Especulo se o título do texto que se seguiu foi inspirado em In Praise of Learning, disco de 1975 dos vanguardistas transgressores Henry Cow. Certo é que a transgressão envolve as diferentes obras. O livro de Marcus Boon é um tratado sobre a génese e disseminação da cópia na arte e cultura humanas desde os seus primórdios. Um estudo do proibido. Uma abordagem filosófica a algo que, segundo o autor, está inerente ao género humano e tem contribuído indelevelmente para o seu crescimento. Uma dúvida é passível de assaltar-nos: Quem nasceu primeiro, o original ou a cópia?
21 de setembro de 2011
A Arte da Cópia
1 de setembro de 2011
Kosmische Kosmetik XXVIII
Zuckerzeit marca um ponto de viragem definitivo na arte dos Cluster. Após duas seminais quedas no vazio cósmico, encetadas em Cluster 71 e Cluster II, o universo musical do duo Roedelius-Moebius começa a formar ordem a partir do caos. Chegou o tempo do açucar, como o título do álbum indica, e esse tempo coloca a electrónica ao serviço do prazer auditivo. Mas o adoçante é o aditivo que predomina neste marcante álbum de 1974. O açucar é um ingrediente demasiado natural para estes paraísos artificiais e robóticos.
Foi notória a influência dos Neu! e, particularmente, do seu membro Michael Rother, nesta nova versão dos Cluster. Juntos, Rother, Moebius e Roedelius haviam formado os Harmonia, colectivo essencial na aproximação da música das esferas à electrónica de vanguarda. Rother senta-se agora na cadeira do produtor e Zuckerzeit carrega na bagagem as memórias deste encontro, irradiando o entusiasmo de uma jornada de descobertas.
Durante o seu longo tempo de vida, os Cluster sempre oscilaram entre as tendências dos seus dois elementos. Moebius foi sempre o mais experimental, Roedelius o mais melódico. Os trabalhos a solo que ambos editaram paralelamente não deixam margem para dúvidas. Neste sentido, Zuckerzeit é um disco dividido em dois, os seus dez temas assinados por duas penas diferentes em que a paridade impera: cinco para cada um.Tudo aqui tresanda a visionário, a profecias de pop electrónica. Farripas de humanidade por entre a frieza das máquinas. Sem bugs ou outras falhas, as peças do álbum pairam e fluem como um sonho mecânico. Hollywood, Rosa, Fotschi Tong ou Heisse Lippen (todos assinados por Roedelius) fermentam numa conjunção entre melodias vaporosas e futuristas e variações inventivas de ritmos motorik. O ripostar de Moebius (Rote Riki, Caramba, James ou Rotor) é mais agressivo, envolvendo o disco em tons de escuro. Mais cerebrais e provocadores, estes exercícios ajudam a fazer de Zuckerzeit a obra variada, completa e fundamental que ainda hoje é.
Enquanto o objectivo dos Kraftwerk residia na transição do Homem para a Máquina, os Cluster iniciaram aqui o inverso. A Máquina transmuta-se no Homem, e talvez seja por isso que a música do duo berlinense não soe tão perfeita e precisa como a dos seus pares de Düsseldorf. Aqui somos transportados para o reino cibernético das emoções...
18 de agosto de 2011
Dieta Mediterrânica X
Tre e Quattro Quarti enceta a mesma viagem que o tema anterior, mas encurta os passos. A vertente clássica transborda com intenção redobrada, assim como a reviravolta rock acentua a energia. Uma bizarra ponte entre arcaísmo e modernismo. Segue-se o tema-título, a confirmar que estamos perante um disco de grande beleza e não apenas um disco de um grande guitarrista. Ela, a guitarra, soa aqui como um objecto surreal, a raiar o electrónico. Quando a bruma se dissipa e deixa vislumbrar os traços do rock, ficamos perante um imaginativo exercício, em que o baixo gordo e a bateria algo funky administram um raro exotismo à hegemonia da guitarra.
Sonata Mediterranea é uma brisa morna e suave de folk italiana, que apetece ouvir junto ao Lago di Garda ou nas costas da Sardenha. Na companhia certa, pode ter efeitos afrodisíacos...
A última cascata de guitarra materializa-se em Mirage. A toada é a mesma que ficou para trás. Acrescente-se uns lampejos que trazem à memória o mais pastoral de Mike Oldfield e poderíamos estar numa versão transalpina da cena de Canterbury.
Riccardo Zappa é visto hoje em dia como um dos maiores (e melhores) guitarristas clássicos de Itália. Infelizmente, criatividade e virtuosismo parece terem seguido caminhos separados e a sua música há muito que não deslumbra como nas primeiras obras. Celestion pode, assim, ser considerado um dos últimos estertores da música de superlativa qualidade produzida na Itália dos anos 70. Devia haver um museu para exibi-la e conservá-la.
17 de agosto de 2011
Jazz a Gosto
Já lá vão uns mesinhos, mas nunca é demais enaltecer a consagração da lusitana Clean Feed como uma das melhores editoras de jazz do planeta. Até porque, neste ano de 2011, cumpre-se o aniversário da primeira década da sua existência. A mutação da Clean Feed entre pequena editora e referência do jazz deveu-se muito à incorporação e divulgação de projectos internacionais no seu precioso catálogo. O encontro entre músicos nacionais e estrangeiros e a realização de eventos jazzísticos pelos caminhos de Portugal é outro dos alibis da editora para vir oferecendo excelentes discos desde The Implicate Order "At Seixal" até ao recente European Movement Jazz Orchestra Live in Coimbra.
Muito graças à Clean Feed, o novo jazz em Portugal está vivo e recomenda-se. Poucos foram os períodos em que residentes nas moradas do culto ou da vanguarda visitaram este cantinho à beira-mar plantado. Exploradores temerários como Peter Evans ou projectos promissores como Mostly Other People Do The Killing são passíveis de aparecer numa sala perto de si. É a regionalização do jazz, levada a cabo pela editora lisboeta. Um caso sério de qualidade e sucesso em tempos de depressão luso-generalizada. É aconselhável uma visita demorada à Trem Azul, possivelmente a melhor loja da capital dedicada ao jazz e que guarda todo o catálogo da Clean Feed. Esse catálogo pode ser consultado aqui. Algumas notas soltas sobre peças desse catálogo estão disponíveis aqui.
Liturgia Cósmica
First they came with bombs, now they come with synthesisers. Esta foi uma das expressões que os britânicos soltaram aquando do concerto dos Tangerine Dream na Catedral de Coventry. Em 1940, o sumptuoso monumento e grande parte da cidade foram destruídas pela aviação alemã. Agora, em 1975, os germânicos voltavam sob a forma de três misteriosos músicos que invadiam o local sagrado com o seu psicadelismo cósmico.
A filmagem do evento que ficou para a posteridade não mimetiza o concerto em si. Realizada magistralmente por Tony Palmer, consiste numa montagem de som e imagem, em que a música transcende o espectáculo e se torna uma cinestesia do espaço onde é tocada. O lendário concerto dos Tangerine Dream na Catedral de Coventry consegue ser visualmente esmagador, com as pedras, vitrais e tapeçarias a reflectirem a flutuante e espacial atmosfera do trio. Musicalmente, esta é também uma excelente oportunidade para apreciar os Tangerine Dream numa das suas melhores encarnações (Edgar Froese, Peter Baumann e Chris Franke) e num período fértil de criatividade (rodava por estes dias o belíssimo Ricochet). Documento histórico e irrepetível nestes moldes, permite um olhar abrangente aos primórdios da música electrónica e à forma arcaica mas romântica como era posta em prática. Permite igualmente a veneração dos mestres, conservados para sempre entre as quatro paredes do templo. O culto tornou-se infinito.
A filmagem do evento que ficou para a posteridade não mimetiza o concerto em si. Realizada magistralmente por Tony Palmer, consiste numa montagem de som e imagem, em que a música transcende o espectáculo e se torna uma cinestesia do espaço onde é tocada. O lendário concerto dos Tangerine Dream na Catedral de Coventry consegue ser visualmente esmagador, com as pedras, vitrais e tapeçarias a reflectirem a flutuante e espacial atmosfera do trio. Musicalmente, esta é também uma excelente oportunidade para apreciar os Tangerine Dream numa das suas melhores encarnações (Edgar Froese, Peter Baumann e Chris Franke) e num período fértil de criatividade (rodava por estes dias o belíssimo Ricochet). Documento histórico e irrepetível nestes moldes, permite um olhar abrangente aos primórdios da música electrónica e à forma arcaica mas romântica como era posta em prática. Permite igualmente a veneração dos mestres, conservados para sempre entre as quatro paredes do templo. O culto tornou-se infinito.
16 de agosto de 2011
Melofobia Moderna
Fear of Music: Why People Get Rothko But Don't Get Stockhausen é a mais recente provocação literária de David Stubbs. Este ensaísta e jornalista britânico, conhecido sobretudo pelos seus escritos nas revistas Wire e Uncut, assina agora um interessante livro sobre a dualidade de critérios e apreciações na arte moderna.
Stubbs parte da noção que obras de arte de grande abstraccionismo e experimentalismo em áreas como a pintura ou a escultura, são fonte de agrado e apreço para um número de pessoas muito elevado. Há quem pague fortunas por quadros de Mark Rothko e se perca embevecidamente a contemplar esculturas de Henry Moore. Porém, é bastante mais raro assistir ao genuíno êxtase de um ouvinte presenteado com uma obra de Karlheinz Stockhausen ou John Cage. A vanguarda e a audácia residem em todas elas, mas a recepção calorosa não se estende muitas vezes à música. Essencialmente, todas derivaram da mesmas correntes e beberam das mesmas influências (minimalismo, impressionismo, dadaísmo...), mas a música contemporânea mais arrojada continua a não atingir o mesmo estatuto. Será que os ouvidos são mais exigentes que os olhos? Será que o prazer sensitivo e a comunicação das artes variam de receptor para receptor? E a subjectividade? Reside em nós ou no objecto que admiramos, seja ele um quadro, uma fotografia ou uma peça de Xenakis?
Fear of Music é um livro que, mais que dar respostas, levanta questões. Pode parecer (e é) algo curto na vastidão da temática que procura esquadrinhar. Mas pode perfeitamente abrir caminho a mais investigações nesta matéria, principalmente ao nível da Psicologia. Quiçá não irei lá meter a colherada...
15 de agosto de 2011
Texas Us
Feel good music. Esta é a melhor definição para a sonoridade aprazível dos Sir Douglas Quintet. Activos durante mais de 30 anos, praticamente até à morte do líder Doug Sahm em 1999, estes texanos foram mestres no corte e costura de diversos estilos musicais americanos, na criação de patchworks sonoros onde blues, country, tejano e rock recebem tratamento VIP. Mendocino, segundo fôlego da banda lançado em 1969, é o exemplo perfeito do seu aveludado musical, sempre sedutor mas nunca boçal.
Para além do clássico tema-título, as grandes composições do álbum são as que fluem lentamente, como um calmo entardecer. Eis o belíssimo I don't Want, o arrastamento dolente de At the Crossroads e a majestade sulista de Texas Me.
Reeditado em 2002, Mendocino acrescentou mais seis temas à colheita original. Por entre as costumeiras versões alternativas, destacam-se as revelações The Homecoming e a sentimental Sunday Sunny Mill Valley Groove Day. Uma versão do filme Aquele Querido Mês de Agosto rodada no Texas teria certamente a banda-sonora assegurada pelos Sir Douglas Quintet. E isto é um elogio. Tex Mex style...
7 de agosto de 2011
San Francisco Serenade
Chet Powers escolheu o nome artístico Dino Valenti no princípio da sua carreira. Posteriormente, na banda que ajudou a fundar - os Quicksilver Messenger Service - passou a chamar-se Jesse Oris Farrow. Este estranho desdobramento de pseudónimos parece dever-se à divisão do músico entre vários projectos, à procura de uma identidade diferente em cada criação. As belíssimas e emotivas canções raramente transcendem a fronteira acústica. Arranjos de sopro e brisas de piano agitam My Friend e uma cascata orquestral tomba sobre a sublime Tomorrow. Uma bateria esparsa e gotas de cravo preenchem o não menos soberbo Time. De resto, erguem-se maioritariamente o trovador Dino e a sua guitarra, completando-se um ao outro, aconchegando-se mutuamente. E mais não é preciso, quando ruminações românticas e dolentes como Something New, Listen To Me ou New Wind Blowing param o tempo e salvam-nos, por momentos, do mundo real. À história de Me and My Uncle poderíamos chamar algo como outlaw folk. Children of the Sun guarda algum bucolismo psicadélico e Test vem terminar a edição original do álbum em expedição psicadélica explícita, mostrando que o baladeiro nunca deixou de ser um dos pais desta corrente.
Dino Valente é um disco com uma exposição bem mais reduzida que aquela que merece. É um exemplo perfeito do som de San Francisco nos finais dos anos 60, esse som pacífico e solarengo, em que uma acalmia algo triste se projecta no azul do céu. Reeditado em 2004, acrescentou Shame On You Babe e Now and Now Only aos dez temas originais e enfatizou uma vez mais o excelente escritor de canções que Chet Powers (o homem) foi. Justiça fosse feita (e um pouco menos de dedicação à marijuana...) e a sua obra-prima a solo seria falada na mesma dimensão que alguns discos de Tim Buckley, o seu génio composicional no mesmo patamar de Arthur Lee. Este é o único sítio na Internet onde existe um tributo ao músico. É rudimentar, mas funciona como local de culto a um artista que nunca passará disso.
6 de agosto de 2011
San Francisco Jam
É costume dizer-se que o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. Os californianos Quicksilver Messenger Service surgiram para contrariar esse rebuscado dogma. Rezam as crónicas que Chet Powers (Dino Valenti no meio artístico), o mentor da banda, foi preso por posse de marijuana no dia que se seguiu ao seu primeiro ensaio. Isto aconteceu em 1965, três anos antes dos QSM editarem o seu álbum inaugural. Grupo rodado e habituado ao pó da estrada, chegou a 1968 sem o fundador, mas num misto de frescura e experiência, com uma sonoridade distintiva que os transformou num dos pilares do psicadelismo da West Coast.
Em menos de um ano, o panorama altera-se. Após Happy Trails, o fulcral Gary Duncan abandona o grupo (diz-se que foi percorrer a América de mota...) e o segundo registo editado em 1969 é uma súbita encruzilhada na auto-estrada psicadélica. Shady Grove nunca será um mau disco. Mas coloca os QSM no roteiro das bandas mais convencionais numa altura em que poderiam ter expandido o seu som até ao fim do horizonte. A saída de Duncan parece tê-los deixado como um cão com três patas. Povoado por canções mais contidas no tempo e no espaço, Shady Grove tira do armário os esqueletos da folk e dos blues e cruza-os amiúde, como no tema-título e Holy Moly. Mas também separa a clara da gema, como em Flute Song ou Words can't Say. A estrela da companhia desta feita é o recém-recrutado Nicky Hopkins, pianista inglês e session man de gente como os Rolling Stones e Beatles. O seu estilo escorreito e sofisticado acrescenta ao disco um aroma de honky tonk erudito, especialmente no fabulosamente apurado Edward, The Mad Shirt Grinder.
O Verão do Amor da banda prolonga-se em What About Me. Igualmente editado em 1970, é um disco muito similar ao seu antecessor, acrescentando sopros em alguns dos temas. Continua a busca por sonoridades mais directas, o que se encontra logo no tema de abertura, manifesto capaz de aliviar uma otite. A aridez dos blues desponta em Local Color e Good Old Rock'n'Roll é exactamente o que anuncia. Mas o álbum acaba por ser mais um caldeirão de canções banhadas pelo sol da Califórnia. Baby Baby, Spindrifter e Call on Me são nomes talhados nas palmeiras, apetece quase vestir uma camisa às flores (uma que não seja muito foleira, vá...) e tomar uns mojitos a olhar o Pacífico. Long Haired Lady é uma típica balada ao estilo Dino Valenti e All In My Mind acrescenta uma tonalidade caribenha às cores quentes da paisagem. Just For Love e What About Me são conhecidos como os álbuns hawaianos dos QSM. Está tudo dito.
Em 1971, a trupe perde dois pesos-pesados: John Cippolina e Nicky Hopkins. Este desfalque e o idílio dos dois últimos discos fazem adivinhar um grupo à beira de cair na auto-indulgência ou a tocar para turistas nos bares de Honolulu. Mas a música é feita de surpresas e o novo registo da banda de Dino Valenti prova que ainda estão a uns valentes anos da reforma. Quicksilver é bastante sólido e está recheado de composições fortes. As infusões de folk sabem melhor que nunca, especialmente em Hope e no divinal Don't Cry for My Lady Love. I Found Love poderia ter saído das mãos do Carlos Santana dos inícios e o genial Fire Brothers é um milagre nesta fase da banda. Um dos melhores e mais vincadamente psicadélicos temas da sua história aparece ao sexto álbum. Que mais se pode pedir? O patrão da 4AD, Ivo Watts-Russell, que sabe muito bem o que faz, incluiu uma versão sombria e quase irreconhecível deste tema em Filigree & Shadow do projecto This Mortal Coil. The Truth fecha o álbum em modo rock descomprometido. Acima de tudo, sente-se o prazer dos músicos que, nesta altura do campeonato, conseguem um disco surpreeendente e que resume a carreira da banda em todas as suas facetas.
Foi sol de pouca dura. Em 1972, Comin' Thru aniquila as esperanças de uns Quicksilver renovados e perenes. À excepção de dois ou três temas (justiça seja feita, California State Correctional Facility Blues ainda entusiasma...), o disco é uma desilusão perante o que tinha sido alcançado há apenas um ano. Para castigo, não ponho aqui a capa.
A banda volta à carga em 1975 e com o line-up original. Desta vez, parte do hype é verdadeiro e os QSM podem orgulhar-se do que apresentam. I Heard You Singing é boa, Gypsy Lights é melhor, Cowboy on the Run é a melhor de todas. Witches Moon e Bittersweet Love são prazenteiros regressos ao passado, o que constitui o único problema do álbum Solid Silver. Oito anos antes teria sido uma bomba, em 1975 é apenas um estalinho. Foram as melhoras da morte dos Quicksilver Messenger Service. A loja fechou e reabriu em 1986 pela mão de Gary Duncan. Mais valia ter sido demolida. O grupo que existe hoje é apenas um pálido retrato do passado. Uma banda de covers de si própria. Mas, quando chega o Verão, os fantasmas do passado de um dos melhores colectivos de sempre a sair de San Francisco, ícones incontornáveis do psicadelismo, chegam para nos atormentar de forma benfazeja. High Spirits...
30 de julho de 2011
Kosmische Kosmetik XXVII
Conrad Schnitzler tem 74 anos de idade e quase o dobro de discos editados. Este alemão de Düsseldorf, desconhecido para muitos, é um dos maiores pioneiros da música electrónica. Membro da primeira formação dos Tangerine Dream e co-fundador dos Kluster (que trocariam o K pelo C após a sua saída), Schnitzler foi igualmente o mentor do breve projecto Eruption, que duraria o tempo suficiente para gerar um único álbum. Enquanto os Eruption seriam uma alavanca para o movimento krautrock, esse único registo - homónimo - apenas veria a luz do dia em 2006, mais de 30 anos após a sua criação.
Muito viveu e produziu Conrad Schnitzler entretanto. A sua quase infinita discografia necessita de uma hercúlea dedicação para ser desbravada por inteiro. A trajectória do músico parece ser circular desde os primeiros tempos da sua carreira a solo. Começando por assentar em edições exclusivamente em cassette, até aos dias de hoje, em que perduram as concepções caseiras e disseminadas em CD-R, Herr Schnitzler conviveu pouco tempo com a visibilidade mediática. Talvez o excelente Ballet Statique, de 1978, seja visto hoje como a sua obra mais abrangente e influente, um dos melhores discos de electrónica já criados e uma bússola para muitos artífices e seguidores do clássico, frio e minimal som germânico. Cinco anos antes, porém, surgia outro mastodonte robótico pela mão do catedrático. Longe, muito longe, das atmosferas mais acessíveis presentes nos seus discos de finais de 70 e princípios de 80, a aventura chama-se Zug.
A história de Zug escreve-se em dois temas apenas, ou, como nestes tempos havia dois lados nas construções musicais, numa peça partida em dois: Spur e Rhythmus. Causa e consequência. Desde o início somos colocados numa locomotiva desgovernada, que avança irredutivelmente, mas sem nunca sair dos carris. Uma vertigem sonora, que não pára em estações nem apeadeiros e que tanto nos pede para mover o corpo às suas investidas, como nos titila a massa encefálica para continuar a ouvir, para saber onde a viagem nos leva. O ritmo pica como esporas, impedindo a atenção de ser desviada, mesmo sendo minimal e repetitivo. Lá atrás sucedem-se sibilares mecânicos, metálicos, metamorfoses subtis que acrescentam tonalidades cinzentas ao preto e branco dominante. Em Trans-Europe Express dos Kraftwerk, sentimo-nos igualmente transportados, mas como passageiros enamorados pelo Velho Continente. Zug é mais actual, parece arrastar-nos para uma fuga, não nos deixa olhar a paisagem, não nos deixa reter o momento. É movimento puro, o que acontecerá daqui a um minuto poderá ser exactamente o que aconteceu há um minuto atrás. Abruptamente, como se entrasse num túnel perpétuo, o movimento desvanece-se. Passaram perto de 40 minutos. De quê?
Em 2010, o disco foi reeditado tendo como base reconstruções da peça original. Provavelmente para dar continuidade, um fim, ou um sentido a uma obra tão vaga e misteriosa mas que ajudou a construir o futuro. O primeiro disco de trance music de sempre? O motor de arranque do techno inteligente? Nada disso, mas muito mais que isso...
African Night Flight
O termo Fourth World significava, para Hassell, a junção entre o vanguardismo musical e diferentes culturas e eras. Uma miríade de possibilidades, que assistem este disco em pleno e que reflectem África como um espelho negro. Delta Rain Dream recupera os tambores reais do Burundi, em regime processional e introvertido. Ritualística, Griot (Over 'Contagious Magic') faz das palmas ritmo e Rising Thermal 14° 16' N; 32° 28' E deixa-nos sós perante a claustrofobia da imensidão. Hassell vai fazendo o trompete carpir como uma alma penada ou uivar como um animal selvagem.
A metade mais forte do álbum começa no primeiro tema, Chemistry. A química entre os intervenientes mostra-se, desde logo, perfeita. Trompete sussurrante, um baixo com Parkinson e o percurssionista brasileiro Naná Vasconcelos a acariciar as congas. Ba-Benzélé coloca um Hassell em loop intermitente (inebriante) e outro em desdobramento. Ouvem-se trovões à distância e o ritmo dança seduzindo o céu com a promessa de chuva. Eno mantém-se em segundo plano, adicionando sintetizadores e efeitos, dando tempero. Ambos deixam o melhor para o fim. Charm (Over 'Burundi Cloud') é a peça que define este disco magistral. Durando mais de 20 minutos (o que correspondia a todo o lado B do vinil original), é daqueles temas em que vale a pena ter nascido para poder experienciá-lo. Está lá tudo o que melhor define as artes de Hassell e Eno. O trompete parece um ser vivo, que não só comunica com a nossa alma, como nos toca fisicamente. As electrónicas giram em espirais contínuas e tudo se repete, uma vez, outra vez, até que o solo deixa de existir e estamos a voar lentamente pela noite infinita. Lá em baixo, flora negra, águas paradas, fogo que se eleva mas não nos consegue alcançar. O ritmo conduz-nos, continente acima, até terras do Magrebe, até sabe-se lá onde, porque há coisas das Arábias...
Fourth World, Vol. 1: Possible Musics assumiu-se como uma obra embrionária no que viria a ser o multiculturalismo musical, especialmente na música electrónica e de dança. Uma obra que é mais Hassell que Eno, mas cuja existência seria impossível se os dois não tivessem marcado encontro e traçado o mesmo destino.
27 de julho de 2011
Beef do Vazio
Unconditionally Guaranteed e Bluejeans & Moonbeams são tidos como os pontos mais baixos da obra de Captain Beefheart. Erros de percurso em que o experimentalismo cedeu ao comercialismo, em que os fãs antigos se sentiram defraudados e em que os fãs novos... bem, quais fãs novos?
Ambos estes discos de 1974 quase arruinavam a reputação de Don Van Vliet ao mesmo tempo que não lhe permitiram transpor o portal que dá acesso ao sucesso massificado (se era mesmo isso o pretendido). A emblemática Magic Band, que o acompanhava desde os primórdios, chegou a ser apelidada Tragic Band. Beefheart portava-se quase normalmente na televisão (ver vídeo no final). Que aberrações eram estas!?
Hoje, quase 40 anos passados da sua edição, será que estas obras continuam a ser malditas? O Escrito no Som, imbuído do seu espírito de harmonia e apaziguamento, coloca-os na mesa de operações.
Para começar, Unconditionally Guaranteed mostra na capa Captain Beefheart agarrado a um maço de dólares. Das duas uma: ou este gesto faz parte da sua ironia habitual, ostentando que fez um disco somente pelo dinheiro, ou então fez mesmo um disco somente pelo dinheiro. Outra coisa é o facto de Beefheart estar, por estes dias, apaixonado e recém-casado com a senhora Jan Van Vliet. Em circunstâncias normais, isto é motivo de júbilo. Para um artista como este, é um pesadelo. Ouvir o homem que criou uma das obras musicais mais surrealistas e abismais do século XX (Trout Mask Replica, obviamente) a cantar algo como Happy Love Song é como beber óleo de fígado de bacalhau puro. Por entre a tepidez geral e constante, há algumas canções que sobressaem e se insinuam num estranho chove não molha. This is the Day e Magic Be são pérolas incaracterísticas. Certamente seriam apreciadas noutro personagem que não Captain Beefheart, o que suscita o interessante debate de como os artistas ficam involuntariamente presos aos rótulos - sejam eles bons ou maus. I Got Love on my Mind é um blues-rock enérgico, mas que nunca infringe a lei. Apenas Upon the My-O-My traz ténues reminiscências do passado mais experimental e transgressor. Os restantes temas enchem chouriços na perfeição. A frase 100% Pure and Gold, inscrita na capa do álbum, só pode gozar literalmente com o ouvinte. 25% seria a percentagem correcta.
Bluejeans & Moonbeams começa melhor que o seu predecessor. Party of Special Things to Do avança com algum do veneno vocal e rítmico que os beefheartianos tanto adoram. Logo a seguir, o tratamento dado a Same Old Blues supera o original de J.J. Cale. Não profana os blues tanto como seria desejável, mas mantém a decência. E eis que surge Observatory Crest para salvar em definitivo a honra do convento. Nos meandros da atmosfera ofuscante, de um estio abrasador, palpita um psicadelismo puro e acessível que não se conhecia no Capitão desde Safe as Milk. Infelizmente, o combóio descarrila a partir daqui. Nenhuma das peças seguintes supera o que ficou para trás e somente Further Than We've Gone e o tema-título conseguem deixar algo de memorável. Nem que seja pela impressão que esta encarnação da Magic Band está a emular o rock progressivo ou as paisagens mais açucaradas da música dos anos 70. Em mais nenhuma fase de Beefheart se conseguem escutar solos de guitarra planantes ou teclados com priapismo...
Até hoje, é difícil descortinar se Don Van Vliet agiu deliberadamente na criação destes dois registos ou se foi coagido para tal. Há quem culpe a falta de carisma da banda ou o facilitismo na produção de Andy DiMartino. Certo é que não se ouviu falar em Captain Beefheart nos quatro anos que se seguiram. Mas a fera que parecia dopada e à beira de cair no abismo do mainstream regressaria para nos presentear com mais três discos até à sua retirada final em 1982. Três discos à (sua) moda antiga, desafiantes, intrigantes, imprescindíveis.
Mesmo assim, não existem razões para obliterar totalmente Unconditionally Guaranteed e Bluejeans & Moonbeams. Com a mediocridade criativa facilmente audível que prolifera por aí, é provável que alguns músicos doassem um rim para os fazer. Aqui foram a excelência previamente alcançada e a fasquia muito alta que tramaram Don Van Vliet. Voltar a estes discos de quando em vez não provoca micoses. Mas que nunca sejam glorificados. Isso seria como ver-me a festejar um golo do FC Porto, ou a comer sardinhas assadas com Coca-Cola. Nunca se sabe se poderá vir a acontecer, mas é extremamente improvável...
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