Numa altura em que se celebra o regresso dos Mazzy Star com a expectável qualidade melancólica de Seasons of Your Day, é interessante resgatar da obscuridade o primeiro projecto de David Roback, cara-metade artística de Hope Sandoval. Surgidos da fornada de bandas de Los Angeles dos anos 80 que ficaram eternamente vinculadas ao movimento Paisley Underground, os Rain Parade recuperaram um certo psicadelismo, assente numa insustentável leveza associada a doces tons de cinzento.
O colectivo californiano editou o seu primeiro álbum em 1983. De nome Emergency Third Rail Power Trip, é uma pérola semi-desconhecida, um artefacto de culto mas suavemente apaixonante. Como toda a tendência do género Paisley Underground, é um disco revivalista e pouco ligado aos cânones da sua época. As guitarras byrdsianas, as vozes lânguidas e arrastadas e um instinto melódico a la Big Star não deixam margem para dúvidas quanto às influências da banda que David Roback liderava com o seu irmão Steve. Mas corre nas veias desta gente uma soturnidade latente, sem sintomas explícitos, que usa óculos escuros num solarengo dia de Verão sem os tirar quando a noite cai.
Indo directo ao assunto, nada como nomear a esmagadora Carolyn's Song. É a melhor canção do álbum e uma das melhores dos anos 80 (transcende-os, de facto). Uma balada dolente e dorida, com espasmos de bateria e apertos de electricidade no coração. O projecto melancólico de 1º escalão This Mortal Coil apresentaria a sua versão anos depois, em Blood, mantendo a beleza triste mas nunca o desgosto sonolento do original.
Nada chega aos calcanhares deste momento em Emergency Third Rail Power Trip, mas há motivos de sobra para a sedução e rendição aos encantos dos restantes 9 temas que o formam. Tais como a nuvem em dia de sol de What She's Done To Your Mind, a sonhadora e envolvente Kaleidoscope ou a levitação psicadélica de This Can't Be Today. Talking In My Sleep parece antecipar os Stone Roses (rapazes com influências similares, porém mais luminosos), Look At Merri ginga com tímida sensualidade e o álbum termina com um rock de garagem quase puro intitulado Look Both Ways.
Emergency Third Rail Power Trip foi reeditado em 1992, acompanhado do segundo registo da banda, o igualmente interessante e refinado mini-LP Explosions In the Glass Palace. E é esta a edição que vale a pena ter, sobretudo por You're My Friend, single de 1985 e um dos seus temas mais imediatos e melhor desenhados. É certo que nesta altura David Roback já sabia bem o que fazia e os Rain Parade são tão importantes e consistentes como tudo o que se seguiu no seu percurso musical.
18 de outubro de 2013
2 de outubro de 2013
Like a Rolling Stone
Já lhe chamaram o Santo Graal das biografias de estrelas do rock e com toda a legitimidade. Mais que um livro, Life é uma revelação. A biografia para esmagar todas as biografias. Pela frontalidade, crueza e sinceridade. Como se Keith Richards fosse trancado connosco numa sala vazia, apenas com um volume de Marlboro e uma garrafa de Jack Daniel's e desfiasse intimamente o seu rosário de memórias.
É um solilóquio que não deixa nada por dizer, nenhum mito por esboroar, nenhum rumor por confirmar. O lendário guitarrista dos Rolling Stones aplaca-nos a curiosidade acerca da sua vida preenchida de música e excessos. A vida que o levou da infância pobre na cidadezinha de Dartford no pós-2ª Guerra Mundial à aclamação universal como guitarrista da maior banda de rock'n'roll do mundo.
O resto é o que se espera de Keef: A avalanche de drogas, a fuga que propiciam, o combustível narcótico que delas advém e a desconstrução do seu romantismo; o sexo com mulheres que nunca pensou vir a ter; julgamentos de vária ordem; tiros, facas e carros a acelerar pela noite americana; a verdade sobre Brian Jones; a reputação de Mick Jagger estraçalhada. E, mais que tudo, um enorme fuck you à autoridade e às normas estabelecidas lançado por um homem que viu e viveu mais do que qualquer um de nós alguma vez sonhou. Um homem que, apesar da carapaça durona e o epíteto de excessivo e decadente demonstra, não raras vezes ao longo do livro, uma sensibilidade enorme e cavalheiresca.
Nenhuma descrição faz plena justiça ao que se encontra por entre as páginas de Life. Os pormenores sumarentos e as revelações surpreendentes só fazem sentido relatados pelas palavras de Keith e pela pena do seu co-autor, o jornalista James Fox. Dizer que esta obra é imprescindível para qualquer verdadeiro amante do rock torna-se, assim, redundante.
29 de setembro de 2013
Saeta Cósmica
De Espanha nem bom vento nem bom casamento, aprendemos a ouvir desde tenra idade. Este, tal como tantos outros aforismos, é vazio de fundamento. Não que uma invasão tentada e outra consumada nos devesse poupar a uma latente desconfiança de nuestros hermanos, mas sim por via desse elemento agregador e apaziguador que é a música. Se a Espanha tem muito a responder pela dúbia qualidade artística de muita invasão musical a este território, outros há que raramente são divulgados e mereciam toda a nossa hospitalidade.
O projecto Neuronium, criação do belga tornado catalão Michel Huygen, é considerado o primeiro embrião da música cósmica feita em terras espanholas. A operar desde 1976, é no seu primeiro álbum que encontramos, desde logo, a melhor cepa de uma discografia que já ultrapassa os 40 títulos. E se Huygen se deixou seduzir por paisagens mais aprazíveis ao ouvido logo nos inícios dos anos 80, a obra que o dá a conhecer é um objecto mágico de electrónica espacial e ambiental.
Quasar 2C361, editado em 1977, sofre as óbvias influências dos grandes nomes da electrónica europeia da época, nomeadamente Tangerine Dream e Klaus Schulze, mas também da sensibilidade melódica de Eroc e do misticismo dos Popol Vuh. Apesar disso, apresenta um grau de frescura e personalidade bem vincados e que o tornam um objecto imprescindível na história do género.
Para além de Huygen, participam no disco o segundo teclista Carlos Guirao e o guitarrista Alberto Giménez, cujo estilo não se afasta muito dos grooves siderais do grande mestre Manuel Göttsching. O que deles emana, ao longo de quatro extensos temas, é um soberbo exercício de música sem gravidade e suspensa num tempo sem medição. O tema-título, que abre o disco, imiscui uma guitarra acústica à poeira cósmica dos sintetizadores e resulta numa espécie de flamenco lento e em rotação. Uma flauta aproxima-a dos prazeres terrenos. Uma invasão de sintetizadores logo a puxa para junto das estrelas.
Catalepsia deixa-nos a pairar sobre outro mundo, novo e admirável, imutável em ondas sintetizadas, caleidoscópico na guitarra que o colora repetidamente. El Valle de Rimac assemelha-se a um despontar solar visto de uma imensidão negra, uma lenta e esplendorosa ascenção, de melodia tão doce quão misteriosa. Turo Park acentua a beleza fria e majestosa do disco, num crescendo luminoso e gélido, como aquele que se encontra nos elementos cósmicos desprovidos de vida mas hipnóticos de cor e forma. Tudo termina com vozes de crianças a ecoar ao longe, como sempre, a epítome das possibilidades futuras.
Quasar 2C361 sofre de uma produção rudimentar, fruto das limitações da sua era, mas isso não lhe tira o charme, a graça e a intencionalidade. Independentemente do estilo é um objecto único na música espanhola, que nunca passará do culto, mas que pode trazer delícias a todos os que navegarem a bordo deste galeão cósmico.
18 de abril de 2013
Amada Neurose
When acaba por fazer jus à volatilidade e imprevisibilidade de Vincent Gallo. Artisticamente activo desde finais dos anos 70, o realizador-actor-músico-e-esporadicamente-modelo fez parte de projectos sonoros quase desconhecidos como Bohack ou Gray (este com o artista plástico vanguardista Jean-Michel Basquiat). A música e a pintura foram os seus principais raios de acção nos anos 80, sendo a década seguinte o período que assistiu à evolução de Gallo como actor e realizador. Marcantes são as aparições em filmes como The Funeral de Abel Ferrara e Nénette et Boni de Claire Denis. Em Arizona Dream, película de 1993 dirigida por Emir Kusturica, Gallo revela já os traços de humor surreal e neurose fogosa que o definem sem nunca o reduzirem. Esta cena é particularmente deliciosa...
O retorno significativo à música acontece no celebrado Buffalo '66, uma obra-prima do cinema independente na qual Gallo é responsável pela banda-sonora original, para além de realizador e actor principal. E, em 2001, surge When. Os motivos que levaram Vincent Gallo a lançar-se a solo musicalmente nesta altura são insondáveis. Como tudo nele, aliás. É dessa forma, misteriosa e intrigante, que a abordagem ao disco deve ser feita. Uma obra estranha e elegíaca, que soa a artesanal, a um negativo musical de Buffalo '66 e que existe apenas porque o seu autor assim o desejou.
When é um álbum com 10 temas, em que metade são instrumentais. Gallo parece emparedado nos seus próprios fantasmas, confinado a um quarto escuro, exorcizando amantes perdidas. I Wrote This Song for the Girl Paris Hilton e Was projectam uma nostalgia triste e opaca, com loops de sopros e xilofone, nocturnos como jazz. Tudo o resto é esparso, subtil, minimal. Gallo canta com voz andrógina, próxima do Chet Baker mais opiáceo em Honey Bunny, do mais frágil na canção-título. Apple Girl, Laura e Yes I'm Lonely convidam ao isolamento mas suplicam por afecto. It could be so nice... murmura repetidamente a voz nesta última, com a delicadeza de uma canção de embalar, com a inquietude de uma obsessão.
Vincent Gallo pode ter feito um disco para ele mesmo, acerca de si mesmo. Mas este é um exercício de narcisismo merecedor de indulgência e louvor, pois o seu criador é realmente único.
31 de março de 2013
Insight
Unknown Pleasures - Inside Joy Division promete ser uma viagem à intimidade da mítica banda de Manchester. Assinado por Peter Hook, o músico que inovou e granjeou um estilo único na arte de tocar baixo, o livro distingue-se desde logo pela narrativa simples e escorreita. Hook assume contar a verdadeira história da banda, com as memórias de quem viu tudo por dentro e acerta agora contas com um passado que foi tão maravilhoso quanto traumático.
A história dos Joy Division acaba por ser igualmente a história de Ian Curtis, a alma e o coração do grupo, da sua ascenção e queda e da imortalidade alcançada pela despedida prematura. A aura e o mito associados ao vocalista são sobejamente conhecidos (o génio lírico, o corpo torturado pela epilepsia e a alma pela divisão entre duas mulheres) e Hook opta por mostrar um retrato mais humano do seu amigo e companheiro musical. Um Ian Curtis menos conhecido, com as loucuras, excessos e diatribes da juventude, apaixonado pelas artes e desejoso de novas experiências. Intenso e entregue à sua música ao ponto de descurar gravemente a sua saúde em nome do sonho que o movia.
A obra é igualmente plena de histórias sumarentas e episódios anedóticos, sendo que Peter Hook prefere sempre mostrar o lado mais luminoso e frugal dos Joy Division que acentuar a faceta divinizada, sombria e impregnada de angústia existencial à qual a banda é comummente associada.
Unknown Pleasures é igualmente uma semi-autobiografia do seu autor, pelo que a história é contada com a visão e a opinião particulares de quem viveu 4 anos no seio de um dos colectivos musicais mais importantes e influentes dos últimos 40 anos. Um grupo que morreu com a morte do seu líder e que se refez sobre as cinzas do seu fantasma. Os prazeres dos Joy Division já são mais que conhecidos, mas nunca é demais perdermo-nos neles. Eis um bom motivo para o regresso.
23 de fevereiro de 2013
Arte Rock
Em 1972, ano insuflado por odisseias sinfónicas de rock progressivo, irromperam os Roxy Music, destilando canções de 3 minutos como Virginia Plain ou Pyjmarama, decretando um boicote ao supérfluo e recuperando a urgência do momento. Juntamente com o Bowie de Ziggy Stardust e os T-Rex de Bolan e o seu Electric Warrior, devolveram a lascívia ao rock, desta feita de forma premeditadamente arty, encenada, cinemática. Se o primeiro álbum da banda londrina era um oásis num deserto de solos de guitarra intermináveis e peças que ocupavam o lado inteiro de um vinil, se a própria imagem dos seus membros (do dandy futurista Bryan Ferry ao alien andrógino Brian Eno, passando pelos óculos de mosca de Phil Manzanera) era radicalmente diferente e inovadora para os standards da época, a sua segunda aparição solidificou o pouco que remanescia líquefeito.
There's a new sensation / A fabulous creation... As duas primeiras estrofes de Do The Strand, tema que abre For Your Pleasure, são indicativas do que se segue. O disco de 1973 pode bem ser a criação mais fabulosa dos Roxy Music, aquela que encontra o grupo no pico dos seus poderes. Onde o classicismo melódico e requintado de Ferry se cruza na perfeição com o experimentalismo vanguardista de Eno.
Supostamente, Do The Strand pretende ser um incentivo à dança com o mesmo nome. Uma dança desconhecida, sob um ritmo enérgico e uma letra críptica, debitada incansavelmente. Um clássico hoje, mas uma bizarria no panorama musical de 1973.
A mesma mistura de familiaridade e estranheza percorre o álbum, flagrantemente acessível mas distorcidamente maquilhado. É inegável a afinidade com o krautrock, mais especificamente os Can, no longo épico minimal e hipnótico The Bogus Man. A beleza fugaz da juventude e o estrelato efémero de Beauty Queen. A decadência crepitante do genial In Every Dream Home a Heartache, onde um homem que tem tudo ama obsessivamente uma boneca insuflável (Inflatable doll / My roll is to serve you ... I blew up your body / But you blew my mind).
Sem um único tema fraco, do frenesim contagiante de Editions of You às difusas sombras existenciais de Strictly Confidential, For Your Pleasure é um dos álbuns de referência da década de 70 do século passado. Há quem chame a esta música excepcional glam rock, há quem lhe chame art rock. Ambas fazem sentido, mas felizmente aqui a arte sobrepõe-se ao glamour. E quando chegamos ao fim, quando o tema-título começa solenemente a circular à nossa volta, qual canção de embalar com electricidade estática na ponta dos dedos, uma estranha calmaria invade-nos e leva-nos para longe. E arroubamo-nos. E deixamo-nos levar pela fantasia. E acreditamos que o rock pode ser arte.
O conflito de egos entre Eno e Ferry não demoraria a abrir fissuras e o não-músico extravagante e pejado de penas e lantejoulas cedo partiria para uma carreira a solo que moveu montanhas na música como hoje a conhecemos. Ferry prosseguiu a timonar o barco, os Roxy Music continuariam a ser a sua banda e muitos feitos notáveis se seguiram. Mas a sintonia de ideias e a química artística de For Your Pleasure são únicas e irrepetíveis.
There's a new sensation / A fabulous creation... As duas primeiras estrofes de Do The Strand, tema que abre For Your Pleasure, são indicativas do que se segue. O disco de 1973 pode bem ser a criação mais fabulosa dos Roxy Music, aquela que encontra o grupo no pico dos seus poderes. Onde o classicismo melódico e requintado de Ferry se cruza na perfeição com o experimentalismo vanguardista de Eno.
Supostamente, Do The Strand pretende ser um incentivo à dança com o mesmo nome. Uma dança desconhecida, sob um ritmo enérgico e uma letra críptica, debitada incansavelmente. Um clássico hoje, mas uma bizarria no panorama musical de 1973.
A mesma mistura de familiaridade e estranheza percorre o álbum, flagrantemente acessível mas distorcidamente maquilhado. É inegável a afinidade com o krautrock, mais especificamente os Can, no longo épico minimal e hipnótico The Bogus Man. A beleza fugaz da juventude e o estrelato efémero de Beauty Queen. A decadência crepitante do genial In Every Dream Home a Heartache, onde um homem que tem tudo ama obsessivamente uma boneca insuflável (Inflatable doll / My roll is to serve you ... I blew up your body / But you blew my mind).
Sem um único tema fraco, do frenesim contagiante de Editions of You às difusas sombras existenciais de Strictly Confidential, For Your Pleasure é um dos álbuns de referência da década de 70 do século passado. Há quem chame a esta música excepcional glam rock, há quem lhe chame art rock. Ambas fazem sentido, mas felizmente aqui a arte sobrepõe-se ao glamour. E quando chegamos ao fim, quando o tema-título começa solenemente a circular à nossa volta, qual canção de embalar com electricidade estática na ponta dos dedos, uma estranha calmaria invade-nos e leva-nos para longe. E arroubamo-nos. E deixamo-nos levar pela fantasia. E acreditamos que o rock pode ser arte.
O conflito de egos entre Eno e Ferry não demoraria a abrir fissuras e o não-músico extravagante e pejado de penas e lantejoulas cedo partiria para uma carreira a solo que moveu montanhas na música como hoje a conhecemos. Ferry prosseguiu a timonar o barco, os Roxy Music continuariam a ser a sua banda e muitos feitos notáveis se seguiram. Mas a sintonia de ideias e a química artística de For Your Pleasure são únicas e irrepetíveis.
Scottology
Na ressaca de mais um disco desconcertante e incatalogável, Bish Bosch, continua a ser saudável assistir a uma nova vaga de interesse por Noel Scott Engel. Ou Scott Walker, americano por defeito, europeu por virtude, cujo nome adoptado pela banda que primeiro o acolheu nunca mais o deixou em paz e a ele se cola como um alter ego tão notório quanto grotesco. Uma persona que perdura ao longo de tantos anos de inflexões e radicalismos.
O conjunto de ensaios e entrevistas reunido em No Regrets - Writings on Scott Walker não é para neófitos. É para conhecedores e admiradores da estranha arte e dos bizarros métodos de um dos músicos verdadeiramente únicos dos últimos 50 anos. Mais que descritivo, o livro é uma discreta torrente de admiração pelo homem e a sua obra. Uma viagem pelos caminhos tortuosos da sua vida (sempre a artística, porque a pessoal é um perpétuo mistério, alimentado a rumores e mitos) e da música que desovou. Uma música que consegue erguer-se aos píncaros do belo para depois cair a pique no mais aterrador dos pesadelos.
Do advento dos Walker Brothers à abismal feitura de The Drift, No Regrets conta com o contributo de grandes nomes da escrita musical realmente importante da actualidade, como Rob Young (o editor), David Stubbs, Ian Penman ou David Toop (que assina um texto brilhante). Com a chancela de qualidade da revista Wire, o livro é essencial para os seguidores de Scott - homem, mito e magia.
5 de fevereiro de 2013
Sons Frondosos
A dimensão onírica que povoa este registo não acontece por acaso: durante meses, os Olivia Tremor Control inspiraram-se em excertos de sonhos pedidos aos seus fãs. Fizeram gravações de campo ao melhor estilo da música concreta e adicionaram-lhes as suas melodias alucinogéneas, o que resultou num disco tão encantador como exploratório e esquizofrénico.
Black Foliage é, efectivamente, atravessado por diversas camadas de consciência, sucessivas clivagens e ambiências caleidoscópicas de sonhos despertos e abismos ilusórios.
Um surrealismo derivado de Dali transborda da capa e, se a música tivesse cor, a dos Olivia Tremor Control seria uma explosão clara e escura, multicolorida. A máquina psicadélica de sons estranhos e indefiníveis não pára de mover-se, orquestrando uma teia ao longo dos 27 temas que compõem o disco. No imediato, surgem à ideia Magical Mystery Tour dos Beatles e o mítico Smile dos Beach Boys, obras que encerram o espírito de estios tão imaculados como intoxicados. As melodias mais deliciosas e sumarentas são intercaladas por momentos de puro delírio que desafiam as convenções. As vocalizações erguem-se, harmónicas e emotivas, mas ao mesmo tempo distantes e a riqueza de detalhes é uma constante, o que impede que o disco seja absorvido numa única audição. Exige tempo e abertura mental para deixar escorrer a sua luxuriante torrente musical.
A Familiar Noise Called "Train Director", Hideaway, A Sleepy Company, I Have Been Floated, Black Foliage (Itself), The Sylvan Screen, California Demise (3) e Hilltop Procession (Momentum Gaining) são estilhaços imprescindíveis em qualquer vitral psicadélico de excelência. Obras-primas absolutas na arte de criar pequenas canções fervilhantes de sonho e fantasia. Tal como o precipício demencial de The Bark and Below It, o negativo escuro e labiríntico das luminosas florestas sónicas que com ele coabitam.
Music for the Unrelased Film Script: Dusk at Cubist Castle, o primeiro álbum dos Olivia Tremor Control, é também muitíssimo aconselhável. Mas é no seu sucessor que a banda da Louisiana depura a sua arte, se revela em pleno e nos arrebata sem pudor nem misericórdia. Já disse que é uma obra-prima? E o Verão que nunca mais chega...
Chancelaria
A génese do grupo incluiu dois nomes maiores da modernidade musical da nação: o mestre da samplagem Holger Hiller, aqui encarregue da guitarra e das vocalizações entre o histriónico e o acossado, e F.M. Einheit, futuro baterista dos Einstürzende Neubauten. O primeiro abandonou a banda para seguir uma carreira a solo pouco depois do lançamento do álbum de estreia. O segundo saiu ainda antes disso. Esta perda progressiva de elementos fundamentais fez com que os Palais Schaumburg fossem perdendo qualidades até colocarem um ponto final na sua existência em 1984, após três álbuns e uma mão-cheia de singles. Merece, no entanto, destaque Moritz von Oswald, um dos maiores nomes da electrónica dançante da actualidade e que foi igualmente percussionista do grupo na sua derradeira fase.
Algures entre o tratamento esquelético e minimal que os A Certain Ratio deram ao funk e o rock experimental dos This Heat, Palais Schaumburg instala-se no sistema nervoso do ouvinte como uma agulha fina que penetra a pele e por lá se move sem nunca trespassar a carne. Wir Bauen Eine Neue Stadt é o tema que abre o disco e o único single dele extraído. Um festival de irreverência anárquica, com ritmo espasmódico e vídeo a condizer:
Gute Luft e Deutschland Kommt Gebräunt Zurück surgem depois, estranhamente dançáveis, inadaptados mas acessíveis. Die Freude e Eine Geschichte incorporam os ritmos ossudos e os baixos angulares pelos quais a banda se notabilizou, assim como as demenciais vocalizações de Holger Hiller, a meio caminho entre David Thomas e David Byrne. Hat Leben Noch Sinn? é quase disco mutante, uma marcha militar a trilhar a pista de dança. E Madonna pode bem ser o melhor momento do álbum, um tremendo exercício de frenesim rítmico, impregnado de frieza eufórica.
A edição deluxe de Palais Schaumburg acrescenta-lhe prestações ao vivo, bem como os primeiros singles da banda, onde a estética se começou a delinear e peças imprescindíveis para compreender a sua evolução. Fica a interpretação de um deles, Telephon, envolta numa atmosfera quase expressionista e um belo atestado das capacidades do quarteto. Que entretanto se reuniu na formação original, voltando a espalhar brasas pelos palcos que tiverem o arrojo de os acolher.
4 de fevereiro de 2013
Ópio do Povo
Religulous, documentário de 2008 nascido da parceria entre o comediante Bill Maher e o realizador Larry Charles é, antes de mais, um objecto hilariante. Apesar da temática abordada ter o condão de pôr os cabelos em pé ou os ânimos exaltados a todos os que a defendem: as crenças religiosas e a forma como a religião se encontra organizada.
Ao longo do filme, o comediante confronta seguidores de vários cultos acerca dos princípios e da lógica das suas crenças. A ténue fronteira entre o preocupante e o ridículo está sempre presente nas palavras da maioria dos entrevistados, assim como a improbabilidade de congregações como os Judeus por Jesus ou a Capela dos Camionistas.
Ninguém é poupado à irreverência de Maher. Cristãos, judeus e muçulmanos são escrutinados e as suas crenças viradas do avesso à procura de uma razão para a o que as fez surgir, propagar e serem aceites sem dúvidas ou contestação. No campo teológico, filosófico ou científico, Religulous (óbvio cruzamento entre religion e ridiculous) não pretende demonstrar que é dono da verdade. Acima de tudo assume que não existe verdade nenhuma, e é assim que deve ser visto, como um excelente filme de entretenimento que nos faz rir enquanto nos obriga a reflectir mais seriamente nesta matéria.
1 de fevereiro de 2013
O Pulsar de Reich
O contributo do nova-iorquino para a música minimal é incomensurável. Reich é um dos compositores mais vanguardistas dos últimos 50 anos e as suas teorias e práticas projectaram uma miríade de influências, das ambiências de Brian Eno ao pós-rock dos Tortoise.
Music for 18 Musicians marca a diferença no minimalismo por usar um número substancialmente maior de executantes na sua interpretação. Os vários instrumentos envolvidos, incluindo vozes femininas, apresentam-se como pequenas partículas de um todo, gotas que fluem para formar um rio sonoro. A obra divide-se em duas partes, Pulse - Sections I - IV e Sections V - X - Pulse. A estrutura é circular e assemelha-se a um fractal. As onze pequenas peças são constituídas por onze acordes, que se imiscuem, sucedem e expandem até voltarem ao ponto de partida. O pulsar sente-se constantemente. Apesar de minimal, a música é rica em detalhes, harmoniosa e melodiosa. O facto da obra ser executada por, pelo menos, 18 músicos, ajuda à percepção dessa riqueza, em que os sons, circulares e repetidos, provocam diferentes reacções sensoriais. A psicoacústica era um dos interesses de Reich por esta altura e Music for 18 Musicians é um case study perfeito para induzir reacções ao som.
Pondo de parte a frieza e os componentes técnicos e organizacionais da obra, Music for 18 Musicians é uma criação de grande beleza e extremamente cativante e recompensadora para quem se deixar flutuar no leito das suas águas. Uma composição que tanto nos consegue abrir a mente a turbilhões imaginativos, como relaxar-nos na sua cadência repetitiva. Everybody grows up with a sound, disse certa vez Steve Reich. Mas este som cresce dentro de nós.
Idade do Vinil
A norte-americana Amoeba Music define-se como a maior loja independente de discos do mundo. Como em tudo na vida, o tamanho é relativo, mas este histórico espaço parece não descansar à sombra da sua dimensão. Recentemente, os adeptos da música mais obscura, especialmente os devotos do vinil, têm um motivo de regozijo. A Amoeba Music tem-se dedicado a digitalizar e a colocar online o seu espólio mais raro, muito dele constituído por edições descontinuadas. Na secção Vinyl Vaults do seu website, a loja disponibiliza para download um largo número de discos em vários formatos e que percorrem os mais diversos géneros musicais. Tomando como exemplo o jazz, é possível encontrar relíquias de Louis Armstrong ou Coleman Hawkins a conviver sem sobrancerias com nomes desconhecidos da esmagadora maioria. Improváveis e kitsch, como Your Friendly Neighborhood Rhythm Section ou Cotton Top Mountain Sanctified Singers.
Passear por este espólio é ser teletransportado para um mundo de música vintage e desaparecida e já não é preciso ir à Califórnia para o conseguir. Para adeptos do coleccionismo, ou para quem ainda é capaz de pagar por estes artefactos, a Amoeba Music será um nome a acalentar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)





