28 de agosto de 2012

Miose Pop

O Idiota, celebérrimo livro de Dostoiévski, narra a história do benevolente príncipe Liev Míchkin. Este, após regressar à cidade de São Petesburgo vindo de um sanatório, depara-se com tamanha corrupção e perversidade humanas que conclui ser melhor viver num sanatório que no mundo real. The Idiot, disco de Iggy Pop, inspirou-se livremente nesta premissa.
Foi David Bowie que resgatou James Osterberg do seu próprio sanatório circa 1976. O final dos Stooges e o tsunami de excessos associados à banda deixou o seu vocalista à beira do colapso e a entregar-se voluntariamente nos braços de uma instituição psiquiátrica. The Idiot, editado no ano seguinte, resulta das experiências revitalizantes levadas a cabo em conluio com o Camaleão.
É o disco mais atípico assinado por Iggy Pop, mas é também a sua obra mais profunda e fascinante. Longe do rock propulsivo e visceral dos Stooges, The Idiot habita no reino das sombras e movimenta-se pela calada da noite em regime de autofagia introspectiva. Com os seus rasgos de electrónica e produção paludosa, o álbum desliza qual fantasma de sobrolho carregado pela noite monocromática e desolada da urbe. A urbe é Berlim, desfigurada pelo quelóide de cimento que a divide em duas, escura como breu, friamente romântica. E narcótica.
Sister Midnight, exercício assente numa guitarra funky futurista e groove obstinado, empurra desejos reprimidos para a noite faminta e fecha a porta atrás deles. Robótica, Nightclubbing faz uma vénia ao krautrock enquanto penetra, lânguida, pelas decadentes caves berlinenses. Imaginamos Pop e Bowie, esquálidos, vampirescos, intoxicadamente ausentes, a vaguear entre os comuns mortais.
Funtime desce mais fundo na escadaria gótica e prolonga o devaneio kraut, com a vertigem repetida do seu ritmo a la Neu!. I'm gonna get stoned and hang around, canta Pop com pragmatismo e sem falsos pudores, lembrando-nos que Berlim era o lar europeu da heroína no final dos anos 70 e que ele e Bowie eram inquilinos curiosos...
Baby é uma tensa estação que passa, frenética, para dar lugar a China Girl. Hit massivo para Bowie anos mais tarde, apresenta-se aqui pouco polida e produzida, uma canção de amor que irrompe a altas horas da noite, quando a mente ainda sofre os frémitos de uma noite excessiva e o corpo procura um consolo que não vem.
Lenta e arrastada, Dum Dum Boys é uma nostálgica e, ao mesmo tempo, corrosiva excursão aos despojos dos Stooges. Tiny Girls é uma espécie de soul futurista e plastificada e que elucida de sobremaneira quando Iggy definiu The Idiot como um cruzamento entre James Brown e Kraftwerk. E o grand finale fica entregue a Mass Production, literalmente uma massiva e esmagadora orgia narcótica, num martelanço crescente e doentio que espicaça a mente. Delicioso...
David Bowie terá sido o grande beneficiado em toda esta história. The Idiot parece, muitas vezes, um laboratório de ensaio para as suas experiências futuras (nomeadamente a sua fase berlinense), sendo Iggy Pop a cobaia. Alguns dos temas foram recuperados posteriormente por Bowie e este tipo de sonoridade ficará sempre mais associado ao Camaleão que à Iguana. Mesmo assim, este é o disco sério de Iggy e, porque não dizê-lo, a sua obra mais marcante apesar de não o definir. O Idiota foi apresentado a outro mundo, mas logo se refugiou naquele onde sempre se sentiu mais confortável...

24 de agosto de 2012

Visions of Angels

Numa altura em que a discografia dos Cocteau Twins está a ser alvo de reedição, nada como recuperar igualmente a história visual desta extraordinária banda. Uma história impactante, cromática e luxuriante que ajudou a elevar os britânicos ao panteão das melhores ocorrências musicais dos anos 80. Mesmo sendo esse período limitado no tempo que os viu crescer e brilhar, a arte dos Cocteau Twins não perdeu pitada do seu encanto desde então. Aliás, a sua magia é tão transcendente que não tem era definida. É banda-sonora de sonhos despertos, farrapo de paraíso derramado sobre o afortunado ouvinte.
Tishbites, compilação videográfica de 2004, congrega alguns dos momentos marcantes do percurso do grupo. Clips que, antes de tudo, são pequenas filigranas fílmicas que procuram dar imagem ao onirismo latente da música. Som e imagem em conchavo, num processo evolutivo que resulta em elegância garrida, quase psicadélica.
Em complemento aos vídeos para doze singles e da pequena peça Rilkean Dreams, Tishbites homenageia isoladamente a grande figura do colectivo, Elizabeth Fraser, através de dois clássicos modernos que a sua voz única aprimorou: Song to the Siren, original de Tim Buckley imortalizado pelo projecto This Mortal Coil e Teardrop dos Massive Attack. Motivos de sobra para uma espreitadela obrigatória...

16 de agosto de 2012

Kosmische Kosmetik XLIII

Manuel Göttsching amputou o nome dos seus Ash Ra Tempel para Ashra circa 1976. Com o fim do mítico colectivo germânico, a carreira a solo do guitarrista tornou-se realidade e, com ela, uma grande viragem no estilo e intenções musicais. O abandono progressivo da guitarra e o interesse crescente pela electrónica surtiram o primeiro efeito em New Age of  Earth. Essencialmente um disco a solo de Göttsching (todas as composições e instrumentos são da sua responsabilidade), o primeiro vislumbre do projecto Ashra é um conjunto de quatro peças planantes, meditativas, próximas da electrónica ambiental. Uma obra de rara beleza, quase tântrica nos seus devaneios expansivos e libertadores.
Sunrain mantém um rigor formal apenas afectado pela melodia radiosa que o empurra para além dos seus próprios limites. À medida que o fim se aproxima, instala-se uma comunhão extática entre todos os elementos que termina afogado num ponto de luz. Relaxante, Deep Distance sente-se como as pétalas de uma flor. A delicadeza da música roça a sensualidade, uma sensualidade inocente mas vibrante. Massagistas deste mundo, ponham as mãos neste tema!
A guitarra aparece nas duas composições restantes. Sempre bela, sempre perto do fim. Etérea e ensimesmada em Ocean of Tenderness, solitária e uivante em Nightdust. A genialidade mora em cada uma das peças. A primeira é uma lenta e cadente viagem introspectiva, um caminho a atravessar de olhos fechados e coração aberto. A segunda é uma odisseia cósmica como manda o figurino, um berço que acolhe um pedaço de infinitude, em que as estrelas brilham e fogem e o movimento é lento sob o peso de todo o tempo que já passou. E o fim chega para nos tirar da órbita confortável e depositar-nos novamente na realidade selvática...
New Age of Earth é o princípio das aventuras de Manuel Göttsching por terras electrónicas. O primeiro passo de uma caminhada que muito revolucionou e influenciou a forma de fazer música com máquinas nas décadas seguintes. Um monumento musical belíssimo.

15 de agosto de 2012

Kosmische Kosmetik XLII

Harald Grosskopf notabilizou-se pelos seus desempenhos como baterista em inúmeros projectos do rock alemão dos anos 70. Emprestou a sua energia rítmica, entre outros, aos infames Cosmic Jokers, aos Wallenstein e a Klaus Schulze.
Nome mais que mítico e consagrado no universo krautrock, Grosskopf acabou por estrear-se a solo com um disco fundado nos pilares da electrónica. Foi em 1980 que Synthesist viu a luz, luz essa que irradiou de imediato o universo da música sintetizada. Merecedor precoce do estatuto de clássico, Synthesist é incontornável e inesquecível. Um arraial de teclados e percurssão dominados exclusivamente pelo músico germânico, que debita uma sucessão de temas aquáticos e espaciais, dotados de uma fluidez cativante e de uma subtil vivacidade.
Synthesist principia em alta, com a volúpia rítmica e os teclados cósmicos de So Weit, So Gut. É notável a centelha de frescura que o tema carrega, o convite a uma viagem futurista e sedutora. 32 anos depois, o apelo é imutável. Os momentos mais ritmados do disco possuem a estranha dicotomia de motivar a dança, cibernética e maneirista, ao mesmo tempo que a refreiam com a sua frieza maquinal. Emphasis, 1847 - Earth e a deliciosa Transcendental Overdrive são ideais para dançarinos de sofá. O ritmo faz-nos ondular, serpentear, a melodia mantém-nos estáticos, em sonho desperto. O brilhante tema-título, sinfonia de electrónica progressiva em hipnótica deflagração, é igualmente o melhor momento do álbum.
O interesse subsiste quando as sombras se abatem sobre Synthesist. A animação suspensa de B. Aldrian, a excursão gélida de Trauma e o belo pulsar indefinido de Tai Ki complementam solidamente o lado luminoso do registo.
Synthesist foi reeditado em 2010, surgindo em 2011 Re-Synthesist, uma nova leitura dos seus temas executada por alguns dos nomes maiores da electrónica cósmica actual, como Oneohtrix Point Never ou Arp. Harald Grosskopf conseguiu, na sua estreia, um belo e coeso tratado electrónico, acima de tudo original, pois, apesar do peso óbvio de nomes como Tangerine Dream ou Kraftwerk neste tipo de música, nada se ouve que seja cópia ou colagem. Apenas mérito e audácia.

Hard America

Such Hawks Such Hounds, filme de 2007 realizado por John Srebalus, aborda, com fervor e dedicação, a ascensão de um certo rock americano, de alta densidade e acima do peso recomendável. Um estilo musical que descende do proto-metal e do psicadelismo mais duro dos inícios dos anos 70 e de bandas como Blue Cheer, Black Sabbath ou Hawkwind. Perdido no limbo dos anos 80, no qual o termo heavy-metal oscilava entre homens ostentando fartas permanentes (o louro oxigenado abundava) e adoradores de Satã, este género de rock, igualmente pesado, mas totalmente descomprometido, ressurgiu na década seguinte. Nomes como Kyuss, Sleep ou Monster Magnet revitalizaram as sonoridades psicadélicas mais hard, apimentando-as com a poeira árida do deserto. Assim nascia o stoner rock, com o seu ritmo tipicamente arrastado e baixos a elevarem-se até à estratosfera. Em territórios mais limítrofes, Om e Sunn O))) apropriaram-se do minimalismo drone para erigir catedrais escuras e monolíticas de guitarras titânicas e batidas hipnóticas.
Mas Such Hawks Such Hounds não se esgota aqui. Uma miríade de bandas e estilos é desfilada ao longo do documentário. Este acaba por ser um tomo valioso e satisfatório de um género musical que, apesar da ascensão supracitada, nunca abandonou o seu estatuto underground.

4 de agosto de 2012

Caesar Augustus

Augustus Pablo (cujo nome de baptismo era Horace Swaby) foi uma das estrelas maiores do firmamento dub. A sua morte prematura aos 44 anos arredou-o um pouco da apreciação massiva, mas a sua aura mantém-se viva. Os anos 70 foram dourados para ele, era em que deixou para a posteridade um legado incontornável da música jamaicana. 
King Tubbys Meets Rockers Uptown, disco de 1976, é unanimemente reconhecido como o grande feito artístico de Augustus Pablo. Sentado à mesa de produção encontrava-se outro peso-pesado: Osbourne Ruddock, mais conhecido como o lendário King Tubby, homem que revolucionou e ajudou a esculpir o conceito da produção em estúdio. Verdadeiro cientista do som, é uma referência venerável para qualquer pretendente a artesão nas áreas da electrónica e da dança. 
O encontro entre estes dois mestres é nada menos que seminal. Pablo transporta classe e sedução com a sua inseparável melodica e um manancial de instrumentos de teclas. King Tubby encarrega-se de juntar as peças do puzzle e submetê-las às suas esotéricas manipulações de estúdio. Na sombra, o amparo monumental da secção rítmica dos Wailers (os irmãos Barrett) e um baixista de excepção, Robbie Shakespeare, que emergeria como um dos maiores nomes do dub ao lado do baterista Sly Dunbar nos hiper-influentes Sly & Robbie. Lançados os dados, o poker resultante foi bem mais que um golpe de sorte. King Tubbys Meets Rockers Uptown é uma obra-prima viciante. Do magistral Keep on Dubbing a Satta Dub, o disco sacia o apetite do apreciador mais voraz do género. Não falta nada. Stop Them Jah envolve-nos em sopros fumegantes e ritmos semicerrados. 555 Dub St. e Young Generation Dub impregam-nos da suave melancolia exangue que se esconde para além das montanhas verdes da Jamaica. Each One Dub e o imaculado King Tubbys Meets Rockers Uptown colocam as vozes distorcidas e nebulosas na linha da frente e o efeito inebriante é irresistível. Assim não vale a pena lutar e é derrotados que nos sentimos vitoriosos. Um disco de Verão eterno, mas invadido por nuvens imprevisíveis, tal como a terra que lhe serviu de berço.

Música Adubada

Antes de ser um género per se, o dub começou por ser um caminho paralelo, um tratamento alternativo a temas reggae convencionais. Os jamaicanos têm o ritmo no seu ADN, são africanos nas Caraíbas. Um ritmo dolente e arrastado, mas fervente e penetrante. O dub veio realçá-lo e revigorá-lo, enfatizando baixos e percurssões e transformando a música numa gigantesca mas dócil propulsão.
Pick a Dub, álbum de 1974 de Keith Hudson, é considerado um dos primeiros trabalhos genuínos do género, assim como uma das suas traves-mestras. Hudson, conhecido pelo nobiliárquico título de príncipe negro do reggae, reviu e desconstruiu peças do seu passado recente, aplicando-lhes massivas doses de baixo e ritmo. Fragmentos de voz despontam, flutuando no espaço. O ambiente geral, para além de narcótico e relaxante, é denso e habitado por uma estranha e aconchegante melancolia.
Os pares de Hudson contribuem para a qualidade do produto. Os irmãos Barrett, Carlton e Aston, a poderosa máquina rítmica dos Wailers de Bob Marley, encarregam-se dos sublimes golpes de bateria e baixo. Augustus Pablo, outro nome de culto na génese do dub, aplica na perfeição os dotes da sua melodica, cujo som viria a tornar-se trademark. O resultado estava condenado a ser superlativo e a prova está na música benfazeja que transborda de temas como Michael Talbot Affair, Black Heart, Black Right,  Depth Charge ou Pick a Dub. Mais ou menos profundos, com maior ou menor perfume de ganja, todos os temas são pequenos tomos ideais da arte de fazer dub. Levei-o para a Jamaica comigo há umas semanas. Acentuou ainda mais a sensação de ser hóspede num nicho do paraíso.

Kosmische Kosmetik XLI

O trio anteriormente conhecido como Limbus 3 adicionou um elemento à sua formação em 1970. Pragmaticamente, mudaram o nome para Limbus 4 e o estilo sofreu com isso. Um disco chamado Mandalas foi o resultado do upgrade e algo parecido com música começou a despontar no horizonte destes alemães desalinhados. O regime free form das composições (dissertações?) continua a ser o núcleo da experiência, mas a paleta de instrumentos foi alargada e um esgar de construção começa a projectar-se sobre o que antes era apenas desconstrução e implosão.
Remendos de atmosfera respirável unem Dhyana, Kundalini, Heiku e Plasma. O que os títulos intuem, o som concretiza. As peças de Mandalas assemelham-se a sketches de religiosidade oriental, sobretudo fragmentos de rituais tibetanos exacerbados pela mística psicadélica. Mantras vocais erguem-se, sombrios, por entre sons densos e descarnados. Batidas esparsas e sincopadas insurgem-se, espontâneas, contra a meditabunda suspensão sonora que persevera.
No seu caos envolvente, Mandalas acaba por ser uma obra recompensadora. A estranha mistura de experimentalismo errante e solenidade alucinatória começa a gerar um fruto cósmico. O nada nidifica e incuba o futuro sem saber.

Kosmische Kosmetik XL

Desconcertante e radical, o ensemble Limbus 3 fez mossa em 1969 com um registo nada convencional intitulado Cosmic Music Experience. As origens e história do colectivo são tão ou mais obscuras que a sua arte. O seu propósito musical, insondável. O disco é um emaranhado experimental de arrepiar os mais corajosos, comparável apenas às excursões cósmicacofónicas dos Kluster ou dos embrionários Tangerine Dream.
A prometida experiência cósmica musical é um tiro à queima-roupa de improvisos cáusticos e impenetráveis,  o som da deformidade, da desordem que procura desesperadamente ordenar-se. Os quatro temas do assalto sonoro - Oneway Trip, Valiha, Breughel's Hochzeitstanz e New Atlantis (Islands Near Utopia) - não variam muito no estilo e na substância. Os instrumentos, que, ao que consta, são guitarra, baixo e flauta, são arranhados e torturados, saindo deles não música mas ruído em toada cava, uma expressão distorcida de harmonia e desprovida de melodia. Em avançado grau de imersão nesta experiência limite, podemos ser recompensados com o desligamento em relação ao que nos cerca, abrindo-se possibilidades exploratórias muito para além do entendimento musical.
Mais próximo de certas alquimias extremistas e dissolutas de Sun-Ra, Anthony Braxton ou Stockhausen que do futuro estabilizado do krautrockCosmic Music Experience é um artefacto drástico. Um capítulo infame da época em que o ovo cósmico futuramente expandido por mentes germânicas ainda estava em compressão...

30 de julho de 2012

United States of Mind

Detentores de um dos nomes mais improváveis para uma banda, os United States of America foram um subtil mas terapêutico alfinete na acunpuctura músical dos anos 60. A curta existência do projecto (entre 1967 e 1969) deixou apenas um disco como legado, um registo homónimo cuja redescoberta é não menos que fascinante.
Apesar do nome, The United States of America não é uma cartilha de louvaminhices à terra dos livres e lar dos bravos. É um disco de incrível arrojo estético e de crítica social sarcástica e certeira, que continua a manter uma frescura invejável. Concebida e parida sob o sol da Califórnia em 1968, a obra explora, corta e cose estilos tão díspares como o rock psicadélico, o modernismo de Charles Ives e a electrónica embrionária. É essa electrónica, ainda estranha e alieníngena à maior parte dos ouvidos da altura, que se imiscui na música, desfigurando os instrumentos e processando a voz. Uma espécie de samplagem pré-histórica, feita de arcaísmos musicais americanos espreita nalguns temas e o todo é um naco suculento de experimentalismo vanguardista dado a comer ao rock. Tome-se o tema de abertura, The American Metaphysical Circus, como exemplo perfeito e súmula do que se segue. A paleta de sons mistura cores improváveis, o arcaboiço lisérgico é impossível de derrubar. A conquista definitiva dá-se com Hard Coming Love, certamente um dos singles mais marginais de 1968, mas uma canção magnífica. A melodia catchy, intercalada com a bizarria dos efeitos, transforma-a num verdadeiro clássico do futuro. Dorothy Moskowitz, a vocalista, aguenta-se durante todo o disco como o elo de ligação de toda a estranheza envolvente, o eixo à volta do qual um tornado musical serpenteia. Da placidez acalentadora de Cloud Song à corrupção psicadélica de The Garden of Earthly Delights, a versatilidade prevalece. Soa a Grace Slick, por vezes, mas a entrega amiúde contida e distante aproxima-a igualmente de Nico. E, com a devida distância territorial e cultural, não será descabido considerar os U.S. of A. os Velvet Underground angelenos...
Joseph Byrd, a mente impulsionadora do projecto, estudou em Nova York com John Cage, privou com Yoko Ono e aspirou grandes quantidades do perfume transgressor da música vanguardista e experimental da cidade que nunca dorme. As suas aspirações obtiveram eco genial neste disco. São dele as manipulações electrónicas e a parafernália de sons inusitados. É tarefa árdua destacar momentos isolados nesta obra tão louca mas tão lúcida, mas é igualmente impossível não mencionar o brilhantismo de Love Song for Dead Che (e suas óbvias conotações), Where is Yesterday e a tripartida odisseia sónica de The American Way of Love.
Aos dez temas originais do disco, foram acrescentados outros dez, na sua reedição de 2004. A sobremesa ideal para o prato principal que a antecedeu. Raras vezes o nome United States of America esteve associado a algo tão popularmente erudito e pouco conservador. Os campos férteis de muitas ideias da música popular contemporânea começaram a ser semeados aqui.

19 de julho de 2012

Suave Bulício

Realizado por Andy Warhol em 1966, The Velvet Underground and Nico: A Symphony of Sound retrata com singeleza os primeiros tempos da lendária banda nova-iorquina. O filme exibe uma improvisação que se estende por mais de uma hora, inteiramente instrumental, desbragadamente solta. A captação de um ensaio, feito para posterior exibição em écran gigante e som ensurdecedor, certamente num dos happenings muito contra-culturais dos sixties na Big Apple. O núcleo duro do grupo surge acompanhado pela diva temporária Nico e o seu filho Ari, a quem foram entregues umas maracas para se entreter e que contribui bastante para a atmosfera comunal do registo.
O cenário em que tudo se desenlaça é, obviamente, a Factory, o laboratório artístico criado por Andy Warhol, que funcionava igualmente como ponto de paragem de artistas no geral e da máfia warholiana em particular. A película é uma típica obra de Warhol, homem que filmava como pintava: tão artesanal como inovadora, minimal e sensorial. No final, numa pitada de hiper-realismo, entra em cena a polícia, alertada pelo excesso de barulho...
A Symphony of Sound é, acima de tudo, uma curiosidade histórica que capta liminarmente a fase em que os Velvets andaram de mãos dadas com Drella. Pouco tempo depois, chegaria um disco com uma banana na capa que revolucionaria a história da música do século XX. O tal disco que, emulando uma frase atribuída a Brian Eno, só vendeu 10000 cópias, mas quem o comprou formou uma banda...

23 de junho de 2012

Silêncio de Ouro

Durante a criação de Structures from Silence, o seu balsâmico disco de 1984, Steve Roach viveu imerso na música que dele brotava. A tecnologia da época permitia já que o som percorresse infinitamente o espaço através das possibilidades de um computador, tornando-se assim algo que confrontava o próprio compositor, ao invés de partir apenas  do seu âmago.
Esse bifurcado espelho criativo constante deu origem a uma depuração quase extrema da música, fazendo de Structures from Silence uma escultura sónica que tanto tem de ambiental como de estimulante. Não entorpece a mente, mantém-na desperta e aberta. As melodias intra-uterinas inspiram e expiram. Céus estrelados, auroras, ocasos, nuvens que passam, folhas que se agitam, tudo são estruturas que sustentam o silêncio. E quando estas se desmoronam, só o silêncio, inexorável, prevalece. A música é minimal, mas transumante, baseia-se nas livres travessias da cosmicidade e permite que um californiano levite e vagueie pelo espaço amparado pelas muletas da escola electrónica alemã e do catedrático Brian Eno.
Não existem grandes diferenças nem variações no desenrolar de Reflections in Suspension, Quiet Friend e Structures from Silence. São três faces complementares da mesma pirâmide. A última destaca-se pela audácia da duração - quase 30 minutos - e pelo poder indutor de relaxamento e introspecção. O espaço parece estático, no entanto, move-se. Assim é esta peça inigualável, um imenso patchwork de calma esmagadora e revigorante abstracção.
Structures from Silence é uma das melhores obras de sempre da chamada música ambiental. Ombreia facilmente com clássicos como Zeit dos Tangerine Dream ou Music for Airports do supracitado Eno. Tal como estes, deixa-nos confortáveis na solidão e convida à meditação. Mais que tudo, não nos afoga em misantropia, é um grande disco terapêutico. Um disco sem tempo.