19 de fevereiro de 2017
Em Branco na Selva
No final da década de 1970, Nova York era um local bem diferente de hoje em dia. Uma cidade falida e entregue à sua sorte, um leviatã perigoso e imerso no caos. Porém, estes tempos de profunda crise e incerteza acabaram por produzir alguma da arte mais fascinante, revolucionária e disruptiva do século passado.
Manhattan, em particular, era um local onde florescia a deliquência e a marginalidade. Existências mergulhadas na pobreza e na ausência de perspectivas para o futuro acabaram por reunir os cacos e ruínas disponíveis, delas fazendo emergir um manifesto de intenção tão chocante como libertador.
Um estilo artístico, niilista e ousado, surgiu das ruas escuras, dos prédios abandonados e dos bares infectos. O seu nome seria, apropriadamente, No Wave, e as suas ramificações estenderam-se da música à pintura, passando pelo cinema.
Esta interdisciplinariedade fez com que músicos fossem actores, actores fossem pintores, realizadores fossem produtores. O mote do it yourself estava na ordem do dia. Músicos que nunca tinham pegado num instrumento davam concertos e gravavam discos. Realizadores que nunca tinham pegado numa câmara faziam filmes com os mais básicos dos meios. Era a Blank Generation em todo o seu anárquico esplendor. A geração em branco, sem rumo definido senão utilizar a angústia, a penúria e a raiva com fins criativos e para fugir à crua realidade.
Ao mesmo tempo que se cimentavam nomes para sempre associados ao movimento punk nova-iorquino, como Ramones, Blondie ou Television, projectos mais limítrofes e experimentais alimentavam o negrume latente na Big Apple. Mars, D.N.A., James Chance ou Lydia Lunch fascinavam e estarreciam com a música que produziam. O cinema acompanhou a tendência e envederou igualmente pela transgressão.
Podemos dizer que Blank City - documentário de 2010 realizado por Celine Dahnier - é o retrato definitivo desta época, no que ao cinema diz respeito. Descrição oral, mas acompanhada por uma suculenta dose de imagens de arquivo, Blank City dá voz aos protagonistas que conceberam esta página singular da história da sétima arte.
Realizadores como John Waters, Jim Jarmusch ou Amos Poe juntam-se a Deborah Harry ou John Lurie para relatar as suas influências, memórias, métodos, motivações. O que fica é um extraordinário documento, a narrativa de um tempo em que as artes se imiscuiam sem preconceitos numa cidade mais parecida com uma selva.
14 de fevereiro de 2017
Ópio do Povo
A genialidade dos Galaxie 500 (que, por tal sinal, é igualmente um clássico modelo da Ford) parece aumentar à medida que os anos se desenrolam. Sábio nas influências, mas quase inocente na pura expressividade da sua música, o trio de Cambridge, Massachussets levou o rock para territórios de sonho e elevou a melancolia esquizóide das suas canções a territórios onde os sonhos acontecem em vigília.A banda editou somente três álbuns de originais durante o seu curto período de duração - entre 1988 e 1991. Discos feitos de canções narcóticas, quase opiáceas, em que as guitarras oscilam entre o sujo e o cintilante e o ritmo embala o corpo num abraço solitário. Descendentes em linha directa da veia mais intimista e cinzenta dos Velvet Underground e do romantismo enérgico e naïve dos Modern Lovers, as obras dos Galaxie 500 constituem-se como alguns dos mais importantes pilares fundadores de géneros como o shoegaze, o dream pop ou o slowcore. Da trilogia que compõe o seu indelével legado, acaba por merecer maior destaque o álbum primogénito, Today, editado em 1988.
I Can Never Calm You Down, as primeiras palavras cantadas por Dean Wareham após o suave crescendo que inicia o superlativo Flowers, dão o mote para a toada geral do disco. Música que flui em quieta inquietação, desespero contido, angústia latente. Flowers é um épico claustrofóbico, um desejo impossível, e fustiga-nos com a beleza dorida e distorcida da sua guitarra. Pictures segue o mesmo trilho, numa espiral para dentro, uma bateria sem pratos, uma melodia repetitiva. E nada mais é preciso para assegurar o efeito anestésico pretetendido.
Se a dor é latente em Today, um exemplo flagrante é Temperature's Rising. Abordando a letra um episódio de vício, a melodia será, certamente, a mais viciosa do disco. Entre o desejo e o arrependimento, a tentação e o suplício, é uma canção assumidamente drogada, na qual a descoberta deu lugar ao êxtase do risco. Parking Lot e Oblivious são os temas mais solarengos do álbum, mas atravessados por uma penumbra agridoce que nunca deixa a luz revelar-se em pleno. Lembram, em certa medida, a frustração sublimada em poesia e substâncias, tão querida dos Smiths. Tal como o prosaicamente intitulado Instrumental, que soa a um encontro nocturno entre Jonathan Richman e Johnny Marr.
Richman acaba por ser, aliás, alvo de homenagem através de uma versão absolutamente electrizante e devastadora de Don't Let Our Youth Go To Waste. Às descargas de feedback da guitarra, o baixo minimal repetitivo de Naomi Yang e o ritmo marcial de Damon Krukowski adicionam uma carga pesada e narcótica que soa a um filho prematuro dos Velvet Underground e Spacemen 3.
Mas a atmosfera outonal de Today acaba por definir-se nos temas mais dolentes e sombrios. It's Getting Late e King of Spain levar-nos-ão sempre ao quarto escuro da adolescência, aquele onde nos reconciliávamos com a perfeição que no mundo exterior nos roubava a beleza, um beijo, um amor. O que nos leva a Tugboat, tema que rivaliza com Flowers como corolário deste magnífico disco. A canção do amor idealizado, da fuga ao real, da simplicidade como triunfo do que importa guardar. E a guitarra, sempre a dedilhar o coração. E a voz, sempre imperfeita de finitude. Em suma, uma catarse musical sublime na sua fragilidade exposta sem artifícios.
7 de fevereiro de 2017
Tempestades Solares
O elemento mais chamativo dos Quiet Sun assenta no facto de serem o primeiro colectivo musical formado por Phil Manzanera, guitarrista que derramou arrojo, audácia e magia nos seminais Roxy Music. Formados originalmente na Faculdade de Dulwich em 1970, os Quiet Sun alinhavam nas suas fileiras - para além de Manzanera - Bill MacCormick no baixo, Dave Jarrett nas teclas e Charles Hayward na bateria. Apesar de se constituir como um núcleo coeso e de acumular um pequeno culto em seu redor, o quarteto original não editou nenhuma obra digna de registo nos primórdios da sua existência. O fim desta primeira encarnação do grupo surgiria, assim, em 1972, com a disseminação dos seus membros por vários projectos. Manzanera integraria os Roxy Music, como é sabido, MacCormick ingressaria nos Matching Mole e Hayward trataria dos ritmos dos Gong, fundando, anos mais tarde, os assombrosos This Heat. Jarrett foi o único a abdicar da música, tornando-se professor.Todavia, ditou o destino que os Quiet Sun teriam direito a uma segunda vida, evitando que se tornassem uma eterna e obscura nota de rodapé do rock britãnico dos anos 70. Em 1975, aproveitando um hiato na carreira dos Roxy Music, Phil Manzanera lançou-se na edição do seu primeiro álbum em nome próprio - Diamond Head - e, pelo meio, congregou os seus velhos companheiros universitários para um ritual de ressurreição enérgico e fortemente improvisado intitulado Mainstream. Os quatro acabaram por expandir-se, incluindo Ian MacCormick em erráticas vocalizações e assegurando o vanguardista de todas as épocas Brian Eno no refinamento das atmosferas e na aplicação das suas estratégias oblíquas. A gravação final assemelha-se vagamente a um cruzamento entre os Soft Machine mais espaciais e os Velvet Underground mais experimentais.
É, não obstante, notório que a sonoridade base dos Quiet Sun bebe maioritariamente do rock progressivo do seu tempo, embora com laivos de inspiração jazzística e exalando o complexo perfume da cena de Canterbury. O elemento mais fresco e irreverente é, indubitavelmente, a guitarra de Phil Manzanera. A mesma serpenteia, rasga e fustiga ao longo de Mainstream. Apesar de mais prosaica, a secção rítmica fornece a base de sustentação para as intrincadas tapeçarias sonoras de Manzanera e os teclados pingam gotas etéreas ao longo da obra. Tome-se como exemplo Sol Caliente, o tema que abre o disco. Ofuscante, vibrante e abrasado pela fuzz guitar, move-se em espirais elípticas no sistema nervoso do ouvinte, libertando estranhas ondas rítmicas que não motivam a dança mas acordam o corpo. O clímax da peça acaba por fundir-se com a seguinte, Trumpets With Motherhood, que mais não é que o seu lento esfumaçar.
Igualmente físico e alucinante é Mummy Was an Asteroid, Daddy Was a Small Non-Stick Kitchen Utensil. O surrealismo do nome não é defraudado pela música, caleidoscópica travessia, feita de curvas e contracurvas, que se afasta progressivamente da terra firme até desaparecer no vácuo. O contraponto entre a guitarra e as teclas é deveras sublime e o tema arrasta-nos para a sua vertigem cósmica, sem hipóteses de libertação.
Trot mantém-nos em suspensão, com um piano em regime de sonata sonâmbula, uma guitarra incandescente e a complexidade rítmica típica da escola de Canterbury. O final chega com Rongwrong. Para manter a toada levemente inusitada que percorre o disco, este é o único tema vocalizado e a voz pertence ao baterista. Composição menos feérica que as anteriores, engloba uma série de fantasias instrumentais e devaneia ao longo de 10 minutos em regime stream of consciousness. Pelo meio ficaram Bargain Classics - momento de pujante e virtuosa intensidade, em que a guitarra e a bateria se degladiam com galhardia pela vitória - e R.F.D., peça flutuante e sombria, dominada pelas teclas e onde a presença de Brian Eno é mais notória.
Mainstream foi reeditado em 2011, contendo quatro extras - essencialmente sobras das sessões de gravação - e uma entrevista com a banda. A sonoridade desta revisitação da obra é de sobremaneira aconselhável e vinca exemplarmente a qualidade e intuição interpretativas dos músicos executantes. Não deixa de ser notável constatar que Mainstream foi gravado em poucos dias, sendo que a maioria dos temas resulta de captações logo ao primeiro take. Em tal estado de graça e inspiração, os Quiet Sun conseguiram o que muitos outros demoram anos - ou obras - a alcançar.
25 de janeiro de 2017
Carne Crua
É bom saber que Nick Cave voltará em breve aos concertos. É no palco que o músico australiano se transcende e mais nos arrebata. Numa vida tão atribulada e cheia de percalços, a dor da perda de um filho levou à composição de um dos seus discos mais belos, tocantes e sombrios, Skeleton Tree. O que está para vir não trará, decerto, interpretações tão sanguíneas e viscerais como antigamente. Passaram-se 25 anos desde Live at the Paradiso, gravação de um concerto ao vivo no mítico clube de Amesterdão. Os tempos eram diferentes, a idade mais propícia a pirotecnias e o disco do momento chamava-se Henry's Dream. Todos sabemos que Nick Cave (com ou sem os seus Bad Seeds) envelheceu com graça, classe e sabedoria. O poético agitador de outrora deu lugar a um dos mais consagrados escritores de canções da actualidade. É bom saber que Nick Cave ainda nos mostra os caminhos tortuosos da sua alma. Tal como é reconfortante saber que a intensidade vibrante e excessiva do passado continua preservada para colmatar as saudades.
24 de janeiro de 2017
Admirável Mundo Falso
HyperNormalisation é um documentário editado pela BBC nos finais de 2016, cuja premissa assenta em demonstrar que o mundo real em que vivemos foi substituído por um mundo falso e sustentado por forças empresariais e políticas. Ao longo de quase três horas, o realizador, Adam Curtis, parte de uma cadeia de eventos iniciada há 40 anos para mostrar que as complexidades do planeta foram sendo gradualmente escotomizadas para dar lugar a uma visão simplista e insciente da história actual.
No entender de Curtis, acontecimentos recentes como a guerra na Síria, o Brexit ou a eleição de Donald Trump, são fruto da passividade latente de quem se encontra no poder, e cuja falta de entendimento e controle da realidade levam à criação e manutenção de uma normalidade ilusória.
Apesar dos teóricos da conspiração esfregarem as mãos de contentes sempre que surge um documento deste género, HyperNormalisation é uma produção fundamentada e credível, plena de referências provenientes dos arquivos da BBC e de visão obrigatória. Numa era de confusão e incerteza, são obras como esta que alertam, agitam e motivam para uma mudança de paradigma consciente e universal que urge iniciar.
Vampirismos
Shadow of Light é um documento visual de 1984 que guarda os nove filmes promocionais editados pelos Bauhaus. Lançado um ano após o canto do cisne dos fundadores do movimento gótico, continua a ser o retrato que melhor vislumbre transmite acerca de uma banda tão adorada como odiada e, não raras vezes, incompreendida.
Cinco das interpretações são videoclips filmados em estúdio e onde as tendências teatrais e arty do colectivo transparecem de sobremaneira. Realce obrigatório para a atmosfera film noir de She's In Parties e para o lúgubre e tétrico Mask.
As restantes interpretações foram captadas ao vivo, sendo neste contexto que o quarteto britânico debita todo o seu carisma e intensidade. Da guitarra reptiliana e dissonante de Daniel Ash, aos frémitos enérgicos e aracnídeos de Peter Murphy (o tal que alguém apelidou de filho impossível de David Bowie e Iggy Pop), passando pela presença mais sóbria - mas sempre sólida - da secção rítmica composta pelos irmãos Haskins (Kevin e David J), o palco é o principal elemento de cristalização.
O propulsivo e vertiginoso In The Flat Field e a soturnidade fantasmagórica de Hollow Hills mostram bem as duas faces distintas da banda, algures entre o punk mais visceral e a austeridade sombria. O destaque óbvio vai para o imortal Bela Lugosi's Dead, hoje e sempre capaz de arrancar calafrios por entre o dub moribundo, o ritmo esquelético e a voz espectral.
Shadow of Light foi reeditado em DVD em 2005, em conjunto com a filmagem integral de um concerto ao vivo denominado Archive. Sem dúvida, um excelente complemento, embora a edição original continue a ser a referência ideal para quem procure conhecer visualmente a curta, mas marcante, história dos Bauhaus.
23 de janeiro de 2017
Flyer's Not Dead
O Tumblr continua a ser um relicário fértil em surpresas. Desta feita, a sugestão recai sobre uma página exclusivamente dedicada a velhos flyers de concertos punk. Um autêntico mar de delícias para apreciadores do género em todas as suas facetas e ramificações, Old Punk Flyers reúne centenas de peças que evocam o melhor do espírito do it yourself dos primórdios do movimento. Não deixa, certamente, de ser arte. Não deixamos, igualmente, de nos sentir violentamente nostálgicos a apreciá-la.
2 Minutos de Jaki
Pausa para lembrar Jaki Liebezeit, figura tantas vezes presente e influente neste blog. Um homem simpático, humilde e despretencioso, que juntava a estas qualidades o facto de ser o melhor baterista da sua geração. Tive o imenso prazer de ver o Homem Máquina tocar diversas vezes, bem como a honra de trocar algumas palavras com ele. A última vez foi no Out.Fest de 2016, onde, mais uma vez, deslumbrou com o magnetismo hipnótico do seu estilo único. Nunca pensei que a foto que tirei acima seria a derradeira... Ruhe in Frieden, Jaki.
22 de janeiro de 2017
Rumo ao Cume
Mas voltemos a 1973 e à ressaca do sucesso da primeira experiência a solo de Mike Oldfield. Até esse momento, o músico tinha somente editado um álbum - em 1969 -, pacata aventura pelos meandros da folk, em parceria com a sua irmã Sally Oldfield e intitulado Children of the Sun. O duo adoptou o nome The Sallyangie e esfumou-se tão depressa como surgiu. Oldfield rumou ao rock e acabou por engrossar as fileiras dos Whole World, banda de suporte a Kevin Ayers, em 1970. Contudo, os dotes e prestações do jovem guitarrista, acentuaram-se progressivamente, até se revelarem grandes demais para os limites de um grupo.
Na ressaca de Tubular Bells, o relativamente discreto Oldfield encontrava-se cansado da constante atenção do público e dos media, pelo que enveredou por um período de recolhimento. Nestes casos, é sobejamente conhecido o poder terapêutico da ruralidade. Em frente à casa que o músico encontrou para se refugiar e encontrar, algures na fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales, erguia-se um monte denominado Hergest Ridge. E foi nesta paisagem campestre, remota e ancestral que uma nova obra-prima foi desenhada. Mais contida e introspectiva, é certo, mas dotada de uma elevação estética incomparável no legado artístico do seu compositor.
Na parafernália constante do rock progressivo da época, Oldfield deu primazia a instrumentos tradicionais como o tin whistle e o bandolim, assim como a uma sóbria mas pungente secção de sopros. A guitarra, essa, seria sempre a rainha, quer em formato acústico ou distorcida pela electricidade.
Editado em 1974, Hergest Ridge divide-se em duas extensas peças, carregadas de atmosferas ancestrais, pastorais e bucólicas. Em última instância, acaba por ser um disco de pendor ambiental, mas cuja beleza ofuscante nos chama constantemente a atenção para a paisagem sonora que nos envolve. Como se o ouvinte fosse convocado para imiscuir-se nela e não apenas para contemplá-la à distância.
A primeira parte do disco ouve-se como se de uma caminhada se tratasse, uma travessia lenta, acidentada e plena de contrastes, rumo ao cume. Soa a música saída da terra, inspirada no verde intocado e na pureza inebriante do ar. A descrição natural high assenta-lhe que nem uma luva.
A segunda parte evoca a chegada ao cume e a contemplação. A melodia que brota nos primeiros minutos será, decerto, a mais bela que Oldfield alguma vez conjurou. Um misto de emocionalidade e retraimento, deslumbramento e introspecção. Impera uma guitarra acústica, à qual se juntam vozes luminosas, como uma solarenga manhã de Inverno. A música é fria, mas reconfortante. Entretanto, o bucolismo cede lugar à feérica intensidade eléctrica e o sol fixa-se no zénite para depois deixar a sua luz esmorecer gradualmente e ceder às texturas serenas e melancólicas que nunca abandonam verdadeiramente a música.
Hergest Ridge é, em suma, um disco de fuga. Um regresso ao conforto do imutável, ao labirinto onde gostamos de entrar e deambular, mas cuja saída conhecemos. Mike Oldfield regressaria ao mundo real e a novas consagrações e Hergest Ridge seria alvo de luxuosa recauchutagem em 2010. Porém, as duas composições do ponto de paragem original e a beleza do seu imaginário continuam a bastar como local ideal para nos refugiarmos e encontrarmos.
17 de janeiro de 2017
Private Neil
When I was young, I never dreamed of this. I dreamed of colours and falling, among other things. Assim arranca o prefácio de Waging Heavy Peace, a primeira - e única, até à data - autobiografia de Neil Young, editada em 2012. Na senda destas palavras e com o subtítulo A Hippie Dream, o livro empreende uma reflexão pungente dos aspectos mais recatados da vida do músico canadiano. A sua família, hobbies, obsessões e meditações desfilam em ruminações algures entre o improviso e o imprevisto. O estilo narrativo é não-linear, não obedece a regras temporais e saltita evocativamente entre memórias.
A carreira musical de Young raramente aparece em primeiro plano ou envolta em ostentação. Estão presentes, contudo, relatos estilhaçados e breves como polaroids dos seus primórdios artísticos nos seminais Buffalo Springfield, da ascenção à fama em conjunto com Crosby, Stills & Nash e da sua consolidação a solo.
Na sua essência, Waging Heavy Peace não é um livro para neófitos. Dirige-se, sobretudo, a admiradores de longo curso em busca de saber do homem que vive para além da arte. Ao longo desta obra absorvente, a pena de Neil Young desvela amores e fraquezas, medos e paixões, por vezes surpreendentes, por vezes hilariantes, mas sempre com honestidade. Outra coisa não seria de esperar de alguém que afirma ter decidido escrever o livro após partir um dedo do pé à beira da piscina...
15 de janeiro de 2017
Kosmische Kosmetik XLIX
Die Grüne Reise ou The Green Journey foi o primeiro álbum produzido pelo guitarrista Achim Reichel após o abandono dos popularíssimos (pelo menos na República Federal Alemã) The Rattles. Esta banda chegou a ganhar o epíteto de Beatles germânicos devido às similaridades como os Fab Four de Liverpool, mas sempre mais no estilo que na substância. O agrupamento que Reichel reuniu para iniciar a sua nova trajectória musical não reteve, certamente, tais paralelismos, a não ser, talvez, uma saudável obsessão por Tomorrow Never Knows ou Revolution nº 9. Denominados A.R. & Machines, constituem um dos colectivos mais originais, inovadores e interessantes das franjas do rock teutónico mais arrojado.Die Grüne Reise foi primariamente idealizado como uma banda-sonora para um filme imaginário e parece ter o poder de penetrar em todos os neurónios do ouvinte em simultâneo. Ataca em todas as frentes como onda que desfaz castelos de areia, não deixando destroços à sua passagem, mas sim novas geometrias mentais. Flui em registo contínuo, sem pausas, num caudal sonoro que aumenta e diminui de intensidade, sem nunca perder a sua essência pulsante e encantatória.
A sonoridade de Die Grüne Reise assenta num cocktail de rock enraizado nos blues e uma carga psicadélica capaz de implodir qualquer cérebro mais incauto. É, em suma, um disco sensitivo e policromático, que nos envolve mental e fisicamente. A abertura com Globus (Globe) dá-se num crescendo rítmico repetitivo e guitarras espiraladas que culminam em espasmos psicadélicos, tudo no espaço de três minutos, e que desembocam no hard rock insinuante e alucinogéneo de In the Same Boat (Im Selben Boot). Schones Babylon (Beautiful Babylon) é o ponto de convergência entre ambas e, por esta altura, a contaminação sonora já se consumou.
I'll Be Your Singer - You'll Be My Song (Ich Bein Dein Sänger, Du Bist Mein Lied) envereda por guitarras acústicas e percussão orgânica e aproxima-se dos territórios trilhados pelos Can. Body e A Book's Blues são dois intróitos que acrescentam bizarria à já hiperactiva toada do álbum, sendo a primeira uma colagem de guitarra, percussão e voz e a segunda um exercício de blues estranhamente convencional.
Als Hätt Ich das Älles Schon Mal Gehesen (As If I Had Seen This All Before) retoma o curso sonâmbulo da viagem (trip?) verde, enaltecendo a paisagem sónica com electrónicas transcendentes. Cosmic Vibration não se afasta do rumo e as guitarras envolvem-nos em ecos vertiginosos, por entre o ritmo e a electrónica fustigantes. Come on People arrasta consigo ecos do rock da West Coast americana, calorosos e vibrantes e a jornada chega ao fim em Wahrheit und Wahrscheinlichkeit (Truth and Probability). Aqui perdem-se quaisquer elos de ligação com a realidade e o tema move-se fora da gravidade, entre vozes fantasmagóricas e absurdas - que poderiam ter sido conjuradas por Ligeti - e electricidade em ebulição. Alucinante, distorcida e desafiante, a peça parece ser um negativo da restante toada do álbum, voltando-nos para uma surreal introspecção.
Die Grüne Reise é, em suma, um dos grandes clássicos da primeira fase do krautrock. Uma obra inovadora, que ainda hoje soa muito à frente do ano em que foi editada (1971) e cuja influência não pode ser desdenhada. Consta, inclusive, que Brian Eno se inspirou nela para a sua própria obra-prima Another Green World, pelo que não faltam razões para dar a Die Grüne Reise o realce merecido.
De salientar igualmente que a produção aqui abordada diz respeito à reedição do disco levada a cabo em 2007. O alinhamento é ligeiramente diferente da primeira edição em vinil, considerando-se, contudo, definitivo. Esta versão remasterizada do álbum apresentou-se acompanhada de um DVD, fazendo jus ao objectivo primário da obra: um filme produzido por estudantes universitários alemães e que permite, finalmente, experienciar Die Grüne Reise em toda a sua plenitude.
2 de janeiro de 2017
2016: A Soundtrack
Por motivos deliberados, esperei por 2017 para desvendar as minhas escolhas musicais de 2016. Seria bom que o ano agora morto e enterrado fosse erradicado da memória colectiva. Infelizmente não será assim. 2016 foi uma ponte, um trilho de fogo aberto no tempo e que, à falta de maiores desgraças, prenunciou friamente o futuro próximo.
O ano que nos roubou David Bowie, Leonard Cohen e Prince, presenteeou-nos com o Brexit e colocou o pató Donald Trump à frente dos destinos da nação mais poderosa do mundo. Para além de ter sido bissexto, foi também bipolar. Já terminou, mas deixou traumas difíceis de extinguir. Salve-se o tricampeonato para o Sport Lisboa e Benfica, momento de paradoxal regozijo num lodaçal quase permanente de desgraças.
Musicalmente, além do luto motivado pela perda de nomes sobejamente influentes e consagrados, algumas centelhas surgiram cujo fulgor iluminou o negrume. Há uma nova fornada de cantautores pronta a encantar e os produtos surgidos do Rap/Hip-Hop assumem-se cada vez mais como laboratórios sonoros e fonte da verdadeira originalidade da música desta segunda década do milénio. Não obstante, a aura dos mestres - os que lutam, os que perderam e os que nós perdemos - continua a projectar uma extensa e inescapável sombra na arte sonora do presente. 2016 foi um ano em que passado, presente e futuro se fundiram como raras vezes. Eis a banda-sonora que me ajudou a enfrentar cada dia.
1. David Bowie - Blackstar
2. Radiohead - A Moon Shaped Pool
3. Nick Cave & The Bad Seeds - Skeleton Tree
4. Angel Olsen - My Woman
5. Solange - A Seat at the Table
6. Anohni - Hopelessness
7. Bon Iver - 22, A Million
8. Shirley Collins - Lodestar
9. Leonard Cohen - You Want It Darker
10. Frank Ocean - Blonde
11. PJ Harvey - The Hope Six Demolition Project
12. Elza Soares - A Mulher do Fim do Mundo
13. Anderson.Paak - Malibu
14. Let's Eat Grandma - I, Gemini
15. Car Seat Headrest - Teens of Denial
16. Beyoncé - Lemonade
17. Kanye West - The Life of Pablo
18. Brian Eno - The Ship
19. DIIV - Is The Is Are
20. Iggy Pop - Post Pop Depression
21. Jenny Hval - Blood Bitch
22. Danny Brown - Atrocity Exhibition
23. Cass McCombs - Mangy Love
24. Chance The Rapper - Coloring Book
25. Thee Oh Sees - A Weird Exits
26. A Tribe Called Quest - We Got It From Here... Thank You 4 Your Service
27. James Blake - The Colour in Anything
28. Parquet Courts - Human Performance
29. Ryley Walker - Golden Sings That Have Been Sung
30. Blood Orange - Freetown Sound
31. Christine And The Queens - Chaleur Humaine
32. Lambchop - FLOTUS
33. Sturgill Simpson - A Sailor's Guide to the Earth
34. Savages - Adore Life
35. The Avalanches - Wildflower
36. Weyes Blood - Front Row Seat to Earth
37. Kaytlin Aurelia Smith - EARS
38. Moor Mother - Fetish Bones
39. The 1975 - I Like It When You Sleep, for You Are So Beautiful Yet So Unaware of It
40. Gaika - Security
41. Teenage Fanclub - Here
42. Michael Kiwanuka - Love & Hate
43. Anna Meredith - Varmints
44. Yves Tumor - Serpent Music
45. Cavern of Anti-Matter - Void Beats/Invocation Trex
46. Paul Simon - Stranger to Stranger
47. Kevin Morby - Singing Saw
48. Mitski - Puberty 2
49. Wilco - Schmilco
50. Swans - The Glowing Man
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