levou de tal forma a sério a construção deste universo paralelo, que inventou uma linguagem própria (o Kobaïan) para acompanhar as suas criações. Este peculiar idioma faz-se ouvir ao longo dos discos da banda, assemelhando-se a mais um instrumento na complexidade do conjunto. A imagem adoptada pelo colectivo foi igualmente estilizada ao pormenor, com os seus membros a aparentarem mais ser parte de uma frota espacial que músicos:


Musicalmente, a forma mais fácil de encaixar os Magma foi no rock progressivo. Mas a sonoridade do grupo e as suas influências transcendem em muito os arquétipos deste estilo. Os dois primeiros álbuns dos franceses, os excelentes e influentes Magma (Kobaïa) e 1001º Centigrades são massivamente contaminados por sombras de música clássica contemporânea e, sobretudo, pelo jazz, sendo que John Coltrane é a eterna inspiração do líder Christian Vander. As composições são complexas e artisticamente arrojadas, nos antípodas de tudo o que o universo rock tinha conhecido até então. Ainda hoje é impossível não ser invadido por um sentimento de estranheza e desorientação perante peças tremendas e frenéticas como Kobaïa, Aïna, Nau Ektila ou o estonteante Rïah Sahïltaahk. Imagine-se o resultado se esta música fosse gravada sem as contingências de produção dos inícios dos anos 70...
Em 1973, Mekanïk Destruktïw Kommandöh vai ainda mais longe na inovação e inventividade do conjunto. Verdadeira ópera alieníngena e marcial, intensa e abrasiva, é muitas vezes considerada a Carmina Burana do rock. Para além da constante vertigem, a estrutura similar à obra de Carl Orff revela-se, quer em termos da utilização de vários coros, quer na utilização massiva das percurssões. M.D.K. celebrizou-se por inventar um estilo per si. Uma corrente desviante do rock progressivo denominada Zeuhl. Zeuhl significa celestial na linguagem Kobaïan inventada por Christian Vander, mas esta música não nos leva propriamente ao céu. Leva-nos para os confins do Universo. Uma miríade de bandas, derivadas directa ou indirectamente dos Magma, brotam desta corrente, sendo os casos mais notórios Univers Zero, Zao e Dün. Estes últimos editaram apenas um único e muito recomendável disco, o magnífico Eros. A sonoridade Zeuhl assenta no cruzamento entre a música clássica e a música contemporânea, na fusão entre rock e jazz e na alternância entre momentos de agressividade com outros mais atmosféricos. É uma música escura e quase ritualística, da qual o insano De Futura - presente no álbum Üdü Wüdü, de 1976 - é um bom exemplo...



Köhntarkösz, de 1974, inicia uma nova fase na existência dos Magma, fase essa que se prolonga até hoje. Deixando Kobaïa em pousio, Vander e as suas hostes debruçam-se agora sobre questões existenciais. Segundo tomo de uma trilogia terminada em 2009, Köhntarkösz conta a história de um faraó egípcio que teria alcançado a chave para os segredos do Universo e da imortalidade e do arqueólogo moderno que as tenta desvendar. Como é normal nos Magma, o enredo é cabeludo, mas a música é devastadora. Köhntarkösz (Part I & II) são duas das melhores criações da banda, impressionantes e penetrantes mesmo sem fazer uso dos cânticos repetitivos e hipnóticos do grande Mekanïk Destruktïw Kommandöh. Coltrane Sündïa é um raro momento de paz nas erupções sónicas do colectivo, mas constitui uma sublime elegia a John Coltrane.
As edições dos Magma escassearam a partir de 1976 e estagnaram durante 20 anos a partir de 1984. O regresso fez-se em 2004 com K.A. (Kohntarkosz Anteria), disco que recupera magistralmente o Zeuhl em pleno século XXI. K.A. funciona como prólogo a Köhntarkösz e é composto por 3 extensas e densas peças. Incrivelmente, há americanos evangelizados pelos Magma e esta crítica surpreendente da revista online Pitchfork define como ninguém o que se passa no disco....
A trilogia termina em 2009 com Ëmëhntëhtt-Ré, álbum que mantém a mesma forma do seu antecessor e que gravita em redor da essência dos Magma dos anos 70. Mesmo sendo Vander e a esposa Stella os membros que restam da formação original, a sonoridade que comporta os elementos clássicos do colectivo está presente por inteiro. Funëhrarïum Kahnt é gótico à moda dos Magma e as quatro partes de Ëmëhntëhtt-Ré recuperam a tríade cântico operático - música clássica do século XX - jazz de fusão na qual assenta o som único e desafiante dos franceses.
Não é fácil gostar dos Magma, tal como não é fácil entendê-los. É um grupo bizarro, que desassossega. Que tanto canta o fim do mundo, como a busca da luz e da espiritualidade. A sua sonoridade é a de um planeta em rebuliço, alienado da sua identidade. E não deixa de ser curioso que o globo pareça estar em muito piores condições actualmente, que quando Christian Vander teve a sua "visão". Seria profecia? Certo é que não há bandas nos dias de hoje a traçar o retrato fiel e negro do mundo, ou pelo menos o que ele merecia. Talvez os Radiohead, que estão de volta com mais um disco para nos assombrar. Mas esses estão demasiado encafuados no seu próprio útero misantropo para se preocuparem com activismos... Os Magma podem muito bem ser (ainda) o grupo a dar como exemplo a seguir quando se diz que a música de hoje em dia é demasiado tépida, narcísica e esquecível. Cópia de cópia de cópia de cópia...
Terminemos então com um agradável espaço de consulta do legado de Christian Vander. No site 7th Records é possível encontrar vídeos e temas dos Magma, assim como entrevistas e artigos de imprensa. Agora e sempre, nas palavras de um dos poucos bateristas-líder da história da música (e um dos melhores), à la recherche de la musique suprême. Ei-lo em acção, no misto de paixão e técnica que sempre o têm caracterizado, num excerto de K.A. III...

15 de fevereiro de 2011

Psychedelic Warriors


Expelidos do multicolorido ventre do psicadelismo londrino de finais de 60, os Hawkwind ficarão para sempre reconhecidos como os criadores do space rock. Ao estilo já lisérgico e fantasista praticado pelos Pink Floyd ou Soft Machine, a banda de Ladbroke Grove acrescentou elementos de electrónica, ficção científica, impressionismo visual e um consumo de drogas ainda mais monstruoso. Mas a maior trip de sempre do rock'n'roll (ou a segunda maior, se contarmos com os igualmente excessivos Grateful Dead) não nasceu com um pé em Vénus e outro em Marte. O primeiro álbum - homónimo - de 1970, é um disco de loucura controlada, mas que já olha os céus com desejos de os desbravar. É terreno na sua essência, com o arranque em contornos folk de Hurry on Sundown e com Mirror of Illusion a despedir-se em ecos de canção pagã. Momentos embrionários de desvario sónico surgem na jam session densa e pedrada de Seeing It as You Really Are e no martelar cerebral do magnífico Be Yourself. Sem ser lendário, Hawkwind conseguiu fazer gravitar em torno da sua órbita irregular um aglomerado de hippies, freaks e inadaptados no geral, que se tornariam o núcleo seguidor do grupo.
Em 1971, com a edição de In Search of Space, o núcleo expande-se e os Hawkwind cimentam a base da sua imagem e sonoridade. Personagens de referência, como o escritor de ficção científica Michael Moorcock e o jornalista / poeta Robert Calvert, ajudam a construir o imaginário da banda. O carismático Calvert acaba por ser o frontman não-oficial durante a fase mais criativa da congregação. Entra em cena igualmente a exótica e opulenta dançarina Stacia , figura central nos ritualísticos espectáculos da banda. Senhora perante a qual ninguém fica indiferente, Stacia apresentava-se em palco nua, simbolizando a Mãe Terra ou uma moderna Deusa da Fertilidade. E as danças duravam horas, culminando numa sadia confraternização...
O pivotal In Search of Space guarda alguns dos melhores momentos dos Hawkwind. É o álbum de Master of the Universe, tema alucinado e propositadamente monótono, que nos enfia num fato de astronauta e nos põe à deriva na escuridão sideral, sem esperança de voltar à nave. As delícias cósmicas invadem e adulteram a mente mais incauta em You Know You're Only Dreaming e You Shouldn't Do That é a quintessência dos Hawkwind: quinze minutos de insanidade total e de obliteração do raciocínio em favor da sensação mais primária. Esta música acerta directamente no Id sem fazer pontaria.
O disco foi reeditado em meados dos anos 90 com alguns extras, sendo que merece destaque a inclusão do single Silver Machine e do respectivo lado B, Seven by Seven. Ambas são peças marcantes na trajectória do grupo; a segunda pelo fustigante ritmo e a espiral de theremin que a transformam numa queda num vácuo negro e glacial; a primeira, por ser a canção mais conhecida e bem sucedida da cartilha dos Hawkwind. Rock'n'roll de primeira água que, para além desse mérito, apresenta ao mundo o novo membro da banda: o icónico Ian "Lemmy" Kilmister.
Com a inclusão de Lemmy, o som da banda torna-se mais duro, ao mesmo tempo que mantém os tão preciosos e extremos devaneios psicadélicos. O terceiro álbum, Doremi Fasol Latido, quase pode ser apelidado de cosmic metal, tal é o peso e a densidade das guitarras e a velocidade vertiginosa a que a maioria dos temas se desenrola. A perda total de contacto com este mundo continua, felizmente, assim como a estrutura básica e minimal dos temas: poderoso riff introdutório, melodia vocal catchy e subsequente queda (ou suspensão) num buraco negro musical. Brainstorm e Lord of Light são magistrais e avassaladoras viagens à velocidade da luz, e quem entra na nave-mãe já não sai, ou sai para sempre alterado... O peso das substâncias manipuladoras da consciência sente-se como nunca no cântico repetitivo e entorpecente de Time We Left This World Today, tema que devia vir com o rótulo listen with care. Respiram brisas acústicas em duas peças igualmente belíssimas: Space is Deep e Down Through the Night. Mas a falta de oxigénio apodera-se de ambas e as escotilhas fecham-se ao som da electrónica flutuante para mais um mergulho vertiginoso na imensidão negra e sem vida.
Em 1973, os Hawkwind gozam o seu período de maior impacto e exposição. A crítica aprecia-os e o recentemente ex-Roxy Music Brian Eno afirma considerá-los a sua banda preferida. Aliás, são bem audíveis harmonias e melodias derivadas da trupe no seu primeiro disco a solo - Here Come the Warm Jets - sendo caso flagrante Needle in the Camel's Eye. Como resultado das apocalípticas, surreais e bem compostas experiências em concerto do colectivo, sai nesse mesmo ano Space Ritual. É, em absoluto, um dos melhores álbuns ao vivo de sempre. Constitui o apogeu da experiência Hawkwind e é o único disco verdadeiramente imprescindível em qualquer colecção de qualquer bom chefe de família. Um amigo londrino que os viu ao vivo nesta tournée disse-me que a experiência visual era de tal forma alucinante que só as duas filas da frente olhavam para o palco. As restantes olhavam para cima e para trás. Pelo que se ouve no disco, acredito piamente. Uma espécie de rave party avant la lettre... O tempo parece parar, enquanto a música nunca pára. O oceano de guitarras escaldantes, audio generators subliminares, bateria incansável e vozes alieníngenas projecta-nos para um local onde ninguém conseguiu chegar até hoje no universo rock. Se os Verve tivessem pensado neste disco, nunca teriam escrito The Drugs don't Work...
Para compreender um pouco este fenómeno e como os Hawkwind funcionavam nestes tempos, nada como dar a palavra aos intervenientes neste documentário que a BBC dedicou à banda e que vale a pena ver por inteiro:



Os Hawkwind curam a ressaca de Space Ritual com um improvável e brilhante disco, muito provavelmente o melhor da sua longa existência. Hall of the Mountain Grill vem provar que há vida para além das diatribes lisérgicas extensas e descontroladas do grupo, sem haver perda da sua identidade, teatralidade e intensidade. Este LP de 1974, solidíssimo e coerente do princípio ao fim, mostra uns Hawkwind mais focados e menos lunáticos, concentrados num formato de canção mais clássico, mas ainda perfeito para fazer as delícias auditivas dos leitores da Colecção Argonauta. The Psychedelic Warlords (Disappear in Smoke), D-Rider e Paradox são três das melhores composições de sempre do colectivo. A pura desbunda parece agora entremear com atmosferas mais desoladoras, as melodias arrastam consigo arranjos mais low key e o paganismo dos primeiros discos dá lugar a um niilismo latente. O tema-título e Wind of Change, ambas instrumentais e soberbas, consubstanciam este escurecimento, derramando uma melancolia que apenas gotejava em momentos passados.
No ano seguinte, vê a luz a última grande obra dos Hawkwind: Warrior on the Edge of Time. O disco prossegue (e bem) a linha do seu antecessor, mas a estética sci-fi é trocada por roupagens descendentes directas do imaginário Dungeons & Dragons. Os dois primeiros temas, Assault and Battery (Part 1) e The Golden Void (Part 2), provam que a banda continua a ser capaz de produzir pequenos épicos geniais. Opa-Loka é uma carga a galope sobre as hostes inimigas, batalha interminável travada na bruma. O que sobra é um conjunto de temas fortes e bem estruturados, menos loucos e tresloucados que há um par de anos atrás. É aqui que Lemmy é despedido (conseguia ter um estilo de vida ainda mais decadente que os seus colegas...) e que outra história (gloriosa) começa por ele a ser escrita. Curiosamente, escreve-se com o título da última faixa da reedição de Warrior on the Edge of Time: Motorhead. Escusado será dizer que quem não conhece a banda homónima, mas com umlaut no segundo o, merece assistir acorrentado a todos os programas Made in Portugal apresentados por Carlos Ribeiro...
Sai Lemmy, Calvert volta a ser o capitão da nave e os Hawkwind vão deixando de ser o que eram. Astounding Sounds, Amazing Music, disco de 76, é uma obra agradável mas sofrível, tendo em conta a imponência do passado recente. 1977 recebe Quark, Strangeness and Charm, o verdadeiro último estertor da banda e um cruzamento bem sucedido entre o space rock e as sonoridades new wave que despontavam na época. A transição está bem patente nesta aparição ao vivo no curto programa musical de Marc Bolan.



A existência dos Hawkwind perde relevância a partir de finais dos anos 70. Apesar de parcialmente esquecido, o colectivo continua a editar discos até hoje. Uns piores, outros melhores, percorrendo variados géneros, mas nada com a relevância e o poder das cinco primeiras criações. Os melómanos mais obsessivos poderão encontrar boas súmulas da sua obra remota e recente em compilações como The Weird Tapes ou Epochelipse. A década de 90 assistiu a um ressurgimento da banda, muito graças à rave culture e ao espírito livre e ecuménico cujo estandarte ela sempre ergueu. Dave Brock é, actualmente, o único membro da formação original. É também um dos fundadores e o seu principal mentor ao longo dos últimos 40 anos. Neste momento, os Hawkwind são ele. Resta saber o que serão quando ele já não for. A única garantia é que os guerreiros psicadélicos já conquistaram a eternidade neste canto remoto do Universo.

30 de janeiro de 2011

La Blogothèque


La Blogothèque tem vindo a mostrar novas formas de ver música e da música ser vista. Criada pelo cineasta independente francês Vincent Moon, esta iniciativa pretende despojar as bandas e os artistas dos adereços e do supérfluo, mostrando as raízes da música e os seus intervenientes num trapézio sem rede. Sediada em Paris, La Blogothèque tem-se caracterizado pelos seus vídeos simples mas poéticos, de um romantismo a que só o cinema de autor pode almejar. O imprevisto domina, muitas vezes, as actuações e a sua captação. Os chamados Concerts à Emporter ou Take Away Shows podem ocorrer em cafés, bares, ou em plena rua. Nada é ensaiado nem arquitectado, projecta-se apenas a emoção do momento e a limpidez desmascarada do som. São mais de uma centena, os actos presentes no site de La Blogothèque. Actos que se renderam a este formato e que são tão variados e consagrados como R.E.M. ou Sigur Rós.
O exemplo abaixo caracteriza na perfeição a estética desde projecto. Uma belíssima canção num espaço público, que lhe acentua ainda mais o sentimento de desejo e solidão. Encontro perfeito entre a excelência do músico e inventividade da filmagem...

Ponto de Fusão

In a Silent Way ocupa um lugar peculiar na interminável discografia de Miles Davis. Arrumado entre os indícios de fusão de Filles de Kilimanjaro e o monumental Bitches Brew, este álbum de 1969 pode ser reconhecido como o primeiro disco eléctrico do maior trompetista de jazz de todos os tempos.
É uma obra discreta, nocturna e algo misteriosa. Arrasta consigo um luar majestoso e uma aura de film noir. Possui a estrutura de uma sinfonia clássica, com os seus dois temas subdivididos em 3 movimentos cada, ouve-se como um disco de rock progressivo e sente-se como um disco de jazz. Parece confuso, mas quando chegamos a It's About Time, segundo movimento da circular In a Silent Way, tudo se conjuga com uma limpidez ofuscante. Piano eléctrico, guitarra eléctrica, órgão, trompete, baixo e bateria fundem-se, complementam-se, afastam-se e enlaçam-se, soprando-nos ao ouvido que estamos perante a mais bela abstracção musical que foi inventada. Algo intemporal e indefinido, mas que não apetece parar de ouvir, tal como olhar para um quadro de Jackson Pollock e não tentar explicar. Antes disso, embrenhámo-nos na cinemática e hipnótica Shhh/Peaceful, peça que se move como um felino na noite, deslizando pelas sombras como a trompete de Miles e sempre de atalaia como os címbalos incessantemente varridos de Tony Williams. É música pintada de negro e azul, quente e sensual, uma especiaria sonora.
In a Silent Way é um disco para ser ouvido do princípio ao fim, sem interrupções que quebrem a espiral do seu círculo e o feitiço que conjura. O seu ecletismo transforma-o num disco para noites solitárias, para um whisky à média-luz, ou para fazer ressoar como seda em íntima cumplicidade. A partir daqui, já não sabemos se podemos continuar a chamar jazz à arte de Miles Davis. Sabemos, isso sim, que se seguiu uma imensidade de música genial, única e pioneira. Acólitos fiéis como Jaga Jazzist ou Cinematic Orchestra ainda andam por aí a comprová-lo...

A Persistência da Memória

O fenómeno rotulado de Hypnagogic Pop parece estar longe de se esgotar. Já dissecado neste espaço há alguns meses, parece manter uma inesperada relevância na cultura alternativa. A própria revista online Pitchfork, uma das mais influentes e interessantes publicações musicais do presente, criou um site paralelo que, praticamente, investe tudo neste movimento. Denomina-se Altered Zones e está pejado de imagética retro, referências culturais kitsch dos anos 80 - da música à ficção científica - e de projectos que dão os primeiros passos dentro de um género tão experimental e underground como estranhamente familiar. Parecem terem voltado as edições em cassette e CD-R, repletas de sons saídos do subconsciente como esqueletos coloridos do armário. A maioria desses projectos assenta num regime forçado DIY, é charmosamente artesanal e é tão futurista que parece termos chegado ao século XXV de Buck Rogers e à sua verdadeira banda-sonora original. Esta influência primitiva, ou o uso de estéticas e de ferramentas do passado para desenhar a música do futuro, tem-se espalhado por vários géneros, sendo que a música electrónica e o hip-hop são as mais contaminadas neste momento. Vale a pena estar atento a projectos como Stellar Om Source, Innercity ou Hype Williams, pois nunca se sabe se uma parte do devir não estará nas suas mãos embrionárias... Entretanto, nunca é demais relembrar dois actos que transitam directamente do sonho diurno hipnagógico e que editaram dois dos melhores discos de 2010: Os Rangers e a sua sonoridade algures entre o cinzentismo suburbano e a luminosidade do mainstream dos anos 80 e o regresso aos paraísos estivais da adolescência de Ariel Pink's Haunted Graffiti. Recordar é viver, já dizia Vítor Espadinha, um possível alvo de samplagem numa possível hipnagogia lusa..