27 de julho de 2011
Beef do Vazio
Unconditionally Guaranteed e Bluejeans & Moonbeams são tidos como os pontos mais baixos da obra de Captain Beefheart. Erros de percurso em que o experimentalismo cedeu ao comercialismo, em que os fãs antigos se sentiram defraudados e em que os fãs novos... bem, quais fãs novos?
Ambos estes discos de 1974 quase arruinavam a reputação de Don Van Vliet ao mesmo tempo que não lhe permitiram transpor o portal que dá acesso ao sucesso massificado (se era mesmo isso o pretendido). A emblemática Magic Band, que o acompanhava desde os primórdios, chegou a ser apelidada Tragic Band. Beefheart portava-se quase normalmente na televisão (ver vídeo no final). Que aberrações eram estas!?
Hoje, quase 40 anos passados da sua edição, será que estas obras continuam a ser malditas? O Escrito no Som, imbuído do seu espírito de harmonia e apaziguamento, coloca-os na mesa de operações.
Para começar, Unconditionally Guaranteed mostra na capa Captain Beefheart agarrado a um maço de dólares. Das duas uma: ou este gesto faz parte da sua ironia habitual, ostentando que fez um disco somente pelo dinheiro, ou então fez mesmo um disco somente pelo dinheiro. Outra coisa é o facto de Beefheart estar, por estes dias, apaixonado e recém-casado com a senhora Jan Van Vliet. Em circunstâncias normais, isto é motivo de júbilo. Para um artista como este, é um pesadelo. Ouvir o homem que criou uma das obras musicais mais surrealistas e abismais do século XX (Trout Mask Replica, obviamente) a cantar algo como Happy Love Song é como beber óleo de fígado de bacalhau puro. Por entre a tepidez geral e constante, há algumas canções que sobressaem e se insinuam num estranho chove não molha. This is the Day e Magic Be são pérolas incaracterísticas. Certamente seriam apreciadas noutro personagem que não Captain Beefheart, o que suscita o interessante debate de como os artistas ficam involuntariamente presos aos rótulos - sejam eles bons ou maus. I Got Love on my Mind é um blues-rock enérgico, mas que nunca infringe a lei. Apenas Upon the My-O-My traz ténues reminiscências do passado mais experimental e transgressor. Os restantes temas enchem chouriços na perfeição. A frase 100% Pure and Gold, inscrita na capa do álbum, só pode gozar literalmente com o ouvinte. 25% seria a percentagem correcta.
Bluejeans & Moonbeams começa melhor que o seu predecessor. Party of Special Things to Do avança com algum do veneno vocal e rítmico que os beefheartianos tanto adoram. Logo a seguir, o tratamento dado a Same Old Blues supera o original de J.J. Cale. Não profana os blues tanto como seria desejável, mas mantém a decência. E eis que surge Observatory Crest para salvar em definitivo a honra do convento. Nos meandros da atmosfera ofuscante, de um estio abrasador, palpita um psicadelismo puro e acessível que não se conhecia no Capitão desde Safe as Milk. Infelizmente, o combóio descarrila a partir daqui. Nenhuma das peças seguintes supera o que ficou para trás e somente Further Than We've Gone e o tema-título conseguem deixar algo de memorável. Nem que seja pela impressão que esta encarnação da Magic Band está a emular o rock progressivo ou as paisagens mais açucaradas da música dos anos 70. Em mais nenhuma fase de Beefheart se conseguem escutar solos de guitarra planantes ou teclados com priapismo...
Até hoje, é difícil descortinar se Don Van Vliet agiu deliberadamente na criação destes dois registos ou se foi coagido para tal. Há quem culpe a falta de carisma da banda ou o facilitismo na produção de Andy DiMartino. Certo é que não se ouviu falar em Captain Beefheart nos quatro anos que se seguiram. Mas a fera que parecia dopada e à beira de cair no abismo do mainstream regressaria para nos presentear com mais três discos até à sua retirada final em 1982. Três discos à (sua) moda antiga, desafiantes, intrigantes, imprescindíveis.
Mesmo assim, não existem razões para obliterar totalmente Unconditionally Guaranteed e Bluejeans & Moonbeams. Com a mediocridade criativa facilmente audível que prolifera por aí, é provável que alguns músicos doassem um rim para os fazer. Aqui foram a excelência previamente alcançada e a fasquia muito alta que tramaram Don Van Vliet. Voltar a estes discos de quando em vez não provoca micoses. Mas que nunca sejam glorificados. Isso seria como ver-me a festejar um golo do FC Porto, ou a comer sardinhas assadas com Coca-Cola. Nunca se sabe se poderá vir a acontecer, mas é extremamente improvável...
12 de julho de 2011
West Coast Blues
Dennis Wilson sempre foi o menos conhecido dos manos Wilson e o menos proeminente dos Beach Boys. No entanto, era o único verdadeiro surfista de uma banda pivotal na cultura do surf. Este é um dos muitos paradoxos da vida pessoal e musical do baterista dos ícones californianos. Foi o mesmo rapaz sorridente que apresentou Charles Manson ao mundo da música; foi o surfista ideal, apaixonado pelo oceano e que nele mergulhou embriagado pondo termo à vida; foi parte de um conjunto detentor das mais celebradas harmonias vocais e terminou a carreira com a voz devastada por álcool & nicotina. Live fast, die young é um lugar-comum do rock'n'roll. Live like you want, die almost young podia ser a sua adaptação a Dennis Wilson. A única obra que editou a solo mostra que praticava aquilo que pregava: Pacific Ocean Blue, de 1977, é o clássico definitivo nas carreiras a solo dos membros dos Beach Boys, sendo apenas superado pela conclusão magnânima de Smile assinada pelo irmão Brian.
O que fica quando Pacific Ocean Blue se evapora é a certeza do grande escritor de canções que deixou tanto por deslumbrar. É o disco da Califórnia como Terra Prometida eternamente banhada pelo Sol, do oceano impossivelmente azul, das intermináveis noites de Verão na praia. É igualmente a reflexão de um homem que viveu o paraíso e o inferno dos excessos, de um homem que possui uma relação simbiótica com o mar e que degusta demasiado a vida para a deixar tornar-se sensaborona.
São canções enormes, as de Pacific Ocean Blue. O título não poderia ser outro para a música aconchegante e luxuriante que lá está guardada. Para trás, muito para trás, estão as pranchas de surf com acne dos Beach Boys. Dennis Wilson senta-se agora ao piano, faz pontual uso de arranjos orquestrais e a sua voz, trôpega mas sentida, torna as canções ainda mais penetrantes. A abertura com River Song mostra desde logo o que nos espera: um início solarengo, vozes a arranhar o gospel e nuvens em forma de piano a cobrirem o sol perto do final. Poucos são os choques frontais com o rock neste disco, ele é mais um efeito colateral que se manifesta em sólidos temas como Friday Night, What's Wrong ou Pacific Ocean Blue. Dreamer é blue-eyed-soul que surge na calada da noite a pedir para nos portarmos mal. Rainbows foi feita para nos aclarar a alma. Mas são as baladas o prato forte deste registo. É nelas que reside o oceano, luminescente em You and I e Thoughts of You, interminável escuridão líquida em Time e no belíssimo Moonshine. Farewell My Friend torna-se arrepiante, sendo que foi a elegia que Wilson escreveu para si próprio e que se fez soar no seu funeral. E o final não poderia ser mais perfeito, com o magnífico End of the Show a ver um gigantesco sol vermelho a afundar-se no horizonte, a voz quebrada de Wilson a levantar-se em agradecimento, quando somos nós que temos que agradecer.
Em 2008, Pacific Ocean Blue foi alvo de edição deluxe, que inclui as míticas Bambu Sessions - sessões que dariam origem a um segundo álbum nunca editado, logicamente intitulado Bambu. Este dois em um é absolutamente imprescindível, dado que esta jóia perdida aproxima-se bastante do brilho ofuscante do tesouro que a antecedeu. It's Not Too Late, Cocktails ou Love Surrounds Me cimentam ainda mais a imagem de Dennis Wilson como bardo californiano, o crooner surfista. É bom sentir o Pacífico aqui tão perto e poder contemplá-lo fechando os olhos e abrindo os ouvidos. Aproveitem o Verão enquanto dura.
O que fica quando Pacific Ocean Blue se evapora é a certeza do grande escritor de canções que deixou tanto por deslumbrar. É o disco da Califórnia como Terra Prometida eternamente banhada pelo Sol, do oceano impossivelmente azul, das intermináveis noites de Verão na praia. É igualmente a reflexão de um homem que viveu o paraíso e o inferno dos excessos, de um homem que possui uma relação simbiótica com o mar e que degusta demasiado a vida para a deixar tornar-se sensaborona.
São canções enormes, as de Pacific Ocean Blue. O título não poderia ser outro para a música aconchegante e luxuriante que lá está guardada. Para trás, muito para trás, estão as pranchas de surf com acne dos Beach Boys. Dennis Wilson senta-se agora ao piano, faz pontual uso de arranjos orquestrais e a sua voz, trôpega mas sentida, torna as canções ainda mais penetrantes. A abertura com River Song mostra desde logo o que nos espera: um início solarengo, vozes a arranhar o gospel e nuvens em forma de piano a cobrirem o sol perto do final. Poucos são os choques frontais com o rock neste disco, ele é mais um efeito colateral que se manifesta em sólidos temas como Friday Night, What's Wrong ou Pacific Ocean Blue. Dreamer é blue-eyed-soul que surge na calada da noite a pedir para nos portarmos mal. Rainbows foi feita para nos aclarar a alma. Mas são as baladas o prato forte deste registo. É nelas que reside o oceano, luminescente em You and I e Thoughts of You, interminável escuridão líquida em Time e no belíssimo Moonshine. Farewell My Friend torna-se arrepiante, sendo que foi a elegia que Wilson escreveu para si próprio e que se fez soar no seu funeral. E o final não poderia ser mais perfeito, com o magnífico End of the Show a ver um gigantesco sol vermelho a afundar-se no horizonte, a voz quebrada de Wilson a levantar-se em agradecimento, quando somos nós que temos que agradecer.
Em 2008, Pacific Ocean Blue foi alvo de edição deluxe, que inclui as míticas Bambu Sessions - sessões que dariam origem a um segundo álbum nunca editado, logicamente intitulado Bambu. Este dois em um é absolutamente imprescindível, dado que esta jóia perdida aproxima-se bastante do brilho ofuscante do tesouro que a antecedeu. It's Not Too Late, Cocktails ou Love Surrounds Me cimentam ainda mais a imagem de Dennis Wilson como bardo californiano, o crooner surfista. É bom sentir o Pacífico aqui tão perto e poder contemplá-lo fechando os olhos e abrindo os ouvidos. Aproveitem o Verão enquanto dura.
Dinosaur Sr.
Insuflado, pomposo, mal-amado. Eis o rock progressivo em todo o seu esplendor. De música revolucionária a revolução que esqueceu a música, do underground aos aviões a jacto, Prog Rock Britannia conta (quase) tudo. Sejamos fãs ou detractores, este documentário da BBC sobre a génese, ascensão e queda deste polémico estilo musical está muitíssimo bem conseguido. O rigor e a minúcia associados aos testemunhos dos intervenientes tornam-no fundamental para a compreensão deste nicho da história musical do século passado. Now lose yourself in Prog...
11 de julho de 2011
Kosmische Kosmetik XXVI
Here comes the big wave of aggression! Assim se ergue, por entre ventania e ondas, o primeiro álbum dos Gila - homónimo, mas igualmente conhecido como Free Electric Sound. Poderoso e esmagador, é uma das obras-primas da primeira vaga do krautrock, a mais selvagem e mentalmente intrusiva. Sob o látego impiedoso de guitarras à deriva e ritmos assertivos, caímos subjugados pela força de um disco enorme, um tsunami eléctrico.
Será que as quatro mentes que conceberam este portento em 1971 estavam cientes do que faziam? Que acabavam de criar um portal sonoro para uma dimensão de mistérios e maravilhas? O som que debitam é expansivo e imenso, flutuante e majestoso como oceanos de estrelas. Aggression, o primeiro tema, irrompe sem aviso, atacando sem cerimónias e por todos os flancos, com guitarras que dançam em transe e teclados que silvam como almas a quererem sair do corpo. O prodigioso Kommunication materializa-se em seguida e ganha forma de gigante à medida que abandona as sombras em direcção à luz. Guitarra e mellotron acasalam lenta e deliciosamente, a voz de Conny Veit sopra fugazmente do nada e, quando damos conta, já não há escapatória possível da teia entorpecente e engenhosamente arquitectada. Esta é, sem dúvida alguma, uma das mais suculentas confecções saídas da panela do rock alemão na primeira metade dos anos setenta.
Kollaps acentua o ambiente místico e encantatório. Os instrumentos parecem pairar na irrealidade, um bebé chora, a música tacteia na escuridão. Tudo muitíssimo bem conseguido, com espírito, sem artifícios. Um tímido, contido, mas muito belo exercício acústico, surge na peça seguinte, Kontakt. Amacia os ouvidos e sente-se como água fresca a pingar sobre a pele. Novas contaminações psicadélicas explícitas emergem das derradeiras peças: Kollektivität e Individualität. A primeira reina ainda na dimensão ambiental e ritualística, exibindo um ritmo circular e guitarras minimais e repetitivas, muito ao estilo dos Pink Floyd da altura. A segunda acentua a energia, bombeando um ritmo intenso e tribal. A guitarra rasga o ar em espasmos de distorção, o êxtase cresce de intensidade e escoa-se sem clímax na imensidão da noite...
Trabalho de mestres, o primeiro álbum dos Gila é um salmo de referência na bíblia da kosmische musik. Ideal para voar para longe sem hora marcada de regresso. Pressa não existe por estes lados, apenas a cristalização da sensação...
Será que as quatro mentes que conceberam este portento em 1971 estavam cientes do que faziam? Que acabavam de criar um portal sonoro para uma dimensão de mistérios e maravilhas? O som que debitam é expansivo e imenso, flutuante e majestoso como oceanos de estrelas. Aggression, o primeiro tema, irrompe sem aviso, atacando sem cerimónias e por todos os flancos, com guitarras que dançam em transe e teclados que silvam como almas a quererem sair do corpo. O prodigioso Kommunication materializa-se em seguida e ganha forma de gigante à medida que abandona as sombras em direcção à luz. Guitarra e mellotron acasalam lenta e deliciosamente, a voz de Conny Veit sopra fugazmente do nada e, quando damos conta, já não há escapatória possível da teia entorpecente e engenhosamente arquitectada. Esta é, sem dúvida alguma, uma das mais suculentas confecções saídas da panela do rock alemão na primeira metade dos anos setenta.
Kollaps acentua o ambiente místico e encantatório. Os instrumentos parecem pairar na irrealidade, um bebé chora, a música tacteia na escuridão. Tudo muitíssimo bem conseguido, com espírito, sem artifícios. Um tímido, contido, mas muito belo exercício acústico, surge na peça seguinte, Kontakt. Amacia os ouvidos e sente-se como água fresca a pingar sobre a pele. Novas contaminações psicadélicas explícitas emergem das derradeiras peças: Kollektivität e Individualität. A primeira reina ainda na dimensão ambiental e ritualística, exibindo um ritmo circular e guitarras minimais e repetitivas, muito ao estilo dos Pink Floyd da altura. A segunda acentua a energia, bombeando um ritmo intenso e tribal. A guitarra rasga o ar em espasmos de distorção, o êxtase cresce de intensidade e escoa-se sem clímax na imensidão da noite...
Trabalho de mestres, o primeiro álbum dos Gila é um salmo de referência na bíblia da kosmische musik. Ideal para voar para longe sem hora marcada de regresso. Pressa não existe por estes lados, apenas a cristalização da sensação...
Tripology
Flying Teapot, de 1973, é o primeiro tomo da trilogia conceptual. É, igualmente, um dos discos mais lunáticos e surreais de sempre. Como manda a tradição setentista, assenta numa narrativa desenrolada ao longo dos temas. E o enredo de Flying Teapot alcança um patamar de bizarria invejável, complicado de explicar em poucas linhas. Basicamente, um criador de porcos com uma fascinação pelo Antigo Egipto adquire um brinco mágico a um vendedor de bules de chá que lhe permite ouvir ligações de rádio de um planeta distante: Planeta Gong. Entretanto, a personagem principal da história (Zero the Hero) tem uma visão desses extraterrestes em pleno centro de Londres e passa a venerá-los. As criaturas dão pelo nome de Pothead Pixies, são verdes, têm uma hélice na cabeça e fazem-se transportar pelo espaço em bules de chá... Acredito piamente que seja necessário encontrarmo-nos no mesmo estado alterado dos autores para dar sentido a esta novela psicadélica. O mesmo não se passa com a música, felizmente. O surrealismo e a imaginação extremas transbordam para o som (outra coisa não seria de esperar), mas as composições são do mais inventivo, original e contagiante. Blocos instrumentais cuja matéria-prima é um jazz cósmico, estonteante e venenoso colam-se a um rock vertiginoso, ensandecido. Algo como juntar os Weather Report e os Hawkwind num filme de animação espacial criado por Ed Wood. Zero The Hero & The Witch's Spell, Witch's Song/I Am Your Pussy e o tema-título são bafejados por uma genial anarquia e entram nas nossas cabeças para nunca mais serem esquecidas. The Pot Head Pixies é a peça mais directa, mas é difícil obter airplay quando se fala de drogas tão abertamente. O casal Daevid Allen e Gilly Smith encarna personagens e situações magistralmente e todo este bolo inusitadamente coerente faz de Flying Teapot um disco único e uma experiência ilógica mas belíssima.
Ainda em 1973, é lançada a segunda parte da saga: Angel's Egg. O enredo adensa-se e mantém o surrealismo. Desta feita, Zero the Hero é transportado até ao Planeta Gong depois de tomar uma intoxicante poção. Aí trava finalmente laços com os seus habitantes, começando por uma prostituta alieníngena e acabando na consciência planetária chamada Ovo do Anjo. O objectivo é fazer do terráqueo mensageiro da chegada extraterrestre à Terra, o que acontecerá numa grande festa que dará início a uma Nova Era e à união entre civilizações. Business as usual para Daevid Allen e sua confraria...
A música de Angel's Egg roça o sublime. Este é, na verdade, o capítulo mais conseguido da trilogia, feito de temas directos e engenhosos, com uma sensibilidade apelativa notável. Mas dos Gong nunca se espera o óbvio e o disco é apetecível sem ser fácil e lúdico sem ser descartável. É fantástico do princípio ao fim, como um fio condutor carregado de electricidade e de insanidade, que só se esgotam no último segundo. Other Side of the Sky, Prostitute Poem e Oily Way possuem o raro dom musical de alimentar corpo e alma, pela simbiose entre as atmosferas cósmicas e a sedução física. Steve Hillage brilha com uma aura intensa e a sua guitarra resplandece em Sold to the Highest Buddha e I Never Glid Before. O resto é um pouco de jazz, um pouco de nonsense, um pouco de tudo e um pouco de nada. No fim fica a garantia de termos sido expostos a um dos melhores álbuns dos anos 70.
You constitui o último volume da Radio Gnome Trilogy. Data de 1974 e volta aos territórios mais livres, improvisados e desgarrados de Flying Teapot. O herói da narrativa encontra-se de volta à Terra e prepara o encontro entre civilizações. Será um grande concerto em Bali com o sugestivo nome Great Melting Feast of Freeks. Durante o festim, todos os participantes são presenteados com um terceiro olho que permite aceder à revelação de um novo mundo. Zero distrai-se a comer um bolo de frutas e perde o momento. A partir daí, cai numa espiral sucessiva de nascimento e morte até se tornar parte do Ovo do Anjo... Nada mais simples.
Este seria o último álbum dos Gong com o líder Daevid Allen, que ficaria longos anos afastado do colectivo, dedicando-se a uma miríade de projectos, sozinho ou mal acompanhado. Mas a sua banda do coração seriam sempre os Gong e Allen nunca teve melhoras significativas, como se pode constar pela capa de Acid Motherhood, álbum de 2004. A sua presença em You é efémera e algo apagada, o que se nota na ausência de delírios narrativos e na proliferação de temas instrumentais. A guitarra de Steve Hillage, os sopros de Didier Malherbe e a bateria de Pierre Moerlen (estes últimos futuros fundadores de uns Gong renovados e mais próximos do rock progressivo que do psicadelismo) são as estrelas da companhia. Jazz e rock interagem, expandindo os horizontes de ambos os estilos, não raras vezes até ao irreconhecimento. Isle of Everywhere, Master Builder e You Never Blow Yr Trip Forever arrasam e mostram que este terceiro episódio não deve ser considerado o elo mais fraco da trilogia, simplesmente o mais espontâneo e libertário.
Radio Gnome Trilogy fica para a história como uma das obras mais visionárias e bizarras que o rock já conheceu. Uma verdadeira intoxicação musical, a verdadeira pedrada do outro mundo. Este descaramento pode ser chocante para uns e fascinante para outros. A história não ficou por aqui, sendo que foi novamente resgatada nos álbuns Shapeshifter (1992) e Zero to Infinity (2000), mas sem a surpresa dos primeiros registos.
Hoje a música é mais cirúrgica, alguma move-se com calculismo. Os Gong deste período são igualmente uma cirurgia, mas de coração aberto e sem anestesia. E há quem acredite que o Planeta Gong se tornará visível em 2032... Aqui estão outras pérolas deste universo tão mítico quanto louco.
29 de junho de 2011
Negritude
O encontro foi, já se sabe, bombástico. Shepp apresenta-se sozinho, debatendo-se no vórtice intenso do sexteto de Jones. O ilustre colectivo, composto, entre outros, por luminárias como o violinista Leroy Jenkins e o saxofonista Anthony Braxton, desarruma convenções e passeia pelo caos.
Archie Shepp & Philly Joe Jones é jazz livre na sua mais pura forma. Uma imensidão sensorial, abrasadora como o inferno. Um quadro impressionista vermelho sobre fundo preto. Uma ferida aberta.
Desçamos ao cenário, quente e fumarento, onde tudo se passa. Vozes possessas, gritos vagos, desencadeiam a entrada apocalítica de Shepp, logo seguido por Jones. Segue-se uma avalanche de quase 20 minutos chamada The Lowlands em que a liberdade é total. Chicago Beau interrompe pontualmente o cataclísmico idílio com récitas inflamadas, primárias. A música avança em linha recta, violentamente inebriante, e sentimo-nos como se estivéssemos a escutar tudo numa sauna. A peça pretende reflectir a vida dos negros no sul dos Estados Unidos e o sentimento de cerco e opressão é magistral, o que enfatiza o poder da libertação interior.
A segunda e última composição do disco divide-se em duas partes e intitula-se Howling in the Silence. A parte a), Raynes or Thunders começa por intuir um falso swing antes de resvalar para a abstracção intensa do improviso emocional. Chicago Beau irrompe novamente, qual pregador atormentado, e o violino tresmalhado de Leroy Jenkins acrescenta uma atmosfera de pântano sulista ao tema. A parte b), Julio's Song, inflecte para o trilho dos blues, nomeando a harmónica de Julio Finn que aqui se faz ouvir como um eco remoto do delta do Mississippi. A música gira em transumância, percorrendo os quatro cantos do jazz e arrasta-nos com ela para um estado de vadiagem mental. O disco que começou aos berros acaba por esvair-se num último estertor de harmónica e contrabaixo, sussurrando don't try this at home...
Archie Shepp & Philly Joe Jones é uma das experiências mais limite do jazz, qualquer que seja o ramo da sua árvore genealógica. Para a posterioridade ficou uma gravação crua e pouco depurada, um som visceral e escuro, que num momento ataca e no outro seduz. Diamante jazz por lapidar...
A segunda e última composição do disco divide-se em duas partes e intitula-se Howling in the Silence. A parte a), Raynes or Thunders começa por intuir um falso swing antes de resvalar para a abstracção intensa do improviso emocional. Chicago Beau irrompe novamente, qual pregador atormentado, e o violino tresmalhado de Leroy Jenkins acrescenta uma atmosfera de pântano sulista ao tema. A parte b), Julio's Song, inflecte para o trilho dos blues, nomeando a harmónica de Julio Finn que aqui se faz ouvir como um eco remoto do delta do Mississippi. A música gira em transumância, percorrendo os quatro cantos do jazz e arrasta-nos com ela para um estado de vadiagem mental. O disco que começou aos berros acaba por esvair-se num último estertor de harmónica e contrabaixo, sussurrando don't try this at home...
Archie Shepp & Philly Joe Jones é uma das experiências mais limite do jazz, qualquer que seja o ramo da sua árvore genealógica. Para a posterioridade ficou uma gravação crua e pouco depurada, um som visceral e escuro, que num momento ataca e no outro seduz. Diamante jazz por lapidar...
27 de junho de 2011
Voz Activa
O magazine online I See Voices surgiu com uma premissa interessante: colocar individualidades das artes e das letras a falar de tópicos universais. Projecto alemão, foi criado em 2008 pela mão da criativa produtora independente Svenson Suite. Desde então, aglomerou mentes pensantes tão variadas como Dieter Kosslick, Jon Savage ou Wim Wenders a dissertar sobre temas tão subjectivos e etéreos como o gosto, a violência, a velocidade...
A subjectividade acaba por ser o elemento mais saboroso de I See Voices. Cada cabeça sua sentença e, concorde-se ou não com o que os intervenientes afirmam sobre a temática que lhe coube, acabamos sempre por ser estimulados, por, irreflectidamente, reflectir.
Apesar de ter mais pernas para andar que uma centopeia, o projecto caiu no silêncio em 2010. Prematura e lamentavelmente, pois é gritante o muito que ficou por dizer por gente que vale muito a pena ouvir. A última cabeça (literalmente) que falou foi Charles Michael Kittridge Thompson IV (Black Francis nos Pixies, Frank Black a solo). Foi erótico...
A subjectividade acaba por ser o elemento mais saboroso de I See Voices. Cada cabeça sua sentença e, concorde-se ou não com o que os intervenientes afirmam sobre a temática que lhe coube, acabamos sempre por ser estimulados, por, irreflectidamente, reflectir.
Apesar de ter mais pernas para andar que uma centopeia, o projecto caiu no silêncio em 2010. Prematura e lamentavelmente, pois é gritante o muito que ficou por dizer por gente que vale muito a pena ouvir. A última cabeça (literalmente) que falou foi Charles Michael Kittridge Thompson IV (Black Francis nos Pixies, Frank Black a solo). Foi erótico...
24 de junho de 2011
Matemática Aplicada
Voltaram os Battles. Desta feita reduzidos a trio, após a saída do líder Tyondai Braxton. Com uma perda desta envergadura, os cépticos começaram a temer pela consistência criativa da banda nova-iorquina. Braxton é a prova que quem sai aos seus não degenera. Filho de um dos mais inovadores e vanguardistas músicos de jazz de sempre (o saxofonista Anthony Braxton), o júnior foi o grande motor dos primeiros passos dos Battles e da cerebral mas estranhamente contagiante música exibida em Mirrored, o álbum de estreia. A crítica coçou a cabeça e chamou-lhe muita coisa, como por exemplo Math Rock. Estilo oblíquo e assente em estruturas angulares e complexas mudanças de ritmo, este Math Rock não foi inventado pelos Battles. As suas origens perdem-se na noite dos tempos, sendo que equações musicais foram anteriormente formuladas por várias bandas, dos Henry Cow aos Cardiacs, passando - fatidicamente - por Frank Zappa e Captain Beefheart.
Quem teve o privilégio de ouvir Mirrored em toda a sua frescura, guardou certamente na memória a forma como o disco cruzava o experimentalismo laboratorial aos grooves mais abrasivos e apelativos. Ritmos e melodias vindos directamente do futuro baralhavam as regras do presente. Provas óbvias, auditivas mas também visuais, foram imortalizadas assim:
Os Battles de 2011 renunciaram parcialmente a esta herança. Reinventaram-se, não querendo ser ruínas de uma outrora torre altaneira. Como um cão com três patas, equilibram-se e andam, sabendo que a pata que falta será sempre notória. Tyondai Braxton complicou, os Battles simplificaram. O ex-líder manteve-se fiel aos seus ideais e lançou-se numa experimental e exploratória carreira a solo. O seu único álbum até à data, Central Market, de 2009, mantém os grooves potentes e as estruturas imaginativas, condensando-os a elementos de música clássica contemporânea. O resultado é tão curioso como interessante.
O agora trio suavizou ligeiramente a sua sonoridade. O novo disco, Gloss Drop, não é uma cedência ao facilitismo, mas acaba por ser uma obra mais luminosa e menos matemática. A complexidade técnica ainda ferra o dente no ouvinte e pressentem-se extravagâncias prog, mas a abordagem é mais branda e até - pasme-se! - dançável. Africastle, My Machines (parceria improvável com Gary Numan) e o esplendidamente excêntrico Ice Cream (em conluio com o ás chileno da electrónica Matias Aguayo) são passos em frio decididos e desempoeirados. São os Battles a deixar entrar o verão na equação.
Os Battles de hoje provam que souberam resistir à perda de um líder carismático sem perder identidade, criatividade e a capacidade de nos presentar com sons nunca antes debitados. Gloss Drop deixa água na boca para as possibilidades que se seguirão. Resta saber se ao vivo conseguirão acender o pavio que Braxton deixou apagado e que chegava a fazer arder cérebros em proporções devastadoras...
Quem teve o privilégio de ouvir Mirrored em toda a sua frescura, guardou certamente na memória a forma como o disco cruzava o experimentalismo laboratorial aos grooves mais abrasivos e apelativos. Ritmos e melodias vindos directamente do futuro baralhavam as regras do presente. Provas óbvias, auditivas mas também visuais, foram imortalizadas assim:
Os Battles de 2011 renunciaram parcialmente a esta herança. Reinventaram-se, não querendo ser ruínas de uma outrora torre altaneira. Como um cão com três patas, equilibram-se e andam, sabendo que a pata que falta será sempre notória. Tyondai Braxton complicou, os Battles simplificaram. O ex-líder manteve-se fiel aos seus ideais e lançou-se numa experimental e exploratória carreira a solo. O seu único álbum até à data, Central Market, de 2009, mantém os grooves potentes e as estruturas imaginativas, condensando-os a elementos de música clássica contemporânea. O resultado é tão curioso como interessante.
O agora trio suavizou ligeiramente a sua sonoridade. O novo disco, Gloss Drop, não é uma cedência ao facilitismo, mas acaba por ser uma obra mais luminosa e menos matemática. A complexidade técnica ainda ferra o dente no ouvinte e pressentem-se extravagâncias prog, mas a abordagem é mais branda e até - pasme-se! - dançável. Africastle, My Machines (parceria improvável com Gary Numan) e o esplendidamente excêntrico Ice Cream (em conluio com o ás chileno da electrónica Matias Aguayo) são passos em frio decididos e desempoeirados. São os Battles a deixar entrar o verão na equação.
Os Battles de hoje provam que souberam resistir à perda de um líder carismático sem perder identidade, criatividade e a capacidade de nos presentar com sons nunca antes debitados. Gloss Drop deixa água na boca para as possibilidades que se seguirão. Resta saber se ao vivo conseguirão acender o pavio que Braxton deixou apagado e que chegava a fazer arder cérebros em proporções devastadoras...
18 de junho de 2011
Second Life
E ao sétimo dia, os King Crimson descansaram. Após uma sucessão de sete obras absolutamente marcantes na história do rock, o colectivo eternamente liderado pelo fleumático Robert Fripp hibernou numa auto-imposta criogenia. Renovados e extasiados, retornam em 1981 com o seu provável melhor álbum desde o debutante e imortal In The Court Of The Crimson King, de 1969.
O objecto foi denominado Discipline e abriu caminho da melhor maneira à segunda vida dos King Crimson. Heróis do progressivo, nunca se deixaram afogar nas águas paradas da indulgência, constituíndo - juntamente com os Van der Graaf Generator - a facção mais aventureira, interessante e experimental desta estirpe. Poucas foram as bandas que romperam tão drasticamente com o seu passado como os King Crimson em Discipline. É sabido que sonoridades mais vanguardistas e cerebrais despontavam já nas duas obras que o antecederam, Red e Starless and Bible Black, ambas de 1974. Mas a tónica assentava ainda em temas expansivos, complexos, orbitando em elipse à volta dos arquétipos do prog rock. Há que destacar obrigatoriamente o último tema do grupo antes de entrar no seu wormhole: Starless, a derradeira faixa de Red, uma composição quase obscena na sua perfeição e que devia ter uma sala própria na Tate Modern onde tocasse ininterruptamente. Discipline vem reciclar o que restava desta leva, transformando a música num pot pourri de new wave, pós-punk e recaídas de virtuosismo.
Antes da concepção do disco, apenas o baterista Bill Bruford e o omnipresente guitarrista Robert Fripp restavam da anterior encarnação. A eles juntaram-se Tony Levin no baixo (e no curioso Chapman stick) e Adrian Belew na outra guitarra e voz. Fripp estava fresquinho de uma série de colaborações com Brian Eno e David Bowie, assim como no rescaldo de um belíssimo álbum a solo (Exposure, de 1979). Belew era recém-chegado dos territórios dos Talking Heads, tendo igualmente sido parte integrante da banda que acompanhou Bowie. Com dois guitarristas de excepção (Fripp, o mestre virtuoso e Belew, o jovem vanguardista) e uma secção rítmica de respeito, Discipline só poderia ser um caso sério. E foi.
Simultaneamente leve e sombrio, o disco é constituído por um conjunto imaculado de temas límpidos mas complexos. Nota-se distintamente a influência do Bowie berlinense e dos Talking Heads sob a égide de Eno. Nota-se igualmente um saudável lado selvagem a espreitar por cima do ombro da lendária circunspecção da banda. Elephant Talk soa a desordem urbana, a informação cheia de ruído. Thela Hun Ginjeet mostra os King Crimson em elevada temperatura rítmica e espontâneo storytelling, numa composição que poderia estar em My Life in the Bush of Ghosts de Brian Eno e David Byrne ou em Fear of Music dos Talking Heads. Indiscipline faz pender a balança para o lado do rock mais musculado, entrecortado com o discurso spoken word de Adrian Belew. The Sheltering Sky e Discipline são dois excelentes instrumentais, o primeiro insistindo numa cadência algo étnica e dançável, se bem que introspectiva, o segundo prosseguindo o mesmo registo, mas revelando texturas circulares e algo hipnóticas.
Os dois grandes momentos do disco são, sem dúvida, Matte Kudasai e Frame By Frame. Matte Kudasai significa espere, por favor em japonês. Encapsula, efectivamente, algo de zen e suspende-nos no vazio ou à tona de um vasto leito oceânico. Belíssima e intemporal canção, prova igualmente que os Radiohead não encontraram sozinhos a passagem secreta para OK Computer e os padrões que o seguiram. Esta é uma das óbvias influências de Thom Yorke e seu bando. Frame By Frame é a imagem perfeita de Discipline: a simbiose entre a canção e como fugir aos seus clichés; a cisão entre o estranho e o familiarmente audível. Territórios povoados no início dos anos 80 por Bowie, Eno ou os Talking Heads aos quais o colectivo britânico junta a sua sapiência e a sua ciência.
Discipline não só franqueia de par em par as portas para a renovada existência dos King Crimson, como lhe estende um honroso tapete vermelho. Por onde passeiam ainda hoje, na corte de um reino que só a eles pertence.Esta aparição dos King Crimson merece um apedrejamento pela imagem (eram os 80's, não esqueçamos...), mas uma chuva de pétalas pela música exibida. Para quem não consegue esquecer a dantesca visão de Adrian Belew num fato cor-de-rosa, aqui fica o líder dos King Crimson, um dos melhores e mais inovadores guitarristas de sempre, a puxar dos seus galões e a derramar os seus Frippertronics. Inigualável!
15 de junho de 2011
Insubmission
Os Sex Pistols nasceram (ou foram fabricados) em 1976, mas não custa nada imaginá-los hoje, a irromper lares adentro pela TV em horário nobre ou a esporear o puritanismo com alfinetes-de-ama. Assaltaram-nos quando o mundo musical se estava a transformar num tédio pomposo e o mundo real era um cigarro a arder esquecido num cinzeiro. Os dias que partilhamos deveriam igualmente ser partilhados por eles. Porque o mundo não melhorou desde que nos desafiaram a Nevermind the Bollocks. Deviam assinar um contrato discográfico em frente de uma agência de rating e re-dedicar No Feelings ao neoliberalismo fundamentalista.
Se existe uma expressão cliché, ela é Punk's Not Dead. Proliferou durante os anos 80, diminuiu nos anos 90 e pereceu definitivamente no novo milénio com o surgimento de nados-mortos como Green Day ou Blink 182. Aqui vai um pequeno auxiliar de memória do tempo em que os bois eram chamados pelos nomes. Um momento de ruptura que, mais ou menos artificial, deixou a marca de um ferro em brasa na pele de Inglaterra, revolucionou a cultura da juventude e devolveu a música pop à vox pop. Pela mão de Julien Temple, a segunda vez depois de The Great Rock'n'Roll Swindle, a voz foi dada ao Sex Pack. Entreguem-se, renovada e revoltadamente, à insubmissão.
Se existe uma expressão cliché, ela é Punk's Not Dead. Proliferou durante os anos 80, diminuiu nos anos 90 e pereceu definitivamente no novo milénio com o surgimento de nados-mortos como Green Day ou Blink 182. Aqui vai um pequeno auxiliar de memória do tempo em que os bois eram chamados pelos nomes. Um momento de ruptura que, mais ou menos artificial, deixou a marca de um ferro em brasa na pele de Inglaterra, revolucionou a cultura da juventude e devolveu a música pop à vox pop. Pela mão de Julien Temple, a segunda vez depois de The Great Rock'n'Roll Swindle, a voz foi dada ao Sex Pack. Entreguem-se, renovada e revoltadamente, à insubmissão.
10 de junho de 2011
Kosmische Kosmetik XXV
Mais que um disco, esta obra de estreia é uma experiência auditiva massiva, sem rédeas e sem gravidade, nascida no vácuo e nele perecida. Não vale a pena falar em composições. Elas não existem. O que subsiste de Ash Ra Tempel é a espontaneidade, o experimentalismo e descompromisso que abraçam os seus lados A e B e cujo efeito é demolidor.
Amboss entra em cena como um big bang electrónico expandido pela bateria enorme de Klaus Schulze. Quando a inevitável explosão ocorre, destroços musicais espalham poeira cósmica por todo o lado, deixando Schulze a pulverizar o vazio com o seu ritmo impressionante e Göttsching a navegar por entre os detritos com a sua guitarra indomável e infinita. Ouvido bem alto, Amboss esmaga sem contemplações. Exige exercícios de aquecimento e de posterior relaxamento. Uma monstruosidade sónica, impiedosa e rarefeita...
Traummaschine é o reflexo invertido do seu antecessor. Contido e fechado, abandona a toada space jam para enclausurar-se na sua câmara mortuária mal iluminada. Basta ver a capa e o inlay de Ash Ra Tempel para conceber este imaginário. A pirâmide entreabre a sua porta e leva-nos pelo seu labirinto. No centro mais recôndito está o sarcófago. No seu interior está a química sublime de guitarra e percurssão, inalantes como vapor, inebriantes como incenso sagrado. Este tema assemelha-se a uma união entre céus e terra, caminha pelo limbo da realidade sem nunca deixar as trevas, sem nunca perder a luz de vista.O imaginário da civilização mais fascinante da Antiguidade cruza-se com o space rock à moda germânica. O produto da experiência resulta em psicadelismo atmosférico com sussurros de blues intergalácticos. Poderia bem ser a banda sonora de Eram os Deuses Astronautas?, livro algo kitsch de Erich von Däniken muito popular na altura e que conjugava a Ufologia à evolução da espécie humana e das religiões. Silogismos à parte, entremos pois no escuro labirinto de Ash Ra Tempel. Tochas não incluídas...
9 de junho de 2011
Kosmische Kosmetik XXIV
Georg Deuter, conhecido artisticamente apenas como Deuter, é tido nos nossos dias como um dos expoentes máximos da New Age. Este rótulo, que provoca calafrios a muito boa gente devido às suas conotações bacoco-espirituais, não veda totalmente o universo deste artista. Deuter tem praticado um estilo de música meditativo e contemplativo desde a última metade dos anos 70, com a sua dose de incontinências (e inconsequências) pseudo-orientais, mas há um aspecto de sinceridade e pureza na sua obra que lhe confere crédito que baste.A ponte Ocidente-Oriente que caracteriza os discos de Deuter começa já a ser projectada em D. Os cinco temas que o compõem assentam invariavelmente numa estrutura ritualística, propícia ao recolhimento e à meditação. Mas estas cinco krautragas não demontram grande simbiose com a divindade. A menos que o misticismo seja induzido por dietilamida do ácido lisérgico... D é um disco intoxicado e intoxicante, que nos leva a crer que a mente do músico não estaria certamente no mais limpo dos estados neste período.
Babylon é uma sinfonia psicadélica em quatro movimentos. Do alto do seu quarto-de-hora de duração, derrama guitarras aquosas e distorcidas, teclados crepusculares, percurssão em frémito e uma miscelânea desordenada de sons exteriores. O quarto andamento, em que tudo converge, é particularmente destabilizador.
Depois deste alucinante clássico cósmico, acreditamos que tudo é possível. Der Turm/Fluchtpunkt vem carregar ainda mais o ambiente irreal, com o ritmo salpicante, a guitarra em modo fuzz e as electrónicas em constante zumbido. É um ataque à nossa paz de espírito, é realmente bom. Krishna Eating Fish and Chips chega para a devolver, como um bálsamo depois do turbilhão. A cítara, circular e suspensa, aprisiona o tempo para libertar a mente. Uma guitarra dança com ela. A peça induz torpor, mas não estupor, e lembra os momentos igualmente transcendentes dos Popol Vuh. De águas escuras e profundas emerge Atlantis, envolta em suspiros electrónicos. É o tema mais experimental do disco e igualmente o mais sombrio. Gammastrahlen-Lamm continua a veia mais ambiental. Composto apenas por um solitário e minimal sintetizador, arrasta-nos devagar para o fim do disco, abstraindo-nos, subtraindo-nos...
D é uma obra totalmente descomprometida. A sua manifesta e bela anarquia parece deixar transparecer um cérebro comandado por estranhos poderes. Bem que deveria ter sido estudado nesta altura, o cérebro de Deuter... Discos assim escasseiam cada vez mais.
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