23 de dezembro de 2013

Fantasias de Natal

Os discos de Natal são vistos, por norma, como obras menores. Feitas no intuito de encaixar mais uns cobres ou desencadear um sentimentalismo foleiro. Este dogma tem fundamento quando nos deparamos com aberrações tais como o disco natalício de Billy Idol. Mas é discutível se for aplicado a uma obra mais consistente como Christmas, de Chris Isaak.
Se existe um disco de Natal incontornável em termos da qualidade da música e dos seus intérpretes, esse disco é The Bells of Dublin dos Chieftains, datado de 1991. O lendário colectivo irlandês - o mais famoso e aclamado da música tradicional da Ilha Esmeralda - concilia um conjunto de temas alusivos à época, intemporais e místicos. E congrega igualmente alguns nomes sonantes da música popular para a sua interpretação.
Elvis Costello dá voz ao vincadamente celta St. Stephen's Day Murders; Marianne Faithfull despe o manto de bruxa e canta para embalar em I Saw Three Ships a Sailing; Jackson Browne presenteia-nos com uma rendição plangente do belíssimo The Rebel Jesus. O recatado The Wexford Carol toma proporções devocionais na voz de Nanci Griffith e Rickie Lee Jones entrega-se de alma e coração a O Holy Night.
O que sobra (e é imenso e riquíssimo) é Chieftains da melhor safra. Carols, jigs, reels e outras fantasias celtas mescladas com as incursões que os decanos irlandeses sempre tomaram por músicas de outras paragens, da música tradicional francesa de Il Est Né/Ca Berger ao recolhimento contemplativo de A Breton Carol (cantada em gaélico). A ambiência conjura noites frias, mas aquecidas por lareiras e aconchego humano. Por whiskey e boas memórias, de cores, cheiros e sabores eternos. Noites intermináveis que se prolongam para dias luminosos e cheios, em que a esperança parece regressar, nem que seja por momentos. A execução é mágica, envolvente e penetrante. E é da noite para o dia que The Bells of Dublin se projecta. O anúncio festivo dos doze sinos centenários da Catedral de Christchurch prolonga-se pela escuridão fria, de melodias ricas mas essência pobre, e termina num amanhecer resplandecente de alegria e comunhão. Não sei se é o melhor disco de Natal de sempre mas, depois deste, não tive vontade de ouvir nenhum outro, para não correr o risco de quebrar o encanto.

16 de dezembro de 2013

Kosmische Kosmetik XLVII

A missão dos irmãos Seesselberg, Eckart e Wolf-J., começou por ser académica: mostrar ao mundo as capacidades e potencialidades dos sintetizadores, extraterrestres electrónicos para a maioria dos mortais dos inícios dos anos 70. Essas demonstrações levaram a que o duo alemão editasse para a posteridade um disco feito das suas próprias pirotecnias cibernéticas, algo que deve ter afugentado os melómanos mais incautos e classicistas da época mas que detém hoje uma imagem quase paterna para a descendência da música electrónica mais audaz e não conformista.
Surgido em 1973, o álbum Synthetic 1 arranca como o despertar de um sonho mau dos Kraftwerk. Uma sucessão de agudos alarmantes que põe os sentidos em alerta antes de se afundar num charco de bleeps e estática. A esta Overtüre segue-se uma série de peças de curta duração, que se assemelham a processadores com vida própria, desesperados por comunicar. A melodia é quase inexistente e, quando surge, é fria e descarnada, um fio conectado algures, perdido entre os demais. Como em Speedy Achmed ou no denso e tenso Was Dir Heute Freude Macht, Das Verschieb Nicht Über Nacht!.
O tema de maior duração tem um título à altura: Die Menschen Sind Glücklich, Sie Kriegen, Was Sie Begehren, Und Begehren Nichts, Was Sie Nicht Kriegen Können - Laubsägebastler, Briefmarkensammler Und Brieftaubenzüchter Bilden Das Rückgrat Der Menschheit. Mas são palavras a mais na idade dos porquês. A música é abstracta, elegíaca e foge da luz. Uma marcha fúnebre electrónica em subliminar crescendo até ao enterro final. Phönix aproxima-se da precedente em termos de duração, mas a monotonia escura e fria dá lugar a um pulsar constante, com picos e quebras de intensidade. Como ser largado na escuridão do espaço, ou passear sozinho pela desolação lunar.
Algures entre Stockhausen e Conrad Schnitzler no passado e Merzbow e os Autechre no presente, a fraternidade Seesselberg nunca passou da obscuridade nem do academismo. Synthetic 1 perdeu-se na bruma dos tempos e tornou-se um artefacto mais curioso que musical. No entanto, continua a haver um bizarro e apelativo charme neste disco. Como nas aulas a que assistíamos na faculdade só pelo prazer de ouvir o professor e sabendo que aquela matéria nunca teria aplicação prática.

                                 

11 de dezembro de 2013

Grande Lata



A principal característica dos Can sempre foi a espontaneidade. O próprio Holger Czukay, baixista e mentor da banda, chegou a afirmar que as composições e as actuações ao vivo do seu colectivo derivavam de criações instantâneas. E foi o improviso e o constante experimentalismo que fizeram do grupo germânico, mais que um dos porta-estandartes do krautrock, um dos projectos mais vanguardistas, subversivos e influentes do rock inteligente. Serão, juntamente com os Velvet Underground, a maior banda de culto de sempre. Mas enquanto os nova-iorquinos viram a sua projecção aumentar ao longo do tempo, a banda de Colónia sempre se moveu nas sombras, a sua música mais fácil de mencionar para impressionar que de ouvir para apreciar.
A formação clássica dos Can que, para além de Czukay, incluía Damo Suzuki, Michael Karoli, Irmin Schmidt e Jaki Liebezeit editou alguns dos discos mais futuristas e estratosféricos da década de 70. A música de Tago Mago, Ege Bamyasi ou Future Days é estranha, cerebral, hipnótica, tão imediata como depurada na sua estrutura, tão variada como repetitiva em termos rítmicos. É a mais imperativa de ouvir, ter e venerar, se bem que os Can nunca foram desinteressantes ou vulgares. A odisseia iniciada com o imenso e intenso Monster Movie e terminada com Rite Time está repleta de passos em frente e estratégias progressistas.
Can - The Documentary propõe uma história visual da banda. Parte integrante da exaustiva Can Deluxe Box DVD editada em 2005, é o filme ideal e definitivo para conhecer os Can para além da música. Filmagens raras e históricas, excertos de antológicas actuações ao vivo e muitas entrevistas preenchem a hora e meia de imagens, que passa demasiado depressa. Apesar de tudo, o documentário condensa o essencial da singular carreira de um dos colectivos mais geniais de sempre, que não só colocou a Alemanha no mapa da música influente como revolucionou para sempre os preceitos do rock como forma de arte.

                                 

10 de dezembro de 2013

O Homem dos Quatro Instrumentos

John Surman começou por ser uma figura chave no boom do novo jazz britânico nos finais dos anos 70. Saxofonista exímio e caloroso, foi abandonando ao longo da sua carreira os territórios mais óbvios da cartilha jazzística, enveredando por estéticas mais atmosféricas. Esta lenta migração deveu-se sobretudo à ECM, casa da qual Surman é residente a tempo inteiro desde a edição de Upon Reflection em 1979.
O estilo do músico inglês é, hoje, inconfundível. São enaltecidas as atmosferas e as ambiências nocturnas e instrospectivas e o tom meditativo e melancólico impera na maioria dos seus registos. John Surman acaba por ser, em simultâneo, uma influência e um produto da escola ECM, um dos mais importantes definidores da sua estética.
Da sua vasta obra, um dos discos mais emblemáticos é Private City, de 1987. Um disco criado para um bailado com o mesmo nome, feito de improvisações e no qual, como começará a ser tendência no seu percurso criativo, Surman executa todos os instrumentos, saxofone, clarinete, piano e sintetizadores. O controlo é total, a mestria absoluta. Apesar do nome, a música não evoca apenas paisagens citadinas. Persiste um misticismo, que conjura os elementos e acorda sentimentos.
O álbum começa com um dos mais belos e perenes temas de John Surman, Portrait of a Romantic. Uma lenta e arrebatadora espiral de clarinete sobre piano eléctrico com efeitos balsâmicos e transcendentes. E termina com The Wizard's Song, outra composição perfeita, atmosférica e cinemática, que fica a ressoar inconscientemente muito tempo depois do disco ter terminado. Outras magníficas paragens nesta jornada incluem Not Love Perhaps, ruminação crepuscular ladeada por vozes fantasmagóricas, The Wanderer, melodia cristalina e contemplativa que serpenteia encantatoriamente ao nosso redor, e Roundelay, em que uma miríade de sopros em overdub ganha contornos de jazz de câmara.
Místico, sideral e sempre envolvente, Private City é a obra de um músico romântico mas aberto às possibilidades sónicas para expandir a sua arte. Dessa forma expande igualmente o coração e a mente de quem o ouve.

5 de dezembro de 2013

Jazz Impuro

Eric Dolphy foi um dos maiores inovadores do jazz da década de 60. Multi-instrumentista exímio, dividido entre o saxofone, a flauta e o clarinete, impulsionou o género para a vanguarda durante a sua curta existência. Dolphy faleceu aos 36 anos, no auge do seu talento e após a edição daquela que muitos consideram a sua obra máxima: Out To Lunch!
Foi apenas o quinto disco lançado durante esse esparso tempo de vida. Estávamos em 1964 e outras obras marcantes fizeram desse ano um período rico para o jazz. Crescent de John Coltrane, Speak No Evil de Wayne Shorter ou Spiritual Unity de Albert Ayler, são alguns dos clássicos de um estilo musical que começava a afastar-se do seu estatuto de entretenimento para angariar cores da paleta do experimentalismo. Cada vez mais próximas das estruturas avant-garde da música clássica contemporânea que da propulsão do swing, as novas tendências jazzísticas apontavam armas à mente em detrimento do corpo.
Out To Lunch! combina com mestria física e metafísica. O quinteto de Dolphy (com especial destaque para os acólitos Freddie Hubbard e Bobby Hutcherson, respectivamente no trompete e no xilofone) alcança momentos mais transcendentes e cerebrais sem nunca trocar a paixão pela razão. Abundam os solos e as mudanças de textura, as variações de ritmo e a complexidade melódica. Caminhamos pela fronteira entre um jazz que ainda é bebop mas que já tem muito de free. Hat and Beard é vertiginoso e desconjunta-se para se unir de novo. O tema-título assemelha-se a uma marcha jazzística entrecortada por quebras de tempo, ritmos angulares e melodias dissonantes. Something Sweet, Something Tender é o tema lento flagrante do disco, mas a estranheza da estrutura e rasgos de atonalidade não deixam que a ternura e a doçura reinem em absoluto. Gazzelloni faz jus ao virtuosismo de Dolphy na flauta mas vincando as possibilidades experimentais e sónicas que este retira do instrumento. E Straight Up and Down tem um groove tão alienígena que quase poderíamos apelidá-la experimentalismo emocional.
Não é à toa que Out To Lunch! é considerado uma das obras-primas do jazz de vanguarda. É um disco desafiante e surpreendente ainda hoje. Os puristas do género poderão ficar de cabelos em pé com o arrojo e o ludismo com que a música é tratada, mas os amantes da arte mais transgressiva e progressista deliciar-se-ão continuamente.

18 de novembro de 2013

Bittersweet Symphony




Podia ser apenas efeito do culto e do mediatismo, mas não é. Cold Fact e Coming From Reality são dois discos assombrosos e plenos de canções brilhantes. Da melhor safra surgida nos inícios dos anos 70. Ambos foram os únicos legados do cantautor do Michigan Sixto Rodriguez, que desapareceu misteriosamente após a conclusão do segundo e alimentou os mais variados mitos e mistérios nas décadas que se seguiram.
Temas como Crucify Your Mind, I Wonder, Sugar Man, A Most Disgusting Song ou a devastadora Cause encontram-se perfeitamente ao nível de pares de profissão mais consagrados como Bob Dylan, Neil Young ou Van Morrison. Criações cuja simbiose entre um lirismo crú mas imensamente poético e um instinto melódico notável transformam em pequenos monumentos à arte de fazer canções.
A veneração velada pela ausência que rodeou Rodriguez nos últimos 40 anos terminou subitamente com a edição de Searching For Sugar Man. Filme documental de 2012 realizado por Malik Bendjelloul, recupera o homem por trás do mito, mostrando a sua verdadeira história e devolvendo-o ao mundo dos vivos. O tom algo melodramático é inevitável porque o próprio enredo é agridoce e é impossível não imaginar o que teria acontecido a um músico tão talentoso se não tivesse arrumado as botas prematuramente, desconhecendo que era ídolo de um público que também pouco sabia sobre ele.
Mais que tudo uma história de segundas oportunidades, Searching For Sugar Man celebra uma vida de amor à música que teve um inesperado efeito borboleta. E, mais que o retrato de um grande e talentoso artista, uma lição de como nada está oficialmente terminado até que a banda pare de tocar.


               

9 de novembro de 2013

The Life of P

A vida dos P foi curta. Durou entre 1993 e 1995 e gerou apenas um fruto. A parca atenção dada a este projecto paralelo de Gibby Haynes - líder dos Butthole Surfers - prendeu-se, sobretudo, com o músico de serviço Johnny Depp. O actor fetiche de Tim Burton e objecto de fantasias para jovens (e não-assim-tão-jovens) damas melancólicas, toca guitarra e baixo ao longo de todo o álbum homónimo da banda e fá-lo com a galhardia de um rocker deliciado com a desbunda.
P é um disco tremendamente eclético e quase esquizofrénico. Abre deliciosamente com o rock magnético de I Save Cigarette Butts e a partir daí uma caixinha de surpresas exibe-se perante nós. Existe espaço e liberdade para tudo, desde paródias ao R.E.M. em Michael Stipe a uma versão indie rock de Dancing Queen dos ABBA. E não sabemos como reagir a estas provocações porque a música está sempre à altura dos devaneios.
A sombra dos Butthole Surfers mais viscerais e inconvencionais, filhos bastardos do punk e do psicadelismo, projecta-se em Zing Splash e Oklahoma. E os P ganham identidade própria em experimentos como Jon Glenn (Mega Mix) e Scrapings From Ring, duas peças apostadas em trazer à ribalta uma espécie de dub rock que oscila entre o ambiental e o demencial.
Há ainda espaço para os blues psicóticos que David Lynch não desdenharia em White Man Sings The Blues, para uma desconjuntada canção de amor - Die Anne - e para The Deal, um estranho épico sucedâneo do grunge que nos faz coçar o queixo à procura de sentido. Porque tudo e nada fazem sentido neste disco. É música em bruto, na qual as únicas cedências concedidas são à arte da miscelânea.
Para além da super estrela Johnny Depp, merece igualmente destaque a colaboração de luminárias como Chuck E. Weiss, Flea (dos Red Hot Chili Peppers) e Steve Jones (dos Sex Pistols) nesta obra. Um disco singular e desafiante, que não foi um blockbuster e passou fugazmente pelos anos 90, mas cuja personalidade original foi feita para durar.

1 de novembro de 2013

Estrela de David

A maioria dos que me lêem conhece certamente o icónico Blow-Up, filme de Michelangelo Antonioni cujo enredo se centra num fotógrafo que, conscientemente ou não, é testemunha involuntária de um assassínio. A película de 1966, com o seu retrato romantizado e estilizado da Swinging London e das suas vivências libertárias, tornou-se um marco cultural, parte integrante do imaginário da década de 60 do século passado.
Igualmente célebre ficou David Hemmings, o actor que encarnou o fotógrafo David Bailey e cuja personagem se colou inevitavelmente à sua carreira cinematográfica.
Talvez apenas uma minoria dos que me lêem conheçam a vertente musical de David Hemmings. O que é natural porque o actor apenas foi cantor num disco - Happens, de 1967.
É uma obra que vale mais pela curiosidade que pelo conteúdo. Hemmings é acompanhado por gente de valor (como Roger McGuinn e Chris Hillman dos Byrds ou o baterista Ed Thigpen do trio jazzístico de Oscar Peterson) e entrega-se a versões de nomes não menos consagrados como Tim Hardin ou Gene Clark. Estas, Reason To Believe e Back Street Mirror, abrem o álbum da melhor maneira, mostrando que David Hemmings poderia ter sido um cantor credível ao invés de um grande actor. No entanto, o glamour da Swinging London que tanto ajudou a definir a sua imagem encontra-se ausente dos cenários sónicos de Happens. A maioria das canções enquadra-se numa moldura folk pop com ligeiros lampejos de psicadelismo, exemplificadas perfeitamente em Good King James, Anathea e War's Mystery e no toque transcendente que a cítara de Roger McGuinn lhes confere. After The Rain e The Soldier's Wind ressoam como ecos de prados verdes ingleses.
David Hemmings não conseguiu ser um bardo de sucesso, ao contrário do seu trabalho como actor. Happens passou fugazmente pela música e a música apenas o olhou de soslaio. Para a posteridade fica uma das raridades possuidoras da bizarria típica da década que a viu despontar.

19 de outubro de 2013

Sortido Pop Art


Pode ter sido considerado o primeiro evento multimédia de sempre, ou a primeira rave party de que há memória, mas o Exploding Plastic Inevitable foi muito mais que isso. Foi a génese da promíscua mas salutar relação entre as artes do cinema, da música e da performance.
Perde-se na bruma do tempo o que realmente aconteceu nesta série de eventos organizados por Andy Warhol durante os anos de 1966 e 1967. As próprias filmagens existentes resumem-se a uma curta metragem realizada por Ronald Nameth. Mas o que se assiste nesses escassos minutos é um claro vislumbre da envergadura dos actos e da ruptura com as normas vigentes. Nunca se tinha feito nada assim e muitas foram as pálidas imitações que se seguiram, sem todavia conseguir a chama mística de projectar Kiss ou Whips sobre o rock abrasivo dos Velvet Underground. Nem capturar Nico na plenitude da sua beleza esfíngica. Ou as danças transgressoras de Gerard Malanga e Mary Woronov.
Imaginam-se os eflúvios de dança, substâncias e celebridades arrastadas para e pelo Exploding Plastic Inevitable. Imagina-se a atmosfera de assistir ao advento de uma nova era, sem compromissos, de total e desafiante liberdade pessoal e artística. E é impossível não associar Camões a Warhol, citando que melhor é experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não pode experimentá-lo. Até porque escasseia a quantidade e a qualidade de happenings sucedâneos no presente. Eis a reportagem possível.

                             

O Piano Infinito

Deixando de lado a forma e insistindo no conteúdo, The Well-Tuned Piano contém alguma da música mais estranhamente bela e cativante criada por La Monte Young. O próprio compositor norte-americano, tido por muitos como o patriarca do Minimalismo, considera-a a sua obra-prima. Mas considera-a igualmente inacabada, sendo que tem vindo a sofrer acrescentos e remendos desde 1964 até aos nossos dias.
Uma performance de The Well-Tuned Piano pode durar entre cinco e seis horas. Sendo uma peça essencialmente improvisada, não possui uma estrutura rígida, exigindo apenas ao executante uma sucessão de secções e sub-secções pré-definidas. O resultado é um mergulho num mundo de sons maioritariamente hipnóticos, que varia entre ruminações lentas e idílicas e espirais intensas e repetitivas.
Tal como o título da peça intui, a afinação do piano é a base da sua interpretação. Mantida secreta durante quase três décadas, foi apenas revelada em 1991, permitindo que a composição passasse a ser executada por outros que não o seu autor. É esta forma alternativa de afinar um piano que provoca a catadupa de sons estranhos mas igualmente familiares que envolvem o ouvinte. As cordas ecoam espectralmente e transmutam-se em reverberação. Vislumbra-se uma osmose entre o formalismo da música clássica ocidental e as texturas simples e monofónicas da música oriental, especialmente da Índia.
Haja tempo e disponibilidade para a absorver e The Well-Tuned Piano tornar-se-à uma experiência recompensadora. Uma peça-chave não só do Minimalismo e dos drones caracteristicamente explorados por La Monte Young, mas de toda a música vanguardista do século XX. Nunca um piano foi tratado assim.

18 de outubro de 2013

Psicadelismo Outonal

Numa altura em que se celebra o regresso dos Mazzy Star com a expectável qualidade melancólica de Seasons of Your Day, é interessante resgatar da obscuridade o primeiro projecto de David Roback, cara-metade artística de Hope Sandoval. Surgidos da fornada de bandas de Los Angeles dos anos 80 que ficaram eternamente vinculadas ao movimento Paisley Underground, os Rain Parade recuperaram um certo psicadelismo, assente numa insustentável leveza associada a doces tons de cinzento.
O colectivo californiano editou o seu primeiro álbum em 1983. De nome Emergency Third Rail Power Trip, é uma pérola semi-desconhecida, um artefacto de culto mas suavemente apaixonante. Como toda a tendência do género Paisley Underground, é um disco revivalista e pouco ligado aos cânones da sua época. As guitarras byrdsianas, as vozes lânguidas e arrastadas e um instinto melódico a la Big Star não deixam margem para dúvidas quanto às influências da banda que David Roback liderava com o seu irmão Steve. Mas corre nas veias desta gente uma soturnidade latente, sem sintomas explícitos, que usa óculos escuros num solarengo dia de Verão sem os tirar quando a noite cai. 
Indo directo ao assunto, nada como nomear a esmagadora Carolyn's Song. É a melhor canção do álbum e uma das melhores dos anos 80 (transcende-os, de facto). Uma balada dolente e dorida, com espasmos de bateria e apertos de electricidade no coração. O projecto melancólico de 1º escalão This Mortal Coil apresentaria a sua versão anos depois, em Blood, mantendo a beleza triste mas nunca o desgosto sonolento do original.
Nada chega aos calcanhares deste momento em Emergency Third Rail Power Trip, mas há motivos de sobra para a sedução e rendição aos encantos dos restantes 9 temas que o formam. Tais como a nuvem em dia de sol de What She's Done To Your Mind, a sonhadora e envolvente Kaleidoscope ou a levitação psicadélica de This Can't Be Today. Talking In My Sleep parece antecipar os Stone Roses (rapazes com influências similares, porém mais luminosos), Look At Merri ginga com tímida sensualidade e o álbum termina com um rock de garagem quase puro intitulado Look Both Ways.
Emergency Third Rail Power Trip foi reeditado em 1992, acompanhado do segundo registo da banda, o igualmente interessante e refinado mini-LP Explosions In the Glass Palace. E é esta a edição que vale a pena ter, sobretudo por You're My Friend, single de 1985 e um dos seus temas mais imediatos e melhor desenhados. É certo que nesta altura David Roback já sabia bem o que fazia e os Rain Parade são tão importantes e consistentes como tudo o que se seguiu no seu percurso musical.

2 de outubro de 2013

Like a Rolling Stone


Já lhe chamaram o Santo Graal das biografias de estrelas do rock e com toda a legitimidade. Mais que um livro, Life é uma revelação. A biografia para esmagar todas as biografias. Pela frontalidade, crueza e sinceridade. Como se Keith Richards fosse trancado connosco numa sala vazia, apenas com um volume de Marlboro e uma garrafa de Jack Daniel's e desfiasse intimamente o seu rosário de memórias.
É um solilóquio que não deixa nada por dizer, nenhum mito por esboroar, nenhum rumor por confirmar. O lendário guitarrista dos Rolling Stones aplaca-nos a curiosidade acerca da sua vida preenchida de música e excessos. A vida que o levou da infância pobre na cidadezinha de Dartford no pós-2ª Guerra Mundial à aclamação universal como guitarrista da maior banda de rock'n'roll do mundo.
O resto é o que se espera de Keef:  A avalanche de drogas, a fuga que propiciam, o combustível narcótico que delas advém e a desconstrução do seu romantismo; o sexo com mulheres que nunca pensou vir a ter; julgamentos de vária ordem; tiros, facas e carros a acelerar pela noite americana; a verdade sobre Brian Jones; a reputação de Mick Jagger estraçalhada. E, mais que tudo, um enorme fuck you à autoridade e às normas estabelecidas lançado por um homem que viu e viveu mais do que qualquer um de nós alguma vez sonhou. Um homem que, apesar da carapaça durona e o epíteto de excessivo e decadente demonstra, não raras vezes ao longo do livro, uma sensibilidade enorme e cavalheiresca.
Nenhuma descrição faz plena justiça ao que se encontra por entre as páginas de Life. Os pormenores sumarentos e as revelações surpreendentes só fazem sentido relatados pelas palavras de Keith e pela pena do seu co-autor, o jornalista James Fox. Dizer que esta obra é imprescindível para qualquer verdadeiro amante do rock torna-se, assim, redundante.