26 de dezembro de 2015

Amor à Arte

Andy Warhol faleceu em 1987. Nas suas exéquias fúnebres, Lou Reed e John Cale, amargamente afastados desde o afastamento do último dos Velvet Underground há quase 20 anos, voltaram a comunicar. A inquebrável química artística entre ambos levou a uma imponderável colaboração e ao início do que seria a primeira - e última - reunião da banda que fundaram. As eternas diferenças pessoais entre ambos levaram a que nunca mais trabalhassem em conjunto depois disso.
Andy Warhol foi alcunhado Drella por Ondine, membro do séquito da sua Factory. Tal epíteto, que Warhol sempre desdenhou, era uma fusão entre Drácula e Cinderela. Reed e Cale recuperaram-no para o disco de homenagem Songs for Drella, editado em 1990.
A escolha do título não surpreende. A relação com Warhol sempre oscilou entre a cumplicidade e a acrimónia. Todavia, em última instância, o que emana desta colaboração é um conjunto de canções entre o elegíaco e o afectuoso, em que a distância e a frieza se esbatem na admiração e gratidão ao rei indestronável da pop art.
Todos os temas de  Songs for Drella são executados em dueto. Não existe secção rítmica, apenas a electricidade acutilante da guitarra de Reed, as chispas das cordas de Cale e teclados e vocalizações repartidas por ambos. A toada emotiva é constante, sendo que as letras narram episódios marcantes da vida de Warhol de forma reflexiva e despojada da pirotecnia extravagante que sempre o acompanhou.
Style It Takes, Faces and Names Forever Changed, todas cantadas por Cale, evocam a arte de Warhol e a peculiaridade da sua visão do mundo e das pessoas. Open House, Slip Away (A Warning) e It Wasn't Me, pela voz de Reed, mostram o homem por baixo da camada de superficialidade e artificialidade que tanto lhe associavam, a tentativa de assassinato da qual foi alvo e as mudanças que o tempo acarreta. O tema mais pungente do disco será, certamente, o que o encerra. Hello, It's Me é uma despedida terna, uma catarse refreada nas palavras de Lou Reed e na melodia sombria do violino de John Cale. E Songs for Drella será um disco de homenagem despojado e intimista a um ícone da extravagância e da controvérsia.    
Previamente à edição do álbum, as canções que o compõem foram alvo de gravação ao vivo na Brooklyn Academy of Music. A gravação, registada sem audiência, documenta exemplarmente o entrosamento musical entre dois gigantes tão próximos artisticamente, mas nos antípodas do entendimento pessoal.


                              

Compêndio Krautrock




Future Days, subtitulado Krautrock and the Building of Modern Germany, será, muito provavelmente, a obra mais definitiva lavrada até à data no que toca à revolução rock alemã. Exaustivo, revelador e continuamente interessante, o livro do jornalista britânico David Stubbs constitui um misto de trabalho arqueológico e paixão devota pela arte que narra.
Ao longo de quase 500 páginas, Stubbs dedica-se, sobretudo e sensatamente, aos nomes mais marcantes e seminais da vanguarda musical germânica de finais dos anos 60 e inícios dos anos 70 do século passado. Future Days acaba por ser, assim, uma obra direccionada a neófitos nesta matéria, não obstante conter episódios obscuros e sumarentos que farão as delícias dos maiores aficionados do género e que a tornam uma preciosidade incontornável.
A obra principia com uma epifania: um evento artístico e comunal, em que música, filmes e ativismo colidem e se sobrepõem, e no qual um espírito de renascimento parece brotar de cada gesto e de cada nota. Tal evento decorreu na cidade rural de Unna, oeste da Alemanha, em 1970. Stubbs relata a sua visualização de um documento de 3 horas, de acesso restrito, granjeado pela cadeia televisiva WDR. Nothing better happened in the world that night, escreve o autor, e acreditamos ele. O resto dos comuns mortais, por ora, apenas pode ter ideia do que aconteceu através de pequenos vislumbres como este:

                             

Desta epifania fazem parte os Kraftwerk (aqui na sua fase embrionária e irreconhecível perante a estética futura) e os Can (aos quais Stubbs - pertinentemente - rouba a canção que dá título ao livro). Ambos são devidamente escrutinados e homenageados com lucidez apaixonada. A eles juntam-se exercícios sempre elucidativos e fascinantes, quer do ponto de vista artístico, quer do contexto sócio-cultural de onde surgiram e se implementaram. Neu!, Tangerine Dream, Faust e outros nomes maiores do krautrock (esse epíteto que continua a predominar para revelar a estranheza e a ausência de rotulagem para a música sem convenções) dominam o grosso da obra. Porém, movimentos paralelos como a alucinose espacial dos projectos conjurados pelos Cosmic Couriers, bem como bandas menos divulgadas, como os Embryo ou os Kraan, marcam igualmente presença e reforçam o carácter enciclopédico de Future Days.
A terminar, capítulos dedicados à Neue Deutsche Welle (o equivalente alemão ao pós-punk) e reflexões sobre o presente e o futuro da música, não deixam cair o pano sobre a arte descrita nas páginas precedentes. Assumem a sua herança e a forma como um punhado de grupos alemães - saudavelmente insurrectos contra a herança cultural e os costumes vigentes na sua época - mudou e imprimiu um cunho indelével na criação musical do século XX.
Future Days acaba, igualmente, por ser uma obra que documenta a reinvenção de uma nação. Através de uma geração que renega o passado ao mesmo tempo que deseja manter a sua individualidade. A música acabou por ser apenas uma parte do curso da história. Mas não mudou somente uma nação. Mudou o mundo.

30 de novembro de 2015

Poesia para as Massas



Algures entre Songs From a Room e Songs of Love and Hate, seus segundo e terceiro álbuns, Leonard Cohen passou, de forma algo relutante, pelo festival Isle of Wight de 1970. O que, à primeira vista, poderia parecer um desastre, resultou num concerto-experiência intimista para meio milhão de pessoas. Uma noite, a todos os títulos, mágica e poética, e à qual é possível aceder desde a edição revista e aumentada de Live at the Isle of Wight, editada em 2009.
Os temas que compõem o concerto são, na sua esmagadora maioria, oriundos dos dois primeiros discos do baladeiro canadiano - Songs of Leonard Cohen e o supramencionado Songs From a Room - e incluem clássicos como Suzanne, Bird on a Wire ou Hey, There's no Way to Say Goodbye. Porém, Famous Blue Raincoat e Sing Another Song, Boys, sementes do genial Songs of Love and Hate, são igualmente lançadas sobre a turba silenciosa e atmosfera quase sacra.
Não deixa de ser um artefacto inusitado assistir a um poeta de gabardina enquanto encanta uma multidão de hippies numa noite de Verão com a solenidade hipnótica da sua voz, uma guitarra melancólica e parcos artefactos acessórios. Uma estranha forma de beleza que agora é contada em filme.


                       
leonard cohen isle of wight 1970 full complete concert from sujit phatak on Vimeo.

28 de novembro de 2015

Zénite Lunar

É impossível não chegar ao fim de Moon Blood com uma sensação de esmagamento. Especialmente para quem enceta, pela primeira vez, contacto com os Fraction.
Se existem bandas injustamente condenadas ao esquecimento, estes californianos são membros honorários do clube. Formado por trabalhadores que ensaiavam nas primeiras horas da manhã, e antes dos seus afazeres proletários, a estranheza deste quinteto acentua-se pelo facto de se assumirem como uma banda cristã. Mas que soa como se tivesse o diabo no corpo.
O que torna os Fraction apelativos é a entrega verdadeira que colocam em cada nota tocada e sílaba cantada. Uma urgência ponderada, mas igualmente ritualista. Certos arautos anunciam Moon Blood como o álbum que os Doors nunca fizeram mas que sempre almejaram, e é notória a aproximação - entre o transe e a explosão - do vocalista Jim Beach a Jim Morrison. Todavia, a ausência dos teclados floreados de Ray Manzarek e a preponderância das guitarras, regurgita ecos da escuridão dos Black Sabbath e da intensidade dos Stooges.
É tarefa complicada apontar pontos altos a uma obra tão monolítica e consistente como Moon Blood, o único longa-duração do grupo. O álbum funciona como um turíbulo que asperge incenso heavy psych a cada movimento. O ano do seu lançamento remonta a 1971, mas parece obra padroeira do stoner rock.
Se a produção reflecte os meios state of the art da época, podemos agradecer o facto dos Fraction não terem sofrido uma lapidação artificial. O som é crú e os únicos efeitos que prevalecem e intoxicam são o fuzz das guitarras, filhas pródigas do psicadelismo. Os ritmos são densos e narcóticos, acentuando o inusitado cocktail bíblico-roqueiro que evangeliza o ouvinte pela incineração.
Um enorme disco de uma enorme e perdida banda, Moon Blood ganha, actualmente, contornos de fanatismo no que concerne à sua edição original. Delícia para melómanos obsessivos (e cristãos propensos a romarias ácidas de quando em vez), o encanto hipnótico e denso de Sanc-Divided, Come Out of Her, Eye of the Hurricane, Sons Come to Birth e This Bird (Sky High) urge ser reavivado ad aeternum, pois nunca será ad nauseam. Prisms, Dawning Light e Intercessor's Blues são apêndices que completam a reedição do disco, surgida em 2010, e que não abanam, de forma alguma, os pilares que o sustentam.
Indubitavelmente um dos discos mais intensos, penetrantes e intoxicantes do rock americano pós-Woodstock, Moon Blood retém o espírito da era, mas aventura-se por labirintos sem medo de não encontrar a saída. Se a fé move montanhas, esta obscura e deslumbrante obra-prima comprova-o fervorosamente.

24 de novembro de 2015

Kosmische Kosmetik XLVIII

Jeronimo. Nem o líder do PCP (o que hoje não deixaria de vir a propósito), nem propriamente uma banda do espectro genuíno do krautrock. Talvez o epíteto de banda mais americana do rock alemão seja o que melhor defina este trio, surgido em finais dos anos 60 e criador de três obras a perseguir e capturar.
De todas, a primeira será a mais estranhamente aprazível e deliciosamente acessível. À primeira audição, é quase impossível avançar com a teoria que o rock possante e de laivos psicadélicos que se eleva, fumegante e viscoso, de Cosmic Blues, seja engenho germânico. A voz de Rainer Marz não deixa cair a máscara que revele um sotaque teutónico, assim como a sua guitarra rola e flui com gingares pélvicos. Da mesma forma, o baixo de Gunnar Schäfer e a bateria de Ringo Funk investem em sintonia como dois panzers artilhados de groove. O resultado deste combo bem oleado e atrevido é, assim, um disco de excelente rock musculado e solto, com tanto de orelhudo como de imponente.
Um primeiro vislumbre sobre a capa e os senhores hirsutos que a decoram projecta-nos para um imaginário que cruza os Blue Cheer com os Black Sabbath. Tal não será descabido, pois os Jeronimo apresentam-se com a energia dos primeiros e o peso-pesado dos segundos. Todavia, o seu psicadelismo não chega nunca a ser lisérgico e Belzebu não parece habitar estas paragens. O termo proto-metal assenta-lhes muitíssimo bem, mas as influências são bem mais abrangentes, dos Kinks mais incisivos em News, aos blues pomposos dos Cream em The Key, passando por um Bob Dylan em versão prazenteira em The Light Life Needs.
Os temas cativantes sucedem-se, tornando Cosmic Blues uma obra de coerência e consistência contagiantes. Apesar do rock ser hard, as vibrações são boas e luminosas. A melhor prova encontra-se nos dois singles do álbum, que causaram relativo impacto aquando da sua edição em 1970: Na Na Hey Hey e He Ya, canções celebratórias e convidativas a um discreto mas veemente headbanging.
A partir daqui, é só deixar que estes alemães nos ponham a mexer, com maior ou menor intensidade, através da combustão constante de So Nice To Know, Let The Sunshine In ou Never Goin' Back, temas que parecem colocar a Califórnia na Baviera.
Cosmic Blues, é, acima de tudo, um disco de feel good music. Um álbum de rock despretencioso, mas forte e extremamente lúdico, cujos 40 minutos de duração constituem uma curta mas eficaz panaceia contra dias cinzentos e outros tormentos. A acompanhar com cerveja.

22 de novembro de 2015

Folie Cosmique

A arte sonora do francês Pierre Zalkazanov evidenciou-se, obscura e remotamente, num disco de paisagens electrónicas denominado Green Ray. Tal obra, editada em 1976, permaneceu num recanto poeirento de memórias futuristas, mas merece de sobremaneira o resgate para ouvidos presentes.
O seu charme não reside na novidade ou na audácia - pouco ou nada de novo conseguimos desenterrar do filão electrónico dos idos de 70 -, mas na sedutora envolvência que reveste os três temas que o compõem.
Imagine-se um motor híbrido, criativamente posicionado entre as paisagens infinitamente estelares e estéreis de Klaus Schulze e a sónica torre em mel de Jean-Michel Jarre. Um Volkswagen com as curvas de um Citröen, eis a infraestrutura que alberga Green Ray.
É impossível não olhar esta obra como uma reacção, ou um derivado, da cena electrónica germânica da época. Todavia, ao invés de ser mais um sucedâneo de herméticas ruminações provindas do lado oculto da Lua, o primeiro disco de Zanov apresenta-se como um monolito colorido, um vitral de paisagens gélidas e inóspitas, mas de recortada e tangível beleza.
O tema-título, hipnótico e onírico, resume o condão dos sintetizadores analógicos em criar espirais dançantes de coreografia artificial. Mesmo arcaico, o som é caleidoscópico, servido em camadas que parecem desdobrar-se infinitamente, adornado por tons escuros, mas estranhamente sedutor.
Machine Desperation incorpora um rigor austero e evolui mecanicamente, num pulsar que consome tudo o que encontra na sua roldana. Não existem melodias identificáveis, ou harmonias aconchegantes, mas apenas um convite ao mergulho no vazio, embalado por braços indefinidos.
Green Ray nunca deixa de ser experimental, o que se encontra bem patente na longa e alquímica navegação que o encerra. Running Beyond a Dream revela-se como o astronauta perdido no espaço, estranho a tudo o que o rodeia, mas demasiado fascinado para temer o desconhecido. O tempo parece suspender-se e os sons ecoam como canto de sereias. Ao nível do melhor do supramencionado Schulze ou dos Tangerine Dream, esta peça constitui uma verdadeira delícia para os amantes da música que encerra nos seus domínios o espaço profundo.
Belo na sua essência e recompensador no seu transe atonal mas inebriante, Green Ray é uma estrela distante, mas intensamente brilhante, da era de ouro da música electrónica. Ouvi-lo hoje é, simultaneamente, nostálgico e desafiante. E tão recompensador como sentir saudades de um futuro que poderia ter sido idêntico ao que sonhámos.

31 de dezembro de 2014

2014: A Soundtrack




Em retrospectiva, 2014 foi um ano de revelações e confirmações. Portugal, por exemplo, revelou novos podres e confirmou várias enfermidades. Por entre as farsas e falcatruas que tornam os dias na ocidental praia lusitana mais animados, bendita a música que desceu sobre nós. O ano foi prolífico em qualidade e surpresas boas, o que, em conjunto com cada conquista do Sport Lisboa e Benfica, ajudou este escriba a caminhar diariamente pelo país surreal.
O eleito desta retrospectiva é Adam Granduciel e a sua extensão musical chamada The War on Drugs. Com um disco magistral que combina ritmos motorizados derivados do krautrock, guitarras paisagísticas e atmosferas evocativas da América vasta e das estradas intermináveis, Granduciel desponta como o filho ilegítimo de Dylan e Springsteen. Cria música com o barro do passado para moldar o futuro. E cada disco seu, é, cada vez mais uma viagem que nos tira do presente e nos arrasta para um tempo paralelo.
Destaque óbvio para a afirmação de Annie Clark, vulgo St. Vincent, como um das estetas mais sofisticadas e inovadoras da pop actual. A sua inventividade, sem nunca perder o poder tentador e inebriante das melodias, nunca resvala para o excesso e o bom gosto é uma constante.
Swans e Scott Walker continuam a mostrar sinais de um vigor viçoso e de uma capacidade de reinvenção notável. Richard James/Aphex Twin regressou com um disco que superou as expectativas mais exigentes e D'Angelo ainda chegou a tempo para conquistar um lugar no Top 10. 14 anos depois do seu último registo, Black Messiah prova que a música negra norte-americana se torna mais quente, sedutora e até ritualista nas suas mãos.
No ecletismo das escolhas, de Run The Jewels a Sun Kil Moon, passando por FKA Twigs e Mac DeMarco, importa a qualidade e não o género, a longevidade e não o imediatismo. Foi sempre assim e sempre será. A ordem é necessária, mas todos são tesouros. 2014 está morto! Viva 2014!


1 - The War on Drugs - Lost in the Dream

2 - St. Vincent - St. Vincent

3 - Aphex Twin - Syro

4 - Swans - To Be Kind

5 - Scott Walker & Sunn O))) - Soused

6 - Sun Kil Moon - Benji

7 - D'Angelo and the Vanguard - Black Messiah

8 - FKA Twigs - LP1

9 - Grouper - Ruins

10 - Run The Jewels - Run The Jewels 2

11 - Real Estate - Atlas

12 - Mac DeMarco - Salad Days

13 - Sharon Van Etten - Are We There

14 - Perfume Genius - Too Bright

15 - Caribou - Our Love

16 - Todd Terje - It's Album Time

17 - Earth - Primitive and Deadly

18 - Ty Segall - Manipulator

19 - Richard Dawson - Nothing Important

20 - Actress - Ghettoville

21 - Dean Blunt - Black Metal

22 - Beck - Morning Phase

23 - Ariel Pink - Pom Pom

24 - Arca - Xen

25 - East India Youth - Total Strife Forever

26 - Future Islands - Singles

27 - Shabazz Palaces - Lese Majesty

28 - Warpaint - Warpaint

29 - The Antlers - Familiars

30 - Spoon - They Want My Soul

31 - Lana Del Rey - Ultraviolence

32 - Sleaford Mods - Divide and Exit

33 - Andy Stott - Faith in Strangers

34 - Jack White - Lazaretto

35 - Angel Olsen - Burn Your Fire For No Witness

36 - Damon Albarn - Everyday Robots

37 - Leonard Cohen - Popular Problems

38 - The Bug - Angels & Devils

39 - Steve Gunn - Way Out Weather

40 - Robert Plant - Lullaby and... The Ceaseless Roar

41 - Flying Lotus - You're Dead!

42 - Owen Pallett - In Conflict

43 - Fennesz - Bécs

44 - Ex Hex - Rips

45 - Ben Frost - Aurora

46 - The Black Keys - Turn Blue

47 - Manic Street Preachers - Futurology

48 - Timber Timbre - Hot Dreams

49 - Wild Beasts - Present Tense

50 - Gazelle Twin - Unflesh

Film Noir



De todos os nomes surgidos do movimento rock gótico, os Sisters of Mercy foram sempre os mais sólidos e credíveis. Por não se limitar a ficar pendurado na sua caverna de pernas para o ar, o grupo britânico imiscuiu-se no romantismo, no existencialismo e até na geopolítica, conseguindo deixar transparecer uma saudável dose de humor negro, pouco perceptível através da austeridade estética, mas real.
Wake - In Concert at the Royal Albert Hall retrata a banda ao vivo nos seus quase primórdios e na ressaca da edição de First and Last and Always, o primeiro álbum. Estávamos em 1985 e o sucesso e a improvável visibilidade surgidos posteriormente pareciam longínquos e até imponderáveis.
O concerto documenta os Sisters of Mercy na posse das suas plenas faculdades e estranhos poderes. Muito fumo e pouca luz não significam muita parra e pouca uva e o rigor denso e formal que o colectivo sempre prezou nas suas actuações ao vivo surge aqui em todo o seu nebuloso e hipnótico esplendor. O palco como local de comunhão onde nos podemos perder mas também encontrar.
O rock dançável, escuro e narcótico dos Sisters of Mercy atingia aqui o seu grau máximo de pureza. Do barítono angustiado de Andrew Eldritch ao baterista imaginário chamado Doktor Avalanche - na realidade uma caixa de ritmos programada -, o culto underground arreganha feliz os seus dentes vampirescos. De confortos instalados do negrume como Marian ou Walk Away a temas menos imediatos como Body and Soul ou o tremendo Emma, este concerto é uma agradável descida às sombras. De um tempo musical tão estranho e soturno que, por vezes, duvidamos se terá mesmo existido.


             

28 de dezembro de 2014

Big Ben


O colectivo Ben foi mais uma das curiosidades jazz rock inglesas a despontar no início dos anos 70. Nitidamente influenciado pelos nomes de topo da época neste género, nomeadamente os Soft Machine e os Nucleus, o quinteto liderado pelo mestre dos sopros Peter Davey acaba por vincar a sua personalidade graças a uma abordagem mais solta, quente e, em última instância, americana que a chama controlada e fleumática característica dos seus pares.
Ben, o único registo conhecido da banda, data de 1971. Ainda hoje sabe a raridade. É um disco algo directo e pouco maquinal, tendo em conta as ambições por vezes hiperbólicas da música da época. Pelas rachas das suas paredes parece entrar a luz dos Return to Forever ou do Miles Davis em plena fase de promiscuidade com a electricidade.
A temática central das quatro peças que compõem o álbum remete-nos para o crescimento espiritual, da infância até à morte. Matéria mística, à qual os Ben dão um tratamento terreno logo a partir do primeiro tema, The Influence. Dividido em sete partes, dá saltos e piruetas, engalfinha flauta com piano eléctrico e desbobina saxofone enérgico, sem perder o fio à meada. Segue-se Gibbon, sem dúvida o ponto alto do disco. Sobre cama de valsa são servidas doses generosas de piano eléctrico entremeado com saxofone fumegante, sendo o ritmo entrecortado por cascatas quebradiças de energia.
Christmas Execution é uma peça de rico rigor formal, tão fora de tudo como tudo o que está dentro deste disco. Valha-nos sempre a execução irrepreensível, mesmo não sabendo para onde ela vai. Gismo prossegue a senda errática e encerra o registo por entre as abstracções vocais derivadas de Robert Wyatt nos Soft Machine e os devaneios desagregados dos solistas em acção.
Em última instância, a única obra dos Ben é um objecto inacabado, impulsivo. Não obstante, acaba por ser incomparável, dado o estatuto de filho único. À falta de herdeiros, celebremo-lo como pequena bizarria, esquiva mas sedutora.

Orquestra do Caos e da Beleza

Tudo aconteceu em 1971. A estranha orquestra que ficou imortalizada como Centipede foi idealizada por Keith Tippett, pianista e uma das figuras de proa do novo jazz britânico. Para a criação e execução do irrepetível épico Septober Energy, Tippett agregou à sua volta 54 músicos, a crème de la crème da cena jazz e do rock progressivo de terras de Sua Majestade.
O propósito do projecto é insondável, mas tudo leva a crer que o seu móbil envolvia a liberdade artística total. Septober Energy é uma obra que desafia interpretações. Parece cozinhado ao momento, mas revela camadas de complexa inspiração. Soa esquelético umas vezes, bombástico outras, mas nunca menos que ambicioso.
O improviso é déspota ao longo das quatro partes (movimentos) de Septober Energy, sendo maioritariamente no jazz que se encontra ancorado. Nomes máximos da vanguarda inglesa do género, como Robert Wyatt e Elton Dean (dos Soft Machine), ou Ian Carr e Karl Jenkins (dos Nucleus), congregam-se aqui, regurgitando as suas pulsões mais criativas e informais. As vozes que pontualmente se ouvem, em vagos devaneios, são regidas pela esposa de Keith Tippeth, Julie. A sua lógica é igualmente críptica. Os restantes instrumentistas presentes foram recrutados entre alunos da London School of Music. Elementos primordiais do experimentalismo fundem-se à lava abrasiva dos sopros e ritmos do jazz mais livre e incandescente, criando uma permanente montanha-russa sonora, entre devaneios disformes e vagas esmagadoras, cuja audácia e excesso não seriam certamente possíveis actualmente.
Contudo, em 1971, a materialização de música assente na liberdade extrema estava na ordem do dia e, com o genial guitarrista dos King Crimson - Robert Fripp - sentado na mesa de produção, este delírio colectivo pôde expandir asas e voar sem destino. Consta que, ao vivo, os Centipede chegaram a albergar cem músicos no mesmo palco, gerando um autêntico tsunami sónico. Nunca os poderemos ver. Mas, como nas melhores obras de arte, ouvindo podemos sonhar com as ondas gigantes geradas por esta orquestra da beleza e do caos.

Massa Cinzenta

Pouco se sabe acerca de Valerian Stöecklein. Antes da edição do seu primeiro - e único - álbum a solo, Grey Life, foi o vocalista de uma banda de folk rock que causou algum furor no advento da era psicadélica: os Blue Things. A banda terá prosseguido sem ele, desaparecendo progressivamente para se tornar objecto de culto.
Menor culto não deve ser votado a Grey Life. O único legado gravado de Val Stöecklein data de 1968 e merece entrada imediata para o panteão dos clássicos obscuros.
Se existem discos que dizem quase tudo na capa que ostentam, Grey Life é um deles. Apesar da profusão de orquestrações e do teor açucarado de algumas, os esqueletos das canções da obra são feitos de ossos partidos e estilhaços de desencanto.
Val Stöecklein combateu problemas mentais até à sua morte em 1993, alegadamente por suicídio. Não é de estranhar que a bipolaridade da qual padecia tenha transparecido na sua música. O que não a torna deprimente e impenetrável, mas apenas triste. Por vezes aproxima-se de um Gene Clark mais urbano; outras vezes de um Tim Buckley mais directo e menos onírico.
A melancolia transversal mas nunca monolítica inicia-se com o excelente Say It's Not Over, canção que merecia um papel bem mais destacado que apenas o de balada poeirenta. Tal como a delicadeza intrincada da belíssima French Girl Affair. Temas carpidores não faltam em Grey Life, do grito desesperado de I Can't Have Yesterday à saudade de Sounds of Yesterday, passando pelo vazio de I Wonder Who I'll Be Tomorrow.
Das parcas vezes que a luz penetra, é ténue e fria, como em Morning Child ou Now's the Time. Canções que procuram a esperança, mas parecem ao mesmo tempo temê-la. As orquestrações envernizam-nas mas nunca lhes tiram a subterrânea emotividade nem a solidão do quarto escuro. Segundo rezam as crónicas, Val Stöecklein não gostou do resultado final do álbum e da orientação, a seu ver, demasiado comercial da produção. Em consequência, ter-se-à retirado em definitivo da música, não voltando a gravar. Não sabemos se existem mais composições suas, perdidas algures ou relegadas para os confins de qualquer estúdio. Pouco ficámos a saber também de Valerian Stöecklein, mas este disco não permitirá nunca a morte do artista.

24 de dezembro de 2014

A Dama das Galáxias

Laurence Vanay é um nome desenhado. Um pseudónimo, criado por Jacqueline Thibault, para definir-se como artista a solo após uma fugaz passagem pelo obscuro grupo Vogue. Este nome artístico não escapa à influência do seu esposo, Laurent Thibault, uma das figuras de proa dos Magma - o visionário colectivo francês que criou uma linguagem própria e embebida em jazz, space rock e apocalipse. 
Nos antípodas do negrume magmático, o primeiro trabalho a solo de Laurence Vanay é uma jóia de rara beleza e expressividade. Intitula-se Galaxies, data de 1974 e roça o génio com a ponta dos dedos.
Disco irrotulável, espraia-se por vários estilos sem nunca amigar-se com nenhum. Apesar de hospitaleiro e das ondulantes melodias que o envolvem, revela-se desafiante e impregnado de improvisos calorosos, onde razão e emoção ecoam em uníssono. Os temas são curtos mas nunca vagos, apenas soam a sonhos diurnos ou meditações fugazes cortadas pela realidade.
Irrompe suavemente a chanson française decorada com motivos hippie de Demain, Deux PharesLa Grand Voile. Escorrem belíssimos devaneios instrumentais, como o bucolismo de Le Loup Qui Pleure e a melancolia cadente e flutuante de Le Bateau. Encanta e envolve a doce solenidade cósmica do tema-titulo.
Somente em Le Soleil Rouge e no efervescente Catalepsie se nota uma ténue sombra da intensidade escura dos Magma, mas em que Laurence Vanay surge como o gineceu musical dessas sombras sisudas. 
Obra vincadamente feminina e independente numa época em que as mulheres pouco ou nada vingavam em termos composicionais, Galaxies tem vindo a ser redescoberto com a atenção que merece. Foi alvo de reedição no ano transacto com inéditos apetecíveis e o seu discreto charme e simplicidade enganadora continuam a conquistar mentes abertas a emoções inteligentes.