29 de dezembro de 2012

2012: A Soundtrack

                               

Não é de admirar que o mundo não tenha acabado em 2012. O que é de admirar é que houve gente a acreditar nisso. Sinal dos tempos que vivemos, talvez, em que o progresso é acompanhado de obscurantismo. Mas, se a profecia Maia não se cumpriu à letra, muita coisa terá mudado irreversivelmente no mundo como o conhecemos. Especialmente na Velha Europa e, dolorosamente, no rectângulo luso.
Uma amálgama de música encheu o ano, na sua grande maioria indiferenciada. Segue abaixo a listagem do que mais me surpreendeu, prendeu e preencheu. Scott Walker e o seu Bish Bosch podem ser ainda recentes para permitir uma prolongada degustação, mas o choque é suficiente para deixar marcas profundas à primeira audição. Talvez por não haver mais nada nem ninguém a soar assim, talvez por parecermos entregues à bisharada, este disco captura magistralmente o espírito desta época em que estamos condenados a existir. Complexo e perturbador, intenso e sombrio. E a sanidade parece não estar à vista no ano que se aproxima...

1. Scott Walker - Bish Bosch

2. Swans - The Seer

3. Tame Impala - Lonerism

4. Beach House - Bloom

5. Frank Ocean - Channel Orange

6. Grimes - Visions

7. Bill Fay - Life Is People

8. Godspeed You! Black Emperor - 'Allelujah! Don't Bend! Ascend!

9. Fiona Apple - The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do

10. The XX - Coexist

11. Chromatics - Kill For Love

12. Grizzly Bear - Shields

13. Liars - WIXIW

14. Julia Holter - Ekstasis

15. Dirty Projectors - Swing Lo Magellan

16. Kendrick Lamar - good kid, m.A.A.d city

17. Laurel Halo - Quarantine

18. The Walkmen - Heaven

19. Sharon Van Etten - Tramp

20. Death Grips - The Money Store

21. Ty Segall Band - Slaughterhouse

22. Bob Dylan - Tempest

23. Jack White - Blunderbuss

24. Actress - R.I.P.

25. Alt-J - An Awesome Wave

26. Cat Power - Sun

27. Django Django - Django Django

28. Toy - Toy

29. Japandroids - Celebration Rock

30. Ariel Pink's Haunted Grafitti - Mature Themes

31. Twin Shadow - Confess

32. Andy Stott - Luxury Problems

33. Dr. John - Locked Down

34. Chairlift - Something

35. Jessie Ware - Devotion

36. Leonard Cohen - Old Ideas

37. Spiritualized - Sweet Heart Sweet Light

38. Cloud Nothings - Attack On Memory

39. Bobby Womack - The Bravest Man In The Universe

40. Sun Araw & M Geddes Gengras meet the Congos – Icon Give Thank

41. Neil Young & Crazy Horse - Psychedelic Pill

42. Mark Lanegan Band - Blues Funeral

43. Flying Lotus - Until The Quiet Comes

44. Alabama Shakes - Boys & Girls

45. Neneh Cherry & The Thing - The Cherry Thing

46. Bat For Lashes - The Haunted Man

47. El-P - Cancer For Cure

48. Carter Tutti Void - Transverse

49. Porcelain Raft - Strange Weekend

50. Gravenhurst - The Ghost In Daylight

27 de dezembro de 2012

Kosmische Kosmetik XLVI

Dieter Moebius foi sempre considerado a face mais agreste dos Cluster. A metade mais arrojada e experimental do duo, acrescentando uma paleta de escuridão à luminosidade melódica do seu par Roedelius. Para além desta mítica dupla electrónica, o músico alemão operou em vários projectos e colaborações antes da sua primeira aventura a solo. Harmonia, Liliental e dois discos seminais em parceria com Conny Plank são algumas das referências inescapáveis que antecederam Tonspuren, álbum de 1983 totalmente moldado pela sua mão.
Apesar das semelhanças óbvias com a abstracção electrónica em miniatura dos Cluster mais tardios, Tonspuren possui uma forte identidade própria. A personalidade vincada de Moebius, deixado sozinho, brincando e experimentando com as suas inspirações e intuições. Como se a carne dos Cluster tivesse sido roída, deixando exposta apenas a carcaça, um esqueleto de ambiências minimais e melodias quebradiças.
É um disco que caminha para a noite. Que pede isolamento e abstracção. Maioritariamente sombrio, começa com esparsos estilhaços de luz e cor. Os três primeiros temas, Contramio, Hasenheide Rattenwiesel, são os que mais se aproximam da estética dos Cluster de Zuckerzeit ou Sowiesoso. Depois o crepúsculo começa a erguer-se lentamente, abafando luz e cor num manto progressivamente cinzento. Transport é veículo subterrâneo que serpenteia por túneis industriais. Nervös faz juz ao nome, destilando paranóia rítmica e melodia opressiva. A tensão prolonga-se na dança com as sombras que é B 36 e culmina no palpitar gélido de Sinister. Surgem pistas para o que seria o advento da techno mais densa e minimal em Etwas e Immerhin é escolástica na forma como mistura polidez estética a estertores colaterais.
Tonspuren significa banda-sonora em português. À la lettre, seria certamente a música ideal para um filme de espionagem a preto e branco passado em Berlim ou na Moscovo da Guerra Fria. Despida de interpretações, é um compêndio da importância e influência de Dieter Moebius nas linguagens electrónicas contemporâneas.

21 de novembro de 2012

Kosmische Kosmetik XLV

A prolífica carreira a solo de Hans-Joachim Roedelius é plena de bons momentos. Mais ou menos memoráveis, mas sempre com selo de qualidade. E essa caminhada solitária teve início ainda nos tempos em   que o berlinense se movia com audácia e estilo em projectos como os Cluster e os Harmonia.
Foi entre 1973 e 1979 que as peças que compõem Selbstportrait I ganharam vida. E este disco, que deveria ser o primeiro em nome de próprio de Roedelius, acabou por nascer tardiamente, após o magnífico Durch die Wüste e de Jardin au Fou.
Selbstportrait I é o som do músico em introspecção, em relaxamento egocêntrico e despido de artifícios. Minimal, simples, melódica e beatífica, a música patente nesta obra define bem as aproximações de Roedelius à electrónica ambiental, bem mais próximas do seu ocasional colaborador Brian Eno que das texturas mais abrasivas e experimentais dos seus primórdios exploratórios.
Os instrumentos usados, maioritariamente um órgão Farfisa e um sintetizador Revox A77, conferem a Selbstportrait I uma atmosfera de pureza quase virginal e uma proximidade confessional. Música sem filtros, despojada e descarnada, guarda em si o embrião de muitos sons futuros. E quão aconchegante é deixar pensamentos e emoções fluir no suave embalo de In Liebe Dein, Arcona Girlande. Ou estimulante pintar quadros imaginários ao som de micro-sonatas electrónicas como Inselmoos,  Fabelwein ou Halmharfe. Sempre em onírica travessia até ao lullaby final de Minne.
Os auto-retratos de Roedelius continuaram a ser revisitados ao longo da sua existência musical, sendo que o oitavo volume desta série foi editado em 2002. Todos muitíssimo aconselháveis, mas nunca esquecendo que, mesmo com a sua ingenuidade e improviso, não há amor como o primeiro.

20 de novembro de 2012

Fall From Grace


Gimme Shelter é um filme documental que retrata os últimos dias da tournée dos Rolling Stones pelos Estados Unidos em 1969. Será sempre infamemente lembrado pelas ocorrências que ensombraram o Festival de Altamont e não pela música, da melhor que a banda alguma vez produziu.
Realizado pelos irmãos Albert e Davis Maysles, Gimme Shelter está impregnado das estratégias e métodos do cinema directo (ou o nome norte-americano dado ao cinéma verité), a câmara vagueando livremente e captando a verdade objectiva das imagens e do som.
Os Stones são capturados ao vivo e em estúdio, debitando clássicos como Brown Sugar, Wild Horses ou Sympathy For The Devil, assim como em episódios meio icónicos meio anedóticos que ajudaram a construir o seu mito. Mas o pináculo do documentário acontece em Altamont, evento que manchou de violência e sangue a utopia dos sixties. Concerto transformado em cenário de tensão, agressão e morte, a prestação da banda inglesa é a celebração do fim dos ideais de uma geração. Se Woodstock foi o início da ilusão, Altamont foi o início da realidade. Os Rolling Stones nunca mais seriam os mesmos e o mundo também não.



19 de novembro de 2012

Rugido Sombrio

A sorte nunca quis nada com os londrinos Sound. Uma das bandas mais talentosas surgidas no período pós-punk, esfumaram-se sem apelo nem agravo quando deveriam ter saltado para a primeira liga da música da sua época.
A subvalorização nunca foi estranha ao grupo liderado pelo torturado Adrian Borland. Jeopardy, álbum de estreia editado em 1980, era um livre cruzamento entre os ataques bombásticos dos U2 dos primórdios e a matéria mais sombria dos Joy Division. Apesar de intenso, urgente e vibrante, Jeopardy foi um flop comercial e as vénias da crítica constituíram o alento que lhes permitiu voltar à carga. E que artilharia pesada apresentaram: From The Lions Mouth, datado de 1981, para além de definir, passe a redundância, o som dos Sound, é um dos melhores e mais injustamente ignorados registos dos anos 80.
Winning dispara a primeira salva e a melodia circular, espiralada entranha-se de imediato. Fabulosa canção, provavelmente o pico artístico da banda, Winning é um manifesto de intenção. É escura, mas intrinsecamente optimista. Pontapeia a porta com estrondo e anuncia a ambição do quarteto.
Segue-se mais uma dezena de canções que levanta a fasquia dos Sound, se não acima dos seus pares, pelo menos ao seu nível. From The Lions Mouth não fica a dever absolutamente nada a obras suas contemporâneas e bastante mais laureadas, como Heaven Up Here dos Echo & The Bunnymen ou Faith dos Cure.
O espectro urbano-depressivo característico da brigada das gabardines destes anos impregna o disco, mas não o transfigura num monolito cinzento de betão armado. O som é quase sempre minimal, esquelético, mas a estrutura e a profundidade dos temas tornam-no expansivo. Os Sound voam para além das suas próprias fronteiras, pelos céus carregados de Judgement, até às profundezas glaciais do pulsante Possession. As chamas irrompem na cadente deflagração de Sense of Purpose e revelam todo o seu esplendor terrífico na frenética The Fire. A lindíssima Silent Air apazigua a urgência nervosa que ficou para trás e New Dark Age varre o disco com majestosa soturnidade.
From The Lions Mouth não vingou, apesar do culto que ainda hoje lhe é devotado. Os Sound editariam mais três álbuns antes da separação final, que lhes garantiram secreta imortalidade. Adrian Borland seguiria uma discreta carreira a solo, constituída por alguns registos sólidos mas sempre longe da aclamação universal. Terá sido essa ausência de um reconhecimento mais vasto que o fez definhar lentamente. Após anos de luta contra depressões profundas e um alcoolismo crescente, Borland suicidou-se em 1999. O som vive.

25 de outubro de 2012

Kosmische Kosmetik XLIV

Wolfgang Bock é um nome raramente pronunciado quando se fala na escola electrónica alemã, especialmente a berlinense. Este explorador de sons caiu praticamente no esquecimento, mas o seu primeiro disco é um tomo fundamental na enciclopédia da música sintetizada e analógica.
Cycles, de 1980, surge numa altura em que os grandes clássicos do género pareciam estar já editados e serem inultrapassáveis, mas é tudo menos uma revisão decadente da matéria dada.
As comparações com o estilo de Klaus Schulze são, porém, inescapáveis. Ambos comungam da mesma energia planante, da vastidão das paisagens sonoras, da electrónica cósmica e ausente de gravidade. O que Wolfgang Bock traz de novo são fraseados rítmicos que tiram a música da suspensão e a lançam num trilho meteórico. Uma versão algo anfetaminada de Schulze. O tema-título, que abre o disco, define bem esta sonoridade. Arranca em animação suspensa e termina num ritmo pulsante, latejante, de cadente dança estelar. Seguem-se as duas partes de Robsai, a primeira uma delícia física e estimulante de sequenciadores, a segunda uma elegíaca e intensa ode cósmica de curta duração. Changes traz a mudança, para uma melodia luminosa e um ritmo circular, orgânico, que termina às apalpadelas às paredes de um buraco negro.
Stop the World conclui o disco e recupera a cadência hipnótica e a indução ao transe. É um tema que eleva a electrónica cósmica à condição de energizante musical e não ficaria mal numa proto-rave party, salpicada a ácidos e não a ecstasy.
Cycles vale sobretudo por ser uma alternativa mais acessível à caracteristicamente hermética e experimental electrónica germânica sua contemporânea. Mesmo assim, em breve surgiriam as radicais mudanças estéticas trazidas pela década de 80 e este estilo de música foi relegado para um nicho e diluiu-se na paleta berrante desses anos. O epíteto Super Bock não assentaria nada mal a este senhor. Mais que um disco, o fim de um ciclo.

18 de outubro de 2012

Post-Punk is not Dead



O período pós-punk abordado por Simon Reynolds no seu essencial Rip It Up And Start Again situa-se entre 1978 e 1984, anos curtos mas que deixaram marcas profundas no panorama musical.
O próprio título da obra (surripiado a uma canção de 1982 dos escoceses Orange Juice) indica que foram anos revolucionários. Uma era em que a urgência e visceralidade semeadas pelo punk foram depuradas por estéticas mais elaboradas mas sem perda de intensidade, como se a agressividade e a confrontação se tornassem eruditas. Reynolds, um dos mais esclarecidos e influentes críticos musicais britânicos da actualidade, traça um retrato abrangente e completíssimo do movimento pós-punk, o que resulta num compêndio imprescindível para o entendimento da sua génese e evolução.
Joy Division, Public Image Ltd. ou A Certain Ratio são algumas das muitas bandas deste período dissecadas no livro, projectos que podem ser considerados uma espécie de punk arty e literato, tendo em conta o background académico de muitos dos artistas e as suas referências culturais e intelectuais. Para além do modernismo e experimentalismo inerentes a esta corrente, é palpável também o activismo político que caracterizou os anos imediatamente a seguir ao fenómeno punk. Colectivos como Pop Group ou Gang of Four conseguiram agregar mensagens desafiantes a uma música muitas vezes radical.
Rip It Up And Start Again não se limita a ficar suspenso nesta bolha temporal. Reynolds acaba por acompanhar os destinos de muitos destes músicos vanguardistas, dos que cederam às pressões comerciais dos anos 80 aos que acabaram por desaparecer. O próprio termo pós-punk entrou em criogenia em meados dessa década infame, sendo apenas revisto e actualizado nos princípios do século XXI, com o advento de bandas como Interpol, Franz Ferdinand ou Rapture. A qualidade destes e outros projectos revivalistas veio provar uma vez mais que este movimento, apesar de fugaz, lançou raízes e estabeleceu-se como influente para discípulos desviantes.

9 de outubro de 2012

Desespero e Resolução

Ao segundo álbum, os australianos Dead Can Dance puseram de lado as guitarras. O acentuado travo gótico foi suavizado pela adopção de um som mais expansivo, assente em instrumentos clássicos e repositório assumido de influências medievais.
Em 1985, nada soava como Spleen and Ideal no universo dito pop. O disco foi um dos marcos na implementação da editora 4AD como uma das mais visionárias e marcantes fontes de música alternativa nos anos 80. A imagem austera, o rigor formal das composições e a solenidade cerimonial da atmosfera fizeram de Spleen and Ideal a mais que provável obra definitiva dos Dead Can Dance.
Musicalmente, o disco continua a ser um assombro. Uma celebração de dias cinzentos, uma descida em espiral a subterrâneos de melancolia, uma liturgia grave e sombria. Tacteamos as paredes dos túneis escuros à procura da luz que se adivinha para logo se desvanecer. Há uma dualidade omnipresente nesta obra, uma dicotomia entre claro e escuro, conflito e apaziguamento. Baudelaire abre as suas Fleurs du Mal com uma série de poemas condensados como Spleen et Idéal e é óbvia a apropriação do conceito pelos Dead Can Dance. Tal como nos versos do poeta francês, o mundo de Brendan Perry e Lisa Gerrard está afogado num desespero silencioso, num permanente tédio (verdadeiros sentidos do termo spleen). O ideal seria a troca deste mundo sensaborão pelo culto da beleza, pela rejeição do físico abraçando o imaterial. Neste ponto, Spleen and Ideal pode ser absorvido como um ritual iniciático, uma depuração espiritual. A vastidão widescreen do som eleva-nos e convida igualmente à introspecção. Vejam-se títulos como De Profundis (Out of the Depths of Sorrow) ou Indoctrination (A Design for Living), respectivamente as peças colossais que abrem e fecham o álbum. A atmosfera é severa, quase monástica, e revestida de uma beleza fria como paredes de claustros. Lisa Gerrard dá voz à primeira, na sua clássica vocalização que transcende a linguagem para comunicar emoções intensas. Brandan Perry canta na última, no seu notável misto de estoicismo e sentimento.
Entrementes, somos levados em marcha lenta numa travessia etérea, onde as trevas medievais são recuperadas à luz do século XX. O pulsar tenso de Advent, as trompas funestas de The Cardinal Sin e a cadência marcial do magistral Enigma of the Absolute, todas entregues por Perry, carregam letras de pesado existencialismo. Gerrard transforma Circumradiant Dawn, Avatar e Mesmerism em lamentos possantes, cânticos de beleza terrível.
Autêntica catedral sonora, o segundo disco dos Dead Can Dance mantém o fascínio e o poder de há quase 20 anos. Somente em The Serpent's Egg o duo australiano conseguiria aproximar-se desta força composicional e interpretativa, já com as influências da world music que viriam a marcar a sua sonoridade nos anos mais tardios. Desespero e resolução na busca pela perfeição: eis Spleen and Ideal.

29 de setembro de 2012

How to Disappear Completely


A reclusão de Scott Walker foi abruptamente quebrada com a chegada de 30th Century Man. O filme documental de 2006, obra de Stephen Kijak, trouxe à tona pela primeira vez em muitos anos Scott, o homem, se bem que Scott, o mito, manterá sempre sua a aura intacta.
Para muitos, foi a primeira vez que o viram realmente. Noel Scott Engel, Walker por via da sua primeira banda, descia do seu reino ascético, dos rumores de loucura esquizóide, e falava e sorria em frente a uma câmara. Parecia tangível, real, mesmo depois do lançamento de mais uma obra abismal e incatalogável: The Drift.
O filme conta a história do icónico cantor, acompanhando-o desde o sucesso dos Walker Brothers até ao seu progressivo desvanecimento. Da histeria de raparigas que o perseguiam, até ao exílio auto-imposto, do qual só o culto impediu que o nome Scott Walker significasse hoje apenas cinzas ao vento. E não falta a parada de estrelas a demonstrar a veneração ao mestre, neste caso nomes como David Bowie, Brian Eno ou Radiohead...
Se alguém alguma vez duvidou do génio criativo de Walker, 30th Century Man prova que o talento do norte-americano é único e inimitável. Não existiu nem existirá mais ninguém como ele, tão consciente da sua imagem, do mundo que o rodeia, da futilidade do show business em que se movimenta e que subtilmente despreza. Nas palavras do próprio a explicar a sua arte, If I have nothing new to say, why show up? E nós, comuns mortais, contentamo-nos com um álbum por década do homem mais misterioso da música popular (ou o que quer que seja que ele magistralmente conjura...).

28 de agosto de 2012

Miose Pop

O Idiota, celebérrimo livro de Dostoiévski, narra a história do benevolente príncipe Liev Míchkin. Este, após regressar à cidade de São Petesburgo vindo de um sanatório, depara-se com tamanha corrupção e perversidade humanas que conclui ser melhor viver num sanatório que no mundo real. The Idiot, disco de Iggy Pop, inspirou-se livremente nesta premissa.
Foi David Bowie que resgatou James Osterberg do seu próprio sanatório circa 1976. O final dos Stooges e o tsunami de excessos associados à banda deixou o seu vocalista à beira do colapso e a entregar-se voluntariamente nos braços de uma instituição psiquiátrica. The Idiot, editado no ano seguinte, resulta das experiências revitalizantes levadas a cabo em conluio com o Camaleão.
É o disco mais atípico assinado por Iggy Pop, mas é também a sua obra mais profunda e fascinante. Longe do rock propulsivo e visceral dos Stooges, The Idiot habita no reino das sombras e movimenta-se pela calada da noite em regime de autofagia introspectiva. Com os seus rasgos de electrónica e produção paludosa, o álbum desliza qual fantasma de sobrolho carregado pela noite monocromática e desolada da urbe. A urbe é Berlim, desfigurada pelo quelóide de cimento que a divide em duas, escura como breu, friamente romântica. E narcótica.
Sister Midnight, exercício assente numa guitarra funky futurista e groove obstinado, empurra desejos reprimidos para a noite faminta e fecha a porta atrás deles. Robótica, Nightclubbing faz uma vénia ao krautrock enquanto penetra, lânguida, pelas decadentes caves berlinenses. Imaginamos Pop e Bowie, esquálidos, vampirescos, intoxicadamente ausentes, a vaguear entre os comuns mortais.
Funtime desce mais fundo na escadaria gótica e prolonga o devaneio kraut, com a vertigem repetida do seu ritmo a la Neu!. I'm gonna get stoned and hang around, canta Pop com pragmatismo e sem falsos pudores, lembrando-nos que Berlim era o lar europeu da heroína no final dos anos 70 e que ele e Bowie eram inquilinos curiosos...
Baby é uma tensa estação que passa, frenética, para dar lugar a China Girl. Hit massivo para Bowie anos mais tarde, apresenta-se aqui pouco polida e produzida, uma canção de amor que irrompe a altas horas da noite, quando a mente ainda sofre os frémitos de uma noite excessiva e o corpo procura um consolo que não vem.
Lenta e arrastada, Dum Dum Boys é uma nostálgica e, ao mesmo tempo, corrosiva excursão aos despojos dos Stooges. Tiny Girls é uma espécie de soul futurista e plastificada e que elucida de sobremaneira quando Iggy definiu The Idiot como um cruzamento entre James Brown e Kraftwerk. E o grand finale fica entregue a Mass Production, literalmente uma massiva e esmagadora orgia narcótica, num martelanço crescente e doentio que espicaça a mente. Delicioso...
David Bowie terá sido o grande beneficiado em toda esta história. The Idiot parece, muitas vezes, um laboratório de ensaio para as suas experiências futuras (nomeadamente a sua fase berlinense), sendo Iggy Pop a cobaia. Alguns dos temas foram recuperados posteriormente por Bowie e este tipo de sonoridade ficará sempre mais associado ao Camaleão que à Iguana. Mesmo assim, este é o disco sério de Iggy e, porque não dizê-lo, a sua obra mais marcante apesar de não o definir. O Idiota foi apresentado a outro mundo, mas logo se refugiou naquele onde sempre se sentiu mais confortável...

24 de agosto de 2012

Visions of Angels

Numa altura em que a discografia dos Cocteau Twins está a ser alvo de reedição, nada como recuperar igualmente a história visual desta extraordinária banda. Uma história impactante, cromática e luxuriante que ajudou a elevar os britânicos ao panteão das melhores ocorrências musicais dos anos 80. Mesmo sendo esse período limitado no tempo que os viu crescer e brilhar, a arte dos Cocteau Twins não perdeu pitada do seu encanto desde então. Aliás, a sua magia é tão transcendente que não tem era definida. É banda-sonora de sonhos despertos, farrapo de paraíso derramado sobre o afortunado ouvinte.
Tishbites, compilação videográfica de 2004, congrega alguns dos momentos marcantes do percurso do grupo. Clips que, antes de tudo, são pequenas filigranas fílmicas que procuram dar imagem ao onirismo latente da música. Som e imagem em conchavo, num processo evolutivo que resulta em elegância garrida, quase psicadélica.
Em complemento aos vídeos para doze singles e da pequena peça Rilkean Dreams, Tishbites homenageia isoladamente a grande figura do colectivo, Elizabeth Fraser, através de dois clássicos modernos que a sua voz única aprimorou: Song to the Siren, original de Tim Buckley imortalizado pelo projecto This Mortal Coil e Teardrop dos Massive Attack. Motivos de sobra para uma espreitadela obrigatória...

16 de agosto de 2012

Kosmische Kosmetik XLIII

Manuel Göttsching amputou o nome dos seus Ash Ra Tempel para Ashra circa 1976. Com o fim do mítico colectivo germânico, a carreira a solo do guitarrista tornou-se realidade e, com ela, uma grande viragem no estilo e intenções musicais. O abandono progressivo da guitarra e o interesse crescente pela electrónica surtiram o primeiro efeito em New Age of  Earth. Essencialmente um disco a solo de Göttsching (todas as composições e instrumentos são da sua responsabilidade), o primeiro vislumbre do projecto Ashra é um conjunto de quatro peças planantes, meditativas, próximas da electrónica ambiental. Uma obra de rara beleza, quase tântrica nos seus devaneios expansivos e libertadores.
Sunrain mantém um rigor formal apenas afectado pela melodia radiosa que o empurra para além dos seus próprios limites. À medida que o fim se aproxima, instala-se uma comunhão extática entre todos os elementos que termina afogado num ponto de luz. Relaxante, Deep Distance sente-se como as pétalas de uma flor. A delicadeza da música roça a sensualidade, uma sensualidade inocente mas vibrante. Massagistas deste mundo, ponham as mãos neste tema!
A guitarra aparece nas duas composições restantes. Sempre bela, sempre perto do fim. Etérea e ensimesmada em Ocean of Tenderness, solitária e uivante em Nightdust. A genialidade mora em cada uma das peças. A primeira é uma lenta e cadente viagem introspectiva, um caminho a atravessar de olhos fechados e coração aberto. A segunda é uma odisseia cósmica como manda o figurino, um berço que acolhe um pedaço de infinitude, em que as estrelas brilham e fogem e o movimento é lento sob o peso de todo o tempo que já passou. E o fim chega para nos tirar da órbita confortável e depositar-nos novamente na realidade selvática...
New Age of Earth é o princípio das aventuras de Manuel Göttsching por terras electrónicas. O primeiro passo de uma caminhada que muito revolucionou e influenciou a forma de fazer música com máquinas nas décadas seguintes. Um monumento musical belíssimo.

15 de agosto de 2012

Kosmische Kosmetik XLII

Harald Grosskopf notabilizou-se pelos seus desempenhos como baterista em inúmeros projectos do rock alemão dos anos 70. Emprestou a sua energia rítmica, entre outros, aos infames Cosmic Jokers, aos Wallenstein e a Klaus Schulze.
Nome mais que mítico e consagrado no universo krautrock, Grosskopf acabou por estrear-se a solo com um disco fundado nos pilares da electrónica. Foi em 1980 que Synthesist viu a luz, luz essa que irradiou de imediato o universo da música sintetizada. Merecedor precoce do estatuto de clássico, Synthesist é incontornável e inesquecível. Um arraial de teclados e percurssão dominados exclusivamente pelo músico germânico, que debita uma sucessão de temas aquáticos e espaciais, dotados de uma fluidez cativante e de uma subtil vivacidade.
Synthesist principia em alta, com a volúpia rítmica e os teclados cósmicos de So Weit, So Gut. É notável a centelha de frescura que o tema carrega, o convite a uma viagem futurista e sedutora. 32 anos depois, o apelo é imutável. Os momentos mais ritmados do disco possuem a estranha dicotomia de motivar a dança, cibernética e maneirista, ao mesmo tempo que a refreiam com a sua frieza maquinal. Emphasis, 1847 - Earth e a deliciosa Transcendental Overdrive são ideais para dançarinos de sofá. O ritmo faz-nos ondular, serpentear, a melodia mantém-nos estáticos, em sonho desperto. O brilhante tema-título, sinfonia de electrónica progressiva em hipnótica deflagração, é igualmente o melhor momento do álbum.
O interesse subsiste quando as sombras se abatem sobre Synthesist. A animação suspensa de B. Aldrian, a excursão gélida de Trauma e o belo pulsar indefinido de Tai Ki complementam solidamente o lado luminoso do registo.
Synthesist foi reeditado em 2010, surgindo em 2011 Re-Synthesist, uma nova leitura dos seus temas executada por alguns dos nomes maiores da electrónica cósmica actual, como Oneohtrix Point Never ou Arp. Harald Grosskopf conseguiu, na sua estreia, um belo e coeso tratado electrónico, acima de tudo original, pois, apesar do peso óbvio de nomes como Tangerine Dream ou Kraftwerk neste tipo de música, nada se ouve que seja cópia ou colagem. Apenas mérito e audácia.

Hard America

Such Hawks Such Hounds, filme de 2007 realizado por John Srebalus, aborda, com fervor e dedicação, a ascensão de um certo rock americano, de alta densidade e acima do peso recomendável. Um estilo musical que descende do proto-metal e do psicadelismo mais duro dos inícios dos anos 70 e de bandas como Blue Cheer, Black Sabbath ou Hawkwind. Perdido no limbo dos anos 80, no qual o termo heavy-metal oscilava entre homens ostentando fartas permanentes (o louro oxigenado abundava) e adoradores de Satã, este género de rock, igualmente pesado, mas totalmente descomprometido, ressurgiu na década seguinte. Nomes como Kyuss, Sleep ou Monster Magnet revitalizaram as sonoridades psicadélicas mais hard, apimentando-as com a poeira árida do deserto. Assim nascia o stoner rock, com o seu ritmo tipicamente arrastado e baixos a elevarem-se até à estratosfera. Em territórios mais limítrofes, Om e Sunn O))) apropriaram-se do minimalismo drone para erigir catedrais escuras e monolíticas de guitarras titânicas e batidas hipnóticas.
Mas Such Hawks Such Hounds não se esgota aqui. Uma miríade de bandas e estilos é desfilada ao longo do documentário. Este acaba por ser um tomo valioso e satisfatório de um género musical que, apesar da ascensão supracitada, nunca abandonou o seu estatuto underground.

4 de agosto de 2012

Caesar Augustus

Augustus Pablo (cujo nome de baptismo era Horace Swaby) foi uma das estrelas maiores do firmamento dub. A sua morte prematura aos 44 anos arredou-o um pouco da apreciação massiva, mas a sua aura mantém-se viva. Os anos 70 foram dourados para ele, era em que deixou para a posteridade um legado incontornável da música jamaicana. 
King Tubbys Meets Rockers Uptown, disco de 1976, é unanimemente reconhecido como o grande feito artístico de Augustus Pablo. Sentado à mesa de produção encontrava-se outro peso-pesado: Osbourne Ruddock, mais conhecido como o lendário King Tubby, homem que revolucionou e ajudou a esculpir o conceito da produção em estúdio. Verdadeiro cientista do som, é uma referência venerável para qualquer pretendente a artesão nas áreas da electrónica e da dança. 
O encontro entre estes dois mestres é nada menos que seminal. Pablo transporta classe e sedução com a sua inseparável melodica e um manancial de instrumentos de teclas. King Tubby encarrega-se de juntar as peças do puzzle e submetê-las às suas esotéricas manipulações de estúdio. Na sombra, o amparo monumental da secção rítmica dos Wailers (os irmãos Barrett) e um baixista de excepção, Robbie Shakespeare, que emergeria como um dos maiores nomes do dub ao lado do baterista Sly Dunbar nos hiper-influentes Sly & Robbie. Lançados os dados, o poker resultante foi bem mais que um golpe de sorte. King Tubbys Meets Rockers Uptown é uma obra-prima viciante. Do magistral Keep on Dubbing a Satta Dub, o disco sacia o apetite do apreciador mais voraz do género. Não falta nada. Stop Them Jah envolve-nos em sopros fumegantes e ritmos semicerrados. 555 Dub St. e Young Generation Dub impregam-nos da suave melancolia exangue que se esconde para além das montanhas verdes da Jamaica. Each One Dub e o imaculado King Tubbys Meets Rockers Uptown colocam as vozes distorcidas e nebulosas na linha da frente e o efeito inebriante é irresistível. Assim não vale a pena lutar e é derrotados que nos sentimos vitoriosos. Um disco de Verão eterno, mas invadido por nuvens imprevisíveis, tal como a terra que lhe serviu de berço.

Música Adubada

Antes de ser um género per se, o dub começou por ser um caminho paralelo, um tratamento alternativo a temas reggae convencionais. Os jamaicanos têm o ritmo no seu ADN, são africanos nas Caraíbas. Um ritmo dolente e arrastado, mas fervente e penetrante. O dub veio realçá-lo e revigorá-lo, enfatizando baixos e percurssões e transformando a música numa gigantesca mas dócil propulsão.
Pick a Dub, álbum de 1974 de Keith Hudson, é considerado um dos primeiros trabalhos genuínos do género, assim como uma das suas traves-mestras. Hudson, conhecido pelo nobiliárquico título de príncipe negro do reggae, reviu e desconstruiu peças do seu passado recente, aplicando-lhes massivas doses de baixo e ritmo. Fragmentos de voz despontam, flutuando no espaço. O ambiente geral, para além de narcótico e relaxante, é denso e habitado por uma estranha e aconchegante melancolia.
Os pares de Hudson contribuem para a qualidade do produto. Os irmãos Barrett, Carlton e Aston, a poderosa máquina rítmica dos Wailers de Bob Marley, encarregam-se dos sublimes golpes de bateria e baixo. Augustus Pablo, outro nome de culto na génese do dub, aplica na perfeição os dotes da sua melodica, cujo som viria a tornar-se trademark. O resultado estava condenado a ser superlativo e a prova está na música benfazeja que transborda de temas como Michael Talbot Affair, Black Heart, Black Right,  Depth Charge ou Pick a Dub. Mais ou menos profundos, com maior ou menor perfume de ganja, todos os temas são pequenos tomos ideais da arte de fazer dub. Levei-o para a Jamaica comigo há umas semanas. Acentuou ainda mais a sensação de ser hóspede num nicho do paraíso.

Kosmische Kosmetik XLI

O trio anteriormente conhecido como Limbus 3 adicionou um elemento à sua formação em 1970. Pragmaticamente, mudaram o nome para Limbus 4 e o estilo sofreu com isso. Um disco chamado Mandalas foi o resultado do upgrade e algo parecido com música começou a despontar no horizonte destes alemães desalinhados. O regime free form das composições (dissertações?) continua a ser o núcleo da experiência, mas a paleta de instrumentos foi alargada e um esgar de construção começa a projectar-se sobre o que antes era apenas desconstrução e implosão.
Remendos de atmosfera respirável unem Dhyana, Kundalini, Heiku e Plasma. O que os títulos intuem, o som concretiza. As peças de Mandalas assemelham-se a sketches de religiosidade oriental, sobretudo fragmentos de rituais tibetanos exacerbados pela mística psicadélica. Mantras vocais erguem-se, sombrios, por entre sons densos e descarnados. Batidas esparsas e sincopadas insurgem-se, espontâneas, contra a meditabunda suspensão sonora que persevera.
No seu caos envolvente, Mandalas acaba por ser uma obra recompensadora. A estranha mistura de experimentalismo errante e solenidade alucinatória começa a gerar um fruto cósmico. O nada nidifica e incuba o futuro sem saber.

Kosmische Kosmetik XL

Desconcertante e radical, o ensemble Limbus 3 fez mossa em 1969 com um registo nada convencional intitulado Cosmic Music Experience. As origens e história do colectivo são tão ou mais obscuras que a sua arte. O seu propósito musical, insondável. O disco é um emaranhado experimental de arrepiar os mais corajosos, comparável apenas às excursões cósmicacofónicas dos Kluster ou dos embrionários Tangerine Dream.
A prometida experiência cósmica musical é um tiro à queima-roupa de improvisos cáusticos e impenetráveis,  o som da deformidade, da desordem que procura desesperadamente ordenar-se. Os quatro temas do assalto sonoro - Oneway Trip, Valiha, Breughel's Hochzeitstanz e New Atlantis (Islands Near Utopia) - não variam muito no estilo e na substância. Os instrumentos, que, ao que consta, são guitarra, baixo e flauta, são arranhados e torturados, saindo deles não música mas ruído em toada cava, uma expressão distorcida de harmonia e desprovida de melodia. Em avançado grau de imersão nesta experiência limite, podemos ser recompensados com o desligamento em relação ao que nos cerca, abrindo-se possibilidades exploratórias muito para além do entendimento musical.
Mais próximo de certas alquimias extremistas e dissolutas de Sun-Ra, Anthony Braxton ou Stockhausen que do futuro estabilizado do krautrockCosmic Music Experience é um artefacto drástico. Um capítulo infame da época em que o ovo cósmico futuramente expandido por mentes germânicas ainda estava em compressão...

30 de julho de 2012

United States of Mind

Detentores de um dos nomes mais improváveis para uma banda, os United States of America foram um subtil mas terapêutico alfinete na acunpuctura músical dos anos 60. A curta existência do projecto (entre 1967 e 1969) deixou apenas um disco como legado, um registo homónimo cuja redescoberta é não menos que fascinante.
Apesar do nome, The United States of America não é uma cartilha de louvaminhices à terra dos livres e lar dos bravos. É um disco de incrível arrojo estético e de crítica social sarcástica e certeira, que continua a manter uma frescura invejável. Concebida e parida sob o sol da Califórnia em 1968, a obra explora, corta e cose estilos tão díspares como o rock psicadélico, o modernismo de Charles Ives e a electrónica embrionária. É essa electrónica, ainda estranha e alieníngena à maior parte dos ouvidos da altura, que se imiscui na música, desfigurando os instrumentos e processando a voz. Uma espécie de samplagem pré-histórica, feita de arcaísmos musicais americanos espreita nalguns temas e o todo é um naco suculento de experimentalismo vanguardista dado a comer ao rock. Tome-se o tema de abertura, The American Metaphysical Circus, como exemplo perfeito e súmula do que se segue. A paleta de sons mistura cores improváveis, o arcaboiço lisérgico é impossível de derrubar. A conquista definitiva dá-se com Hard Coming Love, certamente um dos singles mais marginais de 1968, mas uma canção magnífica. A melodia catchy, intercalada com a bizarria dos efeitos, transforma-a num verdadeiro clássico do futuro. Dorothy Moskowitz, a vocalista, aguenta-se durante todo o disco como o elo de ligação de toda a estranheza envolvente, o eixo à volta do qual um tornado musical serpenteia. Da placidez acalentadora de Cloud Song à corrupção psicadélica de The Garden of Earthly Delights, a versatilidade prevalece. Soa a Grace Slick, por vezes, mas a entrega amiúde contida e distante aproxima-a igualmente de Nico. E, com a devida distância territorial e cultural, não será descabido considerar os U.S. of A. os Velvet Underground angelenos...
Joseph Byrd, a mente impulsionadora do projecto, estudou em Nova York com John Cage, privou com Yoko Ono e aspirou grandes quantidades do perfume transgressor da música vanguardista e experimental da cidade que nunca dorme. As suas aspirações obtiveram eco genial neste disco. São dele as manipulações electrónicas e a parafernália de sons inusitados. É tarefa árdua destacar momentos isolados nesta obra tão louca mas tão lúcida, mas é igualmente impossível não mencionar o brilhantismo de Love Song for Dead Che (e suas óbvias conotações), Where is Yesterday e a tripartida odisseia sónica de The American Way of Love.
Aos dez temas originais do disco, foram acrescentados outros dez, na sua reedição de 2004. A sobremesa ideal para o prato principal que a antecedeu. Raras vezes o nome United States of America esteve associado a algo tão popularmente erudito e pouco conservador. Os campos férteis de muitas ideias da música popular contemporânea começaram a ser semeados aqui.

19 de julho de 2012

Suave Bulício

Realizado por Andy Warhol em 1966, The Velvet Underground and Nico: A Symphony of Sound retrata com singeleza os primeiros tempos da lendária banda nova-iorquina. O filme exibe uma improvisação que se estende por mais de uma hora, inteiramente instrumental, desbragadamente solta. A captação de um ensaio, feito para posterior exibição em écran gigante e som ensurdecedor, certamente num dos happenings muito contra-culturais dos sixties na Big Apple. O núcleo duro do grupo surge acompanhado pela diva temporária Nico e o seu filho Ari, a quem foram entregues umas maracas para se entreter e que contribui bastante para a atmosfera comunal do registo.
O cenário em que tudo se desenlaça é, obviamente, a Factory, o laboratório artístico criado por Andy Warhol, que funcionava igualmente como ponto de paragem de artistas no geral e da máfia warholiana em particular. A película é uma típica obra de Warhol, homem que filmava como pintava: tão artesanal como inovadora, minimal e sensorial. No final, numa pitada de hiper-realismo, entra em cena a polícia, alertada pelo excesso de barulho...
A Symphony of Sound é, acima de tudo, uma curiosidade histórica que capta liminarmente a fase em que os Velvets andaram de mãos dadas com Drella. Pouco tempo depois, chegaria um disco com uma banana na capa que revolucionaria a história da música do século XX. O tal disco que, emulando uma frase atribuída a Brian Eno, só vendeu 10000 cópias, mas quem o comprou formou uma banda...

23 de junho de 2012

Silêncio de Ouro

Durante a criação de Structures from Silence, o seu balsâmico disco de 1984, Steve Roach viveu imerso na música que dele brotava. A tecnologia da época permitia já que o som percorresse infinitamente o espaço através das possibilidades de um computador, tornando-se assim algo que confrontava o próprio compositor, ao invés de partir apenas  do seu âmago.
Esse bifurcado espelho criativo constante deu origem a uma depuração quase extrema da música, fazendo de Structures from Silence uma escultura sónica que tanto tem de ambiental como de estimulante. Não entorpece a mente, mantém-na desperta e aberta. As melodias intra-uterinas inspiram e expiram. Céus estrelados, auroras, ocasos, nuvens que passam, folhas que se agitam, tudo são estruturas que sustentam o silêncio. E quando estas se desmoronam, só o silêncio, inexorável, prevalece. A música é minimal, mas transumante, baseia-se nas livres travessias da cosmicidade e permite que um californiano levite e vagueie pelo espaço amparado pelas muletas da escola electrónica alemã e do catedrático Brian Eno.
Não existem grandes diferenças nem variações no desenrolar de Reflections in Suspension, Quiet Friend e Structures from Silence. São três faces complementares da mesma pirâmide. A última destaca-se pela audácia da duração - quase 30 minutos - e pelo poder indutor de relaxamento e introspecção. O espaço parece estático, no entanto, move-se. Assim é esta peça inigualável, um imenso patchwork de calma esmagadora e revigorante abstracção.
Structures from Silence é uma das melhores obras de sempre da chamada música ambiental. Ombreia facilmente com clássicos como Zeit dos Tangerine Dream ou Music for Airports do supracitado Eno. Tal como estes, deixa-nos confortáveis na solidão e convida à meditação. Mais que tudo, não nos afoga em misantropia, é um grande disco terapêutico. Um disco sem tempo.

22 de junho de 2012

Big MEC



Escrítica Pop foi compilado a partir de crónicas elaboradas entre 1980 e 1982 para a imprensa (Se7e e O Jornal) e para a rádio (o saudoso Café-Concerto da Comercial). É um livro de Miguel Esteves Cardoso e uma das obras de referência, não só do jornalismo musical português, mas da própria escrita lusa dedicada à arte das musas.
Escritos entre Portugal e Inglaterra, estes textos debruçam-se, obviamente, sobre a música e a cultura pop de cá e de lá. É evidente o apreço do autor por grandes nomes que, na altura, davam os primeiros passos no milieu, como UB40 (sim, eles já foram bons), James "Blood" Ulmer ou Depeche Mode. Igualmente notória é a aversão ao metal ou aos neo-românticos (carinhosamente definidos por MEC como rock-cabeleireiro). Intocáveis são apenas os Joy Division, o que se compreende pela escolha da capa para o livro. E tão bem são eles tratados pela pena do escriba. E que nos resta senão concordar com tudo e ir ouvir os discos outra vez...
As tendências e trejeitos de escrita a que MEC nos habituou encontram já terra firme em Escrítica Pop. A ironia, irreverência e inteligência da prosa estão bem patentes ao longo do livro. É certo que muitas das coisas que o autor gaba se estragaram com o tempo, da mesma forma que alguns dos desancados se tornaram entidades criticamente respeitáveis. Mas MEC assume isso com a naturalidade e franqueza que todos deveríamos ter quando bebemos do caldo imenso e efémero da música popular: "É claro que  já não gosto de nenhuma das bandas das quais disse gostar muito, e que vim a apreciar todas as outras que jurei odiar até à morte", diz-nos o futuro criador d' O Amor é Fodido no prefácio da obra. Ao desbravar novamente as páginas do histórico Escrítica Pop, quem não sentirá o mesmo? E a capacidade de fazer soltar gargalhadas inteligentes aos melómanos de rigueur ainda lá está guardada...

Troika-Tintas

Corre o Euro 2012 e aqui o burgo está apurado e satisfeito. Algumas das inesquecíveis alegrias da minha vida foram proporcionadas pelo futebol, logo comungo do mesmo sentimento. Pode ser alegórico, mas o confronto futebolístico de hoje entre Grécia e Alemanha não deixa de se revestir de outras conotações. David e Golias, oprimido e opressor, medem forças simbolicamente, de igual para igual, num palco onde tudo é possível. Boa altura para ver, ou rever, Catastroika. Lançado há poucos meses pelos mesmos criadores do igualmente pungente Dividocracia, este documentário centra-se nos danos económicos e sociais inflingidos pela privatização usurária e consentida de serviços públicos. Disponibilizado gratuitamente na Internet, tal como o seu antecessor, é igualmente imperdível. Foi produzido pelo público, destina-se ao público e conta com a participação de ilustres cidadãos como o escritor Luis Sepúlveda ou o cineasta Ken Loach. Catastroika elucida, denuncia e ordena o caos que, comummente, se define como crise. Felizmente ainda há gente que nos resgata das trevas, nos põe a pensar e nos desafia a agir, sem sectarismos...

20 de junho de 2012

New York Beat

Em 1981, existia outra Nova York. Pulsante, vibrante, latejante de liberdade artística e criativa. Não que a metrópole dos dias de hoje tenha perdido a sua energia única, mas perdeu-se a maior parte da perigosa mas saudável selvajaria urbana dos tempos que antecederam as purgas do mayor Rudy Giuliani. Hoje, Nova York é mais asséptica, segura, luminosa. Mas a nostalgia aperta sempre que a memória recupera os tempos de loucura desbragada, em que ser artista na Big Apple era sinónimo de um estilo de vida fora das convenções.
Downtown 81, película rodada em 1981 mas apenas estreada oficialmente no ano 2000, capta na perfeição o zeitgeist da cidade nessa época. São os tempos do advento do pós-punk e da consolidação da mui nova-iorquina No Wave. Esta última, uma cena artística vanguardista e provocadora que englobava música, cinema e arte urbana e contemporânea, levou aos píncaros o extremismo libertário da experimentação e da inovação.
A narrativa pouco convencional do filme centra-se, acima de tudo, nas aventuras e desventuras em tempo real do jovem artista plástico Jean-Michel Basquiat. Protótipo por essência do artista urbano e underground, Basquiat viveu depressa e morreu jovem - aos 27 anos (mais um membro do Clube dos 27), preso nas malhas da heroína. A sua obra, composta por quadros e autênticos frescos urbanos, que vão do graffiti à simples inscrição de textos nos muros da cidade, foi revolucionária e radical. Ele foi o Andy Warhol das ruas, sem dinheiro, sem abrigo e sem glamour, vendendo quadros para comer, engatando miúdas nos bares para ter onde dormir. A realidade de Basquiat é confabulada em Downtown 81. Enquanto vagueia pelas ruas e bares e se cruza com diferentes e bizarras personagens, é traçado um retrato paralelo da cena artística do Lower East Side de Manhattan. Actuações de nomes incontornáveis da cena musical nova-iorquina como James White and the Blacks, Suicide ou Kid Creole and the Coconuts abrilhantam o filme, que é igualmente colorido por aparições surreais de Debbie Harry e Arto Lindsay.
Para além de ser uma mitologia da vida real do artista desalinhado, Downtown 81 é igualmente o postal ilustrado de um tempo e de uma cidade que já não existem. De dias mais escuros mas ideias mais límpidas. Um site dedicado a esta obra de culto marginal pode ser consultado aqui.

18 de junho de 2012

Sopro na Alma

No final dos anos 60 do século XX, o jazz continuava a afastar-se progressivamente da sua primordial função de dança e entretenga. Os conflitos raciais na América e a porta cada vez mais escancarada ao acolhimento de novas influências, transformaram este género, negro na sua essência, em porta-estandarte de comunicação e reivindicação. Elementos espirituais e atávicos começaram a ser cada vez mais resgatados e a música tornou-se uma arte vanguardista, uma linguagem onde a religiosidade oriental e o retorno à Africa-Mãe para inspiração deram origem a cerimónias tão incendiárias quanto arrebatadoras. Karma, o terceiro álbum como líder do enorme saxofonista Pharoah Sanders é uma dessas distintas cerimónias. Dotado de uns pulmões sobrenaturais, este excepcional músico celebrizou-se, igualmente, por espalhar energia e alma em parcerias com John Coltrane e sua esposa Alice, entre outras luminárias do jazz mais avant-garde. Na obra em epígrafe, datada de 1969 e referência maior no honorável catálogo da lendária editora Impulse!, Sanders erege um monumento imponente e grave, mas igualmente libertador. Um monolito sónico dividido em duas partes, The Creator Has a Master Plan e Colors. A primeira peça, define, desde logo, o disco. Uma odisseia sobrenatural de 32 minutos de duração, que começa como franca reverência ao imortal John Coltrane de A Love Supreme e termina numa prece enlevada de saxofone e voz. Entre o princípio e o fim, uma miríade de variações sobre um tema, que assenta num groove em constante voragem. O elemento estranho mas absorvente é a voz de Leon Thomas, que se espraia entre o mantra hipnótico e transcendentes ululações. E o belíssimo fio de melodia que prende todo o tema estica até ao limite sem nunca se partir, desdobrando-se em infinitas camadas que vão da paz à exultação. Sem dúvida alguma, esta é uma das mais geniais composições de sempre nos anais do free jazz.
Talvez seja redundante afirmar que Colors nos invade o espírito com uma paleta de cores, mas não existe melhor forma de a descrever. O poder da voz de Leon Thomas é irresistível e o que fica quando a música magnífica se desvanece é a sensação que a nossa alma foi lavada e uma paz luminosa se apoderou de nós. Karma é um verdadeiro bálsamo musical, destinado a aplicação interna, sem contra-indicações nem perigo de sobredosagem.

12 de junho de 2012

Erário Etéreo

Em 1984, por entre dejectos e eflúvios de música pastilha elástica, foi enterrado um tesouro. Ao terceiro álbum, os Cocteau Twins (agora expandidos a trio com a inclusão do baixista Simon Raymonde) roubaram um pedaço de céu para nos oferecer. Garlands, o primeiro álbum, foi um produto de influências, um disco escuro e denso, esforçado mas sem conseguir afastar os fantasmas ominosos de Siouxsie & The Banshees ou dos Cure da época. Um ano depois, em 1983, chega Head Over Heels, obra que oscila entre a filigrana e o tonitruante. Começa a ser impossível acreditar que a voz de Elisabeth Fraser é real e a guitarra de Robin Guthrie embala-nos pela bruma montados em algodão doce. Começa a ser incubada alguma da música mais bela que este planeta já ouviu. Mas é o mesmérico Treasure que arrebata em definitivo. Simon Raymonde prova ser um elemento catalisador na expansão onírica do som dos Cocteau Twins. Caímos, deliciosamente prostrados, em levitantes e envolventes lençóis de som. As ambiências, etéreas e irreais, penetram com delicadeza as áreas de prazer do nosso cérebro. Ainda perdura algum do rigor gótico, das atmosferas austeras que encetaram um saudável concubinato com a luz e a cor na fabulosa série de EP's que antecede Treasure (Sunburst and Snowblind, Pearly-Dewdrops' Drops, The Spanglemaker). Beatrix e Persephone são exemplos dessa junção, doces melodias cobertas de nuvens negras, arcaísmos futuristas. Lorelei é a pop perfeita do mundo dos anjos, com Liz Fraser nos píncaros das acrobacias espectrais da sua voz. Não é à toa que um extasiado crítico britânico chegou a apelidá-la "the voice of God"...
Todas as canções têm nomes de pessoas, como se fossem elas o verdadeiro tesouro, e cada uma a sua própria individualidade. A viagem pelo sonho atravessa diferentes territórios, do mutismo minimal de Otterley ao rebentamento das ondas cintilantes de Donimo. Robin Guthrie transforma a guitarra numa varinha de condão, distorcendo-a e adornando-a de efeitos espantosos. Não importa a técnica, apenas a sensação inflingida. Aloysius, Cicely, Ivo (esta última dedicada ao patrão da 4AD, Ivo Watts-Russell), todas são pequenas delícias num jardim edénico. E o auge acontece em Pandora, onde a beatitude sonial entra em simbiose com a sensualidade carnal, numa peça sublime que tanto pode ser veículo de paixão como de meditação. Não percebemos patavina do que Fraser está a cantar, mas isso é de somenos importância. Treasure é um disco do coração e não da razão, a mais equilibrada e perfeita prova das capacidades dos Cocteau Twins. Com tantos discos a roçar a perfeição, é discutível se esta é ou não a obra-prima da banda britânica. Foi a primeira que ouvi e continua a ser a minha preferida. O resto é como discutir o sexo dos anjos...

5 de junho de 2012

Life of Bryan

A carreira a solo de Bryan Ferry é algo paradoxal. Granjeou-lhe um estável sucesso comercial, mas nem sempre os mimos da crítica. Arriscando progressivamente menos que nos tempos dos Roxy Music, Ferry começou por viver uma vida dupla discográfica para exercer em pleno o seu poder criativo. Não é difícil lembrarmo-nos da outra força motriz dessa banda britânica nos inícios dos anos 70: Brian Eno, personagem excentricamente vestida de penas e lantejoulas, qual extraterrestre que desceu aos humanos para mostrar o futuro do rock. A fricção entre o extremamente arrojado Eno e o mais refreado Ferry durou dois álbuns. Eno acabou por ejectar-se da nave, que continuou um rumo interessante, mas progressivamente polido. Ferry tornou-se o crooner de românticos utópicos, de yuppies com cérebro e de socialistas do champagne.
No meio de bons momentos e de outros menos inspirados, é difícil apontar um disco de referência do cantor inglês. Parte da sua obra é feita de versões (These Foolish Things, As Time Goes By) e os álbuns de originais nem sempre nos conseguem abarbatar (The Bride Stripped Bare, Mamouna). Ferry sempre foi um homem de singles, de pontuais grandes canções. Em termos de longa-durações, o ponto mais coeso e próximo da perfeição na sua discografia será, porventura, Bête Noire. Sucessor do celebradíssimo Boys and Girls, este registo de 1987 tem tudo aquilo que procuramos em Ferry (clacissismo, sofisticação e drama q.b.), para além de ser o seu disco mais nocturno e cinemático. Tudo sem perder os característicos elementos enérgicos e dançáveis. Kiss and Tell, Limbo e The Right Stuff (esta última a aproveitar-se bem da guitarra de um Johnny Marr ainda fresquinho dos Smiths) entram de imediato para o panteão das canções melhor sucedidas da cartilha ferryana. New Town e Seven Deadly Sins movimentam-se pela noite urbana, que começa com desejos profanos e termina com marcas de batôn no colarinho. O tema-título e Zamba são os melhores momentos do álbum. O primeiro, envolto em inflexões afrancesadas, conjura uma boémia decadente, um filme negro que poderia decorrer em Montmartre. Zamba enfeita-se de negrume atmosférico e vampírico, corrompendo-nos suavemente até nos abandonarmos com ela nas sombras.
Trabalhos mais recentes de Bryan Ferry, como Frantic ou Olympia, resgataram para a actualidade uma carreira que aparentava ser já um atavismo, trazendo com eles a participação esporádica de velhos cúmplices dos Roxy Music, como Eno ou Phil Manzanera. Ferry continua a ser referência e a merecer reverência. Regressar a Bête Noire é apanhá-lo em flagrante na imagem que ele próprio criou. Estilizada, vintage, requintada.

19 de maio de 2012

Gestação

Um dos filmes-concerto mais míticos de sempre, Stop Making Sense retrata os Talking Heads no auge dos seus poderes em 1983. Jonathan Demme foi um mestre na sua realização. A banda é o centro de tudo, a audiência pressente-se mas nunca se vê e o concerto é visto com algo conceptual, um crescendo gradual e imprevisível de momentos, em detrimento de uma simples sucessão de canções. Tudo começa com um esqueleto descarnado e termina em opulência visual e rítmica. A presença enorme e surreal, mas ao mesmo tempo carismática de David Byrne ofusca o barulho das luzes e garante imortalidade absoluta a This Must Be the Place (Naïve Melody), Girlfriend is Better e Once in a Lifetime. Faz todo o sentido.

18 de maio de 2012

Kosmische Kosmetik XXXIX

Krautrock em ponto de fusão. Assim foi a experiência oriental de Alexander Wiska. O primeiro disco saído da mente deste alemão vidrado na música turca foi editado em 1972. Foi baptizado Alex e resultou da joint venture Alex Oriental Experience.
O disco é uma mescla de influências étnicas com a pouca ortodoxia do rock alemão de setentas. Coisa rara mas coisa boa. Basta dizer que os pesos-pesados Holger Czukay e Jaki Liebezeit dos Can estão presentes e dão uma ajuda escandalosamente preciosa. Pejada de instrumentos tradicionais da Turquia, a música de Alex vive de exotismo e transcendência, com os costumeiros rasgos psicadélicos a enfeitar o conjunto. A típica guitarra de três cordas, o baglami, é tratada com estonteante preceito. A secção rítmica dos Can está em topo de forma: Czukay providencia as suas linhas de baixo ondulantes e hipnóticas, para além de subliminares efeitos electrónicos e Liebezeit parece um robot com o diabo no corpo, não se sabendo onde ele acaba e a bateria começa. É sempre um assombro ouvir este génio tocar, particularmente em temas como Patella Black, Derule ou o tremendo Ekmek. 
Há uma pequena delícia chamada Turkish Tunes, que nos passeia desde o Bósforo até ao alto dos minaretes, e uma insólita mas apetitosa salada de música étnica e blues chamada Anatoly Highway. Big Boss Smile e Monroe's Song colocam Alex e o seu virtuosismo no spotlight (vide capa do album) e Silent Farewell destoa tanto do resto do disco como um padre católico em Istambul. Estranhamente, soa aos Can com o vocalista Malcolm Mooney em modo lounge. A morder os calcanhares ao supracitado Ekmek fica outro grande tema, Tales of Purple Sally. A voz de gravilha que arranha todo o álbum soa mais encortiçada que nunca e a música é quente e encantatória.
Disco após disco, a vulgaridade começou a tomar conta de Alexander Wiska. Alex será sempre o seu filho pródigo, quer pela qualidade musical, quer pelos venerandos colaboradores que o assistiram, quer pela inovação no cruzamento entre géneros, à partida, tão distantes. E era isto que convinha relembrar à Alemanha cerrada de hoje em dia: mais que credores, eles também são devedores.

15 de maio de 2012

Kosmische Kosmetik XXXVIII

É, muito possivelmente, o primeiro artefacto gravado do movimento que originou o krautrock e a electrónica progressiva alemã. Mas não é bonito e não é para todos. Live at the Zodiak - Berlin 1968 é um raríssimo registo ao vivo de um grupo que nunca existiu. Um colectivo denominado Human Being, que contava, nas suas fileiras, com Hans-Joachim Roedelius, futuro fundador dos míticos Kluster / Cluster. O restante núcleo duro era formado por não-músicos, renegados vestidos de negro que pareciam vir martirizar a cultura hippie no culminar do seu florescimento. O evento antecedeu a estreia dos Can e dos Tangerine Dream e a sua (re)descoberta é de incalculável valor para os krautodependentes.
A música que se ouve neste registo recuperado 40 anos após a sua confrontação é uma amálgama de sons rarefeitos e sombrios. Não existem traços de melodia, nem sequer um ritmo que embale esta inóspita travessia, sobre pavimento acidentado, debaixo de um carregado céu cinzento. São 56 minutos de arame farpado sonoro e ruído lamacento, de contornos industriais. Um espermatozóide de música concreta a fecundar um óvulo de electrónica abstracta. Algo parecido com as (poucas) futuras obras dos Kluster, mas ainda mais alieníngena, alienante. A banda-sonora póstuma da Alemanha devastada. Um postal da Berlim mergulhada nas trevas do trauma bélico. Mas o que se ouve aqui não é nostálgico em absoluto. Será, quanto muito, um grito de revolta emudecido, uma ponte que se atravessa em noite de nevoeiro cerrado para nunca mais voltar à margem errada da História.
Quem assistiu a este concerto no Zodiak Free Arts Lab, na ressaca de celebrações flower power como Monterey, não o deve ter esquecido tão cedo. Isto era de outro mundo. Algumas mentes devem ter mudado radicalmente naquela noite. Outras devem ter sucumbido a pesadelos. Todas devem ter sentido o que a capa do disco projecta.

12 de maio de 2012

Águas Profundas

Undercurrents Book

Há uns dias, por razões insofismáveis, senti a necessidade de procurar informação acerca do minimalismo na música e do uso do drone. Como ainda sou do tempo em que os livros eram respeitados como fonte de sabedoria, desprezei a internet e mergulhei de cabeça em The Eternal Drone: Good vibrations, ancient to future, um ensaio de Marcus Boon presente em Undercurrents: The Hidden Wiring of Modern Music.
É uma obra já com uns aninhos. Data de 2002 e foi editada por Rob Young no seguimento do vigésimo aniversário da Bíblia da música pensante, a revista Wire. Os dez anos entretanto passados não lhe pesaram, pelo contrário, tornaram-na académica e essencial para o estudo das correntes mais radicais e obscuras da música. Constituído por diversos ensaios de vários colaboradores em regime full-time ou part-time da revista britânica, Undercurrents explora os últimos 100 anos em transformações que alteraram o curso das artes sonoras. Desafiante e ousado, seguindo a escola da Wire, este conjunto de dissertações é um autêntico jardim de segredos desvendados, uma mistura do mito e da realidade que fizeram a construção e a destruição da música mais revolucionária do século XX. A minha procura fez-me passar os olhos novamente por ensaios fascinantes e consistentes, como Recording Angels: The esoteric origins of the phonograph de Erik Davis ou On The Mic: How amplification altered the voice for good de Ian Penman. Saciante é igualmente a peça sobre a nova música alemã dos anos 70, escrita por Biba Kopf (The Autobahn Goes On Forever: On the road with Kraftwerk, Neu!, Wim Wenders) e a influência da exploração espacial na música é superlativamente narrada por Ken Hollings em The Solar Myth Approach: Sun Ra, Stockhausen, P-Funk, Hawkwind: the live space ritual.
Undercurrents é, actualmente, leitura obrigatória em muitas universidades onde se professam estudos musicais. O que é obra para uma obra tão fora dos cânones convencionais. Que foi estendida a estudantes quando começou por ser de amantes.

11 de maio de 2012

Blue Bell

Every night I tell myself / I am the Cosmos / I am the Wind. Assim arranca uma das canções mais desamparadas de sempre. I am the Cosmos foi a única canção que Chris Bell viu lançada em vida. Um single de 1978 que, não satisfeito pela devastadora demonstração do lado A, apresenta no lado B a canção de amor perfeita: You and Your Sister.
Após partidas e regressos do meio musical, Bell começava a ser notado e reconhecido. Meses depois, o carro que conduzia embateu numa árvore a meio da noite, o homem terminou e começou a lenda.
Chris Bell foi um dos fundadores dos Big Star, mas abandonou o grupo deprimido pela fraca atenção consagrada ao seu álbum de estreia (dizem as más-línguas que o verdadeiro motivo da sua partida foi a maior preponderância que o mais extrovertido Alex Chilton conquistou no seio da banda...). Vagueou pelos Estados Unidos e pela Europa, tocou maioritariamente em bares e deixou um módico rasto de canções gravadas, algumas em conjunto com os seus ex-comparsas dos Big Star. Lutou contra a rejeição das editoras e morreu quando começou a sentir o primeiro lampejo de verdadeiro reconhecimento. Life's a bitch é a única coisa que apraz dizer...
Após anos, as poeirentas maquetes de Chris Bell foram resgatadas. 1992 (2009 em versão deluxe) assistiu ao lançamento do álbum I am the Cosmos, muito graças ao projecto da 4AD This Mortal Coil, cujo álbum Blood, de 1991, incluiu versões deste excepcional tema e do igualmente belíssimo You and Your Sister. Mas o disco vai muito para além destes dois clássicos. É um composto de baladas infecciosas e atormentadas e de temas na veia mais power pop dos Big Star. Consta que Bell era homossexual e que vivia em constante culpa e repressão dos seus instintos. Para além disso, era um depressivo crónico, que se refugiava na heroína e tentava libertar-se de tudo isto através de uma fé cristã acentuada. Uma mente em profundo e permanente desassossego. Better Save Yourself e Look Up reflectem essa espiritualidade quase irracional, duas lindíssimas canções ornadas de dor e desejo de redenção. There was a Light e a obra-prima Speed of Sound são punhaladas de amor, rasgando as entranhas com paradoxal melodia. A lacrimejante Though I Know She Lies arrasa de vez com qualquer coração despeitado. Quem nunca se fechou num quarto escuro a chorar por amor? Eis a banda-sonora perfeita...
Noutro contexto, os temas mais eléctricos (Get AwayI Got Kinda LostI don't Know) descendem em linha directa dos Big Star, especialmente da fase Radio City. Chegam para animar as hostes, são melódicos, directos e robustos, mas não atiram bóia de salvação para os temas mais sofridos e dramáticos de I am the Cosmos. São eles que nos arrastam nesta corrente e nos afogam nas águas turvas da arte turbulenta mas delicada de Chris Bell.

Por triste coincidência, escrevo estas linhas no dia em que perdemos um dos maiores músicos portugueses de sempre, que eu muito admirava e com quem cheguei a trocar umas palavras no velhinho Hot Clube: Bernardo Sassetti. Demasiado cedo e absurdamente. Só lhe posso, humildemente, dedicar este texto.

9 de maio de 2012

Estrela Cadente

Os Big Star ergueram-se, altaneiros, em 1972 com um magistral álbum de estreia. #1 Record era uma Bíblia de pop rock perfeito. Pleno de composições em estado de graça, de melodias doces mas poderosas e comandado pela voz imaculada de Alex Chilton, o disco estava talhado para o sucesso. Mas os Big Star caíram da sua torre mal estruturada. Reagiram à fraca atenção dispensada a uma obra que continha, entre outros, tesouros como Thirteen e The Ballad of El Goodo, reerguendo-se com Radio City. Este regresso, datado de 1974, é considerado hoje um clássico de um género pouco resiliente: o power pop. Foi igualmente laureado pela crítica e está igualmente cheio de excelentes canções (September Gurls, O My Soul, You Get What You Deserve...). Poucos tornaram a ouvir e a estrela voltou a cair.
Reduzidos ao duo Alex Chilton / Jody Stephens, os Big Star entraram em implosão. Reuniram-se em estúdio ainda em 1974 para gravar um novo disco, mas as sessões ficaram para sempre assombradas por infernos pessoais, abuso de substâncias e uma espiral de loucura generalizada. Third, paralelamente conhecido como Sister Lovers, acabou por ver a luz do dia somente em 1978, mas a versão editada em 1992 é considerada a definitiva. É sobre esta que falo hoje.
Third / Sister Lovers é um dos discos mais destroçados, penosos e, em última instância, deprimentes de sempre. É música vagabunda, largada na noite escura para nunca mais voltar a casa. E o mais estranho é que ela própria se alimenta deste romantismo trágico e não quer voltar a porto seguro. Há um monte de músicos de sessão a tocar no disco, mas nem uma orquestra nos píncaros da afinação consegue ludibriar a desolação latente e a auto-sabotagem com que o terrorista Alex Chilton mina as suas próprias criações. Se Pigmalião se apaixonou pela estátua que esculpiu, Chilton parece querer destruir tudo aquilo que compôs. Kizza Me, Jesus Christ e Thank You Friends são o que mais se aproxima dos antigos Big Star. Mas a última, especialmente, é exemplificativa do sarcasmo amargo que brota dos temas mais luminosos.
O mergulho no abismo começa no torpor narcótico de Big Black Car, que tanto pode ser a alegoria de um músico de sucesso transportado na sua limousine como a de um morto transportado num carro funerário e que finalmente encontrou a paz. Sucede-se um ror de temas quase pornográficos na forma como expõem uma alma espancada e ferida de morte. O fantasma demencial de Holocaust nunca deixará de nos acossar nos momentos em que precisamos de algo mais triste que nós. O doce pesadelo de Kangaroo é o trauma de amor que correu mal na nossa adolescência e não mais se dissipou (anos mais tarde foi o primeiro single do projecto This Mortal Coil, que lhe subtraiu desespero e adicionou romantismo). Nightime é a balada de uma relação atormentada. E Take Care, o último tema, aloja-se no nosso coração e derrete qualquer gelo que lá esteja incrustado. Uma canção tão bela quanto frágil, que soa à despedida de alguém que não queremos ver fugir. Inconstante e volátil como é expectável, a edição definitiva de Third / Sister Lovers conta com um total de 18 temas. Por entre originais e versões, a luz e as trevas, fica para sempre o génio mortificado de Alex Chilton, homem com os anjos na voz mas o Diabo no corpo, cuja errática carreira a solo foi sempre reflexo da entrada neste labirinto sem saída. Chilton faleceu em 2010. A sua voz é tão eterna como os anjos.

4 de maio de 2012

Supercordas

A guitarra é o pilar do rock. O falo simbólico que solta ondas eléctricas. O megálito da religião roqueira. Como todos os organismos pulsantes e sujeitos à mão do Homem, a guitarra tem mudado ao longo dos tempos e ao longo das mãos que a domaram. Toscos e génios, virtuosos e espontâneos, todos amam a guitarra à sua maneira. Até quem não tem uma pode sempre matar o desejo no nobre exercício da air guitar, dependendo do seu sentido de ridículo...
It Might Get Loud, documentário de 2008 realizado por Davis Guggenheim (homem cujo currículo fílmico inclui o célebre An Inconvenient Truth), debruça-se sobre a guitarra eléctrica e três grandes figuras eternamente enamoradas dela: Jimmy Page, David "The Edge" Evans e Jack White. Qualquer uma destas personagens dispensa apresentações e o documentário alimenta-se do choque entre as idiossincrasias e as semelhanças entre elas. São três gerações das seis cordas que se sucederam reactivamente. Jimmy Page é o ícone dos anos 70, o gigante que arcava com o peso dos Led Zeppelin e cujas matizes de guitarra variavam entre o bucólico e o orgásmico. The Edge emerge com a inspiração do punk e transforma-se, progressivamente, num rato de laboratório, experimentando sonoridades e arquitectando texturas inovadoras. Mesmo sabendo que os U2 já não são o que eram e que as jactâncias messiânicas de Bono enfadam muita gente, é impossível não admirar um guitarrista desta grandeza. Mas é Jack White quem rouba o filme. Todo ele é mística e surrealismo. O mentor dos White Stripes, Raconteurs e Dead Weather caminha com um pé no rock e outro nos blues. É um branco com alma de negro, que parece ter o espírito infestado de bluesmen do Delta do Mississippi.  E trata a guitarra com a sofisticação de quem exorciza os fantasmas que lhe assombram a alma através dela. Em It Might Get Loud, a guitarra não toca baixinho. Essencial para músicos e não-músicos e roqueiros dos 7 aos 77 anos.

It Might Get Loud from Quieren Rock on Vimeo.