Os Brainticket são, acima de tudo, uma multinacional. Um colectivo krautrock que se espraia pela Alemanha, Suíça e Bélgica. Formaram-se nos finais dos anos 60 e permanecem intermitentemente activos até hoje. Editaram uma série de discos ao longo dos anos, alguns bastante recomendáveis, mas quase todos se desvaneceram entre as brumas da memória. Estariam quase esquecidos, se não fosse por uma particular criação: Cottonwoodhill.
Foi considerado um dos discos mais trippy e alucinados da história do rock. Uma vertigem ácida e incontrolável, que não dá sossego às mentes que seduz, mas que lhes garante uma sensação de escapismo inigualável. Mas, musicalmente, o que guarda este disco para lá do desvario?
Quem começa por ouvir Black Sand pode ficar com a ideia que o LSD é fraquinho. É um tema quase funk rock, teleguiado por órgão e com ritmo encorpado. Quase tudo dentro da normalidade, até que uma voz processada entra em cena para baralhar a pauta. Em Places of Light o caso muda de figura, com a flauta mágica de Joel Vandroogenbroek (igualmente organista e o grande timoneiro do projecto) a massajar os nossos pensamentos e a voz alterada de Dawn Muir a escavar os nossos tímpanos. A seguir, a barafunda instala-se. Do nada, a relativa calmaria da música transforma-se num ataque de pânico. Vidros que se partem, ambulâncias em fuga e uma dupla de guitarra e órgão que anunciam a sua visita. Visita que tão cedo não terminará. Brainticket é um apocalipse lisérgico dividido em três partes. Um engolfo num mar de rock psicadélico, música concreta e, acima de tudo, insanidade desmesurada. A Sra. Dawn Muir surge, a espaços, num misto de paranóia e possessão, o ritmo persistente e maquinal não pára, sons de toda a espécie e feitio bombardeiam-nos ilogicamente e a única forma de parar esta enxurrada é fugir. Ou calar o som. Quem correr o risco de ficar até ao fim (se é que a peça tem um fim...), resistiu ao maior ataque ácido nos anais do rock'n'roll. Os Hawkwind ou os Pink Floyd da primeira fase parecem meninos de escola ao pé destes catedráticos intoxicados.
Ainda hoje Cottonwoodhill consegue ser estranho e perturbador e não é, definitivamente, para paladares mais sensíveis e virgens nestas lides. Na altura do seu lançamento, em 1971, seria certamente a quintessência da alucinação psicotrópica esparramada numa rodela de vinil. O inlay do disco exibe as seguintes notas:
Advice: After listening to this record your friends won't know you anymore.
Warning: Only listen once a day to this record. Your brain might be destroyed!
Discordo da primeira, concordo com a segunda. Que alguém o ponha a tocar bem alto no intervalo dos plenários da Assembleia da República.
17 de abril de 2012
16 de abril de 2012
Blue Explosion
Os temas restantes saíram todos da pena (ou será melhor dizer do martelo e do escopro?) do baixista e vocalista Dickie Peterson. O registo não varia muito, preocupando-se pouco com trejeitos sentimentais e muito em propagar labaredas sónicas. Merece especial relevo Doctor Please, em que a distorção e o estrépito contínuos evocam a imagem de uma banda fechada numa garagem esconsa e com as mentes em exaltação lisérgica.
Vincebus Eruptum foi reeditado em 2003 com uma faixa extra, All Night Long. Se muitos rotulam o disco como proto-metal, este tema, curto e grosso, puxa a brasa à sardinha do proto-punk. Todavia, por mais tabuletas que se preguem nos Blue Cheer, a mais correcta é seminal. Basta dizer que, sem a influência deste power trio, não existiriam Black Sabbath, MC5 ou Stooges para acabar de vez com a conversa.
14 de abril de 2012
Idades da Pedra
Em 2007 e em parceria com o canal VH1, a BBC produziu uma série de documentários intitulada The Seven Ages of Rock. Uma breve história do rock contada em sete capítulos e que, no geral, alcançou os seus propósitos.
Da génese do estilo às novas tendências que lutam contra a premissa de que o rock está morto, The Seven Ages of Rock evoca movimentos tão importantes como o Blues-Rock, o Punk e o Rock alternativo. Infelizmente temos que suportar a aerocolia do Rock de estádio, mas o Heavy-Metal acaba por berrar mais alto e fazer-nos esquecê-lo. Excelente é o capítulo dedicado ao Art Rock.
No final, fica a sensação (romântica ou lírica) de que o Rock está bom e recomenda-se. Apetece quase trautear o mestre Neil Young: My my hey hey / Rock'n'roll is here to stay...
Da génese do estilo às novas tendências que lutam contra a premissa de que o rock está morto, The Seven Ages of Rock evoca movimentos tão importantes como o Blues-Rock, o Punk e o Rock alternativo. Infelizmente temos que suportar a aerocolia do Rock de estádio, mas o Heavy-Metal acaba por berrar mais alto e fazer-nos esquecê-lo. Excelente é o capítulo dedicado ao Art Rock.
No final, fica a sensação (romântica ou lírica) de que o Rock está bom e recomenda-se. Apetece quase trautear o mestre Neil Young: My my hey hey / Rock'n'roll is here to stay...
O Fim do Arco-Íris
Foi, então, em 1967 que começou a tomar forma o que, dois anos depois, viria ser A Rainbow in Curved Air. Um magnífico documento em que os padrões do Minimalismo clássico se distorcem pelos ventos do psicadelismo e em que o pensamento livre de Riley musica o que o fascina.
A composição A Rainbow in Curved Air é uma mistura suprema. Uma sonata de electrónica primordial, em que padrões sonoros se sobrepõem uns aos outros, se empurram e entrechocam numa dança livre mas labiríntica. Todos os instrumentos são tocados por Riley, que consegue conjurar uma peça notável em que os espíritos livres do jazz, do Minimalismo e da música indiana são reanimados pelo sopro da vida psicadélica. O som evolui e retrai-se, padroniza-se e renova-se e fica a sensação que esta música joga Pacman com os nossos neurónios.
O crepúsculo baixa sobre Poppy Nogood and the Phantom Band. A explosão colorida de strobes mentais que o precedeu transforma-se em contemplativa abstracção. Remendos intrusivos vão sendo cerzidos à base do tema, mais ou menos até ao final dos primeiros 5 minutos, altura em que a música entra em modo de suspensão, deixando um saxofone penetrante, hipnótico e monástico a sós com o ouvinte. Terry Riley era já conhecido neste período pelos seus All Night Concerts, eventos em que a performance do compositor durava uma noite inteira. Antes dos Festivais de Verão despontarem, foi a única altura em que os espectadores levavam sacos-cama para os concertos... Poppy Nogood and the Phantom Band reflecte bem um pedaço desse pequeno infinito, em que a música parece ser feita para romper o véu do tempo e circular pelo Cosmos ilimitado.
Tal como não existe um pote de ouro no final do arco-íris, não há um pote de ouro no fim de A Rainbow in Curved Air. Começar a percorrê-lo e alcançar o seu final apenas nos enriquece o espírito. E não há riqueza maior...
6 de abril de 2012
Kosmische Kosmetik XXXVI
Pegue-se numa guitarra crua e num órgão mal passado. Adicione-se uma secção rítmica desejosa de largar suor e uma voz disposta a admitir que os blues nasceram na Alemanha. Misture-se tudo sem preceitos e leve-se ao forno à temperatura máxima, para que o cozinhado resulte nos Orange Peel. O equivalente krautrock dos Atomic Rooster ou dos Deep Purple dos primórdios. Dominados por teclados inflamados e um som gordo e saturado, os Orange Peel são a encruzilhada onde o rock alemão dá de caras com os blues em carne viva.É um mistério o motivo pelo qual muitas das bandas germânicas de finais de 60 e princípios de 70 editaram apenas um disco antes de se sumirem sem deixar rasto. Por um lado, subsiste sempre a curiosidade em saber o que teriam feito e como a sua arte teria evoluído se não se dispersassem. Por outro, ainda bem que o fizeram, pois deixaram como legado obras de culto, achados irrepetíveis.
O único disco dos Orange Peel é um opus de quatro temas, abrasivo e em fúria constante, um caldeirão de emoções que faz atirar a toalha ao chão aos incautos que tentarem lutar contra as suas investidas. You Can't Change Them All, anuncia o primeiro tema. Mas bem que tenta, e é provável que o consiga, pois argumentos não lhe faltam. Trata-se de um épico de peito cheio, debulhando com energia tudo o que encontra pela frente. Toma o freio nos dentes e assume-se como uma das peças mais inflamadas e destabilizadoras de sempre nos anais do krautrock. O incêndio propaga-se em Faces That I Used To Know, intervenção rock curta e concisa, que foca na voz, no órgão e na guitarra os seus pontos essenciais.
Tobacco Road é o mais próximo que podemos falar de krautblues. O Reno transforma-se no Mississippi e a corrente arrasta-nos a velocidade psicadélica. Em We Still Try To Change, os Orange Peel encapsulam as suas práticas num tema só, debitando rock, blues, psicadelismo e desvario sem tréguas nem constrições. Mas tudo embrulhado e oferecido à maneira alemã. Os rodriguinhos aqui são supérfluos. Os disparos são à queima-roupa, sem direito a colete à prova de bala.
Em 1970, altura da edição deste registo, os Orange Peel ajudavam à disseminação do novíssimo e vanguardista rock alemão, juntamente com nomes como Faust, Can ou Amon Düül II. A memória de todos estes mantém-se bem viva até aos dias de hoje. Os Orange Peel, provavelmente os detentores de um som mais pesado e poderoso, se bem que menos arriscado, caíram no esquecimento. Mas a porta da memória está sempre entreaberta e o saber não ocupa lugar...
Omelete Progressiva
Após um promissor primeiro disco - Egg - que apalpava terreno e brincava com várias possibilidades musicais, chega em 1971 The Polite Force. E com ele unem-se as pontas soltas. Mais conciso e focado, coloca os Egg no seu próprio pedestal e delimita-os dos seus pares da época, nomeadamente os Emerson, Lake & Palmer, dos quais pareciam ser uma espécie de versão mais espinhosa. É, em suma, um disco imponderável, dos melhores exemplares da espécie Canterbury.
A Visit to Newport Hospital, tema que dá o pontapé de saída a The Polite Force, captura na perfeição a essência dos Egg. Irrompe e desvanece-se em toada hard rock, o que não deixa de ser bizarro, pois o que soa a guitarra são as teclas de Dave Stewart. Obviamente, o virtuosismo deste não passa despercebido ao longo da peça, vindo à tona em absorventes e complexos trechos individuais. O que sobra é Canterbury vintage, uma canção que, liricamente, resume a história da banda. A seguir à relativa bonança deste arranque, espera-nos a visita cerebral e descompassada de Contrasong. Mais uma equação que uma canção, este estranho exercício baralha e confunde, sem melodia definida, com sopros pelo meio e vestígios da improvisação a regra e esquadro dos Henry Cow. Boilk acentua a queda no abismo da experimentação. Tijolo a tijolo, vai sendo erguido um muro de ruídos vários e improváveis. Aparenta ser um pedaço esquecido de Ummagumma dos Pink Floyd que nos veio visitar sem aviso prévio. E eis que a atmosfera demencial se extingue ao som de Bach: Durch Adams Fall 1st Ganz Verdebt. Que tanto salva da loucura como pode ser o passo definitivo para não se sair dela...
Long Piece no. 3 é a viagem definitiva proporcionada por The Polite Force. Uma maratona progressiva instrumental em quatro partes, remendadas entre si e ricas em variações. As influências clássicas estão lá, como sempre, mas distorcidas e desmembradas. A diferença entre os Egg e os grupos progressivos mais excessivos e teatrais reside aqui: o virtuosismo e o domínio perfeito dos instrumentos faz-se sem show-off. O objectivo é provocar novas sensações e não prender o ouvinte numa teia sonora da qual não se consegue libertar. Provavelmente a qualidade que distingue a maioria das bandas associadas a Canterbury...
Os Egg editariam ainda The Civil Surface, álbum póstumo, em 1974. Tal como os dois pares que o antecederam, é um disco bastante aconselhável e inventivo. Mas The Polite Force será sempre primus inter pares.
Poker de Dados
Da Suécia chegam os Roll the Dice. Composto por Peder Mannerfelt e Malcolm Pardon, respectivamente um sueco e um inglês fixado em Estocolmo, o duo começou por editar um discreto mas sólido álbum de estreia em 2010. Roll the Dice, o disco, movia-se pela tundra da electrónica minimal e semi-improvisada, num filme sónico espacial. 2011 delapidou o som e a edição de In Dust trouxe a consolidação de um projecto a seguir com atenção. O sentido produtor de Peder Mannerfelt (que participou no excelente álbum de estreia de Fever Ray) encontra-se aqui mais apurado e o disco perde um pouco da amálgama sideral do seu antecessor. Parece dividir-se entre vertigens urbanas e a ambiência electro-pastoral dos Cluster. Tanto um como o outro são objectos imperdíveis para os que gostam de surfar pelas vagas da electrónica analógica que se levantaram em terras germânicas. Consta que, ao vivo, são igualmente pungentes e o impacto visual é forte. Só o Benfica me poderia impedir de os ver anteontem no Maria Matos... Ficam o toque à distância e os dois álbuns completos para desbravar aqui.
18 de março de 2012
Kosmische Kosmetik XXXV
O septeto Cornucopia, proveniente de Hamburgo, é mais um caso exemplar dos anos de ouro do underground teutónico. Após a edição do seu único álbum, Full Horn, em 1973, a banda desvaneceu-se em parte incerta e foi apenas retirada da teia de aranha das memórias em 2002, ano da reedição da pérola solitária que legaram.Full Horn não surpreenderá os connaisseurs do krautrock. Mas atraí-los-à. Levitando entre o caótico, o esquisito e a fusão, desmembra-se em quatro capítulos que incorporam rock psicadélico, influxos jazzísticos e grooves à moda de Zappa. Entretém o cérebro e foge do aborrecimento como o Diabo da cruz.
Day of a Day-Dream Believer abre o disco de forma imponente. Um delírio esquartejado em nove partes, deambulando entre o maníaco, o excessivo e as retiradas introspectivas. Um must para os amantes de bizarrias sónicas. Contrastando radicalmente com este enorme zeppelin inflamado, segue-se Morning Sun. Curto e directo, evoca a ideia de alemães a passar férias nas praias da Califórnia e cheira a single que nunca saiu das sombras. Spot on You, Kids lança-nos novamente em órbita, num azimute perfeito entre o krautrock de denominação de origem controlada e os floreados imprevisíveis de uns Mothers of Invention. É um doce cataclismo que se abate sobre nós, fustigando-nos com uma mão e acariciando-nos com a outra. And the Madness... irrompe e fecha o disco da forma mais alucinante possível. Um exercício surreal de corte e colagem que, a meio caminho, se transforma num cortejo elegíaco.
Full Horn é mais um disco voador do seu tempo. Um tempo sem restrições criativas e barreiras conceptuais. Tempo da Alemanha que se emancipava como entidade capaz de passar o rock pela picadora e transformá-lo numa linguagem única na sua visão mas num esperanto musical acessível aos aliados do seu progresso.
14 de março de 2012
... Explicit Content
É impossível falar de stand-up comedy sem falar de Bill Hicks. Especialmente quando nomes que ainda mexem, como o anteriormente falado Denis Leary, lhe devem tanto (No caso de Leary, até demasiado, pois rezam algumas crónicas que este roubou muitas das suas ideias a Hicks - coisa feia no mundo da comédia...).
Bill Hicks foi único e um marco na sua geração. Para além dos lendários espectáculos ao vivo, deixou vários registos discográficos imperdíveis como Dangerous ou Relentless. Morreu no pico dos seus poderes em 1993, com apenas 32 anos, deixando para a posteridade outras duas gravações imprescindíveis: Arizona Bay e Rant in E-Minor, às quais a música adicionada veio acentuar ainda mais a força das palavras.
Hicks revolucionou o modo de fazer comédia. Deixou de ser apenas um tipo a debitar piadas em frente de uma audiência, para passar a interagir directamente com ela e torná-la parte integrante das suas actuações. Dizia as verdades que ninguém queria ouvir e punha o dedo nas feridas mais incómodas. Não é à toa que lhe chamaram The First Rock n' Roll Comic. O registo que se segue, intitulado Revelations, não será o melhor de Hicks. Também não será o pior, pois rareiam momentos maus. Trata-se do seu último espectáculo em Inglaterra, quando já padecia da doença que o vitimou, mas que não lhe tirou o génio e a mordacidade. Comédia, à séria.
Bill Hicks foi único e um marco na sua geração. Para além dos lendários espectáculos ao vivo, deixou vários registos discográficos imperdíveis como Dangerous ou Relentless. Morreu no pico dos seus poderes em 1993, com apenas 32 anos, deixando para a posteridade outras duas gravações imprescindíveis: Arizona Bay e Rant in E-Minor, às quais a música adicionada veio acentuar ainda mais a força das palavras.
Hicks revolucionou o modo de fazer comédia. Deixou de ser apenas um tipo a debitar piadas em frente de uma audiência, para passar a interagir directamente com ela e torná-la parte integrante das suas actuações. Dizia as verdades que ninguém queria ouvir e punha o dedo nas feridas mais incómodas. Não é à toa que lhe chamaram The First Rock n' Roll Comic. O registo que se segue, intitulado Revelations, não será o melhor de Hicks. Também não será o pior, pois rareiam momentos maus. Trata-se do seu último espectáculo em Inglaterra, quando já padecia da doença que o vitimou, mas que não lhe tirou o génio e a mordacidade. Comédia, à séria.
Parental Advisory...
Tal como em todas as artes, existe igualmente humor intemporal. Aquele que se inspira nos imutáveis ridículos, fraquezas e idiossincracias do ser humano e que assenta que nem uma luva em tempos agrestes como o que nos coube suportar actualmente. Humor negro para tempos negros, é isso que podemos encontrar na obra do norte-americano Denis Leary. Homem dos sete ofícios no que toca às câmaras, Leary alicerçou a sua notoriedade pelos controversos e bombásticos espectáculos de stand-up comedy. Não poupando nada nem ninguém à sua visão sardónica e corrosiva do mundo em geral e da sociedade americana em particular, performances como No Cure for Cancer ainda arrancam risos escandalizados. Quem conseguir, que conte o número de cigarros fumados e cervejas ingeridas durante esta actuação, simultaneamente temas e adereços usados por Leary enquanto arrasa com o politicamente correcto qual bulldozer desgovernado.
No Cure for Cancer data de 1993 e foi editado em filme, livro e disco. Um improvável caso de sucesso tendo em conta o teor da mensagem e que, apesar de um pouco datado nesta ou naquela piada, ainda é capaz de convencer as mentes mais taciturnas, deste que sejam abertas...
No Cure for Cancer data de 1993 e foi editado em filme, livro e disco. Um improvável caso de sucesso tendo em conta o teor da mensagem e que, apesar de um pouco datado nesta ou naquela piada, ainda é capaz de convencer as mentes mais taciturnas, deste que sejam abertas...
13 de março de 2012
Som Só
Em três dos discos mais belos, melancólicos e solitários que a Humanidade já conheceu, Nick Drake tornou-se o trovador do isolamento, cortando laços com o mundo exterior para conviver com o silêncio dos bosques e o murmúrio do vento, deambulando em autismo musical pelos trilhos de um Outono perpétuo. Five Leaves Left, Bryter Layter e Pink Moon são o arquétipo da folk mágica e romântica, uma música que arrebata pela beleza triste e pela simplicidade elegante. Ao longo destas três obras, assistimos ao desabrochamento, ao florescimento e à murchidão de um artista de enorme talento mas parcas capacidades de lidar com ele e fazê-lo singrar. Avesso a entrevistas, concertos e demais aparições em público, o reclusivo Drake quis apenas ficar a observar o mundo da janela, mas as suas sensíveis criações tornaram-se parte do mundo de muita gente.
Em A Skin Too Few: The Days of Nick Drake, o holandês Jeroen Berkvens conseguiu um fiel retrato do mítico músico britânico. Este documentário de 2002 traça o seu percurso pessoal e artístico, sustentando-se em depoimentos de familiares, amigos e companheiros de armas musicais. Até hoje, continua a ser imbatível e um precioso artefacto para juntar aos demais que lhe são dedicados. Escusado será dizer que o culto é imortal...
29 de fevereiro de 2012
Kosmische Kosmetik XXXIV
Os Ejwuusl Wessahqqan (tentar dizer três vezes seguidas sem se enganar) são mais uma pérola da Alemanha obscura. Oriundos da bávara Munique, editaram um único disco durante a sua quase desconhecida existência. Álbum de culto na verdadeira acepção da palavra, Ejwuusl Wessahqqan (1975) constrói o seu ninho no ramo mais estouvado e anárquico do krautrock. O caos é quem mais ordena dentro deste registo, um caos orientado, torrente de música sem limites de espaço e tempo, mas que nos enlaça. Alienantes e fascinantes na mesma dose, as longas jams do álbum podem ser incluídas na linhagem dos Amon Düül II, Gila ou Guru Guru.
Die Geborstenen Kuppeln Von Yethlyreom é o primeiro raid. Irrompe em combustão espontânea e deflagra vertiginosamente, com guitarras em ebulição e teclados entre o transe e o vaudeville demoníaco dos Doors. A hipnose varia mas prossegue os seus intentos na segunda peça, Die Orangefarbene Wüste Südwestlich Von Ignarh. Igualmente longa, mas comparativamente mais lenta, vagueia como procissão psicadélica em terras remotas. Há que destacar a presença preponderante do filouphone, instrumento artesanal de sete cordas, criado e tocado por Renè Filous, e que soa a uma guitarra com expressões orientais.
Ninguém se pode queixar de falta de variedade em Ejwuusl Wessahqqan. Ao terceiro tema, Thuloneas Körper, surge nova inflexão estilística, desta feita para uma curta e melódica composição, bela mas desfasada do que veio e do que está para vir. Hobbl-Di-Wobbl retorna às digressões psicadelicamente assistidas, alastrando-se em alucinação por mais de um quarto de hora. Satisfação garantida para apreciadores...
Em 1996, a editora especialista em recuperar estes achados arqueológicos - Garden of Delights - editou o disco acrescentando-lhe quatro faixas bónus. Nenhuma delas se enquadra verdadeiramente no espírito do alinhamento original, mas exigem audição. Passaceety e AFN são mais rock progressivo que krautrock, duas peças de estremecimento sinfónico que remetem para uns Egg ou uns Emerson, Lake & Palmer menos aburguesados e mais intrépidos. The Crystal e La Mer são temas de outro grupo surgido posteriormente, os Koala-Bär. Estes não são mais que os Ejwuusl Wessahqqan revistos e diminuídos para três membros dos cinco originais. The Crystal é o único tema vocalizado, uma canção psicadélica clássica e espacial, muito ao estilo dos conterrâneos germânicos Eloy; La Mer emana ecos etéreos, uma ária cósmica e escapista.
O nome Ejwuusl Wessahqqan foi retirado de uma obra de ficção científica. Eles próprios foram uma, demasiado reais para serem duvidados, demasiado fantasistas para se confinarem às fronteiras do possível.
Die Geborstenen Kuppeln Von Yethlyreom é o primeiro raid. Irrompe em combustão espontânea e deflagra vertiginosamente, com guitarras em ebulição e teclados entre o transe e o vaudeville demoníaco dos Doors. A hipnose varia mas prossegue os seus intentos na segunda peça, Die Orangefarbene Wüste Südwestlich Von Ignarh. Igualmente longa, mas comparativamente mais lenta, vagueia como procissão psicadélica em terras remotas. Há que destacar a presença preponderante do filouphone, instrumento artesanal de sete cordas, criado e tocado por Renè Filous, e que soa a uma guitarra com expressões orientais.
Ninguém se pode queixar de falta de variedade em Ejwuusl Wessahqqan. Ao terceiro tema, Thuloneas Körper, surge nova inflexão estilística, desta feita para uma curta e melódica composição, bela mas desfasada do que veio e do que está para vir. Hobbl-Di-Wobbl retorna às digressões psicadelicamente assistidas, alastrando-se em alucinação por mais de um quarto de hora. Satisfação garantida para apreciadores...
Em 1996, a editora especialista em recuperar estes achados arqueológicos - Garden of Delights - editou o disco acrescentando-lhe quatro faixas bónus. Nenhuma delas se enquadra verdadeiramente no espírito do alinhamento original, mas exigem audição. Passaceety e AFN são mais rock progressivo que krautrock, duas peças de estremecimento sinfónico que remetem para uns Egg ou uns Emerson, Lake & Palmer menos aburguesados e mais intrépidos. The Crystal e La Mer são temas de outro grupo surgido posteriormente, os Koala-Bär. Estes não são mais que os Ejwuusl Wessahqqan revistos e diminuídos para três membros dos cinco originais. The Crystal é o único tema vocalizado, uma canção psicadélica clássica e espacial, muito ao estilo dos conterrâneos germânicos Eloy; La Mer emana ecos etéreos, uma ária cósmica e escapista.
O nome Ejwuusl Wessahqqan foi retirado de uma obra de ficção científica. Eles próprios foram uma, demasiado reais para serem duvidados, demasiado fantasistas para se confinarem às fronteiras do possível.
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