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4 de agosto de 2012

Caesar Augustus

Augustus Pablo (cujo nome de baptismo era Horace Swaby) foi uma das estrelas maiores do firmamento dub. A sua morte prematura aos 44 anos arredou-o um pouco da apreciação massiva, mas a sua aura mantém-se viva. Os anos 70 foram dourados para ele, era em que deixou para a posteridade um legado incontornável da música jamaicana. 
King Tubbys Meets Rockers Uptown, disco de 1976, é unanimemente reconhecido como o grande feito artístico de Augustus Pablo. Sentado à mesa de produção encontrava-se outro peso-pesado: Osbourne Ruddock, mais conhecido como o lendário King Tubby, homem que revolucionou e ajudou a esculpir o conceito da produção em estúdio. Verdadeiro cientista do som, é uma referência venerável para qualquer pretendente a artesão nas áreas da electrónica e da dança. 
O encontro entre estes dois mestres é nada menos que seminal. Pablo transporta classe e sedução com a sua inseparável melodica e um manancial de instrumentos de teclas. King Tubby encarrega-se de juntar as peças do puzzle e submetê-las às suas esotéricas manipulações de estúdio. Na sombra, o amparo monumental da secção rítmica dos Wailers (os irmãos Barrett) e um baixista de excepção, Robbie Shakespeare, que emergeria como um dos maiores nomes do dub ao lado do baterista Sly Dunbar nos hiper-influentes Sly & Robbie. Lançados os dados, o poker resultante foi bem mais que um golpe de sorte. King Tubbys Meets Rockers Uptown é uma obra-prima viciante. Do magistral Keep on Dubbing a Satta Dub, o disco sacia o apetite do apreciador mais voraz do género. Não falta nada. Stop Them Jah envolve-nos em sopros fumegantes e ritmos semicerrados. 555 Dub St. e Young Generation Dub impregam-nos da suave melancolia exangue que se esconde para além das montanhas verdes da Jamaica. Each One Dub e o imaculado King Tubbys Meets Rockers Uptown colocam as vozes distorcidas e nebulosas na linha da frente e o efeito inebriante é irresistível. Assim não vale a pena lutar e é derrotados que nos sentimos vitoriosos. Um disco de Verão eterno, mas invadido por nuvens imprevisíveis, tal como a terra que lhe serviu de berço.

Música Adubada

Antes de ser um género per se, o dub começou por ser um caminho paralelo, um tratamento alternativo a temas reggae convencionais. Os jamaicanos têm o ritmo no seu ADN, são africanos nas Caraíbas. Um ritmo dolente e arrastado, mas fervente e penetrante. O dub veio realçá-lo e revigorá-lo, enfatizando baixos e percurssões e transformando a música numa gigantesca mas dócil propulsão.
Pick a Dub, álbum de 1974 de Keith Hudson, é considerado um dos primeiros trabalhos genuínos do género, assim como uma das suas traves-mestras. Hudson, conhecido pelo nobiliárquico título de príncipe negro do reggae, reviu e desconstruiu peças do seu passado recente, aplicando-lhes massivas doses de baixo e ritmo. Fragmentos de voz despontam, flutuando no espaço. O ambiente geral, para além de narcótico e relaxante, é denso e habitado por uma estranha e aconchegante melancolia.
Os pares de Hudson contribuem para a qualidade do produto. Os irmãos Barrett, Carlton e Aston, a poderosa máquina rítmica dos Wailers de Bob Marley, encarregam-se dos sublimes golpes de bateria e baixo. Augustus Pablo, outro nome de culto na génese do dub, aplica na perfeição os dotes da sua melodica, cujo som viria a tornar-se trademark. O resultado estava condenado a ser superlativo e a prova está na música benfazeja que transborda de temas como Michael Talbot Affair, Black Heart, Black Right,  Depth Charge ou Pick a Dub. Mais ou menos profundos, com maior ou menor perfume de ganja, todos os temas são pequenos tomos ideais da arte de fazer dub. Levei-o para a Jamaica comigo há umas semanas. Acentuou ainda mais a sensação de ser hóspede num nicho do paraíso.