28 de dezembro de 2014

Massa Cinzenta

Pouco se sabe acerca de Valerian Stöecklein. Antes da edição do seu primeiro - e único - álbum a solo, Grey Life, foi o vocalista de uma banda de folk rock que causou algum furor no advento da era psicadélica: os Blue Things. A banda terá prosseguido sem ele, desaparecendo progressivamente para se tornar objecto de culto.
Menor culto não deve ser votado a Grey Life. O único legado gravado de Val Stöecklein data de 1968 e merece entrada imediata para o panteão dos clássicos obscuros.
Se existem discos que dizem quase tudo na capa que ostentam, Grey Life é um deles. Apesar da profusão de orquestrações e do teor açucarado de algumas, os esqueletos das canções da obra são feitos de ossos partidos e estilhaços de desencanto.
Val Stöecklein combateu problemas mentais até à sua morte em 1993, alegadamente por suicídio. Não é de estranhar que a bipolaridade da qual padecia tenha transparecido na sua música. O que não a torna deprimente e impenetrável, mas apenas triste. Por vezes aproxima-se de um Gene Clark mais urbano; outras vezes de um Tim Buckley mais directo e menos onírico.
A melancolia transversal mas nunca monolítica inicia-se com o excelente Say It's Not Over, canção que merecia um papel bem mais destacado que apenas o de balada poeirenta. Tal como a delicadeza intrincada da belíssima French Girl Affair. Temas carpidores não faltam em Grey Life, do grito desesperado de I Can't Have Yesterday à saudade de Sounds of Yesterday, passando pelo vazio de I Wonder Who I'll Be Tomorrow.
Das parcas vezes que a luz penetra, é ténue e fria, como em Morning Child ou Now's the Time. Canções que procuram a esperança, mas parecem ao mesmo tempo temê-la. As orquestrações envernizam-nas mas nunca lhes tiram a subterrânea emotividade nem a solidão do quarto escuro. Segundo rezam as crónicas, Val Stöecklein não gostou do resultado final do álbum e da orientação, a seu ver, demasiado comercial da produção. Em consequência, ter-se-à retirado em definitivo da música, não voltando a gravar. Não sabemos se existem mais composições suas, perdidas algures ou relegadas para os confins de qualquer estúdio. Pouco ficámos a saber também de Valerian Stöecklein, mas este disco não permitirá nunca a morte do artista.

24 de dezembro de 2014

A Dama das Galáxias

Laurence Vanay é um nome desenhado. Um pseudónimo, criado por Jacqueline Thibault, para definir-se como artista a solo após uma fugaz passagem pelo obscuro grupo Vogue. Este nome artístico não escapa à influência do seu esposo, Laurent Thibault, uma das figuras de proa dos Magma - o visionário colectivo francês que criou uma linguagem própria e embebida em jazz, space rock e apocalipse. 
Nos antípodas do negrume magmático, o primeiro trabalho a solo de Laurence Vanay é uma jóia de rara beleza e expressividade. Intitula-se Galaxies, data de 1974 e roça o génio com a ponta dos dedos.
Disco irrotulável, espraia-se por vários estilos sem nunca amigar-se com nenhum. Apesar de hospitaleiro e das ondulantes melodias que o envolvem, revela-se desafiante e impregnado de improvisos calorosos, onde razão e emoção ecoam em uníssono. Os temas são curtos mas nunca vagos, apenas soam a sonhos diurnos ou meditações fugazes cortadas pela realidade.
Irrompe suavemente a chanson française decorada com motivos hippie de Demain, Deux PharesLa Grand Voile. Escorrem belíssimos devaneios instrumentais, como o bucolismo de Le Loup Qui Pleure e a melancolia cadente e flutuante de Le Bateau. Encanta e envolve a doce solenidade cósmica do tema-titulo.
Somente em Le Soleil Rouge e no efervescente Catalepsie se nota uma ténue sombra da intensidade escura dos Magma, mas em que Laurence Vanay surge como o gineceu musical dessas sombras sisudas. 
Obra vincadamente feminina e independente numa época em que as mulheres pouco ou nada vingavam em termos composicionais, Galaxies tem vindo a ser redescoberto com a atenção que merece. Foi alvo de reedição no ano transacto com inéditos apetecíveis e o seu discreto charme e simplicidade enganadora continuam a conquistar mentes abertas a emoções inteligentes.

21 de dezembro de 2014

Parque Jurássico

Para os detractores, o rock progressivo será sempre a versão musical de um dinossauro fossilizado. Para os entusiastas, um pináculo de criatividade e virtuosismo que enobreceu um género sempre considerado plebeu. Nesta guerra nem sempre fria, poucas são as obras que os aproximam e permitem tréguas e consensos.
Close to the Edge, o quinto álbum dos Yes, será uma das honrosas excepções. Na ressaca de um belíssimo, arrojado e bem sucedido disco - Fragile - o colectivo britânico decidiu puxar mais ainda dos galões e expandir até ao limite as características cheias e complexas da sua sonoridade. As tendências épicas que pontuavam episodicamente os registos anteriores, florescem totalmente neste disco de 1972. O tema-título, que lhe serve de abertura, inspirou-se em Siddartha, a imortal obra de auto-descoberta de Hermann Hesse. Um início intenso, algures entre o afogamento e a libertação, dividido em quatro partes, em que razão e emoção se entrechocam num contínuo deslumbrante, pejado de inflexões melódicas e intervenções instrumentais improváveis. O recente membro Rick Wakeman revela-se fulcral na entrega poderosa dos teclados, tão clássicos quando ouvidos pela enésima vez, porém tão quentes e austeros como o ritual iniciático em que sempre se quis participar.
Ao longo dos seus quatro movimentos, Close to the Edge condensa a estética do melhor rock progressivo: A construção musical que, numa escuta superficial, parece fruto de improviso, mas que revela um rigor interactivo e uma complexidade composicional a quem penetra abaixo da sua superfície; a capacidade de induzir diferentes estados de emoção ao longo das melodias que fluem, transformam-se e tombam em cascata. Caminhos, atalhos e paragens que fazem uma auto-descoberta musical.
Steve Howe parece afinar a sua guitarra no início de  And You And I. Apenas dá o mote para uma das mais belas criações do rock progressivo. Se o tema antecedente soa a viagem de reconhecimento interior, a sua resolução soa ao fechar de um círculo, entre o recato meditativo e a alegria transbordante da renovação. Igualmente dividido em quatro partes, a sua ressonância é esmagadora, oscilando entre a filigrana e as sombras. É, talvez, a melhor e mais sentida prestação vocal de sempre de Jon Anderson e o mellotron de Rick Wakeman eleva a nossa alma a um estado majestoso durante o tempo que ecoa. Poucas vezes o rock, progressivo ou não, brilhou com tanta intensidade.
Siberian Khatru encerra o álbum em regime menos etéreo e quase dançante, uma espécie de funk cósmico com guitarra muito bem temperada. A maior agressividade da entrega escurece o disco, mas a tonalidade espiritual mantém-se, bem como a vastidão sonora e a miríade de ideias que dele transbordam, tornando-o a obra maior da discografia dos Yes. Mesmo sabendo que, a partir daqui, a carreira do grupo entrou em declínio, este é o disco que congrega ao seu redor gregos e troianos.
Em reedições sucessivas, Close to the Edge tem beneficiado de melhor tratamento em termos de produção e o acréscimo de alguns extras, que não são imprescindíveis mas que contribuem para a sua mística. Louvável é o realce para o que o disco tem de melhor e que assenta primordialmente na riqueza dos detalhes. Mais que merecido para a obra-prima intemporal que constitui.

17 de dezembro de 2014

Noite Palaciana

   


Provavelmente um dos mais antigos programas musicais da Europa, o Rockpalast aquece o continente a partir da Alemanha desde 1974. Ainda em actividade, a decana emissão da WDR revelou-se pioneira na sua mescla entre divulgação da vanguarda musical e palco de nomes consagrados. De David Bowie a John Cale, passando por Peter Hammill ou Tom Waits, muitos foram os artistas e bandas a produzir nesse palco performances memoráveis e que o foram tornando o objecto de culto que hoje constitui.
Ao longo das suas quatro décadas, o tempo de antena do Rockpalast foi maioritariamente colocado ao serviço de bandas externas à Alemanha. Porém, em 2006, foi dada a oportunidade aos santos da casa de fazerem milagres, numa emissão dedicada exclusivamente à música teutónica.
Apesar de alguns tiros ao lado e da sonoridade datada de alguns dos intervenientes, a Deutschrock Nacht compila de forma fascinante a evolução do rock alemão, desde os dias do puro decalque das tendências americanas e anglo-saxónicas até à emergência revolucionária da nova e transformativa vaga do que se popularizou como krautrock.
Trata-se de uma maratona musical de quase cinco horas, apelativa para acólitos, instrutiva para neófitos. Uma obscura curiosidade com selo de qualidade e uma prova de como é possível agradar a várias audiências sem perder a identidade. O Palácio do Rock está longe de ruir.


                              

                              

                              


Celtic Soul

A música conjurada durante a primeira década da carreira de Van Morrison deveu tanto à poesia e ao misticismo como à mistura de folk, jazz e blues que lhe deu corpo. Após uma sucessão de álbuns imaculados e celebrados desde então como clássicos intemporais (Astral Weeks, Moondance, Tupelo Honey), o Leão de Belfast descansou. Os rigores da estrada e a montanha-russa de uma vida amorosa conturbada levaram-no a um retiro na sua amada e inspiradora Irlanda. Corria o ano de 1974 quando as musas da Ilha Esmeralda convergiram para Morrison e lhe sussurraram a essência de Veedon Fleece, uma das suas melhores e mais profundas criações, apesar de discretamente menosprezada.
Veedon Fleece é poesia pura. A súmula perfeita da alma ardente de Van Morrison, desfiada em regime introspectivo. A paixão e a entrega características do músico irlandês continuam omnipresentes, mas o registo enaltece uma sensibilidade despojada e os temas parecem envolvidos numa aura de beleza mística, idealista e ensopada em romantismo.
Fair Play inicia o lento encantamento, com um piano a gotejar e um ritmo circular que sustenta o canto arrebatado de Morrison. Como nas melhores canções do músico, complexidade e melodia chocam e repelem-se, com as emoções em constante intensidade. Linden Arden Stole the Highlights e Who Was That Masked Man são curtas canções cheias de alma. Estilhaços tão solenes quanto belos e que parecem fruto dos lampejos de inspiração que deve ser logo materializada ou perdida para sempre.
Streets of Arklow envolve-nos na sua atmosfera brumosa, acentuada pela flauta vincadamente celta e dilacerada por golpes orquestrais. Bulbs e Cul de Sac são os temas mais directos do álbum, bebendo avidamente da fonte dos blues, mas animados pelos adornos de um espírito mais irlandês que americano. Depois deles, é cedido o lugar às criações mais etéreas e sentimentais do disco: Comfort You é alma à flor da pele, confissão de desejo de união carnal e espiritual; Come Here My Love é uma das mais despojadas e tocantes canções de amor de Van Morrison e - porque não dizê-lo? - dos últimos 50 anos. A prova que basta uma voz e uma guitarra acústica para criar magia.
Country Fair fecha o disco em toada bucólica e apaziguadora, mas saturada de imagens criadas mentalmente em torno de verões campestres. O que significa exactamente Veedon Fleece provavelmente não é para ser conhecido. Ou não significará mesmo nada. Talvez a busca por uma espécie de Santo Graal poético, amoroso e mitológico que existe em cada um de nós. O melhor tema do álbum e a sua peça central, You don't Pull no Punches, but You don't Push the River, aponta para esta jornada interior e convida à deambulação pelos nossos labirintos particulares. A sua estrutura exploratória e a letra críptica trazem à tona o Van Morrison mais esotérico e experimental.
Após a conclusão de Veedon Fleece, Van Morrison iniciou um hiato de 3 anos na sua carreira musical. Quem sabe terá sido cansaço ou falta de inspiração. Mas seria bom acreditar que foi sensatez, deixando aos comuns mortais uma obra que exige tempo para ser assimilada mas que se torna fluída como o ar à medida que penetra nos recantos de cada alma.

1 de março de 2014

Movimento Perpétuo




Ainda faltam alguns meses para nova edição do Jazz em Agosto, o mais importante, histórico e pertinente festival de jazz realizado em terras lusitanas. As 30 edições cumpridas no ano transacto culminaram com a edição do livro Partidas/Chegadas - Novos Horizontes no Jazz, uma resenha dos nomes mais relevantes que actuaram no festival ao longo da sua história. 
A obra, assinada por Stuart Broomer, Brian Morton e Bill Shoemaker, acaba por transcender a homenagem ao evento que, com o passar dos anos, se tornou cada vez mais ilustre e incontornável. Consegue igualmente funcionar como súmula das evoluções e revoluções que o jazz sofreu ao longo das últimas três décadas e que os palcos da Fundação Calouste Gulbenkian conseguiram, muitas vezes arrojada e audaciosamente, difundir.
Basta passar os olhos pela capa para ver que o material é mistura fina. De Anthony Braxton a Sun Ra, de Ornette Coleman a John Zorn, muitos são os vultos incontornáveis deste género musical objecto de dissecação e dissertação. Sob a pena dos três experts supracitados, sucedem-se pequenas biografias desses grandes nomes, assim como uma discografia selectiva e recomendada. Partidas/Chegadas - Novos Horizontes no Jazz é uma obra sólida e fundamental para o entendimento do jazz de vanguarda e do perpétuo movimento que o faz parecer sempre imutável mas também sempre novo.

An Alien in London

                                            


Dont Look Back documenta a primeira tournée de Bob Dylan por terras do Reino Unido em 1965. Filmado por D.A. Pennebaker, algures entre o cinèma verité e o expressionismo, traça um retrato do cantautor norte-americano no crescendo popular e crítico que sucedeu a uma das suas primeiras obras-primas: Bringing It All Back Home.
Ao longo do filme, Dylan desfila, ora esfíngico e fleumático, ora arrogante e sanguíneo, conquistando audiências, repelindo admiradores, destilando emoção/desdém perante o talento notório de Donovan e deixando antever a presumível separação de Joan Baez (nesta altura mais uma partenaire que uma amante).
A folk americana invade a swinging London, e Dylan, vestido de preto, envergando óculos escuros como se o dia ou a noite fossem iguais para ele, falando e fumando compulsivamente e filosofando e desafiando as convenções, alberga já a aura enigmática e misteriosa que o tornou lendário. Nunca sabemos se estamos a ver o verdadeiro Robert Allen Zimmerman ou apenas uma distorção da sua persona. E é desta matéria que as lendas são feitas. Dont Look Back é um dos melhores filmes musicais de sempre, sobre um dos mais icónicos artistas da história. Simplesmente obrigatório.


                             

25 de fevereiro de 2014

Loucura Controlada

Thank God for Mental Illness é o terceiro registo editado pelos Brian Jonestown Massacre no ano de 1996. É igualmente a mais consistente de todas as obras da banda até essa data, aquela em que uma certa errância artística, charmosa mas auto-indulgente, dá lugar a maior enfoque e nervo.
A obsessão pelo som psicadélico dos anos 60 continua a fazer-se sentir, bem como inflexões pronunciadas pelos sons de garagem, mas com eles coexiste uma certa sensibilidade indie rock que aproxima mais a banda da modernidade. Um cocktail forte e colorido, que translada na perfeição o espírito dos sixties para os nineties e sem o polimento excessivo aplicado por uma certa facção da britpop.
Começando pelo fim, Thank God for Mental Illness termina audaciosamente com uma peça que ultrapassa os trinta minutos de duração. Chama-se Sound of Confusion e une cinco temas intercalados por sons urbanos, pregações de rua e outros ruídos voadores não-identificados. É o momento em que a banda de São Francisco soa mais progressista e desafiante, mas sem invenções desnecessárias. Para trás ficou um oceano de vibrações oscilantes e influências irrepreensíveis.
Spanish Bee dá início ao álbum em regime de flamenco lisérgico, temperado a Farfisa ensimesmado e enaltecido por tambores intrusivos; Ballad of Jim Jones emana uma aura dylanesca evidente; It Girl, 13 e Talk - Action = Shit comprovam a influência dos Rolling Stones na música dos californianos. Especialmente os Stones de Aftermath e Between the Buttons, momentos de inspiração maior na sua épica carreira. Country e blues contaminam These Memories e Free and Easy, Take 2. Há ainda espaço para baladas, de despojamento outonal em Stars, de psicadelismo sombreado em Down.
Thank God for Mental Illness é uma obra condenada a ser eternamente excitante e revigorante. Rezam as crónicas que custou menos de 20 dólares a produzir e que foi todo gravado no mesmo dia. Verdade ou não, certo é que discos como este são raridades cada vez maiores na indústria musical que mede tudo a régua e esquadro. Pode tresandar a revivalismo, mas é um manifesto de liberdade com certificado de autenticidade.

20 de fevereiro de 2014

Cisnes Negros


http://2.bp.blogspot.com/-v0Y9ekxc1iY/UdvdTubsBZI/AAAAAAAAIQ8/Ttpm9-nVbRU/s1600/%5BAllCDCovers%5D_swans_children_of_god_1990_retail_cd-front.jpgChildren of God é uma primeira mas ilusória acalmia em relação ao niilismo apocalíptico que os Swans reflectiam nos primórdios. O negrume abrasivo, pesado e denso dos quatro primeiros álbuns da banda nova-iorquina granjeou-lhes um culto underground e tratou de afastar sem contemplações quem não estivesse à altura de saborear sons tão misantropos. Em última instância, esta tetralogia é uma sátira terrorista e extrema, que fustiga o capitalismo, o poder corporativo, a polícia e outros cancros sociais aos olhos dos Swans e, principalmente, do seu líder Michael Gira.
Editado em 1987, Children of God é mais sombrio que agressivo e mais sedutor que repulsivo. A religião (ou a sua dessacralização) é a temática mais visada no álbum e as atmosferas ritualistas e tribais são a única herança das obras passadas. Os Swans expandem-se e suavizam-se sem nunca perderem a intensidade e a capacidade de inquietar e provocar. O trespassante New Mind abre o disco com ritmos marciais e mostra um Michael Gira mais barítono cavernoso que o gritador irado que predominava anteriormente. The sex in your soul will damn you to hell, anuncia ele, e a música que envolve a pregação é a mais expansiva que o seu grupo arquitectou até à data.
A massa industrial que pontuava o som dos Swans dissipa-se em sombras góticas ao longo de Children of God. Como se um filme gore se transformasse em thriller psicológico. Jarboe torna-se peça fulcral no xadrez da banda e divide com Gira as vocalizações. In My Garden merece óbvio destaque, com a voz da cantora a brotar como orvalho de um labirinto de vegetação morta. A mesma voz que surge, trágica e ominosa em Blood and Honey e cristalina como uma mortalha em Blackmail.
Outro interessante e importante passo em frente é a inclusão proeminente de instrumentos acústicos, que vão da guitarra aos sopros, e que projectam os Swans em ritos neofolk muito em voga na Europa via Death in June ou Current 93. As seis cordas arrastadas de Real Love e o oboé taciturno que serve de entrada ao pungente Trust Me são claros exemplos da expansão que o grupo empreende. Graciosamente, mas sem facilitismos. Porque do outro lado do espelho escondem-se atavismos poderosos e corruptores como Blind Love ou Sex, God, Sex.
Children of God pode não ser o melhor trabalho dos Swans, mas é o mais importante. É uma obra que lançou sementes evolutivas e que se assume como eterno azimute para um grupo que vive no presente um constante estado de graça. Um disco com bolinha no canto superior direito para as mentalidades mais sensíveis (tacanhas).

12 de fevereiro de 2014

Antro de Luxo



http://www.tribute.ca/tribute_objects/images/movies/CBGB/CBGB.jpg

CBGB, o filme, conta a história do lendário clube e bar que ajudou a gestar e parir o movimento punk em Nova York. Uma espelunca meio esconsa, no coração da mal-afamada Bowery dos anos 70, e gerida por um idealista chamado Hilly Kristal. A história deste homem, desde sempre ligada directa ou indirectamente à música, é igualmente explorada na película de 2013 realizada por Randall Miller. Um homem que pretendia apenas erguer um espaço que divulgasse a música tradicional americana (Country, Bluegrass e Blues, iniciais do nome da casa) mas que acabou por criar um monstro. O mundo nunca mais seria o mesmo depois do advento de bandas icónicas como Ramones, Talking Heads, Television, Dead Boys ou Blondie. Produtos à margem do mainstream da época e que encontraram no CBGB um veículo de divulgação e um trampolim para o reconhecimento. Melhor ou pior clonadas, todas elas surgem no filme, que vale mais pela banda-sonora e pelo desfile de referências, que pelo impacto interpretativo. Mesmo assim, e à falta de melhor, não deixa de ser um objecto curioso e recomendável para quem não conhece este capítulo importantíssimo da história do rock. Assim como um pedaço de nostalgia para quem o conhece ou viveu in loco. Aos interessados, segue o link para a película completa: CBGB (2013) Full Movie Watch Online.

4 de fevereiro de 2014

Blitzkrieg Punk

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Os três primeiros álbuns dos Ramones são objectos sem falhas e pedras basilares do movimento punk. Devolveram o rock à sua simplicidade básica e à sua energia pura e intensa. Ramones, Leave Home e Rocket to Russia  são bíblias na arte de fazer mexer o corpo e esquecer o que vai na mente. As suas canções entranham-se sem pedir licença e transformam num teenager instantâneo o ouvinte que a elas sucumbe. Air guitar e headbanging tornam-se tão naturais como respirar.
No seu apogeu criativo, o quarteto nova-iorquino editou um dos álbuns ao vivo mais marcantes e excitantes da história do rock. Um disco que comprova a máquina imparável que eram em concerto e o poder galvanizador e revigorante da sua música.
It's Alive foi gravado na última e suada noite de 1977, no londrino Rainbow Theatre, perante uma audiência que não poupou o espaço nem o físico. Os Ramones também não ajudaram, debitando tema atrás de tema a velocidade alucinante. Uma sucessão de clássicos, onde não faltou a imortalidade vigorosa, contagiante e bubblegum de Rockaway Beach, Sheena is a Punk Rocker, Blitzkrieg Bop ou Pinhead.
Os 28 temas que compõem o disco foram reduzidos para metade no filme do concerto. Uma avalanche igualmente deliciosa e plena de desbunda punk que constitui outro documento obrigatório para consumir a combustão de Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy. E agora, sem mais delongas, one two three four...!


          

1 de fevereiro de 2014

Dieta Mediterrânica XI

http://1.bp.blogspot.com/-a3WiVUiKCUs/UTexJ7UGrxI/AAAAAAAAA-w/h4qo9UoCRPA/s1600/Elektriktus%2B-%2BElectronic%2BMind%2BWaves%2B-%2Bfront.jpg
O projecto Elektriktus é uma estrela isolada na constelação de lavores do músico italiano Andrea Centazzo. Mais inspirado por estéticas avant-garde e pelo jazz improvisado, editou em 1976 um disco de nome Electronic Mind Waves que o aproximou perigosamente dos devaneios cósmicos alemães desse período.
Esta obra misteriosa principia com uma descarga de sons cintilantes e agudos, que agulham os ouvidos como se quisessem purgar a mente de qualquer pensamento para a invadir sem resistências. Chama-se Frequencer Departure e dilui-se progressivamente na siamesa Flying At Day-Break até que o ataque se resume a um murmúrio espumoso e flutuante.
First Wave sincroniza os padrões, emitindo ondas sonoras cadentes e repetitivas sobre um ritmo fixo e maquinal. Mais duas ondas se seguirão, a primeira vibrante e fluida, a segunda apaziguadora e suspensa. Pelo meio instalam-se Power Hallucination, devaneio sombrio que pinga gotas electrónicas e sopra ventos cibernéticos, e Implosion, nova espiral que combina melodias circulares a envolvências meditativas, a tendência geral do disco. É igualmente em círculo que Electronic Mind Waves se fecha no final. Primeiro com o balsâmico e planante Flying At Sunset e depois com o cair do pano definitivo de Frequencer Arrival. Volta a acupunctura sonora, mas desta vez em tons graves e crepusculares.
Da aurora ao ocaso, a única obra do percussionista Andrea Centazzo sob a denominação Elektriktus é uma preciosidade a descobrir e valorizar. As influências germânicas são de sobremaneira evidentes (Kraftwerk e Neu! nos temas mais ritmados, Conrad Schnitzler e Cluster nas peças mais atmosféricas), mas a paixão e a frescura que vibram neste disco demonstram mais inventividade que mero decalque. E Electronic Mind Waves pode muito bem ser a melhor referência da Itália como satélite da música cósmica.