20 de janeiro de 2021

Kosmische Kosmetik LV

 

Da fornada de projectos que compõem a nova vaga do Krautrock, os Electric Orange ocupam lugar de destaque. Formados em 1992, lançaram, até à data, mais de uma dezena de álbuns, todos revestidos de considerável consistência.
As influências da banda são óbvias e assentam nos cânones omnipresentes do género. Contudo, além de elementos electrónicos derivativos dos Tangerine Dream ou da complexidade rítmica repetitiva dos Can, denota-se a presença subtil de laivos neo-psicadélicos, presentes em grupos como os Ozric Tentacles ou os Loop.
É difícil apontar um pináculo na perene discografia dos Electric Orange. Não obstante, Volume 10, álbum editado em 2014, merece especial destaque.
Desde logo, evidenciam-se perante o melómano mais atento as referências aos Black Sabbath, embora a banda germânica não siga as pisadas dos mestres metaleiros. O título do álbum pisca o olho a Vol. 4, quarto disco da banda de Birmingham, e os títulos dos temas envolvem estranhos jogos de palavras com clássicos Sabbathianos como Paranoid (aqui adulterado para Paraboiled), Snowblind (transformado em Slow Bind) ou Sweet Leaf (aqui denominado Suite Beef).
Se a música presente em Volume 10 não é, de todo, reminiscente de tendências Heavy-Metal, revela uma aura sombria e doses generosas de grooves penetrantes e obnubilantes. A toada é pulsante e constante ao longo do disco, cujas oito peças parecem unir-se simbioticamente, revelando pontuais trechos de destaque.
A parafernália instrumental é extensa, conjugando violino e bandolim com Moog e Mellotron, entre outras promiscuidades sónicas. 
Paraboiled inicia as hostilidades num lento torpor ritualista, quase tribal, que aumenta de intensidade no tema seguinte - Slowblind. Symptom of the Mony Nurse projecta a guitarra para primeiro plano, a qual investe por entre teclados serpenteantes e desemboca em Suite Beef, devaneio em animação suspensa num vácuo escuro, porém etéreo. A vaga melodia hipnótica cola-se à peça seguinte, A Tuna Sunrise, onde guitarra acústica e Mellotron cintilam na escuridão.
Behind the Wall of Sheep retorna aos ritmos circulares e insistentes do início, induzindo ao transe e ao abandono, elevando-se tempestuosamente, para depois cair num murmúrio arrastado, resgatado por ecos electrónicos. Seven and Smell é um interlúdio evanescente, coberto por uma batida marcial. Segue-se Worn Utopia, tema que encerra o disco de forma solene e sombria, dominado por rasgos de improviso que se extinguem no ritmo esquelético e no órgão inerte que anunciam o fim.
Volume 10 é para ser consumido de uma assentada. Mais que um disco, é uma viagem musical, uma longa e estranha trip, que prova que a era dourada do Krautrock não se extinguiu na década de 70 do século XX e ainda pode ser reavivada.

14 de janeiro de 2021

Peixeirada

Antes de aventurar-se numa carreira a solo, Steve Hillage teve o privilégio de tocar com a crème de la crème do rock progressivo britânico no auge do seu maior fulgor criativo.
Tendo iniciado o seu percurso nos obscuros blues rockers Uriel, o guitarrista fez parte da fundação dos Khan (grupo menos preponderante da cena de Canterbury, mas interessante na forma e no conteúdo), integrou a banda de Kevin Ayers e fixou-se nos Gong. Foi neste colectivo que Hillage verdadeiramente desabrochou, fazendo parte do seu line-up mais afamado e acompanhando a sua fase mais excitante e arrojada.
Fish Rising, a estreia a solo do músico, viu a luz em 1975, já depois da sua partida dos Gong, mas contando com a colaboração de vários elementos do grupo.
Simultaneamente expansivas e sofisticadas, as cinco peças que compõem o álbum efluem com um embalo aquático, ora errando ao sabor de texturas complexas e mudanças de ritmo imprevisíveis, ora mergulhando em ambiências intra-uterinas.
Majestoso e suavemente psicadélico, Solar Musick Suite é o tema que abre o disco e nos franqueia as portas para um mundo de deleites auditivos. Uma mini-sinfonia dividida em quatro partes e que se espraia por mais de um quarto de hora, mantendo-se constantemente apelativa e mesmérica. A guitarra de Steve Hillage sente-se como peixe na água, umas vezes serpenteando através de calmas correntes, outras elevando-se por entre fortes vagas.
Seguem-se Fish e Meditation of the Snake, interlúdios formados por estilhaços de improviso e que servem de ponte caleidoscópica para a extática e serpenteante The Salmon Song. Peça onde a guitarra de Hillage se transmuta em gingares de rock e clamores psicadélicos.
Aftaglid encerra o álbum na mesma senda, conjurando a imensidão cósmica e o abandono lisérgico dos Gong. A guitarra entrelaça-se com teclados que oscilam entre o planante e o reverberante, nadando como golfinhos, até ao súbito mergulho final.
A reedição do disco datada de 2007 acrescentou-lhe dois temas suplementares: o primeiro é um belo exercício de rock espacial, adornado por sopros ziguezagueantes e pela voz de Hillage em modo xamânico, denominado Pentagrammaspin. O segundo é uma versão remasterizada de Aftaglid, que não acrescenta nada de extraordinário ao original, mas que se consome com idêntico gosto.
Fish Rising foi o primeiro e inspirado tomo de uma obra extensa e multifacetada, de um músico que tem ultrapassado fronteiras e unido territórios musicais distintos ao longo dos anos, nomeadamente interessantes aproximações à música electrónica. Neste sentido, importa recordar que Steve Hillage foi uma personagem importante no advento da rave culture de finais dos anos 80, tendo formado com Miquette Giraudy (sua colaboradora desde os tempos dos Gong) o seminal duo System 7. Mas isso são outros quinhentos.

8 de janeiro de 2021

2010-2019: A Soundtrack

 




Ainda não se sabe verdadeiramente quando a nova década arranca. Para uns já começou, para outros apenas terá início em 2021. Tendo como referência o New York Times (porque teria que haver uma), a década terminou em 2019. Assim sendo, não poderia deixar de elaborar a lista dos discos que mais me marcaram nos 10 anos que passaram e os que mais revisito. Provavelmente 100 álbuns serão demasiados, mas o mais difícil foi deixar de fora tanta música de qualidade, bela e arrojada, vincada nas suas raízes ou desbravando novos caminhos. Ouçamos, então, sem imperativos de ordem ou tempo.


1. LCD Soundsystem - American Dream (2017)

2. Kanye West - My Beautiful Dark Twisted Fantasy (2010)

3. David Bowie - Blackstar (2016)

4. Nick Cave and the Bad Seeds - Ghosteen (2019)

5. PJ Harvey - Let England Shake (2011)

6. Idles - Joy as an Act of Resistance (2018)

7. The War on Drugs - Lost in the Dream (2014)

8. My Bloody Valentine - MBV (2013)

9. Julia Holter - Have You in My Wilderness (2015)

10. Scott Walker - Bish Bosch (2012)

11. Bon Iver - Bon Iver (2011)

12. Nick Cave and the Bad Seeds - Skeleton Tree (2016)

13. Vampire Weekend - Modern Vampires of the City (2013)

14. Swans - The Seer (2012)

15. Low - Double Negative (2018)

16. Jamie XX - In Colour (2015)

17. St. Vincent - St. Vincent (2014)

18. Radiohead - A Moon Shaped Pool (2016)

19. Weyes Blood - Titanic Rising (2019)

20. The National - High Violet (2011)

21. Tame Impala - Lonerism (2012)

22. James Blake - James Blake (2011)

23. Aphex Twin - Syro (2014)

24. FKA Twigs - Magdalene (2019)

25. Sufjan Stevens - Carrie & Lowell (2015)

26. Kendrick Lamar - DAMN. (2017)

27. Julia Holter - Loud City Song (2013)

28. Sons of Kemet - Your Queen is a Reptile (2018)

29. Beyoncé - Lemonade (2016)

30. John Grant - Queen of Denmark (2012)

31. Beach House - Bloom (2012)

32. Tom Waits - Bad as Me (2011)

33. Kendrick Lamar - To Pimp a Butterfly (2015)

34. Lana del Rey - Norman Fucking Rockwell (2019)

35. Janelle Monáe - Dirty Computer (2018)

36. Arcade Fire - The Suburbs (2010)

37. The War on Drugs - A Deeper Understanding (2017)

38. Angel Olsen - My Woman (2016)

39. Arctic Monkeys - AM (2013)

40. Arcade Fire - Reflektor (2014)

41. Solange - A Seat at the Table (2016)

42. Mitski - Be the Cowboy (2018)

43. Frank Ocean - Channel Orange (2012)

44. The Comet is Coming - Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery

45. Slowdive - Slowdive (2017)

46. Joanna Newsom - Have One On Me (2010)

47. Savages - Silence Yourself (2013)

48. Kendrick Lamar - good kid, m.A.A.d city (2012)

49. Kanye West - Yeezus (2013)

50. Robyn - Body Talk (2010)

51. The Weeknd - House of Baloons (2011)

52. Fiona Apple - The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do (2012)

53. Grimes - Visions (2012)

54. Daft Punk - Random Access Memories (2013)

55. David Bowie - The Next Day (2013)

56. Father John Misty - I Love You, Honeybear (2015)

57. The National - Sleep Well Beast (2017)

58. LCD Soundsystem - This is Happening (2010)

59. Anohni - Hopelessness (2016)

60. Purple Mountains - Purple Mountains (2019)

61. Mount Eerie - A Crow Looked At Me (2017)

62. Sun Kil Moon - Benji (2014)

63. Tame Impala - Currents (2015)

64. D'Angelo and the Vanguard - Black Messiah (2014)

65. Beach House - Teen Dream (2010)

66. Frank Ocean - Blonde (2016)

67. Grimes - Art Angels (2015)

68. Swans - To Be Kind (2014)

69. Courtney Bartnett - Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit (2015)

70. Kamasi Washington - The Epic (2015)

71. Björk - Vulnicura (2015)

72. Nick Cave and the Bad Seeds - Push the Sky Away (2013)

73. Deerhunter - Halcyon Digest (2010)

74. FKA Twigs - LP 1 (2014)

75. Fountains D.C. - Dogrel (2019)

76. The Antlers - Burst Apart (2011)

77. Bon Iver - 22, A Million (2016)

78. Gil Scott-Heron - I'm New Here (2010)

79. Lorde - Melodrama (2017)

80. Bill Callahan - Shepherd in a Sheepskin Vest (2019)

81. Arca - Arca (2017)

82. Khruangbin - Con Todo El Mondo (2018)

83. Lana del Rey - Born to Die (2012)

84. Leonard Cohen - You Want it Darker (2016)

85. Björk - Utopia (2017)

86. Shame - Songs of Praise (2018)

87. Jlin - Dark Energy (2015)

88. St. Vincent - Strange Mercy (2011)

89. Angel Olsen - All Mirrors (2019)

90. Oneohtrix Point Never - Replica (2011)

91. Real Estate - Atlas (2014)

92. Billie Eilish - When We Fall Asleep, Where Do We Go? (2019)

93. Kate Bush - 50 Words for Snow (2011)

94. Drake - Take Care (2011)

95. The Knife - Shaking the Habitual (2013)

96. Grouper - Ruins (2014)

97. Preoccupations - New Material (2018)

98. 75 Dollar Bill - I Was Real (2019)

99. Laurel Halo - Quarantine (2012)

100. James Ferraro - Far Side Virtual (2011)


2 de janeiro de 2021

2020: A Soundtrack

 



2020 não foi o pior ano da minha vida. Mas foi, seguramente, o mais estranho. Vazio, paranóico e claustrofóbico. Senti falta das pessoas que mais me importam, das noites despreocupadas, dos cinemas e dos concertos. Compensei usando e abusando da praia e do mar. Mas confesso perversamente que o confinamento forçado permitiu-me ler mais que o antes permitido, ouvir mais música e ver filmes que guardava teimosamente para a "altura ideal". Este ano provou que não existem alturas ideais para nada. Somente o tempo presente. O tempo para fazer o que queremos e o que precisamos. O futuro é incerto, mas guarda sempre a esperança. O passado uma lição que não pode ser esquecida. Crendices e superstições voltaram a proclamar o fim. A ciência, mais uma vez, trouxe a razão. Quando a ciência falha, pede desculpa. Quando a religião falha, arranja desculpas. Este não será, certamente, o fim. Mas também não será o princípio de tempos beatíficos. O conflito existe, é constante. Os retrocessos ao obscurantismo igualmente, seja apregoando castigos divinos ou invocando o fantasma do fascismo. Esperemos que os seres humanos esclarecidos saibam exorcizar as trevas e a desunião.

A música foi, obviamente, muito importante no atípico ano de 2020. Mas nem melhor ou pior que antes. Nenhuma obra-prima esmagou a concorrência ou erigiu, per si, um monumento sonoro indelével. Merece destaque o colectivo britânico Sault, cujos dois álbuns editados no ano que passou condensaram magistralmente o melhor da música afro-descendente, em tempos de inusitado retorno de conflitos raciais. Bob Dylan provou uma vez mais o seu estatuto de mestre intemporal, sempre a gravitar em torno de modas e tendências, mas a cravar o veneno das suas palavras misteriosas e poéticas sem rival à altura. Desde o magnífico Time Out of Mind que Dylan não reunia um conjunto de canções tão esmagadoras. Esperemos que não seja o canto do cisne de voz agreste.
Fiona Apple reuniu igualmente consenso, com mais uma obra onde o experimentalismo e a emoção se conjugam de forma intensa e visceral, merecendo todos os louvores que lhe foram dirigidos.
O Jazz esteve igualmente em destaque. Talvez não aquele que mais agrade aos puristas do género, mas sim através de um estilo ramificado, fusional e aventureiro, favorecendo o futurismo em detrimento do hermetismo.

Foram estes os discos que me acompanharam ao longo do ano zero do surto pandémico. Não me livraram do cepticismo esperançoso, mas farão parte da memória destes tempos de incerteza.


1. Sault - Untitled (Black Is)

2. Sault - Untitled (Rise)

3. Bob Dylan - Rough and Rowdy Ways

4. Fiona Apple - Fetch the Bolt Cutters

5. Perfume Genius - Set My Heart on Fire Immediately

6. Fleet Foxes - Shore

7. Moses Sumney - Grae

8. Fontaines D.C. - A Hero's Death

9. Phoebe Bridgers - Punisher

10. Haim - Women in Music Pt. III

11. Jessie Ware - What's Your Pleasure?

12. Porridge Radio - Very Bad

13. The Strokes - The New Abnormal

14. Waxahatchee - Saint Cloud

15. Thundercat - It Is What It Is

16. Yves Tumor - Heaven To A Tortured Mind

17. Beatrice Dillon - Workaround

18. Destroyer - Have We Met

19. Taylor Swift - Folklore

20. Jarv Is... Beyond the Pale

21. Tame Impala -The Slow Rush

22. Moses Boyd - Dark Matter

23. Róisín Murphy - Róisín Machine

24. The Weeknd - After Hours

25. Run the Jewels - RTJ4

26. Nubya Garcia - Source

27. The Flaming Lips - American Head

28. Bill Callahan - Gold Record

29. Idles - Ultra Mono

30. The Soft Pink Truth - Shall We Go On Sinning So That Grace May Increase?

31. Laura Marling - Song For Our Daughter

32. Sparks - A Steady Drip, Drip, Drip

33. Grimes - Anthropocene

34. U.S. Girls - Heavy Light

35. Khruangbin - Mordechai

36. Bill Fay - Countless Branches

37. Arca - KiCk i

38. Oneohtrix Point Never - Magic Oneohtrix Point Never

39. Shabaka and the Ancestors - We Are Sent Here By History

40. Nick Cave - Idiot Prayer: Nick Cave Alone at Alexandra Palace

41. Rose City Band - Summerlong

42. The Microphones - Microphones in 2020

43. Hum - Inlet

44. Jeff Parker - Suite for Max Brown

45. Mourning [A] Blackstar - The Cycle

46. Moor Mother - Circuit City

47. William Basinski - Lamentations

48. Adrianne Lenker - Songs

49. Adrianne Lenker - Instrumentals

50. Kelly Lee Owens - Inner Song


1 de março de 2020

Post-Post-Punk

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Meet Me in the Bathroom - Rebirth and Rock and Roll in New York City 2001-2011, livro da jornalista norte-americana Lizzy Goodman, narra a história de um dos períodos musicalmente mais férteis do século XXI.
Tendo como elemento catalisador o infame 11 de Setembro de 2001, a obra descreve como uma série de projectos e bandas iconoclastas ergueram uma cidade em stress pós-traumático através da música e do seu poder catártico.
Meet Me in the Bathroom ergue-se a partir de mais de 200 entrevistas conduzidas pela jornalista aos nomes que despontavam e, entretanto, se cimentaram como referências do Rock alternativo nova-iorquino.
Perante o negrume histórico envolvente, é impossível não considerar a ascensão de colectivos como LCD Soundsystem, Strokes, Yeah Yeah Yeahs, Interpol ou Vampire Weekend como elementos reactivos e derivativos do Post-Punk surgido três décadas antes.
Tendo a hipster Brooklyn como epicentro de uma revolução que começou por mudar a paisagem musical da Big Apple para depois contaminar o mundo, esta história fascinante é leitura obrigatória para quem sentiu e escutou in loco a pulsação vibrante desta época, bem como para melómanos neófitos, gulosos por uma boa fatia de sonoridades suculentas.

Bush of Fire

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Lembro-me da dança espectral, do olhar esgazeado e da voz acrobática de Wuthering Heights. Lembro-me da dança sensual, da guerreira bárbara semi-nua e do refrão infeccioso de Babooshka.
Lembro-me da dança vanguardista e dos olhos que cantam Running Up That Hill sem necessitarem de palavras.
Lembro-me das canções que vieram a seguir, sempre distantes, sempre familiares, sempre semelhantes a um abraço feminino - seja erótico, maternal ou amigo. Obras brilhantes que me surpreenderam fora de tempo, como Aerial ou 50 Words For Snow.
Este documentário da BBC relembrou-me tudo. Kate Bush foi a primeira mulher que me seduziu e deslumbrou. E não há amor como o primeiro.



           

28 de fevereiro de 2020

Wörd of Möuth

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The Guts and the Glöry é um documentário de 2005 que retrata a história dos míticos Motörhead. A peculiaridade do filme é que o mesmo assenta, única e exclusivamente, em relatos na primeira pessoa, dos músicos mais importantes da banda britânica.
Rodado maioritariamente num pub - ambiente mais que típico e apropriado -, The Guts and the Glöry mostra Lemmy, Phil Taylor, Eddie Clark e Phil Campbell a narrarem a sua saga de modo informal e pleno de episódios anedóticos.
Particularmente interessante é a forma como Lemmy e Phil Taylor vão ficando progressivamente embriagados ao longo do filme. Mais Rock'n'Roll que isto é impossível. Now watch it!



             

22 de fevereiro de 2020

Sepia Tone Songs


KENNY KNIGHT - CROSSROADS  VINYL LP + DOWNLOAD NEUPerante a capa e o conteúdo de Crossroads - primeira e única obra do norte-americano Kenny Knight -, custa acreditar tratar-se de um disco editado em 1980. Em primeiro lugar, pela pose sonhadora e o look hirsuto a puxar ao hippie do artista; em segundo lugar, pela música, mais próxima dos territórios percorridos pelos Grateful Dead ou Byrds (especialmente Gene Clark) nos anos 60, que da New Wave reinante na altura do seu lançamento.
Contudo, este anacronismo absoluto não prejudica em nada o disco, antes pelo contrário. Crossroads é uma belíssima colecção de canções que descendem directamente da linhagem Country & Folk norte-americana. Canções aparentemente simples e despretenciosas, mas que guardam uma melancolia agridoce e revelam uma mestria composicional que as torna intemporais.
Não existe nenhum tema fraco em Crossroads. Does He Hide, One Down e Carry Me Down são road songs em tons de sépia, que nos transportam para uma imensidão americana evocativa, em igual medida, de liberdade e solidão.
All My Memories, To Be Free e You Can Tell Me I'm Wrong são baladas contemplativas, marinadas num doce tempero psicadélico e destilando emoções em estado puro.
Depois há Whiskey, Country Rock sardónico servido com gelo. E America, canção de amor/ódio ao país do Tio Sam e cujo desencanto latente soa mais actual que nunca.
O tema mais pungente do disco será também aquele que mais destoa da sua toada geral. Jean, uma canção de amor sombria e dolente, cuja guitarra etérea cobre o desespero como um véu transparente.
Nunca saberemos se Kenny Knight seria capaz de repetir o estado de graça que assombra, transversalmente, Crossroads. Ao que consta, a parca atenção concedida ao álbum e o seu fracasso comercial, levaram a que o músico se livrasse das últimas cópias lançando-as para o lixo. Felizmente, a editora Paradise of Bachelors - especialista no resgate de raridades e obras obscuras - procedeu à sua reedição em 2015. Existe sempre tempo para descobrir pérolas musicais. E esta pérola não deixou o seu tempo definido.

21 de fevereiro de 2020

A Sul do Paraíso

Resultado de imagem para slayer south of heavenApós terem distorcido as leis da velocidade do som no vertiginoso e abissal Reign in Blood, os Slayer abrandaram o ritmo. Tal não significa que o defunto quarteto de Thrash Metal norte-americano tenha amolecido. Mudaram somente as regras da agressão.
South of Heaven, o quarto álbum da banda, prossegue o fogo cerrado do seu predecessor, acrescentando-lhe nuances experimentais e recuperando o negrume torturado e a atmosfera pantanosa de Hell Awaits.
A audição de South of Heaven, passados 32 anos da sua edição original, assemelha-se ainda a uma travessia sombria por paisagens em ruínas e lamacentas, debaixo de um céu carregado.
As guitarras pungentes e voláteis de Kerry King e Jeff Hanneman impregnam o disco de riffs demoníacos e grooves monolíticos. A voz de Tom Araya espraia-se, entre o narcótico e o demencial, não carecendo de pirotecnias para escaldar os tímpanos. Mas é, sem dúvida, a bateria de Dave Lombardo que carrega o álbum nos ombros. É impossível resistir à precisão, mestria e intensidade com que Lombardo trata as peles. Qual polvo possuído pelo Demo, será, provavelmente, a melhor prestação de sempre em estúdio de um baterista de Thrash Metal.
Os quatro temas iniciais de South of Heaven estão entre os melhores alguma vez compostos pelos Slayer. A canção que dá título ao álbum é um monolito pesado e arrastado, que parece abrir caminho por um lodaçal denso, em esforço crescente. A música destila decadência e amoralidade.
Segue-se Silent Scream, ataque maléfico, impiedoso e, sem dúvida, o momento alto do disco. Juntamente com o esmagador Angel of Death - de Reign in Blood -, será, inclusivé, a peça mais incisiva e impressionante do currículo da banda. Três minutos imparáveis, que parecem demorar três segundos e que equivalem a um espancamento de três horas, ao qual não temos forças para resistir. Dave Lombardo é colossal, Araya é gélido e as guitarras cortam como estiletes.
Live Undead deixa-nos recuperar o fôlego por breves momentos. Elogio/elegia à loucura, ecoa sonambulamente até ao grito lancinante que nos atira para um precipício em que as guitarras se degladiam psicoticamente e a bateria é uma descarga propulsiva de adrenalina.
Behind the Crooked Cross é o tema mais directo do álbum. Cinicamente melódico (até trauteável), mas sem perder pitada de agressividade, parece antecipar o advento do Stoner Rock.
Mandatory Suicide e Read Between the Lies mantêm a toada lenta (pelo menos nos padrões dos Slayer) e focam a guerra e a religião, temáticas que, além da sanidade mental, contaminam de sobremaneira o universo do grupo.
Ghosts of War e Cleanse the Soul são os temas que mais se aproximam dos ataques relâmpago do passado, com Dave Lombardo a elevar a fasquia rítmica até à estratosfera.
Pelo meio, surge uma versão densa e enegrecida de Dissident Aggressor, original dos Judas Priest e que assenta como uma luva na desoladora ambiência geral de South of Heaven. Tudo termina com o pesado e hipnótico Spill the Blood, onde guitarras acústicas se intercruzam com eléctricas, a bateria é marcial e a voz de Tom Araya soa como um demónio sedutor mas desapaixonado.
Ao que consta, o quarteto não ficou muito satisfeito com o resultado final do álbum, muito graças à maior acessibilidade sónica da produção. Não obstante, South of Heaven acaba por ser a obra mais variada dos Slayer, conjugando em igual medida momentos perturbantes, violentos e introspectivos. Tal como o supracitado Stoner Rock, os alicerces do Sludge Metal começaram a ser erigidos aqui, pelo melhor e mais sólido colectivo da história do Thrash. Pese embora reformado, o seu legado soa mais demencial e pertinente que nunca nestes tempos conturbados.

8 de fevereiro de 2020

Kosmische Kosmetik LIV

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Adelbert von Deyen foi muitas vezes acusado de ser um clone do seu conterrâneo e contemporâneo Klaus Schulze. Pese embora a carreira do primeiro tenha arrancado quase uma década após o despontar do segundo, as semelhanças musicais e estéticas são notórias.
Sternzeit e Nordborg, álbuns editados, respectivamente, em 1978 e 1979, são obras que nos remetem de imediato para o imaginário de Schulze, quer pelo estilo composicional, quer, inclusivé, pelo pastiche flagrante das suas clássicas e reconhecíveis capas.
Porém, apesar da homenagem confessa e do resgate da traça original do mago electrónico berlinense, é possível encontrar pontos de ruptura e diferentes azimutes na música de Adelbert von Deyen.
Enquanto Sternzeit mergulhava na escuridão cósmica e Nordborg revelava um hermético isolamento, o terceiro disco - Atmosphere, de 1980 - abre espaço à luz e deixa-se contaminar por aragens menos rarefeitas e mais expansivas, onde o ritmo assume um papel secundário, mas assertivo.
Time Machine franqueia as portas em cadência motorik e abre alas a uma melodia serpenteante, durante 5 minutos que ombreiam com o melhor dos Neu! e dos Kraftwerk.
A belíssima Silverrain expande a paleta e deixa-se contaminar por bacilos progressivos. Contemplativa e sedutora, a teia sonora expande-se languidamente, evocando reminiscências do psicadelismo dos Pink Floyd e do neoclassicismo progressivo dos Eloy.
Por último, o tema-título e pièce de résistance do disco. Atmosphere é uma peça colossal, que ultrapassa os 30 minutos de duração e se subdivide em 8 fragmentos, oscilando entre a expansão cósmica, a solenidade gótica e a hipnose caleidoscópica. Imensa e ambiciosa, sem nunca resvalar para a banalidade e a redundância, esta composição pode muito bem representar o fim de uma era. Os anos 80 despontavam e a música electrónica começava a descer à Terra, preocupando-se mais com a dança dos corpos humanos, em detrimento da dança dos corpos celestes.
Adelbert von Deyen continuou a produzir discos até ao século XXI - faleceu em 2018 -, progressivamente contaminados pelas tendências do presente e sem a audácia sonhadora do passado. Atmosphere ficará registada, muito provavelmente, como a sua obra de referência.

7 de fevereiro de 2020

Memories Are Made of Hits


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Em Chapter and Verse, o quase sempre cordato e discreto Bernard Sumner coloca, pela primeira vez, as suas memórias em hasta pública. O guitarrista dos Joy Division e voz principal dos New Order mergulha no passado para contar a sua história e a história em torno de duas das maiores e mais influentes bandas de sempre. A questão que se coloca é: seria necessária mais uma narrativa acerca deste tema? A resposta é: se forem todas como esta, claro que sim.
Existe sempre um ponto de vista diferente para cada história e o de Bernard Sumner é particularmente cativante, conseguindo absorver-nos constantemente no relato de eventos que já se tornaram lendários.
Da infância nos subúrbios de Manchester à formação dos Joy Division, do trauma fracturante causado pela morte de Ian Curtis às noites megalómanas da discoteca Haçienda, Sumner dirige-se ao leitor de forma simples e directa, não sendo raras descrições intimistas e episódios anedóticos. Um destes últimos, versando o célebre manager de ambas as bandas, Rob Gretton, merece a devida transcrição: 
"We were invariably late getting to the studio everyday, which was always Rob's fault. You'd try to wake him and, even though he'd asked you to make sure he was up in time, he'd do the same thing to you everytime: his two front teeth were false ones which he'd keep in a glass of water overnight by the side of the bed, and when you'd try to wake him up he'd reach for the glass, take the teeth out and fling the water over you. Every fucking day." Sem dúvida, recordar é viver.
Chapter and Verse privilegia, muitas vezes, a descrição dos artistas em detrimento da arte. Apesar de não faltarem pormenores sumarentos acerca da criação de canções eternas como Love Will Tear Us Apart, Atmosphere, Blue Monday ou Temptation, são os retratos dos criadores que tomam a preponderância. As personalidades, qualidades e defeitos de Tony Wilson, Martin Hannett ou Peter Hook. Os seus egos intermináveis e as suas fragilidades.
O livro termina com a transcrição de uma sessão de hipnose feita por Bernard Sumner a Ian Curtis. E o que fica desse momento resume muito do que este livro revela: tragédia e inocência.


29 de janeiro de 2020

Kosmische Kosmetik LIII

Resultado de imagem para michael hoenig departure from the northern wasteland
Previamente à sua incursão a solo, Michael Hoenig militou em dois dos colectivos mais míticos da música germânica: Agitation Free e Tangerine Dream. Aos primeiros, adicionou às guitarras bluesy e espaciais um manto de electrónica lânguido e hipnótico; nos segundos, contribuiu para alicerçar a estrutura cósmica e melódica adotada em meados de 70 e que nunca mais foi abandonada.
Departure From the Northern Wasteland, primeiro álbum de Hoenig, editado em 1978, acaba por conjugar essas duas facetas numa viagem sonora atmosférica, refinada e envolvente.
O disco abre com o tema-título, uma peça extensa - mais de 20 minutos -, preenchida por sequenciadores em cadência e arpejos sintéticos. O resultado é um longo transe contemplativo, mas nunca soporífero, revestido por uma melodia na veia dos melhores clássicos dos Tangerine Dream. Ideal para mover o cérebro sem mover o corpo.
Hanging Garden Transfer prossegue a travessia, mas acelera a velocidade. A teia melódica adensa-se e torna-se mais pungente e urgente. O corpo é chamado a reagir e é impossível não invocar um passeio por uma qualquer autobahn que atravessa as terras desoladas do Norte mencionadas no título do disco.
A toada muda com a lenta ondulação que percorre Voices of Where, interlúdio minimal ao qual é acrescentado uma voz feminina em tom de abstracção e que resulta como um mantra despojado e dolente. Em contraste, Sun and Moon encerra o álbum de forma elevada e radiosa. Uma melodia luminescente e uma baforada de liberdade percorrem a peça. Como o regresso ansiado a um sítio do qual já sentíamos saudades.
Departure From the Northern Wasteland é considerado um dos melhores exemplos da escola berlinense de electrónica, possuidor de um papel preponderante na evolução do género e na sua gentrificação. Embora sintamos o futuro projectar-se nos meandros das suas paisagens electrónicas, acaba igualmente por ser uma obra vincadamente emocional e intemporal, à qual se retorna pelo prazer da nostalgia.